Guerras do Alecrim e Manjerona
Cena Iv
Gabinete. Entra Fagundes trazendo pela mão a D. Fuas e detrás virá D.
Gilvaz embuçado.
FAGUNDES
Pise de mansinho; que, se acorda, será para nos enforcar.
D. FUAS
Recontou a D. Nise os extremos com que a idolatro?
FAGUNDES
Não me ficou nada no tinteiro; meu Senhor, nessa matéria tenho tanta elegância, que sou outra Marca Túlia Cicerona.
D. FUAS
Ai, Fagundes, se casará D. Nise com o primo! Mas quem está aqui atrás de nós?
D. GILVAZ
(Aparte)
Não quero dar-me a conhecer a D. Fuas, por ver se com os zelos desiste da empresa, para que só triunfe o alecrim.
D. FUAS
Cavalheiro, vós aqui não haveis de passar, ou ambos ficaremos aqui mortos, sem dizer-me primeiro o que buscais nesta casa?
D. GILVAZ
O mesmo que vós buscais.
D. FUAS
O que eu busco não vos pode pertencer.
D. GILVAZ
Nem o que me pertence podeis vós buscar.
FAGUNDES
Senhores meus, acomodem-se, que pode acordar o Senhor D. Lancerote e o dano será de todos.
D. FUAS
Queres que me cale à vista dos meus zelos?
(Entra D. Nise.)
D. NISE
Que ruído é este, Fagundes?
D. FUAS
Sinto, Senhora D. Nise, que a primeira vez que me facilitais esta fortuna, me hospedeis com zelos.
D. NISE
Não sei que motivo haja para os haver.
D. FUAS
Este senhor embuçado que aqui me vem seguindo e diz que procura o mesmo que eu busco.
D. NISE
Sabe ele porventura o que vós procurais?
D. FUAS
Ele diz que sim, certo é que o sabe.
D. NISE
(Para D. Gilvaz)
Senhor, vós acaso vindes aqui a meu respeito?
D. GILVAZ
(Aparte)
Nada hei-de responder.
D. FUAS
Quem cala consente. Não averiguemos mais, Senhora D. Nise, só sinto que a sua manjerona admita enxertos de outras plantas.
D. NISE
Esse é o pago que me dais, de admitir a vossa correspondência, de obrar este excesso a vosso respeito, e de me expor a este perigo por vossa causa?
D. FUAS
Melhor fora desenganar-me, que essa era a melhor fineza que vos podia merecer.
D. NISE
Pois eu digo-vos que estou inocente, que não conheço este homem; e me parece que basta dizê-lo para me acreditares.
D. FUAS
E bastava ver eu o contrário, para não acreditar essas desculpas.
D. NISE
Pois, visto isso, fiquemos como dantes.
D. FUAS
De que sorte?
D. NISE
Desta sorte.
(Canta D. Nise a seguinte:)
ÁRIA
Suponha, Senhor,
Que nunca me viu,
E que é o seu amor
Assim como a flor,
Que apenas nasceu,
E logo murchou.
Pois tanto me dá
De seu pretender,
Que firme suponho
Seria algum sonho,
Que pouco durou. (Vai-se.)
D. FUAS
Nise cruel, isso ainda é maior tirania; escuta-me. (Vai-se.)
FAGUNDES
Vá lá dar-lhe satisfações, que ela é bonita para essas graças. E vossa mercê, Senhor rebuçado, a que fim quis profanar o sagrado desta casa?
D. GILVAZ
A ver o bem que adoro.
FAGUNDES
Vossa mercê está zombando? Aqui não há quem possa ser amante de vossa mercê; pois bem vê o recato e honra desta casa.
D. GILVAZ
Eu bem vejo o recato e honra desta casa. Quê? Aquilo de subir um homem por uma janela e ir-se para dentro atrás de uma mulher não é nada?
FAGUNDES
Aquele homem é primo carnal da Senhora D. Nise.
D. GILVAZ
Pois eu também quero ser muito conjunto da Senhora D. Clóris. Ora faça-me o favor de a ir chamar.
FAGUNDES
Que diz? A Senhora D. Clóris? Olha tu lá, D. Clóris, não te enganes; sim, a outra, que anda coberta de cilícios, jejuando a pão e água; tire daí o sentido, meu Senhor.
D. GILVAZ
Se a não fores chamar, a irei eu buscar.
FAGUNDES
Ai, Senhor, vossa mercê tem alguma legião de diabos no corpo? E que remédio tenho senão chamá-la, antes que o homem faça alguma asneira, que ele tem cara de arremeter. (Vai-se.)
D. GILVAZ
Venha logo, que eu não posso esperar muito tempo. A velha queria corretagem. Basta, que lha dê D. Fuas.
(Entra D. Clóris.)
D. CLÓRIS
Senhor, vossa mercê que pretende com tantos excessos? A quem procura?
D. GILVAZ
Eu, Senhora D. Clóris, sou D. Gilvaz, aquele impaciente amante que, atropelando impossíveis, vem, qual salamandra de amor, a abrasar-se nas chamas do seu alecrim, como vítima da mesma chama.
D. CLÓRIS
Senhor D. Gilvaz, como entendo o seu amor só se encaminha ao lícito fim de ser meu esposo, por isso lhe facilito os meus agrados, mas não tão francamente, que primeiro não haja de experimentar no crisol da constância os raios do seu amor.
D. GILVAZ
Mui pouco conceito fazeis da vossa beleza; pois, se antes de admirar essa formosura em ocultas simpatias, soubestes atrair todos os meus afectos, como, depois de admirar o maior portento de perfeição, poderia haver em mim outro cuidado mais que o de adorar-vos com tão imóvel constância, que primeiro se moverão as estrelas fixas, que sejam errantes as minhas adorações?
D. CLÓRIS
Isso é deveras, Senhor D. Gil?
D. GILVAZ
Se eu morro deveras, como hei-de falar zombando?
SONETO
Tanto te quero, ó Clóri, tanto, tanto;
E tenho neste tanto tanto tento,
Que em cuidar, que te perco, me espavento,
E em cuidar, que me deixas, me ataranto:
Se não sabes (ai Clóri!) o quanto, o quanto
Te idolatra rendido o pensamento,
Digam-to os meus suspiros cento a cento,
Soletra-o nos meus olhos pranto a pranto.
Oh quem pudera agora encarecer-te
Os esquisitos modos de adorar-te
Que amor soube inventar para querer-te!
Ouve, Clóri; mas não, que hei-de assustar-te;
Porque é tal o meu incêndio, que ao dizer-te
Ficarás no perigo de abrasar-te.
D. CLÓRIS
Senhor D. Gil, as suas finezas, por encarecidas, perdem a estimação de verdadeiras; que quem tem a língua tão solta para os encarecimentos, terá presa a vontade para os extremos.
D. GILVAZ
Como há-de haver experiências na minha constância, serão os sucessos das minhas finezas os cronistas de meu amor.
(Canta D. Gilvaz a seguinte:)
ÁRIA
Viste, ó Clóri, a flor gigante,
Que procura firme, amante,
Seguir sempre a luz do Sol?
Dessa sorte, sem desmaios,
Sol, que gira, são teus raios,
E meu peito girassol.
Mas ai, Clóri, que a luz pura
De teus raios mais se apura
De meu peito no crisol.
D. CLÓRIS
Cessa, meu bem, de encarecer-me o teu amor; já sei que são verdadeiras as tuas expressões. Oh, se eu tivera a fortuna que essas vozes as não levasse o vento, para aumentar com elas a força da tua inconstância!
(Entra Sevadilha.)
SEVADILHA
É bem feito! É bem empregado!
D. CLÓRIS
O quê, Sevadilha?
SEVADILHA
O Senhor, que está acordado.
D. CLÓRIS
Não pode ser, a estas horas; não te creio, que és uma medrosa.
SEVADILHA
Falo verdade e não minto.
(Canta Sevadilha a seguinte:)
ÁRIA
Senhora , que o velho,
Se quer levantar!
Mofina de mim,
Que ouvi escarrar,
Falar, e tossir!
(para D. Gilvaz) Senhor, vá-se embora, Vá já para fora,
Senão o papão
Nos há-de engolir.
FAGUNDES
Ui, Senhores, isto é cousa de brinco? O Senhor seu tio está com tamanho olho aberto, que parece um leão que está dormindo; deite fora esse homem e venha-se agasalhar, que já vem amanhecendo.
D. CLÓRIS
Pois deitem fora a D. Gil. Meu bem, estimarei que as suas obras correspondam às suas palavras. (Vai-se.)
(Entram D. Nise e D. Fuas.)
D. NISE
Fagundes, encaminha a D. Fuas, que meu tio está acordado.
D. FUAS
(Aparte)
Ainda o embuçado aqui está? É para ver! Ah, cruel!
D. NISE
Anda, Fagundes.
FAGUNDES
Senhora, que não há escada para descerem.
D. NISE
E aquela por donde subiu, aonde está?
FAGUNDES
Empurrei-a com um homem que também queria subir.
D. GILVAZ
(Aparte)
Devia ser Semicúpio.
D. FUAS
Pois como há-de ser?
SEVADILHA
Não há mais remédio que saltar pela janela.
FAGUNDES
Mas vejam não caiam no alfuje.
D. GILVAZ
(Aparte)
Em boa estou metido!
D. FUAS
Aonde está a chave da porta?
SEVADILHA
A chave tem guardas e está agasalhada no travesseiro do velho, por não dormir numa porta.
D. LANCEROTE
(Dentro)
Fagundes, venha abrir esta janela, que já vem amanhecendo.
FAGUNDES
Eis aqui vossas mercês o que quiseram!
D. LANCEROTE
(Dentro)
Fagundes, que faz, que não vem?
FAGUNDES
Estou enxotando o gato da vizinha. Sape gato! Senhores, escondam-se aonde for.
D. NISE
Ai, que desgraça!
D. LANCEROTE
(Dentro)
Sevadilha, que é isso lá?
SEVADILHA
(Dentro)
É o gato da vizinha. Sape gato!
SEMICÚPIO
(Dentro)
Abram a porta, que se queima a casa. Fogo, fogo!
FAGUNDES
Ai, que há fogo na casa! São Marçal.
D. NISE
Eu estou morta!
D. CLÓRIS
Ai, que se queima a casa, que desgraça! (Sai.)
D. FUAS
Pior é esta!
D. GILVAZ
Há horas minguadas!
SEMICÚPIO
(Dentro)
Abram a porta, que há fogo, fogo!
SEVADILHA
Mofina de mim, que lá vão os meus tarecos!
SEMICÚPIO
(Dentro)
Não ouvem? Pois lá vai a porta pela porta fora.
(Entra Semicúpio com uma quarta às costas e ao mesmo tempo entra D.
Lancerote em fralda de camisa e D. Tibúrcio embrulhado em um lençol,
com uma candeia de garavato na mão.)
SEMICÚPIO
Fogo, fogo!
FAGUNDES
Adonde é, meu Senhor?
D. TIBÚRCIO
Que é isto cá?
D. LANCEROTE
Fogo aonde, se eu não vejo fumo?
SEMICÚPIO
Como há-de ver o fumo, se o fumo faz não ver?
D. TIBÚRCIO
Aqui me cheira a alecrim queimado.
D. LANCEROTE
Dizes bem. Clóris, acendeste algum alecrim?
D. CLÓRIS
Eu, Senhor, não... foi... porque sempre...
D. LANCEROTE
Cala-te, que eu porei o alecrim com dono; há mais mofino homem! Lá vai o suor de tantos anos.
SEMICÚPIO
Com ele podia vossa mercê apagar este fogo.
D. GILVAZ
(Aparte)
Estou admirado de ver a traça de Semicúpio!
D. TIBÚRCIO
Senhores, acudamos a isto, que se acaba a torcida.
D. LANCEROTE
Vede, sobrinho, ainda assim não se entorne o azeite.
D. NISE
Ai, os meus craveiros de manjerona!
D. CLÓRIS
Ai, os meus olhos de alecrim!
FAGUNDES
Ai, a minha canastra!
SEVADILHA
Ai, os meus tarequinhos!
D. LANCEROTE
Ai, a minha burra!
D. TIBÚRCIO
Ai, o meu alforge!
SEMICÚPIO
Ai, com tanto ai! Senhores, aonde é o fogo?
D. LANCEROTE
Vejam vossas mercês bem por essas casas aonde será.
SEMICÚPIO
Entremos, Senhores, antes que se ateie o incêndio.
D. GILVAZ e D. FUAS
Vamos.
(Saem Semicúpio, D. Fuas e D. Gilvaz, e logo tornam a entrar.)
D. LANCEROTE
Vereis vós, tramposinha, que fim leva o alecrim.
D. CLÓRIS
O alecrim não tem fim, que nunca murcha.
(Entram os três.)
D. GILVAZ
Não se assustem, que não é nada.
D. FUAS
Já se apagou, Deus louvado.
D. LANCEROTE
Aonde foi?
SEMICÚPIO
Foi no almofariz, que estava ao pé da isca.
SEVADILHA
Pois eu não fui a que petisquei.
FAGUNDES
Pois eu nem no ferrolho.
SEMICÚPIO
Pois eu ainda estou em jejum.
D. LANCEROTE
Ora, meus Senhores, vossas mercês me vivam muitos anos, pela honra que me fizeram.
D. GILVAZ
Sempre buscarei ocasiões de servir a esta casa. (Vai-se.)
D. FUAS
E eu não menos. (Vai-se.)
SEMICÚPIO
Agradeça-nos a boa vontade, não mais.
FAGUNDES
Se não houvesse boas almas, já o mundo estava acabado.
D. CLÓRIS
(Aparte)
Eu estou pasmada do sucesso!
D. NISE
(Aparte)
E eu não estou em mim!
D. TIBÚRCIO
Ora com licença, meus Senhores, que me vou pôr em fresco. (Vai-se.)
D. LANCEROTE
Eu todavia ainda não estou sossegado. Viu vossa mercê bem na chaminé?
SEMICÚPIO
Para que vossa mercê descanse de todo, vazarei esta quarta nos narizes daquela velha, que são duas chaminés.
FAGUNDES
Ai, que me ensopou! Senhor, que mal lhe fiz?
SEMICÚPIO
É dar-lhe a molhadura de certa obra.
D. LANCEROTE
Que fez vossa mercê?
SEMICÚPIO
Deixe, Senhor; isto é para que se lembre, e tenha cuidado no fogo, que facilmente se pode atear por um acidente.
FAGUNDES
Vou mudar de camisa. (Vai-se.)
D. NISE
Tomara aproveitar os cacos para a minha manjerona.
D. LANCEROTE
Esta advertência merece esta moça, que é uma descuidada que por seus desmazelos me deixou furtar um capote.
(Cantam D. Lancerote, Sevadilha, Semicúpio, D. Clóris e D. Nise a
seguinte:)
ÁRIA
D. LANCEROTE
Tu moça, tu tonta
Sentido no fogo,
Senão tu verás.
SEVADILHA
Debalde é o seu rogo,
Que fogo sem fumo
Não é bom sinal.
SEMICÚPIO
Que linda pilhage
Num fogo salvage,
Que lambe voraz!
D. CLÓRIS
Não sente, quem ama.
D. NISE
Não temo essa chama.
AMBAS
Que é fogo de amor.
D. LANCEROTE
Cuidado no fogo.
SEVADILHA
Debalde é o seu rogo.
D. LANCEROTE e SEVADILHA
Que fogo sem fumo
Não é bom sinal.
D. LANCEROTE
Sentido, cuidado,
SEMICÚPIO
Que fogo salvage
Todos excepto D. LANCEROTE
Que é fogo de amor
TODOS
Cuidado, pois, cuidado,
Que algum furor vendado
Fulmina tanto ardor.
Fim da primeira parte.