Guerras do Alecrim e Manjerona

António José da Silva · Capítulo 3 de 12

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Guerras do Alecrim e Manjerona

Cena Ii

Câmara. Entram D. Nise, D. Clóris e Sevadilha.

 

SEVADILHA

Ai, Senhora, que ainda não creio que estamos em casa, pois se vimos mais tarde, não nos acha o Senhor velho!

D. CLÓRIS

Em boa nos metemos!

D. NISE

Nunca tal nos sucedeu: que te parece, D. Clóris, a porfia daqueles homens em nos querer conhecer?

SEVADILHA

Sim, Senhora, como se nós fôssemos suas conhecidas.

D. CLÓRIS

E a facilidade com que se namoram logo estes homens é o que mais me admira!

SEVADILHA

Pois o maldito do criado, que tanto se meteu comigo como piolho por costura!

D. CLÓRIS

Que te veio dizendo?

SEVADILHA

Mil despropósitos misturados com várias finezas esfarrapadas.

(Entra Fagundes com manto apanhado no braço.)

FAGUNDES

Ainda esses alecrins e manjeronas hão-de dar nos narizes a muita gente.

D. NISE

Que diz, Fagundes?

FAGUNDES

Digo que bem escusados eram estes sustos; ora digam-me, Senhoras, se seu tio viesse e as não achasse em casa, que seria de mim?

D. CLÓRIS

Não falemos nisso, que ainda estou a tremer.

FAGUNDES

Apostemos que isso foram conselhos desta Senhora que aqui está?

SEVADILHA

Apelo eu, que testemunho! Olhe o diabo da mulher, parece que me tem tomado à sua conta!

FAGUNDES

Coitada, como se desconjura!

SEVADILHA

Ainda por amor dela me hei-de ir desta casa.

(Entra D. Lancerote.)

D. LANCEROTE

Fagundes, depressa, vá deitar mais um ovo nos espinafres, que aí vem meu sobrinho D. Tibúrcio, já que sou tão desgraçado, que por mais meia hora não chega depois de jantar.

FAGUNDES

Eu vou, meu Senhor; mas cuido que o noivo a estas horas comerá novilho. (Vai-se.)

D. LANCEROTE

Agora, minhas sobrinhas, é chegado o vosso esposo; não tenho que encomendar-vos o modo com que o haveis de tratar.

D. CLÓRIS

(Aparte)

Já vem tarde.

D. NISE

(Aparte)

Veremos a cara a este noivo.

SEVADILHA

(Aparte)

Pois dizem que é um galante lapuz.

(Entra D. Tibúrcio com botas, vestido ridiculamente.)

D. LANCEROTE

Amado sobrinho, dá-me os braços: é possível que vejo a um filho de meu irmão!

D. TIBÚRCIO

Sim, Senhor; mas primeiro mande vossa mercê ter cuidado naquelas chouriças que vêm no alforge, não as dizime o arrieiro, que tem em cada mão cinco águias rapantes.

D. LANCEROTE

Isso me parece bem, seres poupado; eu vou a isso. (Vai-se.)

D. CLÓRIS

Que te parece, Nise, a discrição do noivo?

D. NISE

Muito bom princípio leva.

SEVADILHA

(Aparte)

Parece que o seu génio mais se casa com o alforge.

D. TIBÚRCIO

(Aparte)

As primas não são más; porém a moça me toa mais.

(Entra D. Lancerote.)

D. LANCEROTE

Sossegai, sobrinho, que já tudo está arrecadado.

D. TIBÚRCIO

Agora sim; amado tio meu, por cujos humanos aquedutos circula em nacarados licores o sangue de meu progenitor, permiti que os meus sequiosos lábios osculem esses pés, dedo por dedo.

D. LANCEROTE

Levantai-vos; sois discreto, meu sobrinho. Pois vosso pai era um pedaço d’asno, Deus lhe perdoe.

D. TIBÚRCIO

Não está mais na minha mão; em abrindo a boca, me chovem os conceitos aos borbotões.

D. LANCEROTE

Falai a vossas primas, e minhas sobrinhas, D. Nise e D. Clóris.

D. TIBÚRCIO

Eu vou a isso.

SONETO

Primas, que na guitarra da constância

Tão iguais retinis no contraponto,

Que não há contraprima nesse ponto,

Nem nos porpontos noto dissonância:

Oh falsas não sejais nesta jactância;

Pois quando atento os números vos conto,

Nessa beleza harmónica remonto

Ao plectro da Febina consonância:

Já que primas me sois, sede terceiras

De meu amor, por mais que vos agaste

Ouvir de um cavalete as frioleiras;

Se encordoais de ouvir-me, ó primas, baste

De dar à escaravelha em tais asneiras,

Que enfim isto de amor é um lindo traste.

D. LANCEROTE

Também sois poeta, meu sobrinho?

D. TIBÚRCIO

Também temos nosso entusiasmo, Senhor tio; isto cá é veia capilar e natural.

D. LANCEROTE

Oh, quanto me pesa que sejais poeta, pois por força haveis de ser pobre.

D. TIBÚRCIO

Agora, Senhor, eu sou um rico poeta; pois, primas, que dizeis da minha eloquência? Não me respondeis?

D. CLÓRIS

Os anjos lhe respondam.

D. NISE

Aí não há mais que dizer.

D. TIBÚRCIO

Ah, Senhor tio, esta rapariga é cá da obrigação de casa?

D. LANCEROTE

É moça da almofada.

D. TIBÚRCIO

Não é mal estreada; e que olhos tem! Benza-te Deus!

SEVADILHA

Quer Deus que trago um corninho, por amor do quebranto.

D. LANCEROTE

Eu cuido, sobrinho, que mais vos agrada a criada do que a noiva.

D. TIBÚRCIO

Tudo o que é desta casa me agrada muito.

D. LANCEROTE

Agora vamos ao intento: sabereis, minhas sobrinhas, que vosso primo D. Tibúrcio, filho de meu irmão D. Trifónio e de D. Pantaleoa Reboldã, o qual era também irmão de vosso pai, e meu irmão D. Blianis, vem a eleger uma de vós outras para esposa, pela mercê que me faz; que, a ser possível casar com ambas, o fizera sem cerimónia, que para mais é o seu primor.

D. TIBÚRCIO

Por certo que sim; e não só com ambas, mas até com a criada; pois, como digo, desejo meter no coração tudo o que for desta casa.

D. LANCEROTE

Eu o creio, meu sobrinho: nisso saís a vosso pai.

D. CLÓRIS

(Aparte)

Não vi maior asno!

D. NISE

(Aparte)

Nem eu maior simples!

(Diz fora Semicúpio.)

SEMICÚPIO

Quem merca o alecrim?

D. CLÓRIS

Ó Sevadilha, chama a esse homem do alecrim; anda depressa.

SEVADILHA

(Aparte)

Entrou no fadário!

D. LANCEROTE

Sobrinho, não estranheis este excesso de minha sobrinha; porque haveis de saber que há nesta terra dous ranchos, um do alecrim, outro da manjerona, e fazem tais excessos por estas duas plantas, que se matarão umas às outras.

D. TIBÚRCIO

E vossa mercê consente que minhas primas sigam essas parcialidades?

D. LANCEROTE

Não vedes que é moda e, como não custa dinheiro, bem se pode permitir?

D. TIBÚRCIO

Bem sei que isso são verduras da mocidade, mas contudo não aprovo.

D. LANCEROTE

E a razão?

D. TIBÚRCIO

Não sei.

D. CLÓRIS

Vossa mercê, como vem, com os abusos do monte, por isso estranha os estilos da Corte.

D. NISE

Calai-vos, mana, que ele há-de ser o maior apaixonado que há-de ter o alecrim e a manjerona.

D. TIBÚRCIO

Se eu enlouquecer, não duvido.

(Entra Semicúpio com um molho de alecrim ao ombro.)

SEMICÚPIO

Quem quer o alecrim?

D. CLÓRIS

Anda para cá: tem mão, não o ponhas no chão.

SEMICÚPIO

Pois aonde o hei-de pôr?

D. CLÓRIS

Aqui no meu colo; ai, no chão o meu alecrim? Isso não.

SEMICÚPIO

Pois não só o ponha no colo, mas no pescoço.

D. CLÓRIS

A quanto é o molho?

SEMICÚPIO

A real e meio, por ser para vossa mercê.

D. CLÓRIS

Põe aí cinquenta molhos.

SEMICÚPIO

Pelo que vejo, esta é D. Clóris. (Aparte.) Eis aí tem todos os molhos, reparta lá com a Senhora, que suponho também quererá o seu raminho.

D. NISE

Ai, tira-te para lá, homem, com esse mau cheiro.

SEMICÚPIO

(Aparte)

Já sei que esta é a da manjerona de D. Fuas.

D. TIBÚRCIO

Bem haja, minha prima, que não é destas invenções.

D. LANCEROTE

Porque é da manjerona, por isso aborrece o alecrim.

D. TIBÚRCIO

Resta-me que vossa mercê também tenha algum rancho.

D. LANCEROTE

Olhai vós, não deixo cá de mim para mim de ter minha parcialidade.

SEMICÚPIO

Ora demos princípio à tramóia. (Aparte.) Ai, Senhores, quem me acode?

D. LANCEROTE

Que tens, homem?

SEMICÚPIO

Ai, ai, confissão.

(Cai Semicúpio estrebuchando, fingindo um acidente.)

D. CLÓRIS

Coitado do homem! Que tens? Que te deu?

D. NISE

Tão venenoso é o teu alecrim, que mata a quem o traz?

D. LANCEROTE

Olá, tragam água.

(Entram Fagundes e Sevadilha com uma quarta.)

SEVADILHA

Ai, Senhores, que isto é acidente de gota coral!

SEMICÚPIO

(Aparte)

O coral de teus lábios que acidentes não fará?

D. LANCEROTE

A unha de grão besta é boa para isto.

D. TIBÚRCIO

Puxem-lhe pelos dedos, que também é bom remédio.

(D. Lancerote, D. Tibúrcio, Sevadilha e Fagundes pegam em Semicúpio, e

este com o estrebuchamento fará cair a todos.)

D. LANCEROTE

Mostra cá o dedo.

SEMICÚPIO

(Aparte)

Agradeço o anel.

D. TIBÚRCIO

E a força que tem o salvagem!

SEVADILHA

Eu não posso com ele.

SEMICÚPIO

Lá vai o dedo polegar cos diabos! Eu estou capaz de tornar a mim, antes que me deixem despedaçado.

D. LANCEROTE

Borrifa-o, Fagundes.

FAGUNDES

Ora deixem-no comigo. (Borrifa-o.)

SEMICÚPIO

Poh, Diabo! E o que fedem os borrifos da velha! A maldita parece que tem apostema no bofe.

D. NISE

Não se cansem, que ele não torna a si tão cedo.

SEMICÚPIO

Essa é a verdade.

FAGUNDES

Mas pelo sim, pelo não, eu lhe vazo esta quarta; que, quando Deus quer, água fria é mezinha.

SEMICÚPIO

(Aparte)

Valha-te o Diabo, que me deitaste água na fervura! Eu não tenho mais remédio que aquietar-me, senão virá como remédio algum pau-santo sobre mim.

FAGUNDES

Senhores, ele está mais sossegado depois da água; venham jantar, que a mesa está posta.

D. LANCEROTE

Vai buscar o meu capote, e cobre-o, que está tremendo o miserável.

SEMICÚPIO

(Aparte)

É maravilha que um miserável cubra outro.

D. TIBÚRCIO

Aquilo são convulsões, mas bom é cobri-lo, por amor do ar.

(Entra Fagundes com um capote.)

FAGUNDES

Eis aí o capote; se ele o babar, babado ficará.

SEMICÚPIO

(Aparte)

Anda, tola, que não me babo.

D. LANCEROTE

Tu, Sevadilha, tem sentido neste homem, enquanto jantamos. Vinde, sobrinho. (Vai-se.)

D. TIBÚRCIO

Vamos, que tenho uma fome horrenda. (Vai-se.)

D. NISE

É galante figura o tal meu primo! (Vai-se.)

D. CLÓRIS

Fagundes, agasalha esse alecrim.

FAGUNDES

Tanto me importa; se fora manjerona, ainda, ainda. (Vai-se.)

SEVADILHA

Só isto me faltava, ficar eu guardando a este defunto!

SEMICÚPIO

Vejamos quem é esta Sevadilha, que ficou por minha enfermeira; ai, que suponho que é a menina do malmequer, que lá traz um no cabelo! Vamo-nos erguendo, por ver se nos quer bem. (Vai-se erguendo.)

SEVADILHA

Deite-se, deite-se; ai, que o homem tem frenesis! Acudam cá.

SEMICÚPIO

Cala-te, Sevadilha, não perturbes esta primeira ocasião de meu amor.

SEVADILHA

Deixe-se estar coberto.

SEMICÚPIO

Bem sei que o calafrio de meu amor é tão grande, que se pode cobrir diante d’el-rei; mas confesso-te que já não posso aturar o gravâmen deste capote.

SEVADILHA

Ai, que o homem está louco e furioso!

SEMICÚPIO

A fúria com que te ausentas me faz enlouquecer: não fujas, Sevadilha, que eu sou aquele sujeito do malmequer, e tão sujeito aos teus impérios, que sou um criado de vossa mercê.

SEVADILHA

Eu te arrenego, maldito homem! Tu és o desta manhã?

SEMICÚPIO

Cuidavas que não havia saber buscar modo para ver-te?

SEVADILHA

Queres que vá chamar a D. Clóris, ou D. Nise?

SEMICÚPIO

Logo irás chamar a D. Clóris; mas primeiro atende à chama de meu amor; que, se o fogo tem línguas e as paredes têm ouvidos, bem pode a dura parede de teu rigor escutar a lavareda em que me abraso. Muita coisinha te pudera eu dizer; porém a ocasião não é para isso.

SEVADILHA

Nem eu estou para essoutro.

SEMICÚPIO

Eu o dissera, que o teu malmequer não é para menos.

SEVADILHA

Nem a tua pessoa é para mais.

SEMICÚPIO

Pois isso é deveras? Olha, que desconfio.

SEVADILHA

Bem aviada estou eu! Bom amante tenho! Bonito eras tu para aturar vinte anos de desprezos, como há muitos que aturam, levando com as janelas nos narizes, dormindo pelas escadas, aturando calmas, sofrendo geadas, apurando-se em romances, dando descantes, feitos estátuas de amor no templo de Vénus, e, contudo, estão mui contentes da sua vida; é assim para que me buscas?

SEMICÚPIO

Para que me desenganes se me queres, ou não.

SEVADILHA

Pergunta-o ao malmequer, que ele to dirá.

SEMICÚPIO

Se eu o tivera aqui, fizera essa experiência.

SEVADILHA

E aonde está o que eu te dei?

SEMICÚPIO

Lá o tenho empapelado, que cuido que o ar mo leva.

SEVADILHA

Assim te leve o Diabo.

SEMICÚPIO

Levará, que é muito capaz disso. Pois em que ficamos? Bem me queres, ou mal me queres?

SEVADILHA

Apanha aquele malmequer, que está junto àquela porta, e pergunta-lho, que ele to dirá.

SEMICÚPIO

Pois acaso nas folhas do malmequer estão escritos os teus amores, ou os teus desdéns?

SEVADILHA

Da mesma sorte que a buena dicha na palma da mão.

SEMICÚPIO

Eu vou apanhar o dito malmequer. (Vai-se.)

SEVADILHA

Quem me dera que ficasse em mal me quer, para o fazer andar à prática!

(Entra Semicúpio com um malmequer.)

SEMICÚPIO

Eis aqui o malmequer; ora vamos a isso; que, se há flores que são desengano da vida, esta o será do amor. Sevadilha, toma sentido, vê se fica no bem me quer.

SEVADILHA

Isto é como uma sorte.

SEMICÚPIO

Queira Deus não se converta o malmequer em azar. Tem sentido, Sevadilha: amor, se sai a cousa como eu quero, eu te prometo um arco de pipa e uma venda nos Romulares, em que ganhes muito dinheiro.

(Canta Semicúpio a seguinte:)

ÁRIA

Oráculo de amor

Propício me responde

Nas ânsias deste ardor

Bem me queres, mal me queres,

Bem me queres, mal me queres,

Mal me queres, disse a flor.

Ai de mim, que me quer mal

Teu ingrato malmequer!

Acabou-se o meu cuidado,

Que mais tenho, que esperar?

Vou-me agora regalar

Levar boa vida, comer, e beber.

(Entra D. Clóris.)

D. CLÓRIS

Oh, quanto folgo que já estejas bom!

SEMICÚPIO

E tão bom, que me parece que nunca tive nada.

D. CLÓRIS

Com que saraste?

SEMICÚPIO

Com o mesmo mal; porque também há males que vêm por bem.

D. CLÓRIS

Que dizes, que não te entendo? Estás louco?

SEMICÚPIO

Meu amo ainda o está mais do que eu, desde que te viu assim por maior, esta manhã; e assim, para significar-te a tremendíssima eficácia de seu amor, aqui me manda a teus pés, minto, aos teus átomos, para que com os disfarces do alecrim possa merecer os teus agrados.

D. CLÓRIS

Sevadilha, põe-te a espreitar, não venha alguém.

SEVADILHA

Sim, Senhora. Arre lá com o ardil do homem. (Vai-se.)

D. CLÓRIS

E quem é esse teu amo, que tanto me adora?

SEMICÚPIO

É o senhor D. Gilvaz, cavalheiro de tão lindas prendas, como verbi gratia Londres e Paris.

D. CLÓRIS

Que ofício tem?

SEMICÚPIO

Há-de ter um de defuntos, quando morrer.

D. CLÓRIS

E enquanto vivo, em que se ocupa?

SEMICÚPIO

Em morrer por vossa mercê.

D. CLÓRIS

Fala a propósito.

SEMICÚPIO

Senhora, meu amo não necessita de ofícios para manter os seus estados, porque tem várias propriedades consigo, muito boas; além disso, tem uma quinta na semana, que fica entre a quarta e a sexta, tão grande que é necessário vinte e quatro horas para se correr toda.

D. CLÓRIS

Quanto fará toda, de renda?

SEMICÚPIO

Não se pode saber ao certo; sei que tem várias rendas em Flandres e outras em Peniche e estas bem grossas; também tem um foro de fidalgo e um juro de nobreza.

D. CLÓRIS

Basta que é fidalgo?

SEMICÚPIO

Como as estrelas, que as vê ao meio-dia, e a estas horas não vê outra cousa; e certamente lhe posso dizer que é tão antiga a sua descendência, que diz muita gente que descende de Adão.

D. CLÓRIS

Se isso é assim, talvez que me incline a querê-lo para meu esposo.

SEMICÚPIO

Venha a resposta, Senhora, que meu amo está esperando com língua de palmo.

D. CLÓRIS

Pois ouve o que lhe hás-de dizer.

(Canta D. Clóris a seguinte:)

ÁRIA

Dirás ao meu bem,

Que não desconfie,

Que adore, que espere,

Que não desespere,

Que à sua firmeza

Constante serei.

Que firme eu também

A tanta fineza

Amante, constante

Extremos farei. (Vai-se.)

SEMICÚPIO

Vencido está o negócio; mas o capote do velho cá não há-de ficar, por vida de Semicúpio; que, se a ocasião faz o ladrão, hei-de sê-lo, por não perder a ocasião. (Vai-se com o capote.)

(Entra Sevadilha.)

SEVADILHA

Espera, homem, onde levas o capote? E foi-se como um cesto roto! Ai, mofina desgraçada, que há-de ser de mim, se meu amo não achar o seu rico capote?

(Entra D. Lancerote.)

D. LANCEROTE

Já sarou o homem, Sevadilha?

SEVADILHA

Sim, Senhor.

D. LANCEROTE

Já se foi?

SEVADILHA

Sim, senhor.

D. LANCEROTE

Guardaste o capote?

SEVADILHA

(Aparte)

Aí é ela.

D. LANCEROTE

Não ouves? Guardaste o capote?

SEVADILHA

Qual capote?

D. LANCEROTE

O meu.

SEVADILHA

Qual meu?

D. LANCEROTE

O meu, de saragoça.

SEVADILHA

Ah, sim, o capote do homem do alecrim?

D. LANCEROTE

Qual homem?

SEVADILHA

O do acidente.

D. LANCEROTE

Tu zombas?

SEVADILHA

Zombaria fora, o homem levou o capote.

D. LANCEROTE

O meu capote?

SEVADILHA

Eu não sei se ele era de vossa mercê; o que sei é que o homem do alecrim levou um capote com que estava coberto.

D. LANCEROTE

E como o levou?

SEVADILHA

Nos ombros.

D. LANCEROTE

O meu capote furtado?

SEVADILHA

Pois nunca se viu furtar um capote?

D. LANCEROTE

Não, bribantona, que era um capote aquele, que nunca ninguém o furtou. Oh, dia infeliz, dia aziago, dia indigno de que o Sol te visite com os teus raios!

SEVADILHA

Santa Bárbara!

D. LANCEROTE

Tu, descuidada, hás-de pôr para ali o meu capote, ou do corpo to hei-de tirar.

SEVADILHA

Como mo há-de tirar do corpo, se eu o não tenho?

D. LANCEROTE

Desta sorte.

(Cantam D. Lancerote e Sevadilha a seguinte:)

ÁRIA A DUO

D. LANCEROTE

Moça tonta, descuidada,

SEVADILHA

Há mulher mais desgraçada

Neste Mundo? Não, não há.

D. LANCEROTE

Se não dás o meu capote,

Tua capa hei-de rasgar.

SEVADILHA

Não me rasgue a minha capa.

D. LANCEROTE

Dá-me, moça, o meu capote

SEVADILHA

Minha capa.

D. LANCEROTE

Meu capote.

AMBOS

Trata logo de o pagar.

D. LANCEROTE

Meu capote assim furtado!

SEVADILHA

Meu adorno assim rasgado!

AMBOS

Que desgraça!

D. LANCEROTE

Contra a moça

SEVADILHA

Contra o velho

AMBOS

A justiça hei-de chamar:

Meu capote donde está? (Vão-se.)