Guerras do Alecrim e Manjerona

António José da Silva · Capítulo 8 de 12

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Guerras do Alecrim e Manjerona

Cena Iii

Câmara. Entram D. Gilvaz e D. Nise.

 

D. GILVAZ

Senhora D. Nise, se acaso em vossa piedade pode achar amparo um desgraçado, peço-vos que me oculteis; pois já a rubicunda Aurora em risonhas vozes nos avisa da chegada do Sol, assim a vossa manjerona se veja coroada de louro no capitólio do amor.

D. NISE

Já o alecrim pede favores à manjerona?

D. GILVAZ

Se D. Clóris não aparece, que quereis que faça?

D. NISE

Pois escondei-vos nessa alcova, enquanto a vou chamar.

(Esconde-se D. Gil e entra D. Fuas.)

D. FUAS

Aonde vás, tirana? Procuras acaso o teu amante? Oh, murcha seja a tua manjerona, que como planta venenosa me tem morto.

D. NISE

Homem do demónio ou quem quer que és, que em negra hora te vi e amei, que desconfianças são essas? Que amante é esse, com quem me andas aqui apurando a paciência, e sem quê, nem para quê, descompondo a minha manjerona?

D. FUAS

Pois quem era aquele que saiu da caixa a dizer-te mil colóquios?

D. NISE

Que sei eu quem era? Salvo fosse... Mas retira-te, que aí vem gente.

D. FUAS

Esconder-me-ei aonde for.

(Quer esconder-se onde está D. Gilvaz.)

D. NISE

(Aparte)

Não te escondas aí. Ai de mim, que, se D. Fuas vê a D. Gil, fará o seu ciúme verdadeiro!

D. FUAS

Não queres que me esconda aí? Agora, por isso mesmo.

D. NISE

Tem mão, adverte...

D. FUAS

Qual adverte? Tens aí acaso escondido o teu amante?

D. NISE

Não, D. Fuas, porque só tu...

D. FUAS

Que é isso? Mudas de cor?

D. NISE

Se a cor é acidente, estou para desmaiar, vendo a sem-razão com que me criminas.

(Entra D. Clóris.)

D. CLÓRIS

Nise, que alarido é esse? Queres que venha o tio e ache aqui este estafermo?

D. NISE

São loucuras de um zeloso, sem causa.

D. FUAS

São zelos de uma causa sem loucura. E, senão, diga-me, Senhora D. Clóris, por vida do senhor seu alecrim: não é para ter zelos ver repetidas vezes a um sujeito procurar a D. Nise com tão repetidos extremos, que uma cousa é vê-lo, e outra dizê-lo; e suponho o tem agora escondido naquela alcova de donde me desvia para esconder-me?

D. CLÓRIS

Isso verei eu, que também me importa essa averiguação.

D. NISE

(Aparte)

Clóris, não te canses, que não hás-de ver quem aí está. Estou perdida!

D. FUAS

É para que veja, Senhora, a razão que tenho. Ah, tirana!

D. CLÓRIS

Já agora, por capricho, hei-de ver quem aí está. Vossa mercê é, Senhor D. Gilvaz? Que é isso? Quer enxertar o meu alecrim com a manjerona de D. Nise?

D. GILVAZ

Há caso semelhante!

D. FUAS

Falso, traidor amigo, como, sabendo que eu pretendo a D. Nise, te expões a embaraçar o meu emprego?

D. GILVAZ

D. Clóris, D. Fuas, para que são esses extremos, quando a Senhora D. Nise nem a vós ofende, nem a mim me corresponde?

D. FUAS

Ninguém se esconde sem delito.

D. CLÓRIS

Ninguém se oculta sem motivo.

D. NISE

Ora agora não quero dar satisfações, nem a uma louca, nem a um temerário. É muita verdade: escondi a D. Gil, porque lhe quero bem; pois que temos?

D. FUAS

Que isto sofra a minha paciência! Ah, ingrata!

D. CLÓRIS

Que isto tolerem os meus zelos! Ah, falso amante!

D. GILVAZ

A Senhora D. Nise está zombando e aquilo nela é galantaria.

D. NISE

Não é senão realidade, e tenho dito. (Vai-se.)

D. FUAS

Não se viu mais descarado rigor! Espera, cruel, e verás com os teus olhos os ultrajes que faço à tua manjerona. (Vai-se.)

D. CLÓRIS

Senhor D. Gil, venha depressa o meu alecrim.

D. GILVAZ

O teu alecrim é inseparável de meu peito.

D. CLÓRIS

Deixemos graças, que eu não zombo.

D. GILVAZ

Pois entendes que D. Nise fala deveras?

D. CLÓRIS

Quer falasse deveras, quer não, venha, venha o meu alecrim.

D. GILVAZ

De que sorte queres que te satisfaça? Ignoras acaso as firmezas de meu amor?

(Canta D. Gil a seguinte:)

ÁRIA

Borboleta namorada,

Que nas luzes abrasada,

Quando expira nos incêndios

Solicita o mesmo ardor.

Tal, ó Clóri, me imagino,

Pois parece, que o destino

Quer, por mais que tu me mates,

Que apeteça o teu rigor.

(Entram Semicúpio e Sevadilha.)

SEMICÚPIO

Senhor D. Gilvaz, nunca Semicúpio se viu em calças mais pardas.

D. GILVAZ

Porquê?

SEVADILHA

Porque o velho já aí vem caminhando como uma centopeia.

D. CLÓRIS

Anda, D. Gil, para dentro, até que haja ocasião para saírem.

D. GILVAZ

Vás ainda com escrúpulos na minha constância?

D. CLÓRIS

Cá dentro apuraremos essas finezas. (Vai-se.)

D. GILVAZ

Ó Semicúpio, vê como havemos sair daqui, que bem sabes que tenho de escrever hoje para o correio. (Vai-se.)

SEMICÚPIO

Tomara que o fizessem em postas e o levasse Barzabu às vinte.

SEVADILHA

E, se lhes não dizemos que vinha o velho, ainda se não iam.

SEMICÚPIO

E ia-se a história sem nós fazermos nosso papel de alfazema por causa do alecrim.

SEVADILHA

Não me dirás, Semicúpio, em que há-de parar toda esta barafunda?

SEMICÚPIO

Em algum casamento, isso já se sabe; tomara eu também que me dissesses em que havemos nós parar.

SEVADILHA

Em correr, que, se paramos aqui, talvez que nos envidem o resto.

SEMICÚPIO

Não embaralhes o sentido em que te falo. Ai, Sevadilha, que não só me chegaste ao coração, mas também aos narizes! E assim, não ponhas por estanque os teus favores: antes afável, dá-me alguma amostrinha de tua inclinação.

SEVADILHA

Quem te meteu esses fumos na cabeça?

SEMICÚPIO

O dó que tenho de te ver tão matadora.

SEVADILHA

Vai-te daí, que tenho nojo de chegar-me a ti.

SEMICÚPIO

Eu não te mereço que me descomponhas o carinho com que te trato. Ai, Sevadilha, que sinto assar-me nos espetos quentes de teus olhos, aonde os repetidos espirros de meu incêndio...

SEVADILHA

Se me disseras isso em dous dedos de papel, ainda te crera.

SEMICÚPIO

Não só em dous dedos, mas em toda a mão da solfa, donde verás de teu Semicúpio as finas cláusulas de suas semicopadas.

(Canta Semicúpio, espirrando no fim de cada verso a seguinte:)

ÁRIA

Não posso, ó Sevadi...

Dizer-te, o que pade...

Que o meu amor trave...

Chegando-me aos nari...

Num moto contínuo me faz espirrar.

Mas se é tafularia

Este vício de querer-te,

Toda inteira hei-de sorver-te,

Por mais que me veja morrer, e estalar. (Vai-se.)

SEVADILHA

Ora Deus o ajude com tanto espirrar.

(Entram D. Lancerote e D. Tibúrcio.)

D. LANCEROTE

Basta, sobrinho, que não fostes vós o que me derreastes?

D. TIBÚRCIO

Pois acha vossa mercê que havia pôr as mãos violentas nas reverendas barbas de vossa mercê? Igual eu me podia com mais razão queixar de vossa mercê, que me fez em estilhas.

D. LANCEROTE

Eu, sobrinho? Isso é engano; eu havia erguer a mão para vós, quando só as devo levantar ao Céu para dar-lhe graças, por dar-me para uma de minhas sobrinhas um noivo tão gentil-homem?

D. TIBÚRCIO

Não vai a dar quebranto.

SEVADILHA

(Aparte)

E ele, que é mui belo.

D. TIBÚRCIO

Pois, se nenhum de nós reciprocamente deu um no outro, quem seria?

D. LANCEROTE

Eu também não posso atinar; o que sei é que a caixa para nós foi de guerra.

SEVADILHA

(Aparte)

E para o noivo, de tartaruga do Alentejo.

D. LANCEROTE

Sevadilha, anda cá, não o negues. Quem andará nesta casa, há um par de noites, que sinto grande rebuliço?

SEVADILHA

Senhor, eu tenho para mim que esta casa às escuras é assombrada.

D. LANCEROTE

Tens visto alguma cousa?

SEVADILHA

Ai, Senhor, tenho visto tantas coisas, que não me atrevo a dizê-las.

D. LANCEROTE

Dize, rapariga.

SEVADILHA

Só em cuidar no que vi, estou para me desmaiar.

D. LANCEROTE

Era cousa do outro mundo?

SEVADILHA

Qual do outro mundo, se eu a vi neste?

D. LANCEROTE

Era fantasma?

SEVADILHA

O que é fantasma?

D. LANCEROTE

É uma cousa branca, que põe os olhos em alvo.

SEVADILHA

Senhor, eu não sei o que é; sei somente que vi sair de uma caixa uma cousa como furacão de vento, que me deu muita pancada.

D. LANCEROTE

Vedes, sobrinho? É o mesmo que nos sucede em carne.

D. TIBÚRCIO

Na carne aliás.

D. LANCEROTE

Aqui não há outro remédio mais que safares logo, e já, e levares vossa mulher convosco, que eu ponho escritos nas casas e mudo-me às carreiras.

D. TIBÚRCIO

Isso é o verdadeiro.

D. LANCEROTE

Sevadilha, vai chamar as raparigas, que venham cá depressa.

SEVADILHA

(Aparte)

Genro e sogro não os vi mais bestas! (Vai-se.)

D. TIBÚRCIO

Para que manda vossa mercê chamar as minhas primas tão depressa?

D. LANCEROTE

Logo vereis.

(Entram D. Clóris e D. Nise.)

AMBAS

Que nos ordenas, Senhor?

D. LANCEROTE

Sobrinho, elas aí estão, escolhei uma das duas para vossa esposa.

D. CLÓRIS

Eu fiz voto de ser freira e, assim, não posso casar.

D. LANCEROTE

Pois case D. Nise.

D. NISE

Eu menos, que quero ser donzela.

D. LANCEROTE

Isso já não pode ser, que dei a minha palavra, que vale mais que tudo.

D. TIBÚRCIO

Eu já me resolvera a aturar a ríspida condição de D. Nise, mas, sem receber o dote, não me recebo.

D. LANCEROTE

Andai, que sois um impolítico. Algum homem que tem brio fala em dote?

D. TIBÚRCIO

E algum homem que quer dote atenta em brio?

(Entram D. Fuas, D. Gilvaz e Semicúpio, vestidos de mulher, com mantos.)

SEMICÚPIO

Senhor, esta indústria nos valha, que para sair sempre foi boa uma saia.

D. GILVAZ

(Aparte)

Quem serve a Cupido, não é muito que se afemine.

D. FUAS

(Aparte)

Até nisto mostra o amor que é cobarde.

D. LANCEROTE

Que mulheres são essas, que saem da nossa alcova?

D. CLÓRIS

(Aparte)

Estou tremendo não se descubra a tramóia.

SEMICÚPIO

Senhor D. Tibúrcio, as mulheres honradas, como eu, se não tratam desta sorte.

D. TIBÚRCIO

Senhora, vossa mercê vem enganada.

D. LANCEROTE

Que é isto, sobrinho?

D. TIBÚRCIO

Eu o não sei, em minha consciência.

D. LANCEROTE

Senhoras, como entrastes nesta casa?

SEMICÚPIO

Este Senhor, sobrinho de vossa mercê, merecia que lhe dessem duas facadas, pois sem alma nem consciência, depois de o introduzir na minha casa, para casar com uma de minhas filhas, que vossa mercê aqui vê, teve tais ardis, que enganou a ambas e de ambas triunfou; e, para mais penas sentir, esta madrugada nos mandou viéssemos a esta casa, que disse era sua, e no cabo sei que não é, e está para casar com uma sobrinha de vossa mercê. Ah, traidor, ladrão, não sei como te não esgadanho e te arranco essas goelas.

D. LANCEROTE

É notável caso! Sobrinho desalmado, que é o que fizestes?

D. TIBÚRCIO

Senhor, eu estou tolo de ver mentir esta mulher!

D. GILVAZ

Ah, falso D. Tibúrcio, o Céu me vingue de tuas falsidades.

D. FUAS

Ainda nega, o magano? Tal estou, que lhe arrancara essas barbas.

SEMICÚPIO

Deixai, filhas, deixai, que ainda no Céu há raios, e no Inferno a caldeira de Pêro Botelho para castigo de velhacos. Vamos, meninas. (Vão-se.)

D. CLÓRIS

(Aparte)

Já estamos livres deste susto.

D. NISE

(Aparte)

O criado vale um milhão.

D. LANCEROTE

Senhor sobrinho, vossa mercê a tem feito como os seus narizes; basta, que vossa mercê é useiro e vezeiro a enganar moças?

D. TIBÚRCIO

Senhor, eu não conheço tais mulheres.

D. LANCEROTE

Se não tendes outra desculpa, essa não me satisfaz, e agora vejo que por isso dilatáveis o casar com vossas primas, fingindo irresoluções e regateando o dote.

D. TIBÚRCIO

Senhor, permita Deus, que se eu...

D. LANCEROTE

Não jureis falso. Dizei-me: e tivestes atrevimento de meteres mulheres em casa, sem atenção ao decoro de vossas primas?

D. TIBÚRCIO

Primas do meu coração, eu estou para enlouquecer, pois estou tão inocente...

D. CLÓRIS

Cale-se, tenha juízo; basta que com esse feitio nos queria lograr?

D. NISE

É o Senhor sisudo, que não aprovava os ranchos de alecrim e manjerona!

D. TIBÚRCIO

Ora basta que diga eu que não conheço tais mulheres.

D. CLÓRIS

Cale-se, tonto!

D. NISE

Cale-se, simples!

D. CLÓRIS

Basbaque!

D. NISE

Insolente!

AMBAS

Quê? Agora casar? Aqui para trás. (Vão-se.)

D. TIBÚRCIO

Senhor tio, dê-me atenção, senão desesperarei.

(Canta D. Lancerote a seguinte:)

ÁRIA

Eis aqui: eu estou perdido,

Gasto feito, noiva pronta,

Porta aberta, e casa tonta;

Ah sobrinho! Mas que digo?

Emprestai-me a vossa espada,

Que me quero degolar.

Oh prudência desgraçada,

Pois não faço uma salada

Por ninguém me ouvir gritar.

D. TIBÚRCIO

Que isto a mim me suceda? Não há homem mais infeliz!