Guerras do Alecrim e Manjerona

António José da Silva · Capítulo 10 de 12

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Guerras do Alecrim e Manjerona

Cena V

Câmara. Haverá uma cama, e nela estará D. Tibúrcio deitado, assistido de

D. Lancerote, D. Clóris, D. Nise e Sevadilha.

 

D. LANCEROTE

O que tarda este médico!

SEVADILHA

Não pode tardar muito, pois me disse que já vinha.

D. LANCEROTE

Como estais agora, meu sobrinho?

D. TIBÚRCIO

Depois que arrotei, acho-me mais aliviado.

D. NISE

(Aparte)

Vaso mau não quebra.

D. CLÓRIS

(Aparte)

Se fora cousa boa, não havia de escapar.

D. LANCEROTE

Não sabeis quanto folgo com a vossa melhora, pois me estava dando cuidado o enterro, e me podeis agradecer a boa vontade, pois vos seguro que havia ser luzido; vós o veríeis.

D. TIBÚRCIO

Outro tanto desejo eu fazer a vossa mercê.

(Entram D. Gilvaz e Semicúpio, vestidos de médico.)

SEMICÚPIO

Deo gratias.

D. LANCEROTE

Entrem, meus Senhores Doutores.

D. GILVAZ

(Aparte)

Em boa me meteu Semicúpio! Eu não sei o que hei-de dizer.

SEMICÚPIO

Qual de vossas mercês é aqui o doente?

D. LANCEROTE

É este que aqui está de cama.

SEMICÚPIO

Logo me pareceu pelos sintomas.

SEVADILHA

(Para D. Clóris)

Senhora, que são Semicúpio e D. Gil!

D. CLÓRIS

Bem os vejo. Nise, que te parece?

D. NISE

Que faz melhor efeito o teu alecrim, que a minha manjerona.

(Entram D. Fuas e Fagundes.)

FAGUNDES

Entre, Senhor Doutor; aqui vem este Senhor, que também se entende muito bem.

D. FUAS

Neste instante chego de fora da terra, quando logo me chamou esta mulher, que viesse a ver um enfermo.

D. LANCEROTE

Já era escusado; porém, entre e sente-se.

D. CLÓRIS

Nise, D. Fuas compete nas finezas com D. Gil.

D. NISE

Não me pesa.

D. FUAS

(Aparte)

Aqueles são D. Gil e Semicúpio; estou ardendo!

SEMICÚPIO

(Para D. Gil)

Ah, Senhor, não vês a D. Fuas também como gente?

D. GILVAZ

Já sei.

D. TIBÚRCIO

Ai, minha barriga, que morro! Acuda-me, Senhor Doutor.

SEMICÚPIO

Agora vou a isso. Ora diga-me: que lhe dói?

D. TIBÚRCIO

Tenho na barriga umas dores mui finas.

SEMICÚPIO

Logo as engrossaremos; e tem o ventre túmido, inchado e pululante?

D. TIBÚRCIO

Alguma cousa.

SEMICÚPIO

Vossa mercê é casada, ou solteira?

D. TIBÚRCIO

Porquê, Senhor Doutor?

SEMICÚPIO

Porque os sinais são de prenhe.

D. LANCEROTE

Não, Senhor, que meu sobrinho é macho.

SEMICÚPIO

Dianteiro, ou traseiro?

D. LANCEROTE

Ui, Senhor Doutor! Digo que meu sobrinho é varão.

SEMICÚPIO

De aço, ou de ferro?

D. LANCEROTE

É homem, não me entende?

SEMICÚPIO

Ora, acabe com isso. Eis aqui como por falta de informação morrem os doentes; pois, se eu não especulara isso com miudeza, entendendo que era macho, lhe aplicava uns cravos; e, se fosse varão, umas limas; e, como já sei que é homem, logo veremos o que se lhe há-de fazer.

D. LANCEROTE

Eis aqui como gosto de ver os médicos: assim especulativos.

SEMICÚPIO

Pois o mais é asneira. Diga-me mais: ceou demasiadamente a noite passada?

D. TIBÚRCIO

Tanto como a futura; porque, desde que se me acabaram as chouriças que trouxe no alforge, me tem meu tio posto a pão e laranja.

D. LANCEROTE

Aquilo são delírios, Senhor Doutor.

SEMICÚPIO

Assim deve ser por força, ainda que não queira, pois conforme ao aforismo: Cum barriga dolet, cætera membra dolent.

D. TIBÚRCIO

Não são delírios, Senhor Doutor, que eu estou em meu juízo perfeito.

SEMICÚPIO

Pior, pois quem diz que tem juízo não o tem.

D. LANCEROTE

Senhor Doutor, o homem está alucinado depois que um fantasma que saiu de uma caixa o desancou; e sobre isso, a grande pena que tem tomado de umas moças que aqui introduziu em casa, enganando-as, de cuja insolência se me veio aqui a mãe queixar, que era mulher de bem, ao que parecia.

SEMICÚPIO

Ela é muito criada de vossa mercê.

D. TIBÚRCIO

Deixemos isso; o caso é que a minha barriga não está boa.

SEMICÚPIO

Cale-se, que ainda há-de ter uma boa barrigada. Deite a língua de fora.

D. TIBÚRCIO

Ei-la aqui.

SEMICÚPIO

Deite mais, mais.

D. TIBÚRCIO

Não há mais.

SEMICÚPIO

Essa bastará. É forte linguado! Tem mui boa ponta de língua! Vejam vossas mercês, Senhores Doutores.

D. GILVAZ

A língua é de prata.

D. FUAS

Húmida está bastantemente.

SEMICÚPIO

Venha o pulso. Está intermitente, lânguido e convulsivo. Ó menina, tomou as águas?

SEVADILHA

Ainda não veio o aguadeiro.

SEMICÚPIO

Pergunto se o doente fez a mija?

D. TIBÚRCIO

Nesta casa não há ourinol.

SEMICÚPIO

Pois tome-as, ainda que seja numa frigideira, em todo o caso, quia per orinis optime cognoscitur morbus.

D. LANCEROTE

Ah, Senhores, grande médico!

D. NISE

(Para D. Clóris)

E D. Fuas como está melancólico!

D. CLÓRIS

Estará cuidando na receita.

SEMICÚPIO

Ora, Senhores, capitulemos a queixa. Este fidalgo (se é que o é, que isto não pertence à medicina) teve uma colórica procedida de paixões internas, porque o espírito, agitado da representação fantasmal e da investida feminil, retraindo-se o sangue aos vasos linfáticos, deixando exauridas as matrizes sanguinárias, fez uma revolução no intestino recto; e, como a matéria crassa e viscosa que havia nutrir o suco pancreático, pela sua turgência se achasse destituída do vigor, por falta do apetite famélico, degenerou em líquidos. Estes, pela sua virtude acre e mordaz, velicando e pungindo as túnicas e membranas do ventrículo, exaltaram-se os sais fixos e voláteis por virtude do ácido alcalino, de sorte que fez com que o Senhor andasse com as calças na mão toda esta noite: in calsis andatur, qui ventre evacuatur, disse Galeno.

D. LANCEROTE

Eu não lhe entendi palavra.

D. TIBÚRCIO

Eu morro, sem saber de quê.

SEMICÚPIO

Conhecida a queixa, votem o remédio, que eu, como mais antigo, votarei em último lugar.

D. GILVAZ

Eu sou de parecer que o sangrem.

D. FUAS

Eu, que o purguem.

SEMICÚPIO

Senhores meus, a grande queixa, grande remédio; o mais eficaz é que tome umas bichas nas meninas-dos-olhos, para que o humor faça retrocesso de baixo para cima.

D. TIBÚRCIO

Como é isso de bichas nas meninas-dos-olhos?

SEMICÚPIO

É um remédio tópico; não se assuste, que não é nada.

D. TIBÚRCIO

Vossa mercê me quer cegar?

SEMICÚPIO

Cale-se aí; quantas meninas tomam bichas, e mais não cegam.

D. LANCEROTE

Calai-vos, sobrinho, que ele médico é e bem o entende.

D. TIBÚRCIO

Por vida de D. Tibúrcio, que primeiro há-de levar o Diabo ao médico e à receita, que eu em tal consinta. (Ergue-se.)

SEMICÚPIO

Deite-se, deite-se! O homem está maníaco e furioso!

D. LANCEROTE

Aquietai-vos; sois alguma criança?

D. NISE

Ora, Senhores Doutores, já que vossas mercês aqui se acham, bem é que os informemos, eu e minha irmã, de várias queixas que padecemos.

SEMICÚPIO

Inda mais essa? Ora digam.

D. CLÓRIS

Senhor, o nosso achaque é tão semelhante, que com uma só receita se podem curar ambos os males.

D. NISE

Não há dúvida que o meu achaque é o mesmo em carne que o de minha irmã.

SEMICÚPIO

Achaque em carne pertence à cirurgia.

D. CLÓRIS

Que, como dormimos ambas, se nos comunicou o mesmo achaque; e assim, Senhor, padecemos umas ânsias no coração, umas melancolias n’alma, uma inquietação nos sentidos, uma travessura nas potências; e finalmente, Senhor Doutor, é tal este mal, que se sente sem se sentir; que dói sem doer; que abrasa sem queimar; que alegra entristecendo, e entristece alegrando.

SEMICÚPIO

Basta, já sei, isso é mal cupidista.

D. LANCEROTE

O que é o mal cupidista, que nunca tal ouvi?

SEMICÚPIO

É um mal da moda.

D. NISE

Que remédio nos dão vossas mercês?

D. FUAS

Eu dissera que o óleo de manjerona era excelente remédio.

D. GILVAZ

O verdadeiro para essa queixa são as fumaças do alecrim.

D. FUAS

Ui, Senhor Doutor, a manjerona é um excelente remédio.

D. GILVAZ

Nada chega ao alecrim, cujas excelentes virtudes são tantas, que para numerá-las não acha número ou algarismo; e não faltou quem discretamente lhe chamasse planta bendita.

D. FUAS

Se entrarmos a especular virtudes, as da manjerona são mais que as da erva santa.

SEMICÚPIO

Daqui a pô-la no altar não vai nada.

D. FUAS

A manjerona é planta de Vénus, de cujos ramos se coroa Cupido, e para o mal cupidista não pode haver melhor remédio que uma planta de Vénus; pois, se notarmos a perfeição com que a natureza a revestiu daquelas mimosas folhinhas, para que todo o ano sejam hieroglífico da imortalidade, aquele suavíssimo aroma de cuja fragrância é hidrópico o olfacto, ela é a delícia de Flora, o mimo de Abril e a esmeralda no anel da Primavera.

SEMICÚPIO

É verdade; não há dúvida.

D. NISE

(Aparte)

Estou tão contente!

D. GILVAZ

O alecrim, Senhor, pela sua excelência, é titular na república das plantas, cujas flores, depois de serem bela imitação dos cerúleos globos, são a doçura do mundo nos melífluos ósculos das abelhas.

SEMICÚPIO

Todavia, a matéria é de apicibus.

D. GILVAZ

Ele é a coroa dos jardins, o lenço vegetável das lágrimas da Aurora. Nas chamas, é Fénix; nas águas, rainha; e finalmente é o antídoto universal de todos os males, e a mais segura tábua da vida, quando no mar das queixas assopram os ventos inficionados; e para prova deste sistema, repetirei, traduzido em português, um epigrama do proto-médico Avicena, poeta arábico.

SONETO

Um dia para Siques quis amor

Uma grinalda bela fabricar,

E por mais que buscou, não pôde achar

Flor do seu gosto entre tanta flor.

Desprezou do jasmim o seu candor,

E a rosa não quis por se espinhar,

Ao girassol mostrou não se inclinar,

E ao jacinto deixou na sua dor.

Mas tanto que chegou Cupido a ver

Entre virentes pompas o Alecrim,

Num verde ramo pretendeu colher;

Tu só me agradas, disse, pois enfim

Por ti desprezo, só por te querer,

Jacinto, girassol, rosa e jasmim.

D. CLÓRIS

Viva o Senhor Doutor, eu quero as fumaças do alecrim.

D. TIBÚRCIO

E morra o Senhor doente! Ai, minha barriga!

D. FUAS

Se versos podem servir de textos, escute uns de um antegonista desse autor a favor da manjerona, pelos mesmos consoantes.

SONETO

Para vencer as flores quis amor

Setas da Manjerona fabricar:

Foi discreta eleição, pois soube achar

Quem soubesse vencer a toda a flor:

O jasmim desmaiou no seu candor,

A rosa começou-se a espinhar,

No girassol foi culto o inclinar,

Ais o jacinto deu de inveja e dor.

Entre as vencidas flores pôde ver

Retirar-se fugido o Alecrim,

Que amor para vingar o quis colher;

Cantou das flores o triunfo, enfim,

Nem os despojos quis, por não querer

Jacinto, girassol, rosa e jasmim.

D. NISE

Viva o Senhor Doutor, eu quero o remédio da manjerona.

D. LANCEROTE

Não cuidei que a manjerona e alecrim tinham tais virtudes. Vejamos agora o que diz o Senhor Doutor.

D. TIBÚRCIO

Que tenho eu com isso? Senhores, vossas mercês me vieram curar a mim, ou às raparigas? Ai, minhas barrigas!

SEMICÚPIO

Calado estive ouvindo a estes Senhores da escola moderna, encarecendo a manjerona e alecrim. Não há dúvida que, pro utraque parte há mui nervosos argumentos, em que os doutores alecrinistas e manjeronistas se fundam; e, tratando Dioscórides do manjeronismo e alecrinismo, assenta, de pedra e cal, que para o mal cupidista são remédios inanes; porque, tratando Ovídio do remédio amoris, não achou outro mais genuíno contra o mal cupidista que o malmequer, por virtude simpática, magnética, diaforética e diurética, com a qual curatur amorem. Repetirei as palavras do mesmo Ovídio.

SONETO

Essa, que em cacos velhos se produz

Manjerona misérrima sem flor,

Esse pobre Alecrim, que em seu ardor

Todo se abrasa por sair à luz:

Ainda que se vejam hoje a flux

Desbancar nas baralhas do amor,

Cuido, que elas o bolo hão-de repor,

Senão negro seja eu como um lapuz:

O Malmequer, Senhores, isso sim,

Que é flor, que desengana, sem fazer

No verde da esperança amor sem fim;

Deixem correr o tempo, e quem viver

Verá, que a Manjerona, e o Alecrim,

As plantas beijarão do Malmequer.

SEVADILHA

Viva e reviva o Senhor Doutor! E, já que é tão bom médico, peço-lhe me cure de umas dores tão grandes, que parecem feitiço.

SEMICÚPIO

Dá cá as pulseiras. Ah, perra, que agora te agarrei! Tu estás marasmódica e empiemática. Ah, Senhor, logo, logo, antes que se perpetue uma febre podre, é necessário que esta rapariga tome uns semicúpios.

SEVADILHA

Semicúpios, eu? É cousa que abomino.

SEMICÚPIO

Eu descarrego a minha consciência e não sou mais obrigado.

D. LANCEROTE

Ela não tem querer, há-de fazer o que vossa mercê mandar.

FAGUNDES

Eu também sou de carne, tenho anos e tenho achaques.

SEMICÚPIO

Pois cure-se primeiro dos anos, logo se curará dos achaques.

FAGUNDES

Não, Senhor, que este achaque não é anual, é diário.

SEMICÚPIO

Se fora nocturno, não era mau. Pois que achaque é o seu, senhora velha?

FAGUNDES

Que há-de ser? É esta madre, que me persegue.

SEMICÚPIO

Ui, você com esses anos ainda tem madre? E o que será de velha a senhora sua madre! Filha, isso não é madre, é avó.

FAGUNDES

Talvez que por isso tão rabugenta me persiga. E que lhe farei, Senhor Doutor?

SEMICÚPIO

A uma madre velha que se lhe há-de fazer? Andar, ponha-lhe óculos e muletas, e deixe-a andar.

D. LANCEROTE

Isto aqui é um hospital, graças a Deus. Só eu nesta casa sou são como um pêro, apesar de duas fontes e uma funda.

SEMICÚPIO

Oh, ditoso homem, que vives sem males!

D. TIBÚRCIO

Senhores, o meu mal devia ser contagioso, porque depois da minha doença todos adoeceram. Ai, minha barriga!

D. LANCEROTE

Pois em que ficamos?

SEMICÚPIO

Senhor meu, falando em termos, o doente sangre-se no pé; vossa mercê, na bolsa; às senhoras suas sobrinhas, três banhos; à moça, semicúpios; e a velha lancem-na às ondas, que está danada.

FAGUNDES

Ai, que galante cousa!

D. CLÓRIS

Eu não quero mais remédio que os fumos do alecrim.

D. NISE

E eu os da manjerona.

SEMICÚPIO

Não seja essa a dúvida. Ainda que não sou desse voto, contudo cada um é senhor da sua vida, e se pode curar como quiser; lá vai a receita.

(Canta Semicúpio a seguinte:)

ÁRIA

Si in medicinis

Te visitamus,

Non asniamus,

Sed de alecrinis,

Et manjeronis

Recipe quantum

Satis aná.

Credite mihi,

Qui sum peritus,

Non mediquitus

De cacaracá.

D. LANCEROTE

Esperem, Senhores, vossas mercês perdoem, lá repartam essa ninharia entre todos, que eu não estou aparelhado senão para um.

SEMICÚPIO

Venha embora, que só este é o verdadeiro sintoma da medicina. (Vai-se.)

D. GILVAZ

Ai, Clóris, que, quando o mal é de amor, só o morrer é remédio! (Vai-se.)

D. FUAS

Finjo que me vou, por ver se posso apurar a falsidade de D. Nise. (Vai-se.)

D. TIBÚRCIO

Mande-me cerrar este biombo, que vou entrando em um suor copioso; abafem-me bem.

D. LANCEROTE

Aqui servia o meu capote. Paciência! Vamo-nos e deixemo-lo suar; ninguém lhe fale à mão. (Vai-se.)

D. CLÓRIS

Vamos, Nise, a moralizar os extremos destes amantes. (Vai-se.)

D. NISE

Tanto me importa; vamos a regar os nossos craveiros. (Vai-se.)

FAGUNDES

O diabo de Semicúpio temo que me meta em um chinelo com seus ardis. (Vai-se.)

(Entra D. Fuas.)

D. FUAS

Já todos se foram. Quem me dera encontrar a esta tirana, cruel, falsa, inimiga.

(Entra Fagundes.)

FAGUNDES

D. Tibúrcio fica a suar como um cavalo. Mas ai! Quem está aqui?

D. FUAS

Sou eu, Senhora Fagundes, não se assuste.

FAGUNDES

Senhor, que temeridade é esta? Vossa mercê não vê que ainda é lusque-fusque? Como, sem deixar anoitecer, penetra estas paredes, aonde até o sol entra às furtadelas?

D. FUAS

Não reparei que ainda era dia, pois no abismo de meu ciúme sempre estou às escuras. Aonde está esta cruel D. Nise?

FAGUNDES

Estará no jardim.

D. FUAS

Pois vamos lá, e de caminho quero me vá dizendo de meter-me na caixa a mim e a D. Gil.

FAGUNDES

Vamos, que eu lhe contarei o que foi; ande por aqui com pés de lã. Ai, Senhor D. Fuas, quanto me deve!