Joseph Anton: Memórias
6. Por que é impossível fotografar os pampas
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
6. Por que é im possível fotografar os pam pas
Num a visita a Mij as, m uito tem po antes — Mij as, onde Manuel Cortés se escondera de Franco durante trinta anos, passando os dias num a alcova atrás de um guarda-roupa e, quando a fam ília teve de m udar de casa, se vestira de m ulher para atravessar as ruas da cidade da qual havia sido prefeito —, ele tinha conhecido um fotógrafo de origem alem ã cham ado Gustavo Thorlichen, um hom em alto e bonito, de feições aquilinas, cabelo grisalho liso e três boas histórias para contar. Na tribo de expatriados de Mij as m urm urava-se que ele era provavelm ente um ex-nazista porque tinha acabado na Am érica do Sul. Na verdade, ele deixara a Alem anha nos anos 1930 e fora para a Argentina para escapar dos nazistas. Um dia, em Buenos Aires, fora convocado para tirar fotografias de Eva Perón, “um dos quatro fotógrafos”, disse o aj udante de Perón ao telefone, “a ter essa honra”. Ele tinha respirado fundo e respondido: “Obrigado pela honra, m as, quando você m e pede para tirar fotografias, deve m e pedir para ir sozinho, e nessas circunstâncias devo respeitosam ente recusar”. Após um silêncio, o aj udante havia dito: “Você pode ser expulso da Argentina pelo que disse”. “Se posso ser expulso por dizer isso”, Gustavo respondera, “então não vale a pena ficar aqui.” Desligara o telefone, fora até o quarto e dissera à sua m ulher: “Com ece a fazer as m alas”. Vinte m inutos depois o telefone tinha tocado de novo e a voz do m esm o aj udante havia dito: “Evita vai receber você am anhã de m anhã, às onze horas, sozinho”. Depois disso, ele passara a ser o fotógrafo pessoal tanto de Evita com o de Juan Perón, e ele dizia que a fam osa fotografia do rosto de Evita m orta era sua.
Essa era a prim eira história boa. A segunda era sobre andar com o j ovem Che Guevara em La Paz e ser cham ado de “grande artista da fotografia” nos “diários de m otocicleta” de Che. A terceira era sobre estar num a livraria em Buenos Aires, ainda um j ovem fotógrafo, principiante, e reconhecer que o hom em m uito m ais velho arrastando os pés loj a adentro era Jorge Luis Borges. Ele tinha j untado coragem , chegado perto do grande escritor e dito que estava trabalhando num livro de fotografias que seria um retrato da Argentina, e que ficaria orgulhoso se Borges pudesse escrever um prefácio. Pedir a um hom em cego para escrever o prefácio de um livro de im agens era loucura, ele sabia, m as perguntara m esm o assim . Borges respondera: “Vam os dar um a volta”. Ao passearem pela cidade, Borges tinha descrito os prédios à sua volta com precisão fotográfica. Mas de quando em quando havia um prédio novo no lugar do velho dem olido. Então Borges parava e dizia: “Descreva para m im . Com ece do chão e suba”. À m edida que falava, Gustavo podia ver Borges construindo o novo prédio em sua m ente e fixando-o no lugar. No fim do passeio, Borges concordara em escrever o prefácio.
Thorlichen havia lhe dado um exem plar do livro Argentina e, m esm o com este encaixotado agora em algum lugar com quase todos os seus pertences, ele ainda se lem brava do que Borges tinha escrito sobre os lim ites da fotografia. A fotografia só via o que estava diante dela, e por isso um fotógrafo j am ais conseguiria captar a verdade dos grandes pam pas argentinos. “Darwin observou, e Hudson corroborou”, Borges escreveu, “que essa planície, fam osa entre as planícies do m undo, não deixa um a im pressão de vastidão em alguém que a olha do chão, ou a cavalo, um a vez que seu horizonte é o horizonte do olhar e não vai além de cinco quilôm etros. Em outras palavras, a vastidão não se encontra em cada visão dos pam pas (que é o que a fotografia é capaz de registrar), m as na im aginação do viaj ante, em sua lem brança dos dias de m archa e da previsão de m uitos dias m ais.” Só a passagem do tem po revelava a vastidão infinita dos pam pas, e um a fotografia não podia captar duração. Um a fotografia dos pam pas m ostrava nada m ais que um grande cam po. Não era capaz de captar a m onotonia que produz delírios ao viaj ar, viaj ar e viaj ar através daquele vazio im utável, sem fim .
À m edida que sua nova vida se estendia pelo quarto ano, ele se sentia sem pre com o esse viaj ante im aginário de Borges, perdido no espaço e no tem po. O film e Feitiço do tempo ainda não havia sido lançado, m as, quando ele o assistiu, identificou-se intensam ente com o protagonista, Bill Murray. A ilusão de m udança se desfazia com a descoberta de que nada havia m udado. A esperança apagava a decepção, as boas notícias, as ruins. Os ciclos de sua vida se repetiam incessantem ente. Se soubesse que seis anos m ais de isolam ento se estendiam à sua frente, m uito além do horizonte, então a dem ência realm ente teria se estabelecido. Mas ele só enxergava até a beira da terra, e o que havia além perm anecia um m istério. Ele cuidou do im ediato e deixou o infinito cuidar de si m esm o.
Seus am igos lhe disseram depois que viram o fardo a esm agá-lo lentam ente, deixando-o m ais velho do que era. Quando a coisa enfim term inou, um a espécie de j uventude voltou, com o se o fim do infindável tivesse de algum a form a feito o tem po voltar ao ponto em que havia entrado no vórtice. Ele acabaria parecendo m ais j ovem aos cinquenta do que parecera aos quarenta. Mas seus cinquenta anos ainda estavam dez anos à frente. E, nesse m eio-tem po, quando sua história era m encionada, m uita gente ficava im paciente, irritada, ou entediada. Não era um a época paciente, m as um a época de m udança rápida, na qual nenhum assunto prendia a atenção por m uito tem po. Ele se tornou um incôm odo para os em presários porque sua história atravancava o desej o que tinham de desenvolver o m ercado iraniano, e para diplom atas que tentavam erguer pontes, e para j ornalistas que, se não tinham nada para contar, ficavam sem notícias. Dizer que a im obilidade, a intolerável eternidade dela, é que era a notícia seria dizer um a coisa que as pessoas não queriam ou não iriam ouvir. Dizer que ele acordava todo dia com a casa cheia de estranhos arm ados, que não podia sair para com prar um j ornal ou pegar um café, que a m aioria de seus am igos e m esm o sua fam ília não sabia o endereço de sua casa, e que ele não podia fazer nada, nem ir a lugar nenhum a não ser com a concordância de estranhos; que o que era natural para todo m undo, viaj ar de avião, por exem plo, era um a coisa que ele negociava constantem ente; e que em algum lugar das redondezas, sem pre, havia a am eaça de m orte violenta, um a am eaça que, segundo as pessoas cuj o trabalho era avaliar essas coisas, não havia dim inuído absolutam ente nada... era chato. Com o? Ele ainda estava viaj ando pelos pam pas e tudo era igual a antes? Bem , todo m undo tinha ouvido essa história e não a queria ouvir m ais. Conte uma história nova, essa era a opinião geral, ou então, por favor, vá embora.
Não adiantava dizer que o m undo é que estava errado. Nenhum a vantagem nessa abordagem . Então, sim , um a história nova. Se isso é que era exigido, era isso que ele iria fornecer. Basta de invisibilidade, silêncio, tim idez, defensiva, culpa! Um hom em invisível, silenciado, era um espaço vazio em que os outros podiam despej ar seus preconceitos, seus program as, sua ira. A luta contra o fanatism o precisava de caras visíveis, vozes audíveis. Ele não se calaria m ais. Tentaria se transform ar num hom em visível, ruidoso.
Não era nada fácil ser j ogado num palco assim tão público. Levava tem po avaliar o am biente, saber com o agir debaixo daquela luz. Ele tinha se atrapalhado e tropeçado, ficara tonto e silenciara, e, quando falara, havia dito as coisas erradas. Mas agora havia m ais clareza. No Stationers’ Hall, ele havia se recusado a ser um a não pessoa. Os Estados Unidos tinham perm itido que ele com eçasse sua j ornada de volta à existência, prim eiro em Colum bia, depois em Washington. Havia m ais dignidade em ser com batente do que vítim a. Sim : ele ia lutar por suas ideias. A história seria essa de agora em diante.
Se algum dia escrevesse um livro sobre essa época, com o seria? Podia m udar nom es, evidentem ente — podia cham ar aquelas pessoas de “Helen Ham m ington”, “Rab Connoly ”, “Paul Topper”, “Dick Wood” ou “sr. Tarde” e “sr. Manhã” —, m as de que j eito transm itir com o esses anos tinham sido? Com eçou a pensar num proj eto provisório cham ado “Inferno”, no qual tentaria transform ar sua história em algo diferente de um a sim ples autobiografia. Um retrato alucinatório de um hom em cuj a im agem do m undo havia sido quebrada. Com o todo m undo, ele tivera na cabeça um a im agem do m undo que fazia algum sentido. Tinha vivido dentro dessa im agem e com preendera por que era com o era, e com o se deslocar por ela. Então, com o um grande m artelo a oscilar, a fatwa espatifara essa im agem e o deixara em um absurdo universo am oral e sem form a no qual o perigo estava em toda parte e não se encontrava sentido. O hom em nessa história tentava desesperadam ente j untar os pedaços de sua im agem do m undo, m as os pedaços se soltavam em suas m ãos com o cacos de espelho e as cortavam até que elas sangrassem . Em seu estado dem ente, nessa floresta escura, o hom em com m ãos ensanguentadas que era um a versão dele m esm o encam inhava-se para a luz do dia, através do inferno, no qual passava por inúm eros círculos infernais, os infernos públicos e privados, os m undos secretos do terror, e na direção das grandes ideias proibidas.
Depois de algum tem po, ele abandonou esse plano. Sua história era interessante pela única razão de ter efetivam ente acontecido. Não seria interessante, se não fosse verdade.
A verdade era que os dias eram difíceis, m as, apesar do m edo de seus am igos, ele não foi esm agado. Ao contrário, aprendeu a lutar de volta, e os escritores im ortais do passado eram seus guias. Ele não era, afinal, o prim eiro escritor a ser am eaçado, sequestrado ou anatem atizado por causa de sua arte. Pensou no poderoso Dostoiévski diante do esquadrão de fuzilam ento e, depois da com utação da sentença no últim o m inuto, em seus quatro anos num cam po de prisioneiros, e em Genet escrevendo incessantem ente na prisão sua obra-prim a hom oerótica Nossa Senhora das Flores. O tradutor francês de Les verses sataniques, não querendo usar seu próprio nom e, tinha assinado a tradução com o “A. Nasier”, em hom enagem ao grande François Rabelais, que havia publicado seu prim eiro livro, Pantagruel, sob o nom de plume anagram ático “Alcofribas Nasier”. Rabelais tam bém tinha sido condenado pela autoridade religiosa; a Igrej a Católica não fora capaz de engolir sua satírica hiperabundância. Mas ele havia sido defendido pelo rei Francisco i, com o argum ento de que seu gênio não podia ser suprim ido. Era a época em que artistas podiam ser defendidos por reis porque eram bons no que faziam. Esta era um a época m enor.
Seu Erro tinha aberto seus olhos, clareado seus pensam entos e despido dele qualquer equívoco. Ele viu o perigo crescendo à sua frente porque sentiu sua horrível força desm oralizadora dentro do próprio peito. Durante algum tem po, ele havia renunciado à sua linguagem e sido forçado a falar, hesitante e com m uitas contorções, num a língua que não era a sua. A concessão destruía quem concedia e não aplacava o adversário irredutível. Ninguém se tornava um pássaro preto pintando as asas de preto, m as, com o a gaivota coberta de petróleo, perdia-se a capacidade de voar. O m aior perigo da crescente am eaça era que hom ens de bem com etessem suicídio intelectual e cham assem isso de paz. Hom ens de bem cederem ao m edo e cham ar isso de respeito.
Antes de qualquer outra pessoa se interessar pela ornitologia do terror, ele viu os pássaros se j untando. Ele seria um a Cassandra para sua época, condenada a não ser ouvida, ou, se ouvida, culpada por aquilo que apontava. Cobras tinham lam bido seus ouvidos e ele não conseguia ouvir o futuro. Não, não Cassandra, não estava certo, porque ele não era um profeta. Ele estava apenas ouvindo na direção certa, olhando a tem pestade que avançava. Mas ia ser difícil m udar a cabeça dos hom ens. Ninguém queria saber o que ele sabia.
A Areopagítica, de Milton, cantava contra os pássaros pretos guinchantes. Quem destrói um bom livro mata a própria razão [...]. Dê-me liberdade para saber, para me manifestar, e discutir livremente de acordo com a consciência, acima de todas as liberdades. Ele tinha lido os textos antigos sobre liberdade havia m uito tem po e então lhe pareceram bons, m as teóricos. Ele não precisava da teoria da liberdade quando tinha o fato dela. Agora, não lhe pareciam m ais livros teóricos.
Os escritores que sem pre lhe falaram com m aior clareza eram m em bros do que ele pensava com o um a “Grande Tradição” rival para colocar contra o cânon leavisiano, escritores que entendiam a irrealidade da “realidade” e a realidade do pesadelo acordado do m undo, a m onstruosa m utabilidade do cotidiano, a irrupção do extrem o e do im provável no m onótono cotidiano. Rabelais, Gogol, Kafka, esses e seus sem elhantes tinham sido seus m estres e o m undo deles tam bém não lhe parecia m ais com o fantasias. Ele estava vivendo — confinado — no gogoliano, no rabelaisiano, no kafkiano.
Nas fotografias que sobreviveram dessa época, assiduam ente preservadas em grandes álbuns por Elizabeth, o sr. Joseph Anton não estava bem -vestido. Sua roupa diária habitual era calça e cam iseta de m oletom . A calça era sem pre verde e a cam iseta, m arrom . O cabelo era com prido dem ais e a barba, em aranhada. Vestir-se assim era dizer: Estou me abandonando. Não sou uma pessoa a ser levada a sério. Sou apenas um desleixado. Ele devia fazer a barba todo dia e usar roupas novas recém -passadas, ternos da Savile Row, talvez, ou pelo m enos um a cam isa boa e calça social. Ele devia sentar à sua m esa com o Scott Fitzgerald com seu terno Brooks Brothers, ou Borges, elegante com um a cam isa de colarinho alto e abotoaduras. Talvez suas frases fossem m elhores se ele tom asse m ais cuidado com a aparência. Se bem que Hem ingway, com suas berm udas de algodão e sandálias, não era tão ruim . Ele gostaria de ter visto sapatos elegantes em seus pés naquelas fotografias, talvez Oxfords de duas cores, ou de couro branco. Em vez disso, ele arrastava os pés pela casa calçando Birkenstocks, o calçado m enos elegante de todos, depois dos Crocs. Ele se olhava no espelho e odiava o que via. Aparou a barba e pediu a Elizabeth para cortar seu cabelo — a chique Elizabeth, cuj o estilo pessoal tinha sido Estudante Madura quando se conheceram e que passara a usar roupas de designer com a voracidade de um a sereia encalhada na praia descobrindo o m ar —, e pediu à polícia para levá-lo com prar roupas novas. Estava na hora de tom ar nas m ãos as próprias rédeas. Ele ia partir para a guerra e sua arm adura tinha de brilhar.
Quando acontecia um a coisa que não tinha acontecido antes, geralm ente um a confusão baixava sobre as pessoas, um a névoa que confundia as m entes m ais esclarecidas; e quase sem pre a consequência dessa confusão era a rej eição, e m esm o a raiva. Um peixe engatinhava para fora de um pântano para a terra seca e os outros peixes ficavam intrigados, talvez até aborrecidos que ele tivesse atravessado um a fronteira proibida. Um m eteorito caiu na Terra e a poeira tapou o sol, m as os dinossauros continuaram lutando e com endo, sem entender que tinham passado a ser extintos. O nascim ento da linguagem enfureceu os m udos. O xá da Pérsia, diante das arm as otom anas, se recusou a aceitar o fim da era da espada e m andou sua cavalaria galopar suicidam ente contra os canhões acesos dos turcos. Um cientista observou tartarugas e gralhas e escreveu sobre mutação randômica e seleção natural e os partidários do Livro do Gênesis am aldiçoaram seu nom e. Um a revolução na pintura foi depreciada e descartada com o m ero impressionismo. Um cantor folk plugou a guitarra num am plificador e um a voz na m ultidão gritou: “Judas!”.
Essa era a pergunta que seu rom ance fazia: Como a novidade entra no mundo?
A chegada do novo ainda não estava ligada a progresso. Os hom ens encontravam novas m aneiras de oprim ir uns aos outros, tam bém novas m aneiras de desm anchar suas m elhores realizações e voltar à sopa prim ordial; e as inovações m ais som brias do hom em , tanto quanto as m ais brilhantes, confundiam os sem elhantes. Quando as prim eiras bruxas foram queim adas, era m ais fácil culpar as bruxas do que a questão da j ustiça de elas serem queim adas. Quando o cheiro dos fornos a gás flutuava pelas ruas das aldeias próxim as e a neve escura caía do céu, era m ais fácil não entender. A m aioria dos cidadãos chineses não entendia os heróis caídos da praça da Paz Celestial. Eles eram orientados para a falsa com preensão pelos perpetradores do crim e. Quando tiranos subiram ao poder por todo o m undo m uçulm ano, m uita gente estava disposta a cham ar seus regim es de autênticos, e a oposição a esses regim es, de ocidentalizada ou desenraizada. Quando um político paquistanês defendeu um a m ulher falsam ente acusada de blasfêm ia, ele foi assassinado por seu guarda-costas e seu país aplaudiu o assassino, j ogando sobre ele pétalas de rosa quando foi levado ao tribunal. A m aior parte dessas som brias novidades eram inovações que tinham vindo à luz em nom e de um a ideologia totalizadora, de um governante absoluto, de um dogm a indiscutível, ou de um deus.
O ataque a Os versos satânicos era, em si, um a coisa pequena, em bora tivesse produzido m uitas m anchetes, de form a que era difícil convencer as pessoas de que era extraordinário o bastante, que significava o bastante para exigir um a resposta excepcional. Quando com eçou seu longo traj eto pelos corredores do poder, ele foi obrigado, vezes sem conta, a reafirm ar o caso. Um escritor sério escreveu um livro sério. A violência e a ameaça da reação foi um ato terrorista que tinha de ser confrontado. Ah, m as seu livro ofendera m uita gente, não? Talvez, mas o ataque ao livro, a seu autor, seus editores, tradutores e livreiros fora uma ofensa muito maior. Ah, sei, depois de aprontar a confusão, ele se opunha à confusão que voltou para ele, e queria que os líderes do m undo defendessem seu direito de ser um agitador.
Na Inglaterra do século xvii, Matthew Hopkins, o “General Caçador de Bruxas”, desenvolveu um teste para bruxaria. Adicionava-se peso à m ulher acusada — com pedras ou a cadeira à qual ela estava am arrada — e j ogava-se dentro de um rio ou lago. Se ela flutuasse, significava que era bruxa e m erecia a fogueira; se afundasse e m orresse afogada, que era inocente.
A acusação de bruxaria era sem pre igual a um veredicto de “culpada”. Agora era ele que estava no cadinho, tentando convencer o m undo de que os caçadores de bruxas é que eram os crim inosos, não ele.
Algo novo estava acontecendo ali: o crescim ento de um a nova intolerância. Estava se espalhando pela superfície da terra, m as ninguém queria saber disso. Um a nova palavra havia sido criada para aj udar os cegos a continuarem cegos: a islamofobia. Criticar a estridência m ilitante dessa religião em sua encarnação contem porânea era ser preconceituoso. Um a pessoa fóbica era extrem ada e irracional em suas posições, então a culpa era dessas pessoas e não do sistem a de crenças que se orgulhava de ter m ais de 1 bilhão de seguidores no m undo todo. Um bilhão de crentes não podiam estar errados, portanto os críticos é que deviam ser os que espum avam pela boca. Ele queria saber quando se tornara irracional não gostar de religião, de qualquer religião, até m esm o não gostar veem entem ente. Quando a razão passava a ser descrita com o não razão? Quando as histórias de fadas dos supersticiosos eram colocadas acim a da crítica, acim a da sátira? Um a religião não era um a raça. Era um a ideia, e ideias se sustentavam (ou caíam ) porque eram bastante fortes (ou fracas dem ais) para suportar críticas, não porque estavam escudadas delas. A discordância era bem -vinda para ideias fortes. “Aquele que luta conosco fortalece nossos nervos e afia nossa habilidade”, escrevera Edm und Burke. “Nosso antagonista é nosso colaborador.” Só os fracos e os autoritários voltavam as costas a seus oponentes e os xingavam e às vezes desej avam lhes fazer m al.
O islã é que havia m udado, não as pessoas com o ele, o islã é que se tornara fóbico a um a vasta gam a de ideias, com portam entos e coisas. Naqueles anos e nos anos que se seguiram , vozes islâm icas nesta ou naquela parte do m undo — Argélia, Paquistão, Afeganistão — anatem atizaram o teatro, o cinem a e a m úsica, e m úsicos e artistas foram m utilados e m ortos. A arte representativa era o m al, então as antigas im agens budistas em Bam iy an foram destruídas pelo Talibã. Houve ataques islâm icos a socialistas e sindicalistas, a cartunistas e j ornalistas, a prostitutas e hom ossexuais, a m ulheres de saias e hom ens sem barba, e tam bém , surrealisticam ente, a m ales tais com o frango congelado e pastéis sam osas.
Quando a história do século xx for escrita, a decisão de colocar a Casa de Saud no Trono Que Repousa Sobre o Petróleo podia parecer o m aior erro de política externa dos poderes ocidentais, porque os sauditas usaram sua riqueza petrolífera ilim itada para construir escolas (madrassas) para propagar a ideologia extrem ista e puritana de seu am ado (e antes m arginal) Muham m ad ibn ‘Abd al-Wahhab, e o resultado foi que o wahhabism o cresceu de sua m inúscula origem cultural e varreu o m undo árabe. Seu crescim ento deu segurança e energia a outros extrem istas islâm icos. Na Índia, o culto deobandi espalhou-se além do sem inário de Darul Ulum ; no Irã xiita, havia os pregadores m ilitantes do Qom , e no Egito sunita, os poderosos conservadores de al-Azhar. À m edida que as ideologias extrem istas — wahhabita, salafita, khom einita, deobandi — cresciam em força e as madrassas fundadas pelo petróleo saudita produziam gerações de hom ens tacanhos com rostos peludos e punhos que se fechavam com facilidade, o islã trilhou um longo cam inho para longe de suas origens enquanto dizia voltar a suas origens. O hum orista am ericano H. L. Mencken criou um a definição m em orável para o puritanism o: “O m edo perturbador de que alguém , em algum lugar, possa ser feliz”, e m uitas vezes o verdadeiro inim igo do islã parecia ser a felicidade. E os críticos a essa fé eram preconceituosos? “Quando uso um a palavra”, Hum pty Dum pty diz a Alice, no País das Maravilhas, “ela diz apenas o que escolho que ela diga — nem m ais, nem m enos.” Os criadores da “novilíngua” em 1984, de Orwell, sabiam exatam ente o que Hum pty Dum pty queria dizer, m udando o nom e do departam ento de propaganda para Ministério da Verdade e o do órgão m ais repressivo do Estado para Ministério do Am or. “Islam ofobia” era um a contribuição ao vocabulário da novilíngua de Hum pty Dum pty. Pegou a língua da análise da razão e do questionam ento e pôs de ponta-cabeça.
Ele sabia, com a certeza de que sabia das coisas, que o câncer fanático que se espalhava pelas com unidades islâm icas iria, no final, explodir no m undo além -islã. Se a batalha intelectual fosse perdida — se esse novo islã estabelecesse seu direito de ser “respeitado” e ter seus oponentes esfolados, transform ados em inaceitáveis e, por que não?, assassinados —, o que viria em seguida seria a derrota política.
Ele havia entrado no m undo da política e estava tentando argum entar a partir de princípios. Mas por trás de portas fechadas, nas salas em que se tom avam decisões, princípios raram ente faziam política. Seria um a luta contra a corrente, m ais dura porque ele teria de lutar tam bém para reconquistar um a vida pessoal e profissional m ais livre. A batalha teria de ser travada sim ultaneam ente em am bos os fronts.
Peter Florence, que coordenava o festival literário de Hay -on-Wy e, entrou em contato para perguntar se havia algum a chance de ele participar do evento daquele ano. O grande rom ancista israelita David Grossm an fora escalado para participar de um a conversa com Martin Am is, m as tivera de cancelar. “Seria ótim o”, Peter disse, “se você pudesse ir no lugar dele. Não teríam os de revelar a ninguém previam ente. O público ficará m uito anim ado de ver você e lhe dar as boas-vindas ao m undo dos livros.” Ele queria aceitar; m as prim eiro tinha de discutir com os funcionários superiores da Yard, e, com o o evento proposto ficava fora da j urisdição da Polícia Metropolitana, o delegado da força policial de Powy s teria de ser inform ado, e agentes locais uniform izados com pareceriam . Ele podia im aginar os policiais m ais velhos rolando os olhos, lá vai ele, fazendo exigências de novo, m as estava decidido a não sucum bir ao desej o deles de que baixasse a cabeça e não dissesse nada. Por fim , ficou com binado que ele podia ir e ficar na fazenda de Deborah Rogers e Michael Berkeley, perto de Hay, e fazer a aparição proposta, contanto que a notícia não fosse divulgada antes do evento. E assim foi feito. Ele entrou no palco em Hay e descobriu que ele e Martin estavam usando ternos de linho idênticos, e durante um a alegre hora e m eia foi um escritor entre escritores outra vez. A edição em brochura de Os versos satânicos, im portada dos Estados Unidos, estava à venda em Hay e em todo o Reino Unido, e depois de todas essas dificuldades o que aconteceu foi: nada. As coisas não m elhoraram , m as tam bém não pioraram . O m om ento que a Penguin Books havia tem ido tanto a ponto de desistir dos direitos de publicação passou sem nenhum incidente desagradável. Ele se perguntou se Peter May er teria notado isso.
Cada viagem de cam panha levava dias, sem anas, para ser preparada. Havia discussões com as forças de segurança locais, problem as com com panhias aéreas, acordos com políticos não cum pridos, o interm inável trabalho de sim e não, para cim a e para baixo da organização política. Frances, Carm el e ele discutiam constantem ente, e a cam panha estava se tornando seu trabalho de tem po integral tam bém . Nos últim os anos, ele diria ter perdido um , talvez dois rom ances inteiros para a fatwa; por isso, assim que os anos som brios term inaram , ele m ergulhou na escritura com renovada determ inação. Havia livros em pilhados dentro dele, exigindo nascer.
A cam panha com eçou na Escandinávia. Nos anos que se seguiram , ele se apaixonou pelos povos nórdicos, por sua adoção dos m ais altos princípios de liberdade. Até m esm o suas com panhias aéreas tinham m oral e o transportavam sem discutir. O m undo era um lugar estranho: nas horas de sua m aior adversidade, um m enino dos trópicos encontrava seus aliados m ais próxim os no Norte gelado, m esm o que os dinam arqueses só pensassem em queij o. A Dinam arca exportava um a quantidade m uito grande de seu queij o feta para o Irã e, se fosse vista cultivando a am izade com o blasfem o, apóstata e herege, o com ércio desse produto podia ser afetado. O governo dinam arquês se viu obrigado a escolher entre queij o e direitos hum anos e, de início, escolheu o queij o. (Havia rum ores de que o governo britânico insistira que os dinam arqueses não se encontrassem com ele. Jaco Groot, o editor holandês de Ian McEwan, tinha ouvido dizer que os britânicos diziam a seus colegas europeus que não queriam se ver “em baraçados” por um a “dem onstração m uito pública de apoio”.)
Ele foi, de qualquer m odo, com o convidado do pen Club dinam arquês. Elizabeth viaj ou um dia antes com Carm el, e ele foi levado a Heathrow por um a entrada de segurança e seguiu de carro pela pista, sendo o últim o passageiro a entrar no avião. Tinha se preocupado m uito com a possibilidade de os outros passageiros entrarem em pânico quando o vissem , m as aqueles viaj antes eram quase todos dinam arqueses e o receberam com sorrisos e apertos de m ãos, com prazer genuíno e sem m edo. Quando o avião decolou da pista, ele pensou: Talvez eu possa começar a viajar de novo. Talvez fique tudo bem.
No aeroporto de Copenhague, o com itê de recepção conseguiu de algum a form a não reconhecê-lo. Evidentem ente ele estava m enos reconhecível do que pensava. Atravessou o aeroporto, passou pela barreira de segurança e ficou quase m eia hora no saguão de desem barque, à procura de alguém que soubesse o que estava acontecendo. Durante trinta m inutos ele havia escapado da rede de segurança. Ficou tentado a entrar num táxi e fugir. Mas então os policiais vieram correndo ao seu encontro, e j unto com eles seu anfitrião Niels Barfoed, do pen Club dinam arquês, bufando e pedindo desculpas pela confusão. Foram para os carros que estavam à espera e a rede se fechou de novo em torno dele.
Sua presença — isso se tornou “norm al” durante algum tem po — não havia sido anunciada com antecedência. Os sócios do pen reunidos no Museu Louisiana de Arte Moderna naquela noite esperavam que o convidado de honra fosse Günther Grass, e Grass de fato estava lá, um de um a sequência de grandes figuras literárias que concordaram , naquela época, em servir com o seu “disfarce”. “Se Salm an Rushdie é refém , nós tam bém som os reféns”, disse Grass ao apresentá-lo, e então chegou sua vez. Poucas sem anas antes, disse ele, cinquenta intelectuais iranianos haviam publicado um a declaração em sua defesa. “Defender Rushdie é defender a nós m esm os”, tinham dito. Fraquej ar diante da fatwa seria incentivar regim es autoritários. Aí é que era preciso traçar a linha e não havia com o recuar. Ele estava travando a batalha de seus colegas escritores, assim com o a sua própria. Os 65 intelectuais dinam arqueses reunidos no Louisiana se com prom eteram a ficar ao lado dele nessa luta, e pressionar o próprio governo a fazer o que era certo. “Se o governo britânico se sente incapaz de enfrentar a am eaça inaceitável do Irã ao processo dem ocrático”, disse Frances D’Souza, “o com itê de defesa deve procurar o com prom isso e o apoio que foram oferecidos pela Europa.”
A certa altura, ele viu, das j anelas do m useu, um navio de guerra. “É por m inha causa?”, perguntou, tentando fazer piada; m as era de fato por ele: seu navio de guerra pessoal, para protegê-lo de um ataque naval e vigiar para que hom ens-rãs islâm icos não chegassem nadando ao m useu com alfanj es entre os dentes. Sim , tinham pensado em tudo. Eram um povo dedicado, os dinam arqueses.
Seu editor norueguês, William Ny gaard, da H. Aschehoug & Co., insistiu com ele para prolongar sua viagem dinam arquesa com um a visita à Noruega. “Acho que aqui podem os fazer ainda m ais”, disse ele. Ministros do governo estavam dispostos a encontrá-lo. Todo verão, a Aschehoug dava um a grande festa ao ar livre na bela m ansão antiga da Dram m ensveien, 99, que na virada do século anterior tinha sido a residência da fam ília Ny gaard. Essa festa era um dos destaques da tem porada de Oslo, à qual com pareciam m uitos dos escritores noruegueses m ais conhecidos, assim com o líderes políticos e em presariais. “Você tem de vir à festa”, disse William . “No j ardim ! Com m ais de m il pessoas! Será fantástico. Um gesto de liberdade.” William era um a figura carism ática da Noruega: esquiador ousado, incrivelm ente bonito, descendente de um a das fam ílias m ais antigas do país e chefe da im portante editora. Era tam bém fiel à palavra: a visita à Noruega foi um sucesso. Na festa ao ar livre da Dram m ensveien, ele foi conduzido em m eio à m ultidão por William Ny gaard e apresentado, bem , a tout Oslo. William contou depois que a reação à sua visita tinha sido im ensa.
Essa viagem fez de William seu editor europeu m ais “visível”. Ninguém sabia na época, m as seu trabalho em favor do escritor colocaria sua vida em grande perigo. Catorze m eses depois, o terror iria bater à porta de William .
Em Londres, o porta-voz para as artes, o parlam entar trabalhista Mark Fisher, preparou um a entrevista coletiva na Câm ara dos Com uns, com a presença de parlam entares trabalhistas e tóris, e pela prim eira vez ele teve um a audiência sim pática dentro do palácio de Westm inster. Houve um a nota discordante. O ultradireitista conservador Rupert Allason levantou-se e disse: “Por favor, não interprete m inha presença aqui com o apoio. Seus editores dizem que, para esconder o que estava preparando, o senhor os enganou quanto a seu livro. É errado usar dinheiro público para proteger o senhor”. Essa perversa frase de ataque o incom odou m enos do que incom odaria em outro m om ento. Não esperava m ais ser apreciado universalm ente; sabia que, onde quer que fosse, encontraria adversários assim com o am igos. Tam pouco todos os adversários tinham razão. Gerald Kaufm an, parlam entar trabalhista que havia m anifestado seu repúdio ao que o sr. Rushdie escrevia, censurou publicam ente o colega Mark Fisher por ter convidado o autor à Câm ara dos Com uns. (Os m em bros do Parlam ento iraniano concordaram com Kaufm an que o convite tinha sido um a “desgraça”.) Haveria outros Kaufm ans e Allasons pelo cam inho. O im portante era prom over o caso.
Ele falou com David Gore-Booth no Foreign Office e perguntou-lhe diretam ente sobre os rum ores de que o governo britânico se opunha à visibilidade dessa nova cam panha e trabalhava por trás do pano para sabotá-la. Gore-Booth tinha um rosto im penetrável e não expressou nenhum a em oção. Ele negou os rum ores. “O governo de Sua Maj estade apoia suas reuniões com outros governos”, disse. Ofereceu aj uda na ligação policial para que as forças de segurança dos países que ele visitasse não “exagerassem ”. Era difícil saber o que pensar. Talvez ele tivesse com eçado a levar o governo para seu lado.
A Universidad Com plutense, de Madri, convidou-o a ir para a Espanha e conversar com Mario Vargas Llosa no palácio Escorial. Ele levou Elizabeth e Zafar e passaram três dias sossegados em Segóvia antes da conferência. A polícia espanhola m anteve um a presença m uito discreta e ele conseguiu andar pela rua e com er em restaurantes daquela linda cidadezinha e se sentiu quase um hom em livre. Alm oçou em Ávila com Mario e sua m ulher, Patricia. Foram horas preciosas. Depois, no Escorial, o reitor da universidade, Gustavo Villapalos, disse que tinha excelentes contatos no Irã e se ofereceu com o m ediador. Khom eini, contou ele, um dia o cham ara de um “hom em m uito santo”. Essa últim a oferta de m ediação m ostrou-se tão inútil com o as outras. Ele ficou horrorizado ao ler na im prensa espanhola que Villapalos dissera que ele havia concordado em alterar e cortar as passagens “ofensivas” de Os versos satânicos para possibilitar um acordo. Negou isso veem entem ente e a seguir Villapalos se tornou inacessível e cessou todo contato com ele.
Você tem de estar em todas as plataformas , dissera Giandom enico Picco, para estar presente quando o trem chegar. Mas algum as plataform as não tinham trilhos que passassem por elas. Eram apenas lugares para ficar parado.
No m om ento em que pousaram em Denver, perceberam que as coisas iam m uito m al. A polícia local estava tratando o evento com o um trailer da Terceira Guerra Mundial, e quando ele e Elizabeth atravessaram o aeroporto havia hom ens brandindo enorm es arm as de assalto correndo em todas as direções, policiais em purrando populares com violência, e havia gritos, dedos apontando e um ar de im inente calam idade. Tudo isso o apavorou, aterrorizou os transeuntes e o indispôs com a com panhia aérea, que se recusou a perm itir que ele viaj asse em qualquer de seus aviões no futuro, por causa de seu comportamento. A palhaçada das forças de segurança tinha passado a ser “dele”.
Foram levados a Boulder, onde ele falou na conferência literária pan-am ericana ao lado de Oscar Arias, Robert Coover, William Sty ron, Peter Matthiessen e William Gass. “Escritores latino-am ericanos sabem há m uito tem po que a literatura é um a questão de vida ou m orte”, ele disse em seu discurso. “Agora, eu tam bém sei.” Ele vivia num a época em que a im portância da literatura parecia estar se apagando. Queria fazer com que sua m issão insistisse na im portância vital dos livros e na proteção das liberdades necessárias para criá-los. Em seu grande rom ance Se um viajante numa noite de inverno, Italo Calvino disse (falando pela boca de seu personagem Arkadian Porphy ritch): “Ninguém hoj e em dia tem tão alta estim a pela palavra escrita quanto a polícia diz ter. Quais estatísticas perm item que se identifiquem as nações em que a literatura goza de verdadeira consideração, m ais do que os valores adequados para controlá-la e suprim i-la?”. O que sem dúvida era verdade para Cuba, por exem plo. Philip Roth disse um a vez, a respeito da repressão da era soviética: “Quando estive pela prim eira vez na Tchecoslováquia m e ocorreu que trabalho num a sociedade em que o escritor pode tudo e nada im porta, enquanto para os escritores tchecos que conheci em Praga nada pode e tudo im porta”. O que era verdade para Estados policiais e para a tirania soviética era verdade tam bém para as ditaduras latino-am ericanas, e para o novo fascism o teocrático com o qual ele e m uitos outros escritores se confrontavam , m as nos Estados Unidos — no liberal, em bora rarefeito, ar de Boulder, Colorado — não era fácil para as pessoas sentirem a verdade viva da repressão. Ele havia tornado sua m issão, disse, explicar o m undo em que “nada pode e tudo im porta” para o m undo em que “tudo pode e nada im porta”.
Foi preciso a intervenção do presidente da Universidade do Colorado em Boulder para convencer outra linha aérea a perm itir que ele viaj asse para casa. Quando term inou seu discurso, ele e Elizabeth foram levados im ediatam ente de volta ao aeroporto de Denver e quase em purrados para dentro de um voo para Londres. A operação policial não estava fora de controle com o quando chegaram , m as era grande o suficiente para assustar todo m undo que observava. Ele foi em bora dos Estados Unidos sentindo que a cam panha tinha sim plesm ente dado um passo atrás.
O terror batia em m uitas portas. No Egito, o líder secularista Farag Fouda havia sido assassinado. Na Índia, o professor Mushirul Hasan, vice-reitor da Jam ia Millia Islam ia, universidade situada em Delhi, e im portante historiador, fora am eaçado por “m uçulm anos furiosos” por ousar se opor à proibição de Os versos satânicos. Ele foi forçado a m udar sua posição e condenar o livro, m as a m ultidão exigiu que ele tam bém aprovasse a fatwa. Ele recusou. Consequentem ente, foi im pedido de voltar à universidade por cinco longos anos. Em Berlim , quatro políticos de oposição curdo-iranianos que participavam da Internacional Socialista foram assassinados no restaurante My konos e suspeitava-se que o regim e iraniano fosse autor dos assassinatos. E, em Londres, Elizabeth e ele estavam dorm indo em seu quarto quando houve um a explosão m uito forte e a casa toda trem eu. Policiais entraram correndo no quarto, de arm as em punho, e arrastaram os dois adorm ecidos para o chão. Ficaram deitados entre hom ens arm ados durante o que pareceram longas horas, até se confirm ar que a explosão tinha sido a certa distância, na rotatória de Staples Corner, debaixo da passagem de nível da North Circular Road. Era o Provisional ira em ação: nada a ver com eles. Era um a bom ba não islâm ica. Foram deixados em paz para voltar a dorm ir.
O terror islâm ico não estava longe. O aiatolá Sanei, da Fundação 15 Khordad, aum entou o valor do prêm io para cobrir “despesas”. (Guardem as notas fiscais, assassinos, vocês podem debitar o alm oço de negócios.) Três iranianos foram expulsos do Reino Unido porque tinham conspirado para m atá-lo: dois funcionários da em baixada, Mehdi Say es Sadeghi e Mahm oud Mehdi Soltani, e um “estudante”, Gassem Vakhshiteh. No Irã, os m em bros do Parlam ento — os parlam entares pretensam ente “m oderados” eleitos na recente eleição iraniana! — encam inharam um a “petição” ao presidente Rafsanj ani para m anter a fatwa e o aiatolá Jannati, favorável a Rafsanj ani, respondeu que “era a hora certa de m atar o im undo Rushdie”.
Ele foi ao sul de Londres j ogar tênis de m esa com o pintor Tom Phillips em seu estúdio. Parecia a coisa certa a fazer. Tom havia com eçado a pintar seu retrato — ele disse ao artista que parecia m elancólico dem ais nele, m as Tom respondeu: “Melancólico? Com o assim ? Eu batizei o quadro de Sr. Jovialidade” —, então ele posou durante duas horas antes de perder no pingue-pongue. Ele não gostava de perder no pingue-pongue.
Nesse dia, a Fundação 15 Khordad anunciou que logo passaria a m andar equipes de assassinos ao Reino Unido para executar a fatwa. Perder no pingue-pongue era ruim , m as ele estava tentando não enlouquecer.
Zafar saiu da Hall School pela últim a vez — a Hall, que tinha feito tanto para protegê-lo do pior do que estava acontecendo a seu pai, com professores e colegas perm itindo-lhe, sem que o sentim ento j am ais fosse expresso em palavras, viver um a infância norm al no m eio da insanidade. Os pais de Zafar tinham m uito a agradecer à escola. O que se esperava era que a nova escola fosse cuidar dele tão am orosam ente com o a antiga.
Highgate era sobretudo um externato, m as havia aloj am entos para internos durante a sem ana, e Zafar quis ser interno. Em poucos dias, porém , ele descobriu que detestava o colégio interno. Aos treze anos, era um rapazinho que gostava de ter seu espaço particular e num internato de m eninos isso não existia. Então ele ficou im ediatam ente arrasado. Seus pais concordaram que ele devia deixar de ser interno e a escola aceitou a decisão. Zafar com eçou im ediatam ente a irradiar felicidade e passou a adorar a escola. E, agora que seu pai tinha um a casa perto de Highgate, podia passar as noites do período letivo com ele e seu relacionam ento retom aria o que havia sido perdido durante quatro anos: intim idade, continuidade, e algo com o tranquilidade. Zafar tinha seu próprio quarto na casa nova e pediu que ele fosse m obiliado inteiram ente em preto e branco. Não podia trazer os am igos, m as entendia a razão e dizia não se im portar. Mesm o sem a visita de outros rapazes, era um grande ganho em relação ao internato. Ele tinha um a casa com um pai outra vez.
Na Índia, extrem istas hindus destruíram um a das m esquitas m ais antigas do país, a Babri Masj id, em Ay odhy a, construída pelo prim eiro im perador m ogol. Os destruidores alegaram que a m esquita havia sido construída sobre as ruínas de um tem plo hindu que m arcava o Ram j am nabhum i, o local de nascim ento do Senhor Ram a, sétim o avatar de Vishnu. Destruição não era prerrogativa do islã. Quando soube da notícia da destruição da Babri Masj id, ele foi tom ado por um a dor com plexa. Ficou triste porque, m ais um a vez, a religião revelava que seu poder de destruição excedia em m uito o poder de fazer o bem , que um a série de proposições im prováveis — que a m oderna Ay odhy a era o m esm o local da Ay odhy a do Ramayana, onde Ram a era rei num a data im possível de se saber no passado rem oto; que o alegado lugar de nascim ento era o verdadeiro lugar de nascim ento; que deuses e seus avatares realm ente existiam — havia provocado a vandalização de um edifício real e belo, cuj o infortúnio fora ter sido construído num país que não baixava leis fortes para proteger seu patrim ônio cultural e no qual era possível ignorar tais leis, se elas existissem , caso o grupo fosse suficientem ente num eroso e alegasse estar agindo em nom e de um deus. Ele estava triste tam bém porque ainda tinha sentim entos de afeição pela m esm a cultura m uçulm ana da Índia que im pedia o professor Mushirul Hasan de ir ao trabalho, e que o im pedia de receber um visto para visitar o país onde nascera. A história da Índia m uçulm ana era inevitavelm ente sua história tam bém . Um dia, ele escreveria um rom ance sobre o neto de Babar, Akbar, o Grande, que tentou estabelecer a paz entre os m uitos deuses da Índia e seus seguidores e que, durante algum tem po, conseguiu isso.
As feridas infligidas pela Índia eram as m ais profundas. Disseram -lhe que estava fora de questão ele receber um visto para visitar o país de seu nascim ento e de sua m ais profunda inspiração. Ele não era bem -vindo nem no centro cultural indiano em Londres porque, segundo o diretor do centro, Gopal Gandhi (neto do m ahatm a), sua presença seria vista com o antim uçulm ana e prej udicaria as credenciais seculares do centro. Ele respirou fundo e voltou a trabalhar. O último suspiro do mouro era tão secular quanto podia ser um rom ance, m as seu autor era considerado um sectário separatista no país sobre o qual escrevia. As nuvens se acum ulavam sobre sua cabeça. Mas ele descobriu que seu im pulso sanguinário era igual à dor, que suas frases ainda podiam tom ar form a, sua im aginação ainda cintilava. Não ia perm itir que rej eições dobrassem sua arte.
Sem outra alternativa, ele se tornou, em parte, em baixador de si m esm o. Mas a política não era fácil para ele. Ele fazia discursos, defendia sua causa e pedia aos dignitários do m undo que se posicionassem contra esse novo “terrorism o por controle rem oto”, esse dedo letal apontado para o m undo. Esse aí, está vendo? Mate-o, o careca com o livro na mão; e que entendessem que, se o terrorism o pela fatwa não fosse derrotado, ele sem dúvida se repetiria. Mas m uitas vezes as palavras soavam frouxas a seus próprios ouvidos. Na Finlândia, depois de falar num a reunião do Conselho Nórdico, aprovaram resoluções, foram criados subcom itês e feitas prom essas de apoio; m as ele não conseguia evitar a sensação de que nada substancial era conquistado. Ele gostou m ais da beleza da floresta de outono lá fora da j anela e teve a chance de passear por ela com Elizabeth, respirar aquele ar fresco e sentir-se brevem ente em paz; e isso, para sua cabeça naquele m om ento, era um a bênção m aior do que todas as resoluções do m undo.