Guerras do Alecrim e Manjerona

António José da Silva · Capítulo 7 de 12

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Guerras do Alecrim e Manjerona

Cena Ii

Sala. Entram D. Tibúrcio e Sevadilha.

 

D. TIBÚRCIO

Sevadilha, agora que estamos sós, quero-te pedir um conselho.

SEVADILHA

Se vossa mercê acha que lhos posso dar, proponha, que eu resolverei.

D. TIBÚRCIO

Tu bem sabes que eu vim para casar com uma destas duas primas minhas. Ambas são belas, ao que entendo; só me resta saber as manhas de cada uma, para que escolha do mal o menos.

SEVADILHA

Senhor, ambas são mui bastantes moças. A Senhora D. Clóris é mui perfeita, sabe fazer os ovos-moles muito bem; a Senhora D. Nise tem melhor juízo; muito assento, quando não está de levante; grande capacidade; e tanto, que, sendo tão rapariga, já lhe nasceu o dente do siso; porém na condição é uma víbora assanhada.

D. TIBÚRCIO

Não sei, Sevadilha, o que faça neste caso.

SEVADILHA

Não casar com nenhuma.

D. TIBÚRCIO

Pois eu vim cá por besta de pau?

SEVADILHA

Eu digo o que entendo em minha consciência.

D. TIBÚRCIO

Oh, se pudera eu casar contigo, Sevadilha, porque só tu me caíste em graça!

SEVADILHA

Ai, que graça! Diga-me isso outra vez.

D. TIBÚRCIO

Não zombo, que não estou fora de fazer eu mesmo uma parvoíce.

SEVADILHA

Não será a primeira.

D. TIBÚRCIO

Queres tu que fujamos? Olha que estou com minhas tentações de te fazer dona da minha casa.

SEVADILHA

Diga-me dessas, que gosto disso.

D. TIBÚRCIO

Sevadilha, não percas esta fortuna.

SEVADILHA

Quem é a fortuna?

D. TIBÚRCIO

Sou eu, que te quero.

SEVADILHA

Se é fortuna, será inconstante.

D. TIBÚRCIO

Ai, que a moça me fala por equívocos! És discreta.

SEVADILHA

Ora, vá-se com a fortuna.

(Entra Semicúpio com a caixa às costas.)

SEMICÚPIO

Quem toma conta deste arcaz?

D. TIBÚRCIO

Quem a manda?

SEMICÚPIO

Uma mulher já de dias grandes, porque era bastantemente velha.

D. TIBÚRCIO

A mim me melem, se isto não é já alguma preparação para o casamento.

SEMICÚPIO

Vossa mercê parece que adivinha, pois para casamento é, segundo ouvi dizer a um terceiro.

D. TIBÚRCIO

Sabes o que virá aí dentro?

SEMICÚPIO

Cuido que é um vestido.

D. TIBÚRCIO

E que tal?

SEMICÚPIO

Belo na verdade, bordado com uns vivos brancos, e de cores tão vivas, que estão saltando.

D. TIBÚRCIO

É de mulher, ou de homem?

SEMICÚPIO

Tudo o que vem aqui é para mulher.

D. TIBÚRCIO

Cuidei que era para mim.

SEVADILHA

(Aparte)

Aquele é Semicúpio; ele, que carrega a caixa, não é sem causa.

SEMICÚPIO

(Aparte)

Sevadilha lá me está deitando uns olhos, que se vão os meus atrás deles.

D. TIBÚRCIO

Já te pagaram?

SEMICÚPIO

Não, Senhor; mas eu esperarei pela velha.

D. TIBÚRCIO

Pois, Sevadilha, em que ficamos? Ajustamos o negócio?

SEVADILHA

(Aparte)

É boa esta, ouvindo-me Semicúpio!

D. TIBÚRCIO

Olha, Sevadilha, eu te quero tanto, que fecharei os olhos a tudo, só por casar contigo.

SEMICÚPIO

(Aparte)

Tome-se lá, o que estavam ajustando os dous! Eu lho estorvarei.

D. TIBÚRCIO

Que dizes, rapariga?

SEMICÚPIO

Ah, Senhor, pague-me o carreto da caixa.

D. TIBÚRCIO

Espera, que logo vem a velha.

SEMICÚPIO

(Aparte)

Sim, pois a moça logo vai.

D. TIBÚRCIO

Tu ainda és menina, não sabes o que te convém.

SEVADILHA

Eu não necessito de tutores.

D. TIBÚRCIO

Olha que eu sou morgado na minha terra, e terás tantos e quantos.

SEMICÚPIO

Senhor, pague-me o carreto da caixa, que não posso esperar.

D. TIBÚRCIO

Logo, espera! Ora, Sevadilha, isso há-de ser, dá-me um abraço.

SEMICÚPIO

Venha o carreto da caixa; é boa essa!

SEVADILHA

É boa teima!

D. TIBÚRCIO

Pois dá-me ao menos esse malmequer por prenda tua.

SEMICÚPIO

Ora venha já esse carreto, senão tudo vai cos diabos.

D. TIBÚRCIO

Espera, homem; ouve, mulher.

SEVADILHA

Vá-se daí, malcriado, aleivoso, maligno; é o que me faltava!

(Canta Sevadilha a seguinte:)

ÁRIA

Que um tonto jarreta,

Que um néscio pateta,

Me fale em amor,

Ou é para rir,

Ou para chorar.

Não cuide em amores,

Que nesses ardores,

Se pode frigir,

Se pode abrasar. (Vai-se.)

SEMICÚPIO

Regalou-me esta ária. Vou dizer a Sevadilha: «Diga a D. Clóris que ali está meu amo»; e finjo que me vou. Senhor, adeus. Eu virei noutra ocasião. (Vai-se.)

(Entra D. Lancerote com um castiçal e vela acesa e a porá em cima da

caixa, donde ao depois se assentarão.)

D. LANCEROTE

Sobrinho, vós bem sabeis que um hóspede, passados os três dias, logo fede como cavalo morto; isto não é dizer que fedeis, mas vos afirmo que não me cheira bem essa vossa irresolução, vendo que, indeciso, ainda não elegestes qual de vossas primas há-de ser vossa consorte.

D. TIBÚRCIO

Senhor, as perfeições de cada uma são tão peregrinas, que vacila a vontade na eleição dos sujeitos; pois quando me vejo entre Clóris e Nise, me parece que estou entre Cila e Caríbdis.

D. LANCEROTE

Pois, sobrinho, resolver, resolver logo, e já.

D. TIBÚRCIO

Pois, Senhor, se a um enforcado se dão três dias, eu, que no casar noto a mesma propriedade, pois bem se enforca quem mal se casa, peço três dias também para me resolver.

D. LANCEROTE

Três dias peremptórios concedo; e, para que não haja dúvidas no dote, assentai-vos, e sabereis o que haveis de levar. (Assentam-se.)

D. TIBÚRCIO

Isso é santo e bom, para que não seja a noiva de contado, e o dote de prometido.

D. LANCEROTE

Eu, meu sobrinho, suposto tenha corrido muito mundo, contudo me acho alcançado.

D. TIBÚRCIO

Isso é bonito!

D. LANCEROTE

Primeiramente, cada uma de minhas sobrinhas tem muito boa limpeza.

D. TIBÚRCIO

Sim, Senhor, são muito asseadas, nisso não há dúvida.

D. LANCEROTE

Além disso... Estai atento, meu sobrinho, não deis salabancos com a caixa, que isso é manha de bestas. (Bole a caixa.)

D. TIBÚRCIO

Eu estou com os cinco sentidos bem quietos.

D. LANCEROTE

Como digo, sabereis que todo o meu cabedal anda sobre as ondas do mar. Não estareis quieto? (Bole a caixa.)

D. TIBÚRCIO

Não sou eu, por vida minha.

D. LANCEROTE

Não vedes a caixa a saltar?

D. TIBÚRCIO

É verdade; será de contente.

(Cai a caixa com os dous.)

D. LANCEROTE

Isto agora é mais comprido.

D. TIBÚRCIO

E isto é mais estirado.

D. LANCEROTE

Ai, quem me acode com uma luz?

(Entram D. Clóris, D. Nise, Fagundes e Sevadilha com luz.)

TODOS

Que sucedeu?

D. TIBÚRCIO

O maior caso que viram as idades.

D. LANCEROTE

Eu, que na maior idade vi o maior caso.

D. NISE

Pois que foi?

D. CLÓRIS

Que sucedeu, Senhores?

SEVADILHA

Que é isto?

FAGUNDES

Que foi? Que sucedeu? Que é isto?

D. TIBÚRCIO

Esta caixa...

D. LANCEROTE

Esta arca...

D. TIBÚRCIO

Que em torcicolos...

D. LANCEROTE

Que em bamboleios...

D. TIBÚRCIO

Com pulos...

D. LANCEROTE

Com saltos...

D. TIBÚRCIO

Deitou-me no chão.

D. LANCEROTE

No chão me estendeu.

D. NISE

É raro caso!

D. CLÓRIS

É caso raro!

SEVADILHA

É, não há dúvida! Ai, que ela torna a bulir! Fujamos, Senhores.

FAGUNDES

(Aparte)

Valha-te o Diabo, D. Fuas, que tão inquieto és!

D. LANCEROTE

Esta caixa tem algum encanto, abramo-la.

D. TIBÚRCIO

Diz bem; abra-se a caixa.

D. NISE

(Aparte)

Ai de mim, que será de D. Fuas!

D. CLÓRIS

(Aparte)

Que será de D. Gil!

D. TIBÚRCIO

Vá o tampo dentro.

SEVADILHA

Tenham mão, que pode vir dentro algum diamante que nos mate aqui a todos.

FAGUNDES

Ai, santo breve da marca!

D. NISE

Senhor, se se abre a caixa, desmaiamos todos aqui.

D. LANCEROTE

Vamo-nos, que a prudência é melhor que o valor. (Vai-se.)

D. TIBÚRCIO

Pois, só, não quero ser valente. (Vai-se e leva a luz.)

SEVADILHA

Ai! Não sei que pés me hão-de levar! Ande, Senhora.

D. CLÓRIS

Fazes bem em disfarçar até ao depois. (Vai-se.)

FAGUNDES

A caixa parece que tocou a recolher.

D. NISE

E não foi o pior o ficarmos às escuras, que assim terão todos medo de vir aqui. Ora abre a caixa e dize a D. Fuas que saia.

FAGUNDES

Ai, a caixa está aberta! Seria com os solavancos. Saia, meu Senhor, e perdoe o descómodo.

(Abre a caixa e sai D. Gilvaz.)

D. GILVAZ

Ó tu, nocturna deidade, que no caliginoso bosque destas sombras brilhas, carbúnculo da formosura, aqui tens segunda vez no teatro de tua beleza representante a minha constância na tragicomédia de meu amor.

FAGUNDES

Senhora, quem às escuras é tão discreto, que fará às claras?

D. NISE

Já vou acreditando, meu bem, as tuas finezas, porém...

(Sai D. Fuas da caixa.)

D. FUAS

Porém o teu engano, falsa, inimiga, segunda vez se repete para meu desengano e tua afronta.

D. NISE

Que é isto, Fagundes? Que tramóias são estas?

FAGUNDES

Eu estou besta, pois só a D. Fuas meti na caixa!

D. NISE

Pois como aqui há outro, fora D. Fuas?

FAGUNDES

Eu não sei, em minha consciência, que não é má.

D. FUAS

Senhora D. Nise, para que são esses fingimentos? Peleje agora com Fagundes, para se mostrar inocente.

D. GILVAZ

Esta é D. Nise; eu me recolho ao vestuário, até que venha D. Clóris.

(Mete-se D. Gilvaz na caixa.)

D. NISE

Já disse, Senhor D. Fuas, que a minha constância vive isenta dessas calúnias.

D. FUAS

Aque-d’el-rei, Senhora, quereis que dê com a cabeça por essas paredes? É possível que ainda intentais negar o que tão repetidas vezes tenho experimentado?

D. NISE

Senhor, é pouca fortuna de minha firmeza encontrar sempre com acidentes de falsidade.

FAGUNDES

Senhor D. Fuas, não cuide vossa mercê que somos cá nenhumas mulheres de cacaracá. Mas ali vem gente.

D. NISE

Recolha-se outra vez, que eu entanto aqui me retiro; anda, Fagundes. (Vai-se.)

FAGUNDES

Senhor, nós já tornamos. (Vai-se.)

D. FUAS

Mais à minha conservação, que ao teu respeito, obedeço.

(Esconde-se D. Fuas na caixa e entra D. Clóris.)

D. CLÓRIS

Que se expusesse D. Gil ao perigo de vir em uma caixa a meu respeito! Ora o certo é que não há mais extremoso amante; porém, os fumos de alecrim têm a mesma virtude que o incenso nos pombos, que os faz tornar ao pombal. Mas adonde estará aqui a caixa? Esta suponho que é; já, meu bem, podes sair sem susto.

(Sai D. Fuas da caixa.)

D. FUAS

Sim, tirana, pois já me não assustam as tuas falsidades.

D. CLÓRIS

Que falsidades? Que dizes? Enlouqueceste, ou ignoras com quem falas?

D. FUAS

Contigo falo, que com outro amante duas vezes infiel te encontrou a minha felicidade.

D. CLÓRIS

Cuido que não são tantos os encontros que temos tido.

D. GILVAZ

(Aparte)

Aquela é a voz de D. Clóris: estou ardendo com zelos!

D. FUAS

Já estou desenganado da tua falsidade; já sei que estoutro amante, que vive encerrado nessa caixa, é o que só merece os teus agrados.

D. GILVAZ

E como que o merece, pois só ele é digno desse favor; e a quem o impedir lhe meterei esta espada até às guarnições. (Vai-se.)

D. FUAS

Vês, ingrata, se é certa a minha suspeita?

D. CLÓRIS

Eu estou confusa e não sei a quem satisfaça!

D. GILVAZ

Ainda continua, insolente? Não sabe que esta dama é cousa minha?

D. FUAS

Já agora, por capricho, apesar das suas aleivosias, hei-de dar a vida por mi dama.

D. CLÓRIS

Senhores, que desgraça!

D. GILVAZ

Se não estivera às escuras, tu serias o alvo de minhas iras.

D. FUAS

Pois, se não fora a escuridade, eu te fizera ver o meu brio; mas ainda assim, eu vou dando, dê donde der.

D. CLÓRIS

Senhores, dêem de manso, não os ouça meu tio.

(Cantam D. Fuas, D. Gilvaz e D. Clóris a seguinte:)

ÁRIA

D. GILVAZ

Se não fora por não sei quê,

Te matara mesmo aqui.

D. FUAS

Se não fora o velho ali,

Te fizera um não sei quê.

D. CLÓRIS

De mansinho, pouca bulha,

Calte gralha, calte grulha,

Porque o velho há-de acordar.

D. GILVAZ

Pois aqui mui mansamente

Matarei este insolente.

D. FUAS

Também eu pela calada

Meterei a minha espada.

D. CLÓRIS

Devagar, não dêem de rijo,

Porque o velho há-de acordar.

TODOS

Quem pudera em tanta luta

Sua dor desabafar!

D. FUAS e D. GILVAZ

Se não grito neste caso,

Sou capaz de rebentar.

D. CLÓRIS

Mais que estalem, e arrebentem,

Não se há-de aqui falar.

TODOS

Não se pode isto aturar! (Vão-se.)

(Entra Semicúpio pela mão de Sevadilha.)

SEMICÚPIO

Donde me levas, Sevadilha?

SEVADILHA

Ande, não me faça perguntas.

SEMICÚPIO

Não há uma candeia nesta casa, que se me meta na mão, que estou morrendo por te ver?

SEVADILHA

Melhor fineza é amar por fé.

SEMICÚPIO

Como, se eu não dou fé de ti?

SEVADILHA

Ande, que o amor se pinta cego.

SEMICÚPIO

Muito vai do vivo ao pintado.

SEVADILHA

Assim estamos mais à nossa vontade.

SEMICÚPIO

Andar, suponho que tenho o meu amor na Noruega. Mas, ainda assim, isto de estar às escuras não é grande cousa para um homem dizer à sua dama quatro hipérboles, pois se não vejo, como poderei dizer-te que és estátua de alabastro sobre plintos de jaspe, neve vivente e racional sorvete, mas só carapinhada, pois negra te considero nesta Etiópia? Oh, negregada ocasião, em que por falta de uma candeia não sai à luz a tua formosura!

SEVADILHA

Pois o fogo de teu amor não basta para alumiar esta casa?

SEMICÚPIO

Se a luz excessiva faz cegar, também a minha chama, por excessiva, não alumia; mas com tudo isto, não nos metamos no escuro; falemos claro: como estamos nós daquilo que chamamos amor?

SEVADILHA

E como estamos nós do malmequer, que esse é o ponto?

SEMICÚPIO

Cada vez está mais viçoso com a copiosa inundação de meu pranto.

SEVADILHA

E teu amo com o alecrim?

SEMICÚPIO

Isso são contos largos, o homem anda doido; tudo quanto vê lhe parece que é alecrim; estoutro dia, estava teimoso em que havia de cear salada de alecrim, mais que o levasse o Diabo. Olha, para contar-te as loucuras que faz, assentemo-nos, que isto se não pode levar de pé.

(Assenta-se Semicúpio na caixa, que estará com o tampo levantado, e cai

dentro da caixa, que se fechará com a dita queda.)

SEMICÚPIO

Mas ai, Sevadilha, que caí num poço sem fundo!

SEVADILHA

Aonde estás, Semicúpio?

SEMICÚPIO

Não sei aonde estou; só sei que estou aqui.

SEVADILHA

Aonde é aqui?

SEMICÚPIO

É aqui.

SEVADILHA

Aqui aonde?

SEMICÚPIO

É boa pergunta! Eu sei cá donde são os aquis na casa alheia? Sei que estou aqui num fole, como criança que nasce implicada, mas sem ventura.

SEVADILHA

Pois sai daí e anda para aqui.

SEMICÚPIO

Isso é se eu soubera ir daqui para aí.

SEVADILHA

Quem te impede?

SEMICÚPIO

Estou entupido.

SEVADILHA

Dá dous espirros.

SEMICÚPIO

Falta-me a Sevadilha, que a não acho, por mais que ando ao cheiro dela. Ora, filha, tira-me daqui, tu não ouves?

SEVADILHA

Eu bem ouço; porém não vejo aonde estás.

SEMICÚPIO

Busca-me fora de mim, porque não estou dentro em mim metido nesta sepultura, donde só campa por infeliz a minha desventura.

SEVADILHA

Calte, Semicúpio, que aí vem gente com luzes; adeus, até logo. (Vai-se.)

SEMICÚPIO

Estou no mais apertado lance que ninguém se viu!

(Entram D. Lancerote, com uma luz, e D. Tibúrcio.)

D. LANCEROTE

Apuremos este encanto. Sobrinho, nós havemos ver o que se encerra nesta caixa, ainda que o cabelo se arrepie.

D. TIBÚRCIO

Se for cousa desta vida, ficará sem ela, e se for da outra, a mandarei para o outro mundo.

D. LANCEROTE

Pois, sobrinho, abri esta caixa com intrépido valor.

D. TIBÚRCIO

Abra vossa mercê, que é mais velho, e em tudo tem o primeiro lugar.

D. LANCEROTE

Deixai cumprimentos, que a ocasião não é para cerimónias.

D. TIBÚRCIO

Por nenhum modo; não tem que se cansar, que lhe não quero tirar a glória desta empresa.

D. LANCEROTE

(Aparte)

O magano contralogrou-me; pois eu confesso que estou tremendo de medo.

D. TIBÚRCIO

(Aparte)

Queria arrumar-me o gigante? É bem esperto.

D. LANCEROTE

Ora pois, hei-de ir eu, ou haveis de ir vós?

D. TIBÚRCIO

Vá, não haja cumprimentos, que eu sou de casa.

D. LANCEROTE

Não há mais remédio que ir eu em corpo e alma, a ver esta alma sem corpo, ou este corpo sem alma. Deus vá comigo, anjo da minha guarda, e todo o Flos Sanctorum me defenda.

D. TIBÚRCIO

Ande, tio, não tenha medo, que eu estou aqui.

D. LANCEROTE

(Aparte)

Pois, se não fora isso, já eu deitava a correr.

SEMICÚPIO

Ai! Que sem dúvida estou na caixa em que trouxe a D. Gil, e segundo o que aqui ouço dizer, me intentam reconhecer. Eu lhes tocarei a caixa.

(Chega-se D. Lancerote à caixa e, tanto que a abre, deita Semicúpio a

cabeça de fora e dá um assopro na vela.)

D. LANCEROTE

Ó tu, quem quer que és, que estás nesta caixa... Mas ai, que me apagaram a vela com um assopro!

D. TIBÚRCIO

Assopra!

SEMICÚPIO

Mui fraca era aquela luz, pois de um assopro a derribei.

D. LANCEROTE

Sobrinho, vós estais aí?

D. TIBÚRCIO

Como se não estivera.

D. LANCEROTE

Quem seria o cruel, que tão aleivosamente matou uma inocente luz, a assopros frios?

SEMICÚPIO

Deus lhe perdoe, que era uma luz a todas as luzes boa, mas eu quero safar-me daqui, e temo marrar de narizes com alguém; mas que remédio?

D. LANCEROTE

Agora vos chegais para mim, cobarde sobrinho? Ide, que por vossa culpa não acabei de desencantar este encanto.

D. TIBÚRCIO

Veja vossa mercê como chama cobarde?

D. LANCEROTE

Calai-vos, abóbora, que degenerais de quem sois.

D. TIBÚRCIO

A mim, abóbora?

SEMICÚPIO

Agora é boa ocasião de ir-me; porque, ainda que encontre com algum, cuidarão que são murros. Lá vai o primeiro! (Dá.)

D. LANCEROTE

Ó mal ensinado, pondes mãos violentas em vosso tio?

SEMICÚPIO

Eu abrirei caminho desta sorte, dando a trouxe-mouxe. (Dá.)

D. TIBÚRCIO

É boa essa, Senhor tio, assim se dá num barbado?

D. LANCEROTE

Calai-vos, maganão, que não haveis de casar; mas ai, que me destes uma bofetada com a mão aberta! Aque-d’el-rei sobre este magano de meu sobrinho! (Vai-se.)

D. TIBÚRCIO

Aque-d’el-rei sobre este caduco de meu tio! (Vai-se.)

SEMICÚPIO

Aque-d’el-rei, que já me deixaram! (Vai-se.)