História das Guerras

Demétrio Magnoli · Capítulo 26 de 29

Páginas do PDF

História das Guerras

Guerras do Golfo

 

 

William Waack

 

O último homem das linhas americanas não tinha visto o rosto de um só soldado iraquiano vivo. Os que sobreviveram aos 42 dias de ataques aéreos e à formidável artilharia dos atacantes fugiam a pé ou em velhos caminhões comprados nos países comunistas da Europa Oriental para longe do que deveria ter sido, segundo Saddam Hussein, a “mãe de todas as batalhas”.

A 2 de março de 1991, um sábado frio e nublado na fronteira do Kuwait com o Iraque, um tenente americano, um negro de dentes muito claros e voz estridente, estava sentado numa cadeira de plástico diante de um retrato de Saddam Hussein, pintado num muro de cimento cheio de buracos de bala. Chegara ao posto de fronteira muito depois que o último soldado iraquiano fugira rumo ao Norte, para casa. Deixara cerca de 200 metros atrás os cadáveres de centenas de militares iraquianos, espalhados numa suave subida da enorme highway de oito pistas que leva à fronteira do Iraque. Tinham sido apanhados por caças F-16, e dizimados por cluster bombs — pequenas bombas que se espalham por uma grande área, de pouco efeito sobre as couraças de veículos militares, mas perfeitas para soft targets como carne humana.

As pistas da estrada estavam vazias. Quando perceberam o ataque aéreo, os iraquianos tentaram sair desesperados do asfalto, atolando na areia do deserto e tornando-se um alvo ainda mais fácil com os caminhões e carros civis sobrecarregados do produto de saques e roubos na cidade do Kuwait. Como muitos outros soldados estacionados no Kuwait desde a invasão promovida por Saddam, em agosto de 1990, nem tinham idéia do poderio tecnológico [pag. 453] despejado sobre eles no momento em que fugiam. Foi um massacre, mas outro pior estava apenas começando.

O posto de fronteira interrompia a portentosa highway entre a cidade do Kuwait e Basra, a segunda maior cidade do Iraque, distante apenas 40 km dali. O tenente americano já sabia que não teria de percorrer aquela distância em perseguição a um exército fragorosamente derrotado. “Os iraquianos que se danem”, disse, deixando passar quem quisesse entrar para ver, no Iraque, um drama que Washington imaginava que se desenvolveria de maneira bem diversa do que acabaria acontecendo.

Menos de cem horas depois que a formidável força multinacional montada contra Saddam começou o ataque por terra, o comandante das tropas, o general americano Norman Schwarzkopf, dizia que o portão estava fechado. Mas o cerco total às tropas de Saddam, inspirado na célebre Batalha de Cannae, na Antigüidade, jamais chegou a ser completado. Sentado no posto de fronteira, a arma no colo, com os derrotados arrastando-se a poucos quilômetros dali, o tenente simbolizava aquilo que os americanos fariam nos próximos doze anos: cercar um detestado ditador à espera que ele caísse. A guerra de 1991 começara num mundo que estava deixando de existir, o da Guerra Fria e seus dois claros contendores. Era impossível imaginar a coligação de forças montadas para desalojar Saddam do Kuwait, naquele momento, sem o impacto causado em novembro de 1989 pela queda do Muro de Berlim, e a esperança de que focos de conflito regionais, em vez de se tornarem estopins de uma conflagração entre as duas superpotências, pudessem ser eliminados através da cooperação de exipoderosos adversários. Doze anos depois, quando atacaram Saddam para tirá-lo do poder, os americanos não estavam apenas finalizando um serviço inacabado. Tentavam mudar o mundo.

A PRIMEIRA GUERRA DO GOLFO (1991)

 

As duas guerras do Golfo, a de 1991 e a de 2003, só nas aparências sugerem ser duas metades de um mesmo evento. O primeiro, iniciado com a invasão do Kuwait por tropas iraquianas, é parte de um longo período no qual a preocupação estratégica das principais potências envolvidas na região — os Estados Unidos em primeiro lugar — foi sempre a de conter os atores locais, especialmente os que pudessem espalhar instabilidade e tumulto, como o Irá logo após a Revolução Islâmica de 1979. O segundo evento, iniciado com o [pag. 454] ataque americano ao Afeganistão, em outubro de 2001, em conseqüência dos atentados de 11 de setembro, é parte da estratégia americana de redesenhar o mapa político do Oriente Médio.

No primeiro caso, Saddam Hussein, cortejado durante pelo menos uma década por compradores de petróleo e vendedores de armas do mundo ocidental (entre eles o Brasil), foi peça importante no esforço de contenção do Irã, que ele comprometeu graças ao seu primeiro trágico erro de cálculo. Quando atacou de surpresa em várias frentes a jovem República Islâmica, em outubro de 1980, acreditava que a desorganização das outroras poderosas forças armadas do xá Reza Pahlevi, semiliquidadas pelos revolucionários, permitiria que ele pudesse controlar sem grande esforço militar a vital região do Shatt al Arab, por onde passa grande parte das exportações de petróleo dos dois países. Em vez de um rápido e vitorioso avanço rumo a Teerã (pela difícil região montanhosa do Curdistão iraniano) e aos importantes campos de petróleo do Sul (através de ataques à maior refinaria do mundo), Saddam envolveu-se numa guerra de oito anos de duração e cerca de 1 milhão de mortos — para alguns autores, o mais longo conflito do século XX — na qual poderia ter sido derrotado não fossem os generosos créditos concedidos por países vizinhos, essencialmente o Kuwait e a Arábia Saudita, e as vendas de armas modernas por parte da França, da Rússia, da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos, da Itália, da Alemanha e, em menor escala, do Brasil (em determinado momento, sem recursos próprios para financiar programas em casa, os governo militar brasileiro incentivou a ida de técnicos e engenheiros para trabalhar em programas de armamentos no Iraque, especialmente mísseis para aviões).

A Guerra Irã-Iraque mostrou, dos dois lados, um desprezo por perdas e baixas só comparável às carnificinas da frente ocidental durante a Primeira Guerra Mundial na Europa. Na defesa do próprio território, os iranianos mostrariam mais uma vez que moral é capaz de compensar em boa parte a deficiência em organização e armamentos. Nos combates aéreos, foram salvos por pilotos que tinham sido treinados nos Estados Unidos e que os guardas revolucionários islâmicos foram retirar das cadeias. O mesmo tipo de feroz espírito defensivo foi mostrado pelos árabes do Iraque quando sentiram que o sul de seu território estava ameaçado pelo arquiinimigo persa (os iranianos). A esperança do aiatolá Khomeini, de que a esmagadora maioria de xiitas no sul do Iraque se unisse aos irmãos” xiitas vindos do lado do Irã, jamais se materializou.

Saddam achava-se protegido, em parte, pelos Estados Unidos. Seu regime não teria sobrevivido se Washington não tivesse organizado uma operação de [pag. 455] salvamento durante a primeira metade da guerra contra o Irã. O presidente Ronald Reagan mandou a Bagdá um enviado especial, Donald Rumsfeld (mais tarde o secretário de Defesa responsável pela invasão de 2003). Os americanos forneceram aos iraquianos não só informações obtidas por satélites sobre posições e movimentos militares iranianos, mas ainda permitiram que Saddam recebesse armas de diversos outros fornecedores e, o que foi ainda mais importante, pudesse conseguir elementos e componentes para levar adiante os programas de desenvolvimento de armas de destruição em massa (especialmente seus componentes químicos e biológicos).

A invasão do Kuwait parecia, do ponto de vista de Saddam, uma operação lógica. Quando acabou o desastre iraniano, o Iraque precisava desesperadamente vender petróleo a preços altos, mas o barril, que custava US$ 21,00 em janeiro de 1990, estava sendo vendido a US$ 11,00 na metade daquele ano. Os sheiks do Kuwait eram um dos principais responsáveis por ultrapassar a cota de cada membro da Opep naquele período. Além disso, passaram a cobrar os volumosos empréstimos feitos a Saddam durante o sangrento conflito com o Irã. Outro erro de cálculo levou Saddam a invadir o Kuwait. Havia um velho contencioso entre o Iraque e o Kuwait, que os iraquianos consideravam como parte de seu território. Além disso, Saddam achava que o Kuwait estava “roubando” petróleo de campos situados muito próximos, entre os dois países. Mas o que o ditador iraquiano não podia tolerar era o fato de que o Kuwait, além da Arábia Saudita, estivesse cobrando o pagamento de créditos por um “serviço” — o enfraquecimento da revolução islâmica xiita — que Saddam julgava ter feito em benefício de todos os países árabes da região. Ao decidir atacar o Kuwait, Saddam julgava — erroneamente — que os Estados Unidos não interviriam.

Hábil tático e excelente conhecedor da política interna iraquiana, a visão de mundo do ditador era canhestra, obtusa e o impediu de entender que uma potência global como os Estados Unidos jamais toleraria que um só país — o Iraque — pudesse com a invasão do Kuwait controlar a maior parte do petróleo da região e, de quebra, representar uma ameaça direta à monarquia reacionária da Arábia Saudita, o maior produtora de petróleo do Oriente Médio. A ordem final para a invasão do Kuwait, quando satélites militares franceses já haviam detectado há muito a maciça movimentação de tropas iraquianas na fronteira, só partiu depois de uma estranha conversa de Saddam com a embaixadora americana em Bagdá, da qual o ditador saiu com a impressão de que a representante da Casa Branca sinalizara com a “neutralidade” americana no caso de uma invasão. [pag. 456]

Saddam ocupou o Kuwait em poucas horas, e até hoje não está claramente estabelecido se constava de seus planos originais seguir adiante em direção à Arábia Saudita. Provavelmente, não. Bem ao modo da região, a um golpe de força segue-se um período de negociação e barganha, no qual o reconhecimento da força de um lado normalmente deveria levar o outro lado a concessões ou à submissão. Formou-se em poucos dias um consenso internacional de que Saddam teria de sair do Kuwait, se necessário fosse, à força. Velhos aliados e fornecedores, como França e União Soviética, tentaram convencer o ditador iraquiano a desistir de sua presa e da política de fazer reféns entre os trabalhadores e técnicos estrangeiros que estavam no Iraque quando a invasão começou (entre eles, 450 brasileiros de uma empreiteira envolvida em obras de infra-estrutura). Em poucas semanas, americanos e britânicos tinham a sensação de que haviam conseguido “estabilizar” a situação militar, ou seja, tinham forças suficientes também no chão para conter até mesmo um ataque maciço do Iraque contra a Arábia Saudita. E, numa grande lição de logística e organização militar, começaram a concentrar na região ampliada do Golfo Pérsico uma força de mais de meio milhão de homens, montada para enfrentar um exército, o de Saddam, estimado em pelo menos o dobro e com larga experiência de combate.

As 100 horas de lutas mostrariam de que maneira a capacidade do Exército iraquiano havia sido grosseiramente superestimada sobretudo pela imprensa ocidental. Uma das principais lições das operações militares é a de que o número de carros blindados, artilharia pesada, aviões modernos de combate ou de soldados não traduz a real capacidade de uma força armada. Os iraquianos tinham copiado de maneira pouco crítica as doutrinas militares emanadas sobretudo do antigo bloco oriental europeu, fortemente influenciado pela experiência da União Soviética na Segunda Guerra Mundial. Em primeiro lugar, por motivos políticos, Saddam nunca deixou que um general se destacasse ou tivesse o comando isolado de guarnições e unidades importantes, o que se revelaria desastroso no momento em que formações iraquianas tinham de tomar decisões rápidas e as comunicações com o QG em Bagdá se tornaram difíceis com os bombardeios aéreos, que destruíram em especial as instalações de comunicações dentro do Iraque. Em segundo lugar, Saddam reforçou uma tendência típica da URSS de concentração do poder e de pouca delegação de decisões aos escalões subordinados. Um dos “segredos” de exércitos bem-sucedidos nos campos de batalha na segunda metade do século XX, como o israelense, o americano e o britânico, é exatamente a amplitude de que dispõem até mesmo suboficiais para organizar e tomar decisões. [pag. 457]

Outro complicador para a força armada iraquiana, formidável apenas no papel, era o fato de que Saddam — mais uma vez, por motivos políticos — a dividiu rigorosamente entre as tropas “de elite”, em especial a chamada Guarda Republicana, equipada com material mais novo e de melhor qualidade, e as formações do exército convencional, recrutadas sobretudo entre as faixas de população mais pobres da periferia de Bagdá (com grande contingente xiita) e do sul do país, também de predominância xiita, e que Saddam não considerava confiável. Péssimo comandante militar, Saddam acreditou até o final que os aliados tentariam desembarcar no Kuwait pelo mar, onde a faixa de uma provável operação militar é muito estreita, e as dificuldades muito maiores. Concentrou suas tropas tradicionais em trincheiras malfeitas dentro da própria cidade do Kuwait, protegeu-os com obstáculos antitanques e alguns campos minados bem próximos ao litoral, e deixou o grosso da Guarda Republicana, com seus modernos tanques soviéticos de batalha, num setor pelo menos 100 quilômetros mais atrás.

Com o que ele não contava é o fato de que os aliados jamais pensaram em desembarcar frontalmente, e que a grande pinça de envolvimento — a inspiração para a manobra o general Schwarzkopf foi buscar na célebre Batalha de Cannae, na qual Aníbal liquidou um exército romano várias vezes superior em número — tentaria “fechar o portão” pelo menos 300 quilômetros atrás de onde se posicionavam as principais unidades da Guarda Republicana. Saddam não tinha idéia da possibilidade logística de um exército moderno, isto é, da capacidade de cruzar vastas extensões de deserto. Como os antigos beduínos, ele se achava protegido pela vastidão das areias desabitadas a oeste de Kuwait e do Iraque, por onde avançaria a principal ponta de lança de blindados pesados americanos.

A Primeira Guerra do Golfo, como ficou conhecida a conflagração militar de janeiro a março de 1991, foi uma lição de que, em guerras convencionais modernas, o peso da tecnologia favorece de forma decisiva os exércitos “ocidentais”. Erros de avaliação de comandantes são naturalmente importantes — os erros já mencionados de Saddam teriam contribuído para a derrota de seus exércitos mesmo se eles fossem mais bem preparados —, mas o emprego dos principais elementos da revolução da informação para a conduta das operações no campo de batalha excedeu tudo o que se conhecia até então.

O primeiro fator relevante, já demonstrado pelas Forças Armadas israelenses nas guerras anteriores contra exércitos árabes, é o peso específico da integração das diversas armas. O avanço nas tecnologias de informação permitiu que os americanos testassem não em exercícios, mas no campo de batalha, pela primeira [pag. 458]

 

[pag. 459]

vez, as doutrinas militares de informação em tempo real. Na guerra seguinte, abordada mais adiante, o emprego dessa tecnologia permitiria que até mesmo carros de combate isolados pudessem acompanhar eventos distantes, ampliando decisivamente o horizonte dos soldados e comandantes no campo que, como se sabe, costuma ser bastante estreito.

A principal vantagem desse avanço tecnológico reside em permitir a integração de sistemas, ou seja, já não se trata simplesmente de um grupo de soldados em dificuldades solicitando apoio de artilharia ou de aviação tática. Comandantes em vários níveis passaram a dispor da possibilidade de tomar decisões enquanto os acontecimentos se desenrolam, o velho sonho de todo chefe militar. Em outras palavras, a informação em tempo real substitui, na guerra moderna, o que antes era chamado de “colina do comandante-em-chefe” — algum tipo de elevação do terreno de onde, em tempos antigos, se podia ter uma visão de conjunto do campo de batalha.

O segundo fator foi o extraordinário poderio aéreo da coligação montada contra Saddam, baseado no uso extensivo de instrumentos de controle (aviões voando próximos aos campos de batalha, além de satélites). Tal poderio permitiu, desde as primeiras horas, interromper a comunicação dos centros de comando em Bagdá com as principais províncias militares. O terceiro importante fator foi a precisão das chamadas “armas inteligentes”. De fato elas causaram horrendos danos colaterais, exemplificados em massacres cometidos contra civis indefesos mas, mesmo correndo o risco do argumento ser considerado cínico, a eficácia dessas armas na eliminação de pontos nevrálgicos do inimigo não pode ser contestada.

Os danos colaterais ficaram claros em dois episódios, um em Bagdá, o outro em Fallujah (pequena cidade a oeste da capital que voltaria a ser tristemente célebre depois da invasão de 2003) durante a guerra aérea que precedeu os combates por terra. É o mesmo tipo de erro que se observaria em outro conflito, alguns anos depois: o bombardeio de Belgrado durante a Guerra do Kosovo. Em Bagdá, os analistas no QG americano identificaram um bunker, que abrigava civis no centro de Bagdá, como um disfarce para uma instalação de comunicação das Forças Armadas iraquianas, e alvejaram o abrigo com um míssil projetado para perfurar paredes de concreto antes de explodir. O resultado foram centenas de mulheres e crianças incineradas. Em Fallujah, a aviação britânica atacou uma ponte sobre o rio Tigre, na entrada da cidade, mas a “iluminação” do alvo com raios laser (que conduzem os dispositivos do míssil ao ponto de impacto) foi malfeita. O petardo atingiu [pag. 460] o centro do mercado local na hora de mais movimento, matando mais de 200 civis inocentes.

Por outro lado, a precisão dos mísseis capazes de perfurar grossas paredes de concreto pode ser comprovada pela primeira vez em situação real, e superou em muito a expectativa que se colocava nesse tipo de arma. Disparado de grande distância (em alguns casos, a mais de 60 km do objetivo), esse tipo de míssil tem precisão de centímetros. Instalações militares iraquianas, como bases aéreas e depósitos de munição, foram obliteradas sem que os defensores tivessem sequer idéia de onde partiam as armas disparadas pelos agressores.

As diferenças de mentalidade entre os dois exércitos que se opunham não pode ser suficientemente sublinhada. Há diferenças culturais relevantes que explicam em boa parte o “profissionalismo” de exércitos ocidentais na arte de matar. A força armada mobilizada contra Saddam era composta, em seus elementos centrais, de modernos exércitos ocidentais integrados por profissionais bem pagos e treinados, com notável (em comparação com guerras anteriores) margem de manobra para decisões locais, motivados por um senso de missão e camaradagem inculcados em longos anos de treinamento e preparação. Os exércitos de Saddam, ao contrário, compunham-se de elementos mal preparados, mal alimentados, mal armados — no caso das unidades “convencionais” — e cansados ainda dos oito anos anteriores de guerra com o Irã.

À propaganda oficial de que o Kuwait estava “voltando ao lar”, e que sempre teria sido parte do sagrado solo iraquiano, não correspondia à atitude e ao moral dos soldados comuns iraquianos, que tinham como única preocupação escapar vivos do que lhes parecia um conflito incompreensível. Alguns renderam-se para helicópteros, outros chegaram a render-se para grupos de jornalistas ocidentais. A tropa melhor treinada e equipada, especialmente a da Guarda Republicana, a chamada “tropa de elite”, mostrou-se feroz sobretudo ao ser empregada em operações para conter a revolta xiita iniciada nos últimos instantes das 100 horas de combates por terra, ou seja, mostraram-se eficazes apenas como órgão de repressão contra adversários com armamento e treinamento muito inferiores.

Os dois grupos de militares — os de elite e os convencionais — tinham um fator em comum, típico da mentalidade de vários exércitos da região: o apego ao roubo, ao saque e à pilhagem. Mostraram em vários momentos, principalmente no Kuwait, um tipo de comportamento tribal. Os setores mais modernos das Forças Armadas iraquianas, especialmente a aviação de combate, tiveram um papel que se restringiu a observar o que o adversário fazia. A [pag. 461] sufocante superioridade aérea ocidental levou a que grande parte dos aviões de combate iraquianos procurassem a segurança do espaço aéreo do Irã, onde se internaram, do que arriscar qualquer operação de envergadura contra o inimigo, senhor completo dos céus sobre a Mesopotâmia. Tal superioridade impediu qualquer movimento coordenado em larga escala do Exército iraquiano, além de provocar milhares de baixas.

 

A revolta xiita iniciada ainda nos últimos momentos das 100 horas de combate por terra merece ser tratada aqui não pelos seus méritos políticos e militares mas pelas conseqüências que esses eventos teriam para a condução do planejamento político e militar da Segunda Guerra do Golfo, 12 anos depois. A supremacia dos sunitas sobre os xiitas no Iraque data dos arranjos feitos pelos ocupantes britânicos na região pouco depois da Primeira Guerra Mundial. A rigor, na “matriz” da criação do Iraque está o mesmo tipo de defesa dos interesses britânicos que levaram a boa parte dos dilemas no atual conflito árabe-israelense.

Grandes setores do Norte do que hoje é o Iraque deveriam ter feito parte do protetorado sírio sob responsabilidade francesa. Foi a descoberta de petróleo no que hoje são os vastos campos de Kirkuk, próximos a Mossul, no Curdistão iraquiano, que levaram os britânicos a “anexar” o montanhoso e verde Norte (o berço da civilização e da história, tal como as conhecemos) ao arenoso e quente Iraque. Os britânicos mantiveram quase intacto o sistema de regionalização administrativa imposto pelo Império Otomano, que centrava setores em torno de grandes cidades. Assim, o Iraque fundado depois da Primeira Guerra Mundial ficou sendo a fusão de xiitas (Basra), sunitas (Bagdá) e curdos (Mossul), que anteriormente jamais se haviam identificado como partes de um só país.

Também o predomínio dos sunitas na administração do Iraque é o resultado de um expediente político adotado pelos britânicos durante a década de 1920. Eles tentaram adaptar ao Iraque o mesmo tipo de esquema que dera resultados (do ponto de vista da metrópole) na Índia, ou seja, atribuir a determinados grupos étnicos locais, com forte lealdade ao clã e a interesses regionais, o controle de vastas partes do país. À medida, porém, que o Iraque se modernizou e se urbanizou, especialmente depois da Segunda Guerra Mundial, o nacionalismo árabe e os interesses próprios de grupos políticos no país fundiram-se numa organização a princípio clandestina e de caráter quase secreto, o partido Baath (“Renascimento”), que rapidamente evoluiu para um sistema de controle e direção de massas. [pag. 462]

O partido Baath chegou ao poder e transformou-se, de fato, num importante fator de articulação e controle da população. Em relação ao total de habitantes do Iraque, o Baath era maior do que o Partido Nacional-socialista alemão, os fascistas italianos e os comunistas durante o período stalinista na União Soviética. Mesmo com um tipo de organização de controle como o Baath, apoiado num genuíno nacionalismo árabe, Saddam Hussein jamais conseguiu resolver a questão fundamental de um país que nunca se sentiu unido — a não ser pela violência imposta sucessivamente por vários tipos de regime que o precederam. Nesse sentido, é bom lembrar que alguns fatos que tanta repulsa causaram — como o uso, por parte do regime de Saddam, de armas químicas contra populações curdas, no Norte do Iraque — estão dentro de uma tradição iniciada pelos ocupantes britânicos, que encontraram na Força Aérea e no uso de gás, na década de 1920, um “eficiente” meio de controle de revoltas locais. A violência contra curdos e xiitas, por mais abjeta e condenável que nos pareça hoje, foi o método por excelência empregado por todos os que ocuparam o poder central no Iraque nos últimos cem anos pelo menos.

Donos do poder durante mais de sete décadas, os integrantes da oligarquia sunita sempre acusaram os xiitas no sul do país de serem pouco leais ao Iraque. Fiel às ligações tribais e de clãs sunitas no centro do país, desde 1968, quando chegou ao poder, Saddam reprimiu qualquer desejo xiita de ter uma melhor representação nos centros de poder. Sinais de que uma explosão de descontentamento com a ditadura poderia ocorrer já haviam ficado patentes ainda bem antes da derrota dos exércitos iraquianos no Kuwait. Em duas cidades no sul do país, enquanto ainda duravam os bombardeios, grupos dispostos a desafiar a temida polícia secreta (a Mukhabarat) cantavam o slogan (considerado uma traição) “Não há nenhum outro Deus senão Alá e Saddam é Seu inimigo”.

A revolta teria começado quando a tripulação de um tanque, voltando da derrota do Kuwait, destruiu a tiros de canhão um dos retratos de Saddam pintados em monumentos espalhados por todas as praças e edifícios do país. Quase todo o sul do Iraque levantou-se contra Bagdá, no que sempre fora o pior temor de Saddam durante a guerra com o Irã: a secessão de uma parte vital do país. O caráter espontâneo da revolta ficou patente num fato: não havia estratégia ou comando central entre os xiitas. Enquanto ocorriam as primeiras reuniões do general Schwarzkopf com os derrotados generais iraquianos, os grupos rebelados no sul do Iraque gritavam diferentes palavras de ordem — entre elas, a que então mais assustou aos americanos: “queremos uma República Islâmica.” [pag. 463]

Um nome que apareceria bastante no noticiário do pós-guerra seguinte — o da Brigada Badr, em homenagem a um religioso xiita ligado ao Irã — surgiu durante as lutas desses dias. Os integrantes da brigada atacaram tanto os adversários sunitas da Guarda Republicana quanto hotéis de luxo e bares de Basra, a segunda maior cidade iraquiana e a principal da região, e queriam proclamar uma República Islâmica Xiita no sul do Iraque. No quarto dia da revolta, havia clara diferença entre o sul, onde era forte a influência de grupos armados e treinados pelo Irã, e as regiões xiitas mais próximas a Bagdá, como Najaf, onde está a tumba de Imã Ali, a mais reverenciada pelos xiitas do mundo inteiro. Nesse lugar, os religiosos que pareciam ter controle da situação pregavam em termos de ordem pública e respeito às leis islâmicas, mas não falavam na formação de uma república — um conflito que se repetiria, com conseqüências distintas, logo depois da invasão americana de 2003.

Dessa vez Saddam não cometeu erros de cálculo. Embora os curdos tivessem se rebelado poucas horas depois dos xiitas, foi no sul que ele concentrou os esforços de repressão. Saddam sabia que o componente xiita poderia desestabilizar completamente o regime mantido com a ajuda decisiva da estrutura civil do partido Baath. Se a revolta passasse para os 2 milhões de xiitas que moravam na então Saddam City, a imensa favela no norte de Bagdá, que abriga quase a metade da população da capital, o regime estaria perdido. Tropas especiais transferidas sobretudo dos bastiões sunitas no centro do Iraque, engajaram-se imediatamente em combates com vários grupos rebeldes, mas seu sucesso final deveu-se a fatores externos.

O Irã deu menos apoio material do que sugeriam as inflamadas palavras revolucionárias pronunciadas em Teerã. A monarquia saudita, assustada com a possibilidade de uma república islâmica proclamada agora em sua fronteira, preferia um ditador conhecido a fundamentalistas dispostos a espalhar a revolução para o restante da região. E os Estados Unidos, apavorados com a perspectiva do envolvimento do Irã e uma secessão ao sul do Iraque, desistiram de permanecer com suas poderosas unidades blindadas (as que haviam efetuado o movimento de pinça planejado por Schwarzkopf) entre os rebeldes e as forças da repressão.

O resultado era previsível: as forças sunitas, empregando selvageria e ferocidade inéditas até mesmo para uma ditadura sanguinária, massacraram os rebeldes no sul do Iraque. Numa tentativa de impedir até mesmo as rotas de fuga pelas famosas regiões de pântanos próximas ao Shatt al Arab — e parte de uma rica herança ambiental e arqueológica —, Saddam mandou secar e destruir [pag. 464] uma vasta área de precário equilíbrio ecológico. O primeiro que jamais se esqueceu da ordem de suspender as operações militares e não intervir durante a revolta foi o próprio Schwarzkopf, que se viu roubado de um grande triunfo militar. Ele jamais deixaria de manifestar publicamente sua insatisfação com a decisão tomada pelo presidente George H. Bush, que teria deixado até no filho, George W. Bush, a impressão de que uma missão não tinha sido levada até o final. O outro grupo que nunca se esqueceu do que os americanos fizeram, ou melhor, deixaram de fazer, foram as principais lideranças xiitas iraquianas. Elas se sentiram, com razão, abandonadas. E recusaram-se a levantar-se contra Saddam, doze anos depois, mesmo quando ficou claro que os americanos estavam invadindo o Iraque para derrubar o ditador.

 

A SEGUNDA GUERRA DO GOLFO (2003)

 

É difícil entender as causas da segunda invasão, no começo de 2003, sem antes examinar brevemente quanto o mundo mudou no espaço entre a Primeira e a Segunda guerras do Golfo. Cercado em seus 46 palácios, Saddam provavelmente não percebeu as profundas modificações na política internacional. A primeira delas não poderia ter-lhe passado despercebida: o desaparecimento de seu principal parceiro em compras pesadas de armamentos, a União Soviética, no final de 1991. Na sua própria região, no Oriente Médio, a Primeira Guerra do Golfo levara a uma importante conseqüência: os acordos de paz de Oslo entre israelenses e palestinos.

Num primeiro momento, os chamados “dividendos da paz” — o fato de que os países centrais podiam dedicar-se a outros investimentos, agora que não eram mais necessários os enormes gastos com armamentos, típicos da Guerra Fria — transformaram Saddam num ditador encurralado. Uma série de resoluções das ONU permitiu que inspetores realizassem um (como se veria muito mais tarde) excelente trabalho de descoberta e destruição dos três principais programas para aquisição de armas de destruição em massa que o ditador iraquiano realizava com a colaboração, mais ou menos aberta, de empresas privadas dos principais países ocidentais. Ao mesmo tempo, como causa direta das rebeliões de xiitas e curdos no Iraque, depois da derrota de março de 1991, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha (a França logo se retirou das operações) impuseram ao ditador duas zonas de exclusão de vôo, uma no norte, e outra no sul do país. O resultado foi o estabelecimento de uma área [pag. 465] curda que desfrutava de autonomia de facto no norte — um fator essencial nas articulações da Segunda Guerra do Golfo — enquanto, no sul, com certa regularidade, os aviões de combate americanos e britânicos se engajaram em ataques contra baterias antiaéreas iraquianas.

Em abril de 1991 a ONU estabeleceu o que seria o regime de sanções contra o Iraque, obrigado a admitir a presença de grupos de inspetores que desmantelariam os programas de armas químicas, bacteriológicas e nucleares. Foi imposto também um boicote ao Iraque e criado um comitê para supervisionar a aplicação de medidas que congelaram os bens do Iraque no exterior, e a proibição de comércio exterior, a não ser para importação de alimentos e remédios dentro de um programa conhecido como “petróleo por comida”, iniciado em 1995. Esse sistema durou sete anos e foi reconhecido como um dos mais draconianos jamais impostos a um país derrotado. A principal vítima foi a população civil do Iraque, que registrou o retomo de altos índices de desnutrição e mortalidade infantil, indicadores sociais que tinham se alterado positivamente no primeiro período da ditadura de Saddam. O governo não se viu impedido de comprar armas, nem de facilitar o enriquecimento dos clãs com os quais Saddam reconstituiu sua base de poder. Mas o efeito das sanções foi rigoroso, e se parecia ao famoso catch 22: não haveria suspensão das sanções enquanto as reparações de guerra não fossem pagas, mas as reparações de guerra não poderiam ser pagas se as sanções não fossem suspensas.

Do ponto de vista político, Saddam conseguiu brevemente fugir ao isolamento internacional, em parte prometendo pagar débitos aos seus principais fornecedores de armamentos (França e Rússia, como sucessora da União Soviética) em troca da suspensão do severo embargo imposto pela ONU. Saddam sempre pareceu entender melhor os aspectos psicológicos do comportamento de sociedades do que os fatores reais do jogo de poder internacional. Excelente manipulador, até mesmo da imprensa internacional, o ditador iraquiano passou inclusive à ofensiva ao mostrar que boa parte das sanções apenas tornavam o país mais pobre e miserável. O programa de troca de petróleo por compras humanitárias, permitido pela ONU, revelou-se uma enorme oportunidade para Saddam “lavar” fundos que permitiram uma reestruturação parcial das Forças Armadas iraquianas, ao mesmo tempo em que propiciou a corrupção de vários funcionários importantes da ONU, com a ajuda, novamente, de empresas privadas ocidentais envolvidas no lucrativo negócio de obtenção de barris de petróleo a preços abaixo dos normais no mercado internacional (grupos marginais na política brasileira também foram beneficiados pelo esquema oil for food). [pag. 466]

Saddam conseguiu estabilizar-se, em termos políticos, no final da década de 1990, quando o conflito israelense-palestino assumiu de novo uma feição trágica mesmo para os notórios padrões locais de violência e desesperança. Atacá-lo para derrubá-lo parecia, na virada do século, um objetivo possível mas completamente distante, e nem a eleição de George W. Bush, no final do ano 2000, sugeria que a política americana em relação à região fosse alterada radicalmente. Até o formidável cataclismo de setembro de 2001, novamente mal interpretado por Saddam Hussein.

As decisões importantes de cada país nascem não só dos seus interesses declarados e manifestados — econômicos, políticos, geopolíticos. Nascem, sobretudo, de suas visões de mundo e crenças, dos traumas coletivos e da interpretação da realidade internacional. No caso dos Estados Unidos pós-atentados de 11 de setembro, as principais conseqüências das tragédias em Nova York e Washington foram o reforço à idéia, já desenvolvida anteriormente por think-tanks republicanos, de que as causas do terrorismo teriam de ser eliminadas pela mudança da forma de pensar dos outros.

Os neoconservadores republicanos, que assumiram uma posição hegemônica na formulação da política externa de Bush após o 11 de setembro, são intelectuais, ativistas e funcionários de alto escalão que, ao contrário do que se popularizou, representam correntes de pensamento que passaram a se organizar e influenciar a sociedade americana em boa parte como reação à “maré” liberal dos anos 60. O neoconservadorismo não é apenas uma resposta a desafios ou conjunturas internacionais, ou uma forma de pensar o domínio hegemônico da superpotência americana: é parte de uma profunda transformação ideológica nos Estados Unidos ligada diretamente, pelo menos no que se refere a políticas sociais, a valores religiosos e até fundamentalistas, sob o ponto de vista de muitos autores críticos. Essa corrente postulava uma utilização mais “muscular” do vasto predomínio bélico e tecnológico americano em várias partes do mundo, muito antes ainda da Primeira Guerra do Golfo. A decisão de invadir o Iraque e forçar uma mudança de regime teria sido adotada pelos neoconservadores no governo americano no dia seguinte aos ataques terroristas em Nova York e Washington. Eles impuseram à política americana no Afeganistão e no Iraque uma idéia fixa: a de que basta remover os tiranos para que os cidadãos do país e suas organizações implantem a liberdade e a democracia que o tirano impedia.

Vencer a parte militar do conflito foi sempre muito fácil, mas conquistar o que se define como “paz” mostrou-se — como muitos previam — impossível. Nessa visão de mundo ideologizada de forma profunda, esqueceu-se da [pag. 467] importância de elementos centrais nos dois países, particularmente no Iraque, em especial as noções de honra, vergonha, afiliação e lealdade ao clã — em oposição à idéia, tão cara para as sociedades ocidentais, da soberania do cidadão individual. A combinação de idéias neoconservadoras com o fervor religioso americano encontrou expressão numa frase repetida muitas vezes pelo presidente George W. Bush: a de que ele se considerava um instrumento do Senhor, levando aos povos do Oriente Médio o maior bem que Ele poderia dar a seres humanos, ou seja, liberdade.

É uma proposta radical, com amplas conseqüências: o ódio de vários povos ao sistema ocidental, especialmente ao conjunto de liberdades e valores democráticos, só poderia ser eliminado quando também os países onde prosperaram as idéias fundamentalistas dos terroristas (em especial o Oriente Médio) desfrutassem dos mesmos sistemas políticos e conjunto de valores ocidentais. Essa ideologia representava o salto teórico para se passar da invasão do Afeganistão — plenamente justificada do ponto de vista do direito internacional, já que os então governantes, o Talibã, abrigavam os responsáveis pela organização que planejou e executou os atentados — para a invasão do Iraque. Os pretextos para a ação militar foram pouco mais do que a elaboração de comunicados com meias verdades, omissão de fatos e até mesmo a manipulação grosseira de informações mal compiladas ou mal analisadas pelos principais serviços de inteligência nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha.

É digno de nota, nesse ponto, o despreparo da espionagem anglo-saxã: até poucos dias antes da invasão, nenhum dos formidáveis serviços secretos dispunha de um só agente dentro do Iraque. Dependiam fundamentalmente de grupos de exilados no exterior que exageravam a penetração de que dispunham nas estruturas militares e administrativas do país e estavam interessados sobretudo em coletar generosas ajudas financeiras, sem produzir uma só informação ou resultado de relevo. De início, nenhuma das alegações brandidas por Washington e Londres para preparar a opinião pública internacional (e a doméstica) para a invasão sustentou o crivo dos fatos: Saddam não possuía armas de destruição em massa, não tinha ligações com grupos terroristas internacionais (muito menos a Al Qaeda) nem capacidade militar para atacar qualquer de seus vizinhos.

Estados Unidos e Grã-Bretanha invadiram o Iraque tendo como justificativa principal a necessidade de evitar que Saddam Hussein chegasse à posse de armas de destruição em massa. Os dois governos argumentaram com informações de seus respectivos serviços secretos. Nos dois casos, ou as informações estavam erradas, ou foram manipuladas para serem apresentadas [pag. 468] à opinião pública internacional como casos concretos. Era uma mentira. Já em 1995, quando um dos genros de Saddam fugiu com a filha do ditador e mais a irmã dela e o marido em direção à Jordânia, sabia-se que Saddam tentara chegar às armas de destruição em massa, mas havia fracassado. Husain Kamil, o desertor, era o homem responsável pela supervisão dos programas. As informações que ele dera no período do exílio seriam confirmadas mais tarde por duas fontes. Uma, o sueco Hans Blix, chefe dos inspetores de armas, que antes mesmo da invasão afirmara perante o Conselho de Segurança da ONU que o Iraque não dispunha de armas de destruição em massa. A outra veio mais de um ano depois da invasão, com os trabalhos de uma comissão nomeada pelo próprio governo americano que concluiu pela inexistência das armas. Os programas nessa direção já haviam sido interrompidos, ou tinham fracassado, pelo menos dez anos antes da ação militar de 2003.

Diante da óbvia ameaça de que seria varrido do poder, num inédito exercício (para os padrões no Oriente Médio desde pelo menos a Crise de Suez, em 1956) de imposição de força por um ator externo, Saddam cometeu seu último grande erro de cálculo. Convenceu-se de que o blefe lhe daria o tempo necessário para que, nas Nações Unidas e nas reuniões internacionais, Bush e o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, fossem dissuadidos dos planos de ataque. O que Saddam ignorou (e muitas capitais ocidentais também, diga-se de passagem) era a força do trauma dos atentados terroristas na visão de mundo de Bush.

Os preparativos militares encontraram velhos adversários em condições ainda mais díspares do que 12 anos antes. Do lado iraquiano, as sanções em muito afetaram forças militares que já haviam sido fortemente marteladas durante a derrota de 1991. No papel, Saddam ainda podia mostrar considerável número de carros blindados, soldados em uniforme e peças de artilharia. Mas estava completamente desprovido de uma Força Aérea digna desse nome e, em especial, sem contato com a moderna tecnologia bélica.

À revolução da informação seguiu-se uma revolução na doutrina militar americana, que já se vislumbrara como “exercício piloto” na Primeira Guerra do Golfo: trata-se do aperfeiçoamento da extraordinária capacidade de integração de vários sistemas, e da capacidade de transmissão de informações em tempo real do campo de batalha para qualquer dos níveis envolvidos em decisões bélicas. Na breve fase preparatória de bombardeios aéreos, durante a ação de 2003, os americanos empregaram quase que exclusivamente “armas inteligentes”, ao contrário do que ocorrera em 1991. E, dessa vez, quase sem oposição anti-aérea. [pag. 469]

A invasão de 2003 estava destinada a transformar-se numa vitrine, do ponto de vista de Rumsfeld, o secretário de Defesa americano, de que operações ofensivas convencionais poderiam ser realizadas por contingentes militares muito menores do que em anteriores conflitos comparáveis. Meio milhão de combatentes compunham as tropas da coalizão unida para expulsar Saddam do Kuwait em 1991. A invasão por terra em 2003 foi feita por cerca de 150 mil soldados, incluindo os serviços de logística e retaguarda. Esse tipo de evolução é ainda mais importante do que o notório avanço das chamadas “armas inteligentes”, especialmente bombas capazes de corrigir seu rumo por diversos métodos (GPS, iluminação a laser do alvo, entre outros).

Os americanos — aparentemente inspirados no que foram as doutrinas táticas da Wehrmacht no começo da Segunda Guerra, no teatro de operações da África, e na conquista de espaços amplos na Rússia, em 1941 — deram excepcional importância à velocidade no planejamento da conquista do território iraquiano. O planejamento inicial americano previa o uso de duas forças blindadas de primeira linha, ambas apoiadas no uso extensivo de carros de combate pesados, uma prosseguindo do sul para o norte, utilizando o Kuwait como ponto de partida, e a outra descendo do norte para o sul, utilizando território da Turquia como base de lançamento das operações. A recusa do governo turco, porém, em permitir a passagem de nutridos contingentes americanos obrigou a uma rápida alteração dos planos.

Na prática, os americanos travaram duas guerras. No sul, de acordo ao planejamento original, lançaram um ataque combinando unidades pesadas blindadas, infantaria convencional e os marines, a tropa mais agressiva de que dispõe. No norte, apoiados em grande parte por guerrilheiros e paramilitares curdos, infiltraram bom número de tropas especiais vindas do Exército e da Marinha. O uso de grupos especiais atuando atrás das linhas inimigas é um recurso clássico que se tornou célebre sobretudo na Segunda Guerra Mundial, e que ganhou notoriedade também na Primeira Guerra do Golfo por alguns relatos de participantes britânicos (Bravo Two Zero, as peripécias de um comando britânico capturado no deserto iraquiano, virou talvez o principal best-seller sobre o período).

Os americanos trouxeram do Afeganistão seus melhores grupos de tropas especiais — o que provocaria severas críticas, por parte de muitos comentaristas, que se queixaram de que a destruição dos remanescentes dos grupos Talebã e Al Qaeda poderia ter sido atingida não fosse o fato das tropas especiais terem sido redirecionadas para o teatro de operações no Iraque. As tropas especiais [pag. 470]

[pag. 471]

 

deslocadas para o norte tiveram participação importante no esforço de infiltrar agentes capazes de chegar até Bagdá e fornecer aos americanos pelo menos uma idéia da coesão social e do clima político, já que a extraordinária presença dos órgãos de segurança iraquianos tornavam impossível aos americanos uma avaliação precisa dos danos militares. Antes do ataque, a “human inteligence” no Iraque era praticamente inexistente ou dependia de informações fornecidas por grupos operados por exilados de convicções, reputação ou competência mais do que duvidosas, como se revelaria logo depois de concluídas as principais operações militares. De qualquer modo, o principal uso de inteligência por parte dos atacantes veio de seu recurso preferido: a interceptação eletrônica e análise de dados colhidos por aviões e satélites.

Do ponto de vista estratégico, os responsáveis pelo planejamento americano mostraram-se absolutamente corretos em avançar o mais rápido possível para o centro político do inimigo, a capital Bagdá, deixando de lidar com cada foco de resistência. O avanço rumo ao centro nevrálgico, já totalmente isolado por bombardeios aéreos de alta precisão, pode ser feito em menos de 20 dias graças especialmente à topografia, que favorecia o avanço rápido de unidades blindadas pesadas, em especial tanques que não encontraram qualquer tipo de resistência séria no lado iraquiano.

A invasão americana de março/abril de 2003 foi uma espetacular lição de guerra moderna. Ela deixou claro que, naquele momento, não havia adversário à altura da megapotência. O número de homens empregados diretamente na operação de invasão — cerca de 150 mil — seria pequeno para as tarefas de policiamento que se seguiram à derrubada do regime, mas suficiente para desequilibrar em poucas horas a resistência iraquiana. Na doutrina militar “clássica”, costuma-se afirmar que uma tropa só pode ter chance de êxito se o contingente atacante superar em pelo menos três vezes o que defende, mas esse é o tipo de lição desmentida, de novo, em outros casos “clássicos” (como o ataque alemão à França em 1940 e, novamente, à União Soviética em 1941).

Generais americanos travaram uma ácida discussão, nos momentos em que precederam o ataque, sobre o correto emprego do número de tropas, mas, nesse ponto, Rumsfeld e seus assessores no Pentágono sairiam com a razão. Essencial numa guerra moderna é a escolha do centro de gravidade e a concentração de recursos nos pontos de ataque, algo que os americanos fizeram com maestria. Eles se concentraram no principal, que era conquistar Bagdá o mais rápido possível, baseando-se na correta suposição de que a eliminação dos cabeças do regime faria com que o edifício todo se precipitasse. E é preciso reiterar, mais uma vez, [pag. 472] que os americanos não tinham nenhum oponente a altura, do ponto de vista bélico. Os iraquianos não dispunham nem de equipamento, nem de habilidade, nem de comando para operar com grupos muito maiores do que companhias (cerca de 120 homens). Em nenhum momento do avanço rumo a Bagdá os americanos parecem ter enfrentado resistência organizada sequer por batalhões, quanto mais divisões ou exércitos. Grande parte dos comentários da imprensa brasileira durante a guerra, atribuindo ao número declarado de militares iraquianos uma potencialidade de grave risco aos invasores, baseava-se em puro e simples desconhecimento das realidades.

Além disso, pela primeira vez viu-se um emprego tão maciço em três níveis de aviação de combate, bombardeiros de maior alcance e helicópteros. Em outras palavras, os americanos aperfeiçoaram a integração entre os instrumentos de bombardeio estragégico, contra alvos importantes da infra-estrutura do inimigo, ataques táticos, destinados a destruir oponentes nos campos de batalha, e aviação atuando diretamente em conjunto com forças terrestres.

Da mesma maneira como ocorreu na Primeira Guerra do Golfo, as previsões de que o material americano encontraria grandes dificuldades devido ao deserto, à temperatura e à resistência revelaram-se totalmente erradas. Os americanos quebraram a primeira linha de resistência iraquiana ao Sul do país — se é que se podia falar de uma linha de resistência — como enorme rapidez e, daí em diante, tiveram dificuldade sobretudo com a própria logística. A linha de suprimentos, à medida em que foi se esticando rumo à Bagdá, ofereceu alvos fáceis para grupos esporádicos de resistentes, mas de maneira alguma impediu o avanço principal e muito menos diminuiu a capacidade de combate.

O risco não era tão pequeno, olhando-se apenas para os mapas: em alguns momentos, as linhas responsáveis por fazer chegar às tropas de ataque todo tipo de suprimentos se estendiam por cerca de 400 km — alguns dos episódios que se tornaram mais conhecidos dessa fase da invasão, como a captura de soldados mulheres americanas, deram-se ao longo das rotas de suprimentos. Mas o que tornou as Forças Armadas americanas muito conhecidas (desde a Segunda Guerra Mundial, quando generais alemães não se cansavam de elogiar a logística americana) é justamente a capacidade de proporcionar infra-estrutura para os contingentes da primeira linha. Nesse sentido, o Iraque foi um risco mas não um grande desafio.

As principais unidades iraquianas simplesmente desintegraram-se, sumiram nas areias, não apareceram em grupos de sequer um batalhão e ofereceram combates apenas esporádicos. Era notória a dificuldade dos comandantes [pag. 473] militares iraquianos de organizar qualquer defesa articulada que impedisse o movimento dos americanos, que toda vez que enfrentaram um pouco mais de dificuldades chamaram a aviação ou a artilharia pesada e esperaram pela confortável destruição do adversário antes de seguir caminho. Um dos eventos mais surpreendentes no começo da invasão foi a renúncia dos iraquianos em escalonar defesas em profundidade, apoiadas em centros urbanos. Aliás, em cidade alguma de qualquer porte os iraquianos passaram para o que os americanos temiam: uma guerra urbana que teria provocado grande número de baixas. A principal batalha urbana que os americanos travariam ocorreria apenas um ano e meio depois da invasão, em outubro de 2004, quando pelo menos oito batalhões de marines conquistaram cada quarteirão de Fallujah, uma cidade a 60 km a oeste de Bagdá e, então, notória pela concentração de elementos da insurgência armada contra a ocupação americana.

Na verdade, os vinte dias de combates que levaram à conquista da capital e à queda do regime foram pontilhadas por um anticlímax atrás do outro. A rigor, não se verificou nenhuma grande batalha, embora grupos isolados de resistentes tivessem ocupado até mais de uma companhia da infantaria ou dos marines por até quase uma semana. A tão temida Guarda Republicana, que já havia sido fragorosamente derrotada nas poucas horas em que tentou enfrentar as tropas de Schwarzkopf, em 1991, simplesmente desapareceu. Um dos esforços de desmoralização empregados pelos americanos na fase inicial da invasão consistiu em entrar em contato com generais iraquianos responsáveis pelo comando direto de unidades de combate, oferecendo-lhes condições honrosas e vantagens materiais em caso de rendição sem luta. Não se sabe até hoje que resultados práticos foram alcançados com esse tipo de ação, mas é fato indisputado o de que a Guarda Republicana jamais surgiu como um todo coerente. Ao contrário, grande número de relatos, fornecidos por iraquianos, dão conta de que as unidades simplesmente se dissolveram. Soldados foram embora para casa, carregando suas armas — um fator importante no caos do pós-guerra e, também, na organização da insurgência nos anos seguintes de ocupação americana.

Especialmente a tomada de Bagdá acabou sendo uma surpresa — para os atacantes. O primeiro objetivo próximo à capital iraquiana era o aeroporto internacional Saddam Hussein (como quase tudo se chamava no país), um enorme terreno a oeste da cidade. Uma coluna blindada que avançou na direção do aeroporto não encontrou resistência séria. O mesmo aconteceu com os primeiros grupos de reconhecimento armado mandados para dentro de Bagdá. [pag. 474] Num dos episódios mais celebrados da invasão, uma coluna de tanques americanos chegou ao centro da cidade, viu que poderia permanecer onde estava, e ficou. Acabaram gerando uma das imagens mais importantes da guerra: a da participação popular, ao lado de soldados americanos, para derrubar uma das muitas estátutas de Saddam numa das praças mais importantes.

O mais relevante, porém, foi o que não aconteceu — na parte política da guerra. O avanço pelos mais de 500 km da fronteira com o Kuwait até Bagdá ocorreu sem a esperada participação entusiasmada da população xiita. Estava ainda bastante gravada na memória coletiva o que acontecera 12 anos antes, quando a população se sublevou contra o ditador quase derrotado e acabou sendo abandonada pela coligação aliada. Dessa vez, por ordem direta das autoridades religiosas, aquarteladas em Najaf, a população não se opôs ao avanço americano mas também não acolheu os invasores com as flores e o entusiasmo com os quais vários dos planejamentos militares acreditavam que as tropas seriam recebidas. O sinal estava claro: os americanos foram considerados um mal necessário para se livrar de um ditador sanguinário, mas não como libertadores. Em pouco tempo, aliás, os agrupamentos xiitas, alguns com fortes ligações com o Irã, passariam a organizar milícias que travariam, com os americanos, as piores batalhas de rua no sul do país.

A entrada dos americanos em Bagdá foi seguida de um caos que não parecia controlado ainda mais de um ano depois da derrota de Saddam. A desintegração da máquina militar e do aparato de repressão do ditador seguiu-se uma política tímida e equivocada de manutenção da ordem. Com sua tradicional ignorância de alguns símbolos importantes, os americanos preferiram manter guardado e vigiado o Ministério do Petróleo, deixando que o restante da cidade — como os extraordinários museus e coleções de antiguidades — fossem saqueados por multidões que pareciam fora de qualquer tipo de controle.

O mergulho da capital iraquiana e de muitas outras cidades, no caos da pós-invasão acabaria sendo um dos entraves mais importantes para que se tentasse estabelecer vínculos ou até algum tipo de simpatia entre os ocupantes e os “libertados”. Tropa agressiva e com excelente treinamento para operações de ataque e destruição, os americanos mostraram-se despreparados para enfrentar o desafio do contato com a população civil. Sem levar em consideração os delicados procedimentos numa cultura tão diversa como a dos muçulmanos numa sociedade bastante tradicional (apesar da secularização e modernização levadas a cabo durante décadas pelo regime de Saddam), os soldados americanos mostraram-se como brutamontes incapazes de tratar as famílias árabes de outra [pag. 475] maneira senão a pontapés. Nos meses seguintes, podiam passar relativamente sem perigo relativo apenas dentro dos perímetros fortemente robustecidos no centro das principais cidades, sobretudo Bagdá, onde os principais palácios do tempo de Saddam e um enorme centro de convenções foram convertidos num “Fort Apache” isolado do resto do país.

Um pouco diferente foi a maneira encontrada pelos britânicos, veteranos não só em combates de rua mas, principalmente, em ocupar setores urbanos “inimigos”, para controlar a cidade de Basra, no sul xiita do Iraque. Apesar de sofrerem ataques suicidas e o constante fustigamento por parte de insurgentes desorganizados, os britânicos começaram muito mais cedo do que os americanos a passar tarefas de controle da cidade para os próprios iraquianos, ao mesmo tempo em que seus soldados, com o uso de táticas simples — como trajar boinas em vez de capacetes, para diminuir o ar agressivo — conseguiram baixar consideravelmente o número de ataques diários que sofriam logo depois da invasão.

Foi muito mais fácil para os americanos a parte exclusivamente militar da empreitada do que a reorganização política, econômica e social do país — um capítulo que teria de ficar para outra obra. Faltou-lhes a visão de que a destruição do aparelho do Estado e do próprio Exército iraquiano, sob o pretexto de eliminar a presença do partido Baath, só tornaria difícil a própria tarefa dos ocupantes. E faltou-lhes, principalmente, a razão para convencer.

Suficiente para levar adiante modernas operações de guerra, a máquina militar americana mostrou-se muito aquém da missão de policiar um país do tamanho e população do Iraque. Pior ainda: ao típico comportamento abusivo de soldados americanos, seguiram-se os escândalos no complexo de prisões de Abu Ghraib, um local de triste fama entre os iraquianos — era lá que Saddam mantinha um de seus principais centros de detenção e tortura. A mesma revolução da informação que reescreveu como comandantes podem ter noção do que acontece no campo de batalha permitiu que o mundo inteiro soubesse, através de fotos tomadas por aparelhos celulares, das sevícias, abusos, torturas e maus-tratos que carcereiros americanos inflingiam a prisioneiros iraquianos. E o mesmo tipo de política de abertura protagonizada pelos americanos no Iraque, permitindo o que Saddam jamais tolerara — o livre acesso à TV a cabo — facilitou aos iraquianos informar-se sobretudo pelos canais em árabe críticos à invasão.

O resultado foi a pior derrota que um exército invasor pode sofrer: a desmoralização pública de quem entra num país para trazer valores como liberdade e democracia e acaba sendo acusado, com razão, de promover o ódio [pag. 476] e de desrespeitar exatamente os princípios de humanidade e direito que dizia defender. A missão “civilizatória” dos americanos estava tão distante de ser alcançada como quanto nos primeiros dias da invasão. E o que parecia apenas uma missão inacabada ao final da Primeira Guerra do Golfo, ao final da Segunda parecia, simplesmente, uma missão impossível.

 

BIBLIOGRAFIA

 

ANDERSON, John Lee. The Fall of Baghdad. New York: Peguin USA, 2004. ANONYMOUS. Imperial Hubris. Washington: Brassey"s USA, 2004. ATTUCH, Leonardo. Saddam, o amigo do Brasil. São Paulo: Qualitmark, 2003. BLIX, Hans. Desarmando o Iraque. São Paulo: A Girafa, 2004. CLARKE, Richard A. Against all Enemies. New York: Free Press, 2004. DEMANT, Peter. O mundo muçulmano. São Paulo: Contexto, 2004. HERSH, Seymour. Chain of Command. New York: Harper USA, 2004. HIRO, Dilip. The Longest War: The Iran-Iraq Military Conflict. London: Routledge USA, 1989. MACKEY, Sandra. Reckoning, Iraq and the Legacy of Saddam Hussein. New York: WW

Norton, 2002.

MCNAB, Andy. Bravo Two Zero. London: Corgi — UK, 1993. MELLO, Helio Campos e WAACK, William. Mister, You Bagdad. São Paulo, s/n, 1991. PETERS, John e NlCHOL, Kohn. Tornado Down. London: Peguin — UK, 1993. POLK, William R. Understanding lraq. New York: Harper USA, 2005. RAI, Milan. Iraque, plano de guerra. São Paulo: Bertrand Brasil, 2003. SCHLESINGER JR., Arthur. War and the American Presidency. New York: WW Norton, 2004. WOODWARD, Bob. The Commanders. New York: Touchstone Books, 1991. _______. Plan of Attack. New York: Free Press, 2004. [pag. 477]