História das Guerras
Plano Schlieffen
O chefe do Grande Estado-Maior Alemão, conde Alfred von Schlieffen, encontrou em Cannae “a obra-prima das batalhas”, inspiração para o plano que leva seu nome. Um centro que cede, duas alas que se vão fechando, até envolver o inimigo, esmagá-lo entre duas tenazes, numa batalha de aniquilamento; a cavalaria, desabando sobre os flancos do inimigo destroçado, completa a matança. Eis as grandes linhas da manobra com que o cartaginês Aníbal aniquilou os exércitos romanos em 216 a.C. (veja o capítulo “As Guerras Púnicas”). O conde esboçou seu Plano no chamado Grande Memorando de 1905) foi precisando suas idéias até deixar a chefia do Estado-Maior, em 1906, e continuou a fazer isso em correspondência com o sucessor, Moltke, o Moço.
O Plano prescrevia uma manobra de envolvimento executada por uma fortíssima ala direita, girando velozmente para oeste, através de Luxemburgo e da Bélgica, e depois para o sul, pela França, envolvendo Paris por oeste; enquanto isso, a ala esquerda alemã atacaria ao sul, na fronteira da Alsácia-Lorena, atraindo os franceses para fora de suas fortificações. As duas alas se encontrariam, fechando uma gigantesca pinça de 600 km de raio, comprimindo dentro dela o que restasse do Exército Francês. Colhido numa manobra de duplo envolvimento, à semelhança dos romanos em Cannae, os franceses seriam aniquilados e a guerra na Frente Ocidental, ganha. Os exércitos alemães seriam, então, transportados para a frente oriental, para destruir os russos.
A condição essencial para o êxito era a velocidade do avanço da ala direita, extremamente forte em relação à esquerda, na proporção de 7:1. Quanto à frente russa, estabelecida a premissa da demora na mobilização do exército czarista, o Plano previa uma atitude defensiva, até a vitória no Ocidente. “Fortifiquem a ala direita”, foram as palavras de Schlieffen em 1913, às vésperas da guerra e à beira da morte. Helmuth Graf von Moltke (1848-1916) tinha sobre os ombros o fardo do nome de um grande homem, sem nem de longe lhe ter a estatura. Conhecido como Moltke, o Moço, era sobrinho do marechal Helmuth Karl Bernard Graf von Moltke, o Velho (1800-1891). Modificar o feito pelo antecessor é tentação difícil de resistir. Moltke, o Moço, deslocou tropas da ala direita para a esquerda, para fazer frente a um ataque francês vindo do sul, e para reforçar a Frente Oriental. Decisões até hoje discutidas, que teriam sido fatais para o Plano.
Os refinados planejamentos do Grande Estado-Maior prescindiram da colaboração civil e da Marinha de guerra. E curioso, mas não é raro. Há que lembrar a força do Estado-Maior do Exército na Alemanha imperial. [pag. 328]
[pag. 329]
O general Jacques Césaire Joffre (1852-1931), chefe do Estado-Maior francês, era um voluntarista: “A guerra virá, e vou vencê-la. Sempre venci”, dizia, sintonizado com a crença de largo curso no Exército Francês: La victoire c’est la volonté (A vitória é a vontade). Chefe inteligente, arguto, senhor dos próprios nervos, enérgico e capaz de dominar os dos subordinados nos momentos de crise. Nos três primeiros meses de guerra demitiu quase cem generais. “Eu iria me livrar dos generais incapazes e substituí-los por outros mais jovens e enérgicos.” 1
Morto por uma granada de artilharia prussiana, antes mesmo que a Guerra de 1870 começasse, o coronel francês Ardant du Picq, combatente de muitas guerras, na Europa e no ultramar, deixou pensamentos reunidos no livro Estudos sobre o combate2 (1902); depois do Guerra e Paz de Tolstoi, o livro mais encontrado nas trincheiras francesas da Grande Guerra. Du Picq inspirou-se na convicção do marechal Maurice de Saxe de que “o coração humano é o ponto de partida de todas as coisas da guerra”. Acreditava que “não é o número que decide, o combate é uma questão de moral [...]. Igual o poder de destruição, inferior mesmo, quem vence é quem sabe, por sua resolução, marchar para diante [...] numa palavra, tomar posse da ascendência moral”. Essas idéias, fundamentadas em exemplos históricos e na experiência militar de Du Picq, penetraram na mente dos chefes militares franceses. Opinou o general Ferdinand Foch (1851-1929), sucessor de Joffre: “Ardant du Picq foi o expoente da força moral, o mais poderoso elemento da força dos exércitos.”
O pensamento de Du Picq coincidia com a crença dos franceses no élan vital, a vontade que, ensinava Bérgson, tudo conquista. O élan, em termos militares, era o espírito ofensivo, e esse pensamento permeou o pensamento do Estado-Maior francês. As virtudes da offensive à outrance, a qualquer custo, tornaram-se dogma.
O Plano XVII pertence a uma seqüência de planos ofensivos, precedida por outra de seis planos defensivos, elaborados entre 1875 e 1881, o que dá uma idéia da evolução do pensamento estratégico francês. Votado a 18 de abril de 1914, continha pouco mais que uma declaração de princípios, afirmando ser intenção do Comando, em quaisquer circunstâncias, avançar e atacar os exércitos alemães. A retomada da Alsácia-Lorena, assinale-se, estava subjacente ao planejamento.
O general Franz Graf Conrad von Hotzendorf (1852-1925), chefe do Estado-Maior do Exército Austro-Húngaro, lançou-se à guerra para destruir a Sérvia como nação independente, sem se dar conta de quão despreparado estava seu exército. Como (fraca) atenuante diz-se ter sido ele induzido em erro pela [pag. 330]
[pag. 331]
garantia do colega alemão, Moltke, o Moço, de que a guerra no Ocidente estaria terminada antes que o Império Russo completasse a mobilização. Moltke deu a garantia, até porque lhe interessava que os russos tivessem de combater em duas frentes, na Prússia Oriental e na Galícia, contra a Áustria.
FASES E TEATROS DE OPERAÇÕES
A Grande Guerra alastrou-se por 28 países, entre eles o Brasil, e além de operações terrestres, envolveu operações navais e aéreas. Travou-se em seis frentes ou teatros de operação (TO) terrestres, dois principais e quatro secundários. As duas principais foram a Frente Ocidental, compreendendo o território invadido da França e da Bélgica, do mar do Norte à fronteira da França com a Suíça; e a Frente Oriental, que abrangia os territórios russos, poloneses e a Prússia Oriental, então território alemão. Em 1915 a Itália entrou na guerra ao lado dos Aliados, criando-se a Frente Italiana, na fronteira com a Áustria-Hungria. As frentes secundárias estendiam-se pelos Bálcãs, o Oriente Médio e a região de fronteiras do Império Turco-Otomano com a Rússia.
Na Frente Ocidental começaram e desenvolveram-se as operações de vulto e nela se decidiu a guerra. É defensável, até por economia de espaço e tempo, que a memória de 1914-18 se concentre na Frente Ocidental, a despeito das críticas ao que se considera o “afrancesamento” da Grande Guerra. Considerados a atitude estratégica dos contendores e o quadro geral das operações na Frente Ocidental, a guerra de 1914-18 pode ser dividida em duas fases principais:
• 1a Fase (agosto a novembro de 1914): Guerra de Movimento.
• 2ª Fase (1915 a 1918): Guerra de Posição e Batalhas Finais.
1ª FASE: GUERRA DE MOVIMENTO
A Guerra de Movimento começa em agosto, com a invasão de Luxemburgo e da Bélgica pela Alemanha, e termina em fins de dezembro de 1914, com primeira Batalha do Marne e Corrida para o mar. A 3 de agosto, desabou sobre a Bélgica o furor teutônico: Comandante Superior do Exército, o general Moltke, o Moço, e comandante do I Exército, na ala direita, o general Alexandre von Kluck (1846-1934). [pag. 332]
Sob a liderança de seu bravo rei Alberto I, não apenas o exército, mas todo o povo belga resistiu à invasão. Atiradores fustigavam os alemães por toda parte, e estes empregaram a artilharia pesada, os gigantescos morteiros de 420 mm, para neutralizar resistências. Bombardearam cidades e aldeias, do que resultou grande número de civis mortos, feridos e desabrigados. Não atingido o objetivo, tomaram e fuzilaram reféns. Procedimento brutal, reconheceu Moltke em carta ao general Von Hötzendorf; “mas estamos lutando por nossa sobrevivência e todos quantos se oponham em nosso caminho terão de sofrer as conseqüências”, justificou.
Durante a Grande Guerra surgiu a propaganda sistematizada, à qual a conduta dos alemães na Bélgica forneceu excelente base. “Nas modernas condições da guerra, o ódio tornou-se tão essencial como a munição, e o ódio é manufaturado”, escreveu o historiador americano John Truslow.3
A propaganda não recua ante a mentira e a crueldade, e não raro chega ao ridículo. As divergências com os franceses sobre a Guerra do Iraque (2003), por exemplo, levaram alguns americanos a excessos de patriotismo, como propor que as french fries, as apátridas batatas fritas, passassem a ser chamadas liberty fries. A idéia não é exatamente nova: na Primeira Guerra Mundial, antepassados desses patriotas extremados apedrejaram cãezinhos Dachshund, cujo corpo lembra a salsicha, iguaria especialmente cara aos alemães, e os crismaram de liberty pups; por motivos semelhantes, o chucrute — o Sauerkraut — virou liberty cabage — repolho da liberdade. Aliás, Kraut era outro apelido insultuoso, suplementar ao boche, para designar o alemão. A propaganda na Grande Guerra foi administrada com rara competência pelos Aliados e combatida com rara inépcia pelos alemães.
Dominada a área fortificada da fronteira, os exércitos alemães prosseguiram pela Bélgica e pelo norte da França até as proximidades de Paris. Sempre previdentes — e, no caso, excessivamente otimistas —, os alemães cunharam uma medalha, com o as imagens do Arco do Triunfo e da Torre Eiffel, e a legenda que recordava a Guerra Franco-Prussiana: “1871-1914 — Entrada das tropas alemãs em Paris”.
No sul, a 14 de agosto de 1914, os exércitos franceses cruzaram a fronteira na direção de Sarreburgo. Os alemães recuaram, e passaram à contra-ofensiva. Foi a chamada Batalha das Fronteiras, um desastre francês. Mas os alemães não conseguiram com suas duas alas fechar a pinça que representaria o êxito do Plano Schlieffen. “Uma batalha perdida é uma batalha que se acredita ter perdido”, diria o general Foch, citando Joseph de Maistre. O soldado francês provou não se tratar apenas de uma frase. Nunca se considerou batido, conservou o élan, atributo que lhe ensinaram ser seu. O mesmo aconteceu com a Força Expedicionária Britânica, sob o comando do general Sir John [pag. 333] French (1852-1925). Franceses e britânicos mantiveram alto o moral. (Bem diferente do que sucedeu com os franceses em 1940.)
A 30 de agosto de 1914, o I Exército do general Von Kluck, com soldados exaustos por contínuas marchas, prosseguia no seu avanço para o sul, recalcando os Aliados. Em Paris, a proximidade dos alemães pôs a cidade em polvorosa. O presidente Poincaré e seus ministros transferiram-se para Bordéus, e os parisienses compuseram músicas ridicularizando a fuga do governo. O general Joseph Gallieni (1849-1916), um sexagenário de vigor e determinação invejáveis, foi nomeado governador militar da cidade, com a missão de defendê-la à outrance, deixando-a em ruínas, se necessário.
O I Exército deveria envolver Paris por oeste, mas a 30 de agosto o general Von Kluck, acreditando que a Força Expedicionária Britânica não mais representava ameaça, tomou a iniciativa de infletir para sudeste, em direção ao rio Marne; atravessou-o, e prosseguiu, com o propósito de travar a batalha decisiva, que destruiria os exércitos franceses. A decisão de Von Kluck é muito discutida.
Em 3 de setembro, um solitário avião de reconhecimento aliado confirmou informações sobre a mudança de direção de Von Kluck. Gallieni persuadiu Joffre a montar uma operação de maior vulto sobre o flanco exposto do inimigo, com a participação dos britânicos do marechal de campo Sir John French. Da ação participaria a 7— Divisão de Infantaria francesa, que, transportada por estrada de ferro, chegara a um ponto a 50 km da área de emprego, mas que não podia ir adiante por falta de capacidade da ferrovia. O visitante do Museu dos Inválidos pode ver um dos 600 famosos táxis parisienses utilizados por Gallieni, entre 6 e 7 de setembro de 1914, para transportar 4 mil homens daquela tropa para o front. Orgulhosos do feito, os taxistas diriam: “Cumprimos o nosso dever!” E não cobraram a corrida.
Joffre desfechou o contra-ataque, Moltke deu ordem para romper o combate e os alemães retiraram-se para o corte do rio Aisne. Paris foi salva, o Plano Schlieffen desfez-se, Moltke, o Moço, foi substituído pelo general Erich von Falkenhayn (1861-1922). Os franceses falam no “milagre do Marne”. Acabaram os sonhos de uma guerra curta. Substituiu-os a realidade das trincheiras.
Na Frente Oriental, o exército czarista surpreendeu pela rapidez da mobilização. Os generais russos Von Rennekampf e Samsonov puseram em apuros o VIII Exército, do general Von Prittwitz. Prittwitz telefona para o QG alemão em Coblença, e anuncia intenção de retrair para a linha do rio Vístula. Moltke o substitui pelo general Hindenburg, que passa a ter como chefe de Estado-Maior o general Ludendorff. [pag. 334]
Os generais Paul von Beneckendorf e Von Hindenburg (1847-1934), um junker, nobre prussiano, e Erich Ludendorff (1865-1937), oriundo de família burguesa, não se conheciam, mas durante quase todo o resto da guerra constituíram um binômio de excelência. Ludendorff fornecia a competência, Hindenburg o prestígio. Com eles serviu o coronel Hoffmann, figura singular de oficial de Estado-Maior, em que raro talento militar convivia com também raro senso de humor, espírito crítico e irreverência. Deixou memórias da guerra, e dele o escritor inglês Godspeed conta passagens deliciosas na sua excelente biografia de Ludendorff.4
Os alemães tinham melhor comando, melhor tropa e melhor serviço de escuta telefônica, interceptando comunicações que os russos transmitiam sem codificação. Seguiram-se as devastadoras derrotas russas nas batalhas de Tannenberg e Lagos Masurianos. Os russos tiveram 300 mil baixas e perderam 650 canhões, parâmetros à época usados para medir o vulto de uma batalha. Hindenburgo e Ludendorff foram condecorados com a Cruz de Ferro e festejados como heróis na Alemanha imperial. Hoffmann comentaria: “Desde que soube que Hindenburg venceu a batalha de Tannenberg, deixei de acreditar em Aníbal e César.” A 1º de novembro de 1917, o Império Turco-Otomano entrou na guerra ao lado dos Impérios Centrais.
2a FASE: GUERRA DE POSIÇÃO E BATALHAS FINAIS
A fracassada ofensiva franco-britânica em Artois, em junho de 1915, marca o início da Guerra de Posição; a vitória aliada na Batalha de Amiens, em agosto de 1918, é seu fim.
Nos últimos meses de 1915, do mar do Norte à fronteira suíça, numa linha geral de 800 km, de Ostende-Ypern-Lille-Soissons-Reims-Verdun-Nancy-Belford, a Frente Ocidental está estabilizada. Os dois lados cavam trincheiras, para passar o inverno, até que a chegada da primavera permitisse retomar a guerra de movimento. As trincheiras ficaram por três anos, até o fim, marca inesquecível da Grande Guerra. Os que viveram nelas se foram, mas suas provações estão registradas nas cartas de combatentes, na literatura, no cinema. A presença constante da morte, do ferimento, do gás tóxico, do medo, enfim, coexistia com a miséria da lama, dos piolhos, dos ratos, da imundície.
À frente a “terra de ninguém”, termo cunhado durante a Grande Guerra, 500, 200 m de terreno, às vezes apenas 50. Os combatentes vão melhorando [pag. 335] suas trincheiras, aumentando-lhes a capacidade de defesa com sacos de areia, redes de arame farpado onde penduram latas para alertar sobre a presença inimiga, posições de tiro e de escuta, sapas para ligação com a retaguarda, nichos laterais para abrigarem-se durante os bombardeios, depósitos de munição. Ao mesmo tempo, minoram-lhes as miseráveis condições de habitabilidade. Os franceses chamavam os habitantes dessas cavernas de poilus, peludos, se compatriotas seus; se alemães, continuavam a ser os prussianos, os boches, os hunos, os krauts.
O auge da provação na vida nas trincheiras não era atingido durante os bombardeios de artilharia, quando sempre presente estava o medo de ser estraçalhado pelos estilhaços de uma granada, morto pela concussão de seu arrebentamento ou, pior ainda, soterrado. Grande número dos listados como desaparecidos está nesse caso. Mais angustiante ainda era a hora da verdade, anunciada pelo comando “over the top” (para cima!). Equipamento ajustado, baioneta calada, o soldado transpõe o parapeito da trincheira e, seguindo seu comandante, se lança em direção à do inimigo, sob o fogo de canhões, metralhadoras e granadas de mão, até o assalto final. Então, é a hora da baioneta, da faca e da pá de trincheira, de tudo o que possa matar, ferir, eliminar o inimigo.
Complemento à trincheira era a patrulha, lançada na “terra de ninguém”, para colher informações sobre o inimigo, se possível trazer alguns prisioneiros. Diferente da patrulha era a incursão, de efetivo e armamento mais pesado, com a missão de causar danos ao inimigo, destruindo depósitos, posições de armas, desviando-lhe a atenção de ataque em outro lugar. As trincheiras também existiram, durante certos períodos, nas frentes oriental e ítalo-austríaca, nos Alpes.
Ofensivas dos dois lados sucedem-se e fracassam. Fracassa, também, uma operação contra a península de Galipoli, visando ao domínio do estreito de Dardanelos, pertencente ao Império Turco-Otomano. Galipoli, com seu meio milhão de mortos, “uma das maiores tragédias da história”, foi projeto do então jovem Primeiro Lorde do Almirantado, Winston Churchill (1874-1965), monumentalmente mal executado. Churchill manteve com o almirante John Arbutnot Fisher (1841-1920), Primeiro Lorde do mar, uma relação de amor e ódio. Fischer demitiu-se por não concordar com a operação dos Dardanelos, depois de ter se associado a Churchill na modernização da esquadra. Fisher era chamado de Oil Maniac (maníaco por óleo), tal era seu empenho em substituir o carvão por óleo combustível na propulsão de navios da esquadra, conversão retardada pela escassez das fontes de petróleo. Escassez que contribuiu para [pag. 336]
[pag. 337]
que a Grã-Bretanha, em 1913, assinasse um tratado com a Pérsia e, em 1916, invadisse a Mesopotâmia, em busca do petróleo.
Em fevereiro de 1916, o chefe do Estado-Maior alemão e do Comando Supremo do Exército, general Von Falkehayn, numa ofensiva com gigantesco apoio de artilharia, pretendeu literalmente sangrar o Exército Francês, por meio de um ataque ao bastião fortificado Verdun. A batalha de aniquilamento preconizada por Clausewitz e buscada por Schlieffen falhara; Von Falkenhayn não teria melhor resultado com a batalha de atrito. Alarmado, o governo francês confiou ao general Pétain a defesa de Verdun. Os números da batalha são imponentes: 22 milhões de granadas de artilharia alemãs (cerca de 150 mil por dias), e 21 milhões de francesas. Fotografias mostram a devastação completa causada pela batalha, numa era em que aviação ainda não suplantava a artilharia na capacidade de destruir.
O fracasso em Verdun levou Guilherme II a substituir Von Falkenhayn como chefe de Estado-Maior por Von Hindenburg, acompanhado por Ludendorff, em agosto de 1916. Ludendorff, além de ser o comandante supremo do Exército de fato, dirige o esforço de guerra, constituindo-se em virtual ditador da Alemanha. Nem toda a mortandade e destruição fez com que algum dos lados se interessasse pela paz. Não por “uma paz sem vitória”, como propôs o presidente Wilson, em janeiro de 1917, falando no Senado dos Estados Unidos.
Os alemães, em fevereiro de 1917, decretaram a guerra submarina irrestrita. A propaganda adversa reforça a figura do bárbaro, o vândalo, o huno, o boche. Para piorar a imagem da Alemanha, vem a público o telegrama Zimmerman, em que o Ministério do Exterior alemão transmite ao governo do México o oferecimento de ajuda militar em caso de guerra com os Estados Unidos. Os alemães, excelentes soldados no campo de batalha, davam novas demonstrações de nenhum respeito pela célebre máxima de Clausewitz, sobre ser a guerra a continuação da política por outros meios.
Uma figura extraordinária de político francês volta à chefia do governo, Georges Clemenceau. Aos 74 anos, atesta a energia que lhe vale a alcunha de “o Tigre” e, ao fim da guerra, “Pai da Vitória”. O corpo sólido metido em roupas folgadas, nada elegantes, o rosto ocupado por viçosos bigodes caídos, às vezes apoiado num cajado, na cabeça um improvável barrete frígio, o “barrete de Mariane”, personificação da França republicana, ele freqüentemente percorre o front. Os soldados logo perceberam que essas visitas são para ver, informar-se, falar, enfim, fazer a guerra, como diz. De Clemenceau é a frase: “A guerra é assunto demasiado sério para ser confiado só a generais”. [pag. 338]
Na frente italiana, em outubro de 1917, em Caporetto, os austríacos derrotam o general Luigi Cadorna (1850-1928), forçando seu exército a um recuo de 100 km. Trezentos mil italianos são feitos prisioneiros e cem mil desertam.
Em novembro de 1917, triunfa a revolução em São Petersburgo, os bolcheviques iniciam negociações de paz e, a 3 de março de 1918, Lenin assina o Tratado de Brest-Litovsk, celebrando a paz com os Impérios Centrais. Aliviados do fardo de lutar em duas frentes, os alemães transferem setenta divisões para o Ocidente.
Os incentivos para tentar uma vitória decisiva sobre franceses e britânicos antes da chegada em força dos americanos eram grandes, apesar de o almirante Von Capelle, secretário de Estado para a Marinha, ter declarado perante o Reichstag, em janeiro de 1917, que os americanos não chegariam ao continente, pois seriam afundados pelos submarinos alemães. Chegaram, e nenhum transporte de tropa foi afundado. Em março de 1918, mais de 300 mil e, em agosto, mais de 1 milhão de americanos, sob o comando do general John Pershing (1860-1948), estavam na Europa e muitos mais eram preparados nos Estados Unidos. Tropas frescas, de homens bem treinados, bem equipados e com um apoio logístico que nem os alemães nem Aliados haviam visto.
Os Aliados poderiam ter adotado uma defensiva estratégica, poupando homens e material, até que a massa de soldados e de equipamento dos Estados Unidos fosse despejada na Frente Ocidental. Preferiram continuar cultivando a ofensiva, para decidir a guerra antes da chegada em força dos americanos, que adquiririam condições para ditar a paz.
Em julho de 1917, numa seqüência de batalhas conhecidas como a Terceira Batalha de Ypres, os Aliados atacam com o apoio de 2 mil peças de artilharia, 500 carros de combate e 1.200 aviões. Retomam terreno, mas a vitória não é decisiva. Os generais Foch e Haig preparam novo golpe, que esperam seja decisivo. Não foi. As batalhas sucediam-se, máquinas de moer carne, sempre com perdas de seis dígitos e pouco ou nenhum ganho de terreno ou estratégico.
Na madrugada de 8 de agosto de 1918, 2 mil peças de artilharia desencadearam o tiro de contra-bateria e de neutralização das posições alemãs, seguido de uma barragem rolante à frente dos tanques e da infantaria atacante. Começava a Batalha de Amiens. Os Aliados rompem a frente alemã e chegam as proximidades da Linha Hindenburg. A 15 de agosto a batalha foi dada por terminada e feito o balanço das baixas. Os alemães perderam 75 mil homens, os franceses, 24 mil e os britânicos, 22 mil. Ao rompimento da posição alemã deveria ter se seguido o aproveitamento do êxito, operação que os Aliados [pag. 339] deixaram de executar por falta de meios. Tal falta de meios para explorar a ruptura foi uma constante nas batalhas da Frente Ocidental. Mesmo sem a exploração do êxito, a vitória aliada em Amiens foi devastadora para os alemães. Ludendorff chamou o 8 de agosto de 1918 o “dia negro” do Exército Alemão. “A guerra deve terminar”, afirmou o general.5
As Potências Centrais desmoronam, mas continuam a lutar. Em setembro, a Bulgária capitula, e em outubro é a vez do Império Turco-Otomano. Em fins de outubro Ludendorff recomenda ao imperador o pedido de armistício e pede demissão. Os marinheiros da frota de Kiel se rebelam. A 9 de novembro, revolução em Berlim. Guilherme II abdica, exila-se na Holanda neutra e a república é proclamada na Alemanha. A 11 de novembro de 1918, depois de 52 semanas de guerra, o armistício é assinado em Rothonde, num vagão, na floresta de Compiègne. O mesmo vagão, o mesmo lugar onde, em 1940, a França e a Alemanha assinariam um segundo armistício, pondo fim à guerra entre os dois países.
GUERRA NO AR E NO MAR
Roland Garros, piloto francês que hoje dá nome a um torneio de tênis, fez a primeira tentativa, e o holandês Anthony Fokker, trabalhando para a Alemanha, projetou uma metralhadora sincronizada com o hélice. Seguem-se os combates aéreos e os azes, título adquirido com um mínimo de aviões abatidos: cinco para os franceses, dez para os alemães. Os cavaleiros alados batem-se bravamente, cercados de uma aura de romantismo, tornados famosos, celebrados pelo público. René Fonk, francês, 75; Mannock, britânico, 73; Bishop, canadense, 72; o americano Eddie Rickenbacker, com 26. E o maior de todos, Manfred von Richthofen, o barão Vermelho (cor do seu avião), com o recorde de 80 aviões derrubados. Afinal abatido na Batalha do Somme, em 1916, mais de cem aviadores aliados compareceram ao seu enterro. Os britânicos lançaram sobre as linhas alemãs um container com uma foto do funeral e a mensagem que diz bem de um capítulo romântico da guerra nos ares: “O Rittmeister6 barão Manfred von Richthofen, do Corpo Aéreo Alemão, foi morto em combate aéreo a 21 de abril de 1918. Foi enterrado com todas as honras militares. Da Força Aérea Real Britânica.”
Os alemães utilizaram os dirigíveis zepelim, nome do seu inventor, Ferdinand Graf von Zeppelin (1838-1917), para o bombardeio de longo alcance. No princípio da guerra, Antuérpia e Varsóvia, e depois as cidades costeiras da Inglaterra, foram atacadas por zepelins. O Royal Flying Corps e o Royal Navy [pag. 340] Air Service deram origem à RAF, a Royal Air Force, em 1918. O emprego da aviação foi-se ampliando: ajustagem do tiro, fotografia aérea, metralhamento e bombardeio em apoio às forças terrestres, bombardeio de cidades.
A 31 de maio de 1916 travou-se a Batalha da Jutlândia, a oeste da costa dinamarquesa. A esquadra alemã perdeu mais navios que a britânica e se tornou uma esquadra em potencial, imobilizada em sua base de Wilhemshaven, valendo na medida em que exigia ser vigiada. Sobre o comandante britânico, almirante Jellicoe, disse Churchill: “Foi o único homem, dos dois lados, que poderia perder a guerra numa tarde”.
Comandantes navais britânicos e alemães contribuíram para a história da guerra nos mares com episódios fascinantes.7 Os britânicos utilizaram navios artilhados e camuflados como velhos cargueiros, os navios Q, para atrair e destruir submarinos. Os alemães empregaram navios que percorriam os mares afundando barcos mercantes aliados, e dando às suas tripulações e passageiros tratamento de cruzeiro turístico, o que os tornou lendários na crônica dos feitos marítimos. Um desses corsários, o See Adler, sob o comando do capitão Felix Graf von Luckner, aprisionou o vapor britânico Horngarth ao largo da costa do Brasil, dele retirando centenas de garrafas de champanhe Veuve Cliquot, para regalo de seus hóspedes forçados, requinte à cozinha francesa que lhes servia.
A Alemanha investiu enormes somas na construção de sua Esquadra de Alto-mar, imobilizada em Wilhelmshaven. Teria feito melhor concentrando-se numa força submarina? Os recursos tecnológicos dos submarinos nem de perto aproximavam-se dos existentes na Segunda Guerra Mundial, e suas bases no Atlântico reduziam-se a duas — Ostende e Zeebruge, na Bélgica ocupada. Ainda, assim, ao fim da guerra, 5.234 navios afundados por submarinos alemães jaziam no fundo dos mares; com eles, 178 U-Boote (Unterseeboote — submarinos) e suas guarnições, exclusivamente de voluntários, que nunca faltaram. Na Segunda Guerra Mundial, a Alemanha insistiu nos navios de superfície, e seus modernos “couraçados de bolso” foram rapidamente neutralizados pela Royal Navy e pela RAF, como aconteceu com o Admiral Graf Spee ao largo de Montevidéu.
O BRASIL NA GUERRA
Em 1914, os Estados Unidos já eram a maior potência econômica mundial e maior parceiro comercial do Brasil, permanecendo os britânicos como grandes [pag. 341] investidores em estradas de ferro, usinas elétricas e indústria manufatureira. O bloqueio britânico redundou na perda da Alemanha como parceiro comercial, e a campanha submarina alemã tornou perigosas as águas da Europa, onde aconteceram quase todos os torpedeamentos de navios brasileiros. Ainda mais a construção de estradas de ferro foi interrompida e a taxa cambial caiu. Como contrapartida, a substituição de importações deu lugar ao nascimento de uma indústria de manufaturados.
As elites brasileiras, como as de toda a América do Sul, buscavam na França a literatura e a formação artística. Da Europa vinham, também, a manteiga e a moda, ternos e camisas feitos em Londres, por intermédio de representantes no Brasil. Na Vila Militar, no Rio de Janeiro, até hoje se podem ver as estruturas de metal e as telhas de ardósia vindas da França. Em Paris, sul-americanos ricos encontravam tudo, principalmente alegrias que nenhuma outra cidade pode dar iguais.
O café respondia por mais de 60% de nossas exportações, seguido de longe por minerais e produtos diversos. A economia brasileira estava bem à retaguarda da argentina. A opinião pública nacional recebeu bem a neutralidade proclamada pelo governo e nos primeiros anos da guerra não mostrou inclinação em favor de qualquer dos contendores. O jornalista Sidney Garambone8 acompanha a evolução do humor dos jornais do Rio de Janeiro, durante a Grande Guerra: de um neutralismo desinteressado para o alinhamento com os Estados Unidos.
Em 3 de abril de 1917, um navio mercante americano é torpedeado e os Estados Unidos rompem relações diplomáticas com a Alemanha. Nesse mesmo dia, outro navio mercante, este brasileiro, é torpedeado no canal da Mancha. Uma semana depois, o presidente Wenceslau Braz rompeu relações com a Alemanha, em solidariedade aos Estados Unidos e com fundamento na Doutrina de Monroe.9 Mais navios brasileiros são torpedeados, e em outubro é a vez do Macau, afundado ao largo da costa francesa. A indignação dos jornais e da opinião publica cresce. A 26 de outubro de 1917, o Congresso brasileiro decreta e o presidente sanciona resolução proclamando a existência de um estado de guerra entre o Brasil e o Império Alemão. Santos Dumont, o Pai da Aviação, vai ao Palácio do Catete, sede do governo, oferecer seus conhecimentos profissionais e serviços.10 Em 1918, mais dois navios brasileiros são torpedeados nas costas da Europa.
A participação brasileira na guerra, modesta que foi, estendeu-se além da facilitação do uso de nossos portos por embarcações aliadas e a cessão à França de 30 navios alemães apreendidos. A 7 de maio de 1918, zarpou para Gibraltar, onde se reuniria à esquadra britânica, para participar da guerra anti-submarina, [pag. 342] a Divisão Naval de Operações de Guerra, composta de dois cruzadores e cinco contratorpedeiros, um navio auxiliar e um rebocador, sob o comando do contra-almirante Pedro Max Fernando de Frontin. A Divisão só chegou a Gibraltar em novembro de 1918, retida que foi na costa africana pela terrível pandemia que foi a gripe espanhola.
Aviadores brasileiros combateram ao lado dos pilotos britânicos e franceses. Oficiais do Exército serviram na Frente Ocidental, em unidades do Exército Francês. Um deles, o tenente José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, como general, foi o grande reformador da Escola Militar de Realengo, criador da mística do cadete de Caxias. 11 Oitenta e seis médicos, incluindo dezessete professores de Medicina, quase todos civis, comissionados oficiais, integraram a Missão Médica que partiu do Brasil a 18 de agosto de 1918 e até o fim da guerra trabalhou no hospital Franco-Brasileiro, mantido pelos brasileiros residentes em Paris.
O Brasil participou da Conferência de Paz, foi signatário do Tratado de Versalhes, membro da Liga das Nações e pretendeu ocupar uma vaga em seu Conselho de Segurança, pretensão que lhe foi negada. Antes mesmo de terminar, a Grande Guerra influenciou o Brasil no campo militar. O poeta, escritor e jornalista Olavo Bilac despertou o sentimento cívico e patriótico nacional, liderando a campanha que resultou na instituição do serviço militar obrigatório.
No governo do marechal Hermes da Fonseca, oficiais brasileiros, à semelhança de oficiais de outros exércitos, como o argentino e o chileno, foram mandados estagiar no Exército Alemão. Quando se levantou a hipótese de uma missão militar de instrução, a opção pelos alemães estava sobre a mesa. A vitória na Grande Guerra foi decisiva para a contratação da Missão Francesa. “Antes” e “depois” da Missão, diz-se, evidenciando seu marcante papel na modernização do Exército.
Em tempo de guerra, o patriotismo virulento e a xenofobia prosperam; e, com eles, a síndrome do espião. Na Europa e nos Estados Unidos, inocentes foram presos e espancados, por mera suspeita de espionagem. No Brasil, cartazes com tipos caricaturados por Raul, o Caruso da época, difundidos pelo governo eram severos: “Alerta! Palavras do Chefe da Nação: Estejam todas as atenções alerta aos manejos da espionagem, que é multiforme. Emmudeçam todas as boccas quando se tratar de interesse nacional.” (sic)
Monteiro Lobato (1882-1948), de sua promotoria em Areias, em 1916, glosou a onda de paranóia que saltou da Europa para os Estados Unidos e respingou nessa longínqua parte das Américas. No seu delicioso conto O espião [pag. 343] alemão, o personagem é identificado e detido pelos patrióticos moradores de Itaóca, uma Tarascon do vale do Paraíba. Uma escolta de bravos itaoquenses leva-o para o Rio de Janeiro, onde seria encontrado tradutor para a frase repetida pelo espião alemão: “Ai éme inglix”. Frase denunciadora, não entendida pelo monsenhor Acácio, por se tratar de “alemão turíngio da baixa germanidade valona”, como explicou o douto prelado. 12 E o conto vai mais longe.