Joseph Anton: Memórias

Salman Rushdie · Capítulo 3 de 11 · parte 1/3

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Joseph Anton: Memórias

2. “Originais não queimam”

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

2. “Originais não queim am ”

 

“Diga-me, por que Margarida chama o senhor de mestre?”, perguntou Woland.

O homem riu e respondeu: “Uma compreensível fraqueza dela. Ela

tem em altíssimo conceito um livro que escrevi”.

“Que livro é esse?”

“Um romance sobre Pôncio Pilatos.” [...] “Sobre o quê? Quem?”, disse Woland, parando de rir. “Mas isso é

notável! Hoje, nesta época? O senhor não poderia escolher outro tema? Deixe-me dar uma olhada.” Woland estendeu a mão, com a palma para cima.

“Infelizmente, não posso mostrá-lo ao senhor”, respondeu o mestre,

“porque o queimei no fogão.”

“Desculpe, mas não acredito nisso”, disse Woland. “O senhor não

pode ter feito isso. Originais não queimam.” Virou-se para Beemote e disse: “Vamos lá, Beemote, dê-me o romance”.

O gato deu um pulo da cadeira, e onde ele estivera sentado havia uma

pilha de papéis escritos. Com uma mesura, o gato entregou a folha de cima a Woland. Margarida teve um sobressalto e exclamou, em lágrimas: “Aí está o manuscrito! Aí está!”.

Woland, o diabo, devolve ao m estre seu rom ance destruído, em O

mestre e Margarida, de Mikhail Bulgakov.

Na m adrugada de 15 de fevereiro de 1989, ele rolava na cam a, de um lado para outro, ao lado da m ulher, que dorm ia. De m anhã, recebeu a visita de um oficial graduado do Esquadrão “A” da Divisão Especial da Polícia Metropolitana, ao qual com petem todos os casos de proteção especial no Reino Unido (exceto a proteção da fam ília real, a cargo do Esquadrão de Proteção Real). A Divisão Especial surgira com o Divisão Especial Irlandesa, criada em 1883 para com bater a Irm andade Republicana Irlandesa. Até pouco tem po antes, as am eaças principais contra as pessoas que ela protegia — o prim eiro-m inistro, o secretário da Defesa, o secretário do Exterior, o secretário da Irlanda do Norte e vários m em bros desabridos do Parlam ento — vinham de um a organização descendente da Irm andade, o ira Provisório. No entanto, o terrorism o se diversificara e as forças de segurança tinham de enfrentar novos inim igos. Líderes da com unidade j udaica solicitavam proteção de vez em quando, depois de receber am eaças verossím eis de islâm icos. E agora havia tam bém esse rom ancista, que tentava dorm ir, insone, na Lonsdale Square. Do outro lado do m undo, um m ulá de braço longo estendia a m ão para acabar com sua vida. Isso era assunto da polícia.

O hom em da Divisão Especial veio acom panhado de um oficial do serviço de inform ações, e am bos lhe com unicaram as m edidas de segurança que tinham sido decididas com relação à am eaça. Ameaça era um term o técnico, e não era o m esm o que risco. O nível de ameaça era um conceito genérico, m as os níveis de risco eram específicos. O nível de am eaça contra um a pessoa podia ser elevado — e cabia aos serviços de inform ações determ inar isso —, m as o nível de risco ligado a um a determ inada ação por parte dessa pessoa poderia ser m uito m ais baixo, por exem plo, se ninguém soubesse o que ela tencionava fazer, ou quando. A avaliação do risco cabia à equipe de proteção da polícia. Ele teria de dom inar esses conceitos, pois as avaliações da am eaça e do risco m oldariam , de agora em diante, sua vida diária. No m om ento, porém , ele pensava na ilha Maurício.

Dez dias depois de ele ter entregado os originais de Os versos satânicos, Marianne tam bém acabou seu novo livro, John Dollar, um rom ance que envolvia canibalism o entre personagens perdidos num a ilha deserta e que ela insistia em definir — o que ele não aprovava — com o um “O senhor das moscas fem inista”. Na noite do j antar do Booker Prize de 1988, quando Os versos satânicos ficou em segundo lugar, perdendo o prêm io para Oscar e Lucinda, de Peter Carey, ela chegou a descrevê-lo com essas palavras para o próprio autor, William Golding. Isso foi, sem dúvida, im próprio. Dois dias depois que ela entregou seu m anuscrito, eles pegaram um avião para Maurício, com a filha de Marianne, Lara Porzak, estudante em Dartm outh e fotógrafa prom issora. Felizm ente, Maurício não era um a ilha deserta, de m odo que não havia no cardápio nada de carne hum ana. Aquelas eram suas prim eiras férias num a “ilha paradisíaca”, e bem que ele estava precisado de um pouco de descanso e hedonism o. O rom ance o exaurira m ais do que qualquer outro livro anterior. Enquanto espaireciam , Andrew Wy lie, em Nova York, e Gillon Aitken, em Londres, distribuíram cópias de Os versos satânicos, e as rodas da engrenagem da atividade editorial com eçaram a girar. O m ar era tão m orno que quando se entrava na água não havia diferença algum a na tem peratura, e ele passava o tem po contem plando crepúsculos tropicais, tom ando drinques com frutas e guarda-chuvinhas, degustando pratos deliciosos feitos com um peixe cham ado sacréchien e pensando que, naquela hora, Sonny Mehta, da Knopf, Peter May er, da Viking, e outros editores da Doubleday, da Collins e outras com panhias estariam lendo seu livro grande e estranho. Ele levara um saco de livros para desviar a m ente do leilão que logo viria. Estava m uito ansioso por conhecer seu resultado, m as durante aqueles dias idílicos à beira do oceano Índico era im possível im aginar que algum a coisa pudesse sair errado.

Ele devia ter prestado atenção às aves. As aves não voadoras, m ortas, que, não conseguindo fugir dos predadores, eram por eles despedaçadas. Maurício era a capital m undial, o cam po de exterm ínio e o cem itério de aves não voadoras extintas.

Estranham ente para um a ilha de seu tam anho, até o século xvii “l’île Maurice” não tinha nenhum a população hum ana. No entanto, 45 espécies de aves tinham vivido ali, m uitas delas incapazes de sair do chão, entre as quais a saracura verm elha, o íbis-sagrado e o dodô. Então chegaram os holandeses. Só ficaram na ilha de 1638 a 1710, m as quando foram em bora todos os dodôs tinham m orrido, na m aior parte trucidados pelos cachorros dos colonizadores. Ao todo, 24 das 45 espécies de aves da ilha se extinguiram , com o tam bém as tartarugas, antes abundantes, e outras criaturas. Havia um esqueleto de dodô no m useu de Port Louis. Sua carne era intragável para os seres hum anos, m as os cachorros eram m enos exigentes. Viam um a criatura indefesa e a faziam em pedacinhos. Afinal de contas, eram cães treinados para a caça. Não estavam habituados à piedade.

Tanto os holandeses quanto os franceses, que lhes sucederam , im portaram escravos africanos para o cultivo da cana-de-açúcar. Esses escravos não eram tratados com gentileza. Os castigos incluíam am putações e execuções. Os ingleses conquistaram Maurício em 1810, e em 1835 a escravidão foi abolida. Quase todos os escravos logo deixaram a ilha em que tinham sido usados com tanta crueldade. Para substituí-los, os britânicos levaram para lá um a nova população de indianos, que trabalhavam em regim e de servidão contratual. A m aior parte dos indianos que viviam em Maurício em 1988 nunca tinha visto a Índia, m as m uitos ainda falavam um dialeto indiano, o bhoj puri, que em um século e m eio sofrera algum a transform ação, m as ainda era reconhecível, e esses indianos ainda eram hindus ou m uçulm anos. Para eles, era um a espécie de m ilagre conhecer um indiano nascido na Índia, um indiano que cam inhara por ruas indianas reais e havia com ido o verdadeiro pam po do Índico, em vez do sacréchien m auriciano, um indiano que se aquecera ao sol da Índia e se ensopara sob as chuvas de m onção, que havia nadado na costa indiana do verdadeiro m ar da Arábia. Ele era um visitante que vinha de um a terra antiga e m ítica, e por isso abriram -lhe suas casas. Um dos principais poetas em híndi de Maurício, que pouco tem po antes estivera na Índia pela prim eira vez na vida, para participar de um congresso de poesia, lhe disse que sua leitura deixara desconcertadas as plateias indianas, porque ele lia para transm itir significado, da form a que para ele era “norm al”, em vez de declam ar os versos ritm icam ente, da m aneira habitual aos poetas em híndi da Índia. Isso representava um a pequena m odificação cultural na “norm alidade”, um efeito colateral secundário da m igração de seus antepassados contratados, m as que tivera um im pacto pronunciado no poeta, pois lhe m ostrara que, apesar de seu dom ínio da principal língua da Índia, ele não estava realm ente inserido em sua tradição. O escritor indiano em igrado a quem essa história foi contada com preendeu que a integração era um a questão im portante e incôm oda para am bos. Eles tinham de dar respostas a perguntas que não eram feitas a autores de um só lugar, de um a só língua, de um a só cultura, e tinham de ter certeza de que suas respostas estavam certas. Quem eram , a que e a quais pessoas se achavam integrados? Ou seria a própria ideia de integração um a arm adilha, um a j aula da qual tinham tido a sorte de escapar? Ele concluíra que as perguntas precisavam ser reform uladas. As perguntas a que ele sabia responder não eram sobre lugares ou raízes, e sim sobre am or. A quem você ama? O que consegue deixar para trás, e em que precisa se segurar? Onde é que seu coração se sente saciado?

Certa vez, na Festa Literária de Cheltenham , num j antar para os vários escritores indianos convidados naquele ano, a rom ancista indiana Githa Hariharan lhe dissera, de um a hora para outra: “É claro que sua posição na literatura indiana é m uito incerta”. Ele ficou chocado e um tanto m agoado. “É m esm o?”, respondeu, sentindo-se m eio tolo. “Ah, é”, disse ela, enfática. “Muito.”

Na praia, diante do hotel em que estavam , ele encontrou um hom em franzino, com um elegante chapéu de palha, que vendia bugigangas para turistas com um singular fervor. “Olá, senhor, com pre algum a coisa, senhor”, disse o hom enzinho, sorrindo de um lado a outro do rosto, e acrescentou: “Eu m e cham o Musculação”. Foi com o se Mickey Mouse de apresentasse com o “Arnold Schwarzenegger”. O escritor indiano em igrado balançou a cabeça. “Não é, não”, disse, e logo passou do inglês para o híndi. “Você deve ter um nom e indiano.” O efeito da língua foi espetacular. “O senhor é indiano de verdade?”, perguntou Musculação, tam bém em híndi. “Da Índia m esm o?” Dentro de três dias aconteceria o Holi, a festa de cores da prim avera, quando em toda a Índia — e, pelo que se podia ver, tam bém em Maurício — as pessoas “brincavam o Holi”, ou sej a, m olhavam -se m utuam ente com água colorida e atiravam pós coloridos um as nas outras. “O senhor tem de brincar o Holi em m inha casa”, insistiu Musculação, e o riso franco dos foliões do Holi proporcionou um certo alívio à tensão crescente entre ele próprio e suas duas com panheiras de viagem . Foi um dia bom no casam ento de cinco sem anas que j á com eçava a m ostrar sinais de problem as. Havia tensões elétricas entre Marianne e Lara, entre ele e Lara e entre ele e Marianne. As águas m ornas do Índico não conseguiam elim inar esse fato, nem as cores berrantes do Holi o ocultavam . “Eu estou na sua som bra”, disse-lhe Marianne, e ele viu ressentim ento no rosto dela. Andrew Wy lie e Gillon Aitken tam bém eram agentes dela. Ele a apresentara a am bos, que tinham passado a representá-la. Mas agora Os versos satânicos estava sendo oferecido em leilão, e o rom ance dela tinha de esperar na fila.

Quando voltaram da festa, ensopados e pintados de cor-de-rosa e verde, havia um a m ensagem de Andrew esperando por ele, que ligou para Nova York do bar do hotel. Os lances tinham sido feitos. Eram altos, de dim ensões para ele quase chocantes, m ais de dez vezes superiores a seus m aiores adiantam entos prévios. Entretanto, a pilha de dinheiro tinha um preço. Duas boas am izades tinham sofrido sérios estragos.

 

No com eço daquele ano, Liz Calder, sua prim eira e única editora de texto e sua am iga íntim a por quinze anos, pedira dem issão da Jonathan Cape para fundar, com outras pessoas, um a nova editora, a Bloom sbury. Em vista da am izade entre eles, havia a presunção de que ele a acom panharia. Na época, Andrew Wy lie só o representava nos Estados Unidos; sua agente britânica ainda era a respeitadíssim a Deborah Rogers, tam bém am iga próxim a de Liz Calder. Deborah logo com binou com Liz que “o novo Rushdie” iria para a Bloom sbury por um a som a m odesta, j á que a nova editora não tinha com o fazer grandes adiantam entos. Era o tipo de ação entre am igos com um no m undo editorial britânico, e ele não gostou daquilo. Andrew Wy lie lhe avisou que, se ele aceitasse um a quantia baixa no Reino Unido, estaria arruinando as perspectivas do livro nos Estados Unidos. Depois de m uito hesitar, ele concordou em perm itir que Andrew e seu colega britânico, Gillon Aitken, o representassem no m undo inteiro. A ação entre am igas foi cancelada, Liz e Deborah se sentiram m uito m agoadas, e o leilão foi avante. Ocorreu-lhe observar a Liz que, na verdade, fora ela quem o abandonara ao deixar a Cape para fundar a Bloom sbury, m as ela não estava disposta a ouvir esse tipo de argum ento. Não havia m uito o que dizer a Deb. Ela não era m ais sua agente. Não havia com o dourar aquela pílula.

Para ele, a am izade sem pre fora de enorm e im portância. Havia passado grande parte da vida fisicam ente distante da fam ília, distanciado dela tam bém em ocionalm ente. Os am igos eram a fam ília que a pessoa escolhia. Goethe usara o term o científico “afinidades eletivas” para propor que as ligações de am izade, am or e casam ento entre os seres hum anos assem elhavam -se a reações quím icas. As pessoas se atraíam quim icam ente para form ar com postos estáveis — casam entos — e, quando expostas a outras influências, separavam -se um as das outras; um a parte do com posto era desaloj ada por um novo elem ento e, às vezes, um novo com posto se form ava. Ele próprio não gostava m uito da utilização da quím ica com o m etáfora. Parecia algo dem asiado determ inista e deixava pouquíssim o espaço para a atuação da vontade hum ana. Para ele, “eletivo”significava “escolhido”, não pela natureza bioquím ica inconsciente de alguém , m as pelo eu consciente da pessoa. Seu am or pelos am igos escolhidos, bem com o o am or daqueles que o haviam escolhido, era o que o sustentara e lhe dera forças; e as feridas que suas ações tinham causado, m esm o quando j ustificáveis em term os com erciais, pareciam erradas do ponto de vista hum ano.

Ele conhecera Liz através da m elhor am iga de Clarissa, Rosanne Edge-Partington, no com eço da década de 1970. Lavinia, a m ãe de Clarissa, em igrara havia pouco para Mij as, no sul da Espanha, o local preferido do general Franco na Andaluzia, um ím ã para expatriados ultraconservadores de toda a Europa e, m ais tarde, m odelo para a vila ficcional, m as não diferente, de Benengeli em O último suspiro do mouro. Ela vendeu seu casarão na Belgrave Street, 35, para os atores Michael Redgrave e Rachel Kem pson, que m ais tarde o revenderam — por m ais estranho que pareça — para Hope Som oza, m ulher do ditador da Nicarágua. No entanto, Lavinia m anteve o apartam ento duplex contíguo, núm ero 37A, que antes fora ligado à casa principal, para que a filha ali m orasse. Clarissa e ele tinham m orado nesse apartam ento durante três anos e m eio, até com prarem a casa da Raveley Street, 19, em Kentish Town, na zona norte de Londres, onde ele escreveu Os filhos da meia-noite, sonhando com horizontes indianos que trem eluziam com o calor, enquanto via os plúm beos céus londrinos; e, durante a m aior parte desses três anos e m eio, Liz m orara com eles. O nam orado dela na época, Jason Spender, fazia doutorado na Universidade de Manchester, enquanto ela trabalhava no departam ento de publicidade da editora Victor Gollancz, em Londres, indo e vindo entre Manchester e Londres, passando três ou quatro dias da sem ana no escritório e os restantes no norte.

Liz era um a m ulher deslum brante, e um a das tarefas que lhe confiou foi que, se algum hom em a levasse em casa depois de algum evento literário, o que era frequente, ele ficasse acordado e conversasse anim adam ente com o fulano, até ele ir em bora. “Nunca m e deixe sozinha com eles”, ordenou, com o se não fosse perfeitam ente capaz de resolver qualquer situação que algum deles criasse. Um desses visitantes noturnos era o escritor Roald Dahl, hom em com prido e desagradável com im ensas m ãos de estrangulador, que volta e m eia lhe lançava olhares que, carregados de ódio, só reforçavam a resolução dele de não arredar pé dali. Por fim , Dahl sum ia na noite, m al se despedindo até m esm o de Liz. Outro cavalheiro que a levava em casa era John Colem an, crítico de cinem a da New Statesman, que, tido com o alcoólatra recuperado, certo dia abriu a pasta, tirou dela duas garrafas de bebida e anunciou: “Essas são para m im ”. Colem an foi ficando, foi ficando, até que, traindo a confiança de Liz, ele não aguentou m ais e foi se deitar, enquanto ela o fuzilava com o olhar. Na m anhã seguinte, Liz contou que Colem an tinha ficado pelado na sala e exclam ado: “Me use, sou seu”. Com calm a, ela fizera o em inente crítico vestir-se de novo e o levara à porta de saída.

Liz tinha se casado cedo, m udado da Nova Zelândia para o Brasil, com o m arido, Richard, tivera um filho e um a filha, trabalhara com o m odelo de passarela, havia deixado o m arido e voltado para Londres. O Brasil continuou sendo para ela um a paixão, e certa vez, quando um “baile brasileiro”, em Londres, ofereceu duas passagens de avião para o Rio de Janeiro com o prim eiro prêm io para a m elhor fantasia de Carnaval, ela cobriu o corpo nu com crem e branco, arm ou um a pose e desfilou pelo salão sobre um carrinho. Quem em purrava o carrinho era Louis Baum , seu novo nam orado, editor de The Bookseller, a bíblia sem anal da indústria editorial. Baum estava fantasiado de escultor, de capa e boina, com um cinzel na m ão. É claro que ela ganhou.

Liz foi prom ovida na Gollancz, deixando o departam ento de publicidade e tornando-se editora na m esm a época em que ele acabou de escrever Grimus. À noite, ela dorm ia no quarto em que ele escrevia durante o dia, e, sem que ele soubesse, vinha dando olhadas no original cada vez m aior. Quando o livro ficou pronto, ela o editou, de m odo que o prim eiro rom ance dele com o autor foi tam bém o prim eiro rom ance dela com o editora. Depois que Zafar nasceu, todos eles tinham tirado férias na França, j unto com o filhinho de Louis, Sim on. Era essa a am izade que ele rom pera por dinheiro. O que isso indicava a seu respeito?

A ligação com Deborah Rogers não era tão antiga quanto sua am izade com Liz, m as era forte. Deborah era um a m ulher am ável, m aternal, de enorm e coração e generosa, um a pessoa cuj a relação com seus autores era tão afetuosa quanto profissional. Depois da publicação de Os filhos da meia-noite, m uito antes do Booker Prize e de o livro virar um best-seller internacional, foi no escritório dela que ele se dera conta de que, se tivesse cuidado, poderia ser capaz de viver de sua literatura. E o estím ulo dela o encoraj ara a voltar para casa e dizer a Clarissa que deveriam se “preparar para ser pobres”, e então a confiança de Clarissa redobrara sua disposição e lhe perm itira ir à agência de publicidade e pedir dem issão. Ele e Clarissa tinham passado dias felizes em Middle Pitts, a fazenda de Deb e de seu m arido, o com positor Michael Berkeley, no País de Gales. Essa foi outra ruptura que provocou um a dolorosa sensação de culpa. Entretanto, quando a tem pestade desabou sobre sua cabeça, tanto Deborah quanto Liz puseram de lado suas m ágoas e portaram -se com extrem a lealdade e generosidade para com ele. Se ele pôde sobreviver àqueles anos, foi graças ao am or e à lealdade dos am igos. E tam bém ao perdão deles.

E Liz sentiu que havia se esquivado de um a bala. Se tivesse publicado Os versos satânicos, é provável que a crise que se seguiu, com as am eaças de bom bas e de m ortes, as despesas de segurança, as evacuações de edifícios e o m edo, teria afundado em pouco tem po seu novo em preendim ento editorial, e a Bloom sbury não sobreviveria para descobrir um a obscura e inédita autora de livros infantoj uvenis cham ada Jo Rowling.

Aconteceu outra coisa. Na batalha de Os versos satânicos, nenhum escritor poderia contar com aliados m ais coraj osos, inflexíveis e determ inados que Andrew Wy lie e Gillon Aitken. Quando ele os escolheu, não sabia que Andrew e Gillon iriam participar de um a guerra j untos, nem eles tinham com o saber o que o futuro lhes reservava. No entanto, quando a guerra com eçou, ele ficou feliz por tê-los a seu lado.

 

O lance m ais alto pelos direitos de publicação de Os versos satânicos em inglês não foi feito pela Viking. Havia outra oferta, 100 m il dólares m ais elevada, m as tanto Andrew com o Gillon aconselharam -no vivam ente a não aceitá-la. Ele não estava habituado a lances daqueles valores, m uito m enos a rej eitá-los, e perguntou a Andrew: “Pode m e explicar de novo por que não devo concordar em receber m ais 100 m il dólares?”. Andrew obstinou-se. “Eles não seriam os editores certos para você.” Depois, quando veio a tem pestade, a The New Yorker publicou um a entrevista com o sr. Rupert Murdoch, em que ele declarou enfaticam ente: “Em m inha opinião, não se deve ofender as crenças religiosas das pessoas. Por exem plo, tenho certeza de que nosso pessoal nunca se disporia a publicar o livro de Salm an Rushdie”. Era possível que Rupert Murdoch não soubesse que “seu pessoal” m ostrara tam anho entusiasm o pelo rom ance que superara os lances da concorrência por um a diferença considerável, m as, à luz desse perfil na The New Yorker, parecia provável que, se Murdoch fosse o dono da editora de Os versos satânicos,teria retirado o livro das livrarias no m om ento em que com eçou a confusão. O conselho de Andrew Wy lie fora de um a presciência im pressionante. Realm ente, Murdoch não era o editor certo para o livro.

 

Não existe o que se cham a de “vida norm al”. Ele sem pre sim patizara com a ideia dos surrealistas de que o hábito em bota nossa capacidade de sentir o quanto o m undo é extraordinário. À m edida que crescem os, nós nos acostum am os com o j eito com o as coisas são, à cotidianidade da vida, e um a espécie de poeira ou película nos tolda a visão, e com isso nos escapa a natureza verdadeira, m iraculosa, da vida na Terra. A tarefa do artista consiste em rem over essa cam ada que nos cega e restaurar nossa capacidade de m aravilham ento. Isso lhe parecia correto; m as o problem a não decorria só do hábito. As pessoas tam bém sofrem de um a form a de cegueira opcional. Fingem que existe o que se considera “norm al”ou“com um ”, e essa é a fantasia pública, m uito m ais escapista do que a m aior parte da ficção escapista, e dentro dela as pessoas se escondem , com o que num casulo. As pessoas se escondem atrás de suas portas, na zona oculta de seus m undos privados, fam iliares, e, quando pessoas de fora lhes perguntam com o vão as coisas, respondem : está tudo bem , não há nada de novo, tudo norm al. Contudo, no fundo todos sabem que atrás das portas as coisas raram ente são rotineiras. No m ais das vezes, a inferneira está à solta, visto que as pessoas lidam com pais furiosos, m ães alcoólatras, irm ãos ressentidos, tias loucas, tios libidinosos e avós decrépitos. A fam ília não é a firm e fundação sobre a qual o edifício da sociedade se apoia, m as se situa no âm ago som brio e caótico de tudo quanto nos aflige. Não é norm al, m as surreal; não é rotineira, m as cheia de agitação; não é ordinária, e sim bizarra. Ele se lem brava da em polgação que sentira ao ouvir, com vinte anos, as palestras Reith, proferidas na rádio bbc por Edm und Leach, o grande antropólogo e intérprete de Claude Lévi-Strauss, que, um ano antes, sucedera a Noel Annan com o reitor do King’s College. “Longe de ser a base da boa sociedade”, dizia Leach, “a fam ília, com sua privacidade estreita e seus segredos chinfrins, é a fonte de todas as nossas insatisfações.” Isso!, ele pensou. Isso! Eis uma coisa que eu também sei. As fam ílias nos livros que m ais tarde ele escreveu eram explosivas, operísticas, gesticulantes, exclam ativas, indisciplinadas. As pessoas que não gostavam de seus rom ances às vezes criticavam essas fam ílias ficcionais por não serem realistas — não serem “norm ais”. Entretanto, os leitores que gostavam de seus livros lhe diziam : “Essas fam ílias são o retrato da m inha”.

Os direitos de publicação de Os versos satânicos em inglês foram vendidos à Viking em 15 de m arço de 1988. O livro foi publicado em Londres em 26 de setem bro. Esses foram os últim os m eses de sua “vida norm al”, depois da qual as pátinas do hábito e da autoilusão foram rudem ente rem ovidas, e o que se revelou não foi a beleza surreal do m undo, m as sua m onstruosidade feral. Nos anos que se seguiram , caberia a ele redescobrir, com o fez a Bela, a beleza da Fera.

 

Quando Marianne se m udou para a casa da St. Peter’s Street, disse que precisava de um a m édica, nas proxim idades, que atuasse em clínica geral. Ele se ofereceu para apresentá-la à sua própria m édica, m as ela respondeu: “Preciso de alguém que com preenda o tratam ento pelo qual eu passei”. Explicou que era sobrevivente de um câncer de cólon, que havia superado m ediante um a form a de tratam ento de vanguarda no Canadá. (Esse tratam ento era legal no Canadá, m as não nos Estados Unidos, disse.) “Por isso estou investigando na rede de câncer.” Daí a alguns dias, disse que tinha encontrado a m édica que desej ava.

Em m eados de 1988, ele e Marianne estavam pensando no futuro. Em dado m om ento, chegaram a pensar em com prar um a casa nova em Nova York e m anter apenas um apartam ento em Londres, m as Zafar ainda não tinha nem nove anos, e logo desistiram dessa ideia. Olharam casas na Kem play Road, em Ham pstead, depois na Willow Road, no lim ite de Heath, e chegaram a fazer um a oferta pela casa da Willow, que foi aceita. Mas ele desistiu dessa negociação, alegando que na verdade não queria enfrentar a trabalheira de um a m udança. A verdade era m ais triste: ele não queria com prar um a casa com Marianne, porque não tinha certeza de que o relacionam ento deles seria duradouro.

Ela com eçou a se queixar, naqueles m eses, de sentir-se m al de novo. Depois de um a briga feia por causa da contínua “obsessão” dele com Roby n, um a obsessão que na verdade era dela, ela falou sobre sentir um a som bra dentro de si, um a dor forte em seu sangue. Precisava ver a m édica. Tem ia um câncer cervical. Ele percebeu a am arga ironia que era essa crise surgir no exato m om ento em que am bos haviam concluído seus livros e estavam cheios de planos; da possibilidade de um a perda horrível vir a destruir a alegria que sentiam . “Você está sem pre falando sobre o que perdeu”, ela lhe disse. “Mas é óbvio que tam bém ganhou m uitas coisas.”

A seguir, ela soube que sua solicitação de um a bolsa Guggenheim tinha sido indeferida e ficou deprim ida. Ela disse que a m édica lhe ligara: as notícias não eram conclusivas, m as não ótim as. Daí a sem anas, entretanto, da m esm a form a com o a possibilidade de câncer se apresentara, foi riscada. As nuvens escuras desapareceram . Ela estava saudável. O futuro voltou a existir.

Por que ele tinha a im pressão de que havia algo de errado nessa história? Não conseguia definir o que era. Talvez a confiança entre eles tam bém j á estivesse m uito desgastada. Ela não perdoava o papelzinho que achara em seu bolso. A decisão dele de não com prar a casa da Willow Road fora outro golpe na esperança dela no casam ento. E tam bém ele tinha certas perguntas difíceis na cabeça.

 

O pai de Clarissa tinha saltado de um edifício. A m ãe de Roby n Davidson se enforcara. Agora ele ficara sabendo que o pai de Marianne tam bém se suicidara. Qual seria o significado do fato de todas as m ulheres im portantes em sua vida serem filhas de suicidas? Ele não podia, ou não queria, responder a essa pergunta. Logo depois de conhecer Elizabeth West, que se tornaria sua terceira m ulher e m ãe de seu segundo filho, ele se sentiu na obrigação de indagar sobre os pais dela. Foi um alívio saber que não havia suicídios na bagagem fam iliar de Elizabeth. No entanto, sua m ãe m orrera quando ela era m uito pequena, e o pai, m uito m ais velho, não pudera cuidar da filha, que fora criada por outros parentes. Lá estava, m ais um a vez, um buraco parental sem elhante.

 

Ele estava tentando pôr em m ovim ento sua im aginação porque a pergunta eterna, E agora?, j á o apoquentava. Leu O agente confidencial, de Graham Greene, e ficou im pressionado com a sim plicidade dos efeitos do autor. Um hom em não se parece com a foto em seu passaporte, e isso basta para Greene invocar um m undo inseguro, até sinistro. Leu A pequena Dorrit e adorou, com o sem pre, o dom de Dickens para anim ar o inanim ado: a cidade de Marselha olhando para o céu, para estranhos, para um de cada vez e para todos ao m esm o tem po, um olhar tão fixo que era preciso evitá-lo com cortinas e venezianas. Leu Herzog pela enésim a vez, e dessa vez a posição do livro em relação às m ulheres realm ente bateu m al. Por que tantos personagens m asculinos de Bellow fantasiavam que seriam sexualm ente m ais bem -sucedidos se fossem m ais violentos? Desde Moses Herzog a Kenneth Trachtenberg, em More die ofheartbreak, a m esm a fantasia. Sr. B., está dando bandeira, pensou. Leu A chave, de Junichiro Tanizaki, e deleitou-se com sua narrativa de diários secretos e farras sexuais no velho Japão. Marianne disse que aquele era um livro perverso. Ele achava que era um livro sobre a natureza m anipuladora do desej o erótico. A alm a tinha m uitos desvãos escuros, e às vezes os livros os ilum inavam . Mas o que ele, um ateu, queria dizer quando usava a palavra “alm a”? Seria apenas poesia? Ou haveria em nós algum a coisa não corpórea, algo m ais do que carne, sangue e ossos, aquilo que Koestler cham ava de o fantasm a na m áquina? Brincou com a ideia de que pudéssem os ter um a alm a m ortal, e não im ortal; um espírito que, abrigado no corpo, m orria quando o corpo m orria. Um espírito que talvez fosse aquilo a que nos referíam os quando falávam os de das Ich, o ego.

Ler tam bém era viver. Ele leu O grande jogo de Billy Phelan, de William Kennedy, e anotou com adm iração: “O fim do com portam ento não foi ação, e sim com preensão na qual basear a ação”. Leu Uma breve história do tempo, de Hawking, que lhe provocou dor de cabeça, m as, em bora tivesse com preendido apenas um a fração do livro, entendeu o suficiente para rej eitar a opinião do cientista, de que estávam os nos aproxim ando do ponto em que tudo seria conhecido. A com pletude do conhecim ento: só um cientista seria bastante louco ou bastante sábio para im aginar essa possibilidade.

Zia ul-Haq m orreu num acidente aéreo: não se perdeu nada.

Um livro, que de início ele pensou que poderia ser um a peça de teatro, talvez um a reinvenção de Otelo, com eçou a germ inar nele, se bem que quando o escreveu, vários anos depois, tinha crescido de m aneira que ele na época não entendeu. Achou que poderia cham ar-se O último suspiro do mouro. Nessa m esm a ocasião, um a conhecida, indiana, lhe surgiu em sonho, depois de ler Os versos satânicos, e o avisou de que haveria “um preço a pagar” pelo livro. As partes londrinas do rom ance nada significavam para ela, e a história sobre a divisão do m ar da Arábia “apenas m ostra seu interesse pelo cinem a”. O sonho traduzia um tem or que ele tinha: que as pessoas só reagissem às partes do rom ance com as quais achassem ter algum a ligação — positiva ou negativa — e não tom assem conhecim ento do restante. Ele estava com eçando a duvidar do que tinha feito, com o sem pre se sentia antes de acabar um livro ou antes de sua publicação. Às vezes ele achava o livro um pouco desaj eitado, “um m onstro rebelde, inchado”, para usar a frase de Henry Jam es. Em outras ocasiões, j ulgava que conseguira controlá-lo e dar-lhe um a boa form a. Preocupava-se com várias sequências: o trecho de “Rosa Diam ond”, com sua história pregressa na Argentina, e a diabólica m etam orfose de seu personagem Cham cha dentro de um carro da polícia e num hospital. Tinha dúvidas sérias quanto à narrativa principal, e sobretudo quanto às cenas de transform ação. Entretanto, de repente, suas dúvidas se evaporaram . O livro estava pronto e lhe dava orgulho.

Em m aio ele viaj ou a Lisboa, onde passou alguns dias. Durante uns anos, no fim da década de 1980, a Fundação Wheatland — um a iniciativa conj unta do editor britânico George Weidenfeld e da am ericana Ann Getty, que, com o disse o The New York Times, era “bancada” pelo m arido, Gordon Getty — organizou um a série de dispendiosas conferências literárias em vários países, program a que foi interrom pido pelo fim da associação Getty -Weidenfeld em 1989, devido a perdas que, para o The New York Times, chegavam a “pelo m enos 15 m ilhões de dólares”. Alguns desses m ilhões se esvaíram , sem dúvida, na conferência m ontada no palácio de Queluz, em m aio de 1988, que contou com a presença do m ais extraordinário conj unto de escritores j á visto desde o Congresso do pen Club de 1986, em Nova York. Sontag, Walcott, Tabucchi, Enzensberger etc. Ele foi com Martin Am is e Ian McEwan, e, depois da m esa-redonda do grupo de debates “britânico”, os italianos reclam aram que eles tinham falado dem ais sobre política, em bora a literatura lidasse com “frases”, e lorde Weidenfeld queixou-se de que eles tinham criticado Margaret Thatcher, a quem tanto deviam . Enquanto ele estava no palco, o notável escritor m ontenegrino Danilo Kiš, que m ostrou ser um hábil caricaturista, retratou-o num bloco da conferência e, no fim da sessão, deu-lhe o desenho de presente. No Congresso do pen, em Nova York, Kiš, escritor brilhante e espirituoso, defendera a ideia de que o Estado poderia ter im aginação. “Na verdade”, disse, “o Estado tam bém tem senso de hum or, e vou lhes dar um exem plo de um a piada feita pelo Estado.” Quando estava m orando em Paris, certo dia um am igo iugoslavo lhe escreveu. Ao abrir a carta, ele dera com um carim bo na prim eira página: esta carta não foi censurada. Kiš parecia Tom Baker no papel do dr. Who da série de tv, e não falava inglês. Com o o servo-croata tam bém não era um a opção, eles fizeram am izade em francês. Na época da conferência de Lisboa, Kiš j á estava seriam ente doente — m orreria de câncer de pulm ão em 1989 — e, com o suas cordas vocais se achavam m uito lesionadas, tinha dificuldade para falar. A caricatura foi oferecida para substituir um a conversa e tornou-se um a lem brança preciosa.

Continuar: parte 2 de 3