Joseph Anton: Memórias

Salman Rushdie · Capítulo 4 de 11 · parte 1/5

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Joseph Anton: Memórias

3. Ano zero

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

 

O agente da Divisão Especial cham ava-se Wilson, e o oficial do serviço de inform ações, Wilton, e am bos eram cham ados de Will. Will Wilson e Will Wilton: era com o um gracej o de vaudeville, só que naquele dia nada tinha graça. Disseram -lhe que, com o a am eaça contra ele era considerada de extrem a gravidade — fora classificada com o sendo de “nível dois”, o que significava que, para a Divisão Especial, ele corria m ais perigo do que qualquer outra pessoa no país, exceto, talvez, a rainha —, e com o ele estava sendo am eaçado por um a potência estrangeira, tinha direito à proteção do Estado britânico. A proteção foi oferecida form alm ente e aceita. Explicaram -lhe que ele contaria com dois agentes de proteção, dois m otoristas e dois carros — o segundo carro, para o caso de o prim eiro dar defeito. Inform aram -lhe que, devido à natureza especial da tarefa e dos im ponderáveis riscos envolvidos, todos os agentes que o protegeriam eram voluntários. Ninguém estava naquela m issão contra a vontade. Ele foi apresentado à sua prim eira equipe de proteção: Stanley Doll e Ben Winters. Stanley era um dos m elhores tenistas da força policial. Benny era um dos poucos agentes negros da divisão e usava um a elegante j aqueta bege de couro. Am bos eram m uito bem -apessoados e portavam arm as de fogo. Os integrantes da Divisão Especial eram as estrelas, a elite da Polícia Metropolitana. Até então, ele nunca havia conhecido alguém que realm ente tivesse licença para m atar, e Stan e Benny estavam autorizados a isso, em benefício dele.

Usavam a arm a na cintura, presa à parte de trás do cinto. Os detetives am ericanos usavam coldres por baixo do paletó, m as, com o Stan e Benny dem onstraram , isso era m enos conveniente, pois, se você tivesse de sacar a arm a daquele coldre, ela teria de descrever um arco que talvez chegasse a noventa graus antes de ser apontada para o alvo. Os riscos de disparar um pouco cedo ou tarde dem ais ou de atingir a pessoa errada eram consideráveis. Se o atirador sacava a arm a da altura dos quadris, ela j á estava alinhada com o alvo, e o nível de precisão aum entava. Mas havia um risco diferente. Se você apertasse o gatilho cedo dem ais, atiraria nas próprias costas.

Com relação à questão im ediata, Benny e Stan o tranquilizaram . “Isso não podem os perm itir”, disse Stan. “Am eaçar um cidadão britânico. Não dá. Isso vai ser resolvido. O senhor só precisa não dar as caras por alguns dias e deixar os políticos resolverem isso.” “Não vai poder ir para casa, é claro”, acrescentou Benny. “Isso não seria aconselhável. Há algum lugar para onde o senhor gostaria de ir durante alguns dias?” “Escolha um lugar interessante”, disse Stan, “e a gente leva o senhor para lá durante um período, até a situação se resolver.” Ele queria acreditar no otim ism o que dem onstravam . Talvez os Cotswolds, disse. Talvez algum lugar naquela região de cartões-postais, com colinas baixas e casas de pedra dourada. Havia um a fam osa pousada rural em Broadway, um vilarej o de Cotswold, cham ada Ly gon Arm s. Muitas vezes ele tivera vontade de passar lá um a sem ana, m as nunca fizera isso. Seria possível ir para o Ly gon Arm s? Stan e Benny se entreolharam durante alguns instantes. “Não vej o por que não”, disse Stan. “Vam os ver.”

Marianne e ele passaram a m aior parte daquele dia no apartam ento de subsolo da Lonsdale Square, 38. Benny ficou com eles, enquanto Stan cuidava das providências. Ele queria rever o filho m ais um a vez antes de se fechar num refúgio, disse, e queria tam bém ver a irm ã, e os agentes, m esm o advertindo-o de que as m oradias dessas pessoas poderiam ser locais que os “bandidos” esperariam que ele visitasse, concordaram em “dar um j eito”. Assim que a noite caiu, ele foi levado à Burm a Road num Jaguar blindado. As chapas de blindagem eram tão grossas que o espaço sobre sua cabeça ficava m uito m enor do que o norm al. Políticos altos, com o Douglas Hurd, achavam esses carros desconfortáveis dem ais. As portas eram tão pesadas que, se fossem fechadas antes da hora e atingissem um a pessoa, poderiam causar lesões bastante graves. Se o carro estivesse inclinado, era quase im possível puxar a porta. Um Jaguar blindado consum ia um litro de gasolina para percorrer pouco m ais de dois quilôm etros. O carro pesava quase o m esm o que um pequeno tanque de guerra. Quem lhe deu essas inform ações foi seu prim eiro m otorista da Divisão Especial, Dennis “Cavalo” Chevalier, um grandalhão alegre, de queixo duplo e lábios grossos, “um dos veteranos”, em suas próprias palavras. “O senhor sabe qual é o term o técnico com que nós, os m otoristas da Divisão Especial, som os cham ados?”, perguntou-lhe Dennis “Cavalo”. Ele não sabia. “O term o é m d”, disse Dennis. E o que significava m d? Dennis deu um a risada, sonora, gutural, m eio ofegante. “Motoristas Doidões”, explicou. Ele acabaria se acostum ando ao hum or policial. Um dos outros m otoristas era conhecido em toda a divisão com o “rei da Espanha”, porque certa vez deixara seu Jag destrancado enquanto ia à tabacaria, e ao voltar descobrira que o carro tinha sido roubado. Daí o apelido, porque o rei da

Espanha se cham ava — era preciso pronunciar o nom e devagar — Juan Carlos.a

Os bandidos não estavam à sua espera na Burm a Road. Ele contou a Zafar e a Clarissa o que os agentes de proteção tinham dito. “Isso vai acabar dentro de poucos dias.” Zafar m ostrou-se aliviado. No rosto de Clarissa estavam estam padas todas as dúvidas que ele próprio tentava fazer de conta que não tinha. Zafar perguntou quando poderiam se ver de novo, e ele não soube o que responder. Clarissa disse que eles poderiam passar o fim de sem ana na casa de am igos dela, os Hoffm an, em Oxfordshire. Ele respondeu: “Está certo, talvez lá, se eu puder ir”. Abraçou o filho com força e saiu.

(Em nenhum m om ento foi oferecida proteção a Zafar ou Clarissa. A polícia não j ulgava que eles corressem perigo. Isso não o tranquilizou, e ele se preocupava com os dois todos os dias. No entanto, Clarissa e ele tinham decidido que seria m elhor Zafar continuar a levar a vida da form a m ais norm al possível. Ela fez com que sua ocupação principal fosse dar ao filho essa vida norm al, e isso exigiu m ais do que coragem .)

Ocorreu-lhe que não tinha com ido nada o dia todo. A cam inho de Wem bley para ver Sam een, parou num a loj a do McDonald’s e descobriu que os vidros grossos da porta do Jaguar não se abriam . Havia outros carros blindados, Mercedes e bm w, que podiam ser equipados com vidros m óveis, porém eram m ais caros e im portados, e por isso não faziam parte da frota da polícia. Stan, sentado no banco dianteiro do passageiro, teve de descer para fazer o pedido e depois ir ao local de entrega para pegar o lanche. Quando ele acabou de com er, o Jaguar não quis pegar. Tiveram de deixar Dennis “Cavalo” soltando im propérios por causa do veículo defeituoso e passar para o carro reserva, um Range Rover conhecido com o a Besta, dirigido por outro hom enzarrão am ável e sorridente cham ado Mickey Crocker, outro dos “veteranos”. A Besta era velhíssim a tam bém , pesadona e difícil de dirigir. Atolava na lam a e às vezes não conseguia chegar ao topo de um a estrada rural coberta de gelo. Era m eados de fevereiro, o m ês m ais frio e gelado do ano. “Desculpe por isso, com panheiro”, disse Mick Crocker. “Esse não é o m elhor carro da garagem .” Sentado no banco traseiro da Besta, ele só esperava que os hom ens que o protegiam fossem m elhores do que seus carros.

Sam een, advogada habilitada, em bora não advogasse m ais — trabalhava agora na área de educação de adultos —, sem pre tivera um a aguçada consciência política e tinha m uito o que dizer sobre o que estava acontecendo. A revolução iraniana m ostrara-se vacilante desde que Khom eini fora obrigado a “tom ar veneno”, em suas próprias palavras, e aceitar o fim m alsucedido da guerra com o Iraque, que deixara um a geração de j ovens iranianos m ortos ou m utilados. A fatwa era sua form a de reconquistar um a dinâm ica política, reenergizando os fiéis. O irm ão dela tivera o azar de se tornar a últim a cartada do ancião agonizante. Quanto aos “líderes” m uçulm anos britânicos, quem eles lideravam m esm o? Eram líderes sem seguidores, saltim bancos tentando fazer carreira à custa do irm ão dela. Durante toda um a geração, a política das m inorias étnicas na Grã-Bretanha tinha sido secular e socialista. Aquela era a m aneira que as m esquitas tinham encontrado de destruir esse proj eto e dar destaque à religião. Os “asiáticos” britânicos nunca haviam se cindido antes em facções hinduístas, m uçulm anas e siques (em bora tivesse havido cisões diferentes; por ocasião da guerra de Bangladesh, surgira um a violenta divisão paquistanesa britânica e bangladeshiana britânica). Era preciso que alguém desse um a resposta a essas pessoas que estavam m etendo um a cunha sectária na com unidade, disse ela, que contestasse aqueles m ulás e os cham ados líderes, que os apontasse com o os hipócritas e oportunistas que eram . Ela estava pronta a desem penhar esse papel, e ele sabia que, advogada articulada e hábil com o era, Sam een seria um a terrível oponente daquela gente.

Entretanto, ele lhe pediu que não fizesse isso. A filha dela, May a, tinha m enos de um ano. Se ela se tornasse sua defensora pública, os m eios de com unicação acam pariam diante de sua casa e não haveria m eio de fugir do fulgor da publicidade. Sua vida privada e a vidinha de sua filha passariam a ser cercadas de refletores e m icrofones. Além disso, era im possível prever o nível de perigo que isso acarretaria para ela. Ele não queria que ela corresse riscos por sua causa. E havia outro problem a: se ela fosse identificada m uito claram ente, pelo público, com o a “voz” dele, disse a equipe de proteção, seria m uito m ais difícil ele ser levado para visitá-la. Ele com preendia que tinha de dividir as pessoas que conhecia em dois cam pos, o “privado” e o “público”. Ele precisava dela, disse, m ais com o um apoio privado do que com o um a defensora pública. Em bora com relutância, ela concordou.

Um a das consequências im previstas dessa decisão foi que, à m edida que o “caso” prosseguia, ele próprio se viu obrigado a m anter-se invisível durante a m aior parte do tem po, pois a polícia lhe recom endava que não se m anifestasse, para não inflam ar ainda m ais a situação, conselho que ele acatou por algum tem po, até se recusar a continuar em silêncio; e em sua ausência não havia ninguém próxim o a ele que o defendesse, nem sua m ulher, nem sua irm ã, nem seus am igos m ais próxim os — as pessoas que ele queria continuar a poder ver. Ele se transform ou, para os m eios de com unicação, num hom em que ninguém am ava, m as que m uitos odiavam . “A m orte talvez sej a um pouco fácil dem ais para ele”, disse Iqbal Sacranie, do Com itê de Ação sobre Assuntos Islâm icos britânico. “Seu espírito deve ser atorm entado pelo resto da vida, a m enos que ele peça perdão a Alá Todo-Poderoso.” Em 2005, esse m esm o Sacranie foi sagrado cavaleiro, por recom endação do governo Blair, em nom e de serviços prestados às relações com unitárias.

 

Na ida para Cotswolds, o carro parou para reabastecer. Ele quis ir ao banheiro e abriu a porta para sair. Todo m undo que estava no posto virou a cabeça ao m esm o tem po para fitá-lo. Ele estava na prim eira página de todos os j ornais — Martin Am is disse, num a frase que ficou fam osa, que ele havia “sum ido na prim eira página” — e tornara-se, da noite para o dia, um dos rostos m ais conhecidos do país. As expressões eram am istosas — um hom em acenou para ele, outro ergueu o polegar —, m as era alarm ante que tivesse se tornado tão conhecido exatam ente no m om ento em que lhe pediam que guardasse a m aior discrição possível. Quando ele pôs os pés nas ruas do vilarej o de Broadway, as reações das pessoas foram as m esm as. Um a m ulher se aproxim ou dele na rua e lhe disse “Boa sorte!”. No hotel, os funcionários, em bora bem treinados, não conseguiam ocultar um a expressão de pasm o. Ele tinha se tornado um a espécie de atração de circo, e ele e Marianne ficaram aliviados ao chegar à privacidade do quarto, belíssim o e decorado à antiga. Entregaram -lhe um “botão de pânico”, que ele deveria apertar se algum a coisa o preocupasse. Ele experim entou o botão. Não funcionou.

Deram -lhe um a salinha privada onde fazer as refeições. O hotel avisara Stan e Benny quanto a possíveis problem as. Um dos outros hóspedes era um j ornalista do Daily Mirror, que reservara um apartam ento ao lado do dele para alguns dias com um a acom panhante que não era sua m ulher. Por fim , isso não representou problem a algum . Era óbvio que a m oça possuía encantos poderosos, pois o hom em do Mirror não saiu de seu apartam ento durante dias e dias seguidos, de m odo que, ao m esm o tem po que os tabloides punham em cam po equipes de furões para descobrir onde o autor de Os versos satânicos tinha se escondido, o j ornalista de um desses tabloides, no apartam ento ao lado do seu, perdeu esse furo.

 

Em seu segundo dia no Ly gon Arm s, Stan e Benny o procuraram com um a folha de papel nas m ãos. O presidente Ali Kham enei, do Irã, dera a entender que, se ele pedisse desculpas, “esse infeliz poderia ser poupado”. “Tem -se a im pressão”, disse Stan, “de que o senhor deve fazer algum a coisa para baixar a tem peratura.” “É”, concordou Benny, “essa é a opinião. Um a declaração certa de sua parte poderia aj udar.” Im pressão de quem ?, ele queria saber. De quem era essa opinião? “É a opinião geral”, disse Stan, vagam ente, “na esfera superior.” A opinião era da polícia ou do governo? “Eles tom aram a liberdade de preparar um texto”, disse Stan. “Por favor, leia isso até o fim .” “Por favor, faça alterações, se o senhor não considerar o estilo conveniente”, disse Ben. “O senhor é o escritor.” “Devo dizer, a bem da verdade”, disse Stan, “que o texto foi aprovado.”

O texto que lhe entregaram era inaceitável: covarde, hum ilhante. Assiná-lo seria um a derrota. Seria verdade que era aquele o acordo que lhe ofereciam ? Que ele só receberia apoio do governo e proteção da polícia se, abandonando seus princípios e a defesa de seu livro, caísse de j oelhos e rastej asse? Stan e Ben pareciam extrem am ente constrangidos. “Com o j á disse”, disse Benny, “o senhor pode fazer as alterações que quiser.” “Aí vam os ver com o eles reagem ”, disse Stan. E se ele preferisse não fazer declaração algum a por enquanto? “Eles acham que é um a boa ideia”, disse Stan. “Estão sendo feitas negociações de alto nível em seu nom e. E é preciso levar em conta os reféns no Líbano e o senhor Roger Cooper em Teerã. A situação deles é pior do que a sua. Estão pedindo que o senhor faça a sua parte.” (Na década de 1980, o Hezbollah, libanês, totalm ente financiado por Teerã, usou vários pseudônim os diferentes para capturar 96 cidadãos de 21 países, entre eles vários am ericanos e britânicos. Além disso, o sr. Cooper, um em presário britânico, foi encarcerado no Irã.)

Aquela era um a tarefa im possível: escrever algum a coisa que pudesse ser vista com o um ram o de oliveira, m as sem ceder em relação ao que era im portante. O texto que ele propôs lhe pareceu abom inável. “Com o autor de Os versos satânicos, adm ito que os m uçulm anos, em m uitas partes do m undo, tenham se sentido genuinam ente pesarosos com a publicação de m eu rom ance. Lam ento de coração o pesar que o livro tenha causado a seguidores sinceros do islã. Por viverm os num m undo de m uitas religiões, essa experiência serviu para nos lem brar que devem os todos estar conscientes da sensibilidade alheia.” Sua voz privada, j ustificadora, argum entava que ele estava pedindo desculpas pelo pesar que havia causado — e, afinal de contas, ele nunca pretendera provocar pesar algum —, m as não pelo livro em si. Realm ente, devíam os estar atentos às sensibilidades alheias, m as isso não queria dizer que devêssem os nos render a elas. Esse era seu subtexto com bativo, tácito. Mas ele sabia que, para o texto ser eficaz, teria de ser lido com o um pedido de desculpas puro e sim ples. Essa ideia o deixava doente.

Foi um gesto inútil. A declaração foi rej eitada, depois aceita com reservas e depois rej eitada de novo, pelos m uçulm anos britânicos e pela liderança iraniana. A posição forte teria sido recusar-se a negociar com a intolerância. Ele optara pela posição fraca, e por isso foi tratado com o fraco. O j ornal The Observer o defendeu — “nem a Grã-Bretanha nem o autor têm razão algum a para se desculpar” —, m as sua sensação de ter com etido um erro, de ter dado um grave passo em falso, não tardou a ser confirm ada. “Ainda que Salm an Rushdie se torne o hom em m ais piedoso de todos os tem pos, cabe a todo m uçulm ano em pregar tudo o que possui, sua vida e sua riqueza, a fim de m andá-lo para o inferno”, disse o im ã m oribundo. Aquilo lhe pareceu o fundo do poço. Não era. O fundo do poço chegaria alguns m eses depois.

Os agentes de proteção disseram que ele não deveria passar m ais de duas noites no Ly gon Arm s. Por sorte, os m eios de com unicação ainda não o tinham localizado, m as dentro de um dia ou pouco m ais sem dúvida o achariam . Isso lhe foi dito no m esm o dia em que outra verdade dura lhe foi com unicada: caberia a ele achar lugares onde ficar. Segundo o conselho (m elhor dizendo, a instrução) da polícia, ele não podia voltar à sua casa, um a vez que seria im possível (vale dizer, seria caríssim o) protegê-lo ali. Mas a divisão não lhe ofereceria “casas de segurança”. Se tais lugares existiam , ele nunca os viu. De m odo geral, as pessoas, habituadas à ficção de espionagem , acreditavam firm em ente na existência de casas de segurança, e im aginavam que ele estivesse sendo protegido num a dessas fortalezas, às custas do erário. As críticas contra a fortuna gasta em sua proteção se tornariam m ais veem entes com o passar das sem anas: um a indicação de m udança na opinião pública. Mas em seu segundo dia no Ly gon Arm s disseram -lhe que ele tinha 24 horas para achar outro esconderij o.

Quando ele deu seu telefonem a diário para falar com Zafar, Clarissa lhe propôs um a solução tem porária. Na época, ela estava trabalhando com o agente literária na ap Watt, cuj o sócio principal, Hilary Rubinstein, tinha um a casa de cam po na cidadezinha de Tham e, em Oxfordshire, e a oferecera para um a ou duas noites. Esse foi o prim eiro de m uitos gestos de generosidade análogos por parte de am igos e conhecidos, sem os quais ele teria se visto sem teto. A casa de Hilary era relativam ente pequena e não m uito isolada — não era um a localização ideal —, m as ele precisava dela e se sentiu grato. A chegada do Jaguar consertado, da Besta, do tenista Stan, do elegante Benny, de Dennis “Cavalo” e do grandalhão Mickey C., além de Marianne e do hom em invisível, não tinha com o não cham ar a atenção num a aldeola. Ele tinha certeza de que todo m undo sabia perfeitam ente o que estava acontecendo na casa de Rubinstein. Mas ninguém foi lá m eter o nariz. Todos m antiveram as tradicionais distância e reserva inglesas. Na verdade, ele pôde até ser levado para ver Zafar, por algum as horas, na casa de cam po dos Hoffm an. Não fazia ideia de para onde iria depois. Vinha ligando, sem êxito, para todas as pessoas de que se lem brava. Ao verificar seu correio de voz, encontrou um a m ensagem de Deborah Rogers, a agente que ele havia dispensado quando assinou com Andrew Wy lie. “Ligue para m im ”, dizia ela. “Acho que podem os aj udar.”

Deb e seu m arido, o com positor Michael Berkeley, ofereceram -lhe sua fazenda no País de Gales. “Se você precisar dela”, ela disse, “é sua.” Só isso. Ele ficou profundam ente com ovido. “Vej a só”, disse ela, “na verdade, a casa é perfeita, porque todo m undo acha que estam os brigados, de m odo que não vai passar pela cabeça de ninguém que você está aqui.” No dia seguinte, seu estranho cirquinho foi bater em Middle Pitts, a casa despretensiosa na acidentada área de fronteira com Gales. As nuvens baixas, a chuva e a renovação de um a am izade rom pida, todos os desentendim entos afastados pela pressão dos acontecim entos e por longos e carinhosos abraços. “Fique o tem po que precisar”, disse Deb, m as ele sabia que não ia abusar da hospitalidade dela e de Michael. Precisava achar um lugar que fosse seu. Marianne concordou em entrar em contato com corretores im obiliários da região no dia seguinte e com eçar a procurar um lugar para alugar. Tinham de esperar que o rosto dela fosse m enos fácil de reconhecer que o dele.

Quanto a ele, não podia perm itir ser visto na fazenda, para não “prej udicar” sua segurança. Havia um agricultor que cuidava dos carneiros para Michael e Deb, e em certa hora ele desceu o m orro para dizer algum a coisa a Michael. Quando a invisibilidade era tida com o essencial, um m om ento com um tornava-se um a crise. “É m elhor você não ser visto”, disse Michael, e ele teve de se esconder atrás do balcão da cozinha. Agachado ali e ouvindo Michael livrar-se do hom em o m ais depressa possível, ele foi invadido por um a im ensa vergonha. Ocultar-se daquele m odo era perder toda a dignidade. O fato de lhe dizerem que se escondesse era um a hum ilhação. Talvez, pensou, viver dessa form a sej a pior do que a m orte. Em seu rom ance Vergonha, ele escrevera sobre o m ecanism o da “cultura da honra” m uçulm ana, que tinha com o polos do eixo m oral a honra e a vergonha, m uito diferentes da narrativa cristã de culpa e redenção. Em bora não fosse religioso, ele provinha daquela cultura e fora criado para se preocupar m uito com questões de orgulho. Esgueirar-se e esconder-se era levar um a vida ignom iniosa. Muitas vezes, naqueles anos, ele se sentiu um a vergonha profunda. Vergonha e hum ilhação.

 

* * *

 

Era raro que notícias de interesse m undial se baseassem tão claram ente nos atos, nas m otivações, na personalidade e nos supostos crim es de um a única pessoa. O sim ples peso dos acontecim entos era um fardo esm agador. Ele im aginava a Grande Pirâm ide de Gizé virada de cabeça para baixo, com o ápice repousando em seu pescoço. As notícias bradavam em seus ouvidos. Era com o se todas as pessoas no m undo tivessem um a opinião. Hesham al-Essawy, o dentista “m oderado” do program a da bbc, tachou-o de produto da perm issividade da década de 1960, “que agora produziu a crise da aids”. Mem bros do Parlam ento do Paquistão recom endaram o envio im ediato de assassinos ao Reino Unido. No Irã, os clérigos m ais poderosos, Kham enei e Rafsanj ani, cerraram fileiras atrás do im ã. “Um a flecha negra de retaliação está voando rum o ao coração desse canalha blasfem o”, disse Kham enei durante um a visita à Iugoslávia. Um aiatolá iraniano, Hassan Sanei, ofereceu um a recom pensa de 1 m ilhão de dólares pela cabeça do apóstata. Não ficou claro se esse aiatolá possuía 1 m ilhão de dólares ou até que ponto seria fácil ou difícil reivindicar o prêm io, m as naquele tem po a lógica não estava na ordem do dia. A televisão vivia cheia de hom ens barbudos (e barbeados) falando de m orte. A biblioteca do Conselho Britânico em Karachi — um lugar pacato e agradável aonde ele fora m uitas vezes — sofreu um atentado a bom ba.

No entanto, naqueles tem pos barulhentos e terríveis, sua reputação literária sobreviveu à celeum a. A m aior parte dos com entaristas britânicos, am ericanos e indianos continuou a acentuar a qualidade de seus trabalhos e do livro que estava sendo atacado, m as houve sinais de que tam bém isso poderia m udar. Num a apresentação do program a Late Show, da bbc, ele viu Ian McEwan, Aziz al-Azm eh e a coraj osa rom ancista j ordaniana Fadia Faqir, que tam bém recebera am eaças de m orte por seu trabalho, tentar defendê-lo contra um dos queim adores de livros de Bradford e tam bém contra o onipresente dentista Essawy. O debate assum iu um tom destem perado, e seus adversários — ignorantes, fanáticos e am eaçadores — usaram de linguagem baixa. O que tornou o program a especialm ente chocante para ele foi ver o destacado intelectual George Steiner — a verdadeira antítese do fanático ignorante — lançar um contundente ataque literário à sua obra. Não dem orou m uito para que outras figuras conhecidas da m ídia britânica, Auberon Waugh, Richard Ingram s e Bernard Levin, tam bém fizessem com entários hostis. Ele foi defendido, em outros j ornais, por Edward Said e Carlos Fuentes, m as sentiu que o estado de espírito estava m udando. E sua turnê de lançam ento do livro nos Estados Unidos foi cancelada, naturalm ente. A m aior parte da im prensa am ericana publicou resenhas positivas, m as ele sabia que não voltaria a atravessar o Atlântico tão cedo.

Os problem as com as editoras se m ultiplicavam . Os escritórios da Penguin em Londres, e agora tam bém o de Nova York, recebiam m uitos telefonem as hostis. Moças que trabalhavam ali ouviam vozes anônim as que diziam : “Nós sabem os onde você m ora. Sabem os tam bém onde seus filhos estudam ”. Houve ainda m uitos alertas de bom bas, ainda que, felizm ente, nunca um a delas tenha explodido em algum dos escritórios de sua editora. No entanto, a livraria Cody ’s, em Berkeley , na Califórnia, foi alvo de um ataque com um a bom ba caseira, feita com um pedaço de cano. (Muitos anos depois ele visitou a Cody ’s e lhe m ostraram , com orgulho, a área queim ada, num a estante, onde a bom ba tinha sido plantada, que Andy Ross e seu pessoal resolveram deixar com o estava, com o um distintivo de coragem da livraria.) E num hotel barato em Londres, em Sussex Gardens, perto da estação Paddington, um candidato a terrorista cuj o alvo talvez fosse o escritório da Penguin — em bora corresse o boato de que ele pretendia atacar a em baixada de Israel — voou pelos ares, num incidente que, no j argão da Divisão Especial, era cham ado de “gol contra”. Depois disso, a seção de expedição da Penguin passou a usar cães treinados para farej ar explosivos.

Peter May er, o diretor da editora, encom endou um relatório de segurança à Control Risks Inform ation Services, de Londres, que analisou o “gol contra” e o perigo para a editora. Foram enviadas cópias a Andrew Wy lie e Gillon Aitken. Nesse relatório, provavelm ente por questão de segurança, os principais envolvidos na história não eram cham ados pelo nom e, e sim por nom es de aves. O docum ento tinha um título im ponente, “Avaliação do poder e do potencial dos protestos de narcej as contra o pom bo da andorinha-do-m ar-ártica e im plicações para a gaivota”. Talvez não fosse m uito difícil descobrir que narceja significava m uçulm anos; garça, “a editora” ou “Viking”; pombo era Os versos satânicos; e gaivota, o grupo Pearson, controlador da Penguin. O autor de pombo era andorinha-do-mar.

Peter May er (que não tinha um a identidade ornitológica, ainda que, para os j ornais, m uitas vezes ele fosse o “pinguim im perador”) proibiu todos os “funcionários ligados ao pom bo” de falar à im prensa sobre o pom bo ou a andorinha-do-m ar, sob pena de dem issão sum ária. As únicas declarações públicas em anadas da garça só poderiam ser feitas pelo advogado Martin Garbus ou pelo porta-voz oficial, Bob Gregory. As poucas declarações que chegaram a ser feitas eram cuidadosam ente defensivas. Tudo isso era com preensível (a não ser, talvez, os ingênuos nom es de aves), m as um a consequência desse diktat do pinguim im perador foi que, toda vez que o assediado escritor precisava que sua editora falasse por ele, seus editores estavam am ordaçados e silenciados. Esse silêncio criou um fosso entre a editora e o escritor. Por ora, porém , as fissuras na relação entre eles eram pequenas, pois a com panhia vinha agindo com m uita coragem e segundo princípios inflexíveis. Vozes m uçulm anas am eaçavam a Penguin com m edonhas retaliações contra seus escritórios em todo o m undo, além de um boicote geral à Penguin Books e contra todas as atividades do grupo Pearson, um conglom erado gestor de participações sociais com altos interesses no m undo islâm ico. Mesm o diante dessas am eaças, a adm inistração do grupo Pearson não vacilou.

O livro continuou circulando, com enorm es quantidades de exem plares distribuídos e vendidos. Quando ele foi parar no prim eiro lugar da lista dos m ais vendidos do The New York Times, John Irving, que estava acostum ado àquela posição m as de repente se viu transferido para o segundo lugar, de onde não saía, gracej ou: disse que, se a situação do autor do novo best-seller era a condição para ocupar o prim eiro posto, ele estava satisfeito por estar no segundo. O próprio autor do livro sabia, com o Irving, que Os versos satânicos não era um best-seller destinado a ocupar o prim eiro lugar “de verdade”; o que vinha im pulsionando as vendas era o escândalo, e não o m érito literário ou a popularidade do livro. Ele tam bém sabia que m uita gente com prava um exem plar do rom ance para dem onstrar solidariedade, e se sentia agradecido por isso. John Irving era seu am igo desde que Liz Calder os apresentara, em 1980. A pilhéria era um a form a de John lhe enviar um aceno am istoso.

Em 22 de fevereiro, dia do lançam ento do rom ance nos Estados Unidos, foi publicado um anúncio de página inteira no The New York Times, pago por três entidades, a Association of Am erican Publishers, a Am erican Booksellers’ Association e a Am erican Library Association. “Pessoas livres escrevem livros”, dizia. “Pessoas livres publicam livros. Pessoas livres vendem livros. Pessoas livres com pram livros. Pessoas livres leem livros. Dentro do espírito do com prom isso dos Estados Unidos com a livre expressão, inform am os ao público que este livro estará à disposição dos leitores em livrarias e bibliotecas em todo o país.” O pen Am erican Center, dirigido com paixão por sua am ada am iga Susan Sontag, organizou um a sessão de leituras do rom ance. Entre os leitores estavam a própria Susan, Don DeLillo, Norm an Mailer, Claire Bloom e Larry McMurtry. Ele recebeu um a fita do evento, e um nó subiu-lhe à garganta. Muito tem po depois, ele soube que, de início, alguns conhecidos escritores am ericanos tentaram se esquivar. Até Arthur Miller arranj ara um a desculpa — o fato de ser j udeu poderia ser um fator contraproducente. Daí a poucos dias, porém , postos na linha por Susan, quase todos eles voltaram ao com portam ento costum eiro e cerraram fileiras em torno dela.

O m edo que se espalhou pelo m eio editorial era verdadeiro porque a am eaça era verdadeira. A fatwa tam bém am eaçava editoras e tradutores. No entanto, o m undo do livro, no qual pessoas livres faziam escolhas livres, tinha de ser defendido. Ele pensava com frequência que a crise era com o um a luz forte que incidia sobre as escolhas e as ações de todos, criando um m undo sem som bras, um lugar nítido e inequívoco de atos certos e errados, de escolhas boas e m ás, de sim e de não, de força e de fraqueza. Nesse clarão intenso, alguns donos de editoras se m ostraram heroicos, ao passo que outros pareceram invertebrados. Talvez o m ais invertebrado de todos tenha sido o diretor de um a editora europeia, cuj o nom e seria indelicado m encionar, que m andou instalar vidraças à prova de bala nas j anelas de sua própria sala, no segundo andar, m as não nas j anelas do prim eiro andar, através das quais seus funcionários podiam ser vistos; e depois, com um a chave de fenda, retirou a placa com o nom e da em presa da porta do edifício. A editora do livro na Alem anha, a fam osa Kiepenheuer und Witsch, cancelou sum ariam ente o contrato com o autor e tentou cobrar dele seus custos de segurança. (A edição alem ã acabou saindo por um grande consórcio de editoras e personalidades em inentes, o m esm o m étodo em pregado na Espanha.) O editor francês Christian Bourgois de início relutou em editar o livro e depois adiou a publicação várias vezes, m as por fim foi persuadido a fazê-lo devido às críticas cada vez m ais ruidosas que os m eios de com unicação franceses lhe fizeram . Andrew Wy lie e Gillon Aitken foram incríveis. Viaj aram de país em país para persuadir, adular, am eaçar e lisonj ear donos de editoras, instando-os a cum prir seu papel. Em m uitos países, o livro só foi publicado devido à pressão resoluta que eles em pregaram sobre editores nervosos.

Na Itália, porém , houve heróis. Sua editora italiana, a Mondadori, publicou o livro poucos dias depois da fatwa. Seus proprietários — a Fininvest, em presa holding de Silvio Berlusconi, a cir, de Carlo de Benedetti, e os herdeiros de Arnoldo Mondadori — hesitaram m ais do que os donos da Penguin, e m anifestaram dúvidas quanto à conveniência da publicação, m as a determ inação do diretor editorial Giancarlo Bonacina e de seu grupo levou a m elhor. O livro foi publicado com o previsto.

Enquanto tudo isso e m uito m ais acontecia, o autor de Os versos satânicos estava agachado, m orto de vergonha, atrás de um balcão de cozinha para não ser visto por um guardador de carneiros.

E além das m anchetes gritantes havia as crises particulares do escritor, o bolo no estôm ago criado pela necessidade constante de achar o próxim o lugar para onde ir, sua preocupação com a fam ília (sua m ãe chegara a Londres para ficar com Sam een e estar m ais perto dele, m as ele ainda levaria um tem po para poder vê-la), e, é claro, havia tam bém Marianne, que ouviu da filha, Lara, em vários telefonem as enfáticos, que “nenhum de seus am igos entendia” por que a m ãe aceitava correr tanto perigo. Esse era um argum ento com preensível, que qualquer filha poderia apresentar. Marianne tinha achado um a casa para alugar, e poderiam m udar-se em um a sem ana. Isso foi um a boa aj uda da parte dela, m as no íntim o ele tinha certeza de que Marianne o deixaria se a crise durasse m uito m ais tem po. Para ela, essa nova vida estava sendo dificílim a. A turnê de lançam ento de John Dollar tinha sido cancelada, e se ele estivesse no lugar dela era provável que tam bém o deixasse. Nessa época, ela m ergulhou em algo parecido com seu processo norm al de trabalho, fazendo anotações abundantes sobre o local onde estavam , copiando frases em galês em sua caderneta, e com eçando a escrever contos que na realidade não eram ficção, e sim dram atizações daquilo que estavam vivendo. Um desses contos se cham ava “Croeso i Gy m ru”, ou sej a, “Bem -vindo a Gales”, e com eçava com as palavras Tínhamos dado no pé para o País de Gales, um a frase que o incom odava porque “dar no pé” queria dizer fugir da lei. Eles não eram crim inosos, ele quis dizer, m as não disse. Ela não estava com disposição de ouvir críticas. Vinha escrevendo um conto cham ado “Aprendendo urdu”.

O m inistro do Exterior foi à televisão para dizer m entiras sobre ele. O povo britânico, disse sir Geoffrey Howe, não gostava do livro dele. O texto tratava a Grã-Bretanha com extrem a rudeza. Com parava a Grã-Bretanha, disse, com a Alem anha de Hitler. O autor do livro m al-am ado deu consigo gritando para a televisão: “Onde? Em que página? Diga onde eu escrevi isso”. A televisão não respondeu. Os traços presunçosos, suaves, estranham ente doces de sir Geoffrey o fitavam , im passíveis. Ele se lem brou de que certa vez Denis Healey, ex-integrante de um governo trabalhista, dissera que ser atacado por Howe era com o ser “agredido por um carneiro m orto”, e durante alguns segundos ele pensou em processar o carneiro m orto por difam ação. Mas isso seria bobagem , é claro. Aos olhos do m undo, ele é que era o grande Difam ador, e por isso as pessoas tinham licença para difam á-lo de volta.

O carneiro m orto tinha com panhia. Roald Dahl, o gigante inam istoso, estava dizendo pelos j ornais que “Rushdie é um oportunista perigoso”. Alguns dias antes, o arcebispo de Cantuária, Robert Runcie, declarara que “com preendia os sentim entos dos m uçulm anos”. Logo o papa tam bém os com preendeu, e depois o grande rabino britânico e o cardeal de Nova York. O batalhão de Deus alinhava suas tropas. Nadine Gordim er, porém , o defendeu pela im prensa, e nos dias em que ele e Marianne deixaram a fazenda de Deb e Michael e se m udaram para a casa que tinham alugado foi publicada a cham ada Declaração de Escritores do Mundo, assinada por m ilhares de escritores. O Reino Unido e o Irã tinham rom pido relações diplom áticas. Por m ais bizarro que pareça, foi o Irã que as rom peu, e não o governo Thatcher. Aparentem ente, a proteção dada pela polícia britânica ao trânsfuga e apóstata era m ais desconcertante para os aiatolás do que era, para o governo de Londres, o ataque extraterritorial a um cidadão britânico. Ou talvez os iranianos sim plesm ente tivessem revidado prim eiro.

A casinha m odesta, um a m eia-água de paredes brancas e telhado de ardósia, cham ava-se Ty n-y -Coed, a casa na floresta, nom e com um para um a casa naquela área. Ficava perto da aldeia de Pentrefelin in Brecon, não m uito longe dos m ontes Negros e da serra de Brecon Beacons. Chovia a cântaros, e, quando chegaram lá, fazia m uito frio. Os agentes da polícia tentaram acender o fogão, o que conseguiram depois de m uito vozerio e palavrões. No andar de cim a ele achou um quartinho onde podia fechar a porta e fingir que trabalhava. A casa, com o o tem po lá fora, passava um a sensação de desolação. Margaret Thatcher estava na televisão, com preendendo o insulto ao islã e se solidarizando com os insultados. Ele conversou com Gillon Aitken e Bill Buford, e am bos avisaram que haveria um a onda de opinião pública contra ele durante certo tem po. Ler as m anifestações de apoio de grandes escritores de todo o m undo, publicadas no The New York Times Book Review ,trouxe-lhe algum conforto. Falou com Michael Foot por telefone e se anim ou com suas declarações enfáticas de total solidariedade. Im aginava a longa cabeleira branca de Michael sacudindo de um lado para o outro, e sua m ulher, Jill Craigie, ao lado dele, serenam ente brava. “Um a vergonha. Isso tudo. É o que eu e Jill acham os. Francam ente!”

A equipe de proteção fora trocada. Stan, Benny , Dennis e Mick tinham voltado para casa, e agora ele estava entregue aos cuidados de Dev Stonehouse, um a peça rara cuj o rosto tinha um a tonalidade que o fazia pensar num problem a de alcoolism o, e que desfiava, sem papas na língua, casos de outros “protegidos” de quem ele havia cuidado: a noite em que o político irlandês Gerry Fitt virou dezesseis gins-tônicas, a conduta de intolerável arrogância do m inistro Tom King para com a equipe de proteção, “esse suj eito pode m uito bem levar um tiro nas costas qualquer dia desses”, e, para contrastar, os m odos gentilíssim os de Ian Paisley , o aguerrido líder protestante da Irlanda do Norte, que se lem brava do nom e de todo m undo, perguntava pela fam ília de cada um e todo dia de m anhã rezava com seus agentes de proteção. Na equipe de Dev havia m ais dois m otoristas sorridentes e sim páticos, Alex e Phil, que faziam de conta que não escutavam Dev “despej ar suas bobaj adas”, e um segundo agente de proteção, Peter Huddle, que não escondia sua aversão ao detetive-sargento Stonehouse. “Ele é que nem ter hem orroidas”, dizia na cozinha, em alto e bom som , “um verdadeiro pé no saco.”

Os agentes o levaram para um passeio pelos m ontes Negros — a paisagem em que Bruce Chatwin am bientara seu m elhor livro, Colina negra —, e ali, ao ar livre, podendo olhar para os cam pos e o horizonte, e não para as paredes de um a casa, ele se sentiu livre e feliz. Aquela equipe gostava de conversar. “Não consigo com prar um presente para m inha m ulher”, reclam ou Alex, escocês das planícies. “Ela não gosta de nada que dou a ela.” Phil tinha ficado tom ando conta dos veículos. “Ele vai ficar bem ”, disse Alex. “Os m ds gostam de ficar sentados em seus carros.” E, sem m ais nem m enos, Dev anunciou que tinha transado na noite anterior. Alex e Peter fecharam a cara, com um a expressão de desgosto. E de repente ele sentiu um a dor aguda na m andíbula. Eram os dentes do siso. A dor passou daí a pouco, m as foi um aviso. Talvez ele precisasse procurar um dentista.

Os agentes tinham lhe dito que não gostavam nada da ideia de que ele fosse a Londres com frequência, m as tam bém entendiam que precisava ver o filho. Seus am igos ofereciam suas casas, e ele era levado a Archway, para ver Zafar na casa de sua velha am iga de Cam bridge Teresa Gleadowe e de seu m arido, Tony Stokes, em cuj a pequena galeria de arte, em Covent Garden, fora realizado, em outra vida, o alm oço com em orativo do lançam ento de Os filhos da meia-noite; ou a Kentish Town, para a casa de Sue Moy lan e Gurm ukh Singh, que tinham se conhecido e se apaixonado em seu casam ento com Clarissa e nunca m ais se separaram . Form avam um casal disparatado ideal: ela, filha de um j uiz e a clássica rosa inglesa; ele, um alto e vistoso sique de Cingapura, pioneiro na incipiente ciência da inform ática. (Quando Gurm ukh decidiu aprender j ardinagem , m ontou um program a de com putador que lhe dizia exatam ente o que fazer a cada dia do ano. Seu j ardim , plantado e m antido de acordo com as instruções daquele program a, ficou m aravilhoso.) Harold Pinter e Antonia Fraser abriram suas portas para ele, assim com o m uitos outros am igos. Bill Buford lhe disse: “Seus am igos vão se fechar em torno de você com o um círculo de ferro, e dentro desse aro você vai poder tocar sua vida”. E foi exatam ente isso que eles fizeram . O código de silêncio deles era inquebrável. Nenhum deles j am ais deixou escapar, por descuido, o m ínim o detalhe de seus m ovim entos, nem um a só vez. Ele não teria sobrevivido seis m eses sem eles. Depois de m uita desconfiança inicial, a Divisão Especial tam bém chegou a confiar nos am igos dele — a entender que se tratava de pessoas sérias que com preendiam o que tinha de ser feito.

Continuar: parte 2 de 5