Guerras do Alecrim e Manjerona

António José da Silva · Capítulo 12 de 12

Páginas do PDF

Guerras do Alecrim e Manjerona

Cena Vii

Sala, em que haverá um bufete, tinteiro, papel, pena e cadeiras; e entram

D. Gilvaz e Semicúpio vestido ainda de juiz.

 

D. GILVAZ

Não te perdoo o susto que me fizeste levar.

SEMICÚPIO

Nem eu o chasco da capoeira, que me fez sofrer.

D. GILVAZ

E agora, que determinas com essa devassa que queres tirar?

SEMICÚPIO

Logo verá.

D. GILVAZ

E por que não soltas a D. Fuas e a D. Tibúrcio que estão fechados naquele quarto escuro?

SEMICÚPIO

Não poderei também ter meus segredos, sem que ninguém o saiba? O certo é que, como os trouxemos às escuras, entendem fixamente que estão em rigorosa prisão. Mas aí vem gente, e vossa mercê faça vezes de escrivão.

D. GILVAZ

Aí parou uma sege. Se serão elas?

SEMICÚPIO

Lá está quem as há-de encaminhar; sedete, que aí vem subindo a primeira testemunha.

(Entra D. Lancerote.)

D. LANCEROTE

Senhor, aqui estamos todos à ordem de vossa mercê.

SEMICÚPIO

Venham entrando um a um.

D. LANCEROTE

Pois, Senhor, lembre-se do meu capote.

SEMICÚPIO

Eu já tenho tomado isso a mim; vá descansado, que eu puxarei bem pela justiça, e farei quanto ela der de si.

D. LANCEROTE

Não tenho mais que dizer. (Vai-se.)

D. GILVAZ

Homem, tu me tens atónito com as tuas indústrias!

SEMICÚPIO

Bem é que as reconheça. Ah, Senhor, esteja de meio perfil, para que o não conheça D. Nise, que lá vem.

(Entra D. Nise.)

D. NISE

Venho morta. Nunca em tal me vi!

SEMICÚPIO

Uma vez é a primeira! Sente-se, minha Senhora, desabafe-se, suponha que está em sua casa.

D. NISE

Ai, Senhor! Não sei que respeito infunde a cara de um juiz, que faz titubear o mais valente coração!

SEMICÚPIO

E mais eu, que pareço um Papiniano assanhado. Diga o seu nome. Vá lá escrevendo, Senhor escrivão.

D. NISE

Chamo-me D. Nise Sílvia Rufina Fábia Lisarda Laura Anarda e...

SEMICÚPIO

Basta, Senhora. E pode vossa mercê com todos esses nomes?

D. NISE

Ainda faltam quatorze.

SEMICÚPIO

Visto isso, é vossa mercê a mulher mais nomeada que há no mundo. Que idade tem?

D. NISE

Quinze anos escassos.

SEMICÚPIO

Liberal andou a natureza; em tão poucos anos, tanta perfeição! E do costume?

D. NISE

Não entendo.

SEMICÚPIO

Ponha lá que do costume jejua. Sabe quem furtou aquele capote ao Senhor seu tio?

D. NISE

Presumo que foi um criado de D. Gil, que entrou disfarçado a vender alecrim.

SEMICÚPIO

Tenho largas notícias desse criado, e me dizem que é ardiloso quantum satis.

D. NISE

Isso é de pasmar!

SEMICÚPIO

E sabe se aqueles homens da capoeira seriam ladrões?

D. NISE

Não, Senhor, porque um era D. Gil, e outro D. Fuas, que ambos...

SEMICÚPIO

Diga, não se faça rubicunda.

D. NISE

Senhor, os ditos homens vieram por causa do amor; e, como veio meu tio, se esconderam na capoeira.

SEMICÚPIO

Rapaziadas. Ora ande, vá-se aí para dentro e não faça outra. Seja sisuda e virtuosa, que assim manda o direito: honeste vivere.

D. NISE

À obediência de vossa mercê. (Vai-se.)

D. GILVAZ

Homem, acabemos com isso; venha D. Clóris, por quem estou suspirando.

(Entra Fagundes.)

FAGUNDES

Muito bons dias, meu Senhor.

SEMICÚPIO

Chegue-se para cá. Olhe para mim. Vossa mercê, a meu ver, tem cara de testemunha falsa, ou eu me enganarei.

FAGUNDES

Serei o que vossa mercê quiser.

SEMICÚPIO

Como se chama?

FAGUNDES

Ambrósia Fagundes Birimboa Franchopana e Gregotil.

SEMICÚPIO

Isso são nomes ou alcunhas?

FAGUNDES

Será o que vossa mercê for servido.

SEMICÚPIO

Casada, ou solteira?

FAGUNDES

Nem casada, nem solteira; assim, assim.

SEMICÚPIO

Assim, como?

FAGUNDES

É que tenho o marido no Brasil há quarenta e sete anos.

SEMICÚPIO

De que anos casou?

FAGUNDES

De quarenta justos, que os fui fazer à porta da igreja.

SEMICÚPIO

Que anos tem?

FAGUNDES

Vinte e cinco bem puxados.

SEMICÚPIO

Não é nada: casou de quarenta, tem o marido no Brasil há quarenta e sete anos, e diz que tem vinte e cinco de idade! Vá-se daí, bêbada, falsária, que a hei-de amarrar a uma escada e deitá-la por essa janela fora.

FAGUNDES

Eu não sei contar, senão pelos dedos. Ouça vossa mercê, que eu quero dar a minha quartada.

SEMICÚPIO

A quartada dei eu; ande, não cuide que se há-de lavar com uma bochecha de água; vá-se para dentro.

FAGUNDES

Eu vou rebolindo. (Vai-se.)

D. GILVAZ

Acaba já com isso.

(Entra Sevadilha.)

SEVADILHA

Sou criada de vossa mercê.

SEMICÚPIO

Ai, que já a justiça começa a abrir os olhos para ver a Sevadilha! Eu encosto a vara, que estou varado. Menina, como é o seu nome?

SEVADILHA

Sevadilha, sem mais nada.

SEMICÚPIO

Que anos tem?

SEVADILHA

Sete mui fanados.

SEMICÚPIO

Só sete? Não sois má cartinha para um sete levar. Casada, ou solteira?

SEVADILHA

Estou para casar com um criado daqui do seu vizinho D. Gil, que ainda que feio, é mui carinhoso.

SEMICÚPIO

Esse foi o que furtou o capote a seu amo?

SEVADILHA

Esse mesmo.

SEMICÚPIO

Logo, é ladrão?

SEVADILHA

É o vício que tem, que se não fora isso era um moço perfeito.

SEMICÚPIO

Ai, Sevadilha, que esse ladrão...

SEVADILHA

Que tem, meu Senhor?

SEMICÚPIO

Nada, nada. E por um triz, que não deponho a judicatura e perco o juízo! Assina-te aqui em branco, que eu estou pelo que disseres.

SEVADILHA

Eu não sei escrever.

SEMICÚPIO

Porém, sabes muita letra! Vai-te aí para dentro. A rapariga me pôs a ver jurar testemunhas.

SEVADILHA

Eu já vi uma cara que se parecia com a deste juiz. (Vai-se.)

SEMICÚPIO

Entre quem falta.

D. GILVAZ

Resta D. Clóris; Semicúpio, perdoa, que hei-de falar-lhe.

SEMICÚPIO

Faça o que lhe digo e não tenha graças comigo.

D. GILVAZ

Como estás inchado!

SEMICÚPIO

Se queres ver o vilão, mete-lhe a vara na mão.

(Entra D. Clóris.)

D. CLÓRIS

Senhor juiz, logo declaro que eu de furtos não sei nada, e só que D. Gil foi um dos da capoeira e está inocente, porque...

D. GILVAZ

Porque foi preciso obedecer-te, querida Clóris. (Levanta-se.)

D. CLÓRIS

Que vejo! D. Gil? Cobre alentos o meu coração.

D. GILVAZ

Não te admires dos sucessos de meu amor, que os influxos do teu alecrim sabem triunfar dos maiores impossíveis.

SEMICÚPIO

Aliás, que um Semicúpio sabe fazer possíveis as maiores dificuldades. Aí tem, Senhor D. Gilvaz, o seu bem de portas adentro! Tenho cumprido a minha palavras e, se não está bem servido, busque quem o faça melhor.

D. CLÓRIS

Uma vez que me vejo em tua casa, não porei mais em contingências a minha fortuna.

SEMICÚPIO

Isso mesmo; quem disse casa, casa.

(Entra D. Lancerote.)

D. LANCEROTE

Que é isto, Senhor Doutor? As testemunhas vêm e não tornam?

SEMICÚPIO

Já está concluída e sentenciada a devassa.

D. LANCEROTE

Quem são os culpados?

SEMICÚPIO

As Senhoras suas sobrinhas, que são umas finas ladras.

D. LANCEROTE

Minhas sobrinhas ladras? De que sorte?

SEMICÚPIO

Desta sorte; vamos saindo cá para fora.

(Vai Semicúpio trazendo a todos para fora, e diz o seguinte:)

SEMICÚPIO

Porque, vistos estes sucessos, consta que a Senhora D. Nise furtou o coração do Senhor D. Fuas, e a Senhora D. Clóris o de D. Gil; e assim é de razão que lho restituam, casando com eles, porque no matrimónio se entregam os corações com as vontades.

D. FUAS

Em cumprimento da sentença, eu a executo pela minha parte igualmente alegre, e admirado desta rara invectiva de Semicúpio.

D. NISE

É de justiça esta acção. Que alegria!

D. GILVAZ

D. Clóris, dá-me o coração, que me tens na mão que te peço.

SEMICÚPIO

Isso é falar com o coração nas mãos. Senhora D. Clóris, case-se, mas não se arrependa.

D. CLÓRIS

Senhor D. Gil, o meu coração lhe entrego, em recompensa do que lhe roubei, se acaso é furto o que se dá por vontade.

SEMICÚPIO

D. Tibúrcio, tenha paciência e pague as custas, de permeio com o Senhor D. Lancerote, já que foram tão basbaques, que se deixaram enganar de mim. Semicúpio, tantos de tal mês, etc.

D. TIBÚRCIO

Senhor tio, seja-lhe para bem, que aqui já não há para onde apelar.

D. LANCEROTE

Nem eu me posso agravar, quando o matrimónio é o ditoso fim destes excessos.

SEVADILHA

Quem casa a tantos, porque se não casa a si?

SEMICÚPIO

Não me fales em remoques; já sei, Sevadilha, que queres casar comigo; e, pois a sentença passou em cousa julgada, demos as mãos e a boa vontade.

SEVADILHA

Oh, discreta mão que escreveu tal sentença!

FAGUNDES

E que há-de ser de mim, Semicúpio, que neste negócio também dei minha penada?

SEVADILHA

Em vindo a frota, virá teu marido.

D. GILVAZ

E, pois te consegui, galharda Clóris, publique a fama os vivas do alecrim, que triunfou de tantos impossíveis.

D. FUAS

Tende mão, que não é justo que roubeis à manjerona a parte que lhe toca no aplauso que merece; pois, à sombra de suas folhas, conseguistes muita parte da dita que possuís.

FAGUNDES

Isso é verdade, senão diga-o a escada e a caixa.

D. TIBÚRCIO

Foi boa caixa.

D. GILVAZ

Que importa que a manjerona abrisse os caminhos aos favores, se o alecrim serenava as tempestades na tormenta dos enleios?

SEMICÚPIO

E, senão, diga-o também o fogo salvage, a medicina, a ministrice e a mãe de duas filhas.

D. TIBÚRCIO

Pois que vai, Senhor tio? É bico, ou cabeça?

D. LANCEROTE

Paciência por força.

D. CLÓRIS

Não se pode negar que venceu o meu alecrim, pois ele tocou a meta, pondo fim a nossos desejos.

D. NISE

A manjerona só merece aplausos, porque deu princípio a este fim.

SEMICÚPIO

Então, visto isso, venceu o malmequer, pois ele foi o meio entre o princípio da manjerona e o fim do alecrim.

SEVADILHA

Pois viva o malmequer!

D. GILVAZ

Tenho dito, venceu o alecrim.

D. FUAS

Se a eficácia das razões não basta a convencer-vos, esta espada fará confessar o triunfo da manjerona.

SEMICÚPIO

Deixe estar a folha, que as da manjerona não são o Alcorão de Mafoma, para que se defendam à ponta de espada; e, pois estou feito juiz, pela autoridade que tenho declaro que ambas as plantas venceram o pleito, pois cada uma fez quanto pôde; e, para que se acabem essas guerras do alecrim e manjerona, mando que os dous ranchos façam as pazes e se ponha perpétuo silêncio nesta matéria, sob pena de serem assuntos de minuetes e andarem por boca de poetas, que é pior que pelas bocas do mundo.

TODOS

Pois viva o alecrim e viva a manjerona!

SEMICÚPIO

E viva todo o bicho vivo!

D. LANCEROTE

Vivamos todos, meu sobrinho.

D. TIBÚRCIO

Essa é a verdade.

SEMICÚPIO

E como não há triunfo sem aclamação, enquanto o coro não principia a festejar este aplauso, coroemos esta obra com as ramas da manjerona e alecrim.

CORO

D. NISE e D. FUAS

Viva a manjerona

Perpétua no durar.

D. CLÓRIS e D. GILVAZ

Viva o alecrim

Feliz no florescer.

TODOS

Viva a manjerona,

Viva o alecrim,

Pois que um soube vencer,

E a outra triunfar.

D. NISE e D. FUAS

No templo do Cupido

Troféu de amor será.

D. CLÓRIS e D. GILVAZ

Nas aras da fineza

Em chamas arderá.

TODOS

Viva a manjerona,

Viva o alecrim,

Pois que um soube vencer,

E a outra triunfar.

António José da Silva

Nome completo: António José da Silva Coutinho Nascimento: 8 de Maio de 1705, São João de Meriti Morte: 19 de Outubro de 1739, Lisboa Ocupação: Escritor e dramaturgo Principais trabalhos: Guerras do Alecrim e Manjerona

Você terminou Guerras do Alecrim e Manjerona

António José da Silva

Livros como este

Depois do livro

Páginas que vieram com esta edição, guardadas aqui para consulta.