História das Guerras

Demétrio Magnoli · Capítulo 18 de 29

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História das Guerras

Primeira Guerra Mundial

 

Luiz de Alencar Araripe

 

Em 28 de junho de 1914, em Sarajevo, capital da província da Bósnia-Herzegóvina, o estudante bósnio Gavrilo Princip matou a tiros o sucessor do trono da monarquia Austro-Húngara e sua mulher. Percepções errôneas, avaliações de crise desastradas sucederam-se, e a massa crítica que era a Europa entrou em reação em cadeia, levando o mundo à Grande Guerra, de 1914-18, e à Paz de Versalhes. A reação continuou: Segunda Guerra Mundial (1939-45), Guerra Fria (1945-89), conflito árabe-israelense, Guerra da Bósnia (1992-95), guerras do Golfo Pérsico... Historiadores acreditam não se terem esgotado as conseqüências da Grande Guerra, mais tarde conhecida como a Primeira Guerra Mundial. A História Militar na universidade, os think-tanks (“tanques de pensamento”— instituições votadas à pesquisa interdisciplinar), os institutos de estudos estratégicos provam que a guerra há muito deixou de ser assunto privativo de militares. A Grande Guerra foi a mãe das guerras dos séculos XX e XXI. Vale recordá-la.

A Primeira Guerra Mundial pôs fim à belle époque, nome dado aos primeiros anos do século XX, que teriam sido felizes e despreocupados. Quando se fala em belle époque tem-se em vista os privilegiados da fortuna, a gozar as custosas amenidades das grandes cidades, particularmente Paris. O fato é que também o europeu comum já desfrutava de melhores condições de vida e tinha esperanças de dias ainda melhores, trazidos pela Revolução Industrial e pelas transformações sociais. Mas havia acontecimentos a apontar em sentido contrário e que deram lugar ao atentado de Sarajevo, o estopim da guerra. [pag. 319]

Em 1908 a Austria-Hungria anexou formalmente a Bósnia-Herzegóvina, capital Sarajevo, província eslava que vinha ocupando desde 1848. (Hoje, com a fragmentação da Iugoslávia, seguida da “purificação étnica” e combates entre nacionalidades, a Bósnia-Herzegóvina é uma república federativa tripartite de muçulmanos, croatas e sérvios).

O estudante Gavrilo Princip, patriota sérvio (terrorista, segundo o ponto de vista de Viena), subiu ao estribo do automóvel do arquiduque Francisco José, herdeiro do trono da Áustria-Hungria, e matou-o a tiros de revólver. Foi imediatamente preso. Nunca provadas, levantaram-se suspeitas sobre a participação do Reino da Sérvia no atentado.

A Áustria, depois de obter o aval da Alemanha, enviou um ultimato à Sérvia. Os sérvios atenderam a todas as exigências, menos a que abria seu território à investigação dos austríacos. O kaiser Guilherme II julgou isso justo, mas os austríacos, não. A 29 de julho declararam guerra à Sérvia e bombardearam sua capital, Belgrado. A 30, a Rússia e a Áustria decretaram a mobilização geral e a 31 os russos rejeitaram o ultimato alemão para voltar atrás. Estava dado o sinal de partida, e daí por diante tratava-se conquistar a vantagem de sair à frente. Dos dois lados, todos — militares, intelectuais, imprensa, o povo nas ruas — queriam, pediam a guerra. Todos pensavam que ela seria curta e gloriosa.

 

A GEOGRAFIA

 

A Galeria dos Espelhos, magnífica como todo o Palácio de Versalhes, com 70 metros de largura, 10 de comprimento e uma cúpula que se eleva a 13 metros, estava repleta de uniformes de oficiais alemães que se haviam distinguido nas batalhas da Guerra Franco-Prussiana (1870-71) em que os exércitos franceses havia sido derrotados e o imperador Napoleão III, feito prisioneiro. O rei da Prússia, Guilherme I, ostentava uma condecoração russa e o Kronprinz, o príncipe herdeiro, a ordem da jarreteira, simbolizando a união entre o império que ali nascia e os dois velhos impérios da Rússia e da Alemanha. Ainda se podiam ouvir os canhões que participavam do cerco de Paris, cuja rendição e ocupação eram iminentes. Culminando a pompa da cerimônia, o chanceler da Prússia, Otto von Bismarck, destacou-se dos presentes e, com voz gutural, proclamou a existência do II Reich, o Império Alemão. Ele escolhera esse símbolo do poderio da França de Luís XIV como cenário da fundação do império construído com seu talento de estadista. Quase meio século depois, a França escolheria [pag. 320] esse mesmo cenário para a ratificação do Tratado de Versalhes, que extinguiu o Império Alemão, pôs fim à Grande Guerra e, segundo muitos, deu origem à Segunda Guerra Mundial.

A criação do Império Alemão importou em muito mais do que modificação do mapa político da Europa. Bismarck, chanceler, formou em 1872 a Liga dos Três Imperadores (Alemanha, Áustria-Hungria e Rússia). Concertou uma aliança defensiva com a Áustria, em 1889, à qual a Itália aderiu em 1892, formando-se a Tríplice Aliança. Com a Rússia, assinou o Tratado de Ressegurança, de 1887, pelo qual os dois países prometiam cada um permanecer neutro em caso de guerra com um terceiro país, a não ser que a Alemanha atacasse a França, ou a Rússia atacasse a Áustria. Em 1888, o imperador Guilherme II (1859-1941) sobe ao trono, entra em choque com Bismarck e, dois anos depois, demite-o. Foi o primeiro grande erro do último imperador alemão, agravado pela má escolha de sucessores do grande chanceler. Pouco depois da demissão de Bismarck, Guilherme II recusou-se a renovar o original Tratado de Ressegurança.

A França de 1914 ansiava pela revanche e a restituição da Alsácia-Lorena, perdida na humilhante derrota de 1870. “Não falar, e não esquecer”, era o lema do oficial francês. Note-se que, na França e na Alemanha, os grandes comandos de 1914-18 estavam em mãos de tenentes de 1870-71 (e algo semelhante aconteceu na Segunda Guerra Mundial em relação a grande número de generais europeus, que haviam combatido como tenentes em 1914-18) o que estabelecia um vínculo guerreiro entre os militares europeus.

Frustrando o isolamento que o chanceler Bismarck pretendeu impor-lhe, a França lançou-se a intenso trabalho diplomático, e em 1892-93, assinou o Tratado de Aliança Franco-Russo. Em seguida, acertou suas pendências coloniais com a Grã-Bretanha na África, e em 1894 os dois países celebraram a chamada Entente Cordiale. Em 1907, Grã-Bretanha e Rússia uniram-se por um tratado. Estava constituída a Tríplice Entente.

A Alemanha só restara a aliança com a fraca Áustria-Hungria, onerada pelo envolvimento nas questões dos Bálcãs, onde seus interesses se chocavam com os do Império Russo, aliado da Sérvia. Em 1887 a aliança recebeu a duvidosa adesão do Reino da Itália que, em 1902-3 assinaria um tratado secreto com a França, sob promessa de futuras concessões territoriais. Tratados secretos faziam parte do arsenal diplomático, o que não contribuía para a construção de uma boa ordem internacional. Assim, o presidente americano Woodrow Wilson (1856-1924), ao postular a proibição daquele tipo de instrumento, até vê-la incluída no Tratado de Versalhes, foi um realista, e não um ingênuo [pag. 321] como pretendem alguns. (A proibição não impediu que o Pacto Germano-Soviético de 1939, um salvo-conduto dado por Stalin a Hitler para deflagrar a Segunda Guerra Mundial, contivesse um protocolo secreto dispondo sobre a partilha da Polônia.)

O Atlântico a oeste, o mar do Norte a leste e o canal da Mancha ao sul deram à Grã-Bretanha condições privilegiadas para constituir-se em grande potência naval, cabeça da extraordinária construção política, o Império Britânico, possuidora de colônias nos cinco continentes. Nos princípios do século XX, britânicos, franceses, russos e alemães disputavam os restos do agonizante Império Turco-Otomano no Oriente Médio. Segura da verdade do verso Britania rules the waves (a Inglaterra governa as ondas), a rainha dos Mares vivia na Europa seu “esplêndido isolamento” imperial. Isolamento ameaçado quando a Alemanha unificada, formidável potência continental, se lançou num vasto programa de construção de navios de guerra.

O equilíbrio de poder, como sistema de forças destinado a evitar a hegemonia de um Estado, informou a política britânica em relação ao continente europeu nos séculos XVIII e XIX. Uma Alemanha unificada, afirmando-se com forte potência industrial e militar, colocava em cheque essa política. Para preservá-la haveria que, pelo menos, fazer hibernar o esplêndido isolamento da Inglaterra — e a Entente Cordiale era um meio para esse fim.

Ainda na margem sul do canal da Mancha, estavam os pequenos reinos da Bélgica e da Holanda, caminhando numa corda bamba, sabendo que qualquer compromisso de defesa com a França ou a Grã-Bretanha implicaria problemas com a Alemanha, e vice-versa.

Os alemães perderam o artífice de suas vitórias militares, o marechal Moltke, o Velho (1800-1891), e seu grande estadista, o chanceler Bismarck. Nunca mais na história a Alemanha teria uma associação de tão grandes competências para conduzi-la na guerra; ou para impedi-la de ir à guerra. Guilherme II queria um lugar ao sol para seu vigoroso Império e acreditava possuir talentos necessários para conquistá-lo.

Duas fotografias de Guilherme bem ilustrariam a teoria de Jung sobre a Persona. A primeira, tirada em Berlim, em 1877, é de um homem em vistoso uniforme, de botas, a couraça com reluzentes ornatos dourados, agressivos bigodes em forma de guidão de bicicleta (que passaram a ser conhecidos como bigodes à kaiser), olhar furibundo, o Pickelhaube (capacete de couro) encimado não por uma ponta de lança, mas por uma águia coroada de asas abertas, pronta para o ataque, as mãos apoiadas no copo de respeitável espada: eis a Persona, a máscara para impressionar adversários, aliados, o povo alemão e principalmente o próprio Guilherme. A outra [pag. 322] foto, esta de fins da década de 1930, é a de simpático senhor de fisionomia suave, o olhar risonho, brancos os cabelos anelados e um tanto despenteados, os bigodes caídos e o cavanhaque pontudo, lencinho no bolso, um cigarro na mão: é Guilherme de Hohenzollern, refugiado na Holanda, o lenhador de Dorn, como era chamado pela imprensa. Do arrogante imperador alemão, nada.

A imaginação de Guilherme II foi excitada pela leitura do clássico The Influence of Sea Power upon History (1890) (A Influência do Poder Naval na História) do almirante americano Alfred Thayer Mahan (1840-1914), considerado por muitos o Clausewitz dos mares. “A força do poder naval é ilimitada: quem controla a economia mundial, congrega com ela os neutros, estrangula o adversário pelo bloqueio, obrigam-no a dispersar esterilmente suas tropas, sobre o litoral para evitar o desembarque [...]”, escreveu Mahan. Era esse o caminho para firmar o poder militar alemão na Europa e projetá-lo além-mar. Os alemães possuíam moderna marinha mercante e a segunda marinha de guerra dó mundo; se a Grã-Bretanha pudesse fazer qualquer coisa a respeito, esse segundo lugar jamais escalaria para primeiro. O programa naval, aprovado por leis votadas pelo Reichstag, o Parlamento alemão, entre 1898 e 1912, foi executado em detrimento da produção de armamento para o Exército, cuja expansão era vital para o êxito das operações terrestres de invasão da Bélgica e da França previstas no audacioso Plano Schlieffen.

Fronteiriço com Alemanha, estava o adversário da Prússia de muitas guerras, feito aliado desde 1879: o Império Austro-Húngaro, sob o imperador Francisco José. O império, de população predominantemente germânica, administrava mal a diversidade étnica, o que favoreceu o movimento pan-eslavista, originário da Sérvia e apoiado pela Rússia. A nordeste dos impérios Alemão e Austro-Húngaro estendia-se, até o extremo leste da Ásia, um império ainda maior, do czar Nicolau II. Gigantesco mas enfraquecido pela Guerra da Criméia (1854-56), o Império Russo sobrevivera à derrota na Guerra Russo-Japonesa (1904-5) e, apesar da inépcia do governo czarista, experimentava certo grau de progresso.

Um quarto império era o Turco-Otomano (do qual hoje resta a Turquia). A partir do século XIX não cessou de perder território, pela guerra, por movimentos de independência e, sobretudo por extraordinária incapacidade. Chamaram-no “o homem doente da Europa”, tão evidentes eram os males a afligi-lo. Aflições agravadas pela presença, ao norte, do Império Russo, patrono do pan-eslavismo, ansiando pelo controle do estreito de Dardanelos, território otomano, a interpor-se ao acesso russo às águas quentes do Mediterrâneo.

Duas guerras mundiais e as guerras iugoslavas dos anos 90 modificaram radicalmente a divisão política dos Bálcãs de 1914. Hoje ainda não se pode dizer [pag. 323] que a região seja estável, mas está longe de ter o nível de volatilidade que, no início do século XX, lhe fazia merecer a alcunha de “barril de pólvora da Europa”. Em 1914, guerras de independência (da Sérvia, da Bulgária e da Grécia), choques de minorias étnicas e guerras regionais apresentavam alta taxa de risco de envolverem a participação de grandes potências e de escalarem para um conflito maior.

Sincronizados com esse balé de alianças, programas de armamento evidenciavam que a guerra viria, discutindo-se apenas quando. O Estado-Maior Alemão falava em Der Tag, “o dia”, e estava certo de que a guerra seria travada em duas frentes. Certo estava, também, de que ela seria curta. Dessa certeza participaram estados-maiores, estadistas, políticos, jornalistas de toda a Europa. O socialista e pacifista francês Jean Jaurés (1859-1914), um dos poucos a discordar da guerra, terminou assassinado. Em 1914, os europeus partiram alegremente para o front, seguros de que em poucos meses estariam de volta para comemorar a vitória da causa de sua pátria. Os soldados eram aplaudidos nas ruas e colocavam nos vagões placas indicativas de destino: a Berlin; ou nach Paris.

Ao acontecer o atentado de Sarajevo, a Europa estava em equilíbrio instável, dividida em duas enormes alianças, conhecidas por diversos nomes:

• Aliados (Tríplice Aliança ou Entente ou Tríplice Entente): França, Grã-

Bretanha e Rússia.

• Impérios Centrais (Potências Centrais): Alemanha, Áustria-Hungria, Itália e

Império Turco-Otomano.

A Alemanha, a 1º de agosto, declarou guerra à Rússia e no dia 3, à França e à Bélgica. As alianças defensivas não têm resposta automática. No caso da França e da Grã-Bretanha, a entrada na guerra foi precedida de movimentada ação político-diplomática. Os franceses chegaram até a invocar l’honneur (a honra) para estimular os aliados britânicos. No dia 4, a Grã-Bretanha entrou em guerra com a Alemanha. Muito mais tarde, Guilherme II deixaria escapar o queixume: Das habe ich nicht gewollt (“Eu não queria isso”). Provavelmente não queria, mas deu um aval desastroso ao ultimato austríaco. Vestiu a máscara do homem forte e não teve coragem de tirá-la.

 

TECNOLOGIA

 

A Grande Guerra foi travada no ambiente resultante do salto tecnológico da Revolução Industrial que, da Grã-Bretanha, se irradiou pela Europa continental e pelos Estados Unidos, e os meios e os processos de combate de [pag. 324]

[pag. 325]

 

1914-18 refletem necessariamente esse fato. Tais reflexos são tantos e tão profundos que somente é possível citar alguns. A estrada de ferro e a telegrafia sem fio (a TSF), presentes na Guerra de Secessão e na Guerra Franco-Prussiana, são extensivamente utilizadas na Grande Guerra, permitindo transportar, controlar e abastecer grandes massas de homens e de materiais.

O desenvolvimento do motor a explosão e do motor elétrico respondem pelo aparecimento do automóvel, do avião e do tanque, o carro de combate na terminologia militar. O submarino, em fase de protótipo na guerra entre os Estados, tornou-se arma temível no ataque à navegação aliada. Aços especiais e mecânica pesada possibilitaram o aumento de calibre da artilharia e da blindagem dos navios de guerra. O canhão de campanha, o 75 francês e o 77 alemão, gozaram de grande prestígio no apoio ao ataque. A artilharia pesada, até 1914 exclusiva das fortalezas e dos navios de guerra, ganhou mobilidade e chegou ao front, montada em vagões e rebocada por tratores a vapor. O Grosse Bertha (Grande Bertha), “delicada” homenagem a Fräulein Bertha, filha do famoso fabricante de canhões Krupp, bombardeou Paris de uma distância de 100 km, causando mais comoção mundial que dano. Os processos de controle e centralização do tiro evoluíram consideravelmente, permitindo aumentar a rapidez e a quantidade de granadas que é possível fazer cair sobre o inimigo. “A artilharia conquista o terreno, a infantaria ocupa”, dizia-se — o que explicaria os ferozes bombardeios a preceder o ataque. O soldado de infantaria, alemão ou francês, teria dificuldade em acreditar nisso.

A guerra começou com armamentos convencionais semelhantes aos de 1870. A cavalaria, dos dois lados, entrou em campanha armada de lança. Calça garance (vermelha), capote com as abas dobradas (para facilitar a marcha), gorro de pano, faixas de lona envolvendo as pernas, mochila pesando 50 kg era o uniforme do Exército Francês, somente em fins de 1915 substituído pelo bleu horizon, o azul— claro, e capacete de aço. Do lado alemão, o uniforme era o feld grau, o cinza de campanha, as botas de couro ferradas, o capacete de couro com guarnição metálica encimado por uma ponta de lança, o Pickelhaube, adotado pelo Exército Prussiano em 1842; com a guerra, ele foi coberto de lã cinzenta, para camuflagem.

A metralhadora, a Gatling disparada por uma manivela, surgiu na Guerra de Secessão e esteve presente na Guerra de 1870, com canos múltiplos. Na Grande Guerra, mais leves, já automáticas, com grande velocidade de tiro, a Hotckiss francesa e a Maxim alemã, entre outras, ao lado da artilharia, se fizeram eficientes máquinas de moer carne. O desenvolvimento da indústria [pag. 326] química levou à produção dos gases de combate, que fizeram sua estréia em Ypres, em 1915, eficientes no matar e causar sofrimento. Surgiu também o lança-chamas (que teria extenso emprego na Segunda Guerra Mundial, particularmente no Pacífico).

A crescente presença da observação aérea e da aerofotogrametria facilitou a tarefa do artilheiro, mas obrigou a desenvolver a camuflagem, para ocultar posições de artilharia e de ataque, postos e comando, depósitos de suprimentos. Os americanos haviam interceptado e decifrado mensagens durante a Guerra de Secessão. Os alemães, na Frente Oriental, não precisaram decifrar as mensagens do inimigo: os russos as transmitiam em linguagem clara. Já no cerco de Paris não tiveram a mesma facilidade para ler os textos franceses expedidos para fora da cidade.

Os processos de combate evoluíram e generais, como Ludendorff, escreveram diretrizes inovadoras. O padrão de maciça e demorada preparação de artilharia seguida do assalto foi sendo aperfeiçoado. Os alemães desenvolveram táticas de infiltração, de emprego de tropas de assalto. Surgiu a barragem rolante, a sincronização do tiro de artilharia com a progressão da infantaria; e o ataque sem preparação da artilharia, “para assegurar a surpresa”, diziam os planejadores; em muitos casos, a surpresa foi do atacante, ante a violenta reação do inimigo. “Um exército de leões comandado por asnos”, diziam críticos britânicos a propósito das gigantescas baixas e da incapacidade de sua Força Expedicionária de romper a frente alemã.

O tanque (carro de combate, na terminologia militar) fez sua entrada em força na Batalha de Cambrai, em novembro de 1917, quando os britânicos lançaram 300 Mark VI contra os alemães. Daí por diante, a quantidade de tanques no combate foi crescendo e a doutrina sobre seu emprego, evoluindo. Algo semelhante aconteceu com o avião. Em 1914, as missões eram de observação, ampliaram-se para a regulagem do tiro de artilharia, o apoio às forças de terra, até o bombardeiro estratégico. Em 1914 a Alemanha tinha 204 aviões e a França, 162; em 1918 a primeira possuía 5 mil e os Aliados, 10 mil. A capacidade de transporte de bombas passou de alguns quilos em 1914, para 1 tonelada em 1916 e 4 toneladas em 1918 quando, por sorte das cidades européias, a guerra terminou. Todos esses e outros instrumentos de matar e causar sofrimento não diminuíram o prestígio da Rosalie, como os poilus (peludos, carinhoso apelido dos soldados franceses, de barba e cabelos abundantes) chamavam a baioneta. Um general imaginoso chamou-a de sábia. [pag. 327]