Guerras do Alecrim e Manjerona

António José da Silva · Capítulo 5 de 12

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Guerras do Alecrim e Manjerona

Cena Iv

Gabinete. Entra Fagundes trazendo pela mão a D. Fuas e detrás virá D.

Gilvaz embuçado.

 

FAGUNDES

Pise de mansinho; que, se acorda, será para nos enforcar.

D. FUAS

Recontou a D. Nise os extremos com que a idolatro?

FAGUNDES

Não me ficou nada no tinteiro; meu Senhor, nessa matéria tenho tanta elegância, que sou outra Marca Túlia Cicerona.

D. FUAS

Ai, Fagundes, se casará D. Nise com o primo! Mas quem está aqui atrás de nós?

D. GILVAZ

(Aparte)

Não quero dar-me a conhecer a D. Fuas, por ver se com os zelos desiste da empresa, para que só triunfe o alecrim.

D. FUAS

Cavalheiro, vós aqui não haveis de passar, ou ambos ficaremos aqui mortos, sem dizer-me primeiro o que buscais nesta casa?

D. GILVAZ

O mesmo que vós buscais.

D. FUAS

O que eu busco não vos pode pertencer.

D. GILVAZ

Nem o que me pertence podeis vós buscar.

FAGUNDES

Senhores meus, acomodem-se, que pode acordar o Senhor D. Lancerote e o dano será de todos.

D. FUAS

Queres que me cale à vista dos meus zelos?

(Entra D. Nise.)

D. NISE

Que ruído é este, Fagundes?

D. FUAS

Sinto, Senhora D. Nise, que a primeira vez que me facilitais esta fortuna, me hospedeis com zelos.

D. NISE

Não sei que motivo haja para os haver.

D. FUAS

Este senhor embuçado que aqui me vem seguindo e diz que procura o mesmo que eu busco.

D. NISE

Sabe ele porventura o que vós procurais?

D. FUAS

Ele diz que sim, certo é que o sabe.

D. NISE

(Para D. Gilvaz)

Senhor, vós acaso vindes aqui a meu respeito?

D. GILVAZ

(Aparte)

Nada hei-de responder.

D. FUAS

Quem cala consente. Não averiguemos mais, Senhora D. Nise, só sinto que a sua manjerona admita enxertos de outras plantas.

D. NISE

Esse é o pago que me dais, de admitir a vossa correspondência, de obrar este excesso a vosso respeito, e de me expor a este perigo por vossa causa?

D. FUAS

Melhor fora desenganar-me, que essa era a melhor fineza que vos podia merecer.

D. NISE

Pois eu digo-vos que estou inocente, que não conheço este homem; e me parece que basta dizê-lo para me acreditares.

D. FUAS

E bastava ver eu o contrário, para não acreditar essas desculpas.

D. NISE

Pois, visto isso, fiquemos como dantes.

D. FUAS

De que sorte?

D. NISE

Desta sorte.

(Canta D. Nise a seguinte:)

ÁRIA

Suponha, Senhor,

Que nunca me viu,

E que é o seu amor

Assim como a flor,

Que apenas nasceu,

E logo murchou.

Pois tanto me dá

De seu pretender,

Que firme suponho

Seria algum sonho,

Que pouco durou. (Vai-se.)

D. FUAS

Nise cruel, isso ainda é maior tirania; escuta-me. (Vai-se.)

FAGUNDES

Vá lá dar-lhe satisfações, que ela é bonita para essas graças. E vossa mercê, Senhor rebuçado, a que fim quis profanar o sagrado desta casa?

D. GILVAZ

A ver o bem que adoro.

FAGUNDES

Vossa mercê está zombando? Aqui não há quem possa ser amante de vossa mercê; pois bem vê o recato e honra desta casa.

D. GILVAZ

Eu bem vejo o recato e honra desta casa. Quê? Aquilo de subir um homem por uma janela e ir-se para dentro atrás de uma mulher não é nada?

FAGUNDES

Aquele homem é primo carnal da Senhora D. Nise.

D. GILVAZ

Pois eu também quero ser muito conjunto da Senhora D. Clóris. Ora faça-me o favor de a ir chamar.

FAGUNDES

Que diz? A Senhora D. Clóris? Olha tu lá, D. Clóris, não te enganes; sim, a outra, que anda coberta de cilícios, jejuando a pão e água; tire daí o sentido, meu Senhor.

D. GILVAZ

Se a não fores chamar, a irei eu buscar.

FAGUNDES

Ai, Senhor, vossa mercê tem alguma legião de diabos no corpo? E que remédio tenho senão chamá-la, antes que o homem faça alguma asneira, que ele tem cara de arremeter. (Vai-se.)

D. GILVAZ

Venha logo, que eu não posso esperar muito tempo. A velha queria corretagem. Basta, que lha dê D. Fuas.

(Entra D. Clóris.)

D. CLÓRIS

Senhor, vossa mercê que pretende com tantos excessos? A quem procura?

D. GILVAZ

Eu, Senhora D. Clóris, sou D. Gilvaz, aquele impaciente amante que, atropelando impossíveis, vem, qual salamandra de amor, a abrasar-se nas chamas do seu alecrim, como vítima da mesma chama.

D. CLÓRIS

Senhor D. Gilvaz, como entendo o seu amor só se encaminha ao lícito fim de ser meu esposo, por isso lhe facilito os meus agrados, mas não tão francamente, que primeiro não haja de experimentar no crisol da constância os raios do seu amor.

D. GILVAZ

Mui pouco conceito fazeis da vossa beleza; pois, se antes de admirar essa formosura em ocultas simpatias, soubestes atrair todos os meus afectos, como, depois de admirar o maior portento de perfeição, poderia haver em mim outro cuidado mais que o de adorar-vos com tão imóvel constância, que primeiro se moverão as estrelas fixas, que sejam errantes as minhas adorações?

D. CLÓRIS

Isso é deveras, Senhor D. Gil?

D. GILVAZ

Se eu morro deveras, como hei-de falar zombando?

SONETO

Tanto te quero, ó Clóri, tanto, tanto;

E tenho neste tanto tanto tento,

Que em cuidar, que te perco, me espavento,

E em cuidar, que me deixas, me ataranto:

Se não sabes (ai Clóri!) o quanto, o quanto

Te idolatra rendido o pensamento,

Digam-to os meus suspiros cento a cento,

Soletra-o nos meus olhos pranto a pranto.

Oh quem pudera agora encarecer-te

Os esquisitos modos de adorar-te

Que amor soube inventar para querer-te!

Ouve, Clóri; mas não, que hei-de assustar-te;

Porque é tal o meu incêndio, que ao dizer-te

Ficarás no perigo de abrasar-te.

D. CLÓRIS

Senhor D. Gil, as suas finezas, por encarecidas, perdem a estimação de verdadeiras; que quem tem a língua tão solta para os encarecimentos, terá presa a vontade para os extremos.

D. GILVAZ

Como há-de haver experiências na minha constância, serão os sucessos das minhas finezas os cronistas de meu amor.

(Canta D. Gilvaz a seguinte:)

ÁRIA

Viste, ó Clóri, a flor gigante,

Que procura firme, amante,

Seguir sempre a luz do Sol?

Dessa sorte, sem desmaios,

Sol, que gira, são teus raios,

E meu peito girassol.

Mas ai, Clóri, que a luz pura

De teus raios mais se apura

De meu peito no crisol.

D. CLÓRIS

Cessa, meu bem, de encarecer-me o teu amor; já sei que são verdadeiras as tuas expressões. Oh, se eu tivera a fortuna que essas vozes as não levasse o vento, para aumentar com elas a força da tua inconstância!

(Entra Sevadilha.)

SEVADILHA

É bem feito! É bem empregado!

D. CLÓRIS

O quê, Sevadilha?

SEVADILHA

O Senhor, que está acordado.

D. CLÓRIS

Não pode ser, a estas horas; não te creio, que és uma medrosa.

SEVADILHA

Falo verdade e não minto.

(Canta Sevadilha a seguinte:)

ÁRIA

Senhora , que o velho,

Se quer levantar!

Mofina de mim,

Que ouvi escarrar,

Falar, e tossir!

(para D. Gilvaz) Senhor, vá-se embora, Vá já para fora,

Senão o papão

Nos há-de engolir.

FAGUNDES

Ui, Senhores, isto é cousa de brinco? O Senhor seu tio está com tamanho olho aberto, que parece um leão que está dormindo; deite fora esse homem e venha-se agasalhar, que já vem amanhecendo.

D. CLÓRIS

Pois deitem fora a D. Gil. Meu bem, estimarei que as suas obras correspondam às suas palavras. (Vai-se.)

(Entram D. Nise e D. Fuas.)

D. NISE

Fagundes, encaminha a D. Fuas, que meu tio está acordado.

D. FUAS

(Aparte)

Ainda o embuçado aqui está? É para ver! Ah, cruel!

D. NISE

Anda, Fagundes.

FAGUNDES

Senhora, que não há escada para descerem.

D. NISE

E aquela por donde subiu, aonde está?

FAGUNDES

Empurrei-a com um homem que também queria subir.

D. GILVAZ

(Aparte)

Devia ser Semicúpio.

D. FUAS

Pois como há-de ser?

SEVADILHA

Não há mais remédio que saltar pela janela.

FAGUNDES

Mas vejam não caiam no alfuje.

D. GILVAZ

(Aparte)

Em boa estou metido!

D. FUAS

Aonde está a chave da porta?

SEVADILHA

A chave tem guardas e está agasalhada no travesseiro do velho, por não dormir numa porta.

D. LANCEROTE

(Dentro)

Fagundes, venha abrir esta janela, que já vem amanhecendo.

FAGUNDES

Eis aqui vossas mercês o que quiseram!

D. LANCEROTE

(Dentro)

Fagundes, que faz, que não vem?

FAGUNDES

Estou enxotando o gato da vizinha. Sape gato! Senhores, escondam-se aonde for.

D. NISE

Ai, que desgraça!

D. LANCEROTE

(Dentro)

Sevadilha, que é isso lá?

SEVADILHA

(Dentro)

É o gato da vizinha. Sape gato!

SEMICÚPIO

(Dentro)

Abram a porta, que se queima a casa. Fogo, fogo!

FAGUNDES

Ai, que há fogo na casa! São Marçal.

D. NISE

Eu estou morta!

D. CLÓRIS

Ai, que se queima a casa, que desgraça! (Sai.)

D. FUAS

Pior é esta!

D. GILVAZ

Há horas minguadas!

SEMICÚPIO

(Dentro)

Abram a porta, que há fogo, fogo!

SEVADILHA

Mofina de mim, que lá vão os meus tarecos!

SEMICÚPIO

(Dentro)

Não ouvem? Pois lá vai a porta pela porta fora.

(Entra Semicúpio com uma quarta às costas e ao mesmo tempo entra D.

Lancerote em fralda de camisa e D. Tibúrcio embrulhado em um lençol,

com uma candeia de garavato na mão.)

SEMICÚPIO

Fogo, fogo!

FAGUNDES

Adonde é, meu Senhor?

D. TIBÚRCIO

Que é isto cá?

D. LANCEROTE

Fogo aonde, se eu não vejo fumo?

SEMICÚPIO

Como há-de ver o fumo, se o fumo faz não ver?

D. TIBÚRCIO

Aqui me cheira a alecrim queimado.

D. LANCEROTE

Dizes bem. Clóris, acendeste algum alecrim?

D. CLÓRIS

Eu, Senhor, não... foi... porque sempre...

D. LANCEROTE

Cala-te, que eu porei o alecrim com dono; há mais mofino homem! Lá vai o suor de tantos anos.

SEMICÚPIO

Com ele podia vossa mercê apagar este fogo.

D. GILVAZ

(Aparte)

Estou admirado de ver a traça de Semicúpio!

D. TIBÚRCIO

Senhores, acudamos a isto, que se acaba a torcida.

D. LANCEROTE

Vede, sobrinho, ainda assim não se entorne o azeite.

D. NISE

Ai, os meus craveiros de manjerona!

D. CLÓRIS

Ai, os meus olhos de alecrim!

FAGUNDES

Ai, a minha canastra!

SEVADILHA

Ai, os meus tarequinhos!

D. LANCEROTE

Ai, a minha burra!

D. TIBÚRCIO

Ai, o meu alforge!

SEMICÚPIO

Ai, com tanto ai! Senhores, aonde é o fogo?

D. LANCEROTE

Vejam vossas mercês bem por essas casas aonde será.

SEMICÚPIO

Entremos, Senhores, antes que se ateie o incêndio.

D. GILVAZ e D. FUAS

Vamos.

(Saem Semicúpio, D. Fuas e D. Gilvaz, e logo tornam a entrar.)

D. LANCEROTE

Vereis vós, tramposinha, que fim leva o alecrim.

D. CLÓRIS

O alecrim não tem fim, que nunca murcha.

(Entram os três.)

D. GILVAZ

Não se assustem, que não é nada.

D. FUAS

Já se apagou, Deus louvado.

D. LANCEROTE

Aonde foi?

SEMICÚPIO

Foi no almofariz, que estava ao pé da isca.

SEVADILHA

Pois eu não fui a que petisquei.

FAGUNDES

Pois eu nem no ferrolho.

SEMICÚPIO

Pois eu ainda estou em jejum.

D. LANCEROTE

Ora, meus Senhores, vossas mercês me vivam muitos anos, pela honra que me fizeram.

D. GILVAZ

Sempre buscarei ocasiões de servir a esta casa. (Vai-se.)

D. FUAS

E eu não menos. (Vai-se.)

SEMICÚPIO

Agradeça-nos a boa vontade, não mais.

FAGUNDES

Se não houvesse boas almas, já o mundo estava acabado.

D. CLÓRIS

(Aparte)

Eu estou pasmada do sucesso!

D. NISE

(Aparte)

E eu não estou em mim!

D. TIBÚRCIO

Ora com licença, meus Senhores, que me vou pôr em fresco. (Vai-se.)

D. LANCEROTE

Eu todavia ainda não estou sossegado. Viu vossa mercê bem na chaminé?

SEMICÚPIO

Para que vossa mercê descanse de todo, vazarei esta quarta nos narizes daquela velha, que são duas chaminés.

FAGUNDES

Ai, que me ensopou! Senhor, que mal lhe fiz?

SEMICÚPIO

É dar-lhe a molhadura de certa obra.

D. LANCEROTE

Que fez vossa mercê?

SEMICÚPIO

Deixe, Senhor; isto é para que se lembre, e tenha cuidado no fogo, que facilmente se pode atear por um acidente.

FAGUNDES

Vou mudar de camisa. (Vai-se.)

D. NISE

Tomara aproveitar os cacos para a minha manjerona.

D. LANCEROTE

Esta advertência merece esta moça, que é uma descuidada que por seus desmazelos me deixou furtar um capote.

(Cantam D. Lancerote, Sevadilha, Semicúpio, D. Clóris e D. Nise a

seguinte:)

ÁRIA

D. LANCEROTE

Tu moça, tu tonta

Sentido no fogo,

Senão tu verás.

SEVADILHA

Debalde é o seu rogo,

Que fogo sem fumo

Não é bom sinal.

SEMICÚPIO

Que linda pilhage

Num fogo salvage,

Que lambe voraz!

D. CLÓRIS

Não sente, quem ama.

D. NISE

Não temo essa chama.

AMBAS

Que é fogo de amor.

D. LANCEROTE

Cuidado no fogo.

SEVADILHA

Debalde é o seu rogo.

D. LANCEROTE e SEVADILHA

Que fogo sem fumo

Não é bom sinal.

D. LANCEROTE

Sentido, cuidado,

SEMICÚPIO

Que fogo salvage

Todos excepto D. LANCEROTE

Que é fogo de amor

TODOS

Cuidado, pois, cuidado,

Que algum furor vendado

Fulmina tanto ardor.

Fim da primeira parte.