Joseph Anton: Memórias

Salman Rushdie · Capítulo 5 de 11 · parte 1/3

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Joseph Anton: Memórias

4. A armadilha de querer ser amado

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

4. A arm adilha de querer ser am ado

 

Ele vinha recebendo cartas de um a certa Nalini Mehta, de Delhi. Não conhecia ninguém com esse nom e, m as ela afirm ava com segurança que o conhecia, não apenas socialm ente, m as carnalm ente, pornograficam ente, biblicamente. Lem brava as datas e os locais de seus encontros, e era capaz de descrever o que se via das j anelas desses lugares. As cartas não só eram bem escritas com o tam bém inteligentes, e a letra, num a esferográfica azul de ponta fina, revelava firm eza e expressividade. No entanto, as fotos eram péssim as: sem pre m al tiradas e m al ilum inadas, com todos os diversos estágios de desnudam ento um pouco bobocas, e nenhum a delas transm itia a m ais rem ota som bra de erotism o, em bora a m ulher fosse obviam ente bonita. Ele não as respondia, nem m esm o para tentar dissuadi-la de escrever, pois sabia que isso seria um erro palm ar. A paixão com que a m issivista batia na tecla do am or entre am bos fazia com que ele tem esse por ela. A doença m ental ainda representava um estigm a no espírito de m uitos indianos. As fam ílias negavam que tal problem a pudesse ter acom etido um de seus m em bros. Todos os problem as m entais eram acobertados, em vez de corretam ente tratados. O fato de as cartas de Nalini Mehta continuarem a chegar, e sua frequência até aum entar, indicava que ela não estava recebendo a aj uda afetuosa de que precisava.

A própria situação dele era, para ela, m otivo de intensa preocupação. Ela “sabia” que ele não devia estar sendo alvo da atenção e do carinho de que precisava. Assim que soube, pela im prensa, que ele e sua m ulher não estavam m ais j untos, im plorou que ele a deixasse substituí-la. Ela iria a Londres para ficar com ele e fazer com que se sentisse bem . Faria tudo por ele, o aj udaria, cuidaria dele e o envolveria em seu am or. Com o era possível que ele não concordasse com isso, depois de tudo que tinham significado um para o outro... depois de tudo que ainda sentiam um pelo outro? Ele tinha de m andar buscá-la. “Cham e-m e agora”, escreveu. “Irei im ediatam ente.”

Com o ela contara que tinha estudado literatura inglesa no Lady Shri Ram College, em Delhi, ele se lem brou da am iga Maria, um a escritora de Goa que lecionara lá, e telefonou-lhe para perguntar se ela se lem brava do nom e. “Nalini”, ela repetiu, pesarosa. “Claro. Minha aluna m ais brilhante, m as totalm ente desequilibrada.” E ele estivera certo: a fam ília se recusava a adm itir que a m oça era doente e tivesse um a assistência m édica adequada. “Não sei o que pode ser feito”, disse Maria.

E então as cartas m udaram . Estou chegando, disse ela. Estou indo para a Inglaterra, onde ficarei com você. Tinha conhecido um a inglesa da idade dela em Delhi e dera um j eito de ser convidada para m orar com os pais dessa m ulher, j á aposentados, em algum lugar de Surrey. Já tinha a passagem . Estava de partida amanhã, depois hoje. Tinha chegado. Dias depois, entrou sem ser anunciada na agência literária dele em Londres e foi bater na sala de Gillon Aitken. Gillon lhe disse m ais tarde: “Bem , ela é bonitona, m eu caro, estava m uito bem -vestida e disse que era am iga sua, de m odo que a convidei a entrar”. Im ediatam ente Nalini pediu o endereço e o núm ero de telefone dele, pois estava sendo esperada, a questão era urgente ao extrem o, ela precisava encontrá-lo sem perda de tem po. Naquele m esm o dia, se possível. Gillon percebeu que havia algo m uito errado naquela história. Disse a Nalini, gentilm ente, que teria todo prazer em transm itir um a m ensagem e que, se ela deixasse um telefone de contato, ele o passaria tam bém . Foi nesse ponto que Nalini Mehta lhe ofereceu sexo. “Meu caro, isso não acontece em m eu escritório todo dia, na verdade nem em casa.” Ele recusou a proposta. Ela insistiu. Poderiam afastar os papéis de sua m esa e ela faria sexo com ele ali m esm o, sobre a m esa de m adeira, e depois ele daria a ela o endereço e o telefone. Gillon se m anteve firm e. Não, realm ente, aquilo estava fora de cogitação, disse. Pediu, por favor, que ela pusesse a roupa de volta. Ela se entristeceu e com eçou a chorar. Estava sem dinheiro, disse; gastara o pouco que tinha indo da casa dos pais da am iga, em Surrey, até aquele escritório. Se ele lhe pudesse em prestar, digam os, cem libras, ela lhe pagaria assim que pudesse. Quando Andrew Wy lie ouviu a história, com entou: “Ela se ferrou no instante em que pediu dinheiro a Gillon. Foi um erro fatal”. Pondo-se de pé, e ele é bastante alto, Gillon levou-a à porta de saída.

Passaram -se vários dias, talvez um a sem ana. Na Herm itage Lane, os agentes lhe fizeram perguntas. Por acaso ele conhecia, indagou-lhe Phil Pitt, querendo na verdade perguntar se tinha algum a ligação com um a m ulher cham ada Nalini Mehta? Ele contou ao policial o que sabia. “Por quê?”, perguntou. “Aconteceu algum a coisa a ela?” Tinha acontecido, sim . Ela sum ira da casa dos pais de sua am iga, que estavam extrem am ente preocupados e aos quais ela falara sem cessar de sua intim idade com Salm an Rushdie, com quem em breve haveria de ficar. Depois de dois dias sum ida, o casal, inquieto, cham ara a polícia. Em vista da situação do sr. Rushdie, disseram , e considerando a form a desinibida com o ela falava, alguém poderia ter lhe causado algum m al. Vários outros dias se passaram antes que um policial de ronda a encontrasse, em Piccadilly Circus, descabelada, com o sári que usava ao deixar Surrey cinco ou seis dias antes, e dizendo a quem quisesse ouvir que ela era a “nam orada de Salm an Rushdie”, que eles estavam “apaixonados” e que ela viaj ara à Inglaterra porque ele a cham ara para viver com ele.

Os pais de sua conhecida de Delhi não a queriam de volta. A polícia não tinha nenhum m otivo para detê-la, j á que ela não com etera crim e algum . Ela não tinha para onde ir. Ele ligou novam ente para Maria e perguntou: “Você pode nos aj udar a entrar em contato com os pais dela?”. Por sorte, ela podia. Depois de algum a relutância inicial e algum as observações defensivas, no sentido de que nada havia de errado com a filha, o pai de Nalini, o sr. Mehta, concordou em viaj ar a Londres e levá-la de volta. Depois disso houve m ais algum as cartas, m as por fim elas cessaram . Isso era, ele esperava, um bom sinal. Talvez ela estivesse recuperando a saúde m ental. Sua necessidade de am or fora im ensa e a levara ao desvario. Ele esperava que ela estivesse agora recebendo o am or e o cuidado autênticos da fam ília, de m odo a sair da arm adilha que sua m ente construíra para ela.

Ele não se deu conta então de que antes que o ano acabasse sua m ente construiria um a arm adilha para ele, e que tam bém ele, na ânsia de ser am ado, se precipitaria no delírio e na autodestruição, com o que se atirando no am plexo de um a am ante.

 

Ele tinha sonhos de desagravo. Eram sonhos detalhados, em que seus críticos e futuros assassinos se dirigiam a ele, de cabeça descoberta e envergonhados, im plorando-lhe perdão. Ele os depreciava em textos e, durante alguns segundos, a cada vez, sentia-se m elhor com isso. Estava trabalhando no ensaio com que quebraria seu silêncio e tam bém na palestra Herbert Read, e crescia nele a convicção de que poderia explicar, fazer as pessoas com preenderem . O j ornal The Guardian estam pou um a cham ada m aldosa para prom over um a m atéria de Hugo Young: a fotografia de um pinguim coberto de ataduras ao lado das seguintes palavras — estará salm an rushdie arrependido? O texto de Young, quando saiu, dava continuidade a esse processo de desviar a culpa dos perpetradores de violência para a vítim a do ataque, dizendo que ele deveria estar “afligido pelo m al que causara”, e aquilo só serviu para aum entar sua determ inação de m anter sua posição e dem onstrar que ela era correta.

A queim a de livros em Bradford com pletou um ano. Um a pesquisa de opinião feita por um j ornal com cem livrarias britânicas revelou que 57 eram a favor de um a edição em brochura de Os versos satânicos, 27 eram contra e dezesseis não opinaram . O porta-voz do Conselho de Mesquitas de Bradford declarou: “Não podem os abandonar essa questão. Ela é vital para o nosso futuro”. Kalim Siddiqui escreveu um a carta ao The Guardian dizendo que “nós [m uçulm anos] tem os de apoiar a sentença de m orte contra Rushdie”. Daí a dias, Siddiqui foi a Teerã, e o sucessor de Khom eini, o aiatolá Ali Kham enei, lhe concedeu um a audiência privada.

Ele escrevia dia e noite, parando apenas quando podia passar algum tem po com Zafar. Houve um últim o fim de sem ana agradável na antiga casa paroquial sob a am ável supervisão da srta. Bastard. Marianne, que em geral estava de m au hum or, incapaz de escrever, achando que não tinha um a vida, que estava “vivendo um a m entira” e que a publicação de seu livro fora arruinada por sua associação com ele, achava-se um pouco m ais anim ada do que de costum e, e ele achou um a form a de não se perguntar por que estava com ela de novo. Quando deixaram Little Bardfield de um a vez por todas e voltaram para a Herm itage Lane, ele recebeu a visita do sr. Greenup, que com unicou que ele não teria perm issão para proferir a palestra Herbert Read. Lá estava aquela palavra outra vez, permissão, que, com o sua irm ã, autorização, o transform ava num cativo, e não num protegido. A Divisão Especial inform ara ao Institute of Contem porary Arts que não teria condições de proteger o evento se ele estivesse presente. Da parte dele, disse Greenup, fazer isso seria um ato de irresponsabilidade e egoísm o, e a Polícia Metropolitana não seria conivente com ele em sua sandice.

O pessoal do ica evidentem ente assustou-se com o conselho da polícia. Ele disse ao instituto que estava disposto a ir e a falar, m esm o sem proteção, m as isso os deixou m uito am edrontados. No fim , foi obrigado a ceder. Acharia um a pessoa disposta a fazer a palestra em seu nom e, disse, e aceitaram essa sugestão com alívio. A prim eira pessoa para quem ele telefonou foi Harold Pinter. Explicou a situação e fez o pedido. Sem um instante de hesitação, e com sua presteza habitual, Harold respondeu: “Claro”. Ele pôde ir visitar Harold e Antonia na casa deles no fim de j aneiro, e no dia seguinte, anim ado pelo entusiasm o, pela coragem e pela determ inação deles, escreveu durante catorze horas sem parar e com pletou a versão final de “Nada é sagrado?”. Gillon foi à Herm itage Lane — com o o lugar fora achado por Cosim a Som erset e estava sendo alugado pela agência literária, Gillon, o “locatário”, tinha perm issão para ir lá e era levado pela polícia, após a costum eira lavagem a seco — e sentou-se naquela soturna casa bege m al m obiliada para ler tanto a palestra quanto “De boa-fé”, um a explication de texte de Os versos satânicos, que era tam bém um apelo em favor de um a m elhor com preensão do livro e de seu autor, a serem publicadas com o um a única m atéria de 7 m il palavras no novo Independent on Sunday. Gillon levou consigo o m aterial e entregou a palestra do ica a Harold. Estava m ais do que na hora de retom ar o trabalho em Haroun.

“De boa-fé” foi publicado num dom ingo, 4 de fevereiro de 1990. Do Foreign Office, o vice-m inistro, William Waldegrave, ligou para Harold Pinter para dizer que o texto o levara às lágrim as. Com o era de esperar, as prim eiras reações m uçulm anas foram negativas, m as ele detectou, talvez levado por seus desej os, um a ligeira m udança no tom do que Shabbir Akhtar e seu com parsa, Tariq Modood, tinham a dizer. Houve um a m á notícia: as fam ílias dos reféns britânicos presos no Líbano tencionavam divulgar um a declaração contrária à edição em brochura de Os versos satânicos. Dois dias depois, na terça-feira, 6 de fevereiro, Harold ocupou a tribuna do ica e leu “Nada é sagrado?”. A palestra foi transm itida pelo program a Late Show, da bbc. Ele foi tom ado de um a im ensa sensação de alívio. Sua palestra tinha sido feita. A tem pestade j á durava um ano, durante o qual ele considerara que sua voz era fraca dem ais para se fazer ouvir sobre todas as dem ais, que vinham , aos gritos, de cada canto do m undo, para suplantar o uivo dos ventos do fanatism o e da história. Agora ele provara que tinha se enganado. Registrou em seu diário: “A reação a dbf e nes m e anim ou im ensam ente. Parece que ocorreu um a m udança real. A dem onização está recuando, e os atacantes parecem confusos”. Muitos am igos ligaram , falando do clim a no ica com o “afetuoso”, “elétrico” ou “em ocionante”. Marianne discordou. A atm osfera tinha sido “estéril”. Ela estava se sentindo, acrescentou, “desam ada”.

Três dias depois da palestra Read, o aiatolá Kham enei renovou nas orações da sexta-feira a sentença de m orte da teocracia iraniana. Isso estava se tornando um padrão recorrente no “caso Rushdie”, que com pletava seu prim eiro ano: a um leve claream ento das nuvens, a um m om ento de esperança, seguia-se um golpe desalentador — um a escalada, um a elevação da aposta. “Bem ”, ele escreveu em seu diário, desafiador, “ainda não m e pegaram .”

Nelson Mandela saiu das som bras para a claridade do sol, um hom em livre, e aos doze m eses de atrocidade e espanto som ou-se outro m om ento exclam ativo de j úbilo. Ver Mandela ressurgir, depois de sua longa invisibilidade, levou-o a entender quão pouco ele próprio sofrera em com paração. Basta, pensou. Vam os voltar ao trabalho.

Mas o Dia dos Nam orados estava de volta. Clarissa telefonou, sim pática, para lhe dar parabéns. Harold tam bém ligou. Avistara-se em Praga com o novo presidente tcheco, Václav Havel, dram aturgo e herói dos direitos hum anos, “e a prim eira pergunta que ele fez foi sobre você. Ele quer fazer algum a coisa im portante”. Ouviram -se outras am eaças, do presidente do Maj lis — o Parlam ento iraniano —, Mehdi Karroubi (que vinte anos depois se tornou um inesperado líder da oposição ao presidente Ahm adinej ad, j untam ente com Mir Hossein Moussavi, outro defensor entusiástico da fatwa), e do “chefe suprem o interino” da Guarda Revolucionária. O aiatolá Yazdi, presidente do tribunal superior do Irã, declarou que todos os m uçulm anos com “recursos” tinham o dever de executar a am eaça, e em Londres o gnom o de j ardim estava se divertindo, liderando um a grande reunião de “aprovação” à am eaça, m as acrescentando que seu cum prim ento não tinha “nada a ver com os m uçulm anos britânicos”. Isso estava surgindo com o um a nova linha partidária. Liaquat Hussain, do Conselho de Mesquitas de Bradford, disse que “Nada é sagrado?” era um a “peça de publicidade” e que Rushdie não precisava m anter-se invisível, pois não estava sendo am eaçado pelos m uçulm anos britânicos. Só estava fazendo isso, disse Hussain, para m anter a controvérsia acesa e ganhar m ais dinheiro.

Em editorial, o The New York Times criticou as editoras e os políticos por suas hesitações e evasivas, e o apoiou por “defender o direito de todo escritor a publicar livros que fazem perguntas perturbadoras e abrem portas para o espírito”. Com o aum ento da pressão, essas palavras sim páticas passaram a ter grande im portância.

As tentativas dos m uçulm anos britânicos de levá-lo aos tribunais por blasfêm ia e desrespeito à lei da ordem pública foram ouvidas em j uízo. Geoffrey Robertson o defendeu, com um argum ento sim ples: a responsabilidade m oral pelas consequências da violência cabia àqueles que com etiam os atos de violência; se ocorriam m ortes, a culpa era dos hom icidas, e não de um rom ancista distante. No terceiro dia do controle de constitucionalidade, o j uiz com eçou a receber cartas am eaçadoras, o que em nada aj udou a causa dos m uçulm anos. Por fim , nenhum a das m anobras legais teve sucesso. Esse resultado foi recebido com “fúria” pelos líderes m uçulm anos, ainda que o “Partido Islâm ico da Grã-Bretanha” chegasse a pedir a suspensão da fatwa, um a vez que o autor estava “louco” quando escreveu o livro, citando com o “evidência” um a declaração da diretora da sane, um a entidade beneficente de saúde m ental, de que Os versos satânicos continham um a das m elhores descrições de esquizofrenia que ela j á lera. Já Keith Vaz, que um ano antes aderira com entusiasm o aos m anifestantes m uçulm anos, agora escreveu ao The Guardian para dizer que a sentença de m orte era “abom inável” e que sua suspensão era im perativa.

Um j antar de “com em oração” foi organizado no apartam ento de Jane Wellesley, e Sam een, Bill, Pauline (era seu aniversário), Gillon, Michael e Valerie Herr se j untaram a ele e a Marianne para brindar a m ais um ano de vida. Ele estava feliz por fugir da casa da Herm itage Lane, que passara a detestar, com as paredes úm idas, as goteiras, o m adeiram ento m edíocre e, sobretudo, a falta de m óveis. Era cara e ele nunca se sentira roubado tão descaradam ente. Mas tivera de aceitá-la para ficar em Londres e por causa da garagem interna. Na m anhã seguinte, Zafar foi levado para passar o dia naquele lugar deprim ente, e, vendo o filho lutando com o dever de geom etria, ele lam entou, am argurado, não poder ser um pai norm al e não acom panhar a infância do filho. Essa era sua m aior perda.

Marianne entrou na sala e o censurou por estar passando o tem po com videogam es. Graças a Zafar, ele passara a gostar do Super Mario, o encanador, e de seu irm ão Luigi, e às vezes o m undo do Super Mario parecia um a alternativa feliz àquele em que ele vivia o resto do tem po. “Leia um bom livro”, disse sua m ulher, com desdém . “Deixe disso.” Ele se descontrolou. “Não m e diga com o levar m inha vida”, explodiu, e ela saiu da sala, altiva.

 

Haroun e o mar de histórias com eçara a fluir. Seus cadernos de anotações continham m uitos fragm entos — versinhos, piadas, um j ardineiro flutuante feito de raízes duras e nodosas, e de vegetais, com o um quadro de Arcim boldo, que cantava entro na sua armadura/ desmancho a sua mistura/ pois a mim ninguém segura!, e um guerreiro com dor de garganta, cuj as tosses e pigarros lem bravam nom es de rom ancistas, kafkafka!, gogogol!,e alguns m ais curtos, com o gogh!, waugh!,e (um a referência ao nom e im pronunciável do narrador dos Cosmicomiche, de Italo Calvino) qfwfq! Tam bém ganhavam vida, enfim , a horrenda e desafinada princesa Batchit e sua canção de m iados sobre seu am ado (e asnático) príncipe Bolo, meu amado não é tolo/ não sei o que tem no miolo, todos os quais tinham agora seu lugar na alegre corrente. A criatura tipo m il-e-um a-noites cham ada Gênio Recém -Chegado — “um a espécie de novo-rico arrivista” foi descartada, j untam ente com sua irm ã, a Gênia de Cabelo Castanho-Claro. Esses personagens eram engraçados. Ele gostou, na época e para sem pre, que nos m om entos m ais som brios de sua vida estivesse escrevendo seu livro m ais alegre e divertido, um livro com o final feliz genuíno, autêntico e m erecido que ele queria, o prim eiro que j á produzira. Com o o Leão-Marinho disse a Haroun, essas conclusões não eram fáceis de m aquinar.

 

Václav Havel viria a Londres. Seria sua prim eira viagem oficial desde que assum ira a presidência, e Harold Pinter disse que Havel pretendia, durante sua estada na capital britânica, fazer um gesto público de apoio ao autor de Os versos satânicos, que, por coincidência, vinha cogitando a possibilidade de reunir um grupo de pressão constituído de notáveis de todo o m undo, encabeçado por Havel e, talvez, pelo grande rom ancista peruano (e candidato derrotado à presidência) Mario Vargas Llosa. A ideia era organizar um a delegação à qual os iranianos pudessem aquiescer: um grupo de tam anha distinção que concordar com seus integrantes pareceria um ato de dignidade, e não um recuo.

Sam een vinha pressionando-o para propor opções criativas desse tipo. “Você tem de se encarregar disso”, dizia, “e pensar em tudo o que puder.” Agora Havel viria a Londres, dispondo-se a ser seu defensor. Talvez houvesse um a chance de estar com ele e expor essas ideias. “Ele quer ser fotografado com você e que os dois deem um a entrevista coletiva j untos”, adiantou Harold. “Vou telefonar para William Waldegrave.”

Quem conhecia Harold Pinter sabia que ele era um excelente aliado num litígio. Quem passara pela nada invej ável experiência de cair no desfavor de Pinter sabia que convinha evitar, de toda m aneira, sua língua ferina. A fúria e a violência contida que ardiam em suas m aiores peças de teatro tam bém estavam presentes no hom em , visível na determ inação de seus m axilares, na intensidade de seu olhar, na am eaça fulgurante de seu sorriso. Essas qualidades eram desej adas num aliado, não num adversário. No dia que se seguiu à fatwa, Harold liderou um grupo de escritores que foi à Downing Street para exigir ação. Sua anuência instantânea ao pedido de que ele apresentasse a palestra Read fora um a prova cabal de sua coragem pessoal. Se ele ia convocar William Waldegrave, William Waldegrave saberia que tinha sido convocado.

Com efeito, Harold ligou no dia seguinte. “Está resolvido.” A reunião com Havel, que, segundo Harold, era “o item m ais im portante na agenda de Havel depois do encontro com Margaret Thatcher”, tinha sido posta nas m ãos da equipe de segurança que vinha organizando a visita oficial do presidente tcheco. Essa visita parecia ser — e era — um m om ento histórico, a prim eira vez que o líder de algum governo o apoiava tão abertam ente. O governo britânico relutara em autorizar qualquer um de seus m inistros a se avistar com ele, por receio de em itir “os sinais errados”. Agora Havel faria o que Thatcher não tinha feito.

Todavia, ele ainda estava em m aré de azar, e “Joseph Anton” teve um a sem ana péssim a. Os problem as vinham se m ultiplicando na insatisfatória casa da Herm itage Lane. O aquecim ento central tinha deixado de funcionar, e um técnico teve de ser cham ado para consertá-lo. Ele foi obrigado a se esconder no banheiro durante várias horas, em papado em seu j á habitual suor de vergonha. Depois, um representante da im obiliária foi vistoriar a casa, e lá estava ele de volta ao banheiro. Por fim , apareceu um cidadão para consertar as m anchas de um idade nas paredes e substituir um a área no teto em que goteiras tinham causado sérios danos. Dessa vez não havia onde se esconder e, enquanto o hom em trabalhava na sala, o pobre Joseph Anton teve de descer depressa a escada para a garagem , com apenas um a porta interior fechada im pedindo que fosse descoberto, e foi tirado da casa o m ais depressa possível. O Jaguar ficou rodando sem destino pela cidade, perdido no espaço, com Dennis “Cavalo” contando piadas sem graça até ser avisado de que j á podia voltar.

Ser invisível era isso. Num instante ele falava ao telefone com Peter Weidhaas, organizador da Feira do Livro de Frankfurt, que acabara de inform ar ao Irã que suas editoras não teriam lugar na feira até a fatwa ser cancelada. No outro, escondia-se de um operário da construção civil. Ele era um escritor prestes a term inar um livro infantoj uvenil (e preparando para publicação um a coletânea de ensaios, que se cham aria Imaginary homelands [Pátrias im aginárias], título de um texto que certa vez ele, um expatriado, escrevera sobre seu relacionam ento com os lugares), m as era tam bém um fugitivo que se escondia num banheiro trancado, com m edo de ser descoberto por um encanador indiano.

Um dia depois de escapar por um triz do operário do teto, ele term inou um a boa versão prelim inar de Haroun e o mar de histórias, e seu am igo John Forrester, professor do King’s College, em Cam bridge, telefonou para falar da possibilidade de um título honoris causa, “com o o que foi dado a Morgan Forster há m uito tem po”. A ideia de receber a m esm a hom enagem que o autor de Uma passagem para a Índia era em ocionante. Ele respondeu que ficaria satisfeitíssim o se isso ocorresse. Meses depois, John ligou de novo para dizer que a hom enagem não aconteceria. Muitas pessoas no King’s estavam trem endo de m edo.

Surgira um a crise na St. Peter’s Street. Sua velha casa, agora fechada e desabitada, estava se deteriorando. De acordo com a polícia do bairro, a propriedade não era “segura”. Alguém tinha denunciado um vazam ento de gás, e o hom em do serviço de gás tivera de invadir a casa. Além disso, ele soube, havia um a inundação no porão. Alguém precisava ir lá e ver o que estava acontecendo. Marianne e ele m al se falavam desde a briga por causa do j oguinho dos Mario Brothers, m as ela disse que iria. Constatou que os problem as eram m ínim os. O gasista encostara um a escada na parede e entrara por um a j anela destrancada no andar de cim a, de m odo que a porta de entrada não tinha sido danificada. Não havia vazam ento de gás. A água no porão, inform ada pelo gasista, não era um a inundação, m as um sim ples gotej am ento, que foi reparado com facilidade. Marianne voltou de lá de péssim o hum or e pelo telefone, m ais tarde, lhe disse cobras e lagartos, reclam ando de tudo. “Aposto”, gritou, “que você nem arrum ou a cam a.”

Naquela noite ele foi levado para ver Edward e Mariam Said, num a casa na Eton Road, em Swiss Cottage. Nessa época ainda faltava um ano para que Edward recebesse o diagnóstico de leucem ia linfocítica crônica, e ele se achava na m ais perfeita saúde, com o sem pre um conversador brilhante, de risos e gestos largos, interessado em tudo, agitado e hipocondríaco. Naquele tem po, se Edward tossia, receava estar sofrendo de um a grave bronquite; se sentia um a pontada, garantia que o apêndice estava prestes a supurar. Por incrível que pareça, quando realm ente adoeceu, portou-se com o herói: raram ente se queixava, com bateu a llc com todas as suas forças e, com aj uda de seu m édico, o brilhante dr. Kanti Rai, quebrou recordes de sobrevivência ao resistir doze anos após o surgim ento da neoplasia. Edward era um dândi, um tanto vaidoso de sua boa aparência. Certa vez, anos depois, encerrada a história da fatwa, alm oçaram perto da Universidade Colum bia, felizes por estarem reunidos à vista de todos, sem a presença dos agentes de segurança para fechar cortinas e fazer a “lavagem a seco”. O câncer apresentava rem issão parcial, e Edward estava m enos m agro do que, infelizm ente, se tornara habitual. “Edward”, disse o ex-Joseph Anton, “você está com um aspecto saudável de novo! Ganhou peso!” Ele não gostou m uito. “É, m as eu não estou gordo, Salm an.”

Versado na obra de Conrad, Edward teria bem presente na m em ória a história do m arinheiro Jam es Wait a bordo do Narcissus. Tam bém sabia que tinha de viver até m orrer, e viveu.

Em sua casa, naquela noite de m arço de 1990, Edward lhe disse que conversara com Arafat sobre o caso — e, para Edward, não era pouca coisa conversar com Yasser Arafat, a quem detestava havia m uito tem po por sua corrupção pessoal e por sancionar o terrorism o. Arafat, secularista e anti-islam ista, além de corrupto e terrorista, respondera: “É claro que eu o apoio, m as os m uçulm anos na intifada... O que posso fazer...?”. “Talvez você pudesse escrever sobre a intifada”, sugeriu Edward. “Sua voz é m uito im portante para nós e deveria ser ouvida tam bém sobre essas questões.” É, pode ser, disse ele. Mudaram de assunto e conversaram sobre livros, m úsica e am igos com uns. A disposição dele para falar continuam ente da fatwa era lim itada. Muitos de seus am igos percebiam isso e, gentilm ente, deixavam o assunto de lado. Para ele, poder ver pessoas era um alívio de seu cativeiro, e o últim o assunto sobre o qual ele gostaria de conversar eram seus grilhões.

Ele vinha se obrigando a se concentrar, e passava horas, todo dia, polindo e revisando a versão prelim inar de Haroun. No entanto, a sem ana não estava avançando com o planej ado. A polícia lhe com unicou que o encontro com Havel não aconteceria — tudo indicava que os tchecos o haviam cancelado por tem ores quanto à segurança do presidente. Em vez do encontro, ele deveria telefonar para o apartam ento de Havel no hotel, às seis da tarde, quando conversariam . Isso foi um a enorm e decepção. Ele passou horas sem conseguir falar. Mas às seis em ponto ligou para o núm ero que lhe tinham dado. O telefone tocou durante m uito tem po até um a voz m asculina atender. “Quem fala é Salm an Rushdie”, ele disse. “Estou falando com o presidente Havel?” O hom em do outro lado da linha chegou a dar um a risadinha. “Não, não”, disse. “Eu não presidente. Eu secretário.” “Certo”, ele disse. “É que m e disseram que ligasse às seis horas para falar com ele.” Após um a pausa, o secretário disse: “Sim . O senhor precisa esperar um pouco. Presidente está no banheiro”.

Ora, ele pensou, eu sei que houve uma revolução na Tchecoslováquia. O presidente j á determ inara que suas carreatas fossem feitas com carros de m uitas cores, para lhes dar um ar m ais festivo, convidara os Rolling Stones a cantar para ele e sua prim eira entrevista a um am ericano fora dada a Lou Reed, porque a Revolução de Veludo Tcheca tinha tirado esse nom e da banda Velvet Underground (o que tornava os Velvet a única banda na história que aj udou a fazer um a revolução, em vez de apenas cantá-la, com o, por exem plo, os Beatles). Aquele era um presidente que valia a pena esperar todo o tem po que ele dem orasse no banheiro.

Vários m inutos depois, ele ouviu passos e Havel atendeu. Contou um a história m uito diferente sobre o cancelam ento da reunião. Ele não quisera que ela ocorresse na em baixada. “Não confio naquele lugar”, disse. “Ainda há m uita gente do velho regim e lá, m uitos estranhos andando de um lado para outro, m uitos coronéis.” O em baixador recém -nom eado, hom em de confiança de Havel, chegara a Londres havia apenas dois dias, e não tivera tem po de rem anej ar o pessoal. “Não irei àquele lugar”, disse Havel. Os britânicos tinham dito que não havia nenhum outro local onde pudessem autorizar a realização do encontro. “Im agine isso”, disse Havel. “Não existe na Grã-Bretanha nenhum lugar que eles possam proteger para você e para m im .” Era evidente, ele disse, que o governo britânico não queria que a reunião ocorresse. Por acaso a im agem do grande Václav Havel abraçando um escritor que não podia ser visto com a prim eira-m inistra de seu país causaria certo em baraço? “Foi ruim ”, disse Havel. “Eu queria m uito fazer isso.”

Entretanto, contou, na entrevista coletiva ele dissera m uitas coisas.”Eu disse a eles que estam os em contato perm anente”, disse, rindo. “E talvez isso sej a m esm o verdade, através de Harold ou outras pessoas. Mas eu disse a eles: contato permanente. E profunda solidariedade. Eu disse isso tam bém .”

Ele disse a Havel o quanto gostara de suas Cartas a Olga, escritas na prisão pelo fam oso dissidente à sua m ulher, e o quanto elas tinham a lhe dizer em sua situação presente. “Sabe”, contou Havel, “quando nos escrevíam os naquele tem po, tínham os de dizer m uitas coisas cifradas, num a espécie de código. Há nesse livro coisas que nem eu com preendo. Mas em breve vai sair um livro m eu bem m elhor.” Havel queria cópias de “Nada é sagrado?” e “De boa-fé”. “Contato perm anente”, concluiu, com outra risada, e despediu-se.

No dia seguinte, Marianne ainda estava em pé de guerra com ele. “Você está obcecado com o que lhe acontece”, descarregou, e talvez isso fosse verdade. “A cada dia surge algum dram a em sua vida”, e, infelizm ente, m uitas vezes isso era m esm o verdade. Ele estava obcecado consigo m esm o, ela gritou. Ele não sabia lidar com a “igualdade”, e era um “bêbado horrível”. De onde saiu isso?, ele pensou, e a seguir ela desferiu o resto do golpe: “Você está tentando repetir o casam ento de seus pais”. Ele era culpado do alcoolism o do pai. Claro.

Num a Conferência da Juventude Muçulm ana, em Bradford, um a m ocinha de dezesseis anos declarou que Rushdie deveria ser executado por apedrej am ento. A cobertura do “caso” pela im prensa se tornara, ao m enos por ora, sim pática a ele, quase com passiva. “O pobre Salm an Rushdie.” “O infeliz escritor.” Ele não queria ser visto com o um coitado, um infeliz, um a pessoa digna de pena. Não queria ser apenas um a vítim a. Estavam em j ogo im portantes questões intelectuais, políticas e m orais. Ele queria ser parte da discussão, ser um protagonista.

 

* * *

 

Andrew e Gillon foram vê-lo na Herm itage Lane, depois de se reunir com executivos da Penguin na casa de Brian Stone, o agente literário que representava o espólio de Agatha Christie. Talvez por serem m uito diferentes um do outro, os dois form avam um a trem enda dupla de negociadores: Gillon, o inglês altíssim o, lento, de voz em postada, e Andrew, o am ericano agressivo, cabeça-dura, com seu passado cheio de altos e baixos, sua associação interm itente com a turm a da Warhol Factory e seus olhos de laser. Eram a clássica dupla durão/com placente, m ais eficazes ainda porque as pessoas com quem negociavam com etiam o erro de supor que Andrew era o durão, e Gillon, o com placente. Na realidade, Andrew era m ovido a paixão e em oção, e não era im possível que, de repente, desatasse a chorar, deixando o oponente desconcertado. A Gillon cabia desferir o golpe final.

Mesm o Gillon e Andrew, porém , estavam achando quase im possível lidar com a Penguin. Mais um a vez, a reunião com eles naquele dia não dera em nada. May er disse que a Penguin m anteria o prazo até o fim de j unho para decidir sobre a edição em brochura, m as não fixou um a data. Todos os executivos aceitaram que, se o livro não fosse publicado até 30 de j unho, Gillon e Andrew insistiriam em reaver os direitos de publicação em 1o de j ulho, de m odo a poderem seguir outros cam inhos. “Acho que May er talvez leve em conta essa ideia”, disse Gillon. (Quatro dias depois, ele ligou para dizer que May er estava “quase aceitando” a ideia da reversão de direitos, m as desej ava “negociá-la” — em outras palavras, queria dinheiro em troca. Entretanto, seu colega Trevor Glover declarara na reunião com Andrew e Gillon que os custos de segurança da Penguin eram tão elevados que a em presa perdera dinheiro com a edição em capa dura, e que fazer a edição em brochura representaria um “prej uízo m aior”, de m odo que era difícil para May er argum entar que precisava ser com pensado por fazer um a coisa — renunciar aos direitos sobre a edição em brochura — que, a se dar crédito a Glover, na verdade lhe pouparia despesas. “Estam os brigando ainda”, disse Gillon. “Se até o dia 1o de j ulho May er não fizer a edição e ainda quiser dinheiro”, disse, “nesse ponto eu voto por botarm os a boca no trom bone pela im prensa.”)

Andrew achava que a Penguin vinha dim inuindo os pagam entos de direitos autorais e retendo um a alta quantia que deveria ter sido paga. A Penguin negava isso com veem ência, m as Andrew contratou um auditor, que descobriu, realm ente, um a redução bastante substancial de pagam entos. A Penguin não se desculpou.

A polícia sugeriu que ele usasse um a peruca. O m elhor peruqueiro deles o visitou e levou um a am ostra de seu cabelo. Ele duvidava m uito que o plano desse certo, m as vários agentes da proteção lhe garantiram que as perucas eram m esm o eficientes. “O senhor vai poder andar pelas ruas sem cham ar a atenção”, disseram . “Confie em nós.” Para sua surpresa, o escritor Michael Herr confirm ou isso. “Com relação a disfarce, você não vai precisar m udar m uito, Salm an”, disse Michael, devagar e piscando bastante. “Só os traços m ais visíveis.” A peruca foi feita e chegou num a caixa de papelão m arrom , parecendo um bichinho adorm ecido. Ao pô-la na cabeça, ele se sentiu um com pleto idiota. Para a polícia, estava ótim o. “Está certo”, disse ele, indeciso. “Vam os dar um passeio com ela.” Levaram -no à Sloane Street e estacionaram perto da Harvey Nichols. No que ele desceu do carro, todas as cabeças se viraram para fitá-lo, e várias pessoas com eçaram a rir e até a gargalhar.

“Olhe”, ele escutou um hom em dizer, “aquele ali é a besta do Rushdie, de peruca.” Voltou para o Jaguar e nunca m ais usou a peruca.

 

Oficialm ente, o em baixador Maurice Busby não existia. Na qualidade de chefe das atividades de contraterrorism o nos Estados Unidos, seu nom e não podia ser dito no rádio ou na televisão, nem im presso em j ornais ou revistas. Seus m ovim entos não eram noticiados, e seu endereço, para usar um adj etivo que m ais tarde o vice-presidente Dick Cheney tornou fam oso, era indivulgado. Busby era um fantasm a na m áquina am ericana.

Quando o contrato de locação da casa na Herm itage Lane expirou, “Joseph Anton” andou pensando em ir para os Estados Unidos, passar algum as sem anas ou m eses fora do cárcere. A Divisão Especial o prevenira, desde o com eço, que sua responsabilidade por ele term inava na fronteira britânica. De acordo com as regras do j ogo, sem pre que um protegido saía do Reino Unido e viaj ava a outro país, as forças de segurança desse país tinham de ser avisadas, para que decidissem o que queriam fazer (ou não fazer) com relação à sua visita. Quando seus planos foram com unicados aos Estados Unidos, o sr. Maurice Busby solicitou que realizassem um a reunião. Seria a reunião do hom em inexistente com o hom em invisível. Algo com o se Calvino e H. G. Wells tivessem resolvido escrever um conto a quatro m ãos. Ele foi levado a um discretíssim o edifício de escritórios na m argem sul do Tâm isa e conduzido a um a sala grande que estaria inteiram ente vazia se não fossem duas cadeiras. Ele e Busby se sentaram , um diante do outro, e o am ericano foi direto ao assunto. Ele era bem -vindo aos Estados Unidos, disse o em baixador, que não pairasse dúvida algum a quanto a isso. Os Estados Unidos eram solidários com ele, e seu caso fazia parte do “tem ário am ericano em relação ao Irã”. Em princípio, seu desej o de visitar o país estava aprovado. Contudo, os Estados Unidos respeitosam ente lhe pediam que cogitasse adiar a viagem em “três a quatro m eses”. O em baixador Busby fora autorizado a lhe com unicar, em absoluta confiança, que estava em curso um a negociação real com respeito aos reféns am ericanos no Líbano, e provavelm ente haveria libertações em breve. Ele esperava que o sr. Rushdie com preendesse a delicadeza da situação. O sr. Rushdie a com preendia. Ocultou seu profundo desapontam ento e concordou com o pedido do hom em inexistente. Contrafeito, pediu a Gillon que prorrogasse o aluguel da casa da Herm itage Lane.

Marianne tinha viaj ado para fazer a turnê de lançam ento de seu livro nos Estados Unidos. Ele continuava tentando convencer a si m esm o de que ainda se am avam . Em seu diário, m inim izava tudo o que havia de errado entre eles e insistia na felicidade basicam ente im aginária dos dois. Tam anha é a necessidade de am or. Faz com que os hom ens tenham visões do paraíso e desprezem o fato, patenteado pelos olhos e ouvidos, de que estão no inferno.

 

Haroun estava pronto. Ele tirou a barba, deixando apenas o bigode. No dia 4 de abril, quarta-feira, Zafar foi levado à Herm itage Lane, e o pai lhe entregou os originais do livro “dele”. O brilho de felicidade no rosto do m enino era a única recom pensa de que o autor precisava. Zafar leu o livro depressa e disse que tinha adorado. As opiniões de outros am igos que leram os originais tam bém foram positivas. Mas que editora o publicaria? Todas elas se recusariam ? Tony Lacey , da Viking, dissera a Gillon, em confiança, que “provavelm ente” a edição em brochura de Os versos satânicos sairia em 28 de m aio. Enfim , ele pensou. Transposto esse obstáculo, talvez aquela história com eçasse a acabar. Lacey tam bém falou a Gillon sobre o Haroun. “Agora que a brochura está saindo, talvez a gente possa publicar o livro novo tam bém . Você sabe que tê-lo com o um autor nosso é m otivo de orgulho.” Tony era um hom em decente, e tentava agir com o um verdadeiro editor num a situação irreal.

 

Sozinho na Herm itage Lane, ele chegou ao fim de seu j ogo Super Mario, derrotando o próprio bandido Bowser e salvando a Princesa Peach, insuportavelm ente cor-de-rosa. Sentiu-se feliz por Marianne não estar ali para testem unhar seu triunfo. Pelo telefone, ela fazia m ais um a arenga sobre as supostas aventuras am orosas dele e a deslealdade de seus am igos. Ele procurava não prestar atenção. Naquela tarde, Pauline levara Zafar à casa da St. Peter’s Street porque havia lá coisas que o m enino queria, com o suas luvas de boxe, sua punching ball e vários j ogos. “Papai e eu subíam os no telhado por aqui”, ele disse a Pauline, triste. “Foi difícil a gente se acostum ar com ele escondido. Não vej o a hora que isso acabe.” Pauline foi com ele a um a pizzaria e, enquanto com ia, ele ia citando trechos de Haroun: “Não me queima a queimadura/ Sei que é água na fervura/ mas a mim ninguém segura!”.

Ele pedira a Pauline que trouxesse tam bém algum as coisas para ele, m as várias delas estavam faltando. Os cinco álbuns de fotografias, que registravam toda a sua vida antes de Marianne, tinham sum ido. O m esm o ocorrera com seu exem plar pessoal, o de núm ero 1, da edição lim itada de doze exem plares, num erados e assinados, de Os versos satânicos. (Mais tarde, o am ericano Rick Gekoski, livreiro-antiquário de Londres, vendeu-lhe o exem plar do poeta Ted Hughes dessa edição, o de núm ero 11. Ele teve de desem bolsar 2200 libras para com prar esse exem plar de seu próprio livro.) Só Pauline, Sam een e Marianne tinham a chave da casa. Dois anos depois, o j ornalista Philip Weiss fez para a revista Esquire um perfil em que o descrevia de m aneira chocante e desagradável, enquanto Marianne era posta nas nuvens. Pelo m enos um a das ilustrações com certeza saíra dos álbuns desaparecidos. Pressionada por Andrew, a revista adm itiu que a fotografia fora fornecida por Marianne. Ela alegou que a foto lhe tinha sido dada de presente. Por volta da m esm a época, um “original final” de Os versos satânicos estava sendo oferecido à venda no m ercado. Rick Gekoski lhe contou que Marianne dizia que tam bém esse original fora um “presente”, e que ela por fim retirara o texto do m ercado, insatisfeita com os preços que estavam sendo propostos. Era a cópia errada. O original m ais valioso, o texto “de trabalho”, cheio de anotações e correções à m ão, continuava com ele. Os álbuns de fotografias nunca foram achados ou devolvidos.

Em 23 de abril, Robert Polhill, professor da Universidade de Beirute, foi o prim eiro refém am ericano no Líbano a ser libertado pelo grupo que o sequestrara três anos antes, a “Jihad Islâm ica para a Libertação da Palestina”. Quatro dias depois, a “Organização da Alvorada Islâm ica” libertou Frank Reed, ex-diretor da Escola Internacional Libanesa, que ficou quatro anos em cativeiro. O em baixador Busby dissera a verdade.

 

Marianne era um a m ulher de m uitas cadernetas, e foi um a delas que pôs fim ao casam ento deles. Ele nunca soube se ela deixou a caderneta na casa da Herm itage Lane de propósito, a fim de provocar o desenlace que ela afirm ava não desej ar. No grande rom ance A chave, de Junichiro Tanizaki, o “livro perverso” de Marianne, a m ulher e o m arido m antêm diários “secretos” que talvez se destinem m esm o a ser achados e lidos. No livro de Tanizaki, os diários funcionavam com o um artifício erótico. Na vida real de Joseph Anton, a caderneta que ele achou teve um a m issão m ais sim ples. Contou-lhe a verdade que ele tentara esconder de si m esm o. Marianne escrevera, durante a turnê nos Estados Unidos, que não tinha m otivo para m orar na Inglaterra, m as que ele a estava forçando a voltar, sabendo que não era esse o seu desej o. Tinha alugado um a casa nos Estados Unidos. Isso para ele era novidade. Ela sabia que ele não podia viaj ar para os Estados Unidos, m as ela estava fazendo planos para ir em bora. Já suportara o suficiente, o que ele podia m uito bem com preender. Isso, ela deve mesmo ir, ele pensou, e deixar que essa separação leve gradualmente a um fim.

O resto do diário era m ais som brio. Segundo Marianne, ele tem ia as m ulheres. Sim , ele pensou, pelo menos de você eu tenho certo medo. Ela odiava a ligação dele com a irm ã, Sam een. E fazia zom barias de teor sexual.

Marianne voltara para Londres. Ele lhe disse que havia lido o diário e não podia m ais m anter o casam ento. Ela ficou agitada e afirm ou que o am ava e que ele tinha achado o “diário negro”, que ela usava para dar vazão a seus piores pensam entos, para, escrevendo-os, livrar-se deles. Isso era quase plausível. Ele m esm o j á tinha feito isso, confiando ao papel seus tem ores, fraquezas, ânsias e fantasias e, depois, j ogando as folhas no lixo. Mas os textos do diário eram dem asiado categóricos e diversificados para serem apenas ira ou ressentim ento ociosos. Não se tratava de sentim entos passageiros. Era o que ela realm ente pensava. Ao lhe ser perguntado por que não lhe falara do aluguel da casa, ela com eçou a negar que tivesse feito isso. No entanto, ele conversara com Gillon, que disse que ela lhe falara sobre a locação. Ele disse: “Não quero brigar com você. De que adianta? A guerra acabou”. Ela se foi.

Ele telefonou a Sam een para perguntar se havia algum a verdade na acusação de Marianne de que ele tratava m al a irm ã. Ela respondeu o que ele sabia: que, no am or incondicional que tinham um ao outro, nada poderia ser problem a. Ele se sentiu perturbado com o que havia lido, m as sua sensação m aior foi de alívio. Aquela parte de seu pesadelo tinha chegado ao fim .

Continuar: parte 2 de 3