Guerras do Alecrim e Manjerona
Cena Vii
Sala, em que haverá um bufete, tinteiro, papel, pena e cadeiras; e entram
D. Gilvaz e Semicúpio vestido ainda de juiz.
D. GILVAZ
Não te perdoo o susto que me fizeste levar.
SEMICÚPIO
Nem eu o chasco da capoeira, que me fez sofrer.
D. GILVAZ
E agora, que determinas com essa devassa que queres tirar?
SEMICÚPIO
Logo verá.
D. GILVAZ
E por que não soltas a D. Fuas e a D. Tibúrcio que estão fechados naquele quarto escuro?
SEMICÚPIO
Não poderei também ter meus segredos, sem que ninguém o saiba? O certo é que, como os trouxemos às escuras, entendem fixamente que estão em rigorosa prisão. Mas aí vem gente, e vossa mercê faça vezes de escrivão.
D. GILVAZ
Aí parou uma sege. Se serão elas?
SEMICÚPIO
Lá está quem as há-de encaminhar; sedete, que aí vem subindo a primeira testemunha.
(Entra D. Lancerote.)
D. LANCEROTE
Senhor, aqui estamos todos à ordem de vossa mercê.
SEMICÚPIO
Venham entrando um a um.
D. LANCEROTE
Pois, Senhor, lembre-se do meu capote.
SEMICÚPIO
Eu já tenho tomado isso a mim; vá descansado, que eu puxarei bem pela justiça, e farei quanto ela der de si.
D. LANCEROTE
Não tenho mais que dizer. (Vai-se.)
D. GILVAZ
Homem, tu me tens atónito com as tuas indústrias!
SEMICÚPIO
Bem é que as reconheça. Ah, Senhor, esteja de meio perfil, para que o não conheça D. Nise, que lá vem.
(Entra D. Nise.)
D. NISE
Venho morta. Nunca em tal me vi!
SEMICÚPIO
Uma vez é a primeira! Sente-se, minha Senhora, desabafe-se, suponha que está em sua casa.
D. NISE
Ai, Senhor! Não sei que respeito infunde a cara de um juiz, que faz titubear o mais valente coração!
SEMICÚPIO
E mais eu, que pareço um Papiniano assanhado. Diga o seu nome. Vá lá escrevendo, Senhor escrivão.
D. NISE
Chamo-me D. Nise Sílvia Rufina Fábia Lisarda Laura Anarda e...
SEMICÚPIO
Basta, Senhora. E pode vossa mercê com todos esses nomes?
D. NISE
Ainda faltam quatorze.
SEMICÚPIO
Visto isso, é vossa mercê a mulher mais nomeada que há no mundo. Que idade tem?
D. NISE
Quinze anos escassos.
SEMICÚPIO
Liberal andou a natureza; em tão poucos anos, tanta perfeição! E do costume?
D. NISE
Não entendo.
SEMICÚPIO
Ponha lá que do costume jejua. Sabe quem furtou aquele capote ao Senhor seu tio?
D. NISE
Presumo que foi um criado de D. Gil, que entrou disfarçado a vender alecrim.
SEMICÚPIO
Tenho largas notícias desse criado, e me dizem que é ardiloso quantum satis.
D. NISE
Isso é de pasmar!
SEMICÚPIO
E sabe se aqueles homens da capoeira seriam ladrões?
D. NISE
Não, Senhor, porque um era D. Gil, e outro D. Fuas, que ambos...
SEMICÚPIO
Diga, não se faça rubicunda.
D. NISE
Senhor, os ditos homens vieram por causa do amor; e, como veio meu tio, se esconderam na capoeira.
SEMICÚPIO
Rapaziadas. Ora ande, vá-se aí para dentro e não faça outra. Seja sisuda e virtuosa, que assim manda o direito: honeste vivere.
D. NISE
À obediência de vossa mercê. (Vai-se.)
D. GILVAZ
Homem, acabemos com isso; venha D. Clóris, por quem estou suspirando.
(Entra Fagundes.)
FAGUNDES
Muito bons dias, meu Senhor.
SEMICÚPIO
Chegue-se para cá. Olhe para mim. Vossa mercê, a meu ver, tem cara de testemunha falsa, ou eu me enganarei.
FAGUNDES
Serei o que vossa mercê quiser.
SEMICÚPIO
Como se chama?
FAGUNDES
Ambrósia Fagundes Birimboa Franchopana e Gregotil.
SEMICÚPIO
Isso são nomes ou alcunhas?
FAGUNDES
Será o que vossa mercê for servido.
SEMICÚPIO
Casada, ou solteira?
FAGUNDES
Nem casada, nem solteira; assim, assim.
SEMICÚPIO
Assim, como?
FAGUNDES
É que tenho o marido no Brasil há quarenta e sete anos.
SEMICÚPIO
De que anos casou?
FAGUNDES
De quarenta justos, que os fui fazer à porta da igreja.
SEMICÚPIO
Que anos tem?
FAGUNDES
Vinte e cinco bem puxados.
SEMICÚPIO
Não é nada: casou de quarenta, tem o marido no Brasil há quarenta e sete anos, e diz que tem vinte e cinco de idade! Vá-se daí, bêbada, falsária, que a hei-de amarrar a uma escada e deitá-la por essa janela fora.
FAGUNDES
Eu não sei contar, senão pelos dedos. Ouça vossa mercê, que eu quero dar a minha quartada.
SEMICÚPIO
A quartada dei eu; ande, não cuide que se há-de lavar com uma bochecha de água; vá-se para dentro.
FAGUNDES
Eu vou rebolindo. (Vai-se.)
D. GILVAZ
Acaba já com isso.
(Entra Sevadilha.)
SEVADILHA
Sou criada de vossa mercê.
SEMICÚPIO
Ai, que já a justiça começa a abrir os olhos para ver a Sevadilha! Eu encosto a vara, que estou varado. Menina, como é o seu nome?
SEVADILHA
Sevadilha, sem mais nada.
SEMICÚPIO
Que anos tem?
SEVADILHA
Sete mui fanados.
SEMICÚPIO
Só sete? Não sois má cartinha para um sete levar. Casada, ou solteira?
SEVADILHA
Estou para casar com um criado daqui do seu vizinho D. Gil, que ainda que feio, é mui carinhoso.
SEMICÚPIO
Esse foi o que furtou o capote a seu amo?
SEVADILHA
Esse mesmo.
SEMICÚPIO
Logo, é ladrão?
SEVADILHA
É o vício que tem, que se não fora isso era um moço perfeito.
SEMICÚPIO
Ai, Sevadilha, que esse ladrão...
SEVADILHA
Que tem, meu Senhor?
SEMICÚPIO
Nada, nada. E por um triz, que não deponho a judicatura e perco o juízo! Assina-te aqui em branco, que eu estou pelo que disseres.
SEVADILHA
Eu não sei escrever.
SEMICÚPIO
Porém, sabes muita letra! Vai-te aí para dentro. A rapariga me pôs a ver jurar testemunhas.
SEVADILHA
Eu já vi uma cara que se parecia com a deste juiz. (Vai-se.)
SEMICÚPIO
Entre quem falta.
D. GILVAZ
Resta D. Clóris; Semicúpio, perdoa, que hei-de falar-lhe.
SEMICÚPIO
Faça o que lhe digo e não tenha graças comigo.
D. GILVAZ
Como estás inchado!
SEMICÚPIO
Se queres ver o vilão, mete-lhe a vara na mão.
(Entra D. Clóris.)
D. CLÓRIS
Senhor juiz, logo declaro que eu de furtos não sei nada, e só que D. Gil foi um dos da capoeira e está inocente, porque...
D. GILVAZ
Porque foi preciso obedecer-te, querida Clóris. (Levanta-se.)
D. CLÓRIS
Que vejo! D. Gil? Cobre alentos o meu coração.
D. GILVAZ
Não te admires dos sucessos de meu amor, que os influxos do teu alecrim sabem triunfar dos maiores impossíveis.
SEMICÚPIO
Aliás, que um Semicúpio sabe fazer possíveis as maiores dificuldades. Aí tem, Senhor D. Gilvaz, o seu bem de portas adentro! Tenho cumprido a minha palavras e, se não está bem servido, busque quem o faça melhor.
D. CLÓRIS
Uma vez que me vejo em tua casa, não porei mais em contingências a minha fortuna.
SEMICÚPIO
Isso mesmo; quem disse casa, casa.
(Entra D. Lancerote.)
D. LANCEROTE
Que é isto, Senhor Doutor? As testemunhas vêm e não tornam?
SEMICÚPIO
Já está concluída e sentenciada a devassa.
D. LANCEROTE
Quem são os culpados?
SEMICÚPIO
As Senhoras suas sobrinhas, que são umas finas ladras.
D. LANCEROTE
Minhas sobrinhas ladras? De que sorte?
SEMICÚPIO
Desta sorte; vamos saindo cá para fora.
(Vai Semicúpio trazendo a todos para fora, e diz o seguinte:)
SEMICÚPIO
Porque, vistos estes sucessos, consta que a Senhora D. Nise furtou o coração do Senhor D. Fuas, e a Senhora D. Clóris o de D. Gil; e assim é de razão que lho restituam, casando com eles, porque no matrimónio se entregam os corações com as vontades.
D. FUAS
Em cumprimento da sentença, eu a executo pela minha parte igualmente alegre, e admirado desta rara invectiva de Semicúpio.
D. NISE
É de justiça esta acção. Que alegria!
D. GILVAZ
D. Clóris, dá-me o coração, que me tens na mão que te peço.
SEMICÚPIO
Isso é falar com o coração nas mãos. Senhora D. Clóris, case-se, mas não se arrependa.
D. CLÓRIS
Senhor D. Gil, o meu coração lhe entrego, em recompensa do que lhe roubei, se acaso é furto o que se dá por vontade.
SEMICÚPIO
D. Tibúrcio, tenha paciência e pague as custas, de permeio com o Senhor D. Lancerote, já que foram tão basbaques, que se deixaram enganar de mim. Semicúpio, tantos de tal mês, etc.
D. TIBÚRCIO
Senhor tio, seja-lhe para bem, que aqui já não há para onde apelar.
D. LANCEROTE
Nem eu me posso agravar, quando o matrimónio é o ditoso fim destes excessos.
SEVADILHA
Quem casa a tantos, porque se não casa a si?
SEMICÚPIO
Não me fales em remoques; já sei, Sevadilha, que queres casar comigo; e, pois a sentença passou em cousa julgada, demos as mãos e a boa vontade.
SEVADILHA
Oh, discreta mão que escreveu tal sentença!
FAGUNDES
E que há-de ser de mim, Semicúpio, que neste negócio também dei minha penada?
SEVADILHA
Em vindo a frota, virá teu marido.
D. GILVAZ
E, pois te consegui, galharda Clóris, publique a fama os vivas do alecrim, que triunfou de tantos impossíveis.
D. FUAS
Tende mão, que não é justo que roubeis à manjerona a parte que lhe toca no aplauso que merece; pois, à sombra de suas folhas, conseguistes muita parte da dita que possuís.
FAGUNDES
Isso é verdade, senão diga-o a escada e a caixa.
D. TIBÚRCIO
Foi boa caixa.
D. GILVAZ
Que importa que a manjerona abrisse os caminhos aos favores, se o alecrim serenava as tempestades na tormenta dos enleios?
SEMICÚPIO
E, senão, diga-o também o fogo salvage, a medicina, a ministrice e a mãe de duas filhas.
D. TIBÚRCIO
Pois que vai, Senhor tio? É bico, ou cabeça?
D. LANCEROTE
Paciência por força.
D. CLÓRIS
Não se pode negar que venceu o meu alecrim, pois ele tocou a meta, pondo fim a nossos desejos.
D. NISE
A manjerona só merece aplausos, porque deu princípio a este fim.
SEMICÚPIO
Então, visto isso, venceu o malmequer, pois ele foi o meio entre o princípio da manjerona e o fim do alecrim.
SEVADILHA
Pois viva o malmequer!
D. GILVAZ
Tenho dito, venceu o alecrim.
D. FUAS
Se a eficácia das razões não basta a convencer-vos, esta espada fará confessar o triunfo da manjerona.
SEMICÚPIO
Deixe estar a folha, que as da manjerona não são o Alcorão de Mafoma, para que se defendam à ponta de espada; e, pois estou feito juiz, pela autoridade que tenho declaro que ambas as plantas venceram o pleito, pois cada uma fez quanto pôde; e, para que se acabem essas guerras do alecrim e manjerona, mando que os dous ranchos façam as pazes e se ponha perpétuo silêncio nesta matéria, sob pena de serem assuntos de minuetes e andarem por boca de poetas, que é pior que pelas bocas do mundo.
TODOS
Pois viva o alecrim e viva a manjerona!
SEMICÚPIO
E viva todo o bicho vivo!
D. LANCEROTE
Vivamos todos, meu sobrinho.
D. TIBÚRCIO
Essa é a verdade.
SEMICÚPIO
E como não há triunfo sem aclamação, enquanto o coro não principia a festejar este aplauso, coroemos esta obra com as ramas da manjerona e alecrim.
CORO
D. NISE e D. FUAS
Viva a manjerona
Perpétua no durar.
D. CLÓRIS e D. GILVAZ
Viva o alecrim
Feliz no florescer.
TODOS
Viva a manjerona,
Viva o alecrim,
Pois que um soube vencer,
E a outra triunfar.
D. NISE e D. FUAS
No templo do Cupido
Troféu de amor será.
D. CLÓRIS e D. GILVAZ
Nas aras da fineza
Em chamas arderá.
TODOS
Viva a manjerona,
Viva o alecrim,
Pois que um soube vencer,
E a outra triunfar.
António José da Silva
Nome completo: António José da Silva Coutinho Nascimento: 8 de Maio de 1705, São João de Meriti Morte: 19 de Outubro de 1739, Lisboa Ocupação: Escritor e dramaturgo Principais trabalhos: Guerras do Alecrim e Manjerona
Você terminou Guerras do Alecrim e Manjerona
António José da Silva
Livros como este
-
Sonho de uma Noite de Verão
-
Efeitos do Hipnotismo
-
O Judeu
-
O Morgado de Fafe em Lisboa
-
Auto da Barca do Inferno
-
Antes de Começar
Depois do livro
Páginas que vieram com esta edição, guardadas aqui para consulta.