Joseph Anton: Memórias

Salman Rushdie · Capítulo 2 de 11 · parte 1/4

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Joseph Anton: Memórias

1. Um pacto faustiano ao contrário

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

 

Quando ele era pequeno, na hora de dorm ir seu pai lhe contava as histórias m aravilhosas do Oriente, contava-as e recontava, refazia-as e reinventava à sua m aneira — as histórias de Xerazade, de As mil e uma noites, histórias que, narradas por ela para evitar a m orte, provavam o poder que têm as histórias para civilizar e derrotar até o m ais hom icida dos tiranos; as fábulas do Panchatantra; os contos fantásticos que escoavam , com o um a cachoeira, do Kanthasaritsagara, o “Oceano das correntes de histórias”, o im enso lago de histórias criado na Caxem ira, onde seus antepassados tinham nascido; e os contos de heróis poderosos reunidos no Hamzanama e nas Aventuras de Hatim Tai (esse era tam bém um film e, e m uitos de seus em belezam entos ao original eram acrescentados às narrações na hora de dorm ir, ainda m ais am pliados). Crescer im erso nessas narrativas ensinava duas lições inesquecíveis: prim eiro, que as histórias não eram verdadeiras (não existiam gênios “de verdade” em garrafas, tapetes voadores ou lâm padas m aravilhosas), m as, por não serem verdadeiras, elas faziam com que ele sentisse e conhecesse verdades que a verdade não era capaz de lhe dizer; segundo, que todas elas lhe pertenciam , tanto quanto pertenciam a seu pai, Anis, e a todo m undo tam bém , todas eram dele, com o eram de seu pai, as histórias alegres e as tristes, as sagradas e as profanas, eram dele, para alterar, renovar, abandonar e pegar de novo, com o e quando lhe aprouvesse; eram dele para rir delas, para exultar, para viver nelas, com elas e por m eio delas, para infundir-lhes vida por am á-las, e para ser, por sua vez, vivificado por elas. O hom em era o anim al contador de histórias, a única criatura no m undo que criava histórias para entender que espécie de criatura era. A história era seu direito nato, e ninguém podia roubá-lo.

Sua m ãe, Negin, tam bém lhe servia histórias. Negin Rushdie nascera com o nom e de Zohra Butt. Ao se casar com Anis, m udara não só o sobrenom e com o tam bém o prenom e, reinventando-se para ele, deixando atrás a Zohra em que ele não queria pensar, que estivera apaixonada por outro hom em . Se no fundo do coração ela era Zohra ou Negin, o filho nunca soube, pois ela nunca lhe falava do hom em que deixara para trás, preferindo, em vez disso, contar os segredos de todo m undo, m enos o dela m esm a. Era um a fofoqueira de m arca m aior, e, sentado na cam a dela, m assageando-lhe os pés do j eito com o ela gostava, ele, seu prim ogênito e único varão, absorvia os m exericos da cidade, deliciosos e às vezes lascivos, que ela trazia na cabeça, as gigantescas e entrelaçadas florestas de árvores genealógicas sussurradas que ela levava consigo, carregadas de suculentos frutos proibidos de escândalo. E tam bém esses segredos, ele passou a sentir, pertenciam a ele, pois, assim que um segredo era contado, não pertencia m ais a ela, que o contara, e sim a ele, que o ouvira. Se alguém não quisesse que um segredo fosse conhecido, só havia um a regra a seguir: Não o contasse a ninguém. Tam bém essa regra lhe seria útil m ais tarde. Nesse m ais tarde, quando ele se tornou escritor, sua m ãe lhe disse: “Vou parar de lhe contar essas coisas, porque você as conta em seus livros e eu é que arranj o encrenca”. Isso era verdade, e talvez ela fizesse bem em parar de contar, m as fofocar era seu vício, e ela não conseguia parar de contar coisas, do m esm o m odo que o m arido, o pai dele, não conseguia parar de beber.

Villa Windsor, Warden Road, Bom baim -26. A casa ficava num a colina, com vista para o m ar e para a cidade, que corria entre a colina e o m ar. Seu pai era m esm o rico, em bora passasse a vida perdendo todo o seu dinheiro e tivesse m orrido quebrado, sem ter com o pagar as dívidas, com um a pilha de cédulas de rupias na gaveta superior esquerda de sua escrivaninha, todo o dinheiro que deixara no m undo. Anis Ahm ed Rushdie (“Bacharel Cantab., Advogado”, anunciava a placa de latão aparafusada na parede, j unto da porta de entrada da Villa Windsor), filho único de um m agnata dos tecidos, herdou um a fortuna, gastou-a, perdeu-a e então m orreu, o que poderia ser a história de um a vida feliz, m as não era. Os filhos sabiam certas coisas a seu respeito: que de m anhã m ostrava-se alegre até fazer a barba, m as, depois que a Philishave com pletava seu trabalho, ele se tornava irascível, e as crianças procuravam não ficar em seu cam inho; que, quando ele os levava à praia nos fins de sem ana, ia anim ado e engraçado no cam inho de ida, m as na volta estava sem pre furioso; que, quando j ogava golfe com a m ãe deles no Willingdon Club, ela tinha de ter o cuidado de perder, em bora j ogasse m elhor do que ele, porque não valia a pena ganhar; e que, quando estava bêbado, contraía o rosto em esgares estranhos e horrorosos, coisa que os assustava terrivelm ente, m as que nenhum estranho j am ais presenciava, de m odo que ninguém entendia quando diziam que o pai “fazia caretas”. Entretanto, quando eles eram pequenos havia as histórias e depois o sono, e ouviam -se vozes alteradas em outro quarto, a m ãe chorando, não havia nada que pudessem fazer. Cobriam a cabeça com o lençol e sonhavam .

Anis levou o filho de treze anos à Inglaterra em j aneiro de 1961, e durante m ais ou m enos um a sem ana, antes que ele com eçasse o curso na Rugby School, dividiram um quarto no Cum berland Hotel, perto do Arco de Márm ore, em Londres. De dia, saíam para com prar o m aterial e as roupas exigidas pela escola, com o paletós de tweed e calças cinzentas de flanela, cam isas Van Heusen com colarinhos sem iduros separados, que exigiam o uso de botões de colarinho que m achucavam o pescoço do m enino e dificultavam sua respiração. Tom avam m ilk-shake de chocolate na Ly ons Corner House, na Coventry Street, foram ao cine Odeon ver um a com édia sobre m oças sapecas de um internato fem inino, e ele desej ou que houvesse garotas em sua escola. Ao anoitecer, o pai com prou um frango assado no Katdom ah da Edgware Road e fez com que ele o levasse para o apartam ento do hotel, em brulhado na capa de chuva nova, de sarj a azul. À noite, Anis em briagou-se, e de m adrugada pôs-se a sacudir o filho, gritando-lhe num palavreado tão chulo que o m enino, que acordara apavorado, espantou-se com o fato de o pai sim plesm ente conhecer tais term os. Depois foram à Rugby School, com praram um a poltrona verm elha e se despediram . Anis tirou um a fotografia do filho diante do internato com seu boné de listras azuis e brancas e sua capa que cheirava a frango, e quem visse a tristeza nos olhos do rapaz poderia crer que ele estivesse triste por estar m atriculado num a escola tão longe de casa. A verdade, porém , era que o filho não via a hora de o pai ir em bora, para com eçar a esquecer as noites de linguagem obscena e gratuita, de olhos verm elhos de fúria. Queria pôr a tristeza no passado e com eçar seu futuro, e depois disso talvez fosse inevitável que ele procurasse levar a vida o m ais longe possível do pai, interpondo oceanos entre eles dois e deixando-os assim . Quando se form ou pela Universidade de Cam bridge e disse ao pai que pretendia ser escritor, um gem ido de dor irrom peu, involuntariam ente, da boca de Anis. “O que vou dizer a m eus am igos?”, disse ele.

No entanto, dezenove anos depois, quando o filho fez quarenta, Anis Rushdie enviou-lhe um a carta, escrita de próprio punho, que se tornou a m ais preciosa com unicação que o escritor j á havia recebido ou viria a receber. Isso se deu apenas cinco m eses antes da m orte de Anis, aos 77 anos, de um m ielom a m últiplo, de progressão galopante — um câncer da m edula óssea. Naquela carta, Anis deixava patente com quanto cuidado e sagacidade lera e com preendera os livros do filho, a avidez com que procurara ler outros, a profundidade com que cultivava o am or paterno que passara m etade da vida sem expressar. Viveu o suficiente para alegrar-se com o sucesso de Os filhos da meia-noite e Vergonha, m as, quando foi publicado o livro que tinha a m aior dívida para com ele, j á não estava presente para lê-lo. Talvez isso tenha sido bom , porque tam bém não viu o furor que se seguiu; entretanto, um a das poucas coisas de que seu filho tinha a m ais absoluta certeza era que na batalha provocada por Os versos satânicos ele teria contado com o apoio irrestrito e inflexível do pai. Na verdade, sem as ideias e o exem plo do pai a inspirá-lo, aquele rom ance nunca teria sido escrito. Eles ferraram com você, sua mãe e seu pai? Não, não foi nada disso. Bem , talvez tenham feito isso, m as tam bém perm itiram que ele se tornasse a pessoa, e o escritor, que estava destinado a ser.

O prim eiro presente que recebera do pai, um presente sem elhante a um a m ensagem num a cápsula do tem po, que ele não com preendeu até virar adulto, foi o nom e de fam ília. “Rushdie” foi um a invenção de Anis. O nom e do pai dele fora bem im ponente, Khwaj a Muham m ad Din Khaliqi Dehlavi, um belo nom e da Delhi Antiga que caía com o um a luva naquele cavalheiro da velha guarda que nos fitava fixam ente da única fotografia dele que sobrevivera, aquele industrial bem -sucedido e ensaísta nas horas vagas que m orava num haveli caindo aos pedaços no fam oso e antigo mulhalla, ou bairro, de Ballim aran, um labirinto de vielas sinuosas na área do m ercado de Chandni Chowk, onde vivera Ghalib, o grande poeta de língua pársi e urdu. Muham m ad Din Khaliqi m orreu j ovem , deixando ao filho um a fortuna (que ele dilapidaria) e um nom e pesado dem ais para se carregar no m undo m oderno. Anis adotou um novo nom e, “Rushdie”, devido à sua adm iração por Ibn Rushd, conhecido no Ocidente com o Averróis, o filósofo árabe-espanhol de Córdoba, do século xii, que veio a tornar-se cádi, ou j uiz, em Sevilha, tradutor e aclam ado com entarista das obras de Aristóteles. O filho de Anis usou o nom e durante duas décadas antes de com preender que o pai, um verdadeiro letrado do islã, ainda que inteiram ente destituído de fé religiosa, o escolhera por respeitar Ibn Rushd, que assum ira, em sua época, a vanguarda da crítica racionalista ao literalism o islâm ico. E outros vinte anos transcorreram antes que a batalha com relação a Os versos satânicos produzisse um eco, no século xx, daquela crítica de oitocentos anos.

“Ao m enos”, ele pensou quando a tem pestade ribom bou sobre sua cabeça, “vou entrar nessa batalha com o nom e certo.” Seu pai lhe dera, do túm ulo, a bandeira sob a qual ele se dispunha a lutar, a bandeira de Ibn Rushd, que exprim ia o intelecto, a argum entação, a análise e o progresso, que representava a liberdade da filosofia e do saber em relação aos grilhões da teologia, que sim bolizava a razão hum ana contra a fé cega, a subm issão, a resignação, a paralisia. Ninguém j am ais quis ir para a guerra, m as, se a guerra surgisse na vida de um a pessoa, que ao m enos fosse a guerra certa, pelas coisas m ais im portantes no m undo, e, se você fosse participar dela, era bom que se cham asse “Rushdie” e se postasse onde seu pai o pusera: na tradição de Averróis, o grande aristotélico, Abul Walid Muham m ad ibn Ahm ad ibn Rushd.

Eles tinham a m esm a voz, seu pai e ele. Quando ele atendia o telefone em casa, os am igos de Anis com eçavam a lhe falar com o se ele fosse o pai, e ele tinha de detê-los antes que dissessem algo em baraçoso. Eles tam bém eram parecidos fisicam ente, e quando, durante os trechos m ais tranquilos da acidentada viagem deles com o pai e filho, sentavam -se num a varanda num a noite quente, com o perfum e de buganvílias nas narinas, e discutiam calorosam ente sobre o m undo, am bos sabiam que, em bora discordassem quanto a m uitos pontos, tinham a m esm a m entalidade. E o que m ais tinham em com um , acim a de tudo, era a descrença.

Anis era ateu — um a declaração ainda chocante nos Estados Unidos, nada excepcional na Europa e incom preensível em grande parte do resto do m undo, onde o conceito de não crer era difícil até de form ular. No entanto, ele era isso, um ateu que pensava m uito em Deus. O nascim ento do islã o fascinava, por ser a única das grandes religiões do m undo surgida no âm bito da história, cuj o profeta não era um a lenda descrita e glorificada por “evangelistas” que escreveram cem anos ou m ais depois da vida e da m orte do hom em real, ou um prato requentado para um fácil consum o global pelo brilhante apóstolo que foi são Paulo, e sim um hom em cuj a vida estava bem registrada, cuj as circunstâncias econôm icas e sociais eram conhecidas, um hom em que viveu num a época de profunda m udança social, um órfão que ao crescer tornou-se um com erciante bem -sucedido com tendências m ísticas e que viu, certo dia, no m onte Hira, perto de Meca, o arcanj o Gabriel em pé no horizonte, enchendo o céu e instruindo-o a “recitar”, e assim , lentam ente, a criar o livro conhecido com o a Recitação: al-Qur’an.

Isso passou do pai para o filho: a certeza de que a história do nascim ento do islã era fascinante por ser um evento dentro da história, e de que, com o tal, era obviam ente influenciado pelos acontecim entos, pelas pressões e pelas ideias da época de sua criação; de que historicizar a história, tentar com preender com o essas forças m oldaram um a grande ideia, era a única abordagem possível do tem a; e de que era possível aceitar Maom é com o um m ístico genuíno — tanto quanto se podia aceitar que Joana d’Arc realm ente escutara as vozes ou que as revelações de são João Evangelista fossem as experiências “reais” daquela alm a atorm entada — sem ter de aceitar tam bém que, se alguém estivesse ao lado do Profeta do islã no m onte Hira, naquele dia, tam bém teria visto o arcanj o. A revelação deveria ser entendida com o um evento interior, subj etivo, e não com o um a realidade obj etiva, e um texto revelado deveria ser analisado com o qualquer outro texto, com o em prego de todos os instrum entos do crítico — literários, históricos, psicológicos, línguísticos e sociológicos. Em sum a, o texto deveria ser visto com o um artefato hum ano e, portanto, com o todos os artefatos, suj eito à falibilidade e à im perfeição hum ana. Ficou fam osa a definição que o crítico am ericano Randall Jarrell deu ao rom ance: “Um texto literário longo que tem em si algo de errado”. Anis Rushdie j ulgava saber o que havia de errado no Corão: ele se tornara, aqui e ali, bagunçado.

De acordo com a tradição, quando Maom é descia da m ontanha, com eçava a recitar — ele próprio talvez fosse analfabeto — e um de seus com panheiros, o m ais próxim o, escrevia o que ele dizia em qualquer coisa que estivesse à m ão (pergam inho, pedra, couro, folhas e, às vezes, ao que consta, até ossos). Essas passagens foram guardadas em sua casa até depois de sua m orte, quando os Com panheiros se reuniram para fixar a sequência correta da revelação; e essa iniciativa nos deu o atual texto canônico do Corão. Para que esse texto fosse “perfeito”, o leitor tinha de acreditar: (a) que o arcanj o, ao transm itir a Palavra de Deus, o fizera sem lapsos — o que pode ser um a ideia aceitável, um a vez que os arcanj os são tidos com o im unes a erros; (b) que o Profeta, ou o Mensageiro, com o Maom é cham ava a si m esm o, lem brava-se das palavras do arcanj o com total exatidão; (c) que as apressadas transcrições dos Com panheiros, registradas ao longo de 23 anos, eram igualm ente à prova de erros; e, finalm ente, (d) que, quando se reuniram para dispor o texto em sua form a final, a m em ória coletiva deles da sequência correta tam bém era perfeita.

Anis Rushdie não se dispunha a contestar as proposições (a), (b) e (c). No entanto, era m ais difícil para ele engolir a proposição (d), porque, com o qualquer pessoa que lesse o Corão podia facilm ente perceber, diversas suras, ou capítulos, apresentavam descontinuidades radicais, m udando de assunto sem aviso, e esse assunto posto de lado às vezes ressurgia, sem anúncio prévio, num a sura posterior que, até aí, tratava de um tem a inteiram ente diferente. Durante m uito tem po Anis alim entou o desej o de desenredar essas descontinuidades e, assim , chegar a um texto que fosse m ais claro e m ais fácil de ler. É im portante dizer que isso não era um plano secreto ou furtivo; ele o discutia abertam ente com am igos no j antar. Não havia ideia algum a de que o em preendim ento pudesse trazer riscos para o revisor, nenhum frisson de perigo. Talvez os tem pos fossem diferentes, e tais ideias pudessem ser debatidas sem tem or de represálias; ou os am igos fossem dignos de confiança; ou Anis fosse um ingênuo inocente. Mas foi nesse clim a de pesquisa franca que ele criara os filhos. Nada estava além dos lim ites. Não havia tabus. Tudo, m esm o as escrituras sagradas, podia ser investigado e, se possível, m elhorado.

Ele nunca fez o que pretendia. Quando m orreu, não se encontrou texto algum entre seus papéis. O álcool e fracassos com erciais dom inaram seus últim os anos, e ele tinha pouco tem po ou inclinação para a trabalheira pesada dos estudos corânicos profundos. Talvez aquilo tenha sido sem pre um sonho vão ou um a fanfarronada vazia, alim entada a uísque. Mas deixou um a m arca no filho. Esse foi o segundo grande presente de Anis aos filhos: um ceticism o aparentem ente intrépido, acom panhado de um descom prom isso quase total com a religião. Entretanto, havia um a certa atitude de fachada. A “carne do porco” não era consum ida pela fam ília Rushdie, nem se via em sua m esa de j antar os igualm ente proscritos “com edores de restos da terra e do m ar”; naquela m esa não se servia curry de cam arões de Goa. Havia as visitas m uito espaçadas ao Idgah para o sobe-e-desce ritual das orações. Havia, um a ou duas vezes por ano, j ej um durante o período que os m uçulm anos da Índia, que falam o urdu, e não o árabe, cham avam de Ram zán, e não de Ram adã. E certa vez, por pouco tem po, houve um maulvi, um letrado religioso, cham ado por Negin para ensinar ao filho e às filhas, todos pagãos, os rudim entos da fé. Mas, quando os filhos pagãos revoltaram -se contra o maulvi, um sósia baixote de Ho Chi Minh, e o apoquentaram com tanta im piedade que ele foi se queixar aos pais, Anis e Negin apenas riram e tom aram o partido dos filhos. O maulvi foi-se em bora de m aus m odos, para nunca m ais voltar, im precando contra os descrentes, e depois disso cessaram as tentativas de instrução religiosa. Os pagãos cresceram m eio paganizados e, pelo m enos na Villa Windsor, isso não era problem a.

 

Depois que ele se despediu do pai, usando o boné de listras azuis e brancas da Bradley House e a capa de sarj a, e m ergulhou em sua vida inglesa, o pecado da estrangeirice foi a prim eira coisa que ficou clara para ele. Até aquele dia, ele nunca pensara em si m esm o com o o Outro para alguém . Depois da Rugby School, j am ais esqueceu a lição que aprendeu ali: que sem pre haveria pessoas que sim plesm ente não gostavam de você, para quem você era tão exótico quanto hom enzinhos verdes ou criaturas viscosas do espaço sideral, e não adiantava tentar fazer com que m udassem de ideia. Alienação: essa foi um a lição que ele depois reaprendeu em circunstâncias m ais dram áticas.

Num internato inglês, no com eço da década de 1960, ele logo descobriu, um aluno podia com eter três erros graves, m as, se com etesse apenas dois dos três, poderia ser perdoado. Esses erros eram : ser estrangeiro; ser esperto; ser fraco em esportes. Na Rugby , os garotos estrangeiros e espertos que se davam bem eram bons j ogadores de críquete ou, no caso de um contem porâneo seu, o paquistanês Zia Mahm ood, era tão bom com um baralho na m ão que virou um dos m elhores j ogadores de bridge do m undo. Os m eninos que não levavam j eito para esportes deviam ter cuidado para não ser espertos dem ais e, se possível, não ser dem asiado estrangeiros, que era o pior dos três erros.

Ele com etia todos os três. Era estrangeiro, esperto e um a negação no esporte. E por isso os anos que passou lá foram , na m aior parte, infelizes, em bora fosse bem nos estudos e tivesse saído da Rugby com a sensação de ter recebido um a excelente educação — com aquela lem brança reconfortante de ótim os professores, que, se tiverm os sorte, podem os levar conosco para o resto da vida. Havia P. G. Lewis, cham ado, com o era inevitável, de “Pig”, que tanto o m otivou no am or pela língua francesa que, em certo período, ele passou do grupo dos últim os colocados para o prim eiro lugar na turm a. E havia dois professores de história, J. B. Hope-Sim pson, tam bém conhecido com o “Hope Stim ulus”, e J. W. “Gut” Hele, graças a cuj a hábil orientação ele conseguiu ganhar um a pequena bolsa para estudar história na faculdade de seu pai, o King’s College, em Cam bridge, onde conheceu E. M. Forster e descobriu o sexo, em bora não ao m esm o tem po. (Coube a “Hope Stim ulus” apresentá-lo a O senhor dos anéis, de Tolkien, obra que podia não ser m uito valiosa em term os acadêm icos, m as que penetrou em sua consciência com o um a doença, um a infecção que ele nunca conseguiu curar.) Seu velho professor de inglês, Geoffrey Helliwell, apareceria na televisão britânica no dia seguinte ao da fatwa, balançando a cabeça pesarosam ente e perguntando, em tons m elífluos, vagos, vazios: “Quem poderia im aginar que um m enino tão bonzinho e quieto iria se m eter num a encrenca tão grande?”.

Ninguém o forçara a ir para um internato na Inglaterra. Negin fora contra a ideia de m andar seu único filho hom em para tão longe, além de oceanos e continentes. Anis tinha lhe oferecido a oportunidade e o incentivara a fazer o exam e de adm issão, m as, m esm o depois de ele ser aprovado com certa distinção e conquistar a vaga na Rugby, a decisão final de ir ou não fora inteiram ente sua. Mais tarde ele se espantaria com sua própria escolha feita aos treze anos, a m enina dos olhos de seus pais, um garoto com raízes em sua cidade, feliz com seus am igos, que ia bem na escola (apesar de um a certa dificuldade com a língua m arata). Por que aquele m enino decidira deixar tudo isso para trás e viaj ar m etade do m undo, rum o ao desconhecido, longe de todos que o am avam e de tudo que ele conhecia? Teria sido influência da literatura (pois ele era, decerto, um rato de biblioteca)? Nesse caso, os culpados talvez tivessem sido seus am ados Jeeves e Bertie, ou, provavelm ente, o conde de Em sworth e sua robusta porca, a im peratriz de Blandings. Ou, quem sabe, não seriam as questionáveis atrações do m undo de Agatha Christie que o haviam convencido, em bora m iss Maple m orasse na cidadezinha m ais assassina da Inglaterra, a letal St. Mary Mead? Havia ainda a série Swallows and amazons [Andorinha e am azonas], de Arthur Ransom e, que falava de crianças fazendo bobagens com barcos em Lake District, e as terríveis traquinices literárias, m uito, m uito piores, de Billy Bunter, o “Coruj a da Classe Interm ediária”, o gorducho da ridícula Gray friars School, de Frank Richards, onde, entre os colegas de classe de Bunter, havia pelo m enos um indiano, Hurree Jam set Ram Singh, o “nababo tostado de Bhanipur”, que falava um inglês esquisito, pom poso, sintaticam ente contorcido (“a contorcioneidade”, com o o nababo tostado poderia ter dito, “era fantástica”). Teria sido, em outras palavras, um a decisão infantil aventurar-se num a Inglaterra im aginária que só existia em livros? Ou seria, em vez disso, um a indicação de que, sob a superfície do “m enino tão bonzinho e quieto”, ocultava-se um ser m ais estranho, um suj eito de índole aventureira fora do com um , com iniciativa suficiente para dar um salto no escuro exatam ente porque era um salto no desconhecido — um j ovem que intuía a capacidade de seu futuro eu adulto de sobreviver, e até prosperar, em qualquer lugar do m undo aonde suas peram bulações pudessem levá-lo, e que era capaz de, com toda facilidade, até um pouco de crueldade, entregar-se ao sonho de “sum ir”, distanciando-se do “lar”, deixando para trás, sem m uito rem orso, a m ãe e as irm ãs desoladas? Talvez um pouco de cada coisa. Sej a com o for, ele deu o salto, e os cam inhos se bifurcaram a seus pés. Ele seguiu pela vereda oeste e deixou de ser quem poderia ter sido se tivesse ficado em casa.

A pedra cor-de-rosa engastada no Muro do Doutor — cuj o nom e hom enageia o lendário diretor dr. Arnold —, fronteiro aos cam pos de j ogos do Close, tinha um a inscrição cuj o obj etivo era im ortalizar um ato de revolucionária iconoclastia. “Em com em oração ao feito de William Webb Ellis”, dizia, “que, com refinado desrespeito pelas regras do futebol tal com o praticado em sua época, pela prim eira vez pegou a bola nas m ãos e correu com ela, criando assim a característica distintiva do j ogo de rugby.” Mas a história de Webb Ellis era apócrifa, e a escola, tudo m enos iconoclástica. Ali estudavam os filhos de corretores da Bolsa e de advogados, e o “refinado desrespeito pelas regras” não fazia parte do currículo. Enfiar as duas m ãos nos bolsos era contra as regras. O m esm o se diga quanto a “correr nos corredores”. No entanto, o fagging — servir com o criado não rem unerado de um aluno m ais velho — e castigos físicos ainda eram perm itidos. Esses castigos podiam ser m inistrados pelo chefe de disciplina ou m esm o por um aluno nom eado Chefe da Casa. No prim eiro período dele na escola, o Chefe da Casa era um certo R. A. C. William son, que m antinha a bengala pendurada, à plena vista, sobre a porta de seu gabinete. Nela havia incisões, um a para cada surra que William son tinha dado.

Ele nunca foi surrado. Era um “m enino bonzinho, quieto”. Aprendeu as regras e cum pria-as escrupulosam ente. Aprendeu a gíria da escola: dics eram as orações noturnas nos dorm itórios (do latim dicere, falar); topos eram os banheiros (da palavra grega que significa lugar); e um term o m ais rude, oiks, designava os m oradores da cidade, conhecida com o centro de fabricação e cim ento. Em bora os Três Erros j am ais fossem perdoados, ele fazia o m áxim o possível para se aj ustar à escola. No sexto ano, ganhou a Medalha da Rainha com um a dissertação sobre o m inistro do Exterior de Napoleão, o coxo, cínico, am oral e libertino Talley rand, a quem defendeu com vigor. Tornou-se secretário da sociedade de debates da escola e defendeu com eloquência o fagging, abolido não m uito depois que ele deixou a escola. Vinha de um a fam ília indiana conservadora, m as não era em nenhum sentido um radical. O racism o, porém , foi um a coisa que ele rapidam ente com preendeu. Ao voltar para sua salinha de estudo, m ais de um a vez encontrou um trabalho que escrevera picado em pedacinhos, espalhados no assento de sua poltrona verm elha. Certa vez, alguém escreveu em sua parede negros, voltem para casa. Ele rilhou os dentes, engoliu o insulto e fez seu trabalho. Só contou aos pais com o era a escola depois de deixá-la (e, quando lhes falou, ficaram horrorizados por ele ter guardado tanta dor para si m esm o). Sua m ãe sofria com sua ausência, o pai pagava um a fortuna para m antê-lo lá, e não seria certo queixar-se. Por isso, nas cartas para casa, ele criou suas prim eiras ficções, sobre um a idílica vida escolar de sol e críquete. Na verdade, era m au j ogador de críquete, e no inverno fazia um frio horrível na Rugby, m ais ainda para um j ovem dos trópicos, que nunca dorm ira com cobertores pesados e tinha dificuldade para conciliar o sono debaixo de tanto peso. Mas, se os afastasse, tiritava. Tinha de se acostum ar tam bém com esse peso, e se acostum ou. À noite, nos dorm itórios, depois do apagar das luzes, as cam as m etálicas com eçavam a chacoalhar quando os m eninos aliviavam seus im pulsos adolescentes, e as batidas das cam as contra os tubos de calefação, que corriam j unto das paredes, enchiam os grandes côm odos escuros com a m úsica noturna do desej o reprim ido. Nessa área, com o em tudo o m ais, ele se esforçava por ser com o os outros e participar. Na verdade, ele não era, por natureza, rebelde. Naqueles prim eiros tem pos, preferia os Rolling Stones aos Beatles e, depois que um de seus colegas m ais am istosos, um garoto sério, de rosto angelical, o fez sentar-se e escutar The freewheelin’ Bob Dylan , ele se tornou um adm irador ardoroso de Dy lan; m as era, no fundo, um conform ista.

Entretanto, praticam ente no m om ento em que pisou na Rugby ele se rebelou. A escola fazia questão de que todos os alunos se inscrevessem na Com bined Cadet Force, a ccf, e, nas tardes de quarta-feira, com uniform es m ilitares cáqui, praticassem exercícios m ilitares na lam a. Ele não era o tipo de garoto que achava que tal coisa pudesse ser divertida — na verdade, via aquilo com o um a espécie de tortura — e na prim eira sem ana de sua carreira escolar procurou seu chefe de disciplina, o dr. George Dazeley, um suj eito am ável com traços de cientista louco, com um sorriso resplandecente m as sem alegria, para lhe explicar que não queria participar da ccf. O dr. Dazeley em pertigou-se, faiscou e observou, num tom m eio gélido, que os alunos não tinham o direito de optar por não participar. De repente, tom ado de desusada obstinação, o garoto de Bom baim retesou-se. “Senhor”, disse, “a geração de m eus pais travou recentem ente um a guerra de libertação contra o Im pério Britânico, e por isso não posso concordar, de m odo algum , em fazer parte das forças arm adas do im pério.” Essa inesperada explosão de em oção pós-colonial im pressionou o dr. Dazeley, que a contragosto cedeu e disse: “Ah, m uito bem , nesse caso é m elhor você ficar em seu estúdio e estudar”. Quando o j ovem obj etor de consciência saía de sua sala, Dazeley apontou para um quadro na parede. “Esse é o m aj or William Hodson”, disse. “Hodson de Hodson’s Horse. Foi um rapaz da Bradley .” William Hodson tinha sido o oficial inglês de cavalaria que, depois da repressão do Levante Indiano de 1857 (na Rugby, o episódio era cham ado de “Motim Indiano”), capturou o últim o im perador m ogol, o poeta Bahadur Xá Zafar, e assassinou seus três filhos, despindo-os, m atando-os a tiros, despoj ando-os de suas j oias e atirando seus corpos no chão, j unto a um dos portões de Delhi, que a partir de então passou a ser cham ado de Khooni Darvaza, a porta de sangue. O fato de esse Hodson ter residido na Bradley House fez com que o j ovem rebelde indiano ficasse ainda m ais inflado de orgulho por ter se recusado a fazer parte do Exército em que servira o carrasco dos príncipes m ogóis. O dr. Dazeley acrescentou, vagam ente, e talvez incorretam ente, que, segundo acreditava, Hodson fora um dos m odelos do personagem Flashm an, o valentão da escola no rom ance Tom Crown’s schooldays, de Thom as Hughes, am bientado na Rugby. Havia um a estátua de Hughes no gram ado diante da biblioteca da escola, m as ali na Bradley House o veterano hom enageado era a suposta versão original, na vida real, do m ais fam oso valentão da literatura inglesa. Isso parecia bem cabível.

As lições que se aprendem na escola nem sem pre são aquelas que a escola j ulga estar ensinando.

Durante os quatro anos seguintes, ele passou as tardes de quarta-feira lendo rom ances de ficção científica de sobrecapa am arela, que pegava na biblioteca da cidade, com endo sanduíches de salada de ovos e batatas fritas, bebendo Coca-Cola e escutando o program a Two-Way Family Favorites no radinho transistor. Tornou-se um especialista na cham ada era de ouro da ficção científica, devorando obras-prim as com o Eu, robô, de Isaac Asim ov, que expõe as Três Leis da Robótica; Os três estigmas de Palmer Eldritch, de Philip K. Dick; a série Pilgrimage, de Zenna Henderson; as fantasias desvairadas de L. Sprague de Cam p, e, acim a de tudo, o inesquecível conto “Os nove trilhões de nom es de Deus”, de Arthur C. Clarke, que narra o sereno fim do m undo assim que o obj etivo secreto de um grupo de m onges budistas, a listagem de todos os nom es de Deus, é alcançado com a aj uda de um supercom putador. (Tal com o o pai, ele era fascinado por Deus, m esm o que a religião pouco o atraísse.) Esse m ergulho na fantasia, sustentado a sanduíches de lanchonetes, durante quatro anos e m eio, pode não ter sido a m aior revolução da história, m as, toda vez que ele via os colegas voltarem correndo de seus j ogos de guerra, exaustos, enlam eados e m achucados, passava por sua cabeça que defender seus próprios interesses às vezes podia valer a pena.

Com relação a Deus: a intensa aversão dele pela arquitetura da capela da Rugby extirpou de seu espírito os últim os resíduos de fé. Muitos anos depois, quando por acaso ele passou pela cidade, ficou chocado ao descobrir que o edifício neogótico de Herbert Butterfield era, na verdade, belíssim o. Quando m enino, achava-o m edonho e concluíra, naquela época de dedicação à ficção científica, que ele lem brava dem ais um foguete espacial pronto para decolar; e certo dia, quando o fitava pela j anela de um a sala do Prédio Novo, durante um a aula de latim , ocorreu-lhe um a questão. “Que tipo de Deus”, pensou, “m oraria num a casa feia com o aquela?” Num instante, a resposta se apresentou: obviam ente, nenhum Deus que se prezasse m oraria ali — na verdade, era óbvio, Deus não existia, nem m esm o um Deus de m au gosto arquitetônico. No fim da aula de latim , ele era um ateu em pedernido, e para provar isso cam inhou, resoluto, até a cantina da escola, durante o intervalo entre duas aulas, e com prou um sanduíche de presunto. A carne de porco passou por seus lábios naquele dia, e o fato de o Todo-Poderoso não prostrá-lo com um raio provou-lhe o que ele j á desconfiava havia m uito tem po: que não havia ninguém lá em cim a com raios para arrem essar.

Num certo período, j untam ente com os dem ais alunos, ele ensaiou o “Coro do Aleluia”, no interior da capela, com o parte de um a apresentação da íntegra do Messias com solistas profissionais. Participava das m atinas e das vésperas, pois, tendo estudado na Cathedral School em Bom baim , não tinha argum entos para fugir à obrigação de m astigar orações cristãs. E não podia negar que gostava dos hinos, cuj a m úsica fazia voar seu coração. Nem todos os hinos. Por exem plo, ele não precisava contemplar a excelsa cruz/ em que o príncipe da glória pereceu; m as um m enino solitário não podia deixar de se em ocionar ao cantar Nesta noite escura estou longe dos meus/ Segura-me a mão, Senhor. Gostava de cantar “Adeste fideles”em latim , língua que, por algum m otivo, tirava da letra a ideia de religião: venite, venite in Bethlehem. Gostava de “Com igo habita”, que foi cantado por toda a torcida, um a m ultidão de 100 m il vozes, no estádio de Wem bley, antes da final da Copa da Inglaterra. E tam bém do hino em que ele pensava com o o “hino geográfico” — “Term inou, Senhor, o dia que deste” — e que o enchia de saudade de casa: O sol que agora se põe desperta/ nossos irmãos no Ocidente (aqui ele dizia, m entalm ente, Oriente). A linguagem da descrença era visivelm ente m ais pobre que a da fé. Mas pelo m enos a m úsica dos descrentes estava chegando ao m esm o nível de qualidade das canções dos fiéis, e, à m edida que ele avançava na adolescência e a era de ouro do rock lhe enchia os ouvidos com sonoridades cativantes, com I-can’t-get-no, hard rain, try-to-see-it-my-way e da doo ron ron, até os hinos perderam parte do poder de com ovê-lo. Mas ainda havia coisas na capela da Rugby capazes de tocar o coração de um descrente livresco: as hom enagens a Matthew Arnold e seus exércitos ignorantes batendo-se à noite, Rupert Brooke m orto por causa de um a picada de m osquito durante um com bate contra um desses exércitos, j azendo em algum canto de um cam po estrangeiro que foi para sem pre a Inglaterra; e, acim a de tudo, a pedra em m em ória de Lewis Carroll, com as silhuetas de Tenniel dançando, nas beiradas do m árm ore preto e branco, um a — “ei-que é?”, um a espécie de “ah-sim !”— quadrilha. “Não quero, não posso, não quero, não posso, não posso dançar tam bém .” Era seu hino privado a si m esm o.

Antes de deixar a Rugby, ele fez um a coisa terrível. Todos os alunos que estavam term inando o curso tinham autorização de realizar um a “venda de estúdio”, que lhes perm itia passar adiante, a m eninos m ais novos e por pequenas quantias, suas m esas, lum inárias e outros pertences usados. Ele afixou um a folha de leilão na parte interna da porta de sua salinha de estudo, estipulou lances iniciais m ódicos para seus obj etos e esperou. Quase todos os obj etos oferecidos nessas vendas eram bastante usados. Ele, porém , tinha sua poltrona verm elha, que fora nova quando o pai a com prara para ele. Um a poltrona que só tivera um dono era um a raridade de alta qualidade e m uito procurada nas vendas de estúdio, e a poltrona verm elha atraiu lances elevados. Por fim , restaram dois licitantes: um de seus “criados”, um certo P. A. F. Reed-Herbert, que era cham ado de “Weed Herbert” — Herbert Maconha —, um suj eitinho de óculos, franzino, que tinha um a certa adoração por ele, e um garoto m ais velho, John Tallon, que, por m orar na Bishop’s Avenue, onde congregavam -se os m ilionários na zona norte de Londres, presum ivelm ente poderia pagar m ais pela poltrona.

Quando os lances escassearam — o m ais alto foi de Reed-Herbert, em torno de cinco libras —, ocorreu-lhe a tal ideia terrível. Pediu secretam ente a John Tallon que desse um lance bastante elevado, coisa de oito libras, e prom eteu-lhe que não exigiria que ele pagasse essa quantia se a sua acabasse sendo a proposta m ais alta. A seguir, na hora do dics, disse a Herbert Maconha, solenem ente, que soubera que o rival rico dele, Tallon, estava disposto a subir ainda m ais seu lance, chegando até, quem sabe, a nada m enos que doze libras. Ele viu o rosto de Herbert Maconha som brear, notou sua expressão de desapontam ento, e partiu para o ataque final. “Mas se você m e oferecer, digam os, dez pilas agora, eu fecho o leilão e declaro que a cadeira foi vendida.” “Isso é um bocado de dinheiro, Rushdie”, disse. “Pense no assunto”, respondeu Rushdie, m agnânim o, “enquanto você faz as orações.”

Term inado o dics, Herbert Maconha m ordeu a isca. O m aquiavélico Rushdie sorriu, tranquilizador. “Excelente decisão, Reed-Herbert.” Ele havia, a sangue-frio, persuadido o garoto a fazer um lance contra si m esm o, dobrando seu próprio lance vencedor. A poltrona verm elha tinha um novo dono. Vej am o poder da oração.

Isso aconteceu na prim avera de 1965. Nove anos e m eio depois, durante a cam panha para as eleições gerais inglesas de outubro de 1974, ele ligou a televisão e ouviu o final do discurso do candidato da Frente Nacional Britânica, de extrem a direita, racista, fascista e raivosam ente anti-im igrantes. O nom e do candidato aparecia na telinha, em baixo. Anthony Reed-Herbert. “Herbert Maconha!”, ele gritou, tom ado de horror. “Meu Deus, criei um nazista!” Num instante, tudo se tornou evidente. Levado pelas artim anhas despudoradas de um im igrante indiano, ateu e conluiado com a elite, a gastar um a quantia bastante elevada, Herbert Maconha alim entara um a raiva surda ao longo de sua infância rasteira e, depois, na vida adulta, não m enos rasteira, para acabar se tornando um político racista, vingando-se assim de todos os estrangeiros, com ou sem poltronas verm elhas caríssim as para vender. (Mas seria aquele o m esm o Herbert Maconha? Era possível que houvesse dois. Não, ele pensou, tinha de ser o pequeno P. A. F., que j á não era pequeno.) Na eleição de 1974, Herbert Maconha recebeu 6% dos votos no distrito de Leiscester East, ao todo 2967 votos. Em agosto de 1977, concorreu de novo, na eleição suplem entar de Birm ingham Lady wood, e ficou em terceiro lugar, na frente do candidato Liberal. Felizm ente, essa foi sua últim a aparição significativa na cena nacional.

Mea culpa, pensou o vendedor da poltrona verm elha. Mea maxima culpa. Na verdadeira história de seu curso secundário haveria sem pre m uita solidão e algum a tristeza. Mas haveria tam bém essa m ancha em seu caráter; esse crim e sem registro, sem expiação.

 

Em seu segundo dia em Cam bridge, ele foi a um a reunião de calouros no King’s College e viu, pela prim eira vez, a m agnífica cúpula brunellesquiana que era a cabeça de Noel Annan. Lorde Annan, reitor do King’s, o grandiloquente hom em -catedral a quem pertencia aquela cúpula, estava diante dele, em toda a sua glória gélida e m elíflua. “Vocês estão aqui”, disse Annan aos calouros reunidos, “por três razões: Intelecto! Intelecto! Intelecto!” Um , dois, três dedos furaram o ar à m edida que ele relacionava as três razões. Mais adiante em sua alocução, ele superou até essa tríplice síntese. “A parte m ais im portante da educação de vocês aqui não se dará nas salas de aula, nas bibliotecas ou nas avaliações”, enunciou. “Ela se realizará quando, j á tarde da noite, vocês se sentarem uns nos quartos dos outros, fertilizando-se m utuam ente.”

Ele havia saído de casa no m eio de um a guerra, o despropositado conflito entre a Índia e o Paquistão de setem bro de 1965. A Caxem ira, o eterno pom o de discórdia, havia desencadeado um a guerra de cinco sem anas em que m orreram quase 7 m il soldados, e no fim da qual a Índia adquiriu m ais 1813000 quilôm etros quadrados de território paquistanês, enquanto o Paquistão se apoderara de 518 m il quilôm etros quadrados de terras indianas, e nada, m enos que nada, havia sido alcançado. (Em Os filhos da meia-noite, as bom bas dessa guerra m ataram a m aior parte da fam ília de Salim .) Durante alguns dias, ele ficou hospedado com parentes distantes em Londres, num quarto sem j anela. Era im possível falar com sua fam ília pelo telefone, e telegram as vindos da Índia, disseram -lhe, estavam levando três sem anas para chegar. Ele não tinha com o saber com o iam os pais e as irm ãs. Tudo o que pôde fazer foi pegar o trem para Cam bridge e torcer pelo m elhor. Chegou ao Market Hostel, do King’s College, em m ás condições físicas, agravadas pelo m edo de que os anos de universidade que tinha diante de si fossem um a repetição do período infeliz que vivera na Rugby. Suplicara ao pai que não o m andasse para Cam bridge, m uito em bora j á houvesse ganhado a vaga. Não queria voltar para a Inglaterra, disse, passar m ais anos de sua vida entre todos aqueles peixes m ortos e inam istosos. Não podia ficar em casa e cursar a faculdade j unto de criaturas de sangue m ais quente? Entretanto, Anis, ex-aluno do King’s, convenceu-o a ir. E depois disse-lhe que ele precisava m udar sua área de estudos. Não tinha cabim ento desperdiçar três anos num a coisa inútil com o história. Ele precisava dizer à faculdade que queria m udar para econom ia. Seguiu-se até um a am eaça: se ele não fizesse isso, Anis não pagaria as m ensalidades.

Sobrecarregado por três m edos — j ovens ingleses inam istosos, a obrigação de estudar econom ia e a guerra —, ele descobriu, em seu prim eiro dia no King’s, que não conseguia sair da cam a. O corpo pesava m ais que de costum e, com o se a própria gravidade o tentasse reter, e ele fez que não ouviu várias batidas na porta do quarto, decorado num estilo escandinavo m oderno. (Naquele ano tinha sido lançado o lp Rubber Soul, dos Beatles, e ele passou grande parte dele cantarolando “Norwegian Wood”.) Mas, ao anoitecer, um a série de batidas particularm ente insistentes o obrigou a sair da cam a. Na porta, com um largo sorriso de Eton e a cabeleira loira e ondulada de Rupert Brooke, estava a figura alta e sem pre am istosa de “Jan Pilkington-Miksa... Sou m eio polonês, sabe”, o acolhedor anj o no portal do futuro, que carregou o indiano num a m aré de ruidosa j ovialidade para sua vida nova.

Jan Pilkington-Miksa, a form a m ais platônica de aluno das escolas particulares inglesas, aparentava ser exatam ente igual a todas as criaturas que haviam tornado tão desagradável sua vida na Rugby, m as era o m ais doce dos rapazes, e parecia ter sido enviado com o sinal de que as coisas dessa vez seriam diferentes. E foram m esm o. Cam bridge em grande parte curou as feridas que a Rugby havia infligido, e lhe m ostrou que havia outras Inglaterras, m ais atraentes, em que viver, e nas quais ele poderia sentir-se plenam ente à vontade.

Tanto basta com relação ao prim eiro m edo. Quanto à econom ia, ele foi resgatado por um segundo anj o salvador, o coordenador pedagógico, dr. John Broadbent, professor de literatura inglesa, tão fantástico que com toda certeza poderia ter sido (em bora não fosse) um dos m odelos do supercalm o e ultraperm issivo dr. Howard Kirk, protagonista do rom ance The history man, de Malcolm Bradbury . O dr. Broadbent lhe perguntou, quando ele, tristonho, inform ou que precisava m udar de curso por exigência do pai: “E o que você quer fazer?”. Bem , ele não queria estudar econom ia, obviam ente; tinha um a pequena bolsa em história e queria estudar história. “Deixe isso por m inha conta”, disse o dr. Broadbent, e escreveu a Anis Rushdie um a carta am ável, m as firm e, em que declarava que, no entender da faculdade, seu filho Salm an não estava habilitado a estudar econom ia e que, se ele continuasse a insistir nisso, seria m elhor tirá-lo da universidade, a fim de dar lugar a outra pessoa. Anis Rushdie nunca m ais tocou no assunto.

Continuar: parte 2 de 4