História das Guerras

Demétrio Magnoli · Capítulo 20 de 29

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História das Guerras

Depois

 

Dois meses depois do armistício, em janeiro de 1919, a Conferência de Paz de Paris elaborou o tratado que pôs fim à Grande Guerra e criou a Liga das Nações, ou Sociedade das Nações. A base do tratado seriam os catorze pontos de Wilson. Tornar o “mundo seguro para a democracia”, frase que soa familiar nos dias de hoje, era o grande objetivo. “Paz sem vingança”, pregou Wilson em Versalhes. O primeiro-ministro Georges Clemenceau tinha projetos mais pragmáticos.

“O Tigre” considerava a Alemanha o “inimigo hereditário, responsável pela guerra”. Devia ser definitivamente neutralizada, colocada em situação de nunca mais constituir ameaça para a França. Preconizava a constituição de estados-tampões, a começar pela Polônia, e a Renânia, desmembrada da Alemanha. Responsáveis pelo conflito, os alemães deveriam pagar pesadas reparações de guerra. A França teve de volta a Alsácia-Lorena e ganhou da Alemanha as colônias do Togo e de Camarões, na África. Mas a guerra devastou-lhe o território e rebaixou-a à categoria de potência de segunda classe. O culto da ofensiva à outrance, a exaltação do élan foram substituídos pela valorização da defensiva, traduzida na construção da custosa Linha Maginot, de inutilidade provada pelas divisões panzer, as formações blindadas alemãs que desbordaram a linha fortificada francesa em 1940.

O ministro Vittorio Emanuele Orlando representou a Itália na Conferência. Negadas as compensações territoriais na Dalmácia, na costa do Adriático, prometidas no tratado secreto de Londres, de 1915, retirou-se dramaticamente da Conferência. Mudou de idéia e voltou um mês depois. O primeiro-ministro Sir Lloyd George não poderia concordar com os rigores de Clemenceau nem com a cobrança de Orlando. “A Grã-Bretanha não tem amigos nem inimigos; tem interesses, e esses são permanentes”, ensinara um seu antecessor. Até bem recentemente, a França fora inimiga e tornara-se necessária a paciente arquitetura [pag. 344] da Entente Cordiale para que séculos de enfrentamentos fossem deixados de lado. Padrinho involuntário da Entente fora o Império Alemão, e tendo ele desaparecido, não interessava à Grã-Bretanha uma Europa com França fortalecida, nem com uma Alemanha demasiadamente enfraquecida. Além do mais, a Alemanha democrática e republicana seria um dique ao comunismo implantado na Rússia. Finda a guerra, a Grã-Bretanha retomou sua histórica linha de favorecimento do equilíbrio europeu. O cientista político e estadista americano Henry Kissinger registra o processo de evolução da política de equilíbrio do poder para a política de apaziguamento de Hitler, no fim da década de 1930.13

A diversidade de interesses entre os aliados e o medo do parceiro russo, feito inimigo potencial, pouparam a Alemanha de rigores ainda maiores que os impostos em Versalhes; e o idealismo wilsoniano concorreu para moderar o pragmatismo dos aliados europeus. Mesmo assim, os alemães haveriam de se referir ao diktat (ditado, tratado imposto pela força) de Versalhes. (Benefício semelhante teriam eles após a derrota na Segunda Guerra Mundial, em decorrência da Guerra Fria.) O Tratado de Versalhes, o mais importante dos cinco tratados de paz que puseram fim à Grande Guerra, foi assinado a 28 de junho de 1919, na Galeria dos Espelhos do Palácio, o mesmo cenário que a inabilidade alemã havia escolhido, meio século antes, para a criação do Império da Alemanha.

A guerra de 1914-18 provocou profundas modificações territoriais na Europa. Pelo Tratado de Versalhes, a Alemanha perdeu um sétimo de seu território e 10% de sua população, para a França, a Bélgica, a Polônia, o Japão e a Grã-Bretanha. A França explorou o carvão do Sarre por 15 anos, após o que um plebiscito decidiria sobre sua volta à Alemanha. Danzig, hoje a polonesa Gdansk, tornou-se “cidade livre”, separada da Prússia Oriental pelo corredor polonês, criado para dar à Polônia acesso ao mar Báltico. Os dois impérios, alemão e austríaco, tornaram-se repúblicas, proibidas de se unirem. (A Anexação da Áustria — Anschluss — promovida por Hitler em 1938 e convalidada por um plebiscito passou por cima da proibição, revigorada após a Segunda Guerra Mundial.)

O orgulhoso poderio alemão cedeu lugar à miséria e à frustração da guerra perdida, agravadas pelas reparações impostas pelo vencedor — o que facilitou que prosperasse o mito da Dolchstoss, a punhalada nas costas, explorado por dois ex-combatentes: um deles, general e notável chefe da Grande Guerra, Erieh Ludendorff. O outro, o cabo da Boêmia, como o chamava Hindeburg aludindo a seu nascimento na Áustria, agitador, demagogo, mestre em discursos [pag. 345] inflamados, Adolf Hitler. A paz de Versalhes facilitou a ascensão do nazismo e a preparação da nova guerra.

No terreno militar, o Reno teve trechos da margem esquerda ocupados pela França e uma faixa da margem esquerda desmilitarizada. A Alemanha extinguiu o serviço militar, limitou seu exército a 100 mil homens e proibiu-se de equipá-lo com tanques e artilharia pesada. A marinha de guerra foi extinta. Os alemães assumiram o compromisso de entregar aos Aliados navios mercantes, locomotivas, barcaças, entre outros equipamentos. Os bens de alemães residentes fora do país foram confiscados. As reparações em dinheiro, inicialmente fixadas em 132 bilhões de marcos-ouro, diminuíram sucessivamente, até chegaram a 3 bilhões. 14 Que a Alemanha não pagou.

Os Catorze Pontos apresentados pelo presidente Wilson incluíram o estabelecimento de fronteiras segundo o critério da nacionalidade, e o Tratado de Versalhes prescreveu “a criação de Estados com base no princípio da autodeterminação”. O Império Austro-Húngaro desapareceu, fragmentando-se em países desenhados no mapa pelos vencedores. Esses novos países, cuja criação teria atendido ao princípio das nacionalidades, tinham dentro de suas fronteiras populações que invocavam o benefício desse mesmo princípio. Na Tchecoslováquia, por exemplo, além de tchecos e eslovacos, existiam 3 milhões de sudetos (alemães), 700 mil húngaros e 30 mil poloneses. A União Soviética continuou a ser a “prisão de nações”, como era chamada a Rússia czarista. Os anos entre as duas guerras confirmaram ser bem mais fácil formular princípios do que aplicá-los. O princípio da nacionalidade, mal aplicado e bem explorado pela Alemanha nazista, foi um importante componente do cenário em que se processou o desencadeamento da Segunda Guerra Mundial. Sua aplicação continua a desafiar diplomatas e estadistas.

O Império Turco-Otomano faleceu, dando lugar à República da Turquia. A França e a Grã-Bretanha partilharam os despojos otomanos no Oriente Médio. Os franceses assumiram o controle da Síria e do Líbano. Os britânicos, em 1917, divulgaram a Declaração Balfour, em favor da instalação de um “lar nacional judeu na Palestina”, e prometeram aos árabes apoio à formação de Estados independentes: promessas conflitantes, germes do conflito árabe-israelense. O Império Britânico, debilitado, ainda duraria até o segundo pós-guerra, mas os dias gloriosos da Era Vitoriana não mais voltariam e a Pax Britânica, relembrada com certa saudade, passaria a ser termo para citações de história. Os centros de poder econômico e financeiro já haviam migrado da Europa e cada vez mais se firmariam nos Estados Unidos. [pag. 346]

O vulto das transformações políticas é pelo menos igual ao das modificações territoriais: na Grande Guerra encontram-se as raízes dos totalitarismos comunista, fascista e nazista. O primeiro deles foi viabilizado pela Revolução Russa de 1917, para a qual contribuíram dois “estranhos companheiros de cama” — o czar Nicolau II (1868-1918), com sua desastrosa conduta da guerra, e o general Ludendorff, ao ajudar o revolucionário Vladimir Ilych Lenin a chegar à estação Finlândia, em São Petersburgo, em abril de 1917. De lá, a golpes de audácia e de talento, ele tomaria o poder e, colocando acima de tudo a vitória da Revolução Russa, assinaria com a Alemanha o humilhante Tratado de Brest-Litovsk.

A feroz ditadura implantada na União Soviética resistiu à intervenção das potências aliadas e à formação do “cordão sanitário” que a separou do resto dos paises europeus. Em 1922, com a assinatura do Tratado de Rapallo, inicia-se a integração da União Soviética ao sistema europeu. Segundo o tratado, Alemanha e União Soviética cancelaram mutuamente as dívidas bilaterais, renunciaram a reparações de guerra e celebraram amplos acordos comerciais. Outros acordos, secretos, possibilitaram aos alemães desenvolver na União Soviética armas proibidas pelo Tratado de Versalhes, um longínquo prenuncio do Pacto Germano-Soviético de 1939, que permitiria a Hitler deflagrar a nova guerra. A integração completou-se em 1924, com a maioria dos países ocidentais, excetuados os Estados Unidos, reconhecendo a União Soviética. Na instauração do segundo dos totalitarismos nascidos da Grande Guerra, em 1922, Mussolini fez do medo do comunismo a bandeira do fascismo, e explorou as frustrações dos italianos por não verem cumpridas as promessas de compensações territoriais. Adolf Hitler, por sua vez, explorou o mito da “punhalada nas costas” e as injustiças do diktat de Versalhes para incendiar o ressentimento dos alemães.

Durante a Guerra Franco-Prussiana morreram 250 mil, e na Guerra de Secessão americana, cerca de 420 mil. A Grande Guerra bateu todos os recordes de perdas humanas, girando as estimativas de mortos em combate em torno de 10 milhões. As seis maiores batalhas — a do Somme em primeiro lugar, com 1 milhão de mortos — respondem por mais de 30% do total de vítimas fatais em combate. O número de feridos foi a 20 milhões.

Os mortos da guerra estavam na faixa de 19 a 40 anos. A população envelheceu, a proporção de mulheres aumentou. A guerra deixou 630 mil viúvas na França e um número ainda maior na Alemanha. A mulher libertou-se: fora chamada a trabalhar nas fábricas e na agricultura e, quando terminou a guerra, não seria mais apenas “do lar”. Porém, são óbvias as conseqüências negativas da guerra sobre os índices de crescimento demográfico e de produtividade. [pag. 347]

Na guerra, a cavalaria e a maior parte dos transportes era hipomóvel, e os cavalos — cuja proporção era de um para três homens, deram sua contribuição à morte e ao sofrimento. Ainda maior que a mortandade causada pela guerra foi a trazida pela gripe espanhola de 1917-18, pandemia que matou 20 milhões em 28 países, neles incluído o Brasil. Só no Rio de Janeiro, causou 17 mil óbitos.

O serviço de saúde dos exércitos em campanha, excetuado o caso das forças americanas, foi extremamente precário, tendo sido enorme o número de feridos que poderiam ter escapado à morte. Entre os inválidos de guerra, destacam-se os multi-amputados e os horríveis “gueule cassées”, os “caras quebradas”, cujo sofrimento foi minorado graças ao desenvolvimento da cirurgia plástica decorrente da Grande Guerra.

A Grande Guerra começou e desenvolveu-se com cada lado seguro de defender a boa causa e de que o inimigo era a encarnação do demônio. A propaganda encarregou-se de fortalecer e difundir esse pensamento. Assim, não há de se estranhar que tenha sido uma guerra total, com o emprego de todos os recursos para alcançar a vitória. Quando ela terminou, houve quem assegurasse ter sido a última — a “guerra para acabar com todas as guerras”, introdutora de uma paz justa e eterna. O Tratado de Versalhes tem sido culpado por, em lugar disso, ter lançado o germe da Segunda Guerra Mundial, devido ao rigor de suas cláusulas. Excessivo, para uns, insuficiente para outros.

Logo após assinada a paz, França, Grã-Bretanha e Estados Unidos escolheram o 11 de novembro para o culto dos mortos na guerra, chamando-o o Dia do Armistício. No segundo aniversário do armistício, em 1920, os franceses transferiram para o Arco do Triunfo os restos mortais de “um soldado cujo nome só Deus sabe”, o Soldado Desconhecido: uma imponente cerimônia, entre as muitas de culto da memória da guerra, que se alastraram pela França. Não menos importante para o amor-próprio nacional é o contraste entre os melancólicos dias de 1940, repetição em grande escala de 1870/71, e la gloire de 1914-18, nunca suficientemente exaltada.

Quatro anos de guerra, 1,4 milhão de mortos, ocupação de um terço do país pelos alemães, destruição de cidades, no caso da França; 1 milhão de mortos, no caso da Grã-Bretanha. Para franceses e britânicos, o que estava em jogo era a condição de país respeitável, ameaçada por um Império Alemão decidido a conquistar um lugar ao sol, um vasto lugar ao sol, cujos melhores pedaços já estavam ocupados. A ameaça, embora não iminente, foi percebida em círculos responsáveis pela segurança dos Estados Unidos. Em 1914, a neutralidade trouxe enormes benefícios econômicos e financeiros, em especial os decorrentes da substituição da Alemanha bloqueada como parceiro comercial na Europa e no [pag. 348] resto do mundo. Mas os Estados Unidos terminaram entrando na guerra para “salvar os valores da civilização”, como afirmou o presidente Wilson.

A afirmativa dever ser recebida com um grão de sal. O general De Gaulle, mestre em dizer verdades inconvenientes, costumava repetir: “Os ingleses que morreram libertando a França deram a vida pela Grã-Bretanha e pelo rei. Os americanos que morreram libertando a França morreram pelos Estados Unidos e por ninguém mais.” Corroborando esse óbvio, o filho do general, almirante Philippe de Gaulle, cita trecho de opúsculo distribuído pelo Exército Americano após a Liberação: “Assim como aconteceu em 1917, em 1944 nós não viemos à França para salvar os franceses [...]. Viemos porque nós, os americanos, estávamos ameaçados por uma potência hostil, agressiva e muito perigosa”.15 Os torpedeamentos, a divulgação do telegrama Zimmermann, a pressão da opinião pública são a parte visível da decisão americana de abandonar a neutralidade e entrar na guerra; sua parte racional foi avaliação de que o risco de uma vitória alemã atingira patamar intolerável para a segurança global dos Estados Unidos — na Europa, nos mares e no mundo. Após o Tratado de Versalhes, os americanos rejeitaram a constituição da Liga das Nações e voltaram a hibernar no isolacionismo, resistindo a todos os esforços do presidente Franklin D. Roosevelt para participar do que julgavam ser mais um conflito europeu. Foi preciso o ataque japonês à base aeronaval de Pearl Harbor (7 de dezembro de 1941) para provar-lhes o engano. Os Estados Unidos, ao fim da Guerra da Coréia (1950-53), crismaram o 11 de novembro: ele passou a chamar-se Dia dos Veteranos, no qual homenageiam os veteranos de todas as guerras. Estava-se em plena Guerra Fria e os Estados Unidos se haviam constituído em defensores da liberdade e dos “valores da civilização”, como afirmara Wilson.

 

MEMÓRIA

 

A Grande Guerra, a vida nas trincheiras, forneceu ambiente para muitos romances — alguns deles feitos filmes, poucos traduzidos para o português. Os espectadores de tarde da noite conhecem bem as mais famosas dessas películas. Do lado francês, A grande ilusão (La Grande Illusion, Jean Renoir, 1937), um pungente libelo contra a guerra; do lado americano, Adeus às armas (A Farewell to Arms, Charles Vidor, 1957), baseado na obra de Ernest Hemingway, sobre o tempo em que o escritor foi motorista de ambulância na frente italiana, com cenas do desastre da Caporetto. Erich Maria Remarque toma para título de antológico livro o fecho de comunicados de guerra da Alemanha, que combatia [pag. 349] em duas frentes: Nada de novo na frente ocidental. Hollywood fez do livro um filme julgado o melhor de 1930 (All Quiet on the Western Front, Lewis Milestone), premiado com o Oscar e um extraordinário sucesso mundial de bilheteria.

A Primeira Guerra Mundial continua presente no imaginário atual. Que fazer para o “der des der”? Trata-se do dernier des derniers, o último dos últimos combatentes franceses da guerra de 14-18, como são chamados. Quando do sepultamento do último poilu, que a homenagem da França seja a uma geração de homens, e não apenas a um deles, propôs um deputado francês. O lugar para sepultá-lo é discutido. Nos Inválidos, ao lado de Napoleão? No Somme, cenário da batalha mais mortífera? Ou Verdun, da heróica e sangrenta resistência, onde o presidente da França, François Mitterrand, e o primeiro-ministro da Alemanha, Helmut Kohl, apertaram as mãos em sinal da reconciliação entre os povos?

Ao se comemorar os 80 anos do armistício, o primeiro-ministro Lionel Jospin, enfrentando protestos da oposição, inaugurou um monumento “reintegrando à memória coletiva os soldados que, em 1917, no Chemin des Dames, se haviam amotinado após a ofensiva desastrosa do general Nivelle”. Tribunais militares ditaram centenas de condenações à morte por fuzilamento mas, graças à interferência do general Pétain, somente 49 sentenças foram executadas. O presidente Jacques Chirac censurou a homenagem e acusou Jospin de meter-se em algo que era da competência da Presidência.

O que levou os soldados, dos dois lados, a matar com tanto furor e a enfrentar a morte com tanta bravura? A pergunta procede mais ainda em relação aos membros da comunidade britânica e cidadãos das colônias francesas, britânicas e alemãs que combateram por suas metrópoles. Revisões da História e a Psicologia explicam que a propaganda de guerra, a disciplina militar, o “senso de pertencer” a uma organização, antes que o decantado patriotismo, respondem pelo número reduzido de combatentes que desertaram ou se recusaram a cumprir a ordem para go over the top.

Ainda há quem considere a História Militar província exclusiva dos militares, mas o número dos que pensam assim é cada vez menor. Por outro lado, existe nos meios intelectuais quem negue à História Militar a condição de História. Sob muitos aspectos, a imagem da lanterna de popa, que só ilumina para trás, aplica-se à experiência colhida na Grande Guerra. A lembrança da guerra de posição levou à supertrincheira de 1939, a Linha Maginot, feita inútil pela Blitzkrieg, a guerra relâmpago, promovendo audaciosas ações de ruptura e desbordamento das defesas do inimigo por velozes formações blindadas apoiadas pelos Stuka, aviões de bombardeio em mergulho. O pensamento militar conservador alemão acreditou [pag. 350] que esses novos meios permitiriam dar a uma ala direita atacante a impulsão e a velocidade que faltaram na execução do Plano Schlieffen. Foi preciso a criatividade do general Erich Manstein para conceber manobra ainda mais ousada que a de Schlieffen — o ataque pelas Ardenas. O Plano Manstein caiu sob os olhos de Hitler, que mandou executá-lo, do que resultou a vitória alemã de 1940. A Alemanha voltou a cometer a temeridade da guerra em duas frentes, atacando a União Soviética. Repetiu temeridade maior, que foi desencadear a Segunda Guerra Mundial.

Quase 90 anos depois de haver terminado a Grande Guerra, Niall Ferguson, um professor de história americano, da Universidade de Harvard, faz instigante paralelo entre o período que vai de fins do século XIX até o início da Guerra de 1914-18 e os dias de hoje. Ferguson assinala que, naquele tempo, a circulação de bens de capital e de pessoas era livre; as rotas de navegação e as comunicações telegráficas no Atlântico eram então intensamente utilizadas; difundiam-se inovações tecnológicas como o telefone, o rádio e as estradas pavimentadas; a economia mundial crescia em ritmo comparável ao de hoje e os Estados Unidos já eram a mais pujante potência econômica. O cenário, que lembra a globalização, desabou com a Primeira Guerra Mundial, uma guerra deflagrada pelo atentado terrorista de Sarajevo. Poderia aquele episódio se repetir com ingredientes atualizados, o 11 de setembro correspondendo a Sarajevo? 16

 

SE...

 

Wilson reelegeu-se presidente dos Estados Unidos em 1916, apoiado no slogan “ele nos conservará fora da guerra”. O isolacionismo respondia à vontade do povo de permanecer fora das confusões dos europeus e à conveniência do big business em explorar novas oportunidades de transações com a Europa em guerra. O rompimento de relações, quando da declaração de guerra submarina irrestrita pela Alemanha, foi a resposta graduada com que Wilson anunciou o início de uma escalada cujo patamar seguinte seria a declaração de guerra.

O gradualismo do presidente americano era inspirado por uma combinação de idealismo e pragmatismo. Os Estados Unidos vinham colhendo vantagens materiais com o comércio com os Aliados e não havia porque custear uma guerra e mandar americanos morrer nos campos de batalha da Europa. Além disso, a neutralidade reforçaria a estatura política da América quando chegasse o momento de tratar da paz. No entanto, tornou-se inevitável a entrada dos americanos no conflito. As vésperas de entregar a declaração de guerra ao Congresso, em abril de [pag. 351] 1917, Wilson previu em diálogo com o jornalista Frank Cobb, do jornal World, de Nova York, que ela “significaria que a Alemanha seria batida, e tão duramente batida que haveria uma paz ditada, uma paz vitoriosa”. E acrescentou: “Isto significa uma tentativa de reconstruir uma civilização de paz segundo padrões de guerra. Por fim, só haverá padrões de guerra.”17 Trazendo suas reflexões para o cenário nacional, Wilson previu que seria esquecido o significado da tolerância e que o espírito de implacável brutalidade entraria em todas as fibras da vida nacional, infeccionando o Congresso, os tribunais, o policial de serviço, o homem da rua.

Ao reproduzir o que lhe fora narrado por Frank Cobb, J. Fuller é de opinião que, com a Rússia praticamente fora da guerra e a Alemanha capaz de concentrar forças na Frente Ocidental, França e Grã-Bretanha teriam sido forçadas à defensiva. Por outro lado, o sistema de comboios começava a ter êxito na luta anti-submarina. Assim, os Estados Unidos teriam sido capazes de patrocinar uma paz negociada “antes que Lenin estivesse na sela”.

Linha de raciocínio também não convencional é atribuída a Churchill, a propósito do que teria acontecido se os Estados Unidos não tivessem entrado na guerra em 1917. “Os Estados Unidos deveriam ter cuidado de suas coisas e ficado fora da guerra mundial”, teria declarado em 1936 ao editor do jornal Enquirer, de Nova York, segundo narra Fuller. “Os Aliados teriam feito a paz com a Alemanha na primavera de 1917. [...] não teria acontecido o colapso da Rússia seguido do comunismo, nem a queda da Itália, seguida do fascismo [...] e a Alemanha não teria assinado o Tratado de Versalhes, que entronizou o nazismo.” Continua a entrevista: “se a Grã-Bretanha tivesse celebrado a paz em princípios de 1917, teria salvado 1 milhão de vidas britânicas, francesas, americanas e outras vidas”.18

Se...

 

NOTAS

 

(1) Apud John Keegan, História ilustrada da Primeira Guerra Mundial, trad. Renato Rezende,

Rio de janeiro, Ediouro, 2003, p. 101.

(2) Coronel Ardant Du Picq, Estudos sobre o Combate, tradução do original francês, Études sur

le combat, pelo Coronel Luiz de Alencar Araripe, Biblioteca do Exército Editora, Rio de

Janeiro, 2000.

(3) Life International — The First World War: Part V — Songs, Spies, Liberty Pups, 1964. (4) D. j. Godspeed, Ludendorff, Trad. Eloyvaldo Chagas de Oliveira, Rio de Janeiro, Biblioteca

do Exército-Editora/ Saga, 1968, p. 125.

(5) Major General J. F. C. Fuller, The decisive battles of the Western World, 1792-1944, special

abridged and revised edition, London, Granada Publishing, 1970, p. 387.

(6) Posto mais alto da arma de Cavalaria alemã, de onde o Barão (Freiherr) Richthofen era

oriundo.

(7) Life International — vol. 35, nº 11 — The Last Burst of Splendor: 1913. [pag. 352] (8) Sidney Garambone, A Primeira Guerra Mundial e a imprensa brasileira, Rio de Janeiro,

Mauad, 2003.

(9) A Doutrina Monroe foi formulada em 1823 pelo presidente dos Estados Unidos de mesmo

nome, condenando a colonização e a intervenção por parte de Estados europeus na

América.

(10) Garambone, op. cit. (Notícia do jornal do Comércio de 9 nov. 1917), p. 93. (11) Referente ao Duque de Caxias e Marechal do Império, Patrono do Exército. (p) Monteiro Lobato, “O Espião Alemão”, em Urupês — 2ª Parte, Cidades Mortas, 1943. p.

235.

(13) Henry Kissinger, Diplomacy, New York, Simon & Schuster, 1994, pp. 306-311. (14) O Goldmark foi a moeda-ouro criada após 1918 estabelecendo uma relação firme entre as

moedas inflacionárias e as estáveis do após-guerra.

(3 5) Philippe De Gaulle, De Gaulle, mon pére, entretiens avec Michel Tauriac, Paris, Plon,

2003, p. 149.

(16) Niall Ferguson, Sinking Globalization, em Foreign Affairs, March/April 2005, p. 64. (17) Fuller, op. cit., p. 358.

(18) Fuller, op. cit, p. 359.

 

BIBLIOGRAFIA

 

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PARIS MATCH. 1964 — 50 ans après lês pages heroiques de notre histoire. Números tricolores

14/ 18: La Grande Guerre; 1ère Guerre Mondiale.

STERN. Ich habe es nicht gewollt — Der Kaiser hatte Angst vor dem Krieg; Erschossen in

Sarajewo; Die 7 Tod Sünden des Deutsches Reiches. [pag. 353]

 

[pag. 354]