Guerras do Alecrim e Manjerona

António José da Silva · Capítulo 4 de 12

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Guerras do Alecrim e Manjerona

Cena Iii

Praça. No fim haverá uma janela. Entra D. Gilvaz, embuçado.

 

D. GILVAZ

Disse a Semicúpio que aqui o esperava; mas tarda tanto, que entendo o apanharam na empresa. Mas se será aquele que aí vem? Não é Semicúpio, que ele não tem capote. Quem será?

(Entra Semicúpio embuçado em um capote.)

SEMICÚPIO

Lá está um vulto embuçado no meio do caminho; queira Deus não me cheguem ao vulto; não sei se torne para trás, mas pior é mostrar cobardia; eu faço das tripas coração; vou chegando, mas sempre de longe.

D. GILVAZ

Ele se vem chegando, e eu confesso que não estou todo trigo.

SEMICÚPIO

Este homem não está aqui para bom fim; eu finjo-me valente: afaste-se lá, deixe-me passar, aliás, o passarei.

D. GILVAZ

Vossa mercê pode passar.

SEMICÚPIO

Ai, que é D. Gil! Pois agora farei com que me tenha por valeroso. Quem está aí? Fale, quando não, despeça-se desta vida, que o mando para a outra.

D. GILVAZ

Primeiro perderá a sua quem me intenta reconhecer.

SEMICÚPIO

Tenha mão, Senhor D. Gilvaz, que sou Semicúpio.

D. GILVAZ

Se não falas, talvez que a graça te saísse cara.

SEMICÚPIO

Igual vossa mercê, que, se o não conheço pela voz, sem dúvida, Senhor D. Gilvaz, lhe prego com o seu nome na cara.

D. GILVAZ

Deixemos isso, dá-me novas de D. Clóris; dize, pudeste dar-lhe o recado?

SEMICÚPIO

Não sabe que sou o César dos alcoviteiros? Fui, vi e venci.

D. GILVAZ

Dá-me um abraço, meu Semicúpio.

SEMICÚPIO

Não quero abraços, venham as alvíssaras, senão, emudeci como Oráculo.

D. GILVAZ

Em casa tas darei. Conta-me primeiro: que fazia D. Clóris?

SEMICÚPIO

Isso são contos largos, estava toda rodeada de braseiros de alecrim, com um grande molho dele no peito, cheirando a Rainha de Hungria, mascando alecrim como quem masca tabaco de fumo; e, como acabava de jantar, vinha palitando com um palito de alecrim; e finalmente, Senhor, com o alecrim anda toda tão verde, como se tivesse tirícia.

D. GILVAZ

E do mais que passaste?

SEMICÚPIO

Isso é para mais devagar, basta que saiba, por ora, que, apenas lancei o anzol no mar da simplicidade de D. Clóris, picando logo na minhoca do engano, ficou engasgalhada com o engodo de mil patranhas que lhe encaixei à mão tente.

D. GILVAZ

Incríveis são as tuas habilidades: e que capote é esse?

SEMICÚPIO

Este é o despojo do meu triunfo; joguei com o velho os centos e ganhei-lhe este capote; e, se vossa mercê soubera a virtude que ele tem, pasmaria.

D. GILVAZ

Que virtude tem?

SEMICÚPIO

É um grande remédio para sarar acidentes de gota coral.

D. GILVAZ

Conta-me isso.

(Entra D. Fuas embuçado.)

SEMICÚPIO

Falemos de manso, que aí vem um homem.

D. FUAS

Esta é a janela da cozinha de D. Nise, que apesar da escuridade da noite a conhece o meu instinto pelos eflúvios odoríferos que exala a Pancaia daquela Fénix.

D. GILVAZ

Semicúpio, um homem ao pé da janela de D. Clóris? Isto não me cheira bem.

SEMICÚPIO

Como lhe há-de cheirar bem, se isto aqui é um monturo?

(Aparece Fagundes à janela.)

FAGUNDES

Cé, é vossa mercê mesmo?

D. FUAS

Sou eu mesmo, e não outro, que impaciente espero novas de meu bem.

D. GILVAZ

Não ouviste aquilo, Semicúpio?

SEMICÚPIO

Aquilo é que não cheira bem, Senhor D. Gilvaz.

FAGUNDES

Não basta que vossa mercê diga que é mesmo, é necessário a senha e a contra-senha.

D. FUAS

Pois atenda.

(Canta D. Fuas o seguinte:)

MINUETE

Já que a fortuna

Hoje me abona,

A Manjerona

Quero exaltar.

No seu triunfo

Que a fama entoa,

Palma e coroa

Há-de levar.

Há-de por certo,

Que a sua rama

Na voz da fama

Sempre andará.

D. GILVAZ

Este é D. Fuas, pela senha da manjerona; que te parece, Semicúpio, o quanto tem adiantado o seu amor?

SEMICÚPIO

Quidquid sit, o primeiro milho é dos pássaros, o segundo é cá para os melros.

FAGUNDES

Suba por esta escada. (Lança a escada.)

D. FUAS

Segure bem. (Sobe.)

SEMICÚPIO

Senhor D. Gilvaz, agora é tempo de subir também, pois estamos em era de atrepar; não perca a ocasião.

D. GILVAZ

Vem tu também. (Sobe.)

SEMICÚPIO

Eu também vou a render, à escala vista, esse castelo de Cupido.

FAGUNDES

Tenha mão, Senhor, que é o que quer?

D. GILVAZ

Manjerona.

FAGUNDES

Vossa mercê, fidalgo, quem procura?

SEMICÚPIO

Também manjerona, em lugar de Sevadilha, que tudo faz bom tabaco.

FAGUNDES

Isto cá está por estanque, não entra quem quer.

SEMICÚPIO

Se não entra quem quer, entrará quem não quer.

FAGUNDES

Vá-se daí, que não conheço Framengos à meia-noite.

SEMICÚPIO

Tem mão, não me empurres.

FAGUNDES

Não há-de entrar.

SEMICÚPIO

Ó mulher, não me precipites, que sou capaz de te escalar.

FAGUNDES

Vá-se cos diabos, seja quem for.

(Empurra a escada, e esta cai com Semicúpio.)

SEMICÚPIO

Ai, que me derreaste, bruxa infernal! Tu me pagarás o semicúpio que me fizeste tomar. Estes são os ossos do ofício; mas, para que tudo não sejam ossos, vamos levando esta escada, que sempre valerá alguma cousa; ao menos, se não morri da queda, vou para casa com uma escada.

(Vai-se Semicúpio e leva a escada.)