Guerras do Alecrim e Manjerona
Cena Vi
Vista de quintal, em que haverá alguns alegretes e uma capoeira, e vêm D.
Gilvaz e Semicúpio descendo por uma corda.
D. GILVAZ
Semicúpio, deixa-me descer eu primeiro, para que se não quebre a corda com o peso de ambos. (Desce.)
SEMICÚPIO
Agarre-se bem à corda, deixe-se escorregar.
D. GILVAZ
Ora já cá estou; mas eu não paro aqui, até encontrar com D. Clóris. (Vai-se.)
(Entra D. Lancerote.)
D. LANCEROTE
Este quintal é o meu divertimento e encanto; um homem aqui assentado e tomando o fresco, não há maior regalo.
SEMICÚPIO
Agora já poderei descer afoitamente.
D. LANCEROTE
Que é isto que cai sobre mim? Quem me acode!
(Ao descer, Semicúpio cai sobre D. Lancerote.)
SEMICÚPIO
(Aparte)
Não é nada, escarranchei-me no velho cuidando que era poial; estou bem aviado!
D. LANCEROTE
Mas que vejo? Aque-d’el-rei, ladrões!
SEMICÚPIO
Não o disse eu?
D. LANCEROTE
Ladrão, velhacão, tu descendo por uma corda os altos muros de meu quintal? Pois com essa mesma corda te atarei de pés e mãos, até que amanheça, para entregar-te à justiça.
SEMICÚPIO
É bem feito, já que eu mesmo dei a corda para me enforcar.
D. LANCEROTE
Dá cá os braços.
SEMICÚPIO
Já está meu amigo? Quer-me abraçar?
D. LANCEROTE
Anda cá, ladrão, mostra cá os pulsos.
SEMICÚPIO
Não tenho febre.
D. LANCEROTE
Anda, que atado hás-de ficar.
SEMICÚPIO
Senhor, por sua vida, que me não ate; basta o enlevo em que me vejo.
D. LANCEROTE
Dize: a que vieste a este quintal?
SEMICÚPIO
Ora, Senhor, ate-me muito embora, mas não me aperte por isso.
D. LANCEROTE
Por isso é que eu te aperto; hás-de confessar a que vieste.
SEMICÚPIO
(Aparte)
Eu estou atado, não sei o que lhe responda.
D. LANCEROTE
Qual foi o fim que aqui te trouxe?
SEMICÚPIO
A dar fim à minha vida, por dar princípio à minha morte por meios desta corda, que, falsa, me entregou nas mãos de vossa mercê.
D. LANCEROTE
Vieste roubar-me, não é verdade?
SEMICÚPIO
Sim, Senhor, mas foi a roubar-lhe as atenções.
D. LANCEROTE
Anda, ladrãozinho, para a capoeira donde ficarás atado.
SEMICÚPIO
Para onde, Senhor?
D. LANCEROTE
Para a capoeira, até que venha o Sol a ser testemunha do teu latrocínio.
SEMICÚPIO
Pois vossa mercê quer encapoeirar-me? Graças a Deus que não sou cá nenhuma galinha, mas sabe porque fala? Porque me acha atado, quando não, havíamos jogar as cristas.
D. LANCEROTE
Anda, ladrão, que aqui ficarás até amanhecer. (Vai-se.)
SEMICÚPIO
Ora, criado Senhor Semicúpio: já sabemos que isto é meio caminho andado para a forca; mas é bem feito que isto a mim me suceda. Que tinha eu cá com D. Gil? Pois, para que ele fosse galo, me vejo eu feito galinha, se bem que já podia ser frango pelo esfrangalhado; o magano estará a estas horas entre glórias e eu entre penas; ele voando na esfera de amor, e eu de asa caída na gema dos ovos.
(Entra Fagundes.)
FAGUNDES
Que mais me falta para fazer? Eu já fiz a cama a todos; já fiz a selada de rabos para cearmos; já temperei as gaitas para o galego; já assei o fricassé; já cosi um guardanapo; agora me falta deitar os arenques de molho, para ficar com as mãos lavadas. Ora sou uma tonta, esquecia-me o melhor, que é matar uma galinha para o doente, e mais trazia a faca na mão para isso.
SEMICÚPIO
Eu o estava dizendo; grande desgraça é ser um homem galinha, pois até de uma mulher tem medo.
FAGUNDES
Mas confesso que não sou para ver sangue, que logo desmaio; porém, eu fecho os olhos e meto a faca, que alguma ficará espichada.
SEMICÚPIO
Oh, mulher! Deus te tire isso do pensamento.
FAGUNDES
Qual! Eu sou muito melindrosa e fusilânima; não tenho valor para matar uma formiga. Ora lá vai a Deus, e à ventura.
SEMICÚPIO
Sem falência, eu morro de morte galinhal! Não há mais remédio que falar à velha; mas, se lhe falo, é capaz de acordar o cão do velho, que está dormindo, e encerrar-me em parte mais apertada. Não sei o que faça; pois tal estou, que, se a velha me mata, não tenho no corpo pinga de sangue para deitar.
FAGUNDES
Para que é cansar? Eu são sou sanguinolenta.
(Entra Sevadilha.)
SEVADILHA
Fagundes, o Senhor está desesperado por você; que faz aí?
FAGUNDES
Já que vieste, matarás uma galinha, que eu não me atrevo. (Vai-se.)
SEMICÚPIO
Lá vem a Sevadilha! Ora o certo é que donde a galinha tem os ovos, aí se lhe vão os olhos.
SEVADILHA
Aborrece-me gente melindrosa; vejam agora que dó pode haver de matar um animal? Verão como eu faço isto brincando.
SEMICÚPIO
Não são bons brincos esses, Sevadilha; mas, se tu já me tens morto, para que me queres tornar a matar?
SEVADILHA
Ai, que estamos em tempo que falam os animais! Este, pela voz, é Semicúpio.
SEMICÚPIO
Eu sou que te falo de papo; é o teu Semicúpio que está feito semigalo.
SEVADILHA
Quem te meteu aí?
SEMICÚPIO
O velho, por eu ser metediço.
SEVADILHA
Pois como foi?
SEMICÚPIO
Já me não lembra, que eu tenho memória de galo.
SEVADILHA
Anda cá para fora.
SEMICÚPIO
Não posso, sem tu me enxotares daqui.
SEVADILHA
Como não podes, se eu sei que muito pode o galo no seu poleiro?
SEMICÚPIO
Isso seria se o velho me não desasara.
SEVADILHA
Não sabes o bem que me pareces nessa capoeira! Estás guapo! Estás frança!
SEMICÚPIO
Sim, estou frança, porque estou feito galo.
SEVADILHA
Pois dá-me das tuas penas para um regalo.
SEMICÚPIO
Pois tu te regalas com as minhas penas?
SEVADILHA
Não, mas folgo de ver-te feito alma em pena.
SEMICÚPIO
Que fará, se souberas que estou todo coberto de penas vivas? Ora anda, Sevadilha, tira-me de mais penas.
(Cantam Semicúpio e Sevadilha a seguinte:)
ÁRIA A DUO
SEVADILHA
Meu franguinho
Topetudo
Como é galantinho!
Que lindo que está!
SEMICÚPIO
Minha bela
Malfazeja,
Caí na esparrela,
Liberta-me já.
SEVADILHA
Coitada da pila,
Pila, pila, pila,
Que te hão-de pilar.
SEMICÚPIO
Acode-me, filha,
Que estou há meia hora
A cacarejar.
AMBOS
Que triste cantar
É o cacarejar!
SEVADILHA
Mas não te agastes,
Que eu vou-te a soltar.
SEMICÚPIO
Vem já, que não posso
Mais tempo penar.
AMBOS
Que é pena, que é mágoa,
Que uma ave de pena
Não possa voar.
SEMICÚPIO
Anda, deita-me pela porta fora, ainda que seja aos coices. (Vai-se.)
SEVADILHA
Ora vamos. (Vai-se.)
(Entra D. Fuas.)
D. FUAS
Para este quintal, ou jardim, ou o que for, me disse Fagundes viera D. Nise a regar a sua manjerona; mas, enquanto ela não vem, me esconderei atrás deste canteiro de alecrim, pois da manjerona não quero auxílios para encobrir-me dos argentados esplendores da Lua, que tão clara se ostenta esta noite, talvez avisando-me, na clara inconstância de seus raios, a variedade de D. Nise. (Esconde-se da banda do alecrim.)
(Entra D. Gilvaz.)
D. GILVAZ
Grande temeridade foi a minha, pois, sem avisar a D. Clóris, me expus a penetrar os quartos desta casa, com o perigo de me encontrar D. Lancerote; mas sem dúvida Clóris virá a este seu jardim a namorar o seu alecrim; e assim, escondido nas sombras destas plantas... Mas ai, que é manjerona! Perdoa, Clóris, que esta acção foi um acaso, e não eleição. (Esconde-se da banda da manjerona.)
(Entram D. Nise e D. Clóris, cada uma pela sua parte, com aguadores na
mão, regando e cantando o seguinte:)
D. NISE
Sois no céu de Flora,
Manjerona bela,
Não só verde estrela,
Mas luzida flor.
D. CLÓRIS
Alecrim florido,
Que de Abril na esfera
Sois na Primavera
Fragrante primor.
AMBAS
Esta pura neve,
Que tributa Flora,
São risos da Aurora,
E lágrimas de amor.
RECITADO
D. NISE
Mas que vejo? (Ai de mim!) Quem, arrogante,
Da manjerona usurpa o ser fragrante?
D. GILVAZ
Quem, ó Nise, escondido amante espera
O Sol que adoro nesta verde esfera? (Sai.)
D. FUAS
Pois, traidor, como assim tirano intentas,
Roubar-me a Nise, que meu peito adora? (Sai.)
E tu, falsa inimiga. Mas ai, triste,
Que mal a tanta pena a dor resiste!
D. CLÓRIS
E tu, falso D. Gil, que em torpe insulto
Buscas a manjerona, amante oculto,
Deixa-me, fementido…
D. GILVAZ
Atende, ó Clóri,
Que sem causa fulminas teus rigores,
Quando em puros ardores
Nas chamas do alecrim feliz me abraso.
D. NISE
Sem motivo, D. Fuas, me criminas, porque eu firme...
D. GILVAZ
E eu constante...
D. GILVAZ e D. NISE
Fiel te adoro e te busco amante.
ÁRIA A QUATRO
D. GILVAZ
Atende, ó Clóri, atende,
Verdades, de quem sabe
Ser firme em te adorar.
D. CLÓRIS
Suspende, infiel, suspende
Injúrias, de quem sabe
Jamais te acreditar.
D. FUAS
Nise ingrata, infiel amigo,
Cesse a bárbara indecência,
Que a evidência
Não se pode equivocar.
D. GILVAZ e D. NISE
Pois tu só, querida prenda.
D. FUAS e D. CLÓRIS
Já não creio os teus enganos,
D. GILVAZ e D. NISE
Nas purezas de meu peito
Felizmente viverás,
D. FUAS E D. CLÓRIS
Nos rigores de meu peito
Teu castigo encontrarás.
TODOS
Mas, ó cego amor tirano,
Como posso em tanto dano
Teu estrago idolatrar?
(Chega Fagundes.)
FAGUNDES
Já acabaram de cantar? Pois agora entrem a chorar.
D. CLÓRIS
Porquê, Fagundes?
FAGUNDES
Porque o Senhor seu tio diz que logo vem ao quintal, afirmando que há ladrões em casa; e diz que se não há-de deitar esta noite, ainda que faça rosa divina.
D. GILVAZ
Aonde estará Semicúpio?
FAGUNDES
Não aparece; Senhores, escondam-se, e não digam ao depois que duro foi, e mal se cozeu.
D. NISE
Metam-se nesta capoeira entretanto.
D. GILVAZ
E que remédio, já que Semicúpio não aparece?
D. FUAS
A necessidade sabe unir a quem se deseja separar. Nise cruel, eu me escondo na capoeira, que só o lugar das penas é o centro de um amante infeliz. (Mete-se na capoeira.)
D. GILVAZ
Quem serve a Cupido, às vezes é leão, às vezes galinha. (Mete-se na capoeira.)
FAGUNDES
Ah, Senhores, não me esmaguem os ovos de uma galinha, que aí está de choco.
(Entram D. Tibúrcio e Sevadilha.)
SEVADILHA
Senhor, não me persiga! Olhem o diabo do homem!
D. TIBÚRCIO
Aí no quintal te quero. Mas aqui está Clóris e Nise. Remediarei o negócio. Esta moça faz zombaria de mim; deixa-me tu casar, que eu te porei a caminho.
D. CLÓRIS
Que é isso, primo? Como, estando doente e tão perigoso, vem a estas horas ao sereno?
D. TIBÚRCIO
Que há-de ser, se vocês não sabem ensinar esta rapariga, pois nada lhe digo que não faça às avessas? De sorte que me fez vestir e sair atrás dela, como desesperado das perrices que me faz.
D. NISE
Tu não queres, Sevadilha, senão ser descortês a meu primo?
FAGUNDES
Vossas mercês não querem crer que se há-de fazer desta moça a peste, fome e guerra.
SEVADILHA
Para que estamos com arcas encoiradas? O Senhor D. Tibúrcio anda-me ao sucário e não me deixa uma hora nem instante.
D. TIBÚRCIO
Calte, mentirosa!
FAGUNDES
Isso tem ela, que levanta um testemunho como quem levanta uma palha.
D. CLÓRIS
Não nos importa essa averiguação; só digo, Senhor D. Tibúrcio, que parece muito mal estar vossa mercê aqui connosco a estas horas, e que pode vir meu tio e achar-nos com vossa mercê; que, suposto seja primo e com tentações de noivo, sempre o recato e decência se deve conservar; e assim, lhe pedimos em cortesia se vá para o seu quarto.
SEVADILHA
Ande, vá despejando o beco.
D. TIBÚRCIO
Nem eu quisera que meu tio me achasse aqui, por nenhum modo; mas, coitado de mim, que ele lá vem! Tomara que me não visse.
SEVADILHA
Pois esconda-se nessa capoeira.
D. TIBÚRCIO
Dizes bem.
D. CLÓRIS
Estás louca, Sevadilha? Meu primo há-de se lá meter numa capoeira? Isso não.
D. TIBÚRCIO
Não importa, que para conservar o seu recato me meterei na parte mais imunda. (Entra na capoeira.)
D. NISE
Estamos perdidas, que lá se encontra com os dous! Que fizeste, maldita?
SEVADILHA
Eu bem sei o que fiz: verão que peça lhe prego.
D. GILVAZ
Este deve ser Semicúpio. És tu, Semicúpio?
D. TIBÚRCIO
Qual Semicúpio? Sou uma semibala para ele. Quem está aqui? Ó Sevadilha, abre-me a porta, que eu quero sair, corra a água por onde correr!
SEVADILHA
Cale-se, que aí vem o velho.
D. FUAS
Que tal me suceda!
D. GILVAZ
Estou tremendo!
D. NISE e D. CLÓRIS
Estamos perdidas!
(Entram D. Lancerote com uma luz na mão, e Semicúpio vestido de ministro
com vara na mão.)
SEMICÚPIO
Não se assustem, minhas Senhoras, que isto não é mais do que uma diligência.
D. LANCEROTE
Vossa mercê poupou-me o trabalho de o ir procurar de manhã, para lhe entregar um ladrão que tenho preso naquela capoeira.
SEMICÚPIO
A isso mesmo venho, que já tive quem disso me avisasse.
D. NISE
(Aparte)
Que será isto?
D. CLÓRIS
(Aparte)
São infortúnios meus.
FAGUNDES
(Aparte)
Demos com o pé na peia.
SEVADILHA
(Aparte)
Folgo por amor de D. Tibúrcio.
SEMICÚPIO
Hoje todos hão-de mamar o chasco, que a ninguém me hei-de dar a conhecer. Ora, meu Senhor, como foi este caso?
D. LANCEROTE
Suponha vossa mercê que, acabada uma junta de médicos, que vieram assistir a meu sobrinho, sendo já quase noite, estando eu assentado junto daquela manjerona, que não me deixará mentir, veio descendo um homem por uma corda, e, cuidando que eu era poial, me pôs o pé no cachaço.
SEMICÚPIO
Isso foi o mesmo que pôr-lhe o pé no pescoço. Não há maior desaforo!
D. LANCEROTE
Assustei-me, não há dúvida, quando me vi daquela sorte oprimido; mas, tornando a mim, fui sobre ele e, conhecendo que era ladrão, o prendi nessa capoeira, donde a perspicaz diligência de vossa mercê saberá melhor obrar do que eu falar.
SEMICÚPIO
E como conheceu vossa mercê que era ladrão?
D. LANCEROTE
Pela cara, que era a mais horrenda que meus olhos viram.
SEMICÚPIO
(Aparte)
Estou já desenganado que sou feio.
D. LANCEROTE
Ande vossa mercê e verá.
SEMICÚPIO
Ah, sô ladrão, saia cá para fora.
D. FUAS
Vossa mercê vem enganado, porque eu... (Sai.) (Há maior desgraça!) Sou um homem bem-nascido.
SEMICÚPIO
(Aparte)
É D. Fuas; quem me dera ver a D.Gil, que é o que cá me traz.
D. LANCEROTE
Senhor, este não é o ladrão que eu encerrei.
SEMICÚPIO
Já se vê que este não é tão feio como vossa mercê diz; vejamos se está lá mais algum! Oh, cá está mais outro; venite ad cam para foram! (Aparte.) Ai, que é D. Gil! Já estou descansado.
D. LANCEROTE
Também não é este o ladrão que eu aqui encerrei.
D. GILVAZ
Claro está que não sou eu, pois eu, graças a Deus, não necessito de furtar.
D. LANCEROTE
E que faziam vossas mercês aqui, se não eram ladrões?
SEMICÚPIO
Essa inquirição me pertence a mim, que sou juiz privativo desta causa; e vossa mercê, meu amo, não se costume a mentir aos ministros de vara grossa, dizendo-me que o ladrão era feio e horrendo, quando vemos que estes Senhores são mui bem estreados.
D. LANCEROTE
Senhor juiz, por vida minha, que era o mais feio homem que vi em meus dias.
SEMICÚPIO
Cale-se, não minta, que o hei-de mandar carregar de ferros.
D. LANCEROTE
Ora, Senhor, torne vossa mercê a ver a capoeira, que, assim como achou dous, que eu não meti, talvez que ache o que eu encerrei.
SEMICÚPIO
Já não tenho mais que buscar.
D. LANCEROTE
Faça-me esse gosto, que pode lá estar ainda mais algum.
SEVADILHA
Isso se perde? Veja, Senhor Doutor.
SEMICÚPIO
Bem sei que vou debalde, mas eu vou. Mas não, entre vossa mercê, que me não quero encher de piolhos; ande, que lhe dou patente de quadrilheiro.
D. LANCEROTE
Eu vou, que quero agora apurar este enigma. Ai, que ele aqui está! Não o disse eu?
SEMICÚPIO
Traga-o cá para fora.
D. LANCEROTE
Ei-lo aqui. Mas que vejo! Não sois vós, meu sobrinho?
D. TIBÚRCIO
Eu sou, por meus pecados.
D. LANCEROTE
Eu estou besta em besta.
SEMICÚPIO
Este sim, que é o ladrão, que tem horrendíssima cara; todos três venham comigo.
D. NISE
(Aparte)
Ai, D. Fuas, que estou sem alma!
D. CLÓRIS
(Aparte)
Ai, D. Gil, que estou sem vida!
D. LANCEROTE
Senhor, advirta que este é meu sobrinho.
SEMICÚPIO
Por ser seu sobrinho, não pode ser ladrão?
D. LANCEROTE
Senhor, ele mal podia descer pela corda, pois estava doente de cama.
SEMICÚPIO
Pois acaso ele dorme na capoeira?
D. LANCEROTE
Não, senhor.
SEMICÚPIO
Se não dorme, que fazia nela, feito socius criminis destes dois machacazes?
D. LANCEROTE
Sobrinho, a que viestes à capoeira?
D. TIBÚRCIO
Eu, Senhor, estando...
SEMICÚPIO
Chitom! Não me usurpe a jurisdição; já disse que estas averiguações só a mim me pertencem. Vamos andando ad cagarronem.
D. LANCEROTE
Não importa: ide, sobrinho, que Deus é grande.
D. TIBÚRCIO
A minha inocência me livrará.
D. LANCEROTE
Como é a sua graça, meu Senhor?
SEMICÚPIO
O bacharel Petrus in cunctis, juiz de fora daqui, com alçada na vara até o ar.
D. LANCEROTE
Pois, Senhor bacharel Petrus in cunctis, saiba vossa mercê de caminho que também me furtaram um capote de saragoça em muito bom uso.
SEMICÚPIO
Capote de saragoça é caso de devassa: notificados vossas mercês todos, para que em amanhecendo venham jurar a minha casa sobre este furto.
D. LANCEROTE
E aonde mora vossa mercê?
SEMICÚPIO
Junto a um D. Gilvaz, que mora...
D. LANCEROTE
Já sei. Eu perguntarei.
SEMICÚPIO
Pois lá estará quem lhe responda.
D. GILVAZ
(Aparte)
Ai, que é Semicúpio! Agora reparo, já estou sem susto.
SEMICÚPIO
Vamos; amanhã todos a minha casa, sob pena de prisão. (Vai-se.)
D. FUAS
(Aparte)
Ai, Nise, que as tuas falsidades me puseram neste estado! (Vai-se.)
D. TIBÚRCIO
Tio, trate logo de soltar-me. (Vai-se.)
D. GILVAZ
Quem não deve, não teme. (Vai-se.)
D. LANCEROTE
Que mal sossegarei esta noite, indo preso meu sobrinho, se não aparecer o ladrão que eu prendi! Não há homem mais desgraçado! (Vai-se.)
D. NISE
Tal estou de sentimento, que até me faltam as lágrimas para o alívio. (Vai-se.)
FAGUNDES
Eis aqui os alecrins e manjeronas: cousas de ervas é para bestas. (Vai-se.)
SEVADILHA
E de que escapou Semicúpio! Também alguma alma boa rezou por ele. (Vai-se.)
D. CLÓRIS
Ai, D. Gil, que a tua desgraça será a causa de minha morte! (Vai-se.)