Guerras do Alecrim e Manjerona
Parte II
CENA I
Praça. Entram D. Gil e Semicúpio.
D. GILVAZ
Ainda não sei cabalmente aplaudir a tua indústria, ó insigne Semicúpio.
SEMICÚPIO
Nem aplaudir, nem agradecer, Senhor D. Gilvaz.
D. GILVAZ
As tuas ideias são tão impossíveis de aplaudir, como de agradecer; pois todo o prémio é diminuto, e todo o louvor limitado.
SEMICÚPIO
Visto isso, eu mesmo tenho a culpa de não ser premiado; porque, se eu não servira tão bem, estaria mais bem servido. Senhor meu, eu nunca fui amigo de palanfrórios; mais obras e menos palavras; eu quero que me ajuste a minha conta.
D. GILVAZ
Para quê?
SEMICÚPIO
Para pôr-me no olho da rua, que serei mais bem visto.
D. GILVAZ
Semicúpio, nem sempre o Diabo há-de estar atrás da porta.
SEMICÚPIO
Sim, porque entrará para dentro de casa.
D. GILVAZ
Calte, que se consigo a D. Clóris com seu dote e arras, eu te prometo que andes numa boleia.
SEMICÚPIO
Senhor, não me ande com a cabeça à roda com essas promessas; era melhor que os prémios andassem a rodo.
(Entra Fagundes.)
FAGUNDES
Lá deixo a D. Fuas metido numa caixa, para o introduzir com D. Nise em casa sem sustos, como da outra vez; tomara achar um homem que ma carregasse.
D. GILVAZ
Lá vem a velha, criada de D. Clóris.
SEMICÚPIO
Retire-se vossa mercê e deixe-me com ela.
D. GILVAZ
Pois eu aqui te espero. (Vai-se.)
FAGUNDES
Ó filho, por vida vossa quereis levar-me uma caixa?
SEMICÚPIO
Com quê, achou-me vossa mercê com ombros de mariola?
FAGUNDES
Pois perdoe-me, que cuidei que era homem de ganhar.
SEMICÚPIO
Todos nesta vida somos homens de ganhar; porém o modo é que desautoriza.
FAGUNDES
Isto não era mais que levar uma caixa às costas.
SEMICÚPIO
Pois se não é mais do que isso, entendo que não estará mal à minha pessoa.
FAGUNDES
Qual mal? Antes lhe estará muito bem.
SEMICÚPIO
Mas advirta que isto em mim não é ofício; é uma mera curiosidade.
FAGUNDES
Ora Deus lhe dê saúde; olhe, ela pesa pouco e vai aqui para casa de D. Lancerote.
SEMICÚPIO
E de quem é a caixa?
FAGUNDES
É minha, que a que eu tinha toda se desfaz em caruncho.
SEMICÚPIO
Pois esta não se livrará da traça, que intento usar com ela. (Aparte.) Vamos, Senhora. (Vai-se.)
FAGUNDES
Ande, meu filho. (Vai-se.)
(Entra D. Gilvaz.)
D. GILVAZ
Aonde irá Semicúpio com a velha? O maldito não perde ocasião. Com semelhante jardineiro não murchará o alecrim de D. Clóris; porém ele lá vem com uma caixa às costas.
(Entra Semicúpio com uma caixa às costas e logo a põe no chão.)
SEMICÚPIO
Desencontrei-me da velha, que andará tonta por mim...
D. GILVAZ
Que é isto, Semicúpio?
SEMICÚPIO
Não lhe importe, vá-se enrolando, que se há-de meter aqui dentro e hei-de levar esse corpinho à casa de D. Clóris.
D. GILVAZ
Isso é quimera; como posso eu caber aí?
SEMICÚPIO
Isso não me importa a mim; abata as presunções, que logo caberá em toda a parte.
D. GILVAZ
E como havemos de abri-la, que está fechada?
SEMICÚPIO
Não sabe que a irmã gazua sempre me acompanha? Eu a abro. (Abre.)
D. GILVAZ
Esta tramóia é mui arriscada. Que tem dentro?
SEMICÚPIO
Eu vejo uns trapos estendidos. Ande, ande, que nos importa a nós.
D. GILVAZ
Ora vamos a isso. Ai Clóris, quanto me custas!
(Mete-se D. Gilvaz na caixa, e a fecha Semicúpio e logo a põe às costas e
dentro também virá D. Fuas.)
SEMICÚPIO
Não há-de ser má esta encaixação. Arre, o que pesa a criança!
D. FUAS
Ai, que me esmagam os narizes!
D. GILVAZ
Quem está aqui? Espera, vejamos o que é.
SEMICÚPIO
O que for lá se achará.
D. GILVAZ
Espera, que isto é traição.
D. FUAS
Homem dos diabos, não me esborraches.
D. GILVAZ
Aque-d’el-rei, não há quem me acuda?
SEMICÚPIO
Cale-se, tamanhão, que para boa casa vai. (Vão-se.)