História das Guerras

Demétrio Magnoli · Capítulo 21 de 29

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História das Guerras

Segunda Guerra Mundial

 

Pedro Tota

 

Ao final da famosa Batalha de Stalingrado, travada entre 1942 e início de 1943, os alemães perderam cerca de 2 mil tanques, mais de 2 mil aviões, 10 mil canhões e 70 mil veículos motorizados.

Na Batalha de Kursk, travada em meados de 1943, os alemães pretendiam retomar a iniciativa perdida em Stalingrado, em fevereiro. O ataque preparado contava com uma força de 900 mil soldados, 2.700 tanques e cerca de 1.800 aviões.

Em 13 de fevereiro de 1945, já no final da guerra, em pleno inverno europeu, a temperatura subiu bastante em Dresden, cidade alemã situada às margens do rio Elba, próxima à fronteira tcheca. 873 bombardeiros da RAF (a Royal Air Force, Força Aérea Britânica) despejaram milhares de bombas incendiárias sobre a cidade. No dia seguinte foi a vez de mais de 500 B-17 da United States Army Air Force (a USAAF, Força Aérea do Exército Americano). Ao todo, foram mais de 1.300 aviões despejando toneladas de bombas que mataram, segundo uma testemunha alemã, quase 200 mil pessoas, a maioria calcinada por ventos e chamas de 500 graus centígrados.

Em um livro especializado da História da Segunda Guerra Mundial estão registrados os números de aviões produzidos pelos Estados Unidos entre 1940 e 1945. Das fábricas da Boeing, da Ford, da General Motors, da Martin, da Douglas, da Nordi American, da Lockheed, da Courtiss, da Bell, da Grumman, espalhadas pelo território americano, saíram 304.887 aviões. Na mesma época, os alemães produziram 109.601 aeronaves. [pag. 355]

Os números, não exatamente frios, indicam a capacidade de mobilização material e humana para o maior conflito da história da humanidade. A isso chamamos de guerra total.

Na Guerra da Secessão (1861-65), a maior guerra civil de que se tem notícia, já havia sido aplicado o princípio de guerra total (veja o capítulo “Guerra de Secessão”). Para o general Sherman, um dos grandes líderes militares das forças da União, a guerra total significava que qualquer indivíduo do outro lado devia ser considerado um combatente, e não uma simples pessoa. Qualquer meio para se fazer a guerra devia ser considerado legítimo. Por exemplo, no Mississipi, ele elaborou uma diretiva que pode ser resumida da seguinte forma: para cada barco da União atingido eram escolhidas dez famílias por sorteio. Essas famílias tinham de abandonar suas casas e propriedades e entregá-las ao exército do Norte. Cidades que porventura tivessem mostrado alguma simpatia pela causa rebelde eram destruídas. A destruição da cidade de Atlanta, no estado da Geórgia, pode ser considerada o ponto alto da teoria da guerra total.

A Segunda Guerra Mundial foi uma guerra total no sentido lato da palavra. A política nazista de destruição dos judeus (a “solução final”) contava com sofisticada organização de busca, seleção, transporte, concentração e assassinato nos campos de extermínio (o chamado Holocausto), para onde também foram enviados ciganos, oposicionistas e até prisioneiros de guerra. Já em 1945, os americanos jogaram bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, ameaçando o mundo com nova tecnologia de morte em massa. Essa foi a guerra total no último conflito mundial. Daí a mobilização de recursos simplesmente fabulosos.

A imensa capacidade industrial dos Estados Unidos, considerado “o arsenal da democracia”, foi percebida pelo almirante Yamamoto, o mais importante estrategista naval do Japão. Ele conhecia bem os Estados Unidos e disse, logo depois do ataque a Pearl Harbor: “Podemos crescer sem freios por seis meses a um ano mas, depois disso, os poços de petróleo do Texas e as fábricas de Detroit darão os meios para uma contra-ofensiva irresistível dos americanos no Pacífico”.1

A Segunda Guerra, por sua mobilização e por sua crueldade, foi única na história da humanidade. Mas foi também uma guerra que proporcionou a união de antigos inimigos figadais. A grande aliança formada pela União Soviética, de regime socialista, com a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, estados capitalistas, liberais e anticomunistas, só foi possível porque a Alemanha não [pag. 356] era tão-somente um opositor que encarnasse conflitos de interesse econômicos, mas um Estado cuja política e ambições eram determinadas por sua ideologia.

A Segunda Guerra Mundial teve como característica determinante o fato de que os países em conflitos visavam pretensões ilimitadas. Em outras palavras, tinham como objetivo a submissão absoluta do adversário. Se na Primeira Guerra Mundial o objetivo das nações em combate era a derrota do inimigo no campo de batalha e a imposição de condições de paz, isso não era exatamente válido para a Segunda Guerra Mundial. A Alemanha de Hitler, por exemplo, pretendia dominar a Europa e transformar os países do Ocidente em estados vassalos. O plano nazista para o lado oriental era reduzir a União Soviética à condição de colônia e transformar sua população em serviçais dos “senhores” germânicos. Do lado dos Aliados, isto é, da Grã-Bretanha, Estados Unidos e União Soviética, os objetivos não eram limitados: só a rendição incondicional é que valeria. Não se aceitaria uma paz negociada, não haveria condições. O inimigo seria combatido até a última bala.

Por tudo isso, tanto um lado como o outro estavam destinados a lutar até o fim, empregando o máximo das suas forças. Por tudo isso, também, o máximo de recursos precisavam ser mobilizados para a guerra. A centralização e a conseqüente planificação da economia tinham como único objetivo a produção para repor as necessidades militares. De gigantescos porta-aviões aos próprios aviões, do simples pneu à complicada peça de um radiotransmissor. Do revólver ao grande canhão de 120 mm. Tudo era feito em massa, em série. E também destruído em massa. Destruição em massa não só material, mas também humana. Pesquisas recentes apontam que só na União Soviética o número de mortos é muito maior do que os 20 milhões anunciados oficialmente.

Guerra de massas que mobilizou milhões de combatentes e trabalhadores. Em 1933, no auge da crise econômica, os Estados Unidos tinham quase 15 milhões de desempregados. Dez anos depois, isto é, em plena guerra, não havia praticamente nenhum americano fora das fábricas ou dos campos de cultivo. Todos os países mobilizaram 20% da população masculina para os combates ou atividades diretamente ligadas às questões militares. A Alemanha não teve problemas morais em usar mão-de-obra escrava de prisioneiros. Os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a União Soviética usaram a mão-de-obra feminina na produção para suprir a falta de operários que haviam se transformado em soldados.

Esse esforço de guerra exigiu o máximo de criatividade no sentido de aumentar a eficiência produtiva. Por isso, os métodos de produção e engenharia [pag. 357] mecânica tiveram notáveis avanços, que foram úteis depois para os tempos de paz. Ganhou a guerra quem venceu a batalha da produção.

 

ORIGENS DA SEGUNDA GUERRA

 

A Primeira Guerra Mundial terminou em novembro de 1918, quando os alemães finalmente reconheceram a inutilidade de qualquer tentativa de vencer as forças aliadas (França, Grã-Bretanha, Itália e Estados Unidos). A Alemanha estava arruinada, com suas fábricas paralisadas, as cidades tomadas por soldados e operários insuflados pela revolução e o exército em retirada. Na Rússia, a Revolução havia derrubado uma monarquia secular e estabelecido um governo comunista num país literalmente arruinado pela guerra e pela pobreza. O fantasma do comunismo estava assustando o mundo.

O mapa da Europa havia mudado. Pelos acordos firmados em 1919, surgiram novos países: Polônia, Tchecoslováquia, Áustria, Hungria, países bálticos. Mas o centro determinante da política européia era realmente a Alemanha. Com a criação da Tchecoslováquia, por exemplo, a Alemanha perdeu parte de seu território e mais de 3 milhões de habitantes. O mesmo se deu com a Polônia, que se formou dividindo o território alemão pelo famoso “corredor polonês”. Os países vitoriosos encontraram-se e firmaram o célebre Tratado de Versalhes, que foi imposto à Alemanha. Pelo tratado, a Alemanha foi considerada a grande responsável pela guerra.

A Primeira Guerra Mundial não havia resolvido os problemas que a geraram. Entre 1919, ano da assinatura do Tratado de Versalhes, e 1925, quando foi assinado o Tratado de Locarno, uma ratificação do tratado de 1919, reinou uma calma aparente entre os países europeus. No entanto, a superfície de calmaria escondia tensões e contradições que começaram a aflorar ao longo da década de 1920. A Alemanha continuava insatisfeita.

Na União Soviética, Stalin conseguia, na época, dominar a fração política liderada por Trotski. Stalin entendia que o Tratado de Versalhes era, na verdade, uma simples trégua. A Alemanha, dizia ele, não podia continuar a suportar tamanhas limitações e condições aviltantes. A União Soviética era, de certa forma, um Estado marginalizado em relação aos outros países europeus. O mesmo pode-se dizer da Alemanha, pelo menos até 1925. Por isso, a Alemanha firmou acordos secretos com a União Soviética que permitiam à Wehrmacht (Forças Armadas alemãs) fazer testes com novos armamentos e treinar algumas [pag. 358] de suas unidades em território soviético — isso porque o Tratado de Versalhes proibia o rearmamento da Alemanha.

Os Estados Unidos haviam saído da guerra como o país vencedor. Vencedor no campo militar e vencedor, principalmente, no campo econômico. Como potência distante dos conflitos, o país pôde fornecer material bélico, alimentos e matérias-primas para os aliados europeus. Depois da guerra os americanos haviam acumulado riquezas fabulosas. Até a Crise da Bolsa de 1929, os americanos viveram numa euforia que fazia com que todos vissem os Estados Unidos como “modelo” a ser imitado. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos procuravam manter-se longe dos conflitos políticos europeus. Esse posicionamento ficou conhecido como isolacionismo.

O isolacionismo na política americana havia nascido depois de 1918. Os críticos americanos diziam que os Estados Unidos haviam entrado na guerra e oferecido o sangue de mais de 130 mil jovens só para enriquecer as grandes empresas. Nascia, no seio da sociedade americana, um forte pacifismo, compartilhado, por diferentes razões, tanto por intelectuais e críticos de esquerda quando por direitistas como o famoso piloto Charles Lindberg.

Quando Franklin Delano Roosevelt tomou posse, em 1933, a política externa americana ainda estava marcada pelo espírito de que os Estados Unidos nunca mais iriam se envolver nos problemas europeus. Por isso, entre 1935 e 1937, o Congresso americano aprovou a Lei de Neutralidade. Roosevelt, no entanto, conseguiu que as novas leis permitissem algum tipo de ajuda, em caso de guerra na Europa, aos países considerados amigos. Em setembro de 1939, quando a Segunda Guerra já havia começado, Roosevelt conseguiu resumir numa famosa frase a futura política americana com relação à Europa: “Esta nação permanecerá neutra, mas eu não posso exigir que todos os americanos tenham um posição de neutralidade também”.2 Era como se falasse dele mesmo.

Se os Estados Unidos pretendiam manter uma política de neutralidade, no Oriente o Japão começou a expandir-se em busca de matérias-primas para alimentar sua crescente industrialização. Por isso, podemos dizer que o primeiro tiro da Segunda Guerra Mundial foi desferido pelo Japão quando, em 1931, invadiu a China.

A Alemanha permaneceu, até 1933, aparentemente afastada das grandes questões européias. Em janeiro de 1933, Adolf Hitler, líder do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, subiu ao poder. O programa do Partido Nazista, como ficou conhecido o partido de Hitler, não escondia a idéia de [pag. 359] transformar a Alemanha numa potência militar e restaurar os tempos áureos do Império em que o país ditava, em grande parte, as regras na política européia.

Deutschland Erwash, ou “Alemanha Desperta!” Assim, os nazistas começaram a reconstruir a Alemanha. A Alemanha havia ficado paralisada entre 1919 e 1933, mas agora ela despertaria da letargia para mostrar a todos, sob a liderança do Führer, que era um país destinado a liderar o mundo. Gleichschautung, conceito de difícil tradução, deve ser entendido como coordenação de um Estado sob a autoridade total de um só líder. Foi dentro dessas perspectivas “filosóficas” que a ditadura se impôs e a Alemanha começou a reconstrução. Hitler havia, direta e indiretamente, recebido o apoio dos grandes conglomerados industriais. O rearmamento da Alemanha foi a base da sua reconstrução.

Assim que Hitler subiu ao poder, o patriarca da família Krupp percebeu a importância do projeto de governo dos nazistas. Reprimir os movimentos operários, ao mesmo tempo em que desenvolvia uma política de cooptação dos trabalhadores. Os nazistas iniciaram, secretamente, o rearmamento do Exército, a criação de uma força aérea e o reaparelhamento da Marinha. Não é coincidência que as grandes corporações ficassem satisfeitas com a ascensão dos nazistas. A Krupp e a Thyssen, grandes fabricantes de armas, por exemplo, passaram a receber encomendas lucrativas. Alguns números demonstram que, entre 1933 e l939, houve rápido crescimento na indústria de aviões de combate e no efetivo militar das Forças Armadas: em 1934 foram construídos 840 aviões; em 1936, 2.530; em 1938, 3.350 e, em 1939, 4.733. A produção bélica em geral havia aumentado mais de 22 vezes entre 1933 e 1940. Os efetivos das Forças Armadas também cresceram assustadoramente: de pouco mais de 100 mil soldados em 1933, para cerca de 3,8 milhões em 1939, ou seja, mais de 35 vezes.

Interessante notar que o mesmo fenômeno acontecia na Itália e no Japão. A Itália sob a ditadura de Benito Mussolini e o Japão sob os governos de ministros militaristas. Ambos os países, cada um a seu modo, modernizaram a indústria pesada e construíam armas, aviões e navios para suas respectivas Forças Armadas.

Embora continuasse a preparar a Alemanha para a guerra, Hitler dava todos os sinais de que era um novo líder em busca da paz européia: “Aquele que acender a chama da guerra na Europa não quererá outra coisa senão o caos. A Alemanha Nacional-Socialista deseja a paz em virtude de suas convicções. E também quer a paz porque nenhuma guerra seria essencialmente [pag. 360] adequada para alterar as angústia da Europa”.3 E dizia também que “como ex-combatentes, a maioria dos membros do NSDAP não desejam ver seus jovens morrerem na guerra”.4

No plano interno, isto é, para seus mais íntimos colaboradores ligados às Forças Armadas, Hitler apontava exatamente em direção oposta. Em 3 de fevereiro de 1933, fez um pronunciamento para o comando da Reichswehr: “[precisamos] conquistar um novo 5 Lebensraum no leste e germanizá-lo sem piedade”. Na verdade, já nos anos 20, quando Hitler começou sua carreira política e escreveu o conhecido livro Minha Luta, havia uma clara reivindicação, nos seus projetos, de mais territórios para acolher a população alemã. Para a ideologia nazista, os alemães, por serem uma raça superior, tinham o direito de conquistar o “espaço vital” (Lebensraum) destinado a acomodar os germânicos.

Em outubro de 1933, a Alemanha retirou-se da Liga das Nações, em 16 de março de 1935 foi introduzido no país o serviço militar compulsório com 550 mil conscritos. Nesse mesmo ano, a Alemanha retomou o Sarre, região mineira que estava sob a jurisdição da Liga das Nações.

A França e a Grã-Bretanha agiam como se não tivessem lutado como aliados na Primeira Guerra Mundial. A Grã-Bretanha, por exemplo, havia assinado um tratado naval que deixava Hitler, na prática, em liberdade para reconstruir a Armada alemã. A França, sentindo-se isolada, assinou um tratado, ainda que precário, com a União Soviética.

A União Soviética, por sua vez, tinha sido admitida na Liga das Nações em 1934 e procurava, por todos os meios, fazer valer o princípio da paz coletiva na Europa. O que, na verdade, se mostrava quase impossível. As nações, especialmente a Alemanha nazista, tentavam por todos os meios assinar acordos bilaterais, ajudando a desacreditar a Liga das Nações. Ainda em 1934, os alemães assinaram, em separado, um tratado de paz com a Polônia, país que nas premissas nazistas continuava a ser considerado responsável pela separação da Prússia Oriental do resto do território alemão.

Um dos projetos mais acalentados pela ideologia nazista era o de anexar a Áustria, país de etnia germânica. Era o Anshluss, ou seja, a anexação “natural” de um país que deveria fazer parte do que eles chamavam de Grande Alemanha. Em 1934, os alemães fizeram uma primeira tentativa de colocar em prática o Anshluss, mas sob a pressão da Itália, que ainda não estava totalmente alinhada com a política da Alemanha, o projeto foi postergado.

Um passo claramente belicoso tomado pela Alemanha foi a declaração da política do rearmamento. Em outras palavras, Hitler tornava público, em 1935, [pag. 361] o que já vinha fazendo secretamente. O Tratado de Versalhes era claro quanto à proibição do rearmamento da Alemanha. No entanto, nada se fez para impedir tal iniciativa.

Assim, a Alemanha sentiu-se em condições de romper mais um importante item do Tratado de Versalhes, qual seja, a remilitarização da Renânia. Pelo tratado, a margem esquerda do rio Reno era região desmilitarizada. Embora ali já não houvesse tropas estrangeiras, pois o exército francês havia deixado a região alguns anos antes, as cláusulas do tratado eram bem claras: não era permitida a permanência de tropas do Exército alemão na região. No entanto, Hitler iniciou seu plano de vingança contra o tratado que havia aviltado o orgulho nacional alemão. Determinou aos comandantes da Wehrmacht que atravessassem as pontes do Reno e tomassem a margem esquerda. Sob protestos de alguns comandantes, soldados alemães invadiram a região renana em 7 de março de 1936 e foram recebidos com flores e delirantes aplausos da população local. A expansão nazista parecia não ser notada pelos dirigentes franceses.

A situação internacional ficou mais tensa quando a Itália iniciou, em maio de 1936, a invasão da Etiópia. A Liga das Nações registrou um pálido protesto, enquanto a Alemanha deu total apoio a Mussolini. Dessa forma, começava-se a selar uma aliança entre a Itália fascista e a Alemanha nazista. Essa aliança se completou a partir de meados de 1936, durante a Guerra Civil Espanhola. Os dois países ajudaram as forças conservadoras de Franco contra os republicanos de esquerda. Os republicanos foram ajudados pela União Soviética. Por tudo isso, costuma-se dizer que tantos os fascistas como os comunistas testaram suas armas nos campos de batalha da Espanha e ensaiaram a Segunda Guerra Mundial. Firmava-se assim uma aliança anticomunista entre a Itália e a Alemanha, da qual também fazia parte o Japão militarista.

Em março de 1938, a Alemanha realizava a tão sonhada anexação da Áustria. Sem disparar um tiro, os soldados alemães foram recebidos por uma significativa parcela da população austríaca como restauradores da união dos povos germânicos. Mais uma vez, França e Grã-Bretanha nada fizeram. Na verdade nutria-se a idéia de que o perigo real era representado pela União Soviética e não pela Alemanha nazista. A Grã-Bretanha começou a aplicar a política que ficou conhecida por apaziguamento, idealizada pelo primeiro-ministro conservador Neville Chamberlain. Tal política consistia em fazer concessões territoriais à Alemanha, em especial a leste. Dessa forma os nazistas consolidavam seu acalentado sonho de um “espaço vital”. [pag. 362]

O passo seguinte da política de constante busca do Lebensraum foi a conquista dos sudetos tchecos, como era conhecida uma faixa de terras da Tchecoslováquia habitada por maioria alemã. Hitler exigia sua volta ao domínio alemão. Pressionado, o pequeno país tcheco, que havia surgido depois da Primeira Guerra Mundial, pediu auxílio à França, com quem tinha acordos de ajuda militar. A França, sentindo-se superada pelo crescente poderio militar alemão, preferiu a linha diplomática. Tudo isso facilitou a aplicação da política do apaziguamento dos britânicos.

Em 29 de setembro de 1938, deu-se a Conferência de Munique, na capital da Bavária. Do encontro participaram Grã-Bretanha, França, Itália e, evidentemente, a Alemanha. Não foi permitida a presença da Tchecolslováquia. A União Soviética — que tinha interesses estratégicos na região — também não foi convidada. Uma Tchecoslováquia fragilizada permitiria a passagem de forças alemãs numa eventual invasão nazista ao território soviético. Pelo acordo firmado em Munique, a Alemanha ficou com os sudetos e a Tchecoslováquia desmembrou-se em duas. Uma parte ficou literalmente sob o domínio da Alemanha. A outra transformou-se em um Estado satélite.

A União Soviética sentiu-se preterida pela França e pela Grã-Bretanha. No ano seguinte, iniciou conversações com a Alemanha. Buscava proteger-se contra um possível ataque-surpresa. Os diplomatas soviéticos continuavam tentando dialogar com a França e Grã-Bretanha, mas os dois países respondiam com lentidão. Em 23 de agosto de 1939, os ministros das relações exteriores da União Soviética e da Alemanha, Molotov e Ribentropp, respectivamente, assinaram, sob o olhar de Stalin, o Pacto de Não-Agressão Nazi-Soviético. A Alemanha estava assim livre para prosseguir, sem medo de enfrentar duas frentes de batalha, seu projeto expansionista. Hitler ordenou, ato contínuo, que seus comandantes se preparassem para invadir a Polônia. Para a estratégia da União Soviética, o protocolo secreto que garantia a anexação de parte do território polonês facilitava a transformação dos Países Bálticos (Lituânia, Estonia e Letônia) em repúblicas soviéticas.

 

O INÍCIO DA GUERRA

 

Por que a Polônia? Na época, a Polônia dividia o território alemão. A reivindicação da Alemanha era de ter o direito de livre passagem lidando a Prússia Oriental ao resto do território alemão. Em 1º de setembro de 1939, [pag. 363] alegando conflitos na fronteira, Hitler ordenou a invasão do território polonês. As forças alemãs eram muito superiores às da Polônia. Uma aviação moderna, a força dos panzers, como eram conhecidas as divisões de tanques e blindados do Exército alemão, e uma infantaria bastante disciplina e bem treinada. Os poloneses foram pegos de surpresa e não puderam resistir à chamada blitzkrieg, ou seja, a guerrarelâmpago.

A França e a Grã-Bretanha tinham compromissos de ajuda aos poloneses. Os dois países enviaram um ultimato à Alemanha exigindo a imediata paralisação da invasão. Hitler não se deu ao trabalho de responder. Diante disso, a França e a Grã-Bretanha não tiveram outra saída senão declarar guerra à Alemanha, em 3 de setembro. Iniciava-se uma primeira fase da guerra com vitórias espetaculares das forças nazistas e manifestações de arrogância de Hitler. A União Soviética ocupou parte do território polonês, como havia sido acordado em protocolo secreto do tratado de 23 de agosto.

Depois de pouco mais de vinte dias do início da invasão, os comandantes poloneses assinavam a rendição. A Polônia deixou de existir como Estado independente. Era considerado um território anexado à Alemanha, cujos habitantes deveriam simplesmente trabalhar para os alemães. Daí em diante, iniciou-se a superexploração de mão-de-obra de trabalhadores judeus, poloneses e outras etnias. Nasciam também os famigerados campos de concentração, onde judeus e opositores dos nazistas eram internados. Posteriormente, aplicou-se a política da “solução final”, ou seja, a pura e simples eliminação dos judeus.

Na frente ocidental, isto é, na fronteira da Alemanha com a França, praticamente não havia atividades militares. Os franceses estavam entrincheirados na Linha Maginot sem se mobilizar. Nenhuma tentativa de atacar as forças alemãs, entrincheiradas nas fortificações da Linha Siegfried. Alguns aviões britânicos chegaram a sobrevoar o território alemão e despejar panfletos com propaganda antinazista. Uma declaração de Hitler dá bem a medida do que ele pensava de seus inimigos: “A Grã-Bretanha e a França contraíram compromissos, mas nenhum desses Estados tem o desejo de cumpri-los [...] Em Munique, vimos esses miseráveis vermes do Chamberlain e Daladier [primeiro-ministro francês]. Eles não se decidirão a nos atacar.”6

Em fins de 1939, houve combates navais e afundamentos de navios britânicos por submarinos alemães. Os franceses tiveram alguns mortos em pequenos incidentes de fronteira. Mas não havia grandes combates. Os britânicos tinham, sem dúvida, supremacia nos mares e, por isso, conseguiram bloquear o mar do Norte, impedindo assim que a Alemanha se abastecesse de matérias-primas [pag. 364]

[pag. 365]

 

necessárias para manter suas indústrias funcionando. O minério de ferro, comprado

pelos alemães na Suécia, era transportado pela estratégica passagem do mar Báltico.

Ora, isso só seria possível se a Dinamarca e a Noruega fossem tomadas. Isso foi

feito entre abril e maio de 1940, depois de combates, em especial contra os

noruegueses. A Suécia, neutra, continuou fornecendo o precioso ferro para as

grandes indústrias de armas alemãs.

Os líderes políticos e militares franceses tinham certeza de que o próximo alvo

seria a França. O OKW (Alto Comando das Forças Armadas alemãs) pretendia repetir

o que eles haviam feito em agosto e setembro de 1914: invadir a França através da

Holanda e da Bélgica. Embora Hitler tivesse garantido publicamente que a

neutralidade da Holanda e da Bélgica jamais seria violada, os alemães começaram os

preparativos para a ação militar. Entre 10 e 14 de maio, a Luftwaffe (Força Aérea

Alemã) começou a bombardear as cidades holandesas sem nenhum aviso. As

vitimas eram civis. Não havia objetivos militares exatos. Desejava-se apenas

impingir o medo e obter uma rendição dos dois países que serviriam de passagem

para as tropas alemãs com destino à França.

O sistema de defesa dos franceses baseava-se, como vimos, na Linha Maginot,

que se estendia até a fronteira da Bélgica. Dali em diante não havia fortificações. E

foi exatamente por esse “buraco” que as forças alemãs começaram a invadir a

França. A ação dos alemães contou também com uma força de pára-quedistas que a

Luftwaffe despejou atrás das linhas francesas.

Forças britânicas e francesas tentavam conter a avalanche alemã. O novo

primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, lutava contra o derrotismo de alguns

setores políticos de seu país e da própria França. Enquanto o Exército alemão ia

empurrando as forças anglo-francesas para o norte, Churchill voou para a França e

ficou surpreso com a desorganização e a pouca resistência oferecidas pelos exércitos

franceses.

Os alemães, em manobras muito bem articuladas, encurralaram os anglo-

franceses nas praias de Dunquerque, próxima à Bélgica. Graças a um tremendo

esforço feito pela Marinha britânica, auxiliada por navios e barcos voluntários,

foram evacuados para a Inglaterra, no começo de junho de 1940, perto de 350 mil

soldados britânicos e franceses.

O espírito derrotista tomou conta dos governantes franceses. O comando das

Forças Armadas havia passado para o velho marechal Philippe Pétain, simpatizante

do fascismo, que não tinha planos para a resistência. Alguns membros do Exército

francês ainda tentavam esboçar uma organização contra [pag. 366] a invasão, como

era o caso do general Charles De Gaulle. O general já vinha se opondo às estratégias

defensivas do Exército francês, que considerava ultrapassadas. Propunha uma

remodelação das forças blindadas, com a modernização dos tanques e carros de

combates, mas suas propostas não foram aceitas. De qualquer modo, era tarde

demais. Os franceses jamais vão esquecer o que aconteceu em 4 de junho de 1940,

quando as tropas nazistas marcharam pelos bulevares parisienses e a bandeira alemã

com a cruz suástica foi afixada na Torre Eiffel.

Em 25 de junho, a luta cessou por força de um armistício assinado entre

franceses e alemães. Pelo acordo, o norte da França e toda a costa atlântica ficaram

sob ocupação da Alemanha. O sul transformou-se numa região não ocupada mas que

deveria colaborar com os vencedores. A capital da parte sul ficou na cidade de

Vichy, sob a direção do marechal Pétain e de Pierre Lavai, que instauraram um

regime semifascista.

Com a queda da França, Churchill sabia que o objetivo da máquina de guerra

nazista era dominar a Grã-Bretanha. Hitler procrastinava. Ele achava que os

britânicos iriam pedir a paz. Mas isso, sob a liderança de Churchill, não aconteceu.

Em julho de 1940, Jodl, general-chefe do alto comando alemão, disse que a derrota

da Grã-Bretanha era só uma questão de tempo.

Em setembro de 1940, a Luftwaffe recebeu ordens de iniciar os bombardeios

do sul da Inglaterra, como primeiro passo preparativo da invasão das Ilhas

Britânicas. Cerca de 1.400 bombardeiros e mais de 1.000 caças começaram o que se

chamou Operação Leão-Marinho, despejando toneladas de bombas em instalações

portuárias e aeródromos. Depois povoados e, em seguida, cidades. Londres foi

atingida. No entanto, os aviões alemães encontraram tenaz resistência por parte da

RAF (Royal Air Force), a Força Aérea Britânica. Os Spitfires, famosos caças,

mesmo em inferioridade numérica enfrentaram os aviões alemães. Em pouco mais

de três meses de batalha, a Grã-Bretanha perdeu cerca de 900 aviões e a Alemanha,

1.700. Os planos da invasão da Grã-Bretanha foram adiados e a chamada Batalha da

Inglaterra terminou com a vitória dos britânicos, pelos menos no ar.

 

A INVASÃO DA UNIÃO SOVIÉTICA: A OPERAÇÃO

BARBAROSSA

 

Quando o projeto de invadir a Grã-Bretanha falhou, Hitler voltou sua atenção

para o leste. Já havia algum tempo que o líder nazista alimentava a [pag. 367]

intenção de invadir a União Soviética; secretamente, ele e o alto comando

elaboraram um plano que ficou conhecido como Operação Barbarossa, em

homenagem ao imperador Frederico I, Barbarossa, que havia reinado no antigo

Império Germânico no século XII.

A expansão para o leste já havia começado por vias diplomáticas e por vias

militares. Isso fazia parte da grande estratégia alemã para garantir o fornecimento de

matérias-primas indispensáveis para manter a máquina de guerra funcionando. A

Hungria, a Romênia e a Bulgária, por meio de acordos militares e econômicos,

faziam parte da área de influência germânica. A Iugoslávia foi tomada militarmente,

em abril de 1941, depois que o governo simpatizante dos nazistas foi deposto por um movimento pró-Grã-Bretanha. As tropas de Mussolini, que invadiram a Grécia

quase na mesma época, precisaram ser auxiliadas pelos alemães. Com a tomada da

região, o alto comando das Forças Armadas alemãs recebeu ordens para preparar a

Operação Barbarossa.

Desde março de 1941 havia sinais claros de que Hitler estava se preparando

para a guerra contra a União Soviética, considerada o verdadeiro grande inimigo da

Alemanha nazista. Para a doutrina nazista, o comunismo e o socialismo, que haviam

sido derrotados em solo alemão no começo dos anos 30, precisavam ser extirpados

na sua origem. Além do mais, os nazistas associavam o regime comunista soviético

ao judaísmo.

Embora houvesse claras evidências de que os alemães preparavam a invasão,

Stalin parecia não lhes dar crédito. Temia enfrentar um inimigo com a melhor

máquina de guerra do mundo. Por isso, não tomou medidas retaliatórias contra as

várias violações do espaço aéreo soviético cometidas pela Luftwaffe. Stalin e outros

líderes soviéticos apavoraram-se quando Rudolf Hess, o segundo na hierarquia

nazista, voou solitariamente para a Grã-Bretanha com claros propósitos de conseguir

a paz com Churchill, que, entretanto, nunca o recebeu. A iniciativa de Hess era sinal

de que a Grã-Bretanha e a Alemanha poderiam se unir para combater a pátria do

comunismo, imaginava Stalin.

Sem dar a menor satisfação a seus aliados japoneses e italianos, Hitler ordenou

a concentração de tropas ao longo dos 3 mil quilômetros de fronteiras com a União

Soviética. No começo de junho, já havia cerca de 150 divisões do Exército e um

incontável número de blindados e canhões. Dois terços da Luftwaffe, num total de

2.770 aviões, estavam preparados em diversos aeroportos recém-construídos.

Toda essa formidável força iniciou, na madrugada de 22 de junho de 1941, a

invasão da União Soviética. Três grupos de exércitos participaram da operação.

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O grupo do centro, composto de quatro exércitos, seguiu em direção a Moscou; outro, que ia em direção ao norte, tinha como objetivo dominar Leningrado e nisso seria ajudado por forças finlandesas; um terceiro grupo de exército penetraria na região sudoeste e dominaria os campos de trigo da Ucrânia e a região petrolífera do Cáucaso. Alguns dias depois da invasão iniciada, foram incorporados às forças alemãs soldados italianos, romenos, húngaros e uma pequena força de voluntários espanhóis.

Em menos de um mês, as tropas nazistas penetraram por quase 800 km em território soviético. Com a invasão, foi posta em prática uma política especial para lidar com os russos soviéticos. Numa diretiva de março de 1941, Hitler já havia estabelecido algumas formas de tratar a população: como a União Soviética não havia assinado os acordos internacionais sobre prisioneiros de guerra, “todos os bolcheviques deverão ser eliminados imediatamente, sem julgamento; a intelligentsia stalinista deverá ser eliminada imediatamente; os russos remanescentes deverão ter o mesmo tratamento que tiveram os índios pele-vermelhas quando os americanos conquistaram o Oeste [...]”7As ordens foram cumpridas: exatamente assim é que foi tratada a maioria dos russos nas áreas invadidas pelos nazistas.

Durante os primeiros dias, Stalin e a liderança soviética pareciam não acreditar na realidade da invasão. O Exército soviético estava sendo batido. Os aviões da Força Aérea foram, em grande parte, destruídos antes mesmo de conseguirem levantar vôo. Estimativas mais recentes calculam que cerca de 4 mil aviões soviéticos foram postos fora de combate nas primeiras semanas. Apesar da tentativa de resistência, muitos soldados do Exército Vermelho foram feitos prisioneiros logo nos primeiros dias. Em 3 de julho de 1941, o general Franz Halder, chefe do Estado-Maior do Exército Alemão, calculava que a União Soviética seria esmagada em mais duas semanas. Hitler chegou a dizer a seus amigos mais próximos que a nova fronteira da Alemanha seria nos montes Urais.

Mas o plano dos nazistas, que parecia estar dando certo, encontrou seu primeiro problema. Em 5 de setembro, o Exército Vermelho conseguiu barrar os alemães em uma pequena cidade ao sul de Smolensk. Foi uma pequena mas significativa vitória. Stalin já havia saído de seu torpor e fez uma famosa declaração, transmitida por toda a União Soviética. Ele lembrava que o país havia sido atacado traiçoeiramente e que o inimigo era cruel e pretendia transformar os russos em escravos. Por isso, pedia que resistissem aos invasores e, se não pudessem resistir, que se retirassem levando todos [pag. 370] os seus pertences. E, se isso também não fosse possível, tudo o que pudesse ser usado pelos nazistas deveria ser destruído. Era a deflagração da “estratégia de terra arrasada”.

Mesmo assim, por volta de novembro, os nazistas já haviam conquistado grande parte da União Soviética, uma região em que viviam cerca de 40% do total de sua população e concentrava a maior parte de sua riqueza. Em fins de outubro e começo de novembro, Moscou estava ameaçada. Cerca de 1 milhão de soldados nazistas, apoiados por mais de mil tanques e canhões, aproximavam-se da capital soviética. No entanto, os moscovitas iniciaram a resistência. A população da capital construiu obstáculos ao redor da cidade. A estação de chuvas transformou as estradas da região em verdadeiros pântanos. Logo em seguida a temperatura baixou violentamente. Os veículos alemães ficaram paralisados. Os tanques soviéticos T-34, pesadamente blindados, aproveitaram e desfecham grande contra-ataque dando apoio à infantaria. Os nazistas foram obrigados a afastar-se mais de 400 km. O mito da invencibilidade da Alemanha nazista havia sido quebrado.

A guerra contra a União Soviética, diz o historiador militar John Keegan, teve diferentes motivos. Alguns ideológicos, alguns estratégicos. Mas o que ele enfatiza são as motivações econômicas. Antes de tudo, Hitler temia o potencial industrial da União Soviética, ao mesmo tempo em que ambicionava os recursos naturais e a agricultura soviética. Mas paradoxalmente, quando se iniciou a Operação Barbarossa, a destruição provocada pelos soviéticos em retirada e pela própria violência das batalhas resultou na eliminação de muito dos campos em época de colheita. E o potencial industrial soviético foi em grande parte preservado quando o governo soviético realizou, com relativo sucesso, a transferência de indústrias para além dos Urais. Sem dúvida, outra importante motivação de Hitler era a necessidade das terras agrícolas, dos recursos minerais e dos campos de petróleo soviéticos. Sem aumentar a disponibilidade de alimentos e matérias-primas, não era possível sustentar a máquina de guerra nazista por muito tempo.

A União Soviética, apesar de ter conseguido manter uma produção fantástica de materiais militares durante a Segunda Guerra Mundial, precisou receber dos Estados Unidos, entre outras coisas, 300 mil caminhões para o transporte de tropas, material bélico e suprimentos. [pag. 371]

 

AS AMÉRICAS EM GUERRA

 

Quase ao mesmo tempo em que os soviéticos conseguiam deter os nazistas, a atenção do mundo voltou-se para a região do Pacífico. Na manhã de 7 de dezembro, um domingo, os soldados e habitantes da base aeronaval dos Estados Unidos, situada em Pearl Harbor, no Havaí, foram atacados por levas de Zeros, o caça-bombardeiro japonês, que levantaram vôo de seis porta-aviões. Mais de 2.400 soldados americanos morreram e vários navios de guerra foram afundados ou ficaram seriamente avariados. O presidente Roosevelt, num memorável discurso no Congresso americano, pediu a declaração de guerra ao Japão, que foi aceita por unanimidade. Os Estados Unidos abandonavam sua política de isolacionismo. Poucos dias depois, a Itália e a Alemanha declaravam guerra aos Estados Unidos, num ato de solidariedade ao Japão, integrante do Eixo, como ficou conhecida a aliança entre os países nazi-fascistas (Itália e Alemanha) e o Japão.

O ataque japonês a Pearl Harbor foi uma estupenda vitória tática, mas um grande desastre estratégico. O Japão atacou os Estados Unidos em grande medida porque não poderia continuar sofrendo os embargos de combustíveis e outros materiais estratégicos impostos pelo governo americano. Ao mesmo tempo, esperava afastar os Estados Unidos do domínio que exerciam, por exemplo, nas Filipinas. Em outras palavras, o Japão moderno, que se formou na segunda metade do século XIX, buscava fontes de matérias-primas para suas indústrias e entrou em choque direto como os Estados Unidos, que tinham grandes interesses nas mesmas áreas procuradas pelos japoneses. Eliminando a presença dos Estados Unidos, os japoneses teriam caminho aberto às ricas colônias holandesas e britânicas daquela região da Ásia. Contudo, o risco era muito grande. Como havia declarado o almirante Yamamoto, os Estados Unidos dispunham de fontes de recursos naturais quase inesgotáveis em seu próprio território e poderiam suportar um conflito duradouro.

Com a entrada dos Estados Unidos na guerra, formou-se a Grande Aliança, isto é, a Grã-Bretanha, os Estados Unidos e a União Soviética, que tinham como inimigos comuns os países que compunham o Eixo. Embora os Estados Unidos tenham entrado na guerra por força do ataque do Japão, em reuniões com Churchill, o primeiro-ministro britânico, e com representantes soviéticos, Roosevelt decidiu que o governo americano deveria centrar suas forças na Europa para derrotar o principal inimigo, que era a Alemanha. Mesmo assim, os porta-aviões americanos que estavam fora de Pearl Harbor no dia do ataque, [pag. 372] puderam, nos primeiros meses do ano seguinte, derrotar algumas importantes forças japonesas nas Batalhas de Midway e do mar de Coral.

Outra decorrência imediata da entrada dos Estados Unidos na guerra foi a consolidação da preponderância americana sobre os países da América Latina. Em janeiro de 1942, realizou-se no Rio de Janeiro um encontro dos chanceleres americanos. Na ocasião, os Estados Unidos conseguiram que todos os países da América Latina rompessem relações diplomáticas com o Eixo. Duas exceções: a Argentina e o Chile, que só romperiam com o Eixo praticamente no final da guerra.

O Brasil desempenhou importante papel na estratégia americana na guerra. A região do Nordeste brasileiro está estrategicamente localizada em relação às costas africanas. Por isso, depois de longas conversações e acordos, o Brasil permitiu a construção de uma base aeronaval em Natal, no Rio Grande do Norte. Foi de tamanha importância a instalação da base que Natal ficou conhecida como o Trampolim da Vitória. Praticamente todos os materiais necessários à monumental tarefa de combater a Alemanha passavam por Natal.

“As Américas em guerra!!!” Era assim que os programas irradiados diretamente de Nova York para o Brasil, em português, buscavam apoio do povo brasileiro na causa da luta contra o fascismo. O magnata Nelson Rockefeller era o responsável por uma agência que tinha como objetivo manter uma imagem sempre simpática e amiga dos Estados Unidos, por meio de uma bem montada máquina de propaganda. Foi nessa época, por exemplo, que Walt Disney criou personagens latino-americanos, cujo melhor exemplo foi o Zé Carioca. Além disso, o Brasil enviou, em 1944, mais de 20 mil soldados para combater ao lado dos americanos nos campos de batalha da Itália.