Joseph Anton: Memórias

Salman Rushdie · Capítulo 1 de 11

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Joseph Anton: Memórias

Prólogo

O prim eiro corvo

 

Depois, quando o m undo explodia a seu redor e os corvos m ortíferos se reuniam no trepa-trepa no pátio da escola, ele se sentiu irritado consigo m esm o por ter esquecido o nom e da repórter da bbc que lhe avisara que sua vida antiga tinha acabado e que um a vida nova, m ais som bria, estava para com eçar. Ela ligara para a casa dele, em sua linha privada, sem explicar com o tinha conseguido o núm ero. “Com o você se sente”, perguntou, “sabendo que foi condenado à m orte pelo aiatolá Khom eini?” Era um a terça-feira ensolarada em Londres, m as foi com o se a pergunta apagasse a luz do sol. O que ele respondeu, sem saber direito o que dizia, foi: “Não m e sinto bem ”. O que pensou foi: Estou morto. Ficou pensando em quantos dias lhe restavam para viver, e achou que a resposta seria, com toda probabilidade, um núm ero de um só algarism o. Desligou o telefone e desceu, apressado, a escada de sua sala de trabalho, no andar de cim a da estreita casa gem inada em que m orava, em Islington. As j anelas da sala tinham venezianas de m adeira, e, levado por um im pulso absurdo, ele as fechou e trancou-as com barras. Depois, passou a chave na fechadura da porta de entrada.

Era o Dia dos Nam orados — 14 de fevereiro —, m as ele não estava em bons term os com a m ulher, a rom ancista am ericana Marianne Wiggins. Seis dias antes, ela lhe dissera que não estava feliz com o casam ento, que “j á não se sentia bem com ele”, em bora estivessem casados havia pouco m ais de um ano, e tam bém ele sabia que o casam ento tinha sido um erro. Agora ela o fitava enquanto ele andava pela casa, nervoso, fechando cortinas, verificando as fechaduras das j anelas, com o corpo galvanizado pelas notícias, com o se um a corrente elétrica passasse por ele, e teve de lhe explicar o que estava acontecendo. Ela reagiu bem , e com eçou a falar sobre o que deveriam fazer. Usou o pronom e nós. Foi um gesto de coragem .

Um carro parou diante da casa, m andado pela cbs. Naquela m anhã, ele deveria aparecer, ao vivo, no program a de notícias da rede de televisão am ericana, em transm issão via satélite a partir dos estúdios em Bowater House, Knightsbridge. “Tenho de ir”, disse. “É ao vivo. Não posso deixar de ir.” Mais tarde, ainda de m anhã, seria realizada na igrej a ortodoxa na Moscow Road, em Bay swater, a cerim ônia em m em ória de seu am igo Bruce Chatwin. Menos de dois anos antes, ele com em orara seu quadragésim o aniversário em Hom er End, a casa de Bruce em Oxfordshire. Agora Bruce tinha m orrido de aids, e a m orte batia tam bém à sua própria porta. “E a cerim ônia?”, perguntou sua m ulher. Ele não soube o que lhe responder. Abriu a porta, saiu, entrou no carro e partiu para os estúdios. Em bora ainda não soubesse disso naquela hora, e por isso a saída não lhe pareceu especialm ente carregada de significado, ele só voltaria àquela casa, onde m orava havia cinco anos, três anos depois, quando ela j á não lhe pertenceria.

Na sala de aula em Bodega Bay, na Califórnia, as crianças cantam uma música triste, sem pé nem cabeça. Ela só penteia o cabelo um a vez ao ano, tiri-ri, tiri-lá, ló, ló, ló. Do lado de fora da escola sopra um vento frio. Um corvo desce do alto do céu e pousa no trepa-trepa do pátio. A música das crianças é um rondó.Começa, mas não termina. Repete-se sem parar, sem parar. A cada passada do pente, derram ava um a lágrim a, tiri-ri, tiri-lá, ló, ló, ló, ei-bum bosidade, petralhapetralha, retroquo-qualidade, carvalhê, carvalhá, ló, ló, ló. Já são quatro corvos no trepa-trepa, e logo chega um quinto. Na sala de aula, as crianças cantam.Agora são centenas os corvos no trepa-trepa, e outros milhares enchem o céu, como uma praga do Egito. Começou uma canção, que não tem fim.

Quando o primeiro corvo pousou no trepa-trepa, parecia individual, especial, específico. Não era necessário deduzir uma teoria geral, um estado de coisasmais amplo que se devesse à sua presença. Mais tarde, depois que a praga começou, foi fácil para as pessoas ver o primeiro corvo como um prenúncio. Mas, quando ele pousou no trepa-trepa, era apenas uma ave.

Nos anos seguintes, ele sonhará com essa cena, entendendo que a história dele é uma espécie de prólogo: a narrativa do momento em que o primeiro corvo pousa. Quando a história começou, era só a dele; individual, especial, específica. Ninguém se sentia propenso a tirar quaisquer conclusões dela. Doze anos ou mais se passariam antes que a história crescesse até encher o céu, como se o arcanjo Gabriel estivesse em pé no horizonte, como dois aviões se esborrachando contra arranha-céus, como a praga de pássaros assassinos no grande filme de Alfred Hitchcock.

Nos estúdios da cbs, ele era a grande notícia do dia. Na sala da redação e em vários m onitores j á usavam a palavra que em breve estaria pendurada em seu pescoço com o um a pedra de m oinho. Usavam essa palavra com o se fosse um sinônim o de “sentença de m orte”, e ele queria argum entar, pedantem ente, que não era esse o significado da palavra. No entanto, desse dia em diante, ela significaria isso para a m aior parte das pessoas no m undo. E para ele tam bém .

Fatwa.

“Inform o aos m uçulm anos zelosos do m undo que o autor do livro Versos satânicos, que é contra o islã, o Profeta e o Corão, bem com o todos aqueles que, conscientes de seu conteúdo, envolveram -se em sua publicação, estão sentenciados à m orte. Peço a todos os m uçulm anos que os executem , onde quer que os localizem .” Alguém lhe entregou um a versão im pressa do texto enquanto ele era levado em direção ao estúdio para a entrevista. Mais um a vez, seu velho eu quis contestar, dessa vez o verbo “sentenciar”. Aquilo não era um a sentença lavrada por um tribunal que ele reconhecesse, ou que tivesse algum a j urisdição sobre ele. Era o edito de um velho cruel e m oribundo. Mas ele sabia tam bém que os hábitos de seu antigo eu não tinham m ais serventia algum a. Ele era agora um a nova pessoa. Era a pessoa que estava no olho do furacão, não m ais o Salman que seus am igos conheciam , m as o Rushdie autor de Versos satânicos, um título sutilm ente distorcido pela om issão do artigo Os. Os versos satânicos era um rom ance. Versos satânicos eram versos que eram satânicos, e ele era o autor satânico desses versículos, o “Satã Rushdy ”, a criatura chifruda que estava nos cartazes carregados por m anifestantes pelas ruas de um a cidade distante, o enforcado de língua verm elha para fora da boca nos cartazes toscos que carregavam . Enforquem o Satã Rushdy. Com o era fácil apagar o passado de um hom em e construir um a nova versão dele, um a versão esm agadora, contra a qual parecia im possível lutar.

O rei Carlos i negara a legitim idade da sentença lavrada contra ele. Isso não im pediu que Oliver Crom well o m andasse decapitar.

Ele não era rei. Era o autor de um livro.

Olhou para os j ornalistas que o fitavam e pôs-se a im aginar se era assim que as pessoas olhavam os hom ens que eram levados ao patíbulo, à cadeira elétrica ou à guilhotina. Um correspondente estrangeiro se aproxim ou para dem onstrar sim patia, e o escritor perguntou a esse hom em o que ele pensava sobre o que Khom eini dissera. Até que ponto deveria levar aquilo a sério? Era apenas retórica ou algum a coisa genuinam ente perigosa?

“Ah, não se preocupe m uito”, disse o j ornalista. “Khom eini sentencia o presidente dos Estados Unidos à m orte toda sexta-feira de tarde.”

No ar, quando lhe perguntaram com o reagira à am eaça, ele respondeu: “Eu gostaria de ter escrito um livro m ais crítico”. Orgulhou-se, naquele dia e para sem pre, de ter dito aquilo. Era a verdade. Não considerava que seu livro criticasse dem ais o islã, m as, com o disse na televisão am ericana naquele dia, era provável que um a religião cuj os líderes procediam dessa form a m erecesse algum as críticas.

Term inada a entrevista, disseram -lhe que sua m ulher tinha telefonado. Ele ligou para casa. “Não volte aqui”, disse ela. “Há duzentos j ornalistas na calçada, à sua espera.”

“Vou para a agência”, disse ele. “Arrum e um a m ala e se encontre com igo lá.”

Sua agência literária, a Wy lie, Aitken & Stone, ficava num a casa de estuque branco, na Fernshaw Street, em Chelsea. Não havia j ornalistas acam pados diante dela — era evidente que a im prensa m undial não im aginara que ele fosse à sua agência num dia daqueles — e, quando ele entrou, todos os telefones do prédio estavam tocando, e todas as cham adas eram a respeito dele. Gillon Aitken, seu agente britânico, lançou-lhe um olhar estupefato. Falava ao telefone com Keith Vaz, representante anglo-indiano de Leicester East no Parlam ento. Cobriu o bocal e sussurrou: “Quer falar com essa pessoa?”.

Naquela conversa, Vaz disse que o acontecido era “espantoso, nada m enos que espantoso”, e prom eteu seu “pleno apoio”. Sem anas depois, foi um dos principais oradores num a m anifestação contra Os versos satânicos, com a presença de m ais de 3 m il m uçulm anos, e descreveu o evento com o “um dos grandes dias na história do islã e da Grã-Bretanha”.

Ele percebeu que não podia planej ar o que fazer, que não conseguia im aginar com o seria sua vida daí em diante ou que planos fazer. Só podia se concentrar no im ediato, e o im ediato era o culto fúnebre em m em ória de Bruce Chatwin. “Meu caro, você acha que deve ir?”, perguntou Gillon. Ele m esm o tom ou a decisão. Bruce fora m uito am igo dele. “Que se dane”, disse. “Vam os.”

Marianne chegou, com um certo ar tresloucado, furiosa por ter sido cercada pelos fotógrafos ao sair de casa na St. Peter’s Street, 41. No dia seguinte, estava na prim eira página de todos os j ornais do país. Um dos j ornais deu nom e à sua expressão, em letras garrafais: o rosto do m edo. Não falaram m uito. Nenhum dos dois. Entraram no carro deles, um Saab preto, e ele saiu pelo parque em direção a Bay swater. Gillon Aitken ia j unto, com um a expressão de preocupação, e o corpo com prido e lânguido estirado no banco de trás.

Sua m ãe e a irm ã m ais nova m oravam em Karachi. O que lhes sucederia? A irm ã do m eio, havia m uito afastada da fam ília, m orava em Berkeley, Califórnia. Estaria a salvo lá? A irm ã m ais velha, Sam een, sua “gêm ea irlandesa”, m orava em Wem bley, subúrbio da zona norte de Londres, não m uito longe do fam oso estádio. O que teria de ser feito para protegê-los? Seu filho, Zafar, que só tinha nove anos e oito m eses, estava com a m ãe, Clarissa, na casa deles em Burm a Road, 60, que sai de Green Lanes, perto de Clissold Park. Naquele m om ento, o décim o aniversário de Zafar parecia m uito, m uito distante. “Papai”, Zafar perguntara, “por que você não escreve livros que eu possa ler?” Aquilo lhe fizera lem brar um trecho de “St. Judy ’s com et”, um a canção que Paul Sim on escrevera com o acalanto para o filho pequeno. Se não consigo cantar para fazer meu menino dormir, bem, seu papai famoso parece um bobo. “Boa pergunta”, ele respondera. “Quando eu acabar este livro em que estou trabalhando, escrevo um livro para você. Certo?” “Certo.” De m odo que ele tinha acabado o livro, que fora publicado, e agora talvez não tivesse tem po para escrever outro. Nunca se deve quebrar uma promessa feita a uma criança, pensou, e aí sua cabeça a m il acrescentou um adendo idiota: mas a morte do autor é uma desculpa válida?

Sua mente estava voltada para o tema assassinato.

Cinco anos antes, ele estivera viajando com Bruce Chatwin pelo “centro vermelho” da Austrália, onde, em Alice Springs, anotara o grafite que dizia renda-se, hom em branco, sua cidade está cercada, fazendo um esforço sem nome para subir a rocha Ayer, enquanto Bruce, que se orgulhava de ter recentemente chegado até o acampamento-base do Everest, avançava à sua frente aos saltos, como se estivesse subindo correndo a mais suave das ladeiras e ouvindo as histórias que a gente do lugar contava sobre o chamado caso do “bebê levado pelo dingo”. Tinha se hospedado num pulgueiro chamado Inland Motel, onde, no ano anterior, um caminhoneiro de 36 anos, chamado Douglas Crabbe, a quem haviam negado servir uma bebida porque ele já estava bêbado demais, insultara o pessoal do bar e, depois de ser expulso, tinha jogado seu caminhão, em alta velocidade, contra o bar, matando cinco pessoas.

Crabbe estava sendo julgado num tribunal em Alice Springs, e ele e Bruce foram assistir. O caminhoneiro estava cabisbaixo, vestido de forma conservadora, e falava em voz baixa. Insistiu em que não era o tipo de pessoa capaz de fazer uma coisa daquelas e, quando perguntado por que tinha tanta certeza disso, respondeu que dirigia caminhões havia muitos anos e que “cuidava deles como se fossem seus próprios” (seguiu-se aqui uma pausa, e a palavra não pronunciada naquele silêncio poderia ter sido “filhos”), e que para ele destruir um caminhão era um ato que ia inteiramente contra sua índole. Os jurados retesaram-se visivelmente ao ouvir isso, mas era óbvio que a sorte de Crabbe estava selada. “Na verdade, porém”, murmurou Bruce, “o que ele está dizendo é a mais absoluta verdade.”

A mente de um assassino atribuía mais valor a caminhões do que a seres humanos. Cinco anos depois, talvez algumas pessoas estivessem se preparandopara executar um escritor por suas palavras blasfemas, e a fé ou uma determinada interpretação da fé, era o caminhão a que eles davam mais valor do que à vida humana. Aquela não era a sua primeira blasfêmia, ele lembrou a si mesmo. Sua escalada da rocha Ayers com Bruce também estaria proibida agora. A rocha, devolvida à propriedade dos aborígines, que lhe restituíram o nome antigo, Uluru, era território sagrado, e as escaladas não eram mais permitidas.

Foi no voo de volta para casa, encerrando aquela viagem à Austrália em 1984, que ele começara a compreender como escreveria Os versos satânicos.

O ofício na catedral ortodoxa grega de Santa Sofia, da arquidiocese de Thy ateria e da Grã-Bretanha, construída e decorada com esplendor 110 anos antes, de m odo a lem brar um a grandiosa catedral da antiga Bizâncio, era todo celebrado num grego sonoro e m isterioso. Sua liturgia era floreada e bizantina. Bruce Chatwin blá-blá-blá, entoavam os sacerdotes, blá-blá-blá, Chatwin blá-blá-blá. Eles se levantavam , sentavam -se, aj oelhavam -se, levantavam -se e se sentavam de novo. O ar estava carregado do cheiro forte de fum aça. Ele se lem brou do pai a levá-lo, quando ainda criança, em Bom baim , para rezar no dia de Eid-ul-Fitr. Lá, no Idgah, o cam po de oração, era tudo em árabe, m uitas cabeças subiam e desciam , com testas batendo no piso, pessoas de pé com as palm as das m ãos m antidas na frente do corpo, com o se segurassem um livro, além de m uita falação de palavras estranhas num a língua que ele não conhecia. “Faça o que eu fizer”, disse o pai. Não eram um a fam ília religiosa, e quase nunca iam a cerim ônias com o aquela. Ele nunca aprendeu as orações ou soube o que significavam . Um a oração ocasional m ediante im itação e um a decoreba m eio m astigada eram tudo o que ele sabia. Por isso, a cerim ônia sem sentido na igrej a da Moscow Road lhe parecia fam iliar. Marianne e ele estavam sentados ao lado de Martin Am is e sua m ulher, Antonia Phillips. “Estam os preocupados com você”, disse Martin, abraçando-o. “Eu estou preocupado com igo”, ele respondeu. Blá Chatwin blá Bruce blá. O rom ancista Paul Theroux estava sentado no banco atrás dele. “Acho que vam os estar aqui na sem ana que vem por você, Salm an”, disse ele.

Havia alguns fotógrafos do lado de fora, na calçada, quando ele chegou. Em geral, escritores não atraíam um bando de paparazzi. À m edida que o ofício avançava, porém , com eçaram a chegar j ornalistas à igrej a. Um a religião incom preensível estava servindo de cenário para um a reportagem gerada pelo ataque incom preensivelm ente violento de outra re ligiã o. Um dos piores aspectos do que aconteceu, ele escreveu m ais tarde, foi que o incompreensível se tornou compreensível, o inimaginável tornou-se imaginável.

O ofício chegou ao fim e os j ornalistas avançaram em sua direção. Gillon, Marianne e Martin tentaram contê-los. Um cam arada absolutam ente cinza (terno cinza, cabelo cinza, rosto cinza, voz cinza) abriu cam inho na m ultidão, estendeu um gravador em sua direção e fez as perguntas óbvias. “Desculpe”, ele respondeu. “Vim aqui para o ofício em m em ória de m eu am igo. Não é um lugar apropriado para entrevistas.” “O senhor não está entendendo”, disse o suj eito cinza, parecendo perplexo. “Eu sou do Daily Telegraph. Eles m e m andaram aqui especialmente.”

“Gillon, preciso de sua aj uda”, ele disse.

Gillon debruçou-se na direção do repórter, baixando de sua estatura descom unal, e disse com voz firm e e em postada: “Se manda, porra”.

“O senhor não pode falar com igo desse j eito”, disse o hom em do Telegraph. “Eu frequentei um a escola particular.”

Depois disso não houve m ais com édia. Quando ele saiu para a Moscow Road, j ornalistas enxam eavam com o zangões perseguindo sua rainha, fotógrafos subiam nas costas de outros para form ar pirâm ides cam baleantes que explodiam em flashes. Ele piscava, sem saber para onde ir, por um m om ento sem saber o que fazer.

Não parecia haver fuga possível. Não havia com o cam inhar até o carro, estacionado a uns cem m etros dali, sem ser seguido por câm eras, m icrofones e hom ens que tinham ido a vários tipos de escolas e que tinham sido m andados ali especialm ente. Foi resgatado por seu am igo Alan Yentob, da bbc, cineasta e alto executivo que ele conhecera oito anos antes, quando Alan estava fazendo um docum entário da série Arena sobre um j ovem escritor que acabara de publicar um rom ance bem acolhido intitulado Os filhos da meia-noite. Alan tinha um irm ão gêm eo, m as era frequente que se dissesse: “É Salm an quem parece ser seu irm ão gêm eo”. Os dois discordavam dessa opinião, m as ela persistiu. E aquele poderia não ser o m elhor dos dias para que Alan fosse confundido com seu não gêm eo.

O carro da bbc de Alan parou em frente à igrej a. “Entre”, ele disse, e logo estavam fugindo dos j ornalistas vociferantes. Circularam por Notting Hill durante algum tem po, até a m ultidão do lado de fora da igrej a se dispersar, e então voltaram para onde o Saab estava estacionado.

Ele entrou no carro com Marianne, e de repente estavam sozinhos, e o silêncio pesava sobre os dois. Não ligaram o rádio do carro, pois sabiam que o noticiário estaria cheio de ódio. “Aonde vam os?”, ele perguntou, ainda que am bos soubessem a resposta. Marianne tinha alugado recentem ente um pequeno apartam ento de subsolo na Lonsdale Square, em Islington, a pouca distância da casa na St. Peter’s Street, oficialm ente para usar com o local de trabalho, m as, na realidade, por causa da tensão que vinha crescendo entre eles. O apartam ento lhes daria espaço e tem po para avaliar a situação e decidir o que fazer. Seguiram para Islington em silêncio. Era com o se nada houvesse a ser dito.

Marianne era um a boa escritora e um a bela m ulher, m as ele vinha descobrindo coisas de que não gostava.

Ao se m udar para a casa dele, ela havia deixado um a m ensagem na secretária eletrônica de um am igo, Bill Buford, editor da revista Granta, dizendo que seu núm ero de telefone tinha m udado. “Talvez você reconheça o núm ero novo”, continuava a m ensagem , e a seguir, depois do que Bill achou que era um a pausa alarm ante, “Peguei o cara”. Ele a pedira em casam ento no período de m uita em oção que se seguira à m orte do pai, em novem bro de 1987, e o relacionam ento deles não perm anecera bom durante m uito tem po. Seus am igos m ais íntim os, Bill Buford, Gillon Aitken e seu colega am ericano Andrew Wy lie, a atriz e escritora guianense Pauline Melville, e sua irm ã Sam een, que sem pre estivera m ais próxim a dele do que qualquer outra pessoa, todos tinham com eçado a confessar que não gostavam dela, o que era o que os am igos sem pre diziam quando as pessoas estavam se separando, é claro, e por isso, ele pensava, era preciso dar um desconto em algum as coisas que diziam . No entanto, ele próprio a apanhara em algum as m entiras, e isso o abalara. O que ela achava que ele era? Com frequência parecia zangada, e tinha um j eito de olhar para o nada, por cim a do om bro dele, quando lhe falava, com o se estivesse se dirigindo a um fantasm a. Ele sem pre se sentira atraído por sua inteligência, seu senso de hum or, e tudo isso ainda estava lá, com o tam bém a atração física, as ondas de seu cabelo castanho-averm elhado, seu largo sorriso am ericano, de lábios cheios. Mas ela se tornara m isteriosa para ele, que às vezes tinha a sensação de ter casado com um a estranha. Um a m ulher com um a m áscara.

Era m eio da tarde, e naquele dia os problem as particulares deles dois pareciam irrelevantes. Naquele dia, m ultidões desfilavam pelas ruas de Teerã com cartazes em que seu rosto aparecia com os olhos vazados, com o um dos cadáveres de Os pássaros, com as órbitas sanguinolentas, enegrecidas, furadas a bicadas. Esse era o assunto do dia: seu cartão do Dia dos Nam orados, nada engraçado, m andado por aqueles hom ens barbudos, por aquelas m ulheres de véu e pelo velho assassino que agonizava em seu quarto, fazendo sua últim a tentativa de alcançar algum tipo de glória sinistra, hom icida. Depois de tom ar o poder, o im ã m atara m uitos dos que o haviam posto ali e todos de quem ele não gostava. Sindicalistas, fem inistas, socialistas, com unistas, hom ossexuais, prostitutas e tam bém seus ex-auxiliares. Havia em Os versos satânicos um retrato de um im ã com o ele, um im ã que se tornara um m onstro, devorando com a boca gigantesca sua própria revolução. O im ã de carne e osso tinha levado seu país a um a guerra inútil com o país vizinho, e um a geração de j ovens m orrera, centenas de m ilhares de j ovens de seu país, antes que o velho interrom pesse a luta. Dissera que aceitar a paz com o Iraque tinha sido com o com er veneno, m as que ele o com era. Depois disso os m ortos clam aram contra o im ã e sua revolução tornou-se im popular. Ele precisava de um m eio de m obilizar os fiéis, e o encontrou na form a de um livro e de seu autor. O livro era a obra do diabo, o autor era o diabo, e isso lhe proporcionava o inim igo de que ele precisava. Esse escritor em seu apartam ento de subsolo, aconchegado à m ulher, de quem estava m eio separado. Esse era o diabo de que o im ã m oribundo necessitava.

Naquela hora, as aulas estavam acabando, e ele tinha de ver Zafar. Ligou para Pauline Melville e pediu-lhe que fizesse com panhia a Marianne enquanto ele fazia sua visita. Pauline fora sua vizinha em Highbury Hill no com eço da década de 1980, e era um a atriz de olhos vivos, m uito gesticuladora, calorosa e cheia de histórias. Histórias sobre a Guiana, onde um de seus antepassados Melville tinha conhecido Evely n Waugh, m ostrando-lhe o lugar e, provavelm ente, segundo ela, virando o m odelo para Mr. Todd, o velho m aluco que captura Tony Last na selva e o obriga a ler Dickens em voz alta para ele, sem parar, em Um punhado de pó; sobre com o ela resgatara o m arido, Angus, da Legião Estrangeira, postando-se j unto ao portão do forte e gritando até que o deixaram sair; e sobre a época em que fez o papel da m ãe de Adrian Edm ondson na fam osa série de tv The Young Ones. Pauline fazia stand-up comedy e criara um personagem m asculino que “ficou tão perigoso e assustador que tive de parar de fazê-lo”, dizia. Ela escrevera várias de suas histórias sobre a Guiana e m ostrara-as a ele. Eram boas, ótim as, e quando foram publicadas no prim eiro livro dela, Shape-shifter, tinham sido m uito bem recebidas. Pauline era realista, esperta e leal, e ele tinha total confiança nela. Veio im ediatam ente, sem reclam ar, em bora fosse seu aniversário e apesar de suas reservas quanto a Marianne. Ele se sentiu aliviado por deixar Marianne no apartam ento da Lonsdale Square e dirigir sozinho até Burm a Road. O belo dia de sol, cuj o espantoso esplendor de inverno fora com o que um a repreensão às notícias nada agradáveis, tinha chegado ao fim . Em fevereiro, Londres j á estava às escuras quando as crianças saíam da aula. Quando ele chegou à casa de Clarissa e Zafar, a polícia j á estava lá. “Aí está o senhor”, disse um policial. “Estávam os quebrando a cabeça para im aginar onde o senhor teria se m etido.”

“O que está acontecendo, papai?” Seu filho tinha no rosto um a expressão que nunca deveria estar no rosto de um m enino de nove anos. “Eu contei a ele”, disse Clarissa, anim adam ente, “que vão tom ar conta de você direito até isso acabar, e que tudo vai correr bem .” E então ela o abraçou com o não o abraçava havia cinco anos, desde o fim do casam ento deles. Ela fora a prim eira m ulher a quem am ara. Ele a conhecera em 26 de dezem bro de 1969, cinco dias antes do fim dos anos 1960, quando ele tinha 22 anos, e ela, 21. Clarissa Mary Luard. Tinha pernas com pridas e olhos verdes, e naquele dia usava um xale hippie de lã e um a faixa no cabelo ruivo, m uito cacheado, e dela em anava um brilho que ilum inava todos os corações. Tinha am igos no m undo da m úsica pop que a cham avam de Happily (ainda que, tam bém por felicidade, esse apelido tivesse m orrido com a década m aluca que o gerou), um a m ãe que bebia dem ais e um pai que voltara para casa com neurose de guerra, na qual pilotara aviões Pathfinder, e que saltara do alto de um edifício quando ela tinha quinze anos. Tinha um beagle cham ado Bauble que urinava na cam a dela.

Havia nela m uita coisa trancada debaixo da vivacidade. Clarissa não queria que os outros vissem as som bras que havia nela e, quando batia a m elancolia, ia para seu quarto e fechava a porta. Talvez sentisse em si a tristeza do pai e tem esse que essa angústia pudesse arrem essá-la do alto de um edifício, com o levara o pai a fazer, e por isso se encerrava no quarto até a tristeza passar. Tinha o nom e da heroína trágica de Sam uel Richardson e estudara, durante certo tem po, na Harlow Tech. Clarissa da Harlow, um estranho eco de Clarissa Harlowe, outra suicida em seu m undo, este ficcional; outro eco a ser tem ido e encoberto pelo fulgor de seu sorriso. Sua m ãe, Lavinia Luard, tam bém tinha um apelido em baraçoso, Lavvy-Loo, e agitava a tragédia fam iliar num copo de gim e a deixava dissolver ali, para poder representar o papel da viúva alegre com hom ens que se aproveitavam dela. Prim eiro houve um ex-oficial de um regim ento dos Guards, cham ado coronel Ken Sweeting, que vinha da ilha de Man para nam orá-la, m as nunca deixava a m ulher, nem tencionava fazê-lo. Mais tarde, quando ela em igrou para a vila de Mij as, na Andaluzia, seguiu-se um a série de parasitas europeus desej osos de viver à sua custa e gastar m uito do dinheiro dela. Lavinia tinha se oposto dem ais à resolução da filha de, prim eiro, m orar com um escritor indiano de cabelo com prido e, depois, casar-se com ele, um suj eito esquisito de cuj a fam ília pouco se sabia e que não parecia ter m uito dinheiro. Era am iga da fam ília Leworthy, de Westerham , em Kent, e, segundo seus planos, o filho dos Leworthy, Richard, um contador pálido e ossudo, com um a cabeleira warholesca loiríssim a, se casaria com sua bela filha. Clarissa e Richard nam oravam , m as ela com eçara tam bém a sair escondido com o escritor indiano de cabelo com prido; tinha levado dois anos para se decidir entre eles, m as, num a noite de j aneiro de 1972, quando ele deu um a festa de inauguração de seu apartam ento recém -alugado em Cam bridge Gardens, Ladbroke Grove, ela chegara de decisão tom ada e a partir daí ficaram inseparáveis. Eram sem pre as m ulheres que faziam a escolha, e cabia ao hom em se m ostrar grato se tivesse a sorte de ser o escolhido.

Todos os anos, por eles vividos, de desej o, am or, casam ento, filho, infidelidade (sobretudo dele), divórcio e am izade estavam no abraço que ela lhe deu naquela noite. O fato novo inundara a m ágoa entre os dois e a levara em bora, e por baixo da m ágoa havia um a coisa antiga e profunda que não fora destruída. Além disso, é claro, eles eram os pais daquele m enino bonito e, com o pais, sem pre tinham m ostrado união e harm onia. Zafar nascera em j unho de 1979, bem na época em que Os filhos da meia-noite estava prestes a ser concluído. “Mantenha as pernas cruzadas”, ele disse a ela. “Estou escrevendo o m ais depressa que posso.” Um a tarde, houve um falso alarm e, e ele pensou: A criança vai nascer à meia-noite, m as isso não aconteceu, Zafar nasceu no dom ingo, 17 de j unho, às 2h15 da tarde. Ele pôs isso na dedicatória do rom ance. Para Zafar Rushdie, que, contra todas as expectativas, nasceu de tarde. E que agora estava com nove anos e m eio perguntando, ansioso: O que está acontecendo?

“Precisam os saber”, o policial dizia, “quais são seus planos im ediatos.” Ele pensou antes de responder. “Provavelm ente vou para casa”, respondeu por fim , e o enrij ecim ento dos hom ens fardados confirm ou suas suspeitas. “Eu não recom endaria isso, senhor.” Então ele lhes falou, com o sabia desde o com eço que o faria, sobre o apartam ento de subsolo na Lonsdale Square, onde Marianne o esperava. “É um lugar que as pessoas em geral sabem que o senhor frequenta?” Não, não é. “Está bem . Depois que o senhor voltar para casa, não saia de novo esta noite, se puder. Estão fazendo reuniões, e o senhor ficará sabendo do resultado delas am anhã, o m ais cedo possível. Até lá, deve ficar em casa.”

Ele conversou com o filho, abraçado a ele, decidindo, naquele instante, que contaria ao m enino o m áxim o possível, dando ao que estava acontecendo a coloração m ais positiva que pudesse; que a form a de aj udar Zafar a lidar com o que estava acontecendo seria inform á-lo de todos os fatos, dar-lhe um a versão paterna que ele aceitasse e na qual confiasse, enquanto era bom bardeado com outras versões, no pátio da escola ou pela televisão. A escola estava sendo espetacular, disse Clarissa, m antendo fora fotógrafos e um a equipe de tv que queria film ar o filho do hom em am eaçado, e as crianças tam bém tinham sido ótim as. Sem discussão, tinham cerrado fileiras em torno de Zafar e perm itido que ele tivesse na escola um dia norm al, ou quase norm al. Quase todos os pais tinham dado apoio; um a ou duas pessoas haviam opinado que Zafar devia ser afastado da escola, pois sua presença poderia pôr em perigo seus filhos, m as tinham sido censuradas pelo diretor e se retirado, envergonhadas. Foi alentador ver em ação, naquele dia, coragem , solidariedade e princípios, os m elhores valores hum anos im pondo-se sobre a violência e a intolerância — o lado som brio da hum anidade —, exatam ente na hora em que parecia tão difícil resistir à m aré m ontante das trevas. O que fora im pensável até aquele dia estava se tornando pensável. Mas em Ham pstead, na Hall School, a resistência j á com eçara.

“Vou ver você am anhã, papai?” Ele fez que não com a cabeça. “Mas vou telefonar”, disse. “Vou ligar para você todos os dias, às sete. Se você não for estar aqui”, pediu a Clarissa, “por favor, deixe um a m ensagem na secretária eletrônica e diga a hora em que devo ligar.” Era o com eço de 1989. Os term os pc, laptop, celular, internet, wi-fi, sm s, torpedo, e-m ail eram desconhecidos ou novíssim os. Ele não tinha com putador nem celular. Mas tinha um a casa, m esm o que não pudesse passar a noite nela, e na casa havia um a secretária eletrônica, e ele podia telefonar e interrogar o aparelho, um novo uso para um a palavra velha, e pegar, não, recuperar suas m ensagens. “Sete horas”, repetiu. “Toda noite, certo?” Zafar balançou a cabeça, sério. “Está certo, papai.”

Ele voltou para casa de carro sozinho, e todas as notícias no rádio eram ruins. Dois dias antes houvera um “distúrbio Rushdie” diante do Centro Cultural dos Estados Unidos em Islam abad, no Paquistão. (Não ficou claro por que os Estados Unidos estavam sendo considerados responsáveis por Os versos satânicos.) A polícia disparara contra a m ultidão e havia cinco m ortos e sessenta feridos. Os m anifestantes carregavam cartazes que diziam rushdie, você está m orto. Agora o edito iraniano m ultiplicara em m uito o perigo. O aiatolá Khom eini não era apenas um clérigo poderoso. Era um chefe de Estado que ordenava a execução de um cidadão de outro Estado, sobre quem ele não tinha j urisdição. E ele contava com assassinos a seu serviço, que j á tinham sido usados antes contra “inim igos” da revolução iraniana, inclusive inim igos que viviam fora do Irã. Havia outra palavra nova que ele tinha de aprender. Ali estava ela, no rádio: extraterritorialidade. O conceito era tam bém cham ado de terrorismo de Estado. Voltaire dissera um a vez que um escritor faria bem em m orar perto de um a fronteira internacional, pois se provocasse a cólera de hom ens poderosos poderia atravessar a fronteira e ficar em segurança. O próprio Voltaire deixara a França e se refugiara na Inglaterra depois de se indispor com um aristocrata, o Chevalier de Rohan, perm anecendo no exílio durante sete anos. No entanto, m orar em outro país não era m ais garantia de segurança. Agora havia a ação extraterritorial. Em outras palavras, os perseguidores encontravam o perseguido onde ele estivesse.

A noite na Lonsdale Square estava fria, escura e clara. Havia dois policiais na praça. Quando ele saiu do carro, eles fingiram não notá-lo. Faziam um a ronda curta, vigiando a rua, perto do apartam ento, cam inhando cem m etros em cada direção, e ele ouvia seus passos m esm o de dentro do quarto. Ele se deu conta, no silêncio m arcado pelas passadas dos policiais, de que não com preendia m ais sua vida ou o que ela poderia se tornar, e, pela segunda vez naquele dia, pensou que talvez não restasse m ais m uita vida para com preender. Pauline voltou para casa, e Marianne deitou-se cedo. Ele foi para a cam a, ao lado da m ulher. Ela se virou para ele e se abraçaram , rígidos, com o o casal infeliz que eram . Depois, separados, cada um deitado com seus próprios pensam entos, não conseguiram dorm ir.

Passos. Inverno. Um a asa negra agitando-se num trepa-trepa. Informo aos muçulmanos zelosos do mundo, tiri-ri, tiri-lá, ló, ló, ló. Que os executem, onde quer que os localizem. Tiri-ri, tiri-rá, ei-bumbosidade, petralhapetralha, retroquo-qualidade, carvalhê, carvalhá, ló, ló, ló.