História das Guerras
O Peso da Guerra Estava no Leste
Quando as tropas nazistas que estavam nos arredores de Moscou foram derrotadas, no fim de 1941, o moral do povo e das tropas soviéticas melhorou bastante. Isso não queria dizer que os nazistas haviam sido derrotados. Perderam a Batalha de Moscou, mas a força da máquina de guerra nazista continuava essencialmente intacta.
Como o maior peso das forças nazistas se encontrava na frente oriental, os dirigentes soviéticos pressionavam seus aliados ocidentais para abrir uma frente no oeste. Problema que, como veremos, foi de difícil solução. Numa visita que [pag. 373] Churchill fez a Moscou em meados de 1942, Stalin reforçou a idéia de que os soviéticos precisavam de ajuda para aliviar a imensa pressão exercida pelos nazistas. O líder britânico sabia que suas forças, mesmo somadas com a fabulosa economia americana, ainda não tinham condições de abrir uma grande segunda frente no Ocidente. Mesmo assim, Churchill garantiu que os aliados iriam tentar invadir a Europa Ocidental pela Itália. Churchill usou uma metáfora singular para justificar o ataque à Itália. Ele dizia que ali estava localizado o ventre mole do monstro, do crocodilo, pois as costas francesas eram consideradas então muito bem fortificadas e de difícil acesso.
No verão de 1942, as forças nazistas haviam recuperado a iniciativa em várias frentes. As vitórias no norte da África haviam incentivado Hitler a retomar o plano para o avanço em direção aos poços de petróleo do Cáucaso. O líder nazista chegou a declarar, na ocasião, que, se não conseguisse o petróleo de Grozny e Maikop, teria de dar por terminada a guerra. Cortar a veia fluvial, simbolizada pelo rio Volga, era a grande jogada estratégica que Hitler esperava fazer para dobrar a resistência soviética. E ele não acreditava que Stalin tinha condições de reunir mais de 1 milhão de soldados na região e, muito menos, que as fábricas soviéticas tivessem a capacidade de produzir cerca de 1.200 tanques por semana. Chegou mesmo a destituir o general que disse que a produção soviética já estava conseguindo esse objetivo.
Uma imensa força alemã começou por dominar a região do mar Negro, tomando Sebastopol e subindo dali em direção a Stalingrado. A retirada dos soviéticos animava as forças nazistas. O 6º Exército, sob o comando do general Paulus, foi encarregado de tomar a cidade. Os habitantes de Stalingrado não estavam muito confiantes nas forças responsáveis por sua defesa. Além do mais, já tinham conhecimento suficiente das atrocidades cometidas pelas tropas nazistas. Em poucas palavras, o moral estava bastante baixo. Entre setembro e outubro, as forças alemãs já tinham alcançado as estradas para Stalingrado. Contudo, Hitler não se dava conta de que, quanto mais avançava, mais o 6º Exército aumentava sua vulnerabilidade ao longo do flanco norte. O outono chegava e, com ele, a estação das chuvas geladas prenunciando as nevascas que atingem o Cáucaso.
Hitler mudou seu quartel-general para a Ucrânia, a fim de acompanhar mais de perto o desenrolar da batalha que, para ele, tinha um significado não só estratégico, mas simbólico. Era a cidade com o nome de Stalin que, destruída, anunciaria a destruição do regime soviético e a subordinação da Rússia e dos povos eslavos. [pag. 374]
O general Paulus falou pessoalmente, por rádio, com Hitler em 25 de outubro e garantiu ao Führer que Stalingrado estaria tomada até 10 de novembro. Já na cidade, lutando casa a casa, os alemães não se deram conta de que estavam entrando numa imensa armadilha. O comando geral das forças soviéticas, nas mãos do general Zhukov, iniciou a concentração de homens e tanques na região. Forças vindas do norte e do sul fecharam, como uma enorme pinça, os alemães dentro de Stalingrado. Qualquer tentativa de mandar reforços ou material para os mais de 250 mil alemães na cidade era inútil.
A luta prosseguiu durante dezembro de 1942 e janeiro de 1943. A temperatura chegou à cerca de 40° C abaixo de zero. Alguns membros do alto comando alemão chegaram a sugerir a Hitler que autorizasse o 62 Exército a empreender uma tentativa de retirada. Hitler proibiu. Os soldados deveriam morrer como exemplo de heroísmo. Ao mesmo tempo, promoveu Paulus a marechal de campo, dizendo que não constava nos registros da história das Forças Armadas da Alemanha a rendição de um marechal. No começo de fevereiro, o marechal Paulus rendeu-se as forças soviéticas. Terminava assim uma das grandes batalhas da história. Dos mais de 250 mil soldados alemães que se encontravam na cidade, sobreviveram cerca de 90 mil. A maioria foi internada em campos de prisioneiros e poucos conseguiram regressar à Alemanha depois da guerra.
O COMEÇO DO FIM
Quase ao mesmo tempo em que se desenrolava a batalha no Cáucaso, outra grande batalha entre aliados e as forças nazi-fascistas estava ocorrendo nos desertos da África. Os italianos haviam tentado expandir seus domínios avançando da Líbia em direção ao Egito e foram derrotados pelos britânicos. Hitler interveio com o envio de uma poderosa força de panzers comandada pelo famoso general Erwin Rommel, conhecido como “Raposa do Deserto”, que derrotou as forças britânicas. No entanto, em agosto de 1942, com ajuda de farto material bélico americano, os britânicos iniciaram uma contra-ofensiva. Em outubro deu-se a chamada Batalha de El Alamein, com a derrota das forças de Rommel.
Em novembro, os reveses dos alemães e italianos iriam ser maiores. Uma enorme força naval anglo-americana desembarcou no Marrocos e, encontrando pouca resistência, dominou as tropas francesas teoricamente fiéis ao governo [pag. 375] de Vichy. Hitler, em represália, mandou que as tropas alemãs ocupassem o resto da França, violando o armistício assinado cerca de dois anos antes. A invasão da África pelas forças americanas era o começo da preparação para a invasão da Itália que, como veremos, foi o primeiro passo para a guerra na Europa Ocidental.
Na verdade, já se lutava na Europa Ocidental, nos mares e principalmente nos ares. Embora com grande perda de aviões, americanos e britânicos mantiveram as cidades alemãs sob constantes bombardeios. Colônia, Berlim, Hamburgo eram “visitadas” quase que diariamente pelas fortalezas-voadoras da Força Aérea do Exército Americano, a USAAF.
Na década de 1960, na capa de um disco de jazz de Thelonious Monk, o pianista aparece com uma boina, um paletó de couro e uma metralhadora a tiracolo. Atrás do pianista vê-se um soldado alemão da SS (guarda especial nazista) amarrado, perto de uma bandeira nazista amassada. Sobre o piano, garrafas de vinho francês. Sobre uma mesa e espalhado pelo chão, bombas, dinamites e granadas. Na parede está pregada uma foto do general Charles De Gaulle. O título do disco é Underground. Monk estava fazendo uma referência aos maquis franceses, integrantes da resistência na luta clandestina contra o domínio nazista.
Os movimentos de resistência dos países ocupados desempenharam papel importante na luta contra os nazistas. Na França, a resistência estava organizada em duas principais facções: uma liderada por De Gaulle, de tendência nacionalista, que havia formado um governo no exílio em Londres, e a outra organizada pelos comunistas. Na Polônia, na Iugoslávia ou em qualquer região. dominada, cada movimento tinha suas especificidades. Muitas vezes havia conflitos entre as diversas facções. Na Iugoslávia, por exemplo, a liderança mais efetiva coube a um guerrilheiro comunista de nome Josip Broz Tito, que derrotou os nazistas com alguma ajuda dos soviéticos e dos britânicos.
Com a relativa estabilização da situação no norte da África, os aliados começaram a preparar a invasão da Itália. Em julho de 1943, forças britânicas e americanas invadiram a Sicília. As tropas italianas, ajudadas por soldados alemães, não conseguiram impedir que as ondas de soldados americanos e britânicos desembarcassem nas praias da Sicília e depois em Nápoles. Em decorrência das derrotas, o governo italiano, chamado Conselho Fascista, depôs Mussolini e iniciou a imediata negociação com os Aliados. No entanto, com ajuda de Hitler, Mussolini conseguiu estabelecer um governo no norte da Itália com o nome de Republica Social Fascista ou República de Saló.
Na frente oriental, os exércitos soviéticos, que pareciam agora imbatíveis, sofreram uma paralisação por força de um contra-ataque bem organizado pelos [pag. 376] generais alemães na região de Kursk. No entanto, as forças soviéticas reagruparam-se e travou-se uma das maiores batalhas de tanques de que se tem notícia, com a vitória do Exército Vermelho. Após a perda do caminho para os tão desejados poços de petróleo, os nazistas tinham quase nenhuma possibilidade de manter o ritmo dos combates. Mesmo assim, revelaram uma capacidade enorme de resistência ao avanço do rolo compressor dos soviéticos.
Para coordenar a condução da guerra, os líderes dos três países aliados, Roosevelt, dos Estados Unidos, Churchill, da Grã-Bretanha, e Stalin, da União Soviética, reuniram-se, em novembro de 1943, em Teerã, a capital do Irã, para acertos relacionados à situação da Europa depois da guerra. Logo de início, Stalin pediu a urgência da abertura de uma segunda frente na França. Stalin considerava a invasão do sul da Itália insuficiente para a aliviar a tremenda pressão que as forças nazistas ainda exerciam sobre o Exército Vermelho. Além do mais, o líder soviético deixou claro que desconfiava, desde o inicio da guerra, de que havia uma intenção velada de Churchill de deixar a União Soviética e a Alemanha se exaurirem mutuamente numa guerra de desgaste.
O presidente americano tendia a concordar, em muitos pontos, com o líder soviético. Principalmente quando “Churchill expôs na conferência seu plano para uma invasão anglo-americana nos Bálcãs, o que retardaria ainda mais a invasão da França. De imediato, a animosidade entre Stalin e Churchill, que subsistia desde o encontro entre ambos em agosto de 1942, veio à tona com nova intensidade”.8 Stalin permaneceu firme em sua posição, exigindo a abertura da segunda frente com um desembarque na França. Ao final, sua proposta saiu vencedora. Até mesmo estrategistas militares britânicos discordaram de Churchill e o alto comando americano apoiou, com entusiasmo, as propostas do líder soviético.
Ao mesmo tempo, a União Soviética conseguiu que os Estados Unidos e a Grã-Bretanha reconhecessem as possíveis novas fronteiras da Europa Oriental, em especial no caso da Polônia, que servira de “trampolim” para a invasão nazista de 1941. Na verdade, o velho sonho soviético de colocar os Bálcãs sob sua influência parecia que ia se realizando. E a Europa já começava a ser dividida em duas esferas políticas e militares antagônicas. Por outro lado, Stalin assumiu o compromisso de declarar guerra ao Japão, após a derrota da Alemanha.
Os combates no Ocidente prosseguiram, com o avanço das tropas aliadas em direção ao norte da Itália. Os combates na Itália foram bastante violentos. Os alemães ali estacionados ofereciam tenaz resistência. No entanto, as forças americanas, britânicas, brasileiras, francesas e de outras [pag. 377] nações eram ajudadas pelos partisans, movimento guerrilheiro coordenado pelo Partido Comunista Italiano.
Enquanto se combatia na Itália, o general Dwight Eisenhower, transformado em comandante supremo das forças anglo-americanas, preparava-se para o desembarque nas praias da França. Na madrugada de 6 de junho de 1944, o Dia D, mesmo com tempo instável, uma poderosa força de mais de 6 mil navios, 5 mil aviões e 36 divisões de infantaria, sem contar com os pára-quedistas, iniciou o desembarque nas praias da Normandia.
As principais forças alemãs não esperavam o ataque na Normandia, considerada área inóspita, de difícil acesso. Rommel, que havia sido encarregado da defesa da região, vinha, há meses, montando o que ficou conhecido como a Muralha do Atlântico, isto é, um sistema de fortificações com poderosos canhões de longo alcance. As praias foram minadas e cobertas de obstáculos antitanques. Rommel estava tão confiante de que a invasão não se daria imediatamente que resolveu visitar a família na Alemanha. Quando a invasão começou, teve dificuldades para reunir as forças necessárias, que se encontravam dispersas por várias regiões da França.
Com grandes dificuldades e perdas, os americanos conseguiram consolidar uma base nas praias da Normandia. Uma semana depois, mais de 300 mil soldados lutavam na França. Eles eram auxiliados por forças da resistência que atuavam em coordenação com as forças aerotransportadas. Em 26 de agosto, as tropas aliadas (americanos, britânicos e franceses, entre outros) chegaram a Paris. As ruas da cidade, em festa, receberam em triunfo as tropas e o general De Gaulle.
O FIM DA GUERRA NA EUROPA
Diante da situação desesperadora, havia na Alemanha algumas manifestações de resistência ao regime nazista. O Partido Comunista alemão tinha poucos sobreviventes. Alguns ainda tentavam alguma atividade na difícil clandestinidade. No entanto, parte considerável dos alemães continuava fiel à liderança de Hitler. Uma carta escrita em 23 julho de 1944, citada pelo historiador Norbert Elias em seu admirável livro Os alemães, dá bem a idéia do que significou a Alemanha nazista para uma grande parte do povo: [pag. 378]
“Meu querido filho Wolf,
Hoje é domingo e neste momento estou de volta à casa e completamente sozinha. Seu pai
foi à uma reunião de associação de veteranos, e Annelise está com a ria Lina. [...] Meu
querido filho, você escreve que até agora as coisas têm corrido bem para o seu lado, o que
eu também posso dizer a nosso respeito. Sim, meu querido filho, você também está
enfrentando o inimigo e eu sei que exercerá o seu dever como cumpre a um soldado
alemão. Que Deus Todo-Poderoso o proteja. A Nossa querida pátria alemã está em
grande perigo, atacada por todos os lados. E no dia 20 de julho aconteceu a pior coisa que
se poderia imaginar — pessoas chegadas ao nosso amado Führer tentaram assassiná-lo.
Mas Deus Todo-Poderoso não quis que tivessem êxito e estendeu Sua proteção sobre ele
[...] sim meu querido filho, o que teria sido de todos nós se o Führer fosse levado em
tempo de guerra? Tenhamos esperança que no final tudo acabará bem [...].
Que Deus o proteja,
São os votos de sua querida mãe.”
O atentado que tentou tirar a vida do “amado Führer” havia sido planejado pelo alto oficialato junker/aristocrata do Exército alemão. A mesma aristocracia que, em 1934, havia jurado fidelidade ao Führer pensando poder controlá-lo. O coronel-conde Von Stauffenberg, herói de combates na África, ficou encarregado de pôr uma bomba no encontro que Hitler havia marcado com os oficias na Toca do Lobo, como era conhecido o quartel-general localizado na Prússia Oriental. Hitler saiu ileso. E a repressão foi simplesmente sangrenta. Todos os suspeitos foram executados.
O curioso é que alguns manuais soviéticos de História do período pós-guerra tentaram criar a mística da resistência organizada pelo Partido Comunista alemão. Qualquer estudo aprofundado do movimento operário alemão antes da ascensão dos nazistas ao poder mostra que tanto o Partido Comunista como o Social-Democrata desprezaram a organização do Partido Nazista, se ocupando mais combater um ao outro. Quando os nazistas tomaram o poder, o Partido Comunista alemão foi praticamente liqüidado.
O ano de 1944 foi de grandes derrotas para os nazistas. Os exércitos soviéticos, desde a Ucrânia e a Criméia, vinham empurrando os alemães. Leningrado, que havia sofrido um cerco de cerca de três anos, já estava livre das tropas nazistas. No entanto, o avanço soviético enfrentava tenaz resistência. O temor de vingança pode ser uma das grandes razões de resistência. Mas os acordos entre os Aliados para impor o princípio de rendição incondicional parece ter sido uma outra importante razão para tamanha resistência. [pag. 379]
Na Polônia, o exército clandestino ligado ao governo liberal no exílio em Londres iniciou o Levante de Varsóvia. O levante foi violentamente reprimido pelos alemães. Uma grande controvérsia se estabeleceu. O marechal Rokossovski, comandante de um importante setor das forças soviéticas, estava próximo de Varsóvia e, contudo, não ajudou os rebeldes poloneses. Depois da guerra, os soviéticos garantiram que as forças alemãs na região ofereceram imensa resistência, principalmente no rio Vístula. O governo de Londres, porém, acusou os soviéticos de eliminar os possíveis membros de um governo não simpático à União Soviética. Hoje pode-se dizer que as duas versões fazem certo sentido.
Enquanto o Exército Vermelho avançava em direção ao sul, dominando a Romênia e a Bulgária, as forças anglo-americanas se aproximavam das margens do rio Reno. Hitler e o alto comando alemão planejavam deter os americanos antes que atingissem a fronteira da Alemanha. A essa altura da guerra, os alemães já haviam perdido cerca de 4 milhões de soldados. As promessas de Goebbels, o todo-poderoso ministro da Propaganda do governo nazista, de que novas armas derrotariam os Aliados já não convenciam muito. Claro que as famosas bombas voadoras V2 causaram alguns danos na Inglaterra, mas não havia mais condições de mudar o rumo da guerra.
Um plano idealizado por Hitler tinha por objetivo reverter a situação na frente ocidental. A idéia era irromper pelas Ardenas, região belga próxima da fronteira com Luxemburgo, e consolidar as forças alemãs ali para poder transferir parte do contingente para o Oriente e tentar retardar o avanço dos soviéticos. A estratégia alemã imaginava, também, que a coalizão entre tão diferentes aliados (liberais/capitalistas e socialistas/comunistas) não poderia durar tanto e apostava que uma ofensiva assim poderia acelerar algum tipo de dissidência profunda entre britânicos, americanos e soviéticos.
Em meados de dezembro de 1944, uma poderosa força alemã composta de divisões panzer e panzer SS irrompeu, em meio às baixas temperaturas, contra as forças americanas, que foram tomadas de surpresa e obrigadas a recuar. O impacto foi tão grande que provocou a separação entre as forças britânicas e as americanas. Porém, com a vinda de reforços de tropas descansadas e mais bem equipadas para a região de Bastogne, os americanos puderam resistir e iniciar um contra-ataque, por volta de 20 de dezembro. Em fins de dezembro e início de janeiro, os alemães começaram a retirar-se. As perdas, para ambos os lados, foram enormes. A Luftwaffe, que fez um dos últimos esforços de atuação na guerra, perdeu mais de 1.500 aviões. As divisões panzer tiveram mais de 600 [pag. 380]
[pag. 381]
tanques destruídos. Encerrava-se assim a última tentativa alemã de mudar o rumo da guerra.
Na parte oriental, os exércitos soviéticos só pararam às margens do rio Oder para preparar-se para o assalto final a Berlim. Foi nessa conjuntura que os aliados fizeram outra importante reunião para decidir o destino da Europa e do mundo do pós-guerra. Iniciava-se a Conferência de Yalta, no balneário soviético localizado na Criméia, às margens do mar Negro, em território recém-libertado. Em fevereiro de 1945, reuniram-se Churchill, Stalin e Franklin Delano Roosevelt, o já bastante doente presidente americano. Na pauta da reunião havia quatro principais pontos de discussão: a formação das Nações Unidas, a questão Alemanha, o Leste Europeu e o Extremo Oriente.
Os “Três Grandes” chegaram a razoáveis acordos quanto à formação das Nações Unidas e, ainda, quanto à punição dos nazistas e à divisão da Alemanha em quatro zonas de ocupação — isto é, uma zona soviética, uma americana, uma britânica e uma francesa. Esta última, Stalin aceitou com bastante relutância, pois, para ele, o país não havia contribuído para a vitória sobre os nazistas. Não houve acordo quanto às reparações de guerra exigidas por Stalin. Esse seria um dos motivos para conflitos quanto ao futuro do Leste Europeu como a insolúvel questão da Polônia. Roosevelt também insistia na completa independência do Leste Europeu. Yalta, depois da guerra, foi considerada por alguns críticos americanos como a “Munique do Ocidente”, dadas as “concessões” que os Estados Unidos acabaram fazendo à União Soviética.
Enquanto se realizava a conferência em Yalta, os combates prosseguiam. Na frente oriental, os soviéticos aproximavam-se de Berlim. Na frente ocidental, os anglo-americanos já atravessavam o Reno em direção ao rio Elba distante cerca de 100 km de Berlim. A Alemanha agonizava.
Na região do rio Danúbio, os soviéticos enfrentaram tenaz resistência dos nazistas e dos húngaros durante a tomada de Budapeste. Quanto mais próximo de Berlim chegavam os exércitos Aliados, maior era a resistência dos nazistas. Hitler e seu séquito haviam decidido permanecer em Berlim e refugiaram-se no Bunker da chancelaria. Assim era chamado um sistema bastante fortificado, construído no subsolo da sede do governo, para suportar os ataques.
O alto comando alemão, sob a direção de Hitler, buscava solução para uma situação insolúvel. Ordenava reagrupamentos de exércitos que só existiam no papel. Goebbels continuava a publicar nos jornais nazistas que a Alemanha ainda iria virar o jogo. O sinal da sorte, disse ele, veio com a notícia da morte de Roosevelt, em 12 de abril de 1945. A cúpula nazista [pag. 382] esperava que a morte do líder americano provocasse tamanha divergência entre os Aliados que um deles faria a paz em separado com a Alemanha. Nada disso aconteceu.
Hitler havia declarado alguns dias antes que tinha certeza de que os exércitos soviéticos estavam completamente esgotados e não conseguiriam chegar a Berlim. As poderosas bombas da artilharia soviética estavam, naquele exato momento, caindo nos arredores da outrora bela capital européia. Para defender a capital da Alemanha nazista formaram-se os chamados volksturm, ou seja, batalhões compostos por crianças e velhos. Qualquer atitude que pudesse ser interpretada como derrotismo era punida com a morte pelos fanáticos da SS. Por exemplo, usar roupa ou pano branco que pudesse ser interpretado como símbolo de rendição.
Em 16 de abril de 1945, mais de 40 mil canhões do Exército Vermelho, localizados em diferentes posições, abririam fogo, quase simultaneamente, sobre Berlim. A sensação, descrita tanto por testemunhas soviéticas quanto alemãs, era de que o mundo estava acabando em um grande terremoto de fogo e aço. Nesse momento, o Führer decretava a macabra política do Gotterämmrung, ou seja, a maldição dos deuses. Dos deuses das tribos germânicas, que castigariam o povo alemão que não havia merecido o Führer designado pelas divindades para transformar a nação alemã em senhora absoluta da Terra.
Norbert Elias analisou o momento, fazendo uma estranha projeção.
Avaliar a magnitude da proporção entre a população de um império alemão, tal como os
nazistas o contemplavam, e a população da Alemanha como planejado pelo estrato
governante, não era tarefa fácil. As fronteiras do Reich do milênio não estavam definidas
com precisão. Se somarmos a população austríaca à alemã e admitirmos a inclusão no
império da Europa continental, Rússia e partes da África, pode-se dizer, em números
redondos, que um grupo alemão de 70 ou 80 milhões teria formado a classe dominante de
um império de 500 a 600 milhões de habitantes.
Como lidar com essa fantástica desigualdade numérica? Simples: a crença na superioridade mágica da “raça ariana” sobre as outras “raças”. Deu no que deu. A raça inferior dos eslavos” batia impiedosamente a “raça eleita” dos arianos.
O general Chuikov e seus chefes de Estado-Maior tiveram, em 16 de abril, uma amostra da tenaz resistência das forças alemãs na região entre o rio Oder e Berlim. Chuikov compreendeu como os alemães iriam resistir aos soviéticos que estavam para tomar a capital do Reich nazista. E, pela manchete [pag. 383] escandalosamente grande do Volkishbeobaker, o jornal oficial do partido, pode-se ter uma noção das mensagens de Goebbels e Hitler: “Cerrem seus dentes, lutem como o diabo, não deixem um só centímetro do solo ser conquistado com facilidade. A hora da decisão exige o último grande esforço.”9
Em 20 de abril, Hitler recebeu um presente especial de aniversário: os Aliados fizeram um dos maiores bombardeios da guerra sobre Berlim. Isso porque membros militantes de movimentos antinazistas que trabalhavam para o OSS (Office of Strategic Service) dos Estados Unidos haviam enviado mensagens garantindo a presença do ditador em Berlim. A confusão tomou conta das forças alemãs. Praticamente sem combustíveis, os tanques paravam, sem munição seus canhões não conseguiam responder à massiva chuva de bombas e balas do monstruoso Exército soviético.
Até o final de abril, a artilharia soviética martelou Berlim sem cessar. Os feridos, os velhos, as crianças e quem conseguia salvar-se dos bombardeios procuravam abrigo no que sobrou dos subterrâneos do metrô. Escombros por toda a parte. Marie Vassiltchikov, uma aristocrata russa que havia se refugiado na Alemanha na época da Revolução Russa, registrou em seu Berlin Diaries 1940-1945 algumas impressões notáveis:
20 de abril (1945): aniversário de Adolf. Um ridículo discurso de Goebbels: „O Führer
está dentro de cada um de nós" disse ele. Até onde se pode ir? Ele acrescentou que
reconstruir tudo o que está destruído não será problema. Enquanto isso, os Aliados estão
avançando por todos os lados e os ataques aéreos não cessam um dia sequer. A esposa do
coronel que nos hospeda acredita no que ouviu. Ela está convencida de que a Alemanha
tem uma arma secreta que será usada no último minuto. 10
Em 28 de abril, Hitler e sua amante, Eva Braun, casaram-se no Bunker da chancelaria sob o martelar das pesadas bombas soviéticas. Hitler soube, nesse mesmo dia, da morte de seu amigo e aliado Benito Mussolini. Dois dias depois, o homem que havia incendiado o mundo se matou com um tiro. A mulher seguiu o mesmo caminho, envenenando-se. Pouco antes, pelo seu testamento político, Hitler designou o almirante Dönitz chefe do governo do que restava da Alemanha.
O general Krebs foi encarregado pelo que restou do alto comando alemão de negociar com Chuikov, general-chefe de um dos exércitos soviéticos que estavam atacando Berlim. O diálogo foi bastante simples. O alemão disse que estava ali para negociar um cessar-fogo. Chuikov respondeu que nada era negociável. Somente a rendição incondicional era factível. [pag. 384]
A luta continuou, principalmente na região do Jardim Zoológico, onde se concentravam alguns fanáticos SS. Aos poucos, esse foco de resistência foi dizimado. Em 2 de maio, o general alemão Weidling aceitou os termos soviéticos e rendeu-se incondicionalmente. Alguns dias depois, o general Jodl, chefe do Estado-Maior das forças alemãs leu o seguinte documento:
Eu, abaixo assinado, coronel-general Jodl, transfiro todas as Forças Armadas ao Alto
Comando das Forças Armadas Aliadas e simultaneamente ao Alto Comando soviético,
nos termos da capitulação. O Alto Comando Alemão dará imediatamente a ordem para a
cessação de todas as operações em curso a partir de 8 de maio às 23 horas.
A guerra havia acabado na Europa.
A GUERRA NO PACIFICO E O FIM DO JAPÃO
Desde 1943 que as forças americanas, sob o comando do general Douglas MacArthur, com base na Austrália, combatiam os japoneses nas diversas ilhas da Oceania que eles haviam invadido. Ao mesmo tempo, a Marinha americana, sob o comando do almirante Chester Nimitz, aniquilava a Marinha japonesa na batalha naval do golfo de Leyte, nas Filipinas.
Os Estados Unidos tinham se utilizado dos mais avançados meios técnicos para derrotar o Japão. No final de 1944 os submarinos americanos já tinham afundado mais da metade da Marinha japonesa. Os gigantescos porta-aviões desempenharam importante papel na guerra, pois, no teatro de operações do oceano Pacífico, as bases aéreas ficavam muito distantes do principal objetivo, que era o arquipélago japonês. As superfortalezas voadoras da USAAF lançavam bombas incendiárias, calcinando as cidades japonesas. Mas havia uma séria dúvida no alto comando americano. Se os bombardeios sobre a Alemanha não haviam sido suficientes para derrotar os nazistas, o mesmo parecia estar acontecendo com o Japão.
E, para complicar ainda mais o quadro da análise, os estudos mostravam as dificuldades postas pelas qualidades pessoais do soldado japonês e previam lutas sangrentas até se chegar ao centro do poder nipônico. Para ficar num só exemplo, na batalha na ilha de Tarawa, dos 5 mil combatentes japoneses, restaram somente oito sobreviventes. Todos lutaram violentamente até o fim. Tudo isso mostrava ao comando americano que a conquista das ilhas centrais japonesas custaria muitos milhares de [pag. 385] vidas de soldados americanos. Por isso a decisão de usar a mais nova arma de destruição de massa então desenvolvida — a bomba atômica.
O anúncio da existência dessa nova arma foi feito na conferência das três grandes potências realizada em Potsdam, nos subúrbios de Berlim, entre 17 de julho e 2 de agosto de 1945. A guerra na Europa já havia acabado. O novo presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, Stalin e Churchill chegaram a uma cidade que praticamente havia sido varrida do mapa. O cheiro de corpos calcinados era, segundo testemunhas, sentido por toda a parte. Foi nesse ambiente que se traçaram as diretrizes para um novo mundo mais pacífico. Contudo, os resultados não foram bem os esperados. Em Potsdam delineou-se a arquitetura de um mundo dividido e ameaçador, que seria o cenário da Guerra Fria.
O sucessor de Roosevelt tendia a desconfiar dos comunistas soviéticos. O tratamento dispensado por Truman a Stalin foi sempre mais duro, se comparado ao de Roosevelt. Nessa conferência, o presidente americano comunicou a Stalin que os Estados Unidos possuíam nova e poderosa arma, e que pretendia utilizá-la contra o Japão. Stalin não demonstrou surpresa, sugerindo que já estava informado. Mesmo assim desejou boa sorte a Truman no uso da mais mortal arma até então produzida pela humanidade.
Duas bombas atômicas foram lançadas contra o Japão, uma sobre Hiroshima e outra sobre Nagasaki. Em 14 de agosto de 1945, o Japão rendia-se incondicionalmente, pondo fim ao mais sangrento conflito da história da humanidade. No entanto, ao que parece, a bomba não objetivava apenas acabar com que ainda restava da resistência japonesa. Truman esperava que os soviéticos compreendessem o novo poderio de destruição dos Estados Unidos e avaliassem suas repercussões sobre a geopolítica e a diplomacia do pós-guerra.
AS HERANÇAS DO MAIOR CONFLITO DA HISTÓRIA MUNDIAL
Os Três Grandes encontraram-se em Potsdam, numa Europa arrasada. Os americanos mudavam, paulatinamente, sua visão sobre o que fazer com a Alemanha derrotada. Inicialmente, pensavam em transformá-la num país sem indústria, mas Truman e seus assessores sabiam que uma Alemanha industrializada era importante para um mundo ocidental industrializado e para a manutenção da economia capitalista.
Stalin apresentava uma posição quase que oposta. Queria que a Alemanha pagasse a destruição provocada e só então apoiaria uma reconstrução germânica. [pag. 386] No subtexto das discussões apareciam claramente as divergências entre duas concepções de mundo. Stalin prometeu entrar na guerra contra o Japão e os líderes concordaram com muita relutância. Já não precisavam mais do colosso militar soviético. Em questões aparentemente menores, afloravam as divergências. Quando Truman propôs que o rio Danúbio fosse internacionalizado, o que afetava os interesses da União Soviética no mar Negro, Stalin perguntou por que, se a idéia era assim tão boa, não internacionalizar o canal do Panamá e o canal de Suez. O mar Negro, onde desemboca o Danúbio, era reivindicado pela União Soviética como sua área de influência.
A Polônia foi um dos mais palpitantes assuntos do encontro. A nova Polônia ficou com territórios da Alemanha e cedeu alguns para a União Soviética, como queria Stalin. Sem dúvida o “pavio curto” de Truman pode ter ajudado a pôr fim na chamada Grande Aliança entre o mundo capitalista ocidental e o soviético. Mas a Guerra Fria já havia começado durante a própria Segunda Guerra Mundial.
Em fevereiro de 1946, os americanos desconfiaram da existência de uma rede de espionagem de simpatizantes da União Soviética, que teriam passado informações sobre a bomba atômica para os soviéticos. A desconfiança parece ter sido confirmada depois que a União Soviética explodiu seu primeiro artefato nuclear, em 1949.
O conflito entre a União Soviética e o mundo capitalista era inevitável. Em vez de tentar uma acomodação com o mundo socialista, os Estados Unidos deveriam dedicar-se em conter a expansão do comunismo até que surgisse nova forma de governo mais moderado e não totalitário na União Soviética, diziam alguns líderes políticos e altos funcionários americanos.
No entanto, de uma forma ou de outra, os antagonismos tinham de ser resolvidos. E, preferencialmente, de forma pacifica. Daí a proposta da formação de organismos internacionais. Pensava-se no estabelecimento de uma paz duradoura para compensar os anos de sofrimento e horror que a humanidade havia passados nos 2.194 dias de guerra. O organismo pensado para coordenar as diretrizes para a manutenção da paz foi a ONU (Organização das Nações Unidas).
Já na Carta do Atlântico, assinada por Churchill e Roosevelt em agosto de 1941, encontrava-se a idéia de uma organização mundial mantenedora da paz. A paz entre Estados Unidos e União Soviética parecia improvável, mas uma guerra entre os dois gigantes era impossível. A formalização da ONU deu-se na Conferência de São Francisco, em junho de 1945. Roosevelt, um dos [pag. 387] seus grandes arquitetos, havia morrido pouco antes. Na ocasião da formação da ONU, 50 nações assinaram uma carta com 11 artigos. Como órgão máximo da ONU, criou-se o Conselho de Segurança, composto por cinco membros permanentes (Estados Unidos, União Soviética, Grã-Bretanha, França e China) e dez membros rotativos, que exercem o cargo por dois anos e são eleitos pela Assembléia Geral. Ao Conselho de Segurança, cabe manter a paz e a segurança internacional. Aos cinco membros do Conselho, foi atribuído o direito individual de veto. Os Estados Unidos, com maioria no Conselho de Segurança e direito de veto, concentraram poder maior que o de qualquer outra potência no quadro das Nações Unidas.
O fim da Segunda Guerra Mundial marcou o encerramento da hegemonia européia e deflagrou a disputa entre o mundo ocidental, liderado pelos Estados Unidos, e o bloco socialista, liderado pela União Soviética. A ruptura configurou-se claramente em 1947, quando ocorreram conflitos na Grécia, onde os comunistas estavam próximos de tomar o poder. A Grã-Bretanha informou aos Estados Unidos que não podia mais dar apoio ao governo conservador grego na luta contra as forças de esquerda. De certa forma, os britânicos estavam pedindo ajuda para conservar o Mediterrâneo oriental sob a influência do Ocidente. A resposta dos Estados Unidos foi rápida. Em março de 1947, Harry Truman dirigiu-se ao Congresso americano e proclamou a doutrina que seria batizada com seu nome: “A política dos Estados Unidos deverá ser de apoio total aos povos livres que lutam e resistem às tentativas de submissão de povos, pela força das armas ou não...” Era a Guerra Fria que se anunciava.
NOTAS
(1) Apud J. Keegan, Uma história da guerra, São Paulo, Companhia das Letras, 1995, p. 387. (2) Apud T. Patterson, J. Clifford, K. Hagan, Managing an Extending the American Empire,
American Foreign Policy: A History since 1900, Lexington, Heath and Company, 1988, p.
324.
(3) W. Shirer, Ascensão e queda do III Reich, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1967, vol.
2, p. 21.
(4) Idem, ibidem.
(5) Idem. p. 32.
(6) Apud W. Shirer, op. cit., p. 448.
(7) Apud Alan Bullock, Hitler, a study in tyrany, Harmondsworth, Middlesex, Penguin Books,
1962, p. 674.
(8) Isaac Deutscher, Stalin, a história de uma tirania, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira,
1970, p. 461.
(9) Apud J. Keegan, The Battle for History: re-fighting World War II, London, Pimlico, 1995, p.
67.
(10) Marie Vassiltchikov, Berlin Diaries: 1940-1945, New York, Vintage Books, 1988, p. 282.
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