História das Guerras
Guerras da Indochina
Demétrio Magnoli
As Guerras da Indochina compreendem dois conflitos militares distintos, mas entrelaçados, que se desenrolaram ao longo de três décadas. A Guerra da Indochina (1946-1954) foi protagonizada pelo Vietminh, o movimento de libertação nacional do Vietnã, e pela França, potência colonial da Indochina. A Guerra do Vietnã (1960-1975) foi o conflito entre o Vietnã do Norte e seus aliados do Vietcong (comunistas sul-vietnamitas), de um lado, e os Estados Unidos e o Vietnã do Sul, de outro.
Na Guerra da Indochina, o que estava em jogo era o direito do povo vietnamita à soberania nacional. O evento é um elo da cadeia de lutas de libertação nacional que, desde o final da Segunda Guerra Mundial, desafiavam as potências imperiais européias e terminaram por estender a todo o planeta o “princípio das nacionalidades” proclamado solenemente pelo presidente americano Woodrow Wilson, no estreito contexto europeu, nos tratados de paz de Paris, em 1919.
Na Guerra do Vietnã, estava em jogo a unidade do Estado vietnamita e a natureza do seu regime político e econômico. Do ponto de vista dos Estados Unidos, jogava-se nada menos que o futuro geopolítico da Ásia e a configuração geral da esfera de influência soviética no continente. O evento é um elo da teia da Guerra Fria, cuja lógica se impunha sobre as motivações nacionais, étnicas ou religiosas de diversos conflitos regionais.
Os vietnamitas interpretam as duas guerras como um único conflito, ou como etapas inseparáveis de uma mesma trajetória. E eles têm razão. A derrota e a retirada da França custaram a unidade do país. A guerra contra os Estados [pag. 391] Unidos e seu aliado, o Vietnã do Sul, inscrevia-se na longa luta de libertação nacional, que só poderia se concluir com a remoção da fronteira artificial que bipartia o país e a reunificação do Estado.
Os Estados Unidos também interpretaram a Guerra do Vietnã como uma continuação da Guerra da Indochina, mas por motivos diferentes. Sob a perspectiva de Washington, a guerra sustentada pelos franceses distinguia-se de outras guerras coloniais pois o inimigo era um movimento comunista, alinhado à União Soviética. Por esse motivo, o regime do Vietnã do Sul não foi definido como um remanescente do poder colonial europeu mas como um aliado regional do Ocidente na estratégia de contenção do expansionismo soviético.
Na história militar, as Guerras da Indochina ficaram registradas como ilustrações paradigmáticas do embate de forças assimétricas: exércitos regulares versus formações guerrilheiras. A guerrilha não foi inventada pelos vietnamitas, mas eles utilizaram magistralmente esse instrumento típico da luta do fraco contra o forte. Vo Nguyen Giap, o comandante do Vietminh e, depois, do Vietnã do Norte ganhou, com justiça, um lugar entre os gênios da estratégia militar.
A guerrilha derrotou as forças coloniais francesas. Contudo, contrariamente ao mito popular, os Estados Unidos não foram derrotados nas florestas do Vietnã mas no campo de batalha da opinião pública americana. Historiadores que, corajosamente, encaram as indagações contrafactuais sustentam com argumentos poderosos a tese de que a decisão política da retirada americana representou a renúncia à perspectiva realista de vitória militar. Qualquer que seja a verdade, o Vietnã assinalou a decadência e a crise daquilo que o historiador Russell Weigley batizou de “estilo americano de guerra”.1 Depois da retirada, os Estados Unidos substituíram seu exército de conscritos por forças armadas profissionais e deflagraram uma revolução militar baseada na plena incorporação das tecnologias da informação. Nas Guerras do Golfo, em 1991 e 2003, estabeleceu-se um novo “estilo americano de guerra” e o Pentágono, finalmente, acertou suas contas com o fracasso na Indochina.
As duas guerras indochinesas tiveram repercussões históricas profundas. A derrota francesa estimulou os movimentos de libertação nacional africanos, inaugurando a segunda fase do processo de descolonização. A derrota americana provocou a reformulação da estratégia asiática de Washington, a aproximação entre os Estados Unidos e a China, a abertura de uma nova fase na política internacional da Guerra Fria. Num horizonte mais amplo, a primeira nítida derrota militar da história dos Estados Unidos semeou angústias e incertezas [pag. 392] que se tornaram elementos integrantes do ethos político da sociedade americana. A figura da atriz Jane Fonda, a “Hanói Jane”, que confraternizou com os norte-vietnamitas em 1972, suscita até hoje paixões furiosas e amargas recordações de um tempo que se recusa a adormecer nos livros de História.
HO CHI MINH E O VIETMINH
No seu zênite, à época da Segunda Guerra Mundial, a expansão imperial japonesa originou o conceito geopolítico de Sudeste Asiático, reunindo pela conquista territórios fragmentados entre os impérios coloniais britânico, francês, holandês e americano. Esse “ângulo da Ásia”,2 situado entre a civilização chinesa e a indiana, compreende uma península (Indochina) e um arco insular entre os oceanos Índico e Pacífico (Insulíndia).
A península da Indochina é constituída pelos atuais Mianma, Malásia, Tailândia, Vietnã, Laos e Camboja. Apesar da diversidade das suas civilizações, a península compartilha um fundo cultural tecido por influências indianas e chinesas. O budismo difundiu-se pela região desde o primeiro século da era cristã, por influência de mercadores indianos, que viajavam acompanhados de brâmanes e monges budistas. A China dominou o norte do Vietnã durante mais de mil anos, entre os séculos II a.C. e X d.C.
O imperialismo francês produziu, entre 1862 e 1893, uma Indochina Francesa que abrangia a parte oriental da península, cujo eixo natural é o vale do rio Mekong. A administração colonial da União da Indochina conservou as estruturas territoriais dos reinos do Camboja e do Laos e dos três reinos vietnamitas do Tonquim (norte), Anã (centro) e Cochinchina (sul). A cultura de seringueira e a exportação da borracha natural integraram a Indochina Francesa aos fluxos internacionais de matérias-primas comandados pela indústria européia.
O nacionalismo vietnamita surgiu cedo, entre os letrados que admiravam Montesquieu, Voltaire, Rousseau e a Revolução Francesa e que interpretavam a Restauração Meiji, no Japão, como um modelo de resistência à hegemonia das potências ocidentais e um caminho para a modernização econômica. A resistência moral da elite culta filtrou-se até as massas camponesas, principalmente depois das reformas administrativas de 1908 que generalizaram a cobrança de impostos. Revoltas no campo e em algumas cidades contestaram o empreendimento colonial de “civilizar a Indochina”, mas os franceses não deram importância à insatisfação dos “nativos”. [pag. 393]
Nguyen Ai Quoc (Ho Chi Minh) estudou e militou na França, onde aderiu à Internacional Comunista. Ele fundou, em Cantão, que era o foco do movimento comunista chinês, um grupo de nacionalistas dispostos a ultrapassar a contestação intelectual dos letrados. Nos anos 30, seu grupo fundiu-se à Frente Democrática indochinesa, fundada por Pham Van Dong e Vo Nguyen Giap, que era a fachada pública do clandestino Partido Comunista vietnamita. A agitação política era intensa entre os intelectuais e surgiam, por todos os lados, partidos nacionalistas inspirados no Kuomintang chinês, seitas budistas antifrancesas alinhadas com o Japão, grupos de contestadores moderados que reivindicavam a entrega do poder efetivo a Bao Dai, o herdeiro do trono que cumpria funções apenas cerimoniais. Mas foi em torno dos comunistas que o nacionalismo vietnamita se estruturou.3
A ocupação japonesa, em 1940, e a humilhação do poder colonial francês destravaram o movimento revolucionário. Um ano mais tarde, os comunistas reuniram a resistência nacionalista na Liga Revolucionária para a Independência do Vietnã (Vietminh), sob a bandeira do combate ao “fascismo francês e japonês”. Na moldura da Segunda Guerra Mundial, o Vietminh alinhou-se aos Estados Unidos e à China, desafiando a ocupação japonesa e seus aliados internos, que incluíam os franceses fiéis ao regime de Vichy, o imperador Bao Dai e os budistas liderados por Cao Dai. A “França Livre” de Charles De Gaulle declarou apoio ao Vietminh e emitiu sinais ambíguos sobre o futuro do Vietnã.
A queda do regime de Vichy, em agosto de 1944, colocou a França em guerra com o Japão. Em março de 1945, a administração francesa da Indochina recusa-se a receber ordens do Japão e seus integrantes são presos. Sob orientação japonesa, o governo fantoche de Bao Dai, instalado na antiga corte de Hué, em Ana, proclama o fim do protetorado francês e a independência, no que é seguido pelos reis do Laos e do Camboja. O Vietminh reage, proclamando a ilegalidade do governo de Hué.
Na Conferência de Potsdam, em julho, os Aliados dividem o Vietnã por meio do paralelo 17º N e projetam a criação de uma zona de ocupação chinesa ao norte e uma zona britânica ao sul. Mas, em agosto, depois de Hiroshima e da capitulação japonesa, Ho Chi Minh conclama à insurreição e o Vietminh instala um governo republicano em Hanói, no Tonquim. Bao Dai abdica e é nomeado para o posto cerimonial de conselheiro supremo do novo governo, controlado pelos comunistas. Os britânicos, por seu lado, comprometem-se a devolver a parte sul à França.
No discurso da independência, em setembro de 1945, Ho Chi Minh falou em francês. Ele invocou a Revolução Francesa e a Comuna de Paris para inscrever [pag. 394] a soberania vietnamita no marco político dos princípios de liberdade e igualdade. Não mencionou o comunismo ou a União Soviética.4 Nos meses seguintes, aceitou negociar um prazo de cinco anos para a independência e, contrariado, admitiu até mesmo a formação de uma Federação Indochinesa subordinada provisoriamente a Paris. Mas a França não negociava honestamente — ou, no mínimo, negociava sob um duplo comando.
Logo depois que De Gaulle deixou o poder, forças francesas desembarcaram em Hanói e Saigon e o governo francês anunciou o desmembramento da Cochinchina e a formação de uma república autônoma com capital em Saigon. O Vietminh reagiu por meio de atos de terror contra os franceses e seus aliados na Cochinchina. Em dezembro de 1946, as forças francesas bombardearam o porto de Haiphong, no Golfo de Tonquim, desalojando o governo de Ho Chi Minh de Hanói. A engrenagem da guerra tomava o lugar das artimanhas da diplomacia.
A GUERRA DA INDOCHINA
Giap descreveu a guerra contra os franceses, quando o conflito apenas se iniciava:
Será a guerra entre um tigre e um elefante. Se acaso o tigre parar, o elefante o
transpassará com suas poderosas presas: só que o tigre não vai parar; ele se esconde na
selva durante o dia para só sair à noite; ele se lançará sobre o elefante e lhe arrancará o
dorso por grandes nacos, depois desaparecerá e, lentamente, o elefante morrerá de
exaustão e de hemorragia. 5
E assim foi. A França convoca Bao Dai para servir de fantoche em Saigon, proclama uma república semi-autônoma na Cochinchina e envia uma força expedicionária de 200 mil homens para combater o Vietminh. O “elefante” estabelece sua presença em Hanói e Haiphong, no Tonquim, e na maior parte da Cochinchina, mas é obrigado a ceder quase todo o restante do território vietnamita ao “tigre”. A “guerra suja”, como começava a ser qualificada na França, desenrola-se como conflito assimétrico, sangrento, mas de baixa intensidade. Entre os políticos e militares franceses, poucos acreditavam numa vitória, mas quase nenhum admitia a inelutável derrota.
O Vietnã tem a forma de um cordão — a extensa fachada marítima — que conecta duas glândulas, o delta do rio Vermelho, ao norte, e o delta do Mekong, ao sul. Hanói e Saigon são os focos dos deltas. A antiga capital imperial de Hué situa-se quase a meio caminho, um pouco ao sul do paralelo 17. Planícies estreitas [pag. 395] acompanham a fachada marítima, abrindo-se um pouco ao norte e muito amplamente ao sul, na área do grande delta. A cadeia montanhosa das Anamíticas cerca as planícies costeiras, separando-as do longo e largo vale do Mekong, que percorre o Laos e o Camboja antes de drenar as terras baixas da Cochinchina.
Os vietnamitas configuraram, ao longo dos séculos, uma sociedade hidráulica. A população concentrou-se nas planícies, densamente povoadas e dominadas pela rizicultura intensiva, que se alicerça sobre uma rede de sofisticadas mas rudimentares obras de controle das águas e irrigação. Praticamente todos os centros urbanos intermediários situam-se no litoral, conectando-se entre si por uma única estrada principal que tem seus pontos focais em Hanói e Saigon (atual Ho Chi Minh). As montanhas interiores, infestadas mesmo em cotas baixas pelo mosquito da malária, permaneceram escassamente povoadas e seus habitantes desenvolveram misteriosa imunidade à doença.
A diversidade vietnamita está limitada às montanhas. Na guirlanda de planícies costeiras, ao longo de 2 mil km, do rio Vermelho ao delta do Mekong, o Vietnã exibe impressionante uniformidade cultural, que se manifesta nos domínios da língua, da organização familiar, dos costumes e da gastronomia. Essa unidade foi forjada pela corrente de povoamento formada por ondas de migrações seculares dos vietnamitas do Tonquim rumo ao sul. O povoamento da Conchinchina intensificou-se a partir do século XVIII e acelerou-se durante o período colonial. Esse é o cimento da identidade nacional do Vietnã.
As forças francesas conseguiram controlar as terras baixas em torno das capitais do norte e do sul, mas nunca se revelaram capazes de expulsar o Vietminh do cordão de planícies costeiras ou, muito menos, dos seus refúgios situados nas montanhas. Hué, a capital de Anã, permaneceu sob controle francês mas na difícil condição de enclave militar: os guerrilheiros agiam a poucos quilômetros da cidade, cortando suas conexões com a hinterlândia. No perímetro externo do delta do rio Vermelho, os franceses implantaram uma linha de fortificações defensivas, a Linha De Lattre, destinada a proteger a área polarizada por Hanói e pelo porto de Haiphong.
O apego doutrinário dos militares franceses às linhas fortificadas de defesa sobreviveu ao fracasso da Linha Maginot, circundada pela ofensiva alemã de 1940, na Segunda Guerra Mundial. No Tonquim, a Linha De Lattre revelou-se eficaz, não pelos méritos intrínsecos da doutrina, mas pelas condições assimétricas do conflito. A disparidade de poder de fogo entre a artilharia francesa e as unidades guerrilheiras do Vietminh assegurava a inviolabilidade do perímetro do delta. Em compensação, as forças convencionais da França [pag. 396]
[pag. 397]
não podiam se aventurar com sucesso nos terrenos montanhosos e florestados onde imperava a guerrilha.
Depois da conclusão da Revolução Chinesa, em outubro de 1949, com a vitória dos comunistas de Mao Tsé-tung, o pêndulo militar oscila na direção do Vietminh, que passa a ser abastecido de armas modernas por trilhas que serpenteiam nas montanhas do norte e conectam o Vietnã à China. Giap organiza com sucesso ataques contra guarnições isoladas e contra os flancos de colunas enviadas para protegê-las. Os franceses procuram adaptar-se à mobilidade dos guerrilheiros usando unidades de pára-quedistas e pequenas colunas móveis. No outono de 1950, Giap ganha confiança, ultrapassa o limite da guerra de guerrilhas e organiza ataques de divisões regulares contra guarnições francesas da Linha De Lattre. O insucesso dessas tentativas faz o Vietminh retroceder ao método da guerrilha.
Os Estados Unidos mantiveram uma postura ambígua durante a primeira fase da guerra. O presidente Franklin D. Roosevelt, que não tinha nenhuma simpatia pelo imperialismo europeu, chegara a sugerir a Winston Churchill e De Gaulle que as colônias asiáticas estavam perdidas. Ho Chi Minh, que trabalhara em contato com os serviços de inteligência americanos na luta contra os japoneses, agarrou-se à esperança de que Washington pudesse dissuadir os franceses de hostilizar seu governo e, entre 1945 e 1946, dirigiu cartas ao presidente Harry Truman pedindo apoio ao Vietnã independente, mas não teve resposta. O cenário modifica-se com a vitória dos comunistas na China e a instalação, pelos franceses, de um governo autônomo em todo o Vietnã, sob a autoridade do sempre disponível Bao Dai. Temendo uma expansão da influência chinesa, Truman passa a fornecer ajuda financeira e militar ao esforço de guerra francês.
A terceira e decisiva fase da guerra começou com uma incursão pioneira do Vietminh no Laos, em abril de 1953, ameaçando estender o teatro da guerra até o território colonial vizinho. Reforços franceses foram enviados e Giap retirou suas forças. Mas a ofensiva inimiga no Laos aumentou as críticas à permanência da França na Indochina. O filósofo Jean-Paul Sartre liderava uma campanha contra a guerra que começava a tocar fundo nos sentimentos da opinião pública francesa. As forças coloniais atingiam 450 mil homens, entre expedicionários franceses e tropas das colônias. O governo de Paris, acuado, decidiu romper o impasse militar. O lugar escolhido para deflagrar uma ofensiva foi Dien Bien Phu, um pequeno povoado nas proximidades da fronteira com o Laos.
Dien Bien Phu situava-se nas montanhas, em uma área majoritariamente controlada pelo Vietminh desde 1950. Singularizava-se pela existência de um bom campo de pouso, que possibilitaria o reforço contínuo e abastecimento [pag. 398]
[pag. 399]
das forças francesas. De acordo com o planejamento militar, o controle sobre esse ponto estratégico abriria caminho para a gradual expansão do teatro de operações nas montanhas e para a interrupção das rotas do Vietminh que conectavam o Tonquim ao Laos e à China. Mas, sobretudo, os franceses pretendiam atrair Giap para uma grande confrontação convencional.
A Operação Castor, de ocupação de Dien Bien Phu, desenrolou-se entre 20 e 22 de novembro de 1953, com o lançamento de vários batalhões de pára-quedistas sobre o sítio e o engajamento de combate com forças locais do Vietminh. As forças coloniais, com 4.195 soldados, assumiam o controle sobre o povoado e seus arredores imediatos. Imediatamente, os franceses entregaram-se ao reforço da posição, estabelecendo um perímetro interno de defesa e guarnecendo as rotas das imediações com fortificações rudimentares.
A posição francesa ocupava uma seção do vale do rio Nam Youm, servida por duas rotas terrestres e cercada por colinas florestadas e envoltas com freqüência em neblina. A batalha que decidiu a sorte da guerra começou a 13 de março de 1954, com o início do cerco da posição pelas forças do Vietminh, e terminou no 7 de maio, antes do final da tarde. Giap não aceitou o convite francês a uma confrontação aberta sobre o eixo do vale do Nam Youm, optando por configurar de outro modo o teatro de operações. Os manuais de História Militar a registram como a maior derrota singular sofrida por uma potência industrial em conflito com forças guerrilheiras no mundo colonial.
No momento do início da batalha, a defesa de Dien Bien Phu contava com cerca de 3.000 soldados franceses e quase 13.000 tropas coloniais (indochinesas e africanas). Giap engajou 33 batalhões, num total de cerca de 100 mil homens no cerco e assalto da posição. As perdas totais dos defensores atingiram perto de 1.800 mortos e mais de 5.200 feridos. Estimativas grosseiras situam em cerca de 10 mil os mortos no lado do Vietminh.
O sítio a Dien Bien Phu realizou-se praticamente sem atrair atenção dos franceses. As forças de Giap usaram bicicletas reforçadas e trilhas nas colinas para transportar peças desmontadas de canhões fornecidos pela China. Os ninhos dos canhões e metralhadoras, envoltos pela vegetação, ficaram virtualmente a salvo da artilharia e da aviação francesas. Giap demonstrou sensibilidade aguçada para as condições do terreno e as circunstâncias logísticas. O sítio completou-se no início da temporada das monções de verão, caracterizadas por chuvas torrenciais e aumento da neblina que dificultaram as operações de reforço aéreo dos franceses. O apoio aéreo contava com 120 aviões de transporte e 227 caças e bombardeiros. Mas os aviões operavam no [pag. 400] limite do combustível, pois suas bases situavam-se a 350 km, no delta do rio Vermelho. No total, 56 aeronaves foram destruídas por fogo antiaéreo.
Fogo pesado de artilharia sobre as guarnições de Beatrice e Gabrielle anunciou o início dos combates, na noite de 13 de março. A queda das duas fortificações e a deserção das tropas tailandesas da guarnição de Anne-Marie abriram a frente norte aos atacantes. Desde 23 de março foram suspensos os pousos de transporte de reforços, pois as perdas de aviões e homens tornaram-se intoleráveis. Os franceses ainda empreenderam contra-ataques eficazes no final de março, com o reforço de pára-quedistas, mas o cerco apertou a partir de 15 de abril. Nos primeiros dias de maio, chuvas ininterruptas alagavam o campo de Dien Bien Phu e os defensores vagavam em lodaçais, enquanto poucos médicos e enfermeiras atendiam a centenas de feridos.
O assalto final começa com intensa barragem de artilharia, na noite de 6 de maio. Nas horas seguintes, forças do Vietminh infiltram-se nas trincheiras enlameadas da guarnição Elaine e combate-se corpo a corpo. Na clara aurora sem chuva, caem Elaine e Dominique. O general De Castries, no comando francês, ordena a destruição do material bélico e dos suprimentos remanescentes e envia a última mensagem a Hanói: “Estamos explodindo tudo. Adieu”. No fim da tarde, os atacantes invadem o quartel-general. Isabelle, ao sul, resiste até a manhã do dia 8. Dien Bien Phu cai sem erguer a bandeira da rendição.
INTERLÚDIO: DE UMA GUERRA A OUTRA
Estimativas indicam que, na etapa derradeira da Guerra da Indochina, os Estados Unidos pagavam três quartos dos custos do esforço militar francês. Durante o cerco a Dien Bien Phu, Washington considerou a hipótese de uma intervenção direta para salvar a posição francesa, mas desistiu por avaliar que a guerra estava perdida.
A Conferência de Genebra instalou-se em 26 de abril de 1954, reunindo os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU para negociar um acordo de paz sobre a Coréia e resolver o conflito colonial na Indochina. Não se chegou a acordo no tema coreano e, a 8 de maio, o dia da queda de Dien Bien Phu, a conferência recebeu representantes do Vietminh, do governo de Bao Dai e das monarquias semi-autônomas do Laos e do Camboja, engajando-se nas negociações sobre a Indochina. [pag. 401]
Os Acordos de Genebra, concluídos a 20 de julho, encerraram a presença colonial francesa em toda a Indochina e proclamaram a soberania dos Estados do Vietnã, do Laos e do Camboja. Nos termos dos acordos, o Vietnã era provisoriamente dividido pela fronteira do paralelo 17. O governo de Ho Chi Minh instalava-se em Hanói, a capital da República Democrática do Vietnã. O governo de Bao Dai, em Saigon, adquiria soberania formal sobre o Vietnã do Sul. Eleições gerais, previstas para 1956, deveriam reunificar o país.
Desde a retirada francesa, Bao Dai entrega-se à edificação de um Estado viável no Vietnã do Sul. Ngo Dinh Diem, um católico romano indicado para chefiar o governo, conclama os católicos do Vietnã do Norte a transferirem-se para o sul. Cerca de 1 milhão deles atravessam o paralelo divisório. No sentido inverso, 90 mil transferem-se para a República Democrática do Vietnã, mas Ho Chi Minh instrui 10 mil guerrilheiros a permanecerem, silenciosamente, no Vietnã do Sul. Nos primeiros meses de 1955, o governo de Diem passa a receber assistência financeira direta de Washington e conselheiros militares americanos começam a treinar o exército do Vietnã do Sul. A Indochina ingressava na grande estratégia da Guerra Fria.
A Guerra Fria havia sido deflagrada em março de 1947, quando Truman anunciou a estratégia americana de “contenção” da União Soviética. Mas a Doutrina Truman, como ficaria conhecida, tinha por referência a Europa, não a Ásia. O Plano Marshall, apresentado poucos meses depois, destinava-se a soldar a unidade entre os Estados Unidos e a Europa Ocidental, na conjuntura de enrijecimento dos blocos antagônicos na Europa. A crise do Bloqueio de Berlim, iniciada no verão de 1948 e concluída em maio de 1949 com a bipartição da Alemanha em dois Estados e a criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), elevou a níveis inéditos as tensões entre as superpotências. Mas a rivalidade estratégica continuava circunscrita, essencialmente, à Europa.
A Revolução Chinesa modificou radicalmente a percepção estratégica de Washington. A política da “contenção” adquiriu dimensões globais e a China, de aliada, tornou-se rival. A Guerra da Coréia (1950-53), com a consolidação do poder comunista na Coréia do Norte, e a derrocada da França na Indochina, foram interpretadas como sinais de um iminente desmoronamento das posições do Ocidente na Ásia. O governo Dwight Eisenhower reagiu aplicando o “modelo europeu” ao novo cenário de confrontação: assim como a segurança da Europa Ocidental era garantida pela Otan, a segurança asiática seria enraizada em tratados militares entre Washington e seus aliados regionais. [pag. 402]
Os primeiros tratados de proteção militar, firmados logo após a tomada do poder pelos comunistas chineses ou durante a Guerra da Coréia, colocaram o Japão, Taiwan, a Coréia do Sul e as Filipinas sob o escudo protetor dos Estados Unidos. Em 1951, Washington firmou o Pacto Anzus, com a Austrália e a Nova Zelândia, estabelecendo uma plataforma de cooperação estratégica nos oceanos Pacífico e Índico. Os Acordos de Genebra funcionaram como senha para a constituição da Organização do Tratado do Sudeste Asiático (Seato), que reunia Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Austrália, Nova Zelândia, Filipinas, Tailândia e Paquistão. A Seato colocou sob sua proteção o Vietnã do Sul, o Laos e o Camboja, que tinham o estatuto de associados observadores. A rede de tratados completou-se, em 1955, com a formação do Pacto de Bagdá, firmado entre Grã-Bretanha, Iraque, Irã, Turquia e Paquistão. Os Estados Unidos não participavam formalmente desse tratado, mas integravam seu comitê militar.
O Pacto Anzus e a Seato, os núcleos dessa rede de tratados, simbolizavam uma “mudança de guarda” na ampla área da orla do Pacífico e do Indico. A Austrália e a Nova Zelândia, antigas colônias britânicas, deslocavam a esfera de influência de Londres para a de Washington. A Grã-Bretanha, que vivia seu declínio imperial, já não era capaz de defender a faixa estratégica. Os Estados Unidos assumiam a condição de potência marítima global, que por tanto tempo pertenceu aos britânicos.
O anel de tratados de segurança da orla asiática estendia-se do Japão e da Coréia do Norte, no mar da China Oriental, até o Irã, o Iraque e a Turquia, no Golfo Pérsico e no Mediterrâneo oriental. Sua aparência imponente ocultava as bases frágeis da aliança entre a superpotência do Ocidente e a coleção heterogênea de governos asiáticos clientes. No fundo, os sistemas de segurança asiáticos refletiam uma concepção estratégica amparada no pensamento geopolítico de Nicholas Spykman (1893-1943).6
Spykman construiu sua grande teoria como uma crítica à geopolítica do britânico Halford Mackinder (1861-1947), que elaborou o conceito de Heartland (a “terra-coração”) para sustentar a noção da primazia do poder continental. A Heartland de Mackinder correspondia ao núcleo estratégico da Eurásia, situado nas planícies polonesas e russas. De acordo com sua tese, o domínio da Heartland conferia o controle sobre a Eurásia, que seria a base de um poder mundial incontrastável.
A teoria de Spykman virava de ponta-cabeça a geopolítica de Mackinder. Seu conceito-chave, a Rimland (o “anel interior”), sublinhava a importância [pag. 403] do poder marítimo. O controle sobre o “anel interior”, uma faixa-tampão entre a Heartland e a esfera oceânica exterior, asfixiaria a potência continental e asseguraria a hegemonia da potência marítima. Esse “anel interior” correspondia à faixa “peninsular” formada pela Europa Ocidental e pela orla asiática, desde o Oriente Médio até o Extremo Oriente. O sistemas de segurança asiáticos erguidos na década de 1950 projetavam, sob a forma de tratados militares, a estratégia de controle da Rimland.
O engajamento sempre crescente dos Estados Unidos na antiga Indochina Francesa deve ser entendido na moldura da grande estratégia asiática. No Vietnã do Sul, o governo Diem revela-se, cada vez mais, uma ditadura familiar corrupta e, em julho de 1955, Saigon anuncia a recusa em participar das eleições gerais de reunificação, sob o pretexto de que seria impossível conduzir eleições livres no Vietnã do Norte. Pouco depois, um plebiscito fraudulento, mas apoiado por Washington, depõe Bao Dai e extingue a Monarquia. A República do Vietnã, sob Diem, é reconhecida por mais de cem Estados.
Os dois Estados vietnamitas alinham-se às superpotências rivais e desencadeiam campanhas de repressão contra o “inimigo interno”. No Vietnã do Norte, uma reforma agrária radical é acompanhada por julgamentos sumários, fuzilamentos em massa e confinamentos em campos de trabalho forçado. No Vietnã do Sul, a violência abate-se sobre supostos seguidores do Vietminh, que sofrem prisões, torturas e execuções clandestinas. Em 1957, Washington recusa uma proposta soviética de reconhecimento diplomático conjunto dos dois Estados e admissão de ambos na ONU.
Enquanto a partição do Vietnã se aprofundava, o Camboja e o Laos optavam pela neutralidade. O príncipe Norodom Sihanuk, do Camboja, abre mão da proteção da Seato e aproxima-se da China. No Laos, o príncipe Suvana Phuma forma um governo de coalizão neutralista, procurando uma acomodação com o movimento comunista Pathet Lao.
Desde o final de 1957, prepara-se ativamente nova guerra indochinesa. Guerrilheiros do Vietminh promovem campanhas de terror contra oficiais do Vietnã do Sul. No verão de 1958, os comunistas criam um centro de comando unificado no delta do Mekong e exigem negociações para a reunificação do país. Em março de 1959, Ho Chi Minh conclama uma “guerra popular” no Vietnã do Sul e ordena a construção de uma longa trilha pelas selvas conectando o Vietnã do Norte às montanhas do Vietnã [pag. 404] do Sul, através do Laos e do Camboja. Em julho, 4 mil guerrilheiros comunistas nascidos no Sul deixam seus campos de treinamento no Norte e infiltram-se no Vietnã do Sul.
A Guerra do Vietnã não foi deflagrada por uma declaração de guerra formal. Em abril de 1960, Hanói impõe o recrutamento militar universal. Em novembro, reagindo a uma tentativa de golpe militar, Diem aprisiona mais de 50 mil supostos opositores e milhares fogem para o Vietnã do Norte. Em dezembro, Ho Chi Minh estabelece a Frente Nacional de Libertação, o comando político da guerrilha no Vietnã do Sul. No outono de 1961, enquanto 400 boinas-verdes (forças especiais do exército americano) desembarcam como conselheiros das forças sul-vietnamitas, 26 mil guerrilheiros comunistas lançam dezenas de ataques contra as tropas governamentais.
UMA GUERRA EM TRÊS TEMPOS
A segunda guerra indochinesa prolongou-se por 15 anos. No Vietnã, envolveu as forças regulares do Vietnã do Norte e os comunistas sul-vietnamitas (Vietcong, na expressão criada pelo presidente Diem), de um lado, e o Exército do Vietnã do Sul e as forças de intervenção dos Estados Unidos, auxiliadas por sul-coreanos e australianos, de outro. A guerra propagou-se para o Laos e o Camboja, sob a forma de conflitos entre os governos e as guerrilhas comunistas desses países. Os Estados Unidos interferiram nesses dois países procurando impedir a vitória das guerrilhas.
Em toda a guerra, os Estados Unidos perderam 58 mil homens no Vietnã e o exército do Vietnã do Sul, quase 225 mil. O Vietnã do Norte e o Vietcong perderam, em conjunto, algo em torno de 1,1 milhão de combatentes. Mesmo suportando baixas numa proporção de quatro para um, o Vietnã do Norte e seus aliados do Vietcong venceram a guerra e reunificaram o Vietnã.
A primeira fase do conflito desenrola-se até o final de 1963, quando se encerram quase simultaneamente os governos Diem, no Vietnã do Sul, e Kennedy, nos Estados Unidos. Nessa fase, Washington acalentava a convicção de que o Vietnã do Norte poderia ser levado à mesa de negociações apenas pela demonstração da disposição americana de sustentar o esforço de guerra do Vietnã do Sul. A administração Lyndon Johnson conservou essa crença ainda por um ano, antes de tomar a decisão do envio de forças de terra regulares para o Vietnã, no final de 1964. [pag. 405]
A “teoria do dominó” foi exposta pela primeira vez por Maxwell Taylor e Walt Rostow, que visitaram Saigon em outubro de 1961 na condição de altos conselheiros do presidente John Kennedy. A queda eventual do Vietnã do Sul repercutiria em toda a Indochina, derrubando o Laos, o Camboja, a Tailândia e a Malásia. Nas selvas e montanhas vietnamitas, jogava-se o futuro da Seato e da estratégia da “contenção” em toda a orla asiática. A força dessa tese originava-se da sua consistência com os fundamentos geopolíticos da política mundial de Washington.
Mesmo assim, Kennedy e, por algum tempo, Johnson resistiram à tentação da escalada. Logo após a visita de Taylor e Rostow, o secretário da Defesa Robert McNamara propõe o envio de seis divisões (200 mil soldados) ao Vietnã. Kennedy veta o plano, mas começa a providenciar helicópteros de transporte e permitir que os conselheiros atuem nas frentes de batalha. Em pouco mais de um ano, 16 mil oficiais americanos assumiam a direção das forças do Vietnã do Sul. No início de 1962, o exército sul-vietnamita já mobilizava 200 mil homens, mas o Vietcong controlava a maior parte das montanhas e selvas do Vietnã do Sul.
As dificuldades decorriam tanto de fatores militares quanto de circunstâncias políticas. Na Indochina, o governo sul-vietnamita começava a perder, irremediavelmente, os corações e as mentes dos camponeses. Em Genebra, Washington assinava, ao lado de 13 outras nações, uma declaração de neutralidade do Laos. Como resultado prático do tratado, as forças americanas e sul-vietnamitas ficariam impossibilitadas de interferir diretamente nos trechos laocianos da trilha Ho Chi Minh, que conectava a guerrilha Vietcong às suas bases e refúgios no Vietnã do Norte.
Em visita a Saigon, em maio de 1962, McNamara anunciou que “estamos vencendo a guerra”. Era o Vietcong que vencia. Em janeiro de 1963, na batalha de Ap Bac, 350 vietcongs derrotavam uma força bem mais numerosa de soldados sul-vietnamitas equipados pelos Estados Unidos. Em maio, demonstrações budistas contra o governo Diem eclodem em cidades do Vietnã do Sul. Monges budistas ateiam fogo em si mesmos e morrem queimados protestando contra as restrições do regime às celebrações religiosas. As imolações, filmadas e fotografadas, chocam a opinião pública nos Estados Unidos. O governo Diem ingressava em crise terminal.
Nos meses seguintes, a Casa Branca distancia-se de Diem e estimula conspirações golpistas conduzidas nos altos círculos militares do Vietnã do Sul. O golpe acontece em 1º e 2 de novembro. Diem é preso e assassinado, [pag. 406] possivelmente com a participação da CIA. Em Saigon, comemora-se a queda do regime, enquanto no interior a guerrilha se aproveita do vácuo de poder para reforçar suas posições. Três semanas depois, o assassinato de Kennedy conduzia Johnson à presidência dos Estados Unidos.
A segunda fase da Guerra do Vietnã desenrola-se entre 1964 e 1968. Essa foi a fase da escalada militar americana, conduzida por Johnson e McNamara. No final de 1965, um ano após a decisão do engajamento direto, os Estados Unidos tinham 184 mil tropas no Vietnã. No verão de 1966, as forças americanas chegaram a 429 mil tropas. O ponto mais alto seria atingido em abril de 1969, quando 543 mil americanos estavam engajados na guerra indochinesa.
Johnson resistiu durante todo o ano de 1964, antes de atravessar a fronteira conceitual do engajamento direto. Em março, autorizou bombardeios secretos contra a trilha Ho Chi Minh, em território do Laos, conduzidos por mercenários pilotando aviões antigos, mas não aceitou a proposta de bombardeios contra o Vietnã do Norte formulada pelo Conselho de Segurança Nacional. No verão, autorizou operações encobertas da CIA contra posições de radar no litoral do Vietnã do Norte. Essas operações tinham o suporte de embarcações de guerra americanas que, navegando no golfo de Tonquim, se encarregavam da vigilância eletrônica e localização dos radares inimigos.
O golfo de Tonquim foi o cenário dos episódios que culminaram com o engajamento direto. No início de agosto, barcos de patrulha norte-vietnamitas abrem fogo contra o destróier USS Maddox, que operava nas ilhas costeiras. No dia seguinte, um incidente misterioso envolve novamente o Maddox, que reporta um ataque de torpedos jamais comprovado. Sob pressão dos chefes militares, Johnson ordena bombardeios aéreos contra alvos costeiros, que resultam na derrubada de dois caças americanos. No dia 7, o Congresso americano aprova, com apenas dois votos contrários, a Resolução do Golfo de Tonquim, que conferia poderes quase ilimitados ao presidente para prevenir novos ataques contra forças americanas. A resolução abriu caminho para o prolongado engajamento americano numa guerra nunca declarada.
Mas a decisão de enviar tropas não estava tomada. No fim de agosto, deflagrando sua campanha eleitoral, Johnson prometia que “não enviaremos nossos rapazes a 9 mil ou 10 mil milhas de casa para fazer o que os rapazes asiáticos devem fazer por si mesmos”. Em outubro, uma conspiração na cúpula soviética substituía Nikita Kruschev por Leonid Brejnev, dias antes da primeira [pag. 407] explosão atômica da China e de uma simultânea concentração de tropas chinesas nas proximidades da fronteira do Vietnã do Norte. Em 3 de novembro, Johnson elegia-se com 61% dos votos populares, arrasando o rival republicano Barry Goldwater.
O candidato derrotado, um ultraconservador do Arizona, havia desafiado o tradicional controle do Partido Republicano pela elite da costa leste e sofreu as conseqüências eleitorais da divisão dos republicanos. Durante a campanha, Goldwater investiu pesadamente contra o que denominou de estratégia de “não-vitória” de Johnson, propondo bombardeios contra Hanói e o bloqueio de Haiphong, iniciativas inconcebíveis naquele momento, mas que viriam a ser adotadas anos depois. Na hora da derrota, muitos vaticinaram o encerramento de sua liderança política. Contudo, Goldwater tornou-se um ponto de referência e agrupamento no partido, inspirando a corrente que sustentaria a candidatura vitoriosa de Ronald Reagan, em 1980. Sua figura encontra-se na raiz da “nova maioria” republicana e da plataforma política de George W. Bush, o filho.
No início de 1965, Johnson ainda resistia a extrair as conclusões lógicas das circunstâncias do campo de batalha. O Exército Revolucionário do Povo, formado pelo Vietcong e por tropas regulares do Vietnã do Norte, com 170 mil homens no Vietnã do Sul, ameaçava povoados próximos a Saigon. Em janeiro, McNamara e McGeorge Bundy, o assessor de Segurança Nacional, apresentam a alternativa de “escalar ou retirar”. As decisões cruciais da escalada foram adotadas entre fevereiro e abril. A pedido do general William Westmoreland, o comandante americano no Vietnã, Johnson autoriza o envio de dois batalhões de marines para proteger a base aérea de Da Nang. Em seguida, inicia-se uma operação de bombardeios aéreos contra alvos no Vietnã do Norte que, prevista para durar dois meses, prosseguiria por três anos. Finalmente, numa decisão que permaneceu oculta da opinião pública até junho, tropas americanas passam a patrulhar o Vietnã do Sul.
Desde a deposição de Diem, o Vietnã do Sul conhecera diversos golpes e contra-golpes palacianos, conduzidos pela cúpula militar. Em junho de 1965, estabelecia-se o décimo governo em vinte meses. Mas o novo governo começava a sedimentar o poder de Nguyen Van Thieu, a figura escolhida por Washington para estabilizar o país.
No terreno militar, os primeiros meses do engajamento direto de tropas americanas evidenciaram o paradigma da guerra. As forças do Vietcong realizavam ataques limitados e operações de sabotagem contra alvos [pag. 408] secundários, enquanto os Estados Unidos conduziam bombardeios aéreos massivos contra fábricas, bases militares e a trilha Ho Chi Minh. As grandes batalhas esporádicas quase sempre resultavam de ofensivas americanas contra forças inimigas no Vietnã do Sul. Em agosto, na primeira ofensiva desse tipo, marines atacaram 15.000 guerrilheiros que se concentravam perto da base aérea americana de Chu Lai, matando mais de 600 soldados do Vietcong e perdendo apenas 45 homens.
Em novembro, na batalha do Vale de Ia Drang, o primeiro embate em grande escala de forças regulares, as tropas do Vietnã do Norte perderam cerca de 2 mil homens e mataram 79 americanos. Contudo, logo depois, uma emboscada guerrilheira contra 400 soldados da infantaria americana deixava 155 mortos e 124 feridos. O poder de fogo americano, baseado na estreita articulação da artilharia com o suporte aéreo de helicópteros de combate, caças e bombardeiros B-52, desequilibrava os confrontos abertos. Em compensação, as ofensivas limitadas, mas mortíferas, da guerrilha desgastavam as forças americanas e sul-vietnamitas. Em dezembro, o governo americano recebia relatórios que registravam a deserção de 90 mil soldados sul-vietnamitas durante 1965.
A estratégia seguida por Washington, de “busca e destruição” de forças inimigas no Vietnã do Sul, baseava-se no conceito de guerra defensiva. O paralelo 17 não deveria ser ultrapassado, pois uma guerra ofensiva poderia provocar o envolvimento direto de forças soviéticas e chinesas. As operações destinadas a interromper o fluxo de infiltrações por mar foram logo coroadas de sucesso, mas os pesados e incessantes bombardeios sobre a trilha Ho Chi Minh jamais alcançaram seus objetivos.
As críticas emergiram desde o início de 1966. O senador Robert Kennedy e o colunista Walter Lippmann profetizaram a cisão social nos Estados Unidos, decorrente das perdas crescentes de soldados. Em março, protestos populares contra a guerra pipocam em Nova York, Chicago, Washington, Boston e São Francisco, embora a guerra ainda contasse com o suporte da maioria da opinião pública.
Os bombardeios aéreos intensificaram-se ao longo de 1966 e 1967, atingindo alvos militares e de infra-estrutura no Vietnã do Norte, forças inimigas na Zona Desmilitarizada ao longo do paralelo divisório, depósitos de petróleo nos arredores de Hanói e Haiphong e a trilha Ho Chi Minh. As bombas de gravidade lançadas pelos B-52, as chamadas “fortalezas voadoras”, muitas vezes atingiam povoados e provocavam pesadas baixas civis. Os [pag. 409] bombardeios químicos com napalm e o “agente laranja” abriam extensas clareiras nas florestas.
A Operação Junction City, conduzida entre fevereiro e maio de 1967, foi a maior ofensiva militar de toda a guerra. No total, 26 batalhões americanos e sul-vietnamitas atacam as forças comunistas no oeste do delta do Mekong, impondo pesada derrota à guerrilha e obrigando a transferência do quartel-general do Vietcong para o Camboja. Mais de 2,7 mil guerrilheiros são mortos. As baixas americanas não chegam a 300 soldados. Esse padrão desequilibrado repete-se em outubro, na Batalha de Con Thieu, onde as perdas da guerrilha ultrapassam 2 mil homens, e em novembro, em Dak To, nas montanhas próximas à fronteira do Laos, com perdas superiores a 1.600 homens.
Em novembro, McNamara anuncia, numa emotiva entrevista à imprensa, seu pedido de renúncia. Em 21 de janeiro de 1968, 20 mil soldados do Vietnã do Norte cercam 5 mil marines na base aérea americana de Khe Sanh, que guarnecia a passagem ocidental da Zona Desmilitarizada. O cerco perduraria por 77 dias, durante os quais a mídia se referiu sem cessar a um “novo Dien Bien Phu”. A mídia estava errada, sob o ponto de vista da análise militar. O extraordinário poder de fogo aéreo americano transformou os arredores da base num matadouro de talvez até 10 mil norte-vietnamitas e assegurou a manutenção da posição americana. Contudo, o cerco a Khe Sanh combinou-se com a Ofensiva do Tet para provocar a crise política que geraria a decisão da retirada.
O Tet (Ano-Novo lunar) é o principal feriado vietnamita, e, como nos anos anteriores, vigorava uma trégua de 36 horas. Mas, na manhã de 31 de janeiro, a trégua foi rompida por ataques coordenados e simultâneos do Vietcong contra mais de uma centena de cidades e povoados do Vietnã do Sul. Os planejadores da Ofensiva do Tet imaginavam estar deflagrando insurreições populares incontroláveis. As insurreições não aconteceram e, no fim, a ofensiva representou um fracasso militar. Mesmo assim, as cenas de combates nas ruas de Saigon, Hué, Quang Tri, Da Nang e outros 32 centros provinciais, transmitidas para os Estados Unidos, destroçaram a propaganda da Casa Branca. A guerra não está sendo ganha — essa era a mensagem do Tet.
O foco principal da ofensiva foi Saigon, e entre os alvos mais destacados, estavam a embaixada americana e o palácio presidencial. Os ataques de comandos, amparados no fator-surpresa, provocaram pânico e caos, mas acabaram repelidos por reforços aerotransportados em questão de horas. Entretanto, os combates prosseguiram durante uma semana no eixo de tráfego [pag. 410]
[pag. 411]
de Phu Tho, no centro nervoso da capital, e por mais duas semanas em ruas secundárias da cidade. Em Hué, ocupada por 12 mil soldados do Vietcong, travaram-se os piores confrontos urbanos da guerra. Os fuzileiros navais retomaram a cidade após quase um mês de fogo incessante, destruindo quarteirões inteiros, perdendo cerca de 150 soldados e matando mais de 5.100 inimigos.7
McNamara deixou o Pentágono em 29 de fevereiro, quando se encerrava a Ofensiva do Tet mas prosseguia a Batalha de Khe Sanh. Sua saída, as manifestações crescentes contra a guerra nos Estados Unidos e a eleição do republicano Richard Nixon, em novembro de 1968, assinalariam o encerramento da segunda fase da Guerra do Vietnã.
Em 16 de março, soldados da infantaria americana invadem o povoado de My Lai, na província de Quang Tri, em busca de guerrilheiros infiltrados. Não encontram vietcongs, mas massacram com tiros à queima-roupa mais de 300 civis vietnamitas. O episódio permaneceu oculto durante um ano, antes de tornar-se um dos símbolos trágicos da guerra. De março a outubro de 1968, o governo Johnson definhou, envolvido em crise política terminal. Em maio, iniciavam-se infrutíferas negociações de paz em Paris. Em 5 de junho, o candidato democrata Robert Kennedy era assassinado em Los Angeles. Pouco depois, Westmoreland era substituído pelo general Creighton W. Abrams no comando das forças americanas no Vietnã.
Na presidência, Johnson conduziu o programa da Grande Sociedade, que estabeleceu o Welfare State (política de bem-estar social) nos Estados Unidos, e estendeu os direitos civis, eliminando as leis de discriminação racial. Não fosse a Indochina, teria uma reeleição assegurada. Mas o Vietnã encerrou sua carreira política e ele retirou a candidatura no início das primárias democratas, quando Robert Kennedy se apresentou como postulante. O assassinato de Kennedy abriu caminho para a claudicante postulação do vice-presidente Hubert Humphrey, um liberal convicto, ardente defensor das causas sociais mas tisnado pela lealdade a Johnson.
Na Convenção Democrata, em agosto de 1968, Humphrey conseguiu uma penosa indicação, enfrentando a candidatura antiguerra de Eugene McCarthy, sob o pano de fundo de ruidosas manifestações pela paz e da violenta repressão da polícia de Chicago. Os tumultos daqueles dias, provocados pelas ordens ensandecidas do prefeito Richard Daley, um remanescente mafioso da grande coalizão rooseveltiana, assinalaram o epílogo de um ciclo histórico do Partido Democrata. Johnson, que completava 60 anos no segundo dia da [pag. 412] convenção, preferiu celebrar o aniversário longe dos correligionários, em seu rancho no Texas. A retumbante vitória de Nixon, em novembro, inaugurou novo padrão eleitoral nos Estados Unidos, com a invasão republicana dos velhos bastiões democratas no sul.
A terceira fase da Guerra do Vietnã recobre o período de 1969 a 1973, quando são firmados os Acordos de Paris e os Estados Unidos retiram suas tropas da Indochina. Mas a guerra ainda prosseguiu até 30 de abril de 1975, quando as forças do Vietnã do Norte entraram vitoriosas em Saigon. Na sua campanha eleitoral, Nixon ergueu a bandeira da “paz com honra”. Os anos seguintes caracterizaram-se pela combinação da redução gradual das tropas americanas no Vietnã do Sul com os mais pesados bombardeios aéreos contra o Vietnã do Norte de toda a guerra. A política americana, desenhada pelo conselheiro de Segurança Nacional Henry Kissinger, era a “vietnamização” do conflito, isto é, a retirada das forças dos Estados Unidos e a capacitação do Vietnã do Sul para travar a guerra sem assistência estrangeira. 8
Nixon e Kissinger estenderam o teatro de guerra até o Camboja, autorizando bombardeios aéreos secretos de refúgios do Vietcong ao longo da fronteira com o Vietnã, logo revelados pelo New York Times. Aviões americanos também passaram a mirar suas bombas em pequenos diques centenários no Vietnã do Norte que controlam as cheias e regulam os sistemas de cultivo irrigado de arroz. Um artigo do geógrafo francês Yves Lacoste, publicado no Le Monde em agosto de 1972, denunciou a tática de bombardeios contra diques, que cessaram logo depois. Em maio de 1969, a derrota americana na Batalha de Hamburger Hill, uma colina de duvidosa importância militar próxima a Hué, custa 46 mortos e 400 feridos e transforma-se na última grande operação de “busca e destruição”.
A morte de Ho Chi Minh, de ataque cardíaco, em setembro de 1969, ocorre quando já se iniciavam encontros secretos entre Kissinger e dirigentes do Vietnã do Norte. No seu testamento, Ho pedia a intensificação da guerra, “até a partida do último americano”. No fim do ano, as tropas americanas tinham se reduzido em 115 mil homens.
Em março de 1970, um golpe militar articulado em Washington derruba o príncipe Sihanouk, no Camboja. O novo chefe de Estado, general Lon Nol, recebe apoio americano numa campanha contra o Khmer Vermelho (os comunistas do Camboja, organizados como exército guerrilheiro). Sihanouk une-se à guerrilha comunista, comandada por Pol Pot. Em maio tropas [pag. 413] americanas e sul-vietnamitas cruzam a fronteira cambojana e atacam bases do Vietcong, deflagrando amplos protestos contra a guerra nas universidades dos Estados Unidos. Em Ohio, policiais atiram contra estudantes pacifistas, matando quatro. .
A “vietnamização” fracassou no seu primeiro grande teste, a Operação Lam Son 719, uma ofensiva terrestre conduzida por 17 mil soldados do Vietnã do Sul na trilha Ho Chi Minh, em território do Laos, entre fevereiro e abril de 1971. Apesar do apoio aéreo americano, a ação terminou em amarga retirada, após 7.600 baixas sul-vietnamitas, 215 baixas americanas e a perda de mais de 100 helicópteros. As baixas do Vietnã do Norte podem ter atingido até 20 mil homens, mas o fracasso dos atacantes provocou o congelamento das grandes operações ofensivas até o fim da guerra.
Em junho de 1971, a Casa Branca anunciava a histórica visita de Nixon à China, que ocorreria oito meses depois. Os Estados Unidos deflagravam a política de aproximação com Pequim, destinada a reorganizar o cenário geopolítico da Ásia no pós-Vietnã.9 A visita de Nixon causou profunda preocupação em Hanói, que temia que a China passasse a pressionar por um acordo de paz favorável às pretensões americanas. Para evitar essa mudança de cenário, em abril de 1972 o Vietnã do Norte lança a Ofensiva Onda do Leste, que mobilizou 200 mil soldados sob o comando de Giap. As forças norte-vietnamitas, aproveitando a redução do nível de tropas americanas, atravessam a Zona Desmilitarizada e iniciam ataques diretos contra as cidades de Quang Tri, Kontum e An Loc.
Nixon reage autorizando pesados bombardeios aéreos do Vietnã do Norte, incluindo a Zona Desmilitarizada, Hanói, a baía de Haiphong, rodovias, pontes e infra-estruturas petrolíferas. Quang Tri cai no primeiro dia de maio. Os Estados Unidos minam a baía de Haiphong, interditando o principal porto norte-vietnamita. A 22 de maio, Nixon desembarca em Moscou e deflagra sua política da “distensão”. Em agosto, as últimas tropas de combate americanas retiram-se do Vietnã, pouco após a célebre visita de Jane Fonda a Hanói. Em meados de setembro, o Vietnã do Sul recaptura Quang Tri, encerrando a ofensiva inimiga. Em seguida, bombardeios americanos contra pistas de pouso eliminam um décimo do poderio aéreo do Vietnã do Norte. Entre março e setembro, o Vietnã do Sul perde 40 mil homens. O Vietnã do Norte sofre baixas de 100 mil homens e metade de todos os seus tanques e artilharia. Giap, o gênio de Dien Bien Phu, é afastado do comando militar. [pag. 414]
Os Acordos de Paris emergem nessa conjuntura, marcada pelo colapso da vontade política americana de prosseguir a guerra e pela eficácia dos bombardeios aéreos conduzidos nos meses anteriores. Nas negociações entre Kissinger e o vietnamita Le Duc Tho, o primeiro desiste da exigência de retirada das forças comunistas do Vietnã do Sul e o segundo, da exigência de afastamento do presidente Van Thieu e da formação de um governo de coalizão nacional em Saigon.
As negociações ainda se arrastam por alguns meses, durante os quais Nixon é esmagadoramente reeleito e, sob forte pressão de Van Thieu, tenta obter novas concessões. No Natal, Nixon ordena 11 dias de novos bombardeios, os mais intensos de toda a guerra, contra alvos na região de Hanói. A 27 de janeiro de 1973, apesar das amargas recriminações de Saigon, os Acordos de Paris são firmados pelos governos dos Estados Unidos, do Vietnã do Sul e do Vietnã do Norte, e por representantes do Vietcong. O tratado de paz determina o cessar-fogo, a retirada do pessoal militar americano remanescente e a futura reunificação do Vietnã. O Vietnã do Sul é tratado como um país com dois governos, o de Van Thieu e o do Vietcong.
Em junho, enquanto a fogueira do caso Watergate (a crise política deflagrada pela denúncia das escutas clandestinas usadas por Nixon contra os democratas) começava a arder, o Congresso americano aprovava uma emenda proibindo qualquer novo envolvimento militar no Sudeste Asiático. A decisão desmoralizou as promessas de Nixon a Van Thieu, de reagir pela força a uma eventual violação do cessar-fogo por parte do Vietcong. Menos de um ano e meio depois, forças do Vietnã do Norte entravam vitoriosas em Saigon, encerrando a segunda guerra indochinesa. O Vietnã foi reunificado em 1976 e a cidade de Saigon, rebatizada em homenagem a Ho Chi Minh.
O VIETNÃ E A HISTÓRIA
A Guerra do Vietnã, ainda tão próxima de nós, é objeto de extensa abordagem historiográfica. A historiografia da guerra é um fenômeno quase exclusivamente ocidental, e sobretudo americano, pois as narrativas e avaliações vietnamitas, soviéticas e chinesas carecem de conteúdo crítico. Os estudos americanos, pelo contrário, evidenciam os conflitos de pontos de vista e interpretação que se manifestaram tanto durante a Guerra Fria quanto após a queda do Muro de Berlim. [pag. 415]
A historiografia revisionista, liberal e contrária à guerra, forneceu as interpretações hegemônicas sobre o conflito. Essencialmente, a visão estabelecida afirma que a escalada militar americana, decidida por Johnson, representou desastrosa ruptura com a orientação de Kennedy; que a guerra não podia ser vencida e, portanto, não deveria ter sido travada; que a “teoria do dominó” representava uma fantasia geopolítica ou mero pretexto usado pelos “falcões” de Washington; que Ho Chi Minh corporificava a vontade legítima da nação vietnamita e o Vietnã do Sul não passava de um experimento artificial sustentado pelas potências do Ocidente. Cada uma dessas conclusões é foco de um debate histórico legítimo.
A tese de que não teria ocorrido a escalada sem o atentado do Texas que vitimou Kennedy se tornou algo como um mito popular, sintetizado no filme JFK (dirigido por Oliver Stone, 1991). A documentação histórica não sustenta a célebre tese. Kennedy opunha-se à escalada, mas Johnson também resistiu a essa orientação durante meses, até render-se à lógica dos eventos no teatro de operações. Kennedy pretendia forçar negociações de paz, mas não admitia perder o Vietnã. Johnson conduziu uma escalada gradual e uma guerra limitada, acalentando sempre a crença de que Ho Chi Minh seria eventualmente levado à mesa de negociações. No fim das contas, Nixon perseguiu essa mesma meta, nas condições históricas desfavoráveis provocadas pelo esgotamento da vontade de combater dos Estados Unidos.
Os documentos mostram que Kennedy expressou, em conversas privadas, seu desejo de retirar os conselheiros militares americanos do Vietnã. Mas esses comentários precederam o golpe, tramado pela Casa Branca, que derrubou o governo Diem e eliminou o único líder nacional viável no Vietnã do Sul. O golpe representou o ponto de não-retorno do engajamento americano na Indochina e deve ser interpretado como a verdadeira origem da escalada.10
Os Estados Unidos jamais ultrapassaram a fronteira da guerra limitada. O general Westmoreland sofreu críticas pertinentes sobre sua estratégia de uso de grandes unidades em operações de atrito, mas a alternativa de emprego de pequenas unidades não alteraria o cenário geral, de uma guerra travada nos termos do inimigo. Em agosto de 1967, testemunhando em audiências secretas no Senado, McNamara afirmou que a guerra só poderia ser vencida pela “completa aniquilação do Vietnã do Norte”, mas essa opção foi descartada.
Numa entrevista concedida em abril de 1996 no Instituto de Estudos Internacionais, em Berkeley, McNamara confidenciou que os chefes do Estado-Maior americano recomendaram ações que “poderiam levar a uma confrontação [pag. 416] com a China e a União Soviética”, o que, por sua vez, “poderia exigir o uso de armas nucleares”. Contudo, Johnson e McNamara nunca aceitaram as propostas de invasão do Vietnã do Norte, bombardeios irrestritos sobre Hanói e Haiphong ou bombardeios contra as rotas de suprimentos no sul da China, pois temiam provocar uma expansão incontrolável da guerra.11 No quadro da guerra limitada, as forças americanas venciam batalha após batalha, tomando áreas ocupadas pelo inimigo apenas para vê-las recuperadas pelos guerrilheiros após a partida das tropas dos Estados Unidos.
O tempo e a vontade conspiravam a favor de Ho Chi Minh. Johnson interrompeu por seis vezes sua primeira grande campanha de bombardeios aéreos, que se desenrolou entre 1965 e 1967, na expectativa de abrir caminho para negociações. Hanói recusou todas as propostas de Washington, insistindo em nada menos que a retirada americana. Conseguiu o que queria quando a opinião pública americana se voltou decisivamente contra a guerra. Esse momento foi atingido logo após o final da Ofensiva do Tet, quando o general Westmoreland solicitou mais 206 mil soldados e, sem consegui-los, deixou o comando das forças americanas no Vietnã.
A estratégia da “paz com honra”, de Nixon e Kissinger, não teve nenhum efeito senão o de prolongar a tragédia. Provou-se que os termos do acordo de paz de 1973 estavam disponíveis pelo menos desde 1969 ou talvez até mesmo no final da Ofensiva do Tet. Mas a obsessão dos donos do poder ceifou ainda as vidas de 20 mil americanos e centenas de milhares de vietnamitas. Nos anos finais da guerra, a desmoralização e a indisciplina contaminavam as tropas americanas e, mais ainda, as sul-vietnamitas. “Não se pode pedir a um ser humano que seja o último a morrer”, na frase célebre de John Kerry, ex-combatente que aderiu ao movimento antiguerra e candidato democrata derrotado por Bush em 2004. Contudo, era exatamente isso que se ordenava aos soldados engajados na guerra perdida.
A derrota foi construída nas cidades dos Estados Unidos, não nas selvas e
montanhas da Indochina. No Vietnã, travou-se a primeira guerra da “era da informação” e as câmeras, os fotógrafos e os repórteres praticamente não encontraram restrições na cobertura das batalhas. O retorno de corpos de soldados americanos mortos, os confrontos urbanos do Tet, a matança incessante nas selvas, o massacre de civis inocentes foram transmitidos pela TV, reproduzidos em fotos, narrados em reportagens. A publicidade recebida pelas investigações do massacre de My Lai deveu-se à ação de uma imprensa livre e vibrante. [pag. 417]
O governo perdeu as batalhas decisivas que tentou conduzir contra a liberdade de informação. A maior delas foi o episódio dos Papéis do Pentágono, um relato ultra-secreto, de 7 mil páginas, sobre o envolvimento americano na Indochina desde 1945. Os segredos foram vazados em 1971 por um analista do Departamento de Defesa, Daniel Ellsberg, para o New York Times e publicados a partir de 13 de junho. Nixon conseguiu sustar a publicação durante 15 dias, invocando razões de segurança nacional e tentou condenar Ellsberg a uma pena de prisão, mas a Corte Suprema derrubou o veto presidencial. Os documentos escancaram para o público a litania de mentiras oficiais, aprofundando a crise de credibilidade que minava o esforço de guerra.
As imagens produziram impacto maior ainda que as palavras. Em 8 de maio de 1972, durante as operações aéreas deflagradas por Nixon, pilotos sul-vietnamitas bombardearam por acidente um povoado do Vietnã do Sul. A foto de uma menina nua, queimada por napalm, fugindo do povoado em chamas tornou-se um emblema da tragédia na Indochina. As dificuldades logísticas e, também, o viés político antiguerra dos jornalistas americanos evitaram uma cobertura similar das atrocidades cometidas pelo Vietnã do Norte e pelos seus aliados do Vietcong.
Na avaliação de um historiador alinhado com os neo-conservadores republicanos, a
Primeira ou a Segunda Guerra Mundial poderiam ter tido um fim diferente caso os
europeus houvessem assistido em primeira mão ao ataque da Batalha do rio Somme, ou
se os cidadãos dos Estados Unidos houvessem visto a carnificina em Omaha Beach
enquanto os repórteres comentavam no rádio a insanidade do ataque americano a
posições fixas vindo de um mar revolto. 12
Esse ponto de vista, adotado pelo Pentágono, explica as severas restrições impostas ao trabalho da imprensa na Guerra do Golfo de 1991.
O Vietnã representou, para o pensamento militar americano, uma guerra de transição. O “estilo americano de guerra”, delineado na Guerra de Secessão, alcançou seu apogeu na Segunda Guerra Mundial. Esse “estilo” se baseava na mobilização geral das forças de uma poderosa economia industrial, numa rude estratégia de atrito, na superioridade oferecida por um poder de fogo arrasador, na tática de ofensivas diretas e decisivas. A Guerra da Coréia revelou, pela primeira vez, as limitações dessa tradição militar e a Guerra do Vietnã assinalou seu esgotamento.
Mas é preciso matizar a interpretação. O Vietnã foi o palco de uma evolução do “estilo americano de guerra” e, sob certos aspectos, antecipou tendências que encontrariam plena expressão décadas mais tarde. Na Indochina, só ocorreu [pag. 418] uma batalha aérea digna de nota: a Operação Bolo, em 2 de janeiro de 1967, quando 28 caças F-4 Phantom atraem diversos MiG-21 norte-vietnamitas para o combate sobre Hanói, derrubando sete deles. O domínio absoluto dos ares pelos Estados Unidos resultou na redefinição do papel da Força Aérea, que passou a funcionar como elemento de apoio direto às forças de terra. A estreita coordenação entre forças de ar e terra, inaugurada no Vietnã, aprimorou-se mais tarde e evidenciou todo o seu poder letal no golfo Pérsico. Além disso, no Vietnã, os Estados Unidos ensaiaram o uso intensivo das ações de comandos que figurariam com destaque na fulminante operação militar americana no Afeganistão, em 2001.
Na Indochina, os Estados Unidos levaram às suas últimas conseqüências a tática de bombardeios aéreos de saturação. Durante toda a guerra, caças e bombardeios americanos realizaram 3 milhões de vôos e despejaram 8 milhões de toneladas de bombas, quatro vezes o total empregado na Segunda Guerra Mundial. O poderio aéreo não foi inútil, como reza a lenda. A fase final de bombardeios, sob Nixon, derrotou a ofensiva geral deflagrada por Giap, na conjuntura de rápida retirada de tropas americanas.13 Contudo, o mais brutal poder de fogo exibido na história militar não podia compensar a proibição de invadir o Vietnã do Norte e a carência de vontade política da nação americana de empreender uma guerra total.
A “teoria do dominó”, que serviu como motivação para o engajamento americano no Vietnã, revelou-se verdadeira, mas apenas nos limites da antiga Indochina Francesa. Quase simultaneamente à queda de Saigon, os comunistas tomaram o poder no Laos e no Camboja. Sob o regime de Pol Pot, o Camboja conheceu o terror vermelho na sua versão mais trágica. Entre 1975 e 1979, mais de 2 milhões de pessoas morreram em fuzilamentos indiscriminados ou nos campos de concentração do regime ensandecido. O genocídio foi interrompido apenas pela invasão do Camboja por forças vietnamitas, que instalaram em Phnom Penh um regime alinhado com Hanói.
Entretanto, contrariando a lógica maniqueísta da “teoria do dominó”, a queda do Vietnã não difundiu o comunismo pela Ásia. Em 1979, enquanto o Vietnã invadia o Camboja, tropas chinesas cruzavam a fronteira vietnamita para tentar impedir a queda do regime de Pol Pot. Uma guerra breve e sangrenta terminou com a retirada das forças chinesas. O “comunismo internacional” só existia no plano da ficção, pois as políticas externas da União Soviética, da China e do Vietnã não obedeciam a uma ideologia mas aos interesses singulares de cada um desses países. [pag. 419]
Durante a segunda guerra indochinesa, o Vietnã perdeu algo em torno de 4 milhões de civis. Depois de 1975, o país conheceu sangrentos episódios de repressão política e religiosa, crises de fome, a diáspora de cerca de 1,5 milhão de pessoas e o desespero dos refugiados que tentaram a sorte se lançando ao mar em barcos rústicos. O Vietnã não serviu de exemplo a ninguém. A Indochina comunista permaneceu isolada, politicamente, do resto da Ásia.
Em 2000, Bill Clinton tornou-se o primeiro presidente americano a visitar o Vietnã reunificado. Ele encontrou um país pontilhado pelos sinais de uma reforma econômica, deflagrada na primeira metade da década de 1990, que não chegou a deslanchar mas também não foi revertida. Essa reforma parcial atraiu investimentos sobretudo para o sul e, em especial, para a Cidade de Ho Chi Minh. As indústrias dos arredores da antiga Saigon e os campos de arroz do Mekong comandam a economia vietnamita, embora o poder político esteja firmemente instalado em Hanói.
O sul do Vietnã beneficiou-se do espírito empreendedor e das redes de negócios da sua comunidade de chineses étnicos, de uma infra-estrutura menos arruinada pela guerra e dos laços com o exterior criados pela onda de diáspora do imediato pós-guerra. Com a reunificação, restabeleceu-se o padrão secular de migrações do norte para o sul, interrompidas durante a guerra. O Citibank e o Sheraton, além de diversas empresas japonesas, estabeleceram-se em Ho Chi Minh bem antes da visita do presidente americano. No ano da visita de Clinton, a cidade ganhou a única bolsa de valores do país.
No trigésimo aniversário da queda de Saigon, as quatro províncias do delta do Mekong abrigavam 5 milhões de habitantes, enquanto as sete províncias do delta do rio Vermelho tinham o dobro dessa população. Mas as províncias meridionais exportavam cerca de oito vezes mais que as setentrionais e recebiam um volume cinco vezes maior em investimentos estrangeiros. Isoladamente, a cidade de Ho Chi Minh representava quase 20% do PIB vietnamita e 40% das exportações, mesmo concentrando apenas 9% da população. Ironicamente, no campo de batalha da economia, o sul acabou derrotando o norte. O revisionismo histórico neoconservador usa esse argumento para sustentar, em retrospecto, que o Vietnã do Sul era um Estado viável e só sucumbiu em virtude da carência de vontade política dos Estados Unidos.
A experiência do Vietnã deitou raízes profundas no imaginário americano. Uma extensa filmografia registra narrativas conflitantes sobre os significados da única grande derrota militar americana na história. Os boinas verdes (The Green Berets, Ray Kellogg, 1968), produzido quando a guerra perdia sustentação [pag. 420] na opinião pública, foi estrelado por John Wayne e procurou ligar o conflito na Indochina à tradição da luta pela liberdade representada pela Segunda Guerra Mundial. Corações e mentes (Hearts and Minds, Peter Davis, 1974), documentário realizado logo após a retirada americana, deu voz às atitudes políticas contrastantes, nos Estados Unidos e no Vietnã, sobre o conflito indochinês. O franco atirador (The Deer Hunter, Michael Cimino, 1978), com Robert De Niro, não se preocupou com os vietnamitas, mas com a dor dos prisioneiros de guerra americanos. Apocalipse Now (Apocalipse Now, Francis Ford Coppola, 1979), com Marlon Brando, inspirou-se no Joseph Conrad de Coração das trevas para interpretar a guerra como perda da razão, loucura e caos. Rambo: programado para matar (First BIood, Ted Kotcheff, 1982), inaugurou a série protagonizada por Sylvester Stallone sobre um veterano ex-boina verde que retoma a luta pela liberdade, enfrentando os burocratas responsáveis pela derrota na Indochina e, no segundo filme da saga, retornando ao Vietnã para resgatar prisioneiros de guerra deixados para trás.
A passagem do tempo não reduziu o interesse pelo Vietnã. Platoon (Platoon, Oliver Stone, 1986) enxergou a guerra pelos olhos de um jovem recruta, propondo uma crítica moral da ação das tropas americanas. Hanói Hilton (The Hanoi Hilton, Lionel Chetwynd, 1987) retratou a infame prisão de Hoa Lo e o elo profundo de camaradagem forjado pelo sofrimento entre os soldados americanos. Hamburger Hill (Hamburger Hill, John Irvin, 1987) narrou a sangrenta batalha sem sentido, interpretando-a como símbolo de toda a guerra. A comédia dramática Bom Dia Vietnã! (Good Morning, Vietnam, Barry Levinson, 1987), olhou a guerra pelas lentes de um DJ da rádio das Forças Armadas que, em 1965, tentava amenizar os horrores do conflito. Nascido em 4 de julho (Born on the Fourth of July, Oliver Stone, 1989) foi concebido como um manifesto político e tecido do ponto de vista de um veterano paralítico que adere ao movimento contra a guerra.
O Vietnã tornou-se uma síndrome política e cultural nos Estados Unidos. A substituição do exército de conscritos por forças armadas profissionais, anunciada logo após a retirada americana, iniciou a longa trajetória de reconstituição da credibilidade militar da superpotência. As guerras travadas mais tarde, no golfo Pérsico, nos Bálcãs e no Afeganistão, evidenciaram o sucesso do empreendimento social e tecnológico de transformação militar dos Estados Unidos. Mas o espectro de um “novo Vietnã” acompanhou, na imaginação das elites e da opinião pública, o desenrolar de cada uma dessas guerras. Esse espectro continuará vivo na sociedade americana. [pag. 421]
AGRADECIMENTO
Agradeço a leitura e a crítica precisa do amigo Newton Carlos, que também disponibilizou valiosos documentos jornalísticos dos anos da Guerra do Vietnã. Obviamente, sou o único responsável pelas idéias aqui expressas.
NOTAS
(1) Ver R. E Weigley, The american way of war: a history of United States military strategy and
policy, Indianapolis, Indiana University Press, 1987.
(2) Na expressão de Paul Mus, L"angle de l"Asie, Paris, Hermann, 1977. (3) Ver a biografia clássica do líder comunista vietnamita, Ho Chi Minh, de Jean Lacouture.
(Paris, Sevil, 1967).
(4) M. Ferro, História das colonizações, São Paulo, Companhia das Letras, 1996, p. 305. (5) Idem, pp. 315-316.
(6) Sua obra mais importante, publicada originalmente em 1942, é America’s strategy in world
politics, the United States and the balance of power (Handen, Archon Books, 1970).
(7) Sobre a Ofensiva do Tet e a Batalha de Khe Sanh, ver o capítulo 10 de V. D. Hanson, Por
que o Ocidente venceu, Rio de Janeiro, Ediouro, 2002.
(8) Ver o capítulo 27 de H. Kissinger, Diplomacia, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1997. (9) Idem, cap. 28.
(10) Ver H. Jones, Death of a generation: how the assassinations of Diem and JFK prolonged the
Vietnam War, New York, Oxford University Press, 2003.
(11) Ver R. S. McNamara, In retrospect: the tragedy and lessons of Vietnam, New York, Knopf,
1996.
(12) V. D. Hanson, op. cit., p. 585.
(13) Ver W. Thompson, To Hanoi and back: the U. S. Air Force and North Vietnam, 1966-
1973, Washington, Smithsonian Institute Press, 2000.
BIBLIOGRAFIA
FERRO, M. História das colonizações. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. FRANCHINÍ, P. Les mensonges de la guerre d’Indochine. Paris: Perrin, 2005. HANSON, V. D. Por que o Ocidente venceu. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. HUNT, M. H. Lyndon Johnson’s war: America"s cold war crusade in Vietnam, 1945-1968. New
York: Hill and Wang, 1996.
ISAACS, A. R. Vietnam shadows: the war, its ghosts, and its legacy. Baltimore: Johns Hopkins
University Press, 1997.
JONES, H. Death of a generation: how the assassinations of Diem and JFK prolonged the
Vietnam War. New York: Oxford University Press, 2003.
KAISER, D. American tragedy: Kennedy, Johnson and the origins of the Vietnam War.
Cambridge: Harvard University Press, 2000.
KISSINGER, H. Diplomacia. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1997. LACOUTURE, J. HO Chi Minh. Paris: Seuil, 1967. LOGEVALL, F. Choosing war: the lost chance for peace and the escalation of war in Vietnam.
Berkeley: University of California Press, 1999.
MCNAMARA, R. S. In retrospect: the tragedy and lessons of Vietnam. Nova York: Knopf, 1996.
[pag. 422]
MUS, P. L’angle de 1’Asie. Paris: Hermann, 1977. SCHULZINGER, R. D. A time for war: the United States and Vietnam, 1941-1975. New York:
Oxford University Press, 1997.
SPYKMAN, N. America’s strategy in world politics, the United States and the balance of power.
Hamden: Archon Books, 1970
THOMPSON, W. To Hanoi and back: the U. S. Air Force and North Vietnam,1966-1973.
Washington:Smithsonian Institute Press, 2000.
WEIGLEY, R. F. The american way of war: a history of United States military strategy and
policy. Indianapolis: Indiana University Press, 1987.
PERIÓDICOS
CARLOS, N. A conspiração: de Kennedy ao Vietnam. Edições Encontro, s.d. Correio da Manhã. 11/10/1972.
Herald Tribune. 28/8/1972.
Jornal do Brasil. 14/3/1965; 24/1/1973; 25/1/1973; 30/4/1995. Newsweek. 27/12/1971.
The New York Times. 1/5/1975. [pag. 423]
[pag. 424]