Guerras do Alecrim e Manjerona

António José da Silva · Capítulo 6 de 12

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Guerras do Alecrim e Manjerona

Parte II

 

CENA I

Praça. Entram D. Gil e Semicúpio.

 

D. GILVAZ

Ainda não sei cabalmente aplaudir a tua indústria, ó insigne Semicúpio.

SEMICÚPIO

Nem aplaudir, nem agradecer, Senhor D. Gilvaz.

D. GILVAZ

As tuas ideias são tão impossíveis de aplaudir, como de agradecer; pois todo o prémio é diminuto, e todo o louvor limitado.

SEMICÚPIO

Visto isso, eu mesmo tenho a culpa de não ser premiado; porque, se eu não servira tão bem, estaria mais bem servido. Senhor meu, eu nunca fui amigo de palanfrórios; mais obras e menos palavras; eu quero que me ajuste a minha conta.

D. GILVAZ

Para quê?

SEMICÚPIO

Para pôr-me no olho da rua, que serei mais bem visto.

D. GILVAZ

Semicúpio, nem sempre o Diabo há-de estar atrás da porta.

SEMICÚPIO

Sim, porque entrará para dentro de casa.

D. GILVAZ

Calte, que se consigo a D. Clóris com seu dote e arras, eu te prometo que andes numa boleia.

SEMICÚPIO

Senhor, não me ande com a cabeça à roda com essas promessas; era melhor que os prémios andassem a rodo.

(Entra Fagundes.)

FAGUNDES

Lá deixo a D. Fuas metido numa caixa, para o introduzir com D. Nise em casa sem sustos, como da outra vez; tomara achar um homem que ma carregasse.

D. GILVAZ

Lá vem a velha, criada de D. Clóris.

SEMICÚPIO

Retire-se vossa mercê e deixe-me com ela.

D. GILVAZ

Pois eu aqui te espero. (Vai-se.)

FAGUNDES

Ó filho, por vida vossa quereis levar-me uma caixa?

SEMICÚPIO

Com quê, achou-me vossa mercê com ombros de mariola?

FAGUNDES

Pois perdoe-me, que cuidei que era homem de ganhar.

SEMICÚPIO

Todos nesta vida somos homens de ganhar; porém o modo é que desautoriza.

FAGUNDES

Isto não era mais que levar uma caixa às costas.

SEMICÚPIO

Pois se não é mais do que isso, entendo que não estará mal à minha pessoa.

FAGUNDES

Qual mal? Antes lhe estará muito bem.

SEMICÚPIO

Mas advirta que isto em mim não é ofício; é uma mera curiosidade.

FAGUNDES

Ora Deus lhe dê saúde; olhe, ela pesa pouco e vai aqui para casa de D. Lancerote.

SEMICÚPIO

E de quem é a caixa?

FAGUNDES

É minha, que a que eu tinha toda se desfaz em caruncho.

SEMICÚPIO

Pois esta não se livrará da traça, que intento usar com ela. (Aparte.) Vamos, Senhora. (Vai-se.)

FAGUNDES

Ande, meu filho. (Vai-se.)

(Entra D. Gilvaz.)

D. GILVAZ

Aonde irá Semicúpio com a velha? O maldito não perde ocasião. Com semelhante jardineiro não murchará o alecrim de D. Clóris; porém ele lá vem com uma caixa às costas.

(Entra Semicúpio com uma caixa às costas e logo a põe no chão.)

SEMICÚPIO

Desencontrei-me da velha, que andará tonta por mim...

D. GILVAZ

Que é isto, Semicúpio?

SEMICÚPIO

Não lhe importe, vá-se enrolando, que se há-de meter aqui dentro e hei-de levar esse corpinho à casa de D. Clóris.

D. GILVAZ

Isso é quimera; como posso eu caber aí?

SEMICÚPIO

Isso não me importa a mim; abata as presunções, que logo caberá em toda a parte.

D. GILVAZ

E como havemos de abri-la, que está fechada?

SEMICÚPIO

Não sabe que a irmã gazua sempre me acompanha? Eu a abro. (Abre.)

D. GILVAZ

Esta tramóia é mui arriscada. Que tem dentro?

SEMICÚPIO

Eu vejo uns trapos estendidos. Ande, ande, que nos importa a nós.

D. GILVAZ

Ora vamos a isso. Ai Clóris, quanto me custas!

(Mete-se D. Gilvaz na caixa, e a fecha Semicúpio e logo a põe às costas e

dentro também virá D. Fuas.)

SEMICÚPIO

Não há-de ser má esta encaixação. Arre, o que pesa a criança!

D. FUAS

Ai, que me esmagam os narizes!

D. GILVAZ

Quem está aqui? Espera, vejamos o que é.

SEMICÚPIO

O que for lá se achará.

D. GILVAZ

Espera, que isto é traição.

D. FUAS

Homem dos diabos, não me esborraches.

D. GILVAZ

Aque-d’el-rei, não há quem me acuda?

SEMICÚPIO

Cale-se, tamanhão, que para boa casa vai. (Vão-se.)