Guerras do Alecrim e Manjerona

António José da Silva · Capítulo 2 de 12

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Guerras do Alecrim e Manjerona

Parte I

 

CENA I

Prado, com casaria no fim. Saem D. Clóris, D. Nise e Sevadilha com os

rostos cobertos; e D. Fuas, D. Gilvaz e Semicúpio, seguindo-as.

 

D. GILVAZ

(Para D. Clóris)

Diana destes bosques, cessem os acelerados desvios desse rigor, pois quando remora me suspendeis, sois íman, que me atraís.

D. FUAS

(Para D. Nise)

Flora destes prados, suspendei a fatigada porfia de vosso desdém, que essa discorde fuga, com que me desenganais, é harmoniosa atracção de meus carinhos; pois nos passos desses retiros forma compassos o meu amor.

SEMICÚPIO

(Para Sevadilha)

E tu, que vens atrás, serás a Siringa destas brenhas; e, para o seres com mais propriedade, deixa-te ficar mais atrás, pois apesar dos esguichos de teu rigor, hei-de ser conglutinado rabo-leva das tuas costas.

D. CLÓRIS

(Para D. Gilvaz)

Cavalheiro, se é que o sois, peço-vos, me não sigais, que mal sabeis o perigo a que me expõe a vossa porfia.

D. GILVAZ

Galhardo impossível, em cujas nubladas esferas ardem ocultos dous sóis e se abrasa patente um coração, permiti, que esta vez seja fineza a desobediência, porque seria agravo de vossos reflexos negar-lhe o inteiro culto na visualidade desse esplendor, porque assim, formosa ninfa, ou hei-de ver-vos ou seguir-vos, por que conheça, já que não o Sol desse Oriente, ao menos o Oriente desse Sol.

D. CLÓRIS

(Aparte)

Que será de mim, se este homem me seguir?

D. NISE

Já parece teima essa porfia: vede, Senhor, que se me seguis, que impossibilitais o meio para ver-me outra vez.

D. FUAS

Para que são, belíssimo encanto, esses avaros melindres do repúdio? Se já comecei a querer-vos, como posso deixar de seguir-vos? Pois até não saber, ou quem sois, ou aonde habitais, serei eterno girassol de vossas luzes.

SEVADILHA

(Para Semicúpio)

Ora basta já de porfia, senão vou revirando.

SEMICÚPIO

Tem mão, sarjeta encantadora, que com embiocadas denguices, feita papão das almas, encobres olho e meio, para matares gente de meio olho; são escusados esses esconderelos, pois pela unha desse melindre conheço o leão dessa cara.

D. CLÓRIS

Isso já parece teima.

D. GILVAZ

Isto é querer-vos.

D. NISE

Isso é porfia.

D. FUAS

É adorar-vos.

SEVADILHA

Isso é empurração.

SEMICÚPIO

Agora, isto é bichancrear, pouco mais ou menos.

D. GILVAZ

Senhoras, para que nos cansamos? Ainda que pareça grosseria não obedecer, entendei que a nossa curiosidade e amor não permitirá que vos ausenteis, sem ao menos com a certeza de nos tornarmos a ver, dando-nos também o seguro de onde morais, para que possa o nosso amor multiplicar os votos na peregrinação desses animados templos da formosura.

D. FUAS

Eis ali, Senhora, o que queremos.

SEVADILHA

Em termos, sem tirar nem pôr.

D. CLÓRIS

Pois, Senhor, se só por isso esperais, bastará que esse criado nos siga; porque de outra sorte destruís o mesmo que edificais.

D. GILVAZ

E admitireis a minha fineza?

D. CLÓRIS

Sendo verdadeira, porque não?

D. FUAS

Admitireis os repetidos sacrifícios de meu amor?

D. NISE

Sim, se for amor constante.

D. GILVAZ e D. FUAS

Quem essa dita me abona?

D. NISE

(Para D. Fuas)

Este ramo de manjerona.

D. FUAS

Na minha alma o disporei, para que sempre em virentes pompas se ostente troféu da Primavera.

D. GILVAZ

Mereça eu igual favor para segurança da vossa palavra.

D. CLÓRIS

Este ramo de alecrim, que tem as raízes no meu coração, seja o fiador que me abone.

D. GILVAZ

Por único na minha estimação será esse alecrim o Fénix das plantas, que abrasando-se nos incêndios do meu peito, se eternizará no seu mesmo ardor.

SEMICÚPIO

Isso é bom, segurar o barco; mas a tácita hipoteca não me cheira muito, digam o que quiserem os jardineiros.

D. CLÓRIS

Cada uma de nós estima tanto qualquer dessas plantas, que mais fácil será perder a vida, do que elas percam o crédito de verdadeiras.

SEMICÚPIO

Ai! Basta, basta, já aqui não está quem falou. Vossas mercês perdoem, que eu não sabia que eram do rancho do alecrim e manjerona: resta-me também que tu, cozinheirazinha, vivas arranchada com alguma ervinha, que me dês por prenda, pois também me quero segurar.

SEVADILHA

Eis aí tem esse malmequer, que este é o meu rancho; estime-o bem, não o deixe murchar.

SEMICÚPIO

Ditoso seria eu, se o teu malmequer se murchasse.

D. CLÓRIS

Pois, Senhor, como estais satisfeito, desejarei estimásseis esse ramo, não tanto como prenda minha, mas por ser de alecrim.

D. NISE

O mesmo vos recomendo da manjerona.

D. CLÓRIS

Advertindo, que aquele que mais extremos fizer a nosso respeito, coroará de triunfos a manjerona, ou alecrim, para que se veja qual destas duas plantas tem mais poderosos influxos para vencer impossíveis.

D. NISE

Desejara que triunfasse a manjerona. (Vai-se.)

D. CLÓRIS

E eu o alecrim. (Vai-se.)

SEVADILHA

Cuidado no malmequer. (Vai-se.)

SEMICÚPIO

Cuidado no bem-me-quer.

D. GILVAZ

Ó Semicúpio, vai seguindo-as, para sabermos aonde moram; anda, não as percas de vista.

SEMICÚPIO

Elas já lá vão a perder de vista; mas eu pelo faro as encontrarei, que sou lindo perdigueiro para estas caçadas. (Vai-se.)

D. FUAS

Quem serão, amigo D. Gilvaz, essas duas mulheres?

D. GILVAZ

Essa pergunta não tem resposta, pois bem vistes o cuidado com que vendaram o rosto, para ferir os corações como Cupido; mas pelo bom tratamento e asseio, indicam ser gente abastada.

D. FUAS

Oxalá que assim fora, porque, em tal caso, admitindo os meus carinhos, poderei com a fortuna do esposo ser meeiro no cabedal.

D. GILVAZ

Ai, amigo D. Fuas, que direi eu, que ando pingando, pois já não morro de fome, por não ter sobre que cair morto?

D. FUAS

Elas foram aturdidas com palanfrórios.

D. GILVAZ

Já que do mais somos famintos, ao menos sejamos fartos de palavras.

(Entra Semicúpio.)

SEMICÚPIO

Já fica assinalada na carta de marear toda a costa, de leste ao oeste, com seus cachopos e baixios.

D. GILVAZ

Aonde moram?

SEMICÚPIO

São as nossas vizinhas, sobrinhas de D. Lancerote, aquele mineiro velho que veio das minas o ano passado.

D. FUAS

Basta que são essas? Por isso elas cobriram o rosto.

SEMICÚPIO

Isso têm elas, que não são descaradas; antes são tão sisudas, que nunca encararam para ninguém.

D. GILVAZ

Uma delas sei eu que se chama D. Clóris.

SEMICÚPIO

E a outra D. Nise, isso sabia eu há muito tempo.

D. FUAS

E como saberei eu qual delas é a da manjerona?

SEMICÚPIO

Isso é fácil, em sabendo-se qual é a do alecrim, logo se sabe qual é a da manjerona?

D. FUAS

Grande subtileza! Vamos, D. Gil.

SEMICÚPIO

Já que se vão, advirtam de caminho que, segundo as notícias que tenho, bem podem desistir da empresa; porque o velho é tão cioso das sobrinhas, como do dinheiro; a casa é um recolhimento; as portas, de bronze; as janelas, de encerado; as frestas são óculos de ver ao longe, que nem ao perto se vêem; as trapeiras são zimbórios tão altos, que nem as nuvens lhe passam por alto; as paredes do jardim são mestras e as chaves das portas, discípulas, porque ainda não sabem abrir; mas só um bem há, e é que, tendo tudo tão forte, só o telhado é de vidro; com que, Senhores meus, outro ofício: contentem-se com cheirar a sua manjerona e o seu alecrim, que amor que entra pelo nariz não é bem que chegue ao coração.

D. GILVAZ

Semicúpio, não temo impossíveis, tendo da minha parte a tua indústria, que espero de ti apures toda a força de teu engenho para os combates dessa muralha.

SEMICÚPIO

Ah, Senhor D. Gilvaz, o meu aríete já se acha mui cansado com tanto vaivém, pois nem todo o artifício de minhas máquinas pode abrir brecha nessa diamantina bolsa, que tão cerrada se dificulta aos meus merecimentos.

D. GILVAZ

Semicúpio amigo, tem ânimo, que se montamos a burra de D. Lancerote, saltaremos de contentes.

SEMICÚPIO

Tal é a minha desgraça e sua miséria, que ainda com essa burra me dará dous couces.

D. GILVAZ

D. Fuas, ficai-vos embora, que me vou armar de esperanças, para que nos combates de amor triunfe o alecrim.

D. FUAS

D. Gilvaz, vamos a forro e a partido, pois que Semicúpio é tão destro na matéria.

D. GILVAZ

Por hora não pode ainda ser; deixai-me primeiro tentar o vau, que vós também navegareis no mar de Cupido.

D. FUAS

Isso não merece a nossa amizade.

D. GILVAZ

Se vós sois do rancho da manjerona, já me podereis conhecer por inimigo declarado, seguindo eu a parcialidade do alecrim; e, como nas guerras destas plantas havemos os dous ser contrários, mal poderei socorrer-vos; e assim, ficai-vos embora, D. Fuas, e viva o alecrim. (Vai-se.)

SEMICÚPIO

E viva o malmequer. (Vai-se.)

D. FUAS

Viverá a manjerona apesar do mais intensivo ardor de opostos Planetas.

(Aparece Fagundes com manto e capelo.)

FAGUNDES

É bom sumiço! Aonde estarão estas meninas, que há mais de quatro horas que foram à missa, e ainda não há fumo delas? Meu Senhor, vossa mercê acaso veria por aqui duas mulheres com uma criada?

D. FUAS

Que sinais tinham?

FAGUNDES

Tinha uma delas uns sinais pretos no rosto, e a outra uns sinais de bexigas.

D. FUAS

E que mais?

FAGUNDES

Uma delas tem os olhos verdes, cor de pimentão que não está maduro, e a outra olhos pardos, como raiz de oliveira; uma tem cova na barba, e a outra barba na cova; uma tem espinhela caída, e a outra um leicenço num braço.

D. FUAS

Com esses sinais, nunca vi mulher nesta vida.

FAGUNDES

Meu Senhor, uma delas trazia um ramo de alecrim no peito, e a outra de manjerona.

D. FUAS

Vi muito bem que são as sobrinhas de D. Lancerote.

FAGUNDES

Essas mesmas são: ora diga-me aonde as viu?

D. FUAS

Promete-me vossa mercê fazer-me quanto eu lhe pedir?

FAGUNDES

Ai, que cousa me pedirá vossa mercê que lhe não faça, dizendo-me aonde estão as minhas meninas?

D. FUAS

Pois descanse, que elas aqui estiveram, e agora foram para casa.

FAGUNDES

Ai, boas novas tenho.

D. FUAS

Ora pois, em alvíssaras dessa boa nova, quero me diga como se chama...

FAGUNDES

Eu? Ambrósia Fagundes, para servir a vossa mercê.

D. FUAS

Digo, como se chama a que trazia a manjerona no peito?

FAGUNDES

Chama-se D. Nise.

D. FUAS

Pois, Senhora Ambrósia Fagundes, saiba que eu adoro tão excessivamente a D. Nise, que em prémio do meu extremo me franqueou este ramo de manjerona.

FAGUNDES

É verdade, que pelo cheiro o conheço, que é o mesmo.

D. FUAS

E, como me dizem os impossíveis que há-de a poder comunicar, quisera dever-lhe a galantaria de ser minha protectora nesta amorosa pretensão; e fie de mim, que o prémio há-de ser igual ao meu desejo.

FAGUNDES

Meu Senhor, difícil empresa toma vossa mercê; porque além da excessiva cautela do tio, que nisso não se fala, uma delas está para casar com um primo, que hoje se espera de fora da terra, e a outra qualquer dia vai a ser freira; com que, meu Senhor, desengane-se, que ali não há que arranhar.

D. FUAS

E qual delas é a que casa?

FAGUNDES

Ainda se não sabe; porque o noivo vem à escolha daquela que mais lhe agradar.

D. FUAS

Como o vencer impossíveis é próprio de um verdadeiro amante, nós havemos de intentar esta empresa, saia o que sair; que a diligência é mãe de boa ventura; favoreça-me vossa mercê, Senhora Fagundes, com o seu voto, que eu terei bom despacho no tribunal de Cupido; tenho dinheiro e resolução e, tendo a vossa mercê da minha parte, certo tenho o triunfo da manjerona.

FAGUNDES

Pois por mim não se desmanche a festa, que eu não sou desmancha-prazeres; esta noite o espero debaixo da janela da cozinha; sabe aonde é?

D. FUAS

Bem sei.

FAGUNDES

Pois espere-me aí, que eu lhe direi o que há na matéria.

D. FUAS

Deixe-me beijar-lhe os pés, ó insigne Fagundes, feliz corretora de Cupido.

FAGUNDES

Ai! Levante-se, Senhor, não me beije os pés, que os tenho agora mui suados, e um tanto fétidos; descanse, Senhor, que D. Nise há-de ser sua, apesar das cautelas do tio e das carícias do noivo.

D. FUAS

Se tal consigo, não tenho mais que desejar.

(Canta D. Fuas a seguinte:)

ÁRIA

Se chego a vencer

De Nise o rigor,

De gosto morrer

Você me verá.

Porém se um favor

Alenta o viver,

Quem morre de amor

Mais vida terá. (Vai-se.)

FAGUNDES

Estes homens, tanto que são amantes, logo são músicos; e eu neste entendo terei boa melgueira; e mais eu que sou abelha-mestra, que hei-de chupar o mel da manjerona e do alecrim.