História das Guerras

Demétrio Magnoli · Capítulo 7 de 29

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História das Guerras

O velho historiador holandês Johan Huizinga resumiu…

CONQUISTAS BÁRBARAS

 

José Rivair Macedo

 

O velho historiador holandês Johan Huizinga resumiu em poucas palavras um aspecto marcante da sociedade nos séculos finais da Idade Média ao falar de certo “teor violento da vida”.1 Nesse aspecto, defrontamo-nos com um traço quase milenar que caracterizou os comportamentos daqueles homens talhados desde a mais tenra infância para o combate, homens que viveram num tempo em que a prática da guerra estava disseminada entre os mais altos escalões da sociedade, a ponto de definir o estatuto social dos indivíduos, numa sociedade em que o ideal a ser seguido era ou o do santo ou o do guerreiro. Como dizia mais recentemente Georges Duby, aquela era uma sociedade direcionada para a agressão.2 Suas características fundamentais resultam da mistura de elementos herdados do mundo romano e do mundo germânico — mundos muito diferentes em suas instituições e seus graus de desenvolvimento tecnológico, mas semelhantes no que diz respeito ao valor concedido à guerra.

Avaliaremos aqui o papel social desempenhado pelo fenômeno da guerra nos reinos bárbaros da Europa Ocidental, especialmente no reino franco sob a dinastia dos reis merovíngios (séculos V-VIII) e dos reis carolíngios (séculos VIII-X), porque do vasto território desse reino é que surgiram as mais expressivas organizações sociopolíticas da Idade Média Ocidental na Baixa Idade Média (dinastia dos capetos na França e dinastia dos otônidas no Império Germânico a partir dos séculos IX-X). Não obstante, ofereceremos um panorama necessariamente amplo e genérico a respeito da guerra nas tribos bárbaras que se estabeleceram tanto na Europa Ocidental quanto na Europa do Leste. Para começar, convém assinalar alguns aspectos de caráter [pag. 77] conceitual e metodológico que apontarão tanto a dimensão quanto os limites de abordagem do objeto em pauta.

Com efeito, nas últimas décadas cresceu o número de obras consagradas ao estudo da organização militar no mundo medieval. Tais pesquisas ampliam ou reavaliam os dados gerais de algumas obras de referência a respeito do assunto, sobretudo os estudos “clássicos” do inglês Charles Oman (A history of the art of war in the Middle Ages, 1924), do francês Ferdinand Lot (L’art militaire et les armées au Moyen Age en Europe et dans le Proche Orient, 1946), do holandês J. F. Verbruggen (The art of warfare in Western Europe during the Middle Ages, 1954), e mais recentemente, a ótima síntese do francês Philippe Contamine (La guerre au Moyen Age, 1980). Interessa atualmente não apenas avaliar as estratégias de combate e as táticas de batalha, mas verificar a evolução do equipamento militar e do armamento, as formas de recrutamento e de remuneração dos combatentes e, sobretudo, as implicações do fenômeno da guerra nas demais instâncias da organização social do período.3

Não obstante, os trabalhos recentes concentram-se em geral no estudo do fenômeno da guerra nos séculos XIII-XV, ou seja, nos séculos finais do medievo. Talvez isso se deva ao fato de que naquele momento a guerra se tenha tornado mais visível, mais presente na documentação escrita, e ganho maior espaço de representação nos registros arqueológicos e na iconografia. Trata-se de um momento em que, no contexto da reorganização promovida pelas monarquias feudais, a guerra passa a ser um importante instrumento de poder no Ocidente medieval. Para o período anterior ao ano 1000, há poucos testemunhos sobre o modo de fazer a guerra, embora, como se verá, também naquele momento ela tenha sido uma atividade constante e um fator importante nas formas de organização social.4 Veremos a seguir o papel da guerra nesses momentos iniciais da Europa medieval.

 

ROMANOS E BÁRBAROS

 

As atividades bélicas definiram a evolução das instituições políticas e da sociedade romana. Nos primeiros séculos da era cristã, o Império Romano tinha sob seu controle um dos mais extensos domínios territoriais já conquistados, motivo pelo qual o exército ocupava papel de primeiro plano, tendo peso decisivo na manutenção do poder instituído. A partir do século III, assiste-se a um progressivo e inexorável processo de crise das estruturas imperiais, [pag. 78] responsável pela fragmentação da unidade política romana, pelo desmembramento e desaparecimento definitivo do Império. Já no princípio do século IV, em 330, o imperador Constantino inaugurava a nova capital que mandara construir na parte oriental do império, Constantinopla, e em 395, por ocasião da sucessão de Teodósio, o extenso território veio a ser dividido entre seus dois filhos, Arcádio e Honório, à um cabendo a parte ocidental do Império (cuja capital oscilou no século V entre Roma, Milão e Ravena) e a outro a parte oriental (com capital em Constantinopla). Após o desaparecimento da parte ocidental, o Oriente romano viria a ficar conhecido com o nome de Império Bizantino, que sobreviveria até meados do século XV, quando foi conquistado pelos turcos otomanos.5

Na crise estrutural pela qual o mundo romano passou, assiste-se a uma mudança significativa tanto no caráter da guerra quanto nos modos de fazê-la. Na realidade, tal alteração decorre das medidas tomadas pelos governantes no interior do próprio império. As reformas militares propostas pelos imperadores Diocleciano (274-305) e Constantino (312-337) tinham por fim adequar o exército à nova situação. Tendo se encerrado a fase de expansão militar, tratava-se agora de garantir as melhores condições de manutenção e defesa dos territórios conquistados. As atividades bélicas deixaram de ter caráter ofensivo, passando a assumir um caráter eminentemente defensivo. No princípio do século IV, as antigas formações militares (legiões e guarda pretoriana) foram praticamente dissolvidas e em seu lugar apareceram duas unidades militares específicas: as tropas de fronteira, colocadas em fortificações permanentes nos limes, isto é, nos limites do mundo romano, com a incumbência de protegê-los de eventuais invasões; e uma força tática móvel, colocada em posições estratégicas no interior do território imperial.

A tais reformas corresponderam novas formas de recrutamento. As conseqüências econômico-financeiras da crise afetaram a estabilidade militar devido à dificuldade de remuneração dos soldados. No século IV, uma das formas de pagamento do serviço militar consistia na concessão de lotes de terra de fronteira a soldados regularmente recrutados e incorporados aos quadros do exército quando cumpriam seu tempo regular de serviço ao fim de 25 anos. Era uma maneira de assegurar a presença de pessoas capacitadas a defender as fronteiras em caso de ataque. Além disso, assiste-se a uma gradual incorporação de tropas auxiliares germânicas aos efetivos do exército.6

Com efeito, paralelamente aos fatores internos da crise do Império Romano, há que se considerar o fator externo, relacionado com a irrupção [pag. 79] de povos germânicos no interior do império. Eles eram chamados pelos romanos de “bárbaros”, designação genérica de todos os povos que não falavam latim nem adotavam os padrões da civilização greco-romana. Habitavam ao norte das fronteiras imperiais em regiões da atual Europa Centro-Oriental, e passaram a pressionar as fronteiras localizadas nas proximidades dos rios Reno, Danúbio e Don.

Embora tivessem um longínquo parentesco, de uma matriz indo-européia comum (algo que se revela em traços sociais, religiosos e lingüísticos estudados por Georges Dumézil), nos séculos IV-VI os povos germânicos estavam organizados em tribos e confederações de tribos, podendo ser divididos em três grandes grupos étnico-regionais: os escandinavos (anglos, saxões e jutos) que habitavam nas proximidades do mar do Norte, os germanos ocidentais (suevos, turíngios, burgúndios, alamanos e francos) que habitavam nas proximidades do rio Elba, e os germanos orientais (godos, alanos, alamanos, vândalos e lombardos) que habitavam entre os rios Elba e Don. A eles vieram a juntar-se um povo originário das estepes asiáticas, os hunos, cuja pressão militar foi a principal responsável pela entrada dos germanos em território romano, dando início à “avalanche bárbara”. Essa penetração, ora pacífica e ora violenta, alteraria o mapa político do império, acirrando a crise já existente e contribuindo decisivamente na fragmentação da unidade imperial. Dos escombros do claudicante Império Romano é que emergiriam os reinos bárbaros da Alta Idade Média.7

Chegamos aqui a um ponto importante: o da caracterização de “bárbaro” e de “invasões bárbaras”. Sabe-se o quanto mesmo em nossa época tais termos contêm de pejorativo e de preconceituoso. Com efeito, a tais palavras estão associadas idéias de selvageria, atraso, violência desmedida, anarquia, primitivismo, e outras similares. Ao adotá-las acriticamente, a historiografia acaba por reproduzir o caráter etnocêntrico que as impregna. O “bárbaro” sempre é considerado do ponto de vista do “não bárbaro”, quer dizer, do ponto de vista de quem se identifica com o mundo romano, e a idéia de “invasões bárbaras” confere aos povos não romanos uma responsabilidade negativa na destruição de um padrão civilizacional considerado modelar para o Ocidente.

Outra perspectiva delineia-se ao considerarmos os bárbaros pelas características intrínsecas de seu modo de vida e de sua sociedade. Ao fazê-lo, percebe-se que aquele movimento de povos germânicos para o interior do império não constituiu um fato isolado, mas integra-se a um aspecto essencial das comunidades tribais da Antiguidade e da Idade Média: a sua condição de [pag. 80]

 

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povos nômades. Vivendo em organização tribal, tais povos não tinham classes sociais bem definidas, não conheciam formas de escrita alfabética desenvolvida e instituições sociais fundadas em códigos de leis escritas, e tiravam o essencial para sua sobrevivência da coleta (em certos casos, de uma agricultura incipiente), da pecuária e, principalmente, da guerra e do saque. Deslocar-se em busca de locais que oferecessem melhores condições de sobrevivência e fazer a guerra e impor tributos aos sedentários era parte integrante de seu modo de vida.8

O historiador Lucien Musset equacionou bem o problema ao afirmar que:

 

A estabilidade da população da Europa Ocidental e meridional, que aceitamos tão

facilmente como um fato inquestionável, é um estado relativamente recente ainda não

alcançado pela Europa Oriental. Nossa visão tradicional considera o período das “grandes

invasões” como um intervalo de perturbações entre duas eras normais de estabilidade: a

do Império Romano e a nossa. Seria mais prudente adotar uma atitude inversa e

considerar a época romana como uma exceção, um período de tranqüilidade em meio a

um turbilhão de invasões.9

 

Como se vê, para o autor, nos países do Leste europeu até hoje as contínuas migrações populacionais continuam a apresentar-se como um fenômeno social. Assim, como estranhar que as migrações tenham sido tão freqüentes no passado? A migração, aliás, não é um traço essencial dos povos nômades? Realmente, se considerarmos os povos bárbaros não de um ponto de vista etnocêntrico mas de um ponto de vista antropológico e social, observaremos sua presença, na condição de nômades, ao longo de praticamente todo o período da Idade Média — tanto nos territórios que depois viriam a se constituir nos reinos da atual Europa Ocidental quanto nos territórios do Leste europeu.

Na Europa Ocidental, nos séculos IV-VI, após o estabelecimento dos povos germânicos nos territórios outrora pertencentes ao Império Romano (reino visigodo e reino suevo na atual Espanha, reino ostrogodo na atual Itália, reino vândalo no norte do continente africano, Reino Franco nas atuais França, Bélgica, Holanda e Alemanha, reinos Anglo-Saxões na atual Inglaterra), assiste-se ao fim do século VI à chegada dos lombardos no norte da Itália, e entre o fim do século VIII e meados do século XI temos a era das invasões vikings. O Império Bizantino também assistiu aos saques e pilhagens promovidos pelos povos ávaros a partir do final do século VI, e através do cristianismo forneceu os elementos civilizacionais ao processo de sedentarização dos eslavos, que se estabeleceram na região da Panônia e através do rio Danúbio nos séculos VII-IX (sobretudo os búlgaros, sérvios, croatas e húngaros). 10 [pag. 82]

Paralelamente, o Império Muçulmano, nascido na segunda metade do século VII com base no estado teocrático inspirado na fé monoteísta anunciada por Maomé e fixada no Alcorão, ele próprio integrado desde sua origem por nômades do deserto (beduínos), a partir do século IX incorporou ao seu território diversas tribos de nômades oriundos da Ásia central, conhecidos genericamente como turcos. O processo de sedentarização dos turcos veio a ocorrer entre os séculos X e XI e deveu muito aos elementos civilizacionais que acompanharam a adoção do islamismo.11

Por fim, entre os séculos XI e XIII, dois importantes movimentos de nômades sacudiram o mundo muçulmano e o mundo cristão: inicialmente, a articulação dos povos berberes e do deserto do Saara, que resultou na constituição do Império Afro-Muçulmano da dinastia Almorávida e Almoâda,12 e em segundo lugar, a unificação das tribos mongóis da alta Ásia promovida por Gêngis Khan em 1205, que resultou na organização de uma força militar poderosíssima, responsável pela conquista do norte do Império Chinês em 1215, da Pérsia muçulmana a partir de 1218 e de parte da Europa Oriental a partir de 1225 — inaugurando o que ficou conhecido como “era mongol”.13

 

OS POVOS DA ÁSIA CENTRAL

 

Nas complexas relações que se estabeleceram entre nômades e civilizações sedentárias, os primeiros tenderam a ser assimilados. Foi o que ocorreu com os povos oriundos da Ásia Central, que desde o III milênio a.C. representaram uma ameaça constante às civilizações da Índia, China e Pérsia, mas que aos poucos vieram a ser incorporados a elas. O caso mais conhecido diz respeito às relações entre o Império Chinês durante a dinastia dos Han e os povos nômades hioung-nous, cuja destreza nas armas (sobretudo o arco) e o domínio de resistentes cavalos de guerra lhes garantia supremacia militar.

Foram precisos vários séculos para que o exército chinês desenvolvesse um equipamento militar defensivo capaz de fazer frente ao inimigo e, inclusive, adotasse o uso de cavalos em combate, numa guerra sem trégua cujo resultado veio a ser a contenção dos ataques dos inimigos nas fronteiras e sua gradual conquista e incorporação. No século II tais povos encontravam-se parcialmente assimilados pelo mundo chinês, enquanto algumas tribos remanescentes iniciavam uma marcha migratória secular através das estepes asiáticas. Nada mais se sabe a seu respeito até que no século IV os escritores romanos começam a fazer menção a seus sucessores diretos: os terríveis cavaleiros hunos.14 [pag. 83]

Os hunos constituíram uma força altamente organizada para a guerra, responsáveis pela conquista ou incorporação de certo número de tribos bárbaras de diversas procedências. Na primeira metade do século V, sob a chefia dos reis Mundziuch (425-434) e sobretudo sob o célebre Átila (434-453), vieram a constituir uma confederação de povos (ostrogodos, gépidas, rugios, hérulos e ésciros) cujas tendas dominavam a região da Panônia, irrompendo periodicamente em território bizantino e, depois de 449, em cidades da Gália e da Itália, até serem batidos em 451 na batalha de Campos Cataláunicos, sobre a qual voltaremos a falar adiante. Após a morte de Átila, a efêmera confederação huna dissolveu-se nas tradicionais rivalidades tribais que tendem a prevalecer na ausência de um chefe hábil, mas algumas dessas comunidades remanescentes, como a dos juan juans e dos avaros no século VI, e a dos húngaros a partir do século VIII deram continuidade à tradição nômade das estepes.15

Na realidade, no que respeita aos povos que circulavam no território compreendido entre o Danúbio e a Sibéria oriental desde o II milênio a.C. até pelo menos o fim da Idade Média, é possível observar certa unidade e continuidade tanto de sua organização militar quanto da tática empregada nos combates. No I milênio a.C. os hioung-nous lutavam contra os chineses da mesma maneira que, mais tarde, os citas lutariam contra os exércitos persas de Dario, os partos lutariam contra as legiões romanas de Crasso e de Marco Antônio, os avaros contra o exército bizantino e os húngaros e petchenegues contra as hostes dos francos e os exércitos muçulmanos. As analogias podem ser observadas tanto na iconografia quanto nos vestígios arqueológicos, onde se encontram praticamente as mesmas armas, utensílios e uma ornamentação muito similar, sendo às vezes difícil distinguir objetos de proveniência huna, ávara, búlgara e húngara devido aos traços comuns.

Traços comuns também podem ser notados nas formas de combate. Os povos das estepes foram exímios cavaleiros e legaram aos povos sedentários boa parte das técnicas de combate empregadas pela cavalaria. Ao uso do cavalo somava-se a experiência milenar no manejo do arco-e-flecha. Para vencer os hioung-nous o Império Chinês teve de aparelhar seus combatentes com armaduras de couro resistentes e incorporar em seus efetivos militares corpos regulares de arqueiros.

Estes passaram a ser empregados com freqüência por outros povos nômades e também por exércitos mais bem equipados, como os de Alexandre Magno no século IV a.C., os de Roma e, posteriormente, os da Pérsia e de Bizâncio nos séculos VI e VII d.C Foi também das estepes euro-asiáticas que os povos [pag. 84] sedentários do Oriente Médio, da Ásia Menor e da Europa importaram uma invenção que viria a ter importante papel no desenvolvimento das técnicas de guerra, o estribo, que ao proporcionar maior equilíbrio e segurança ao cavaleiro lhe permitiu o uso de armas ofensivas e equipamento defensivo pesado (couraças, armaduras, escudos), contribuindo para a origem da cavalaria.16

Devido à completa ausência ou raridade de textos escritos, sabe-se pouco das técnicas e equipamentos dos povos nômades das estepes. A organização militar dos mongóis, ao contrário, despertou tanto pavor nos contemporâneos e provocou tanta impressão que dela temos notícias em textos de proveniência chinesa, nas crônicas muçulmanas e nos relatos de viajantes cristãos que os visitaram em meados do século XIII, conforme se verá no capítulo “Gêngis Khan e as conquistas mongóis”. Seus hábitos violentos e rústicos escandalizaram os cristãos. Os monges franciscanos Giovanni de Piancarpini (Jean de Plan Carpin, em francês) e Guillaume de Rubrouck deixaram relatos escritos a respeito de seus costumes, apontando com veemência a brutalidade dos povos das estepes. Eis um balanço dos comentários dos viajantes ocidentais, de acordo com o historiador Philippe Conrad:

 

As vestimentas são geralmente de uma sujeira repugnante. Não se lavam quase nunca e

acabam por cair em farrapos sobre as costas de seus proprietários. A limpeza é

praticamente ignorada e o odor desprendido pelos habitantes das estepes do norte do Gobi

justifica inteiramente sua reputação de fedor. Já os chineses da Antigüidade haviam

batizado os hiong-nous de “fedorentos”, o que não surpreende se nos referimos à ausência

de higiene dos mongóis do século XIII.

 

Como nota Plan Carpin, a louça não é jamais lavada, limpam as mãos nas roupas que logo ficam brilhantes de gordura. Esta gordura reveste o corpo e o rosto para proteção contra o frio, o que ainda aumenta o caráter repugnante deste povo “sem conforto, mais feroz que o leão ou urso [...].” Certas práticas chocaram especialmente Rubrouck: gases intestinais e arrotos são habituais à mesa e, “se necessitassem esvaziar o ventre, não se distanciavam de nós mais do que um passo e faziam suas sujeiras desse modo, continuando a conversar, e muitas outras coisas extremamente desagradáveis podiam ser feitas do mesmo modo [...].”

 

Esta rusticidade que escandalizava os viajantes ocidentais é o resultado de condições de

existência de uma rudeza excepcional. Um povo enfrentando permanentemente as

ameaças do frio, da fome, da guerra, da seca, males igualmente devastadores, não tinha

tempo de formar uma arte de viver que desse lugar às boas maneiras. Foi preciso a [pag.

85] conquista de impérios sedentários civilizados há mais tempo, para que os mongóis

adotassem um modo de vida mais refinado. 17

 

OS POVOS GERMÂNICOS

 

No decurso do século I da era cristã, quando o escritor romano Tácito recolheu informações de cunho etnográfico sobre os povos bárbaros para compor seu livro intitulado Germania, teceu alguns comentários a respeito do papel que a guerra desempenhava naquela sociedade. Aqueles povos apenas admitiam a autoridade de um rei em momentos de conflito militar, e em geral os jovens formavam bandos sob a liderança de guerreiros mais velhos e mais experientes, atuando em batalha numa espécie de fraternidade de armas denominada em latim comitatus e, em germânico, gefolgschaft.18 Era no âmbito desses Männerdünde, dessas “sociedades de homens”, que ocorriam rituais iniciáticos de admissão dos adolescentes ao círculo daqueles que eram julgados dignos de usar armas, nos quais lhes eram impostas duras provas de destreza, força e resistência perante a dor. 19

Nas palavras de Tácito, quando a paz reinava na região em que nasceram, os jovens guerreiros iam procurar outros locais que estivessem em guerra para atuar em campo de batalha. Para manter os guerreiros que estavam sob sua proteção, e a quem deviam alimentar, os chefes precisavam guerrear continuamente e praticar o saque. Os guerreiros esperavam sempre receber cavalos de guerra e serem presenteados com festins abundantes. Enfim, “preferem provocar os combates e expor-se aos ferimentos do que trabalhar a terra e aguardar as colheitas. Além disso, lhes pareceria pouco digno adquirir com o suor o que poderiam obter com o sangue”.20

Temos poucas descrições do modo de vida dos guerreiros germânicos antes de sua instalação nos territórios romanos e antes de sua conversão ao cristianismo. Mas o espírito que animava aquelas comunidades tribais não devia ser muito diferente da dos vikings da Escandinávia que migraram rumo ao sul da Europa a partir dos séculos VIII-IX. Na saga dedicada a um desses guerreiros, o lendário Egil Skallagrîmssom, o que se depreende é o retrato de um homem endurecido pela guerra e pelo rigor da natureza inóspita em que vivia.

Ele tinha aspecto pouco agradável, gestos desmedidos e atitudes muito rudes. Com 6 anos, durante uma competição, teria se enfurecido com alguém mais velho e o matado a golpes de acha, desencadeando uma luta na qual [pag. 86] teriam morrido sete pessoas. Noutra ocasião, um inimigo o convidou para beber, a fim de embriagá-lo e matá-lo, mas Egil mostrou sua capacidade de resistir ao efeito da bebida, mantendo-se firme diante de todos os demais e ainda insultou o anfitrião vomitando-lhe na cara; no dia seguinte, antes de partir, decidiu matá-lo, mas mudou de idéia atendendo as súplicas da mulher e da filha da vítima, limitando-se a vazar-lhe os olhos e cortar-lhe a barba.21

No período das migrações para o interior dos territórios pertencentes ao Império Romano, a fragilidade da organização militar romana facilitou a instalação dos germanos e ocasionou um verdadeiro processo de “barbarização” do Ocidente. Três batalhas ocorridas nos séculos IV e V apresentam-nos aspectos significativos concernentes a esse processo.

A primeira ocorreu em 357 e opôs os contingentes romanos aos bárbaros nas proximidades da atual cidade de Estrasburgo (Alemanha). Ela assinala a última vitória significativa obtida pela infantaria tradicional, vindo o imperador Juliano a ter pleno sucesso e a rechaçar o inimigo. Infelizmente não dispomos de informação relativa ao número efetivo dos guerreiros que participaram dessa batalha e das outras mencionadas adiante. Sabemos, todavia, que ao fim do século IV o exército romano era composto por aproximadamente 390 mil homens.22

A segunda ocorreu em 378, em Adrianópolis, nas fronteiras orientais do Império, e opôs os romanos, liderados pelo imperador, Valente, a um agrupamento de ostrogodos e visigodos. Nesta, a infantaria romana foi praticamente destroçada pelos cavaleiros bárbaros, com a morte de aproximadamente 40 mil soldados e do próprio imperador, resultado que costuma ser identificado com a falência das formas tradicionais da guerra empregadas pelos contingentes romanos.

A terceira ocorreu em 451 em Chalons, na Gália, e ficou conhecida como batalha de Campos Cataláunicos. De um lado estava o exército romano, composto em sua quase totalidade por uma infantaria leve de guerreiros francos e por uma cavalaria de guerreiros visigodos, liderado pelo general Aécio. De outro lado estava o exército composto de hunos e demais povos por eles dominados, sob a liderança de Átila. Após o duro e prolongado combate, os hunos vieram a ser derrotados e foram obrigados a retroceder, abandonando a Gália.

A constituição dos contingentes e a tática empregada nessas três grandes batalhas sugerem a existência de duas tendências no interior do mundo romano. A primeira foi o gradual prestígio do uso de cavalos em detrimento da infantaria [pag. 87] como tática de combate, e a segunda, a inexorável penetração dos bárbaros no interior do exército imperial.

Realmente, no princípio do século V, impotentes para conter a avalanche bárbara, os imperadores romanos optavam cada vez mais por negociar e aceitar os termos da gradual instalação germânica. Admitiam regimentos bárbaros ou tribos inteiras (como a dos alanos e a dos ostrogodos) em seus contingentes militares na qualidade de tropas auxiliares, concedendo-lhes terra em troca do serviço militar e qualificando-os de 23 foederati (federados). Não demorou para que generais de origem germânica, como Estilicão e Ricimero, despontassem no cenário político e exercessem influência nos destinos do império. Paralelamente, alguns chefes tribais passaram a agir como governantes independentes, acelerando a fragmentação da já combalida parte ocidental.24

O impacto provocado pela instalação dos bárbaros foi considerável. Embora não tenham sido os únicos responsáveis pelo colapso da unidade imperial, certamente contribuíram para acelerá-lo. Disso os escritores cristãos tiveram clara certeza, a ponto de alguns, como São Jerônimo (340-420) e Santo Ambrósio de Milão (334-397), terem associado os godos aos povos do Gog e do Magog, que na literatura apocalíptica cristã seriam povos selvagens que irromperiam sobre a humanidade pouco antes do fim do mundo.25

Menos bombástico, o historiador romano Amiano Marcelino (c.330-c.400) também deixa transparecer sua estupefação diante dos modos violentos e dos costumes guerreiros dos povos alanos:

 

Quase todos os alanos são altos e formosos, com os cabelos quase louros, um olhar

terrível e perturbador, ligeiros e velozes no uso das armas. Em tudo são semelhantes aos

hunos, mas na maneira de viver e nos costumes, menos selvagens. Roubando e caçando,

andam de um lado para outro, até locais tão distantes como o lago Meótis e o Bósforo

Cimério e também até a Armênia e a Média.

Assim como para os homens amáveis e pacíficos o repouso é agradável, assim eles

encontram prazer no perigo e na guerra. É considerado feliz aquele que sacrificou sua

vida na batalha, enquanto aqueles que envelheceram e deixaram o mundo por um

acidente são censurados como se fossem degenerados e covardes; e não existe algo que

mais se orgulhem do que matar um homem, qualquer que seja ele: como glorioso despojo

do assassinato, cortam-lhe a cabeça, arrancam-lhe a pele e colocam-na sobre os seus

cavalos de guerra como enfeite [...].

Ignoram o que seja a servidão, tendo nascido todos de sangue nobre, e mesmo agora

escolhem como chefes aqueles que se distinguem na experiência cotidiana da

guerra. 26[pag. 88]

 

Entretanto, nem tudo era selvageria e destruição. Admiradores dos valores da civilização romana, os germânicos tentaram, em vão, dar continuidade àquele estilo de vida. Com a adoção do cristianismo, gradualmente assimilaram algo do que lhes foi legado do mundo antigo através dos membros letrados da Igreja. Se não puderam manter diversos aspectos da cultura material existente nos tempos do império (estradas pavimentadas, templos, construções), inovaram as técnicas metalúrgicas da ourivesaria, da incrustação de metais e, sobretudo, das armas. A fabricação de elmos, espadas e escudos continuaria a ser durante séculos uma atividade fundamental nas oficinas dos reinos da alta Idade Média. Como nos informa Georges Duby, foi buscando maior eficácia nas batalhas que primeiro se desenvolveram as inovações técnicas nos trabalhos de ferro, criação de cavalos e construção de barcos, inovações que mais tarde iriam servir para aumentar a produção pacífica de riqueza no Ocidente medieval.27

 

DO GUERREIRO AO CAVALEIRO

 

De acordo com o historiador Philippe Contamine, as sociedades que se formaram nos reinos bárbaros orientavam-se fundamentalmente pela guerra. Sua organização social era estruturada, ligada e dependente da organização de seus exércitos. Todos os seus homens livres eram, em princípio, combatentes. A guerra era, pois, um elemento essencial na definição do próprio estatuto do indivíduo, estando associada a todas as atividades sociais de alguma relevância. Nesses reinos bárbaros, a presença da guerra era tão marcante que até mesmo os acontecimentos não militares da vida pública e privada adquirem naturalmente um caráter bélico: os casamentos dos filhos de reis e de aristocratas pressupõem sempre que um contingente de guerreiros faça parte do dote da noiva. Qualquer funcionário real, quando no exercício de suas funções administrativas, faz-se sempre acompanhar por uma escolta de guerreiros. 28

Mas a guerra não era apenas um meio de afirmação social e política: proporcionava também um gênero de vida, e jamais compreenderemos o espírito que animava os homens daquele tempo se não levarmos em conta esse aspecto. Havia algo de mágico, de sagrado na atividade bélica, e morrer em batalha era a maior glória que se podia esperar do guerreiro. Essa “alegria da guerra”, ainda presente nas canções de gesta do século XI, expressava-se no ardor do combate e na dureza dos golpes, motivo pelo qual os escritores não tinham nenhum [pag. 89] escrúpulo em narrar a maneira pela qual braços e pernas eram cortados, elmos e escudos eram fendidos e o sangue do inimigo jorrava diante dos golpes cortantes das espadas.29

Também as armas pessoais do guerreiro participavam dessa esfera mágico-religiosa, recebendo nomes particulares, sendo tratados como entidades vivas, como se tivessem uma personalidade própria (como será o caso de Joiosa, a espada de Carlos Magno), motivo pelo qual eram enterradas com seus proprietários.30 Até mesmo alguns nomes bem conhecidos, de proveniência germânica, atestam a referida onipresença da guerra. Etimologicamente o designativo Ricardo provém da associação de dois termos: rik (poderoso) e hard (ousado). Já Armando deriva de heri ou werra (guerra) e man (homem); Rogério provém de hrot e gar, que significada “lança poderosa”; Guilherme (na língua francesa, Guillaume, e em inglês, William), provém da junção da palavra wile (vontade) a helm (elmo); Geraldo provém da junção dos termos ger (lança) e hard (ousado); Luís, nome derivado de Clóvis (de onde o termo francês Louis), provém da associação dos vocábulos chlodo e do vocábulo wed, e significava “combatente glorioso”.31

 

Mas nem todos podiam dispor das condições materiais necessárias para fezer a guerra. Numa sociedade marcada pela presença constante da fome como foi a da Alta Idade Média, sobreviver era o objetivo prioritário dos pobres, e as possibilidades materiais para a obtenção de armas ofensivas e defensivas e, principalmente, para a obtenção de um cavalo de guerra eram muito pequenas, estando reservadas apenas aos membros da aristocracia rural ou aos seus apaniguados. Assim, a guerra tornou-se atividade exclusiva dos homens plenamente livres, ficando os camponeses e trabalhadores manuais privados do direito de empunhar armas. A estes cabiam as atividades de produção, e os excedentes econômicos de seu trabalho eram apropriados pela aristocracia territorial e militar que lhes oferecia proteção.

Entre os guerreiros, por sua vez, logo se estabeleceu uma hierarquia sociomilitar, ficando os aristocratas, grandes proprietários, como verdadeiros chefes regionais, os médios proprietários como comandantes locais e os pequenos proprietários como simples combatentes. Desde pelo menos o século VI os aristocratas mantinham sob sua dependência um séqüito armado denominado de antrustio, composto de guerreiros despossuídos que lhes prestavam serviços de natureza militar em troca de alojamento, alimentação e do pagamento de [pag. 90] um soldo. Tais guerreiros eram chamados de gasindus, isto é, “companheiro de expedição”; noutros textos aparece designado como buccellarii, quer dizer, “comedores de biscoito” (indicação talvez de sua condição de alimentados pelo senhor); socii (sócios, indicação de sua ligação ao senhor) ou de satellites, termo que revela sua situação de dependência ao viverem ao redor do senhor. Esse mesmo grupo passará a ser designado vassi, vassalli (de onde a palavra vassalos) e milites (de onde o termo militar) nos séculos 32 IX e X.

Assim, durante a Alta Idade Média não existiam exércitos regulares permanentes, nem uma organização militar fixa nos reinos bárbaros. Em momentos de guerra, os aristocratas regionais, ligados aos reis por laços de sangue, por dependência pessoal ou aliança, é que forneciam os contingentes empregados em combate.33 As tropas militares eram constituídas em sua maior parte por infantes, equipados de acordo com suas posses pessoais.

Em geral, os guerreiros portavam elmo, escudo (de madeira, couro e metal), machados de batalha de dois gumes, lança com vários gumes e acha curta de arremesso, armas próprias para o combate corpo a corpo. Entre os francos, à lança e ao escudo juntavam-se duas armas convencionais, a “francisca”, arma desconhecida antes do século V, uma machadinha provida de um ou dois gumes que se podia usar também como projétil de arremesso, e a espada longa e larga (de aproximadamente 1 metro) conhecida como scramasax. Além disso, mesmo que não tenha sido freqüente, há registros arqueológicos e iconográficos que atestam o uso da arma de lançamento de flechas herdada do mundo greco-romano, que virá a ser conhecida a partir do século 34 X pelo nome de balestra.

Costuma-se afirmar que até pelo menos o século VIII não se aplicava em batalha nenhum padrão tático, e o resultado da contenda dependia exclusivamente do desempenho individual dos guerreiros. Por vezes a luta se encerrava com um combate individual entre os chefes dos grupos em confronto, e o melhor exemplo dessa forma de resolução dos conflitos parece ter ocorrido na Batalha de Vouillée, quando o rei franco Clóvis, da dinastia merovíngia, venceu Alarico, estabelecendo o domínio franco ao sul da Gália em 507. Eis o mais conhecido relato desse acontecimento:

 

O rei Clóvis e Alarico, rei dos Godos, enfrentaram-se nos campos de Vouillée, perto da

cidade de Poitiers. Os godos bateram-se a golpes de flecha e os francos atacaram com

espadas na mão. Tendo os godos fugido, como de hábito, com a ajuda de Deus Clóvis

obteve a vitória [...]. O rei tinha posto os godos em fuga ao matar seu rei Alarico quando

dois soldados se lançaram de surpresa sobre ele, atacando-o dos dois lados com suas

lanças, mas ele escapou da morte graças à couraça que usava e graças à rapidez de seu

cavalo.35 [pag. 91]

 

Convém entretanto lembrar a advertência do historiador Ferdinand Lot a propósito do valor documental do depoimento do bispo Gregório de Tours (539-594) transcrito anteriormente. Afinal, o cronista tinha mais a intenção de enaltecer as coisas religiosas do que propriamente instruir sobre a arte militar. Na realidade, sabe-se pouco sobre a tática empregada nas batalhas dos séculos VI e VII, e a julgar pelas crônicas e pelos escritos de outros autores, como o bizantino Procópio de Cesaréia (c.490-c.562), presume-se que os chefes de guerra combatessem a cavalo, e que os combatentes comuns guerreassem a pé, valendo-se de uma tática simples mas muito eficaz: avançavam em grandes colunas, que funcionavam como um bloco no momento do choque com o inimigo. 36

Algo novo começa a ocorrer no reino franco a partir do século VIII, sobretudo no período de governo da dinastia dos carolíngios. Data desse momento a gênese de nova forma de combate que afetaria tanto o domínio da tática quanto os padrões da guerra e acarretaria alterações na hierarquia social.

Com a dinastia dos carolíngios, a guerra assume lugar ainda mais relevante e ocupa posição de destaque na administração do reino franco. Sobretudo nos períodos de governo de Pepino o Breve (751-768) e de Carlos Magno (768-814), as incursões contra os lombardos, frísios, saxões e avaros, entre outros, exigiam o uso freqüente de combatentes, e a assembléia geral que ocorria todos os anos funcionava também como reunião preparatória para o início das operações militares. Como nos lembra o pesquisador Louis Halphen, “a assembléia coincidia com a concentração de tropas e a data de sua convocação atendia as necessidades militares”.37

Data também desse período o estreitamento de laços entre a atividade militar e a hierarquia social, sendo cada vez mais a concessão de terras ou de direitos sobre terras a forma usual de recompensa dos guerreiros — fator importante na germinação do sistema social conhecido por feudalismo. Desde pelo menos 806 há indicações nos documentos carolíngios sobre os guerreiros convocados para a guerra: em primeiro lugar estavam os vassalos reais “casados”, quer dizer, providos de um bem territorial (portanto, de uma “casa”) pelo imperador, e depois os caballarii, 38 isto é, os homens livres que dispunham de um cavalo.

Paralelamente, ocorreu uma evolução no equipamento militar e nas técnicas de combate, resultantes dessa progressiva profissionalização da guerra. Aos poucos, os guerreiros passaram a proteger-se com uma loriga (túnica que ia dos ombros até os joelhos, com capuz que cobria a nuca e o queixo, feita de [pag. 92] pequenos anéis ou discos de ferro entrelaçados) ou por uma túnica de couro recoberta por escamas ou placas de metal (brunia). Alguns deles usavam um elmo de metal (gálea) e longo escudo triangular, ambos de metal. Como armas ofensivas, usavam uma espada longa e larga (sapata, gladius) com duplo gume e afiada, que podia ser usada tanto para estocar quanto para cortar; espada curta de apenas um gume (semispathium), e uma lança de aproximadamente 2 metros, de madeira com ponta de lâmina larga e triangular, de ferro.39 A esse equipamento defensivo e ofensivo, deve-se acrescentar o uso cada vez mais freqüente do cavalo em batalha, daí por que esse guerreiro costuma ser chamado de cavaleiro couraçado.

A utilização da cavalaria pesada em combate passou a ser freqüente sobretudo após a batalha de Poitiers, ocorrida em 732, quando os guerreiros francos da Austrásia, Nêustria, e os aquitanos, liderados pelo avô de Carlos Magno, chamado Carlos Martel, alcançaram significativa vitória contra a cavalaria ligeira dos muçulmanos vindos do norte da África, que avançavam pela Europa pelos domínios já conquistados aos visigodos na Península Ibérica. A interposição de combatentes a cavalo entre as linhas da infantaria impossibilitou o avanço do inimigo, e o ataque da cavalaria no flanco esquerdo forçou o recuo dos muçulmanos.

Com efeito, a função essencial da cavalaria pesada era servir de tropa de choque. Em formação triangular, os cavaleiros lançavam-se a galope sobre as linhas inimigas, rompendo as barreiras defensivas, desestruturando a organização do adversário e facilitando o avanço dos guerreiros a pé. A técnica de combate consistia no “choque frontal”, pelo qual os cavaleiros, com lanças longas em posição horizontal, estocavam os cavaleiros inimigos, rompendo suas armas defensivas e derrubando-os da montaria.40 Tal forma de luta passou a ser usada com maior freqüência a partir do século XI, mas começou a ser esboçada nos séculos IX-X. Com o tempo, um termo genérico passou a ser empregado para designar exclusivamente aqueles profissionais da guerra: miles. Nos séculos X e XI, bandos desses guerreiros constituíam as escoltas armadas de senhores feudais que, alheios a qualquer autoridade dos reis, lutavam entre si pela aquisição e manutenção de seus domínios.41

Era uma época de violência, em que os inermes, incapazes de defender-se, e os que não dispunham de alguém que lhes pudesse oferecer proteção sujeitavam-se a todo tipo de ataque. 42 Em breve a Igreja interviria perante as autoridades, visando controlar o furor da nobreza, instituindo o movimento da Paz de Deus (protegendo os fracos e os próprios membros do clero) e o [pag. 93] movimento da Trégua de Deus (limitando os períodos de conflito). E ao deslocar os efeitos nefastos dessa violência, pregando a Guerra Santa contra os infiéis muçulmanos, a guerra passou a ser revestida de um caráter positivo, nascendo assim a figura do miles Christi, o cavaleiro de Cristo.43

Assim, ao longo desses séculos iniciais da Idade Média pode-se constatar alguns aspectos recorrentes na evolução da função social da guerra. Inicialmente, ela era uma atividade permanente no mundo bárbaro, definindo o lugar dos indivíduos na sociedade ao garantir o estatuto de homem livre aos guerreiros. Em segundo lugar, a progressiva afirmação do combate a cavalo esteve relacionada com a constituição de um pequeno grupo de cavaleiros couraçados e à promoção social e política dos estratos que controlavam os equipamentos necessários para se fazer a guerra. Por fim, pressente-se lenta alteração no modo de conceber-se a guerra: de um caráter meramente destrutivo, tal qual se apresentava no momento da desagregação do Império Romano (séculos IV-V), aos poucos ela foi sendo vista como um instrumento que podia ser colocado a serviço dos reis e, sobretudo, a serviço da Igreja — o que veio a se concretizar na idéia do “cavaleiro de Cristo” e da Guerra Santa durante o século XI.

 

NOTAS

 

(1) Johan Huizinga,O declínio da Idade Média, Lousã,Ulisséia, s.d., pp, 9-30. (2) Georges Duby, Guerreiros e camponeses: os primórdios do crescimento econômico europeu,

Lisboa, Estampa, 1980.

(3) Claude Gaier. “De quelques tendences actuelles de l"historiographie militaire médiévale”,

em Le Moyen Age, Tome CIV, nº 2, 1998, pp. 291-303. Para o Brasil, veja-se as obras de

síntese de Cyro de Barros Rezende Filho, Guerra e guerreiros na Idade Média, São Paulo,

Contexto, 1989; Guerra e poder na sociedade feudal, São Paulo, Ática, 1999.

(4) Para a Alta Idade Média, o estudo mais aprofundado continua a ser o de B. S. Bachrach,

Merovingian military organization: 481-751, Minneapolis, 1972.

(5) Para o quadro histórico da eclosão da crise romana, ver Roger Remondon, La crisis del

Império Romano: de Marco Aurelio a Anastacio (Nueva Clio), Barcelona, Labor, 1973;

William Carol Bark, Origens da Idade Média, Rio de Janeiro, Zahar, 1962.

(6) Ferdinand Lot, O fim do mundo antigo e o princípio da Idade Média, Lisboa, Edições 70,

1985, pp. 100-102.

(7) Para uma visão de conjunto a respeito da questão, ver Pierre Riché, As invasões bárbaras,

Mem Martins, Europa-América, s.d.; Maria Sonsoles Guerras, Os povos bárbaros, São

Paulo, Ática, 1986; Michel Banniard, A Alta Idade Média Ocidental, Mem Martins,

Europa-América, s.d.

(8) Para a Europa do Leste, Perry Anderson (Passagens da Antiguidade ao Feudalismo, São

Paulo, Brasiliense, 1986) propõe a existência de um sistema social próprio ao nomadismo.

(9) Lucien Musset, Las invasiones: las oleadas germánicas, Barcelona, Labor, 1967, p. 3. (10) Sobre as invasões eslavas no território bizantino, ver Steven Runciman, A civilização

bizantina, Rio de Janeiro, . Zahar, 1961, pp. 215-217; José A. Marins Riveros, La cuestion

eslava en el Peloponeso bizantino: siglos VI-X. Byzantion Nea Hellas, nºs 11-12,

1991,1992, pp. 205-244. [pag. 94]

(11) W. BARTHOLD, Histoire des turcs d"Asie Centrale, Paris, Librairie d"Amerique et d"Orient,

1945, pp. 76-88; Miguel Urbano Rodrigues, Nómadas e sedentários na Ásia Central, Porto,

Campo das Letras, 1999, pp. 209-220.

(12) Para uma visão de conjunto da evolução histórica do Império Muçulmano medieval, ver

Albert Hourani, Uma história dos povos árabes, São Paulo, Companhia das Letras, 1994;

Claude Cahen, El islam: desde los origenes has el comienzo del Imperio Otomano, Madrid,

Siglo Ventiuno, s.d.; Bernard Lewis, Os árabes na História, Lisboa, Estampa, 1982,

(Imprensa Universitária); Robert Mantran, Expansão muçulmana (séculos VII-XI), São

Paulo, Pioneira/Edusp, 1977.

(13) Sobre os mongóis, ver Michel Hoàng, Gêngis Khan, Rio de Janeiro, Globo, 2003; E. D.

Phillips, Os mongóis, Lisboa, Verbo, 1972; René Grousset, L"empire des steppes, Paris,

Payot, 1960; Gavin Hambly, Ásia Central, México, Siglo XXI, 1972. (Historia Universal

Siglo XXI).

(14) Ver Philippe Conrad, As civilizações das estepes, Rio de Janeiro, Otto Pierre Editores,

1978, pp. 36-42; Luce Boulnois, A rota da seda, Mem Martins, Europa-América, 1999, pp.

24-28.

(15) Lucien Musset, Las invasiones: las oleadas germánicas, pp. 30-33.

(16) Eugene Darkó, Le role des peuples nomades cavaliers dans la transformation de l"Empire

romain, Byzantion, XVIII, 1946-1948, pp. 85-97. Segundo o historiador das técnicas, Lynn

White Jr. (Medieval technology and social change, London, Oxford University, 1970, p.

20): “ Em vista dos constantes contatos dos bizantinos com os povos das estepes e a

considerável influência destes últimos sobre os métodos militares bizantinos, é provável

que o estribo tenha sido introduzido em Constantinopla após sua disseminação pelas

grandes planícies da Ásia até a região ao norte do mar Negro”.

(17) Philippe Conrad, As civilizações das estepes, pp. 140-141. Sobre o valor histórico dos

relatos dos viajantes cristãos, cf. Jean Richard, Les mongols et l"Occident: deux siècles de

contacts, em idem, Croisés, missionaires et voyageurs: les perspectivas orientales du monde

latin medieval, London, Variorum Reprints, 1983, pp. 87-95.

(18) Tacite, em idem, Oeuvres choisies, Paris, Club du Meilleur Livre, 1959, p. 39. (19) Patrick Louth, A civilização dos germanos e dos vikings, Rio de Janeiro, Otto Pierre

Editores, 1978, pp. 82-86; Lucien Musset, Les peuples scandinaves au Moyen Age, Paris,

PUF, 1951, pp. 24-27.

(20) Tacite, Germanie, p. 42.

(21) Nelly Egger De Iolster, La figura del héroe en la Saga de Egil, em Temas Medievales,

Buenos Aires, vol. 7, 1997, pp. 63, 72.

(22) Emilio Gabba, “Considerazioni sugli ordinamenti militari del Tardo Imperio”, em VVAA,

Ordinamenti militari in Occidente nell"Alto Medioevo, Spoleto, Centro Italiano di Studi

sull"Alto Medioevo, 1968, p. 91. (Settimane di Studio del Centro Italiano di Studi sull"Alto

Medioevo).

(23) Emilienne Demougeot, Modalités d"établissement des féderés barbares de Gratien et de

Théodose, em idem, L"Empire romain et les barbares d"Occident, (IV-VI siècles), Paris,

Publications de la Sorbonne, 1988, pp. 43-60.

(24) Ather Ferril, A queda do Império Romano: a explicação militar, Rio de Janeiro, Jorge

Zahar, 1989.

(25) Pierre Courcelle, História literária das grandes invasões germânicas, Petrópolis, Vozes,

1950, pp. 19, 71-72.

(26) Ammianus Marcellinus, História, apud Fernanda Espinosa, Antologia de textos históricos

medievais, Lisboa, Sá da Costa, 1972, p. 6.

(27) Georges Duby, op. cit., p. 89.

(28) Philippe Contamine, La guerre au Moyen Age (Nouvelle clio), Paris, Presses Universitaires

de France, 1981, p. 87. No mesmo sentido, ver Cyro Rezende Filho, Guerra e guerreiros na

Idade Média, p. 28.

(29) Franco Cardini, “Guerra e Cruzada”, em Jacques Le Goff e Jean-Claude Schmitt (dir.),

Dicionário temático do Ocidente Medieval, Bauru, Edusc, São Paulo, Imprensa Oficial,

2002, volume I, p. 477.

(30) Gina Fasoli, “Pace e guerra nell"alto medioevo”, em VVAA, Ordinamenti militari in

Occidente nell"Alto Medioevo, Spoleto, Centro Italiano di Studi sull"Alto Medioevo, 1968,

pp. 31-32. (Settimane di Studio del Centro Italiano di Studi sull"Alto Medioevo).

(31) Philippe Contamine, op. cit., p. 87. [pag. 95] (32) Marc Bloch, A sociedade feudal, Lisboa, Edições 70, 1981, p. 179; Régine Le Jan-

Hennebicque, “Satellites et bandes armées dans le monde franc (VII-X sièdes)”, em VVAA,

Le combatant au Moyen Age, Paris, SHMES, 1991, pp. 97-105. (XVIII Congrès de la

Société des Historiens Médiévistes de L"Enseignement Superieur Publique).

(33) Philippe Contamine, op. cit., p. 88.

(34) Claude Gaier, “Quand l"arbalète était une nouveauté. Réflexions sur son role militaire du X

au XII siècle”, Le Moyen Age, Tome XCIX, nº 2, 1993, pp. 201-229, esp. 203-212.

(35) Grégoire De Tours, Histoire des francs, Paris, Éd. Robert Latouche, “Les Belles Lettres”,

1979, Tome I, livre LIV, cap. XXXVII.

(36) Ferdinand Lot, L"art militaire et les armées au Moyen Age en Europe et dans le Proche

Orient, Paris, Payot, 1946, vol. I, pp. 87-88.

(37) Louis Halphen, Carlo Magno y el Império Carolíngio, México, Uteha, 1955, p. 119. (38) F. L. Ganshof, “L"armée sous les carolingiens”, em VVAA, Ordinamenti militari in

Occidente nell"Alto Medioevo, Spoleto, Centro Italiano di Studi sull"Alto Medioevo, 1968,

p. 112. (Settimane di Studio del Centro Italiano di Studi sull"Alto Medioevo).

(39) F, L. Ganshof, “Larmée sous les carolingiens”, p. 123; Cyro Rezende Filho, op. cit., p. 41. (40) Jean Flori, “Encore l"usage de la lance... La technique du combat chevaleresque vers l"an

1.100”. Cahiers de Civilisation Médiévale (Poitiers) º ) Tome XXXI , n 3, 1988, pp. 213-240,

esp. pp. 214-215.

(41) P. Van Luyn, “Les milites dans la France du XI siècle”, Le Moyen Age, tome LXXVII, nº 1,

1971, pp. 5-42; Jacques Boussard, “Services féodaux, milices et mercenaires dans les

armées, en France, aux X et XI siècles”, em VVAA, Ordinamenti militari in Occidente

nell"Alto Medioevo, op. cit., pp. 130-132; Jean Batany, “Du bellator au chevalier dans le

schèma des „trois ordres". Étude semantique”, em VVAA, La guerre et la paix: frontières et

violences au Moyen Age (Actes du 101º Congrès Nacional des Sociétés Savantes, Lille,

1976), Paris, Bibliothèque Nationale, 1978, pp, 23-34, esp. p. 27.

(42) René Grousset, “Le pouvoir temporel episcopal et ses assises militaires en France à

l"époque féodale”, Anales de Historia Antigua y Medieval, Buenos Aires, volume 17, 1a

parte, 1972, pp. 50-62.

(43) Franco Cardini,”O guerreiro e o cavaleiro”, em Jacques Le Goff (dir.), O homem medieval,

Lisboa: Editorial Presença, 1989, p. 58.