Guerras do Alecrim e Manjerona

António José da Silva · Capítulo 9 de 12

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Guerras do Alecrim e Manjerona

Cena Iv

Praça. Entram D. Gilvaz e Semicúpio.

 

D. GILVAZ

Uma e muitas vezes te considero, Semicúpio, prodigioso artífice de meu amor, pois com as tuas máquinas vás erigindo o retorcido tálamo, que há-de ser trono do mais ditoso himeneu.

SEMICÚPIO

Já disse a vossa mercê que mais obras e menos palavras: Semicúpio, Senhor, já se acha mui cansado. Tomara que me aposentasse com meio soldo, que este ofício de alcofa é mui perigoso; que, suposto tenha asas para fugir, também as asas têm penas para sentir.

D. GILVAZ

Semicúpio, já o pior é passado. Acabemos de deitar esta nau ao mar, que então teremos enchentes.

SEMICÚPIO

E no cabo de tantas enchentes, tudo-nada.

D. GILVAZ

Anda, não desmaies, que hoje havemos de mostrar ao mundo os triunfos do alecrim.

SEMICÚPIO

E a manjerona todavia não menos viçosa com os borrifos de Fagundes.

D. GILVAZ

Mas a galantaria é que todas as suas ideias redundam em nosso proveito.

SEMICÚPIO

Aí é que está a filigrana do jogo: Fagundes a semear, e nós a colher.

(Entra Sevadilha com a mantilha.)

D. GILVAZ

Aquela que lá vem não é Sevadilha?

SEMICÚPIO

Pelo cheiro, assim me parece.

D. GILVAZ

Que novidade é essa, Sevadilha? Tu só, por aqui?

SEVADILHA

Que há-de ser? A maior desgraça do mundo.

D. GILVAZ

Quê? Morreu o velho!

SEVADILHA

Isso então seria fortuna.

D. GILVAZ

Pois que foi?

SEVADILHA

Foi que D. Tibúrcio, com a pena de se ver acometido de três mulheres, como vossa mercê sabe, à vista das noivas e do sogro, tomou tal paixão, que lhe deu esta noite uma cólica, e está quase indo-se por um fio; e assim eu, por uma parte, Fagundes e o galego por ambas, vamos a chamar o médico. Adeus, que me não posso deter.

D. GILVAZ

Espera.

SEVADILHA

Não posso, que D. Tibúrcio está morrendo por instantes.

SEMICÚPIO

Não te canses, que já o achas morto. Ande cá, tenha feição e faça palestra com os amigos.

D. GILVAZ

Que faz D. Clóris?

SEVADILHA

Não me detenhas, adeus.

SEMICÚPIO

Dize-me primeiro que tal te pareci em trajes de mulher?

SEVADILHA

Não estou para isso, deixe-me ir, que estou de pressa.

SEMICÚPIO

Há tal pressa! Como se estivera alguém para morrer?

SEVADILHA

Não vê que vou acudir a esta grande necessidade?

SEMICÚPIO

Vai-te, filha; vai-te, não te sofras.

SEVADILHA

Bem puderas tu poupar-me dessas passadas, e ir chamar um médico às carreiras.

SEMICÚPIO

Vai descansada, que eu chamarei o médico.

D. GILVAZ

Sim, com muito gosto.

SEVADILHA

Ora faça-me esse favor, e adeus. (Vai-se.)

D. GILVAZ

Anda depressa, vai chamar o médico.

SEMICÚPIO

Que médico? Cuide noutra coisa.

D. GILVAZ

Isso é zombaria? Não permita Deus que o homem morra por nossa omissão.

SEMICÚPIO

Vamos, que eu e vossa mercê havemos de ser os médicos na enfermidade de D. Tibúrcio.

D. GILVAZ

Estás louco? Pois nós sabemos medicina?

SEMICÚPIO

Assim como há filosofia natural, porque não haverá natural medicina?

D. GILVAZ

E se o doente morrer, por falta de remédio?

SEMICÚPIO

Mais depressa morrerá por muitos remédios.

D. GILVAZ

E que lhe havemos de aplicar?

SEMICÚPIO

Tudo o que não for veneno; porque o que não mata engorda.

D. GILVAZ

Isso é temeridade.

SEMICÚPIO

Vamos, senhor, e Deus sobre tudo.

(Entra D. Fuas.)

D. FUAS

Espera, traidor D. Gil.

SEMICÚPIO

Ai, que isto é alguma espera!

D. GILVAZ

Que me quereis, D. Fuas?

D. FUAS

Que metais a mão a essa espada.

D. GILVAZ

Para quê?

SEMICÚPIO

É boa pergunta! Para que será? É para fazer alféloa magana.

D. FUAS

Vereis que sabe o meu valor castigar ofensas de um amigo desleal; pois sabendo vós que D. Nise era o ídolo da minha veneração, chegastes a profanar o meu culto com os sacrílegos votos de vossos sacrifícios, a quem suavizaram os odoríferos hálitos da manjerona.

SEMICÚPIO

Aí, cos diabos!

D. FUAS

E assim, metei a mão a essa espada, para que se conserve D. Nise, ou segura no templo de meu peito, ou no de vosso coração.

SEMICÚPIO

Senhor, aqui não é lugar de desafios, vamos para Vale de Cavalinhos a jogar os couces.

D. GILVAZ

D. Fuas, estais louco? Vede que sem causa é a vossa queixa.

D. FUAS

Não quero satisfações, vamos puxando.

SEMICÚPIO

Este homem vem puxado.

D. GILVAZ

Pois, para que vejais que o satisfazer-vos não é temer-vos...

(Entra Fagundes com mantilha.)

FAGUNDES

Cé! Ah, Senhor D. Fuas! Uma palavrinha depressa, que importa.

D. FUAS

Aquela é Fagundes. Que me quererá? Esperai, D. Gil, enquanto falo a esta mulher.

SEMICÚPIO

Senhor, não consinto; ou falar, ou brigar!

D. GILVAZ

Deixai mulheres e brigai, que estou pronto a satisfazer-vos por este modo.

FAGUNDES

Senhor, venha já depressa.

SEMICÚPIO

Já vai, que quer aqui primeiro meter a espada pelo olho a um amigo.

FAGUNDES

Ande, senão vou-me.

D. FUAS

Espera, que eu vou.

D. GILVAZ

Briguemos, D. Fuas.

SEMICÚPIO

Vamos a isso, antes que se acabe a cólera.

D. FUAS

D. Gil, se tendes brio, esperai, que eu venho já. (Vai para Fagundes.)

SEMICÚPIO

Ora vá de seu vagar, que esta pendência não é de cerimónia. Senhor D. Gil, abalemos com os cachimbos, que brigar com loucos é ser mais louco. (Vai-se.)

D. GILVAZ

Tomo o teu conselho. (Vai-se.)

FAGUNDES

Sim, Senhor, a casa está revolta; D Tibúrcio nos artículos da morte e quase moribundo; o velho banzado e tudo banzeiro; e, à vista disto, pode vossa mercê introduzir-se em casa o mais depressa que puder, em alguma forma que inventar a sua indústria, e adeus.

D. FUAS

Ouça cá.

FAGUNDES

Não posso, que vou à botica.

D. FUAS

Pois essa ingrata de D. Nise ainda...

FAGUNDES

Não estou para ouvir nada.

D. FUAS

Espere, tome lá esses vinténs pelo trabalho.

FAGUNDES

Mostre cá depressa.

D. FUAS

Ora diga-me, pois D. Nise...

FAGUNDES

Noutra ocasião falaremos, venha isso depressa.

D. FUAS

Tome lá! Mas diga-me, enquanto tiro a bolsa, essa falsa, essa cruel...

FAGUNDES

Ai, mostre cá, não me detenha.

D. FUAS

Espere, que tenho o boldrié por cima da algibeira.

FAGUNDES

Pois, Senhor, se a sua bolsa está aferrolhada, a minha língua está ferrugenta. (Vai-se.)

D. FUAS

Muito interesseira é esta velha! Mas adonde está D. Gil? D. Gil? Foi-se o cobarde; mas à fé de quem sou, que as não há-de perder comigo; e tu, ingrata Nise, hoje irei a ver-te disfarçado; que, à vista das tuas falsidades, é justo que me revista não só de outro hábito, mas também de outro afecto.

(Canta D. Fuas a seguinte:)

ÁRIA

De um amigo, e de uma ingrata

Ofendido, e ultrajado?

Quem me dera ver vingado!

Oh não sei como ainda cabe

No meu peito tanta dor!

Mas sim cabe, porque as penas

Nos estragos repartidas

Pelas bocas das feridas

Sairá com mais vigor. (Vai-se.)