Guerras do Alecrim e Manjerona

António José da Silva · Capítulo 11 de 12

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Guerras do Alecrim e Manjerona

Cena Vi

Vista de quintal, em que haverá alguns alegretes e uma capoeira, e vêm D.

Gilvaz e Semicúpio descendo por uma corda.

 

D. GILVAZ

Semicúpio, deixa-me descer eu primeiro, para que se não quebre a corda com o peso de ambos. (Desce.)

SEMICÚPIO

Agarre-se bem à corda, deixe-se escorregar.

D. GILVAZ

Ora já cá estou; mas eu não paro aqui, até encontrar com D. Clóris. (Vai-se.)

(Entra D. Lancerote.)

D. LANCEROTE

Este quintal é o meu divertimento e encanto; um homem aqui assentado e tomando o fresco, não há maior regalo.

SEMICÚPIO

Agora já poderei descer afoitamente.

D. LANCEROTE

Que é isto que cai sobre mim? Quem me acode!

(Ao descer, Semicúpio cai sobre D. Lancerote.)

SEMICÚPIO

(Aparte)

Não é nada, escarranchei-me no velho cuidando que era poial; estou bem aviado!

D. LANCEROTE

Mas que vejo? Aque-d’el-rei, ladrões!

SEMICÚPIO

Não o disse eu?

D. LANCEROTE

Ladrão, velhacão, tu descendo por uma corda os altos muros de meu quintal? Pois com essa mesma corda te atarei de pés e mãos, até que amanheça, para entregar-te à justiça.

SEMICÚPIO

É bem feito, já que eu mesmo dei a corda para me enforcar.

D. LANCEROTE

Dá cá os braços.

SEMICÚPIO

Já está meu amigo? Quer-me abraçar?

D. LANCEROTE

Anda cá, ladrão, mostra cá os pulsos.

SEMICÚPIO

Não tenho febre.

D. LANCEROTE

Anda, que atado hás-de ficar.

SEMICÚPIO

Senhor, por sua vida, que me não ate; basta o enlevo em que me vejo.

D. LANCEROTE

Dize: a que vieste a este quintal?

SEMICÚPIO

Ora, Senhor, ate-me muito embora, mas não me aperte por isso.

D. LANCEROTE

Por isso é que eu te aperto; hás-de confessar a que vieste.

SEMICÚPIO

(Aparte)

Eu estou atado, não sei o que lhe responda.

D. LANCEROTE

Qual foi o fim que aqui te trouxe?

SEMICÚPIO

A dar fim à minha vida, por dar princípio à minha morte por meios desta corda, que, falsa, me entregou nas mãos de vossa mercê.

D. LANCEROTE

Vieste roubar-me, não é verdade?

SEMICÚPIO

Sim, Senhor, mas foi a roubar-lhe as atenções.

D. LANCEROTE

Anda, ladrãozinho, para a capoeira donde ficarás atado.

SEMICÚPIO

Para onde, Senhor?

D. LANCEROTE

Para a capoeira, até que venha o Sol a ser testemunha do teu latrocínio.

SEMICÚPIO

Pois vossa mercê quer encapoeirar-me? Graças a Deus que não sou cá nenhuma galinha, mas sabe porque fala? Porque me acha atado, quando não, havíamos jogar as cristas.

D. LANCEROTE

Anda, ladrão, que aqui ficarás até amanhecer. (Vai-se.)

SEMICÚPIO

Ora, criado Senhor Semicúpio: já sabemos que isto é meio caminho andado para a forca; mas é bem feito que isto a mim me suceda. Que tinha eu cá com D. Gil? Pois, para que ele fosse galo, me vejo eu feito galinha, se bem que já podia ser frango pelo esfrangalhado; o magano estará a estas horas entre glórias e eu entre penas; ele voando na esfera de amor, e eu de asa caída na gema dos ovos.

(Entra Fagundes.)

FAGUNDES

Que mais me falta para fazer? Eu já fiz a cama a todos; já fiz a selada de rabos para cearmos; já temperei as gaitas para o galego; já assei o fricassé; já cosi um guardanapo; agora me falta deitar os arenques de molho, para ficar com as mãos lavadas. Ora sou uma tonta, esquecia-me o melhor, que é matar uma galinha para o doente, e mais trazia a faca na mão para isso.

SEMICÚPIO

Eu o estava dizendo; grande desgraça é ser um homem galinha, pois até de uma mulher tem medo.

FAGUNDES

Mas confesso que não sou para ver sangue, que logo desmaio; porém, eu fecho os olhos e meto a faca, que alguma ficará espichada.

SEMICÚPIO

Oh, mulher! Deus te tire isso do pensamento.

FAGUNDES

Qual! Eu sou muito melindrosa e fusilânima; não tenho valor para matar uma formiga. Ora lá vai a Deus, e à ventura.

SEMICÚPIO

Sem falência, eu morro de morte galinhal! Não há mais remédio que falar à velha; mas, se lhe falo, é capaz de acordar o cão do velho, que está dormindo, e encerrar-me em parte mais apertada. Não sei o que faça; pois tal estou, que, se a velha me mata, não tenho no corpo pinga de sangue para deitar.

FAGUNDES

Para que é cansar? Eu são sou sanguinolenta.

(Entra Sevadilha.)

SEVADILHA

Fagundes, o Senhor está desesperado por você; que faz aí?

FAGUNDES

Já que vieste, matarás uma galinha, que eu não me atrevo. (Vai-se.)

SEMICÚPIO

Lá vem a Sevadilha! Ora o certo é que donde a galinha tem os ovos, aí se lhe vão os olhos.

SEVADILHA

Aborrece-me gente melindrosa; vejam agora que dó pode haver de matar um animal? Verão como eu faço isto brincando.

SEMICÚPIO

Não são bons brincos esses, Sevadilha; mas, se tu já me tens morto, para que me queres tornar a matar?

SEVADILHA

Ai, que estamos em tempo que falam os animais! Este, pela voz, é Semicúpio.

SEMICÚPIO

Eu sou que te falo de papo; é o teu Semicúpio que está feito semigalo.

SEVADILHA

Quem te meteu aí?

SEMICÚPIO

O velho, por eu ser metediço.

SEVADILHA

Pois como foi?

SEMICÚPIO

Já me não lembra, que eu tenho memória de galo.

SEVADILHA

Anda cá para fora.

SEMICÚPIO

Não posso, sem tu me enxotares daqui.

SEVADILHA

Como não podes, se eu sei que muito pode o galo no seu poleiro?

SEMICÚPIO

Isso seria se o velho me não desasara.

SEVADILHA

Não sabes o bem que me pareces nessa capoeira! Estás guapo! Estás frança!

SEMICÚPIO

Sim, estou frança, porque estou feito galo.

SEVADILHA

Pois dá-me das tuas penas para um regalo.

SEMICÚPIO

Pois tu te regalas com as minhas penas?

SEVADILHA

Não, mas folgo de ver-te feito alma em pena.

SEMICÚPIO

Que fará, se souberas que estou todo coberto de penas vivas? Ora anda, Sevadilha, tira-me de mais penas.

(Cantam Semicúpio e Sevadilha a seguinte:)

ÁRIA A DUO

SEVADILHA

Meu franguinho

Topetudo

Como é galantinho!

Que lindo que está!

SEMICÚPIO

Minha bela

Malfazeja,

Caí na esparrela,

Liberta-me já.

SEVADILHA

Coitada da pila,

Pila, pila, pila,

Que te hão-de pilar.

SEMICÚPIO

Acode-me, filha,

Que estou há meia hora

A cacarejar.

AMBOS

Que triste cantar

É o cacarejar!

SEVADILHA

Mas não te agastes,

Que eu vou-te a soltar.

SEMICÚPIO

Vem já, que não posso

Mais tempo penar.

AMBOS

Que é pena, que é mágoa,

Que uma ave de pena

Não possa voar.

SEMICÚPIO

Anda, deita-me pela porta fora, ainda que seja aos coices. (Vai-se.)

SEVADILHA

Ora vamos. (Vai-se.)

(Entra D. Fuas.)

D. FUAS

Para este quintal, ou jardim, ou o que for, me disse Fagundes viera D. Nise a regar a sua manjerona; mas, enquanto ela não vem, me esconderei atrás deste canteiro de alecrim, pois da manjerona não quero auxílios para encobrir-me dos argentados esplendores da Lua, que tão clara se ostenta esta noite, talvez avisando-me, na clara inconstância de seus raios, a variedade de D. Nise. (Esconde-se da banda do alecrim.)

(Entra D. Gilvaz.)

D. GILVAZ

Grande temeridade foi a minha, pois, sem avisar a D. Clóris, me expus a penetrar os quartos desta casa, com o perigo de me encontrar D. Lancerote; mas sem dúvida Clóris virá a este seu jardim a namorar o seu alecrim; e assim, escondido nas sombras destas plantas... Mas ai, que é manjerona! Perdoa, Clóris, que esta acção foi um acaso, e não eleição. (Esconde-se da banda da manjerona.)

(Entram D. Nise e D. Clóris, cada uma pela sua parte, com aguadores na

mão, regando e cantando o seguinte:)

D. NISE

Sois no céu de Flora,

Manjerona bela,

Não só verde estrela,

Mas luzida flor.

D. CLÓRIS

Alecrim florido,

Que de Abril na esfera

Sois na Primavera

Fragrante primor.

AMBAS

Esta pura neve,

Que tributa Flora,

São risos da Aurora,

E lágrimas de amor.

RECITADO

D. NISE

Mas que vejo? (Ai de mim!) Quem, arrogante,

Da manjerona usurpa o ser fragrante?

D. GILVAZ

Quem, ó Nise, escondido amante espera

O Sol que adoro nesta verde esfera? (Sai.)

D. FUAS

Pois, traidor, como assim tirano intentas,

Roubar-me a Nise, que meu peito adora? (Sai.)

E tu, falsa inimiga. Mas ai, triste,

Que mal a tanta pena a dor resiste!

D. CLÓRIS

E tu, falso D. Gil, que em torpe insulto

Buscas a manjerona, amante oculto,

Deixa-me, fementido…

D. GILVAZ

Atende, ó Clóri,

Que sem causa fulminas teus rigores,

Quando em puros ardores

Nas chamas do alecrim feliz me abraso.

D. NISE

Sem motivo, D. Fuas, me criminas, porque eu firme...

D. GILVAZ

E eu constante...

D. GILVAZ e D. NISE

Fiel te adoro e te busco amante.

ÁRIA A QUATRO

D. GILVAZ

Atende, ó Clóri, atende,

Verdades, de quem sabe

Ser firme em te adorar.

D. CLÓRIS

Suspende, infiel, suspende

Injúrias, de quem sabe

Jamais te acreditar.

D. FUAS

Nise ingrata, infiel amigo,

Cesse a bárbara indecência,

Que a evidência

Não se pode equivocar.

D. GILVAZ e D. NISE

Pois tu só, querida prenda.

D. FUAS e D. CLÓRIS

Já não creio os teus enganos,

D. GILVAZ e D. NISE

Nas purezas de meu peito

Felizmente viverás,

D. FUAS E D. CLÓRIS

Nos rigores de meu peito

Teu castigo encontrarás.

TODOS

Mas, ó cego amor tirano,

Como posso em tanto dano

Teu estrago idolatrar?

(Chega Fagundes.)

FAGUNDES

Já acabaram de cantar? Pois agora entrem a chorar.

D. CLÓRIS

Porquê, Fagundes?

FAGUNDES

Porque o Senhor seu tio diz que logo vem ao quintal, afirmando que há ladrões em casa; e diz que se não há-de deitar esta noite, ainda que faça rosa divina.

D. GILVAZ

Aonde estará Semicúpio?

FAGUNDES

Não aparece; Senhores, escondam-se, e não digam ao depois que duro foi, e mal se cozeu.

D. NISE

Metam-se nesta capoeira entretanto.

D. GILVAZ

E que remédio, já que Semicúpio não aparece?

D. FUAS

A necessidade sabe unir a quem se deseja separar. Nise cruel, eu me escondo na capoeira, que só o lugar das penas é o centro de um amante infeliz. (Mete-se na capoeira.)

D. GILVAZ

Quem serve a Cupido, às vezes é leão, às vezes galinha. (Mete-se na capoeira.)

FAGUNDES

Ah, Senhores, não me esmaguem os ovos de uma galinha, que aí está de choco.

(Entram D. Tibúrcio e Sevadilha.)

SEVADILHA

Senhor, não me persiga! Olhem o diabo do homem!

D. TIBÚRCIO

Aí no quintal te quero. Mas aqui está Clóris e Nise. Remediarei o negócio. Esta moça faz zombaria de mim; deixa-me tu casar, que eu te porei a caminho.

D. CLÓRIS

Que é isso, primo? Como, estando doente e tão perigoso, vem a estas horas ao sereno?

D. TIBÚRCIO

Que há-de ser, se vocês não sabem ensinar esta rapariga, pois nada lhe digo que não faça às avessas? De sorte que me fez vestir e sair atrás dela, como desesperado das perrices que me faz.

D. NISE

Tu não queres, Sevadilha, senão ser descortês a meu primo?

FAGUNDES

Vossas mercês não querem crer que se há-de fazer desta moça a peste, fome e guerra.

SEVADILHA

Para que estamos com arcas encoiradas? O Senhor D. Tibúrcio anda-me ao sucário e não me deixa uma hora nem instante.

D. TIBÚRCIO

Calte, mentirosa!

FAGUNDES

Isso tem ela, que levanta um testemunho como quem levanta uma palha.

D. CLÓRIS

Não nos importa essa averiguação; só digo, Senhor D. Tibúrcio, que parece muito mal estar vossa mercê aqui connosco a estas horas, e que pode vir meu tio e achar-nos com vossa mercê; que, suposto seja primo e com tentações de noivo, sempre o recato e decência se deve conservar; e assim, lhe pedimos em cortesia se vá para o seu quarto.

SEVADILHA

Ande, vá despejando o beco.

D. TIBÚRCIO

Nem eu quisera que meu tio me achasse aqui, por nenhum modo; mas, coitado de mim, que ele lá vem! Tomara que me não visse.

SEVADILHA

Pois esconda-se nessa capoeira.

D. TIBÚRCIO

Dizes bem.

D. CLÓRIS

Estás louca, Sevadilha? Meu primo há-de se lá meter numa capoeira? Isso não.

D. TIBÚRCIO

Não importa, que para conservar o seu recato me meterei na parte mais imunda. (Entra na capoeira.)

D. NISE

Estamos perdidas, que lá se encontra com os dous! Que fizeste, maldita?

SEVADILHA

Eu bem sei o que fiz: verão que peça lhe prego.

D. GILVAZ

Este deve ser Semicúpio. És tu, Semicúpio?

D. TIBÚRCIO

Qual Semicúpio? Sou uma semibala para ele. Quem está aqui? Ó Sevadilha, abre-me a porta, que eu quero sair, corra a água por onde correr!

SEVADILHA

Cale-se, que aí vem o velho.

D. FUAS

Que tal me suceda!

D. GILVAZ

Estou tremendo!

D. NISE e D. CLÓRIS

Estamos perdidas!

(Entram D. Lancerote com uma luz na mão, e Semicúpio vestido de ministro

com vara na mão.)

SEMICÚPIO

Não se assustem, minhas Senhoras, que isto não é mais do que uma diligência.

D. LANCEROTE

Vossa mercê poupou-me o trabalho de o ir procurar de manhã, para lhe entregar um ladrão que tenho preso naquela capoeira.

SEMICÚPIO

A isso mesmo venho, que já tive quem disso me avisasse.

D. NISE

(Aparte)

Que será isto?

D. CLÓRIS

(Aparte)

São infortúnios meus.

FAGUNDES

(Aparte)

Demos com o pé na peia.

SEVADILHA

(Aparte)

Folgo por amor de D. Tibúrcio.

SEMICÚPIO

Hoje todos hão-de mamar o chasco, que a ninguém me hei-de dar a conhecer. Ora, meu Senhor, como foi este caso?

D. LANCEROTE

Suponha vossa mercê que, acabada uma junta de médicos, que vieram assistir a meu sobrinho, sendo já quase noite, estando eu assentado junto daquela manjerona, que não me deixará mentir, veio descendo um homem por uma corda, e, cuidando que eu era poial, me pôs o pé no cachaço.

SEMICÚPIO

Isso foi o mesmo que pôr-lhe o pé no pescoço. Não há maior desaforo!

D. LANCEROTE

Assustei-me, não há dúvida, quando me vi daquela sorte oprimido; mas, tornando a mim, fui sobre ele e, conhecendo que era ladrão, o prendi nessa capoeira, donde a perspicaz diligência de vossa mercê saberá melhor obrar do que eu falar.

SEMICÚPIO

E como conheceu vossa mercê que era ladrão?

D. LANCEROTE

Pela cara, que era a mais horrenda que meus olhos viram.

SEMICÚPIO

(Aparte)

Estou já desenganado que sou feio.

D. LANCEROTE

Ande vossa mercê e verá.

SEMICÚPIO

Ah, sô ladrão, saia cá para fora.

D. FUAS

Vossa mercê vem enganado, porque eu... (Sai.) (Há maior desgraça!) Sou um homem bem-nascido.

SEMICÚPIO

(Aparte)

É D. Fuas; quem me dera ver a D.Gil, que é o que cá me traz.

D. LANCEROTE

Senhor, este não é o ladrão que eu encerrei.

SEMICÚPIO

Já se vê que este não é tão feio como vossa mercê diz; vejamos se está lá mais algum! Oh, cá está mais outro; venite ad cam para foram! (Aparte.) Ai, que é D. Gil! Já estou descansado.

D. LANCEROTE

Também não é este o ladrão que eu aqui encerrei.

D. GILVAZ

Claro está que não sou eu, pois eu, graças a Deus, não necessito de furtar.

D. LANCEROTE

E que faziam vossas mercês aqui, se não eram ladrões?

SEMICÚPIO

Essa inquirição me pertence a mim, que sou juiz privativo desta causa; e vossa mercê, meu amo, não se costume a mentir aos ministros de vara grossa, dizendo-me que o ladrão era feio e horrendo, quando vemos que estes Senhores são mui bem estreados.

D. LANCEROTE

Senhor juiz, por vida minha, que era o mais feio homem que vi em meus dias.

SEMICÚPIO

Cale-se, não minta, que o hei-de mandar carregar de ferros.

D. LANCEROTE

Ora, Senhor, torne vossa mercê a ver a capoeira, que, assim como achou dous, que eu não meti, talvez que ache o que eu encerrei.

SEMICÚPIO

Já não tenho mais que buscar.

D. LANCEROTE

Faça-me esse gosto, que pode lá estar ainda mais algum.

SEVADILHA

Isso se perde? Veja, Senhor Doutor.

SEMICÚPIO

Bem sei que vou debalde, mas eu vou. Mas não, entre vossa mercê, que me não quero encher de piolhos; ande, que lhe dou patente de quadrilheiro.

D. LANCEROTE

Eu vou, que quero agora apurar este enigma. Ai, que ele aqui está! Não o disse eu?

SEMICÚPIO

Traga-o cá para fora.

D. LANCEROTE

Ei-lo aqui. Mas que vejo! Não sois vós, meu sobrinho?

D. TIBÚRCIO

Eu sou, por meus pecados.

D. LANCEROTE

Eu estou besta em besta.

SEMICÚPIO

Este sim, que é o ladrão, que tem horrendíssima cara; todos três venham comigo.

D. NISE

(Aparte)

Ai, D. Fuas, que estou sem alma!

D. CLÓRIS

(Aparte)

Ai, D. Gil, que estou sem vida!

D. LANCEROTE

Senhor, advirta que este é meu sobrinho.

SEMICÚPIO

Por ser seu sobrinho, não pode ser ladrão?

D. LANCEROTE

Senhor, ele mal podia descer pela corda, pois estava doente de cama.

SEMICÚPIO

Pois acaso ele dorme na capoeira?

D. LANCEROTE

Não, senhor.

SEMICÚPIO

Se não dorme, que fazia nela, feito socius criminis destes dois machacazes?

D. LANCEROTE

Sobrinho, a que viestes à capoeira?

D. TIBÚRCIO

Eu, Senhor, estando...

SEMICÚPIO

Chitom! Não me usurpe a jurisdição; já disse que estas averiguações só a mim me pertencem. Vamos andando ad cagarronem.

D. LANCEROTE

Não importa: ide, sobrinho, que Deus é grande.

D. TIBÚRCIO

A minha inocência me livrará.

D. LANCEROTE

Como é a sua graça, meu Senhor?

SEMICÚPIO

O bacharel Petrus in cunctis, juiz de fora daqui, com alçada na vara até o ar.

D. LANCEROTE

Pois, Senhor bacharel Petrus in cunctis, saiba vossa mercê de caminho que também me furtaram um capote de saragoça em muito bom uso.

SEMICÚPIO

Capote de saragoça é caso de devassa: notificados vossas mercês todos, para que em amanhecendo venham jurar a minha casa sobre este furto.

D. LANCEROTE

E aonde mora vossa mercê?

SEMICÚPIO

Junto a um D. Gilvaz, que mora...

D. LANCEROTE

Já sei. Eu perguntarei.

SEMICÚPIO

Pois lá estará quem lhe responda.

D. GILVAZ

(Aparte)

Ai, que é Semicúpio! Agora reparo, já estou sem susto.

SEMICÚPIO

Vamos; amanhã todos a minha casa, sob pena de prisão. (Vai-se.)

D. FUAS

(Aparte)

Ai, Nise, que as tuas falsidades me puseram neste estado! (Vai-se.)

D. TIBÚRCIO

Tio, trate logo de soltar-me. (Vai-se.)

D. GILVAZ

Quem não deve, não teme. (Vai-se.)

D. LANCEROTE

Que mal sossegarei esta noite, indo preso meu sobrinho, se não aparecer o ladrão que eu prendi! Não há homem mais desgraçado! (Vai-se.)

D. NISE

Tal estou de sentimento, que até me faltam as lágrimas para o alívio. (Vai-se.)

FAGUNDES

Eis aqui os alecrins e manjeronas: cousas de ervas é para bestas. (Vai-se.)

SEVADILHA

E de que escapou Semicúpio! Também alguma alma boa rezou por ele. (Vai-se.)

D. CLÓRIS

Ai, D. Gil, que a tua desgraça será a causa de minha morte! (Vai-se.)