História das Guerras

Demétrio Magnoli · Capítulo 14 de 29

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História das Guerras

Guerra do Paraguai

 

Francisco Doratioto

 

A Guerra do Paraguai foi o conflito internacional de maior duração e, possivelmente, o mais mortífero travado na América do Sul. Teve características inéditas, quer devido às condições geográficas do território paraguaio, onde ocorreram os combates a partir de 1866; quer pela utilização de novos tipos de arma e munição, resultado de inovações tecnológicas decorrentes do avanço da industrialização na Europa e nos Estados Unidos; quer, ainda, pelas condições políticas em que se desenvolveu a guerra. Nesse aspecto, destacam-se as dificuldades de relacionamento no alto comando aliado e o caráter ditatorial do Estado paraguaio, o que permitiu a Francisco Solano López vincular o destino da sociedade paraguaia à sua trajetória pessoal. Os cinco anos de guerra influenciaram a configuração e o destino das sociedades que a travaram.

A partir da década de 1970, predominou a teoria de que a Guerra do Paraguai fora causada pelo imperialismo britânico. Por essa explicação, o Paraguai era um país governado, desde a sua Independência, por homens autoritários — José Gaspar Rodríguez de Francia, Carlos Antonio López e Francisco Solano López —, que não se submeteram ao domínio das grandes potências e promoveram o bem-estar do povo. A Grã-Bretanha seria a responsável pela guerra, quer para pôr fim a um precedente perigoso, de desafio a seu domínio sobre a América do Sul, quer para abrir o mercado paraguaio, tanto o consumidor para os produtos industriais britânicos quanto o fornecedor de algodão para a indústria têxtil britânica. Portanto, o governo britânico teria [pag. 253] usado o Império do Brasil e a Argentina para levar a guerra ao Paraguai e destruir a tentativa de desenvolvimento autônomo paraguaio. Nas palavras de um dos autores que defendem essa teoria, “o modelo de libertação que nos propunha com grande eficiência o Paraguai da metade do século XIX , os sabujos do imperialismo inglês destruíram”. 1

Essa teoria carece de lógica, além de não ter relação com a realidade histórica e inventar um Paraguai que se desenvolvia sob a liderança de um ditador “progressista”, Francisco Solano López, em desafio ao domínio britânico. Tal teoria é resultado do momento histórico das décadas de 1960 e 1970, quando o mundo vivenciava a Guerra Fria e o Cone Sul tinha governos militares. Predominou, então, na análise da Guerra do Paraguai, uma vertente de pensamento marxista que desprezava a democracia (“burguesa”), por associá-la ao capitalismo, e tinha como referências as ditaduras “socialistas” (União Soviética, China e Cuba).

Compreende-se, portanto, o ataque dessa teoria à “ação imperialista” e a crítica ao desempenho dos chefes militares, pois um deles, Bartolomé Mitre, foi expoente do liberalismo argentino e, no Brasil, Caxias e Tamandaré tornaram-se, respectivamente, patronos do Exército e da Marinha. Por outro lado, a apresentação positiva do Paraguai totalitário, supostamente progressista, quase “socialista”, de Solano López, tem paralelismo na Cuba da ditadura de Fidel Castro, isolada no continente americano e hostilizada pelos Estados Unidos. O regime cubano, naquelas duas décadas, contava com a simpatia de boa parte dos intelectuais da esquerda latino-americana, a qual via quase exclusivamente na exploração imperialista a causa da pobreza da América Latina.

Essa interpretação não se sustentou, diante de pesquisas de diferentes historiadores. Em 1983, os paraguaios Juan Carlos Herken Krauer e Maria Isabel Gimenez de Herken demonstraram que, ao contrário, a Grã-Bretanha se beneficiara do limitado processo de modernização paraguaio, implementado a partir de fins da década de 1850 e restrito a aspectos militares. O Paraguai importava produtos manufaturados e técnicos britânicos para operar a única ferrovia do país — ligava Assunção, a capital, ao grande acampamento militar de Paraguari —, e para outras construções de caráter militar (arsenal, fundição e obras de defesa).

Os governos de Carlos Antonio López e de seu filho Francisco Solano López tinham contratado a empresa inglesa Blyth & Co. como seu agente para comprar armamento na Europa, a fim de nela treinar jovens paraguaios [pag. 254] e recrutar técnicos europeus para irem ao Paraguai. Por meio dela, o Estado paraguaio contratou, entre 1850 e 1870, cerca de 250 técnicos europeus, dos quais 200 britânicos. Destes, William K. Whytehead tornou-se engenheiro-chefe do Estado paraguaio, enquanto, no Exército, William Stewart se tornou cirurgião-chefe, e George Thompson engenheiro-chefe. Já o Império do Brasil rompeu, em maio de 1863, relações diplomáticas com a Grã-Bretanha devido à chamada Questão Christie, restabelecendo-as somente após receber pedido de desculpas da rainha Vitória, oito meses após o início da guerra. Como se vê, carece de lógica responsabilizar o imperialismo inglês pelo desencadear do conflito.

Na realidade, o Paraguai era um país agrícola atrasado; o regime autoritário não tinha “sentido social”, mas, sim, o de uma ditadura para manter no poder Solano López. Este, com a família, utilizava o Estado como propriedade pessoal e, ainda, se apropriava de parte dos lucros gerados pelas atividades agropecuária e extrativista de particulares. O isolamento anterior do país, sob a ditadura de José Gaspar Rodríguez de Francia (1814-1840), resultou da recusa de Buenos Aires em aceitar sua independência, pois a burguesia mercantil dessa cidade almejava ser o pólo rearticulador, na forma de uma república centralizada, do território do antigo Vice-Reino do Rio da Prata. O isolamento facilitou a manutenção da ditadura de Francia, mas seu sucessor, Carlos Antonio López, outro governante ditatorial, pôs fim ao isolamento absoluto do Paraguai, aproximando-se do Império do Brasil e, com o apoio deste, obteve o reconhecimento internacional da independência paraguaia. O início da abertura do Paraguai para o mundo foi facilitada por esse reconhecimento e pela liberação de navegação do rio Paraná pela Confederação Argentina, após a queda, em 1852, do ditador Juan Manuel de Rosas.

A partir de meados da década de 1850, o governo de Carlos Antonio López buscou modernizar o Paraguai. A modernização ocorreu basicamente no plano militar, utilizando-se principalmente da Grã-Bretanha, onde contratava técnicos e comprava equipamentos com libras obtidas pela exportação de produtos primários. A preocupação defensiva de López era em relação a seus dois maiores vizinhos, a República Argentina, Estado centralizado criado em 1862, e o Império do Brasil. Com esses dois países, o Estado paraguaio disputava territórios, além de existir um abismo político-ideológico a separá-los. Na Argentina e no Brasil, funcionavam instituições liberais, embora acessíveis apenas a parcelas minoritárias das respectivas [pag. 255] populações. No Paraguai, nem esse mínimo, pois era impossível o indivíduo divergir do governo e inexistiam imprensa privada, partidos políticos, juizes independentes, e o Legislativo era uma ficção. Este não se reunia por anos a fio e, quando o fazia, era por convocação do Executivo para ratificar decisões governamentais.

 

AS PEÇAS DO TABULEIRO PLATINO

 

Em 1862, morreu Carlos Antonio López e sucedeu-o um de seus filhos, Francisco Solano López, ministro da Guerra, que se tornou o novo ditador. A política externa de Carlos López fora cautelosa e hábil, enquanto a de Solano López foi ousada e inábil, a ponto de colocar o Paraguai, simultaneamente, em posições conflitantes com os governos argentino e brasileiro.

Do lado argentino, nesse momento, decidia-se a consolidação do Estado nacional, após cinco décadas de instabilidade política e guerras civis, resultantes do esforço da burguesia mercantil de Buenos Aires de impor seu domínio sobre as províncias do interior. O projeto dessa burguesia era o da organização política nacional centralizada, enquanto as oligarquias regionais defendiam um Estado federalista, como forma de garantir sua dominação local e suas riquezas, evitando a criação de impostos nacionais.

Nesse contexto, Solano López estabeleceu relações com a oposição federalista ao presidente Mitre, principalmente das províncias de Corrientes e Entre Ríos; o expoente oposicionista era o caudilho entrerriano Justo José Urquiza.

O comércio exterior dessas províncias escapava ao controle de Buenos Aires ao utilizar-se de portos do Uruguai, governado pelo presidente Bernardo Berro, do Partido Blanco. Montevidéu era alternativa possível também para o comércio exterior paraguaio, o que facilitou a aproximação entre López e Berro. Este enfrentava, desde 1863, a guerra civil desencadeada por Venancio Flores, do Partido Colorado, o qual era apoiado por Mitre e, ainda, por fazendeiros gaúchos com propriedades no Uruguai, cujos interesses tinham sido prejudicados por medidas do governo blanco.

A independência do Uruguai havia sido viabilizada pela interferência britânica, após três anos de guerra (1825-28) entre o Império do Brasil e as Províncias Unidas do Rio da Prata pela posse desse território, que fora anexado por D. João VI ao império luso-brasileiro. Após a independência, surgiram [pag. 256] no Uruguai os partidos Colorado e Nacional ou Blanco. Os colorados tinham como base social principalmente os comerciantes de Montevidéu e defendiam o livre comércio e a livre navegação dos rios platinos. Estes eram princípios também defendidos pela política externa brasileira, pois a província de Mato Grosso estava isolada por terra do resto do Brasil e a única forma de o Rio de Janeiro manter contato regular com ela era por meio da navegação fluvial: navios penetravam no estuário do Prata, singravam os rios Paraná e Paraguai, passando por Assunção, até chegar a Cuiabá.

Compreende-se, assim, a convergência política entre o Império do Brasil e os colorados. Já os blancos representavam os grandes proprietários de terra, que tinham afinidades com os pecuaristas da outra margem do rio da Prata, nas províncias argentinas. Explica-se, portanto, Rosas haver apoiado militarmente e tutelado as forças do líder blanco Manuel Oribe, na guerra civil uruguaia que se estendeu de 1838 a 1851. A criação da República Argentina alterou esses eixos políticos regionais, pois seu primeiro presidente, Bartolomé Mitre, assim como outros liberais perseguidos por Rosas, exilara-se em Montevidéu nos anos 1840 e lutara ao lado dos colorados contra os blancos.

No Brasil, por outro lado, após duas décadas de governos conservadores, o Partido Liberal retornou ao poder em 1862. O governo liberal viu-se logo desmoralizado no plano externo, ao ser obrigado, sob a ameaça de bombardeio do Rio de Janeiro pela esquadra britânica, a pagar indenizações por saque a navio inglês naufragado no sul do Brasil (“Questão Christie”). Assim, o governo imperial estava fragilizado para resistir aos pecuaristas do Rio Grande Sul, base liberal na província, que pressionavam por uma intervenção brasileira em favor do rebelde Flores. O governo imperial temia perder o controle sobre essa província meridional que, entre 1836 e 1844, se separara do resto do país (foi a República Rio-grandense), bem como em deixar apenas o governo argentino recolher os benefícios de uma vitória colorada na guerra civil uruguaia. O Império promoveu a intervenção no Uruguai, iniciada com o envio, em maio de 1864, de José Antonio Saraiva em missão especial ao Prata, apoiada por uma esquadra de guerra comandanda pelo vice-almirante Tamandaré. Pela primeira vez, coincidiam os interesses de Brasil e Argentina nas questões platinas.

O presidente Berro, por sua vez, desde que chegou ao poder, em 1862, procurou se libertar das ingerências argentina e brasileira em seu país. Iniciada a sublevação de Flores, a diplomacia uruguaia buscou aliar-se com o Paraguai, [pag. 257] uma iniciativa nunca aceita formalmente ou rechaçada por Solano López, à qual se associariam os federalistas argentinos.

Em agosto de 1864, o Império brasileiro ameaçou intervir militarmente no Uruguai para defender os brasileiros ali instalados, caso não fossem punidas autoridades locais autoras de supostas violências contra eles. O governo imperial buscava, na verdade, um pretexto para fazer essa intervenção e foi alertado por Solano López de que, se ela ocorresse, haveria reação paraguaia. O ditador paraguaio fora convencido pelas acusações fantasiosas da diplomacia uruguaia, segundo a qual a Argentina e o Império compartilhavam o plano secreto de pôr fim à independência do Uruguai, dividindo-o entre si e de que, em seguida, se voltariam contra o Paraguai. López colocava-se em posição de confronto com o Rio de Janeiro e Buenos Aires, confiando no pressuposto dos apoios de Urquiza e do governo blanco e na superioridade militar do Paraguai, que contava com um exército mais numeroso que os dos países vizinhos somados.

A essa altura, os governos brasileiro e argentino tinham se posto de acordo sobre o Uruguai. A afinidade ideológica inédita entre esses dois governos, pela primeira vez simultaneamente em mãos de liberais, facilitava a concordância, baseada em interesses políticos concretos. Do lado do governo brasileiro, considerava-se que a estabilidade política interna dependia também de atender os interesses da poderosa elite gaúcha no Uruguai. Na República Argentina, por sua vez, Mitre, para consolidar o Estado centralizado, deveria anular eventuais apoios externos aos federalistas. Para tanto, o presidente argentino pensava em uma aliança estratégica com o Império no Rio da Prata. A cooperação entre ambos facilitaria estabilizar politicamente a região, pondo fim às guerras civis que ameaçavam a unidade argentina. Mitre não podia, porém, defender essa política em público, pois daria o pretexto para uma rebelião federalista.

As diplomacias argentina e brasileira estavam de acordo entre si quanto à situação no Uruguai e avaliaram que o Paraguai não iria além do apoio retórico ao governo blanco. Enganavam-se. Em outubro de 1864, tropas brasileiras invadiram território uruguaio, enquanto o vice-almirante Tamandaré, comandando uma esquadra de guerra, apoiava ativamente a rebelião de Flores. No mês seguinte, o navio civil brasileiro Marquês de Olinda, que fazia a linha comercial até Cuiabá, foi aprisionado logo após partir do porto de Assunção e, no final de dezembro, tropas paraguaias atacaram o Mato Grosso, supreendendo o Império. O território tomado ia [pag. 258]

[pag. 259]

 

além daquele em litígio entre o Brasil e o Paraguai e fácil foi sua ocupação pelos 7.700 soldados paraguaios, pois a província mato-grossense dispunha de apenas 875 soldados do Exército e pouco menos de 3 mil guardas nacionais, sem capacidade de combate.

Garantida sua retaguarda ao norte, o plano de López era avançar sobre o Rio Grande do Sul, em direção ao Uruguai, onde suas forças derrotariam as tropas brasileiras que lá se encontravam, de pouco menos de 10 mil soldados (o efetivo total do Exército Imperial era de 18 mil homens). Essa vitória significaria para o Paraguai colocar o Império de joelhos, impondo-lhe fronteiras e arrancando-lhe outras concessões. Faria isso sob o argumento da defesa da independência uruguaia, e contando com o apoio do governo blanco, bem como dos federalistas argentinos.2 Contudo, em fevereiro de 1865, o novo presidente uruguaio, o também blanco Tomás Villalba, pressionado pelos comerciantes da cidade, prejudicados pelo bloqueio de Montevidéu pela Marinha imperial, assinou acordo de paz com o enviado brasileiro José Maria da Silva Paranhos, futuro visconde do Rio Branco. Pelo acordo, Flores ascendeu à presidência.

Apesar das novas circunstâncias, López não alterou seu plano original. Em abril de 1865, a província de Corrientes foi invadida por 22 mil soldados paraguaios comandados pelo general Wenceslao Robles. Dois meses depois, outra coluna paraguaia, com 12 mil homens, comandada pelo coronel Antonio de la Cruz Estigarribia, invadiu o Rio Grande do Sul. López imaginava que seria visto como libertador, não como invasor, pelas populações de Corrientes e de outras regiões do interior argentino, que se levantariam a seu favor. A coluna de Robles deveria marchar para o sul, ajudar a depor Mitre e, em seguida, se unir à força de Estigarribia para atacar as forças brasileiras que estavam no Uruguai. Planejava-se uma verdadeira “guerra relâmpago”: a rapidez do avanço e a superioridade numérica permitiriam a vitória paraguaia sobre a tropa brasileira no Uruguai e sobre o próprio Império. Este estaria sem condições de reagir rapidamente, pois dispunha de apenas 8 mil soldados como força reserva e, ademais, espalhados pelo território brasileiro.

Não foi o que ocorreu, pois apenas parte da população de Corrientes viu com simpatia a força paraguaia. Urquiza também recuou no apoio a López, para evitar que Entre Ríos tivesse seu comércio paralisado ao ser submetida ao bloqueio naval imposto pela Marinha imperial ao Paraguai. O poderio naval brasileiro se impôs, definitivamente, em 11 de junho de 1865, quando a improvisada Marinha de Guerra paraguaia foi praticamente destruída na batalha travada no rio Paraná, [pag. 260] próximo à foz do Riachuelo. Desde então, o Paraguai ficou submetido a eficiente bloqueio, impedido de receber armamento e munição pelo Prata e fazer comércio externo, exceto por precários contatos através da Bolívia.

 

A TRÍPLICE ALIANÇA E O RECUO PARAGUAIO

 

Até a invasão de Comentes, o Império buscava alternativas para enfrentar militarmente o Paraguai. Era impossível fazer, a curto prazo, uma operação para desalojar os paraguaios do Mato Grosso, província quase isolada por terra. Não era viável agir contra os paraguaios em Mato Grosso a começar de São Paulo que, embora a mais de 2 mil km, era o local mais próximo da região invadida que contava com infra-estrutura para se organizar um exército de milhares de homens. Essa hipotética força, quando atuasse em Mato Grosso, teria de reabastecer-se de suprimentos bélicos e víveres na capital paulista, por um precário e longo trajeto, atravessando sertões despovoados e desprovidos de recursos, em uma jornada que durava seis meses ou mais.3

Em março de 1865, o Império mandou ao Prata seu novo enviado especial, Francisco Octaviano de Almeida Rosa. Tinha instruções de colaborar para fortalecer o governo de Flores e de constatar de quais recursos dispunha o Uruguai para apoiar o Brasil na guerra contra o Paraguai. As instruções determinavam que o “objeto principal” de Almeida Rosa quanto à Argentina era o de conseguir que seu governo não dificultasse as operações do Império contra Solano López.4

Almeida Rosa foi surpreendido pela viabilidade de assinar uma aliança militar com a Argentina, como conseqüência da invasão paraguaia a Comentes. Em lº de maio de 1865, em Buenos Aires, os representantes da Argentina, do Brasil e do Uruguai assinaram o Tratado da Tríplice Aliança contra o Paraguai. O texto do acordo era secreto, mas tornou-se público em 1866 devido a uma cópia, obtida pela Chancelaria uruguaia e incluída em relatório sobre a situação no Rio da Prata apresentado pelo governo britânico ao Parlamento.

Esse tratado estabelecia a aliança militar contra o Paraguai, mas afirmava que a guerra era contra Francisco Solano López e não o povo paraguaio. Determinava que a luta terminaria somente com a retirada do ditador do país, que a paz não seria tratada isoladamente, mas em conjunto pelos três países aliados, e somente com o novo governo que se instalasse em Assunção. As fronteiras entre o Paraguai e os países aliados também eram estabelecidas [pag. 261] pelo Tratado de 1º de Maio, sendo definidos como argentino todo o território do Chaco, a oeste do rio Paraguai — até a fronteira com Mato Grosso — e as Missões, enquanto seria brasileiro não só o território historicamente litigioso, como também entre este e o rio Igurei. No final das contas, terminada a guerra, o Império do Brasil conteve-se no limite que reinvidicava desde a década de 1840 e, mantendo sob virtual tutela os governos paraguaios, a diplomacia imperial trabalhou para que a Argentina não se apossasse de todo o Chaco.

O fracasso dos planos militares de López ocorreu não só pela rendição dos blancos de Montevidéu, pela defecção de Urquiza e pela assinatura da Tríplice Aliança. Parcela de responsabilidade coube à deplorável atuação dos comandantes das colunas invasoras de Corrientes e do Rio Grande do Sul. A invasão do território gaúcho foi verdadeiro passeio, tal a facilidade com que os paraguaios avançaram de São Borja até Uruguaiana. A frágil resistência brasileira decorreu do despreparo militar gaúcho, resultante das lutas políticas entre membros dos partidos Liberal e Conservador, das quais participavam os chefes militares locais. Tal era o caos político e militar em que se encontrava o Rio Grande, que Pedro II foi à província: somente com sua presença a situação foi controlada, contando, para tanto, com o reforço de tropas argentinas e uruguaias.

O coronel Estigarribia, porém, desobedeceu as instruções de não entrar nas cidades gaúchas e de avançar diretamente para o Uruguai. Necessitava de mantimentos e ingressou em Uruguaiana, onde sua tropa se imobilizou, pois, deslumbrada com os produtos do comércio local, dedicou-se ao saque, dando tempo às forças brasileiras de sitiá-lo. Enquanto isso, a tropa paraguaia de vanguarda, comandada pelo major Duarte, que descia pela margem direita do rio Uruguai, foi batida na batalha de Jataí pelas forças do general Flores. Foi a primeira derrota terrestre paraguaia desde o início da guerra, e Estigarribia rendeu-se a Pedro II, em setembro, à vista das forças aliadas.

Em Corrientes, Robles também desobedeceu as instruções recebidas e, em lugar de marchar para o sul, rumo ao Uruguai, acabou se imobilizando. Era um general inexperiente e, especula-se, ficou aterrorizado com o fato de ser comandada pelo lendário Urquiza a tropa argentina que teria de enfrentar. Inseguro, Robles imobilizou suas tropas, mergulhou no álcool e passou os dias embebedando-se; foi destituído em 23 de julho de 1865 e fuzilado por traição em 8 de janeiro do ano seguinte. Robles tinha sido incompetente, mas não traidor. [pag. 262]

Fracassado seu plano ofensivo, Solano López ordenou o retorno de suas forças de Comentes para o Paraguai, o que ocorreu entre 31 de outubro e 3 de novembro. A travessia deu-se na confluência dos rios Paraná e Paraguai, conhecida como Três Bocas, sem que os paraguaios fossem incomodados pela Esquadra imperial, comandada por Francisco Manuel Barroso da Silva. Este foi alvo de críticas, o mesmo ocorrendo com seu superior, Tamandaré, que permanecia em Buenos Aires. A inação decorreu de Barroso não dispor de carta hidrográfica da calha fluvial do rio Paraná nem ter um prático que conhecesse o leito do rio. Nessas condições, subir com os navios até aquela confluência seria arriscar encalhá-los ou a serem destruídos pela artilharia inimiga.

As campanhas do Uruguai e de Comentes redundaram em verdadeiro desastre para o Paraguai. Foram perdidas tropas bem treinadas, e as que se retiraram de Corrientes o fizeram desmoralizadas e doentes. Ao norte, porém, os invasores permaneceram em Mato Grosso, pois não podiam ser eficazmente atacados. Prova-o a tentativa do governo imperial de socorrer a província, com uma coluna enviada de São Paulo, que, ao ingressar em Mato Grosso, em meados de 1865, contava com 2.080 soldados e chegou a invadir território paraguaio. A coluna foi rechaçada e perseguida pelos paraguaios até começo de junho de 1867, quando eles se deram por satisfeitos: restavam apenas setecentos combatentes brasileiros. Esse acontecimento foi descrito no clássico A retirada da Laguna, do visconde de Taunay. Os paraguaios retiraram-se de Mato Grosso somente em abril de 1868, para reforçar a frente sul, onde se decidia o resultado da guerra.