Joseph Anton: Memórias
5. “Estive embaixo tanto tempo que para mim parece o alto”
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
5. “Estive em baixo tanto tem po
que para m im parece o alto”
Era o aniversário de Elizabeth, e ele estava preparando um j antar indiano para ela. Gillon, Bill, Pauline e Jane Wellesley viriam a Wim bledon para esse j antarzinho de com em oração. Ele queria que aquela fosse um a noite especial. Ela estava lhe dando tanto, e ele só podia retribuir com pouquíssim o, m as ao m enos podia preparar aquele j antar. Ele não contou a ninguém o que Greenup lhe dissera. Haveria oportunidade para isso em outro dia. Aquele, 9 de j aneiro, era para a m ulher que ele am ava. Fazia cinco m eses que estavam j untos.
Depois do aniversário de Elizabeth, ele caiu doente. Teve febre alta durante vários dias e ficou de cam a. Deitado ali, quente e trêm ulo, as notícias, tanto as privadas quanto as públicas, pareciam ser um aspecto de sua doença. Susan, assistente de Andrew, tinha falado com Marianne, que disse que estava bem , com o sem dúvida estava, m as ele não podia dar atenção a isso agora. A polícia estava lhe dizendo que, devido à “am eaça específica”, suas atividades teriam de ser restringidas ainda m ais. Ele fora convidado a ir a diversos program as de tv, com o Wogan e Question Time, m as isso não seria permitido. Fora convidado a falar para um grupo da Câm ara dos Com uns, m as a polícia não quis levá-lo ao palácio de Westm inster. Algum as reuniões noturnas em casa de am igos seriam perm itidas, porém nada m ais. Ele sabia que, norm alm ente, se recusaria a aceitar isso, m as estava m al dem ais para discutir. Tarde da noite, deitado na cam a com febre, a tv lhe inform ou sobre o com eço da Guerra do Golfo, o gigantesco ataque aéreo ao Iraque. Depois o Iraque passou a atacar Israel com m ísseis Scud, que, por m ilagre, não m ataram ninguém e, por felicidade, não estavam equipados com ogivas quím icas. Ele passava os dias num sem idelírio de sono, febre e im agens de bom bardeios de precisão. Havia telefonem as, alguns atendidos, outros não, m uitos sonhos ruins e, sobretudo, sua contínua angústia por ter declarado que tinha “se tornado m uçulm ano”. Sam een estava encontrando m uita dificuldade para engolir aquilo, e algum as ligações eram dela. Durante dois anos ele percorrera um a estrada rum o ao coração das trevas, e agora estava lá, no inferno. Ele deixara perplexos todos os seus am igos e se forçara a sorrir ao lado de gente que o havia caluniado e am eaçado outras pessoas, hom ens que haviam concordado com a am eaça de m orte feita pelo Irã, a am eaça que Iqbal Sacranie, por exem plo, havia cham ado de “seu castigo divino”. O “intelectual” Tariq Modood enviou-lhe um a carta em que dizia que ele não deveria m ais falar sobre a fatwa. “Os m uçulm anos consideram isso repulsivo”, disse Modood. Com o o Ocidente usara a fatwa para dem onizar os m uçulm anos, era “repulsivo” que ele continuasse a se opor a ela. Esse Modood apresentava-se com o um m oderado, m as tal hipocrisia tornava im possível para ele pensar em linha reta. E essas eram as pessoas que ele não podia m ais contestar porque cortara a própria língua. Outro “m oderado”, Akbar Ahm ed, telefonou para dizer que os “linhas-duras” podiam estar aos poucos m udando de atitude, m as que ele deveria ser “m uito conciliador”, um “m uçulm ano sadha [com um ]”. Ele respondeu que o volum e de m erda que estava disposto a engolir era m uito lim itado.
Caro Deus,
Se Você existe, e se é como O descrevem — onisciente, onipresente e, acima de tudo, onipotente —, com certeza não irá tremer em seu assento celestial ao ser confrontado por um simples livro e seu escrevinhador, não é? Os grandes filósofos muçulmanos com frequência discordam em relação à Sua relação precisa com os homens e os atos humanos. Ibn Sina (Avicena) argumentava que Você, por estar muito acima do mundo, limitava-se a tomar conhecimento dele em termos muito gerais e abstratos. Ghazali discordava. Qualquer Deus “aceitável ao islã” conheceria em minúcias tudo o que acontecesse sobre a superfície da terra e teria uma opinião a respeito. Bem, Ibn Rushd não aceitava isso, como Você há de saber se Ghazali estivesse certo (e não saberá se quem tivesse razão fosse Ibn Sina ou Ibn Rushd). Para Ibn Rushd, a opinião de Ghazali tornava Você muito parecido com os homens — com os homens com suas discussões tolas, suas dissensões mesquinhas, seus pontos de vista triviais. Imiscuir-se nos assuntos humanos estaria abaixo de Você, e O diminuiria. Por isso, é difícil saber o que pensar. Se Você é o Deus de Ibn Sina e Ibn Rushd, nesse caso nem sabe o que está sendo dito e feito neste exato momento em seu nome. No entanto, se Você é o Deus de Ghazali, e lê os jornais, vê a TV e toma partido em disputas políticas e até literárias, não acreditoque pudesse fazer objeções a Os versos satânicos, ou a qualquer outro livro, por mais ignóbil que fosse. Que espécie de Todo-Poderoso poderia se deixar abalar pela obra de um Homem? Ao contrário, Deus, se porventura Ibn Sina, Ghazali e Ibn Rushd estivessem todos errados e Você não existisse, também, nesse caso, Você não teria problemas com escritores e com livros. Chego à conclusão de que minhas dificuldades não são com você, Deus, mas com Seus servos e seguidores no mundo. Uma famosa romancista me disse, certa vez, que tinha parado de escrever ficção durante algum tempo porque não gostava de seus admiradores. Fico a me perguntar se Você compreende a posição dela. Obrigado por Sua atenção (a menos que não esteja prestando atenção: Veja acima).
O fato de ele ter “se tornado m uçulm ano” induziu algum as pessoas no Foreign Office a propor que ele falasse em favor de um terrorista. Ele recebeu um a m ensagem sugerindo que poderia intervir de form a útil no j ulgam ento de Mehrdad Kokabi, um “estudante” acusado de incêndio crim inoso e de provocar explosões em livrarias que vendiam Os versos satânicos. A acusação declarou que suas im pressões digitais tinham sido encontradas no papel que em brulhava duas bom bas fabricadas com pedaços de cano, e que ele usara seu cartão de crédito para alugar carros usados nos atentados. Talvez, deram -lhe a entender, seria sim pático que o autor de Os versos satânicos recom endasse clem ência nesse processo. Furioso com essa sugestão, ele falou com Duncan Slater e com David Gore-Booth. Am bos discordavam da ideia. Isso foi, de certa form a, um consolo, m as, dois m eses depois, todas as acusações contra Kokabi foram subitam ente retiradas, com a recom endação de que ele fosse deportado para o Irã. O governo negou que tivesse torcido o braço de um a Justiça cega. Slater e Gore-Booth disseram que nada sabiam a respeito. Kokabi voltou para o Irã, onde teve um a recepção de herói e ganhou um novo em prego. Ficou incum bido de escolher “estudantes” que receberiam m issões no exterior.
Chegaram as provas de sua coletânea de ensaios, Imaginary homelands. Bill disse: “Agora que você tom ou essa atitude, talvez devêssem os incluir seu ensaio no livro”. Ele publicara no The Times um texto em que procurava j ustificar as concessões que fizera em Paddington Green. Odiava esse artigo, j á repensava tudo o que tinha feito, m as, com o pendurara a m ó em torno do pescoço, estava, pelo m enos por ora, im possibilitado de retirá-la. Concordou com Bill, e o ensaio entrou no livro com o título de “Por que sou m uçulm ano”. Durante o resto da vida, nunca veria um exem plar de Imaginary homelands em capa dura sem sentir um a pontada de vergonha e arrependim ento.
A guerra ocupava os pensam entos de todos, e, quando não estavam repetindo que ele deveria “retirar o insulto” (cessar a publicação de Os versos satânicos), os “líderes” m uçulm anos britânicos — Siddiqui, Sacranie, os m ulás de Bradford — prestavam solidariedade a Saddam Hussein. Aproxim ava-se o segundo aniversário da fatwa, e o inverno era duro e gelado. A escritora Fay Weldon lhe enviara um exem plar de Sobre a liberdade, de John Stuart Mill, talvez com o um a repreensão, m as suas palavras claras e fortes foram para ele inspiradoras com o sem pre. Renascera seu desdém pelos m ais obstinados de seus adversários — por Shabbir Akhtar e seus ataques à inexistente “inquisição liberal” e seu orgulho pelo islã com o um a religião de “ira m ilitante” —, j untam ente com um a nova aversão a alguns de seus supostos partidários, que agora acreditavam que ele não m erecia apoio. O poeta e crítico literário Jam es Fenton escreveu um artigo solidário em The New York Review of Books, defendendo-o do fenôm eno dos “Am igos Consternados”. Se o “Salm an de sonhos” que existia na cabeça das pessoas tinha sido prej udicado pelas ações do Salm an real, esses Consternados agora com eçavam a achar que, puf!, ao diabo com ele, que não m erecia am izade. Estavam abrindo a porta para os assassinos.
Ele vinha se lem brando ultim am ente de algo que Günter Grass lhe dissera um a vez sobre as derrotas: que elas nos ensinavam lições m ais profundas do que as vitórias. Os vencedores acreditavam que eles m esm os e sua visão de m undo eram j ustificados e confirm ados, e nada aprendiam . Os derrotados precisavam reavaliar tudo o que j ulgavam antes ser verdadeiro e digno de luta, e com isso tinham um a oportunidade de aprender, pelo cam inho difícil, as lições m ais profundas que a vida tinha a ensinar. A prim eira coisa que ele aprendeu foi que agora ele sabia onde ficava o fundo. Quando um a pessoa chegava ao fundo, sabia qual era realm ente a profundidade da água em que estava. E aprendia que nunca m ais ia querer estar ali de novo.
Ele estava com eçando a aprender a lição que o libertaria: que estar aprisionado pela necessidade de ser am ado era com o estar fechado num a cela em que se era subm etido a um torm ento sem fim e da qual não havia fuga possível. Ele precisava entender que havia pessoas que nunca o am ariam . Por m aior que fosse o cuidado com que explicasse sua obra ou esclarecesse suas intenções ao criá-la, elas não o am ariam . A m ente irracional, im pulsionada pelos absolutos da fé, isentos de dúvidas, não podia ser convencida pela razão. Aqueles que o dem onizavam j am ais diriam : “Ah, vej am : afinal de contas, ele não é um dem ônio”. Ele precisava com preender que era assim mesmo. Ele tam bém não gostava dessas pessoas. Desde que se sentisse seguro em relação ao que tinha escrito e dito, desde que se sentisse bem em relação a seu trabalho e a suas posições públicas, suportaria que não gostassem dele. Ele tinha feito algo que o levara a sentir-se m uito m al em relação a si m esm o. Iria consertar isso.
Estava descobrindo que, para vencer um a luta com o aquela, não bastava a pessoa saber contra o que estava lutando. Isso era fácil. Ele estava lutando contra o ponto de vista de que pessoas pudessem ser m ortas por causa de suas ideias e contra o poder de qualquer religião de im por lim ites ao pensam ento. Agora, porém , ele precisava estar seguro em relação a outra coisa: ele estava lutando a favor do quê? Pela liberdade de expressão, pela liberdade da im aginação, por não precisar ter m edo, pela bela e antiga arte que ele tinha o privilégio de exercer. E tam bém a favor do ceticism o, da irreverência, da dúvida, da sátira, da com édia, da alegria profana. Ele nunca m ais se acovardaria na defesa desses valores. Ele fizera a si m esm o um a pergunta: Já que você está travando uma batalha que pode lhe custar a vida, aquilo por que está lutando vale sua vida? E j ulgara possível responder: sim. Estava disposto a m orrer, se necessário fosse, por aquilo que a editora Carm en Callil cham ara de “um puta livro”.
Nenhum de seus verdadeiros am igos reagiu com o os Consternados. Chegaram -se a ele m ais do que nunca e procuraram aj udá-lo a vencer o que percebiam ser um traum a profundo da m ente e do espírito: um a crise existencial. Anthony Barnett ligou, m uito preocupado: “Precisam os criar para você um grupo de am igos e conselheiros”, disse. “Você não pode passar por isso sozinho.” Ele explicou a Anthony que, para ser franco, havia m entido ao fazer sua afirm ação de crença religiosa. Disse a Anthony : “Quando escrevi os Versos, eu estava dizendo: Temos de ser capazes de falar assim sobre religião, devemos ser livres para criticar e historicizar”. E, se agora ele tinha de fingir que com nós ele queria dizer apenas nós, muçulmanos, então estava preso a isso. Por ora. Esse era o preço do que tinha feito.
“É exatam ente contra esse tipo de declaração errônea e bem -intencionada”, disse Anthony , “que seus am igos precisam aconselhar você.”
Ele precisava se refugiar em algum lugar para pensar. Pediu para passar um breve período de férias na França, sem publicidade, m as os franceses não o quiseram em seu solo. Os am ericanos ainda relutavam em tê-lo no deles. Não havia com o sair da j aula. Contudo, houve um a boa notícia. A polícia achava agora que a “am eaça específica” contra ele fora falsa. O sr. Greenup o visitou para lhe dizer isso, para avisar que o perigo ainda era alto — “elem entos apoiados pelo Irã ainda estão ativam ente à sua procura” —, e tam bém para lhe insuflar um pouco de ânim o. Ele podia com eçar a procurar um a residência perm anente. “Talvez daqui a alguns m eses a gente possa fazer um a avaliação m ais otim ista.” Isso realm ente lhe fez bem à alm a.
Gillon telefonou em 15 de fevereiro. A fatwa tinha sido renovada. O governo britânico se m anteve em silêncio.
Bill Buford e Alicj a tinham resolvido se casar, e Bill o convidou para ser seu padrinho. A recepção seria no restaurante Midsum m er House, no Midsum m er Com m on, em Cam bridge. Phil Pitt foi lá para “dar um a sondada” e, sem falar com Bill ou com o proprietário, Hans, declarou o lugar inadequado. Pela prim eira vez ele perdeu a calm a com a polícia e disse que não cabia a ela decidir se ele podia ou não ser padrinho do am igo em seu casam ento. Assim , Phil foi falar com Bill e descobriu que recebera inform ações erradas — outro horário, outro salão —, e, de um a hora para outra, o local era adequado. “Nós som os os especialistas, Joe”, disse ele. “Confie em nós.”
Thom asina, irm ã de Nigella, estava com câncer de m am a. Foi subm etida a um a cirurgia im ediatam ente. Um quarto da m am a foi retirado. Depois ela passaria por radioterapia. Ele ouviu Marianne dizer na bbc Radio Four que o am ava, m as que ele estava tão obcecado com “a situação” que não havia espaço para ninguém m ais, e que essa fora a razão de terem se separado. Ela falava de si própria com o “esta m ulher brilhante”. Perguntada com o estava sua vida, ela respondeu com um verso de um a m úsica de sucesso: “Vou dando um j eito enquanto vou levando”.
A fatwa estava prej udicando tam bém a vida de outras pessoas. Paddy Heazell, diretor da Hall School, estava preocupado com Zafar. “É com o se houvesse um a parede em torno dele. Nada a atravessa.” Um a consulta ao psiquiatra, no Great Orm ond Street Hospital, talvez fosse um a boa ideia. Era um garoto adorável e inteligente, m as algum a coisa dentro dele parecia adorm ecida. Ele se achava trancado em si m esm o e se j ulgava um “fracassado”. Ficou acertado que um a psiquiatra especializada em crianças veria Zafar um a vez por sem ana, depois da aula. Entretanto, o sr. Heazell se m ostrou seguro quanto às possibilidades de Zafar ir para a escola secundária que seus pais preferiam , a Highgate, pois ela dava m uito valor à entrevista de candidatos, em vez de basear-se apenas nos resultados dos exam es de adm issão. “Zafar sem pre se sairá bem num a entrevista”, disse o sr. Heazell, frisando porém que era preciso tirá-lo da situação som bria em que estava. “Ele está dentro de um a caixa”, disse o sr. Heazell a Clarissa, “e não quer sair.” Naquele fim de sem ana, Clarissa deu a Zafar um cachorro, um m estiço de red setter e border collie, cham ado Bruno. O anim al foi im portantíssim o, e aj udou. Zafar ficou radiante.
Ele tinha parado de fum ar de novo, m as sua força de vontade estava para ser posta à prova. Com unicaram -lhe novas precauções de segurança. Já fazia algum tem po que um m em bro da equipe vinha pegando sua correspondência no escritório de Gillon ou levando para lá cartas a serem postadas, m as agora a Divisão Especial queria que isso voltasse a ser feito por interm édio da Scotland Yard, devido ao alto risco envolvido em seu transporte direto da agência a Wim bledon. Além disso, estavam inserindo em seu telefone um “duplo desvio de cham ada”, a fim de dificultar o rastream ento de ligações. A sensação era de que a tam pa estava sendo apertada com m ais força ainda, m as ele não sabia por quê. O sr. Greenup procurou-o para explicar. Um a “equipe de profissionais” tinha sido contratada para m atá-lo. A recom pensa prom etida se tornara um a quantia elevada. A pessoa por trás desse plano era “um funcionário do governo iraniano fora do Irã”. A polícia britânica não sabia com segurança se isso era um plano com aprovação oficial ou um a operação independente, m as estava preocupada devido à extrem a confiança dos pistoleiros, que tinham se com prom etido a executar o assassinato dentro de quatro a seis m eses. “Na verdade, eles acreditam que poderão m atá-lo em m enos de cem dias.” A Divisão Especial não acreditava que a casa de Wim bledon tivesse “caído”, m as em vista das circunstâncias era preferível que ele se m udasse quase im ediatam ente. Zafar era um “problem a” e seria necessário pô-lo sob vigilância policial. Elizabeth tam bém era um “problem a”. Talvez viesse a ser necessário transferir o protegido para um a base m ilitar, onde m oraria num a caserna, durante o próxim o sem estre. Se ele preferisse ir para um a casa do Serviço de Segurança, teria de viver trancado ali, sem nenhum contato com o m undo exterior. Contudo, isso não m udava o acordo segundo o qual ele podia com eçar a procurar um endereço perm anente. Um a vez passados os próxim os m eses, isso seria aceitável.
Ele recusou a base m ilitar e a casa segura. Se a casa de Wim bledon não estava com prom etida, não havia razão para não ficar ali. Por que ele perderia m eses de aluguel e recom eçaria a ir de um lado para outro se não achavam que a casa tinha “caído”? Com o de hábito, o rosto do sr. Greenup não m udou de expressão. “Se o senhor quiser viver”, disse, “vai se m udar.”
“Papai”, perguntou Zafar ao telefone, “quando é que vam os ter um lugar definitivo para m orar?”
Se ele vivesse para contar a história, pensou, que história de am izades intensas seria aquela! Sem os am igos, estaria trancafiado num a base do Exército, incom unicável, esquecido, em m archa batida para a loucura; ou seria um nôm ade errante, à espera de que a bala do assassino o achasse. Dessa vez, o am igo que o salvou foi Jam es Fenton. “Pode usar esta casa”, disse ele assim que foi contatado, “durante um m ês, ao m enos.”
Depois de um a vida acidentada, em que saltou para cim a do prim eiro tanque do Vietcong que entrou em Saigon no fim da Guerra do Vietnã, j untou-se às m ultidões que saqueavam o palácio de Malacañang para com em orar a queda de Ferdinand Marcos e de Im elda dos Sapatos (ele pegou algum as toalhas com m onogram a), investiu num criatório de cam arões, nas Filipinas, parte do dinheiro que ganhou escrevendo as letras nunca usadas nas canções da produção original d e Les misérables, e em que viaj ou de form a m eio traum ática para Bornéu com o escritor Redm ond O’Hanlon, criatura m ais aventureira ainda (quando O’Hanlon m ais tarde convidou Fenton a acom panhá-lo à Am azônia, Jam es respondeu: “Eu não iria com você nem a High Wy com be”) — ah, sim , e em que com pôs alguns dos m elhores poem as de am or e de guerra escritos na sua e em qualquer outra geração —, o poeta Fenton e seu com panheiro, o escritor am ericano Darry l Pinckney, haviam se instalado em Long Ley s Farm , um a confortável propriedade cam pestre em Cum nor, j unto de Oxford, e ali Jam es se entregara à tarefa de criar o m ais requintado dos j ardins form ais, sob a som bra im ensa de um a im ponente torre de transm issão de eletricidade. Era essa a residência que ele agora oferecia a seu am igo fugitivo, cuj o recente Erro Pavoroso ele tratara por escrito com delicadeza e cortesia, contando que, ao ser divulgada a notícia do Erro,
entre 6 m ilhões e 60 m ilhões de leitores de j ornais em todo o m undo depuseram a xícara
de café e exclam aram : Oh! No entanto, cada Oh! pronunciado tinha seu próprio sabor
especial, seu próprio adj etivo ou advérbio, seu próprio m atiz de significado. [...] Oh!, quer
dizer que por fim o pegaram , Oh!, que derrota para o secularism o, Oh!, que vergonha,
Oh!, Alá sej a louvado. Quanto a m im , o Oh! que escapou de m eus lábios com eçou sua
vida com o um a nuvenzinha de assom bro cor de cerej a. Durante alguns segundos, j ulguei
detectar naquela nuvem , que pairava no ar, os traços angulosos de Galileu. Olhei de novo,
e Galileu parecia ter se transform ado em Patty Hearst. Pensei na síndrom e de Oslo..., de
Oslo, não, de Estocolm o.
O restante de seu longo artigo, ostensivam ente um a recensão de Haroun e o mar de histórias para a The New York Review of Books, fazia um perfil do autor com o um bom hom em — ou pelo m enos com o um a pessoa com quem era bom conversar —, cuj a finalidade não declarada era restaurar, com a m áxim a gentileza e sem alarde, a boa im agem desse autor aos olhos dos Am igos Consternados. Aquele artigo j á fora um a prova cabal do grande coração de Jam es Fenton. Deixar sua casa para o am igo provava outra coisa: sua percepção da im portância da solidariedade no m eio de um a guerra. Não se abandonam os am igos que estão debaixo de fogo.
O sr. Greenup consentiu, relutante, que ele se m udasse para Long Ley s Farm . O “sr. Anton” suspeitava que o policial gostaria m uito de trancá-lo num a base m ilitar para castigá-lo pela confusão que causara e pela despesa pública que estava gerando, m as em vez disso o cirquinho da Operação Malaquita teve de fazer as m alas e trocar Londres sw 19 pelos j ardins form ais de Cum nor sob a torre guardiã, que se escarranchava com o um colosso sobre aquele m undinho.
Ele via que Elizabeth estava angustiada. A tensão dos últim os tem pos vinha em panando o brilho de seu sorriso. A im agem de um esquadrão da m orte tão confiante em seu sucesso que se dispunha a definir um a data para seu obj etivo teria levado m uitas m ulheres a sair correndo, alegando “Sinto m uito, m as essa briga não é m inha”. Mas Elizabeth tudo enfrentou bravam ente. Continuou a trabalhar na Bloom sbury, visitando-o nos fins de sem ana. Na verdade, estava pensando em deixar o em prego, para não ficarem separados, e porque desej ava escrever. Tam bém era poetisa, em bora relutasse em m ostrar seu trabalho. Mas ele leu um poem a dela sobre um hom em num m onociclo, que achou m uito bom .
Ele se m udou para Cum nor e durante algum tem po foi im possível ver Zafar ou visitar am igos em Londres. Estava tentando concentrar a m ente num novo rom ance que tinha o título provisório de O último suspiro do mouro, m as seus pensam entos se desordenavam e ele enveredou por um a série de becos sem saída. Seu instinto lhe dizia que o rom ance com binaria a história de um a fam ília indiana com a narrativa andaluza da queda de Granada, do últim o sultão, Boabdil, deixando a Alham bra e, com o disse a m ãe, desdenhosa, “chorando com o um a m ulher a perda do que não soube defender com o hom em ”, enquanto contem plava o sol se pôr no últim o dia da Espanha árabe, m as ele não conseguia achar a ligação. Lem brava-se de Mij as, para onde em igrara a m ãe de Clarissa, Lavinia, e o livro de Ronald Fraser que ele descobrira lá, sobre a vida de Manuel Cortés, prefeito de Mij as quando rebentou a guerra civil espanhola. Depois da guerra, Cortés voltara para casa e tivera de se esconder de Franco durante trinta anos, até em ergir, com o Rip van Winkle, para assistir à devastação da Costa del Sol, decorrente da urbanização im pensada, im posta pelo turism o. O livro se cham ava In hiding [Escondido].
Ele se lem brou de Picasso e escreveu um estranho parágrafo sobre o bairro de Málaga onde o grande artista nascera. Na praça, brincam crianças, crianças com os dois olhos no mesmo lado do nariz. Brincam de Arlequim e Pierrô. Uma bomba semelhante a uma lâmpada incandescente despedaça um cavalo, que grita. Jornais grudam em violões negros. Mulheres transformam-se em flores. Há frutas. A tarde é quente. O artista morre. Fazem para ele um caixão assimétrico, uma colagem de céu e de material impresso. Ele bebe em seu próprio funeral. Suas mulheres sorriem, cospem e levam seu dinheiro.
Esse pintor não entrou no rom ance, m as por fim veio o entendim ento: seria um rom ance sobre pintores, e a Alham bra da Andaluzia seria pintada por um a indiana em pé no alto de Malabar Hill, em Bom baim . Os dois m undos se j untariam na arte.
Ele encheu um caderno com um relato beckettiano, ou talvez kafkiano, em prim eira pessoa, escrito por um hom em que era m antido num côm odo sem luz por captores desconhecidos que entravam no quarto às escuras todos os dias para espancá-lo. Não era isso que ele queria escrever, m as essas passagens sobre surras não paravam de vir. Um belo dia, sobreveio um a luzinha e ele escreveu um parágrafo côm ico no qual o narrador tentava descrever a prim eira relação sexual de seus pais, m as constrangido dem ais para usar verbos: e assim você não vai saber de mim, ele escreveu, os detalhes picantes do que aconteceu quando ela, e depois ele, e depois eles, e depois disso ela, ao que ele, e em resposta a isso ela, e com aquilo, e além disso, e durante um tempo, e a seguir por muito tempo, e em silêncio, e ruidosamente, e no fim da resistência, e por fim, e depois disso [...]. Esse trecho acabaria entrando no livro pronto. A m aior parte do restante era lixo.
Valerie Herr passou um susto, com o m edo de estar com um câncer, m as a biópsia revelou que o tum or era benigno. Graça a Deus, Jim, ele pensou. Angela Carter teve m enos sorte. O câncer a dom inou, e, em bora lutasse arduam ente, ela não o derrotou. Em todo o m undo, grandes escritores estavam m orrendo cedo: Italo Calvino, Ray m ond Carver, e agora ali estava Angela lutando com a Parca. Um a fatwa não era o único m eio de m orrer. Havia sentenças de m orte m ais antigas que ainda funcionavam m uito bem .
Edições em brochura de Os versos satânicos foram lançadas na Holanda, na Dinam arca e na Alem anha. Realizou-se no Irã um conclave de letrados m uçulm anos que exigiram o cum prim ento im ediato da ordem de m orte de Khom eini. A Fundação 15 Khordad, organização quase não governam ental liderada pelo aiatolá Hassan Sanei que estava por trás das recom pensas oferecidas pela execução, anunciou que pagaria 2 m ilhões de dólares a qualquer am igo, parente ou vizinho do escritor que executasse a am eaça. (As bonyads, ou fundações, tinham sido, originalm ente, fundos fiduciários beneficentes que, depois da revolução de Khom eini, usaram os bens confiscados ao xá e a outros “inim igos do Estado” para se tornar gigantescos consórcios com erciais liderados por altos clérigos.) “São tantos os escritores que vivem duros”, ele disse a Andrew. “Acho que devem os levar isso a sério.”
Não havia notícia do paradeiro do esquadrão da m orte. Fazia cinco m eses que o governo britânico nada dizia sobre a fatwa.
Ele conversou com Bill Buford sobre os problem as de achar e adquirir um a residência. Bill teve um a ideia lum inosa. Rea Hederm an, editor da The New York Review of Books e da Granta, tinha um funcionário que era um a espécie de factótum pessoal, um sr. Fitzgerald, que todos cham avam de “Fitz”, cuj a eficiência e ar de respeitabilidade, aj udados pelo cabelo grisalho, fariam dele um testa de ferro ideal. Ninguém j am ais suspeitaria que Fitz estivesse envolvido com algo tão esquisito com o o caso Rushdie. Ele perguntou a Hederm an se não haveria m al em envolver Fitz, e ele respondeu prontam ente que não. No entanto, m ais um a vez o círculo de am igos encontrou soluções que as autoridades não podiam ou não queriam oferecer. Fitz com eçou a busca e logo apareceu com um a casa em Highgate, na zona norte de Londres, com pátio de acesso com portão, garagem integrada, espaço suficiente para que os dois agentes de segurança e os dois m otoristas dorm issem , e um j ardim am plo e isolado, que lhe perm itiria sentir-se um pouco m enos com o um a toupeira em sua toca. Ele poderia sair ao ar livre — sair para o sol, ou até para a chuva e a neve. A casa, na Ham pstead Lane, estava disponível para ser alugada, e os proprietários, os Busara, se dispunham a vendê-la tam bém . A polícia a exam inou e a declarou ideal. O contrato de aluguel foi preparado de im ediato, em nom e de Rea Hederm an. Joseph Anton ficou de m olho por enquanto.
Tudo o que im portava era que ele teria um lugar para onde ir. Era fim de m arço. Ele abraçou Jam es e Darry l com gratidão, devolveu-lhes Lang Ley s Farm , e foi com Elizabeth passar o fim de sem ana na fazenda de Deborah Rogers e Michael Berkeley no País de Gales. Era a prim eira vez, em sem anas, que ele tinha a com panhia de am igos. Deb e Michael estavam lá, acolhedores com o sem pre, e Ian McEwan fora com os dois filhos pequenos. Fizeram passeios a pé pelos m orros e com eram lasanha de carne. Na segunda-feira, ele se m udaria para a casa nova. Mas antes havia o dom ingo. Michael saiu de m anhã e trouxe os j ornais. Voltou com ar contrafeito. “Sinto m uito”, disse.“Um a coisa ruim .”
Marianne tinha dado um a entrevista a Tim Ray m ent, do The Sunday Times. Saiu na prim eira página. m ulher de rushdie: ele é obcecado e vaidoso.
A m ulher de Salm an Rushdie o descreveu com o um hom em fraco e obcecado consigo
m esm o, que não fez j us ao papel que a história lhe deu. [...] “Todos nós gostávam os dele,
éram os dedicados a ele, éram os am igos dele e esperávam os que ele tivesse se m ostrado à
altura do que aconteceu. Esse é o segredo que todos estão tentando esconder. Ele não fez
isso. Não é o hom em m ais coraj oso do m undo, m as está disposto a qualquer coisa para
salvar sua vida.”
Havia m ais, m uito m ais. Marianne disse que ele lhe com unicara que pretendia encontrar-se com o coronel Kadhafi, e fora então que ela se dera conta de que “eu não queria ficar casada com ele, de j eito nenhum ”. Curiosam ente, ela agora negava sua afirm ação anterior, de que quando se separaram a Divisão Especial a deixara sozinha num lugarzinho do interior, j unto de um a cabine telefônica. Não, isso não tinha acontecido, m as ela não dizia o que acontecera. Ela o acusava de deixar “m ensagens aos gritos” no telefone, de m anipular a im prensa e de estar desinteressado da questão m aior da liberdade de expressão. Ele só estava preocupado consigo m esm o. “A grande falácia em que ele incorreu foi pensar que ele era a questão. Nunca foi. O que estava em questão era a livre expressão e a sociedade racista da Grã-Bretanha, e ele não se apresentou para falar. Durante os últim os dois anos, ele só falou da carreira de Salm an Rushdie.”
Marianne era um a pessoa articulada, e o ataque foi contundente. Ele entendeu o que ela estava fazendo. Com o as pessoas sabiam que coubera a ele tom ar a iniciativa de acabar com o casam ento, ela calculara que, se o cham asse de fraco, covarde, am igo de Kadhafi e carreirista, se ela pudesse apagar seus anos de envolvim ento em questões de liberdade e livre expressão, com o pen britânico e outros grupos, se pudesse apagar a im agem do j ovem ganhador do Booker Prize que, na m anhã da vitória, desfilara com um cartaz diante da Downing Street para protestar contra a prisão do escritor indonésio Pram oedy a Ananta Toer, ela poderia torná-lo, aos olhos j á indispostos do público, num hom em que não m erecia a com panhia de ninguém , um hom em que qualquer m ulher decente teria de abandonar. Ela estava dizendo sua fala final, vingando-se antes de deixar o palco.
Ele pensou: Eu lhe dei as armas com que ela me golpeia. A culpa não é dela. É minha.
Os am igos dele — Michael Herr, Alan Yentob, Harold Pinter — telefonaram ou escreveram para ela a fim de dem onstrar sua insatisfação e desapontam ento. Ela disse que a entrevista não estava tendo a repercussão que ela esperara, e tentou as desculpas habituais, que suas palavras tinham sido adulteradas, que ela fora “traída” pelo j ornal, que passara a ideia de que ela fizera aquilo para divulgar seu próprio livro de contos, que ela havia desej ado falar sobre o trabalho da Anistia Internacional. E acrescentou que o m arido tinha “arruinado sua carreira”. Esses argum entos não foram bem recebidos.
Imaginary homelands fora publicado e, de m odo geral, tratado com respeito, até adm iração, m as quase todo m undo lam entou o ensaio final sobre sua suposta “conversão”. Nisso estavam certos. Ele pensou: Tenho de desfazer o Erro Pavoroso. Tenho de desdizer o que disse. Até fazer isso, não posso viver com honra. Sou um homem sem religião que finge ser religioso. “Ele está disposto a qualquer coisa para salvar a vida”, diz Marianne. Neste momento, isso parece ser verdade. Tenho de fazer com que seja falso.
Durante toda a vida ele soubera que existia um espacinho fechado, no centro de seu ser, onde ninguém m ais podia entrar, e que todo o seu trabalho e suas m elhores ideias em anavam desse lugar secreto, de um a form a que ele não entendia bem . Agora, a luz radiante da fatwa tinha fulgido através das cortinas daquele pequeno aposento e seu eu secreto ali estava, nu, no clarão. Homem fraco. Não é o homem mais corajoso do mundo. Que assim seja, pensou. Nu, sem artifício, ele resgataria seu bom nom e; e tentaria executar m ais um a vez o truque m ágico da arte. Era ali que estava sua verdadeira salvação.
Era um a casa grande, cheia de m óveis feios, m as que passava um a sensação de solidez, perm anência. Se Zafar entrasse na Highgate School, estaria perto. Elizabeth, que am ava Ham pstead Heath acim a de todas as coisas, sentia-se feliz por m orar em sua área norte. Ele com eçava a ter condições de trabalhar um pouco, e naquele m ês de abril escreveu um conto, “Cristóvão Colom bo e a rainha Isabel da Espanha consum am seu relacionam ento”, seu prim eiro conto em m uito tem po, e a brum a de incom preensão que envolvia O último suspiro do mouro com eçou a se dissipar. Ele anotou nom es. Moraes Zogoiby, conhecido com o Mouro. Sua m ãe, Aurora Zogoiby, era a pintora. A fam ília era de Cochin, onde o Ocidente fizera seu prim eiro contato com o Oriente. Os navios ocidentais vinham não para conquistar, m as para com erciar. Vasco da Gam a estava à procura de pim enta, o Ouro Negro de Malabar. Era interessante a ideia de que toda a com plexa ligação da Europa com a Índia se desenvolvera a partir da pim enta em grão. Seu livro tam bém se desenvolveria a partir da pim enta. Os Zogoiby seriam um a fam ília de negociantes de pim enta. Meio católico e m eio j udeu, um “caj u”, o Mouro seria quase um a “m inoria de um ”. No entanto, o livro procuraria dem onstrar que toda a realidade indiana poderia ter surgido daquele m inúsculo grão de pim enta. A “autenticidade” era algo que não cabia apenas à m aioria, com o a política m aj oritariam ente hindu da Índia com eçava a proclam ar. Todo indiano, todo conto indiano, era tão autêntico quanto qualquer outro.
No entanto, ele tinha seu próprio problem a de autenticidade. Não podia ir à Índia. Com o, então, escrever um livro verdadeiro sobre o país? Lem brou-se do que seu am igo Naruddin Farah lhe contara — Naruddin, cuj o exílio da Som ália durara 22 anos, porque o ditador Moham m ed Siad Barre queria vê-lo m orto. Todos os livros que Naruddin escreveu no exílio tinham com o cenário um a Som ália retratada de form a naturalista. “Eu a guardo aqui”, dissera Naruddin, apontando para o coração.
Em m aio, os dois im ãs de Regent’s Park presentes na reunião de Paddington Green declararam que ele não era um verdadeiro m uçulm ano porque se recusava a tirar seu livro de circulação. Outros “líderes” se disseram “decepcionados” e anunciaram : “Estam os de volta ao ponto de partida”. Ele escreveu um a resposta incisiva e a publicou no The Independent. Com isso sentiu-se bem m elhor. Sentiu-se subir dois ou três dedos acim a do fundo do poço e com eçar a longa j ornada de volta a si m esm o.
A organização Artigo 19 estivera pensando se valia a pena continuar a financiar o trabalho em nom e do Com itê Internacional de Defesa de Rushdie. Frances e Carm el, porém , estavam decididas a levar adiante a iniciativa, e até a elevar o nível da cam panha, tornando-a m ais pública. À m edida que o governo britânico adotava um a atitude de apatia em relação ao assunto, o que incentivava os aliados europeus do Reino Unido a fazer o m esm o, caberia à cam panha de defesa assum ir a luta. Frances levou Harold Pinter, Antonia Fraser e Ronnie Harwood a um a reunião com Douglas Hurd no Foreign Office, onde souberam que, durante a visita feita pela m inistra tóri Ly nda Chalker ao Irã, em abril, ela não levantara a questão da fatwa com ninguém . Fazê-lo, disse Hurd, não seria “necessariam ente útil ao sr. Rushdie”. Boatos de que um “esquadrão da m orte” tinha entrado no país para caçar o sr. Rushdie tinham com eçado a aparecer na im prensa, m as o sr. Hurd estava inflexível, resolvido a aj udar m antendo a boca fechada. Douglas Hogg, que sucedera a William Waldegrave com o vice de Hurd, declarou ainda que seria um grande erro o governo britânico criar m uito barulho em torno da fatwa, e que, adem ais, isso tornaria m ais difícil obter a libertação dos dem ais reféns britânicos no Líbano.
Um m ês depois, ficou claro o fracasso desse tipo de silêncio. Ettore Capriolo, o tradutor de Os versos satânicos para o italiano, recebeu em sua casa a visita de um “iraniano” que, segundo Gillon, m arcara um encontro para discutir “assuntos literários”. Assim que esse hom em entrou na casa de Capriolo, exigiu que ele lhe desse “o endereço de Salm an Rushdie” e, não o obtendo, agrediu o tradutor com violência, chutando-o e esfaqueando-o várias vezes, para depois fugir, deixando Capriolo sangrando no chão. Por m uita sorte, o tradutor sobreviveu.
Quando Gillon lhe deu a notícia, ele não pôde evitar a sensação de que fora ele o responsável pelo ataque. Seus inim igos tinham sido tão hábeis em transferir a culpa para seus om bros que agora até ele acreditava nisso. Escreveu ao sr. Capriolo, lam entando o ocorrido e expressando votos de que sua recuperação fosse plena e rápida. Não recebeu resposta. Mais tarde, soube pela editora italiana que Capriolo não o via com sim patia e se recusava a traduzir qualquer um de seus futuros livros.
Esse episódio representara até então o m áxim o a que a fatwa chegara em relação a seu obj etivo. Mas, depois que a flecha negra atingiu Ettore Capriolo, ela voou para o Japão. Oito dias depois, na Universidade de Tsukuba, a nordeste de Tóquio, o tradutor j aponês de Os versos satânicos , Hitoshi Igarashi, foi encontrado m orto, esfaqueado, num elevador perto de sua sala. O professor Igarashi se dedicava a estudos árabes e persas e se convertera ao islã, m as isso não o salvou. Levou várias facadas no rosto e nos braços. O assassino não foi localizado. Vários boatos sobre o hom icida chegaram à Inglaterra. Era um iraniano que entrara no Japão recentem ente. Tinham encontrado um a pegada num canteiro de flores, e aquele tipo de sapato só era vendido na China continental. O cotej o de um a lista de pessoas que tinham em barcado em portos chineses com destino ao Japão com os nom es e codinom es de terroristas islâm icos gerou um a correspondência, segundo lhe disseram , m as o nom e não foi divulgado. O Japão não produzia seu próprio com bustível e recebia do Irã grande parte do petróleo cru que refinava. Na verdade, o governo j aponês tentara evitar a publicação de Os versos satânicos, pedindo às principais editoras que não fizessem um a edição j aponesa. Não queria que o hom icídio de Igarashi com plicasse suas tratativas com o Irã. O caso foi abafado. Ninguém foi acusado. Um hom em digno estava m orto, m as não se perm itiu que sua m orte criasse em baraços.
A Associação Paquistanesa do Japão não guardou silêncio. Exultou. “Estivem os hoj e nos felicitando uns aos outros”, declarou num a declaração pública. “Deus garantiu que Igarashi recebesse o que m erecia. Todos ficam os realm ente felizes.”
Ele escreveu um a carta sofrida à viúva de Hitoshi Igarashi. Não houve resposta.
Em todo o m undo, terroristas assassinos estavam atingindo seus alvos. Na Índia, Raj iv Gandhi foi assassinado na cidade sulina de Sriperum budur, ao fazer cam panha para sua reeleição. Perdera a eleição de 1989 e acreditava que a derrota se devera, em parte, ao forte esquem a de segurança que o cercara, criando um a im agem de distância e isolam ento. Dessa vez, estava resolvido a aproxim ar-se m ais do povo. Por isso, Dhanu, a terrorista suicida, integrante dos Tigres Tâm eis, pôde chegar bem perto dele e detonar o cinturão de explosivos. Um fotógrafo que estava ao lado de Raj iv tam bém m orreu, m as sua câm era ficou intacta e nela havia fotos do assassinato. Foi difícil j untar um volum e suficiente de restos do ex-prim eiro-m inistro para crem ar.
Em Londres, ele tentava levar a vida da m elhor m aneira possível. Pranteava a m orte de Hitoshi Igarashi, pedia diariam ente notícias de Ettore Caprioli e esperava que, se chegasse a sua vez, ele não levasse ninguém consigo por estar perto dem ais.
Joseph Anton, você tem de viver até que morra.
As visitas de Zafar à conselheira recom endada pela escola, Clare Chappell, tinham aj udado. Ele estava indo m elhor na escola e se sentia orgulhoso da satisfação dos professores com sua m elhora. Agora, porém , era o bem -estar de Elizabeth que se tornara m otivo de preocupação. Tinham feito todo o possível para m anter em segredo seu relacionam ento, só conhecido pelo círculo de seus am igos íntim os, m as a notícia estava vazando. “Todo m undo no escritório sabe a respeito”, disse ela. “Passei o dia todo trem endo por causa do choque.” A Bloom sbury Publishing em pregava relativam ente poucos terroristas islâm icos, m as ela resolveu que queria sair. Ficaria com ele o tem po todo, escreveria sua poesia e não teria de se afligir com fuxicos. Procurou dar a im pressão de que não era um sacrifício, m as ele sabia que era, e grande, e ele percebia tam bém que ela fazia todo o possível para ele achar que era aquilo que ela realmente queria, para que ele não se sentisse mal, outra prova de sua generosidade de espírito. Ela saiu da Bloom sbury decidida, e nunca disse um a só palavra de acusação ou arrependim ento. Alguns tabloides britânicos tinham com eçado a publicar m atérias absolutam ente absurdas sobre o quanto “o novo am or de Rushdie” estava custando ao país, dando a entender que a entrada de Elizabeth na história havia elevado o custo da segurança em centenas de m ilhares de libras. Com o o governo não se m anifestava m ais sobre o caso, o foco da im prensa estava passando para o custo da proteção. Ele estava custando um a fortuna ao país, e era, é claro, arrogante e ingrato. E agora o país tinha de pagar tam bém pela proteção de sua nam orada.
Elizabeth sabia que ela nada custava ao país, e seu desdém pelas m atérias inventadas era adm irável.
Durante a m aior parte do tem po, a casa da Ham pstead Lane, 30 transm itia um a sensação de tranquilidade e perm anência. Ela dava a sensação de fixidez. Ele não passava a m etade do dia tem endo que ela “caísse” e ele fosse obrigado a m ais um a m udança repentina. Mesm o quando apareciam vendedores, não havia inquietação. A casa era bastante grande para que ele continuasse a trabalhar enquanto o j ardineiro cortava a gram a, o encanador fizesse algum trabalho ou alguém reparasse um equipam ento na cozinha. Os Bulsara eram senhorios m eio desleixados. Fitz foi m uito convincente e disse que seu chefe era dono de um a editora internacional, que passava m uito tem po em países distantes e ficava pouco em casa; ou sej a, nada diferente do Rea Hederm an verdadeiro, ainda que este j am ais alugaria um a casa de oito quartos na Ham pstead Lane. Fitz com eçou a lhes falar sobre a possibilidade de com prar a casa, m as a sra. Bulsara propôs um preço absurdo. “Tentei fazer com que ela baixasse o preço, senhor”, disse Fitz, “m as ela tem sím bolos de libras nos olhos.”
Foi então que um a nova propriedade entrou em cogitação, bem perto da parte norte — m enos cara — da Bishop’s Avenue. Precisaria de algum as obras, m as o preço que pediam era relativam ente razoável. O proprietário queria um a venda rápida. Elizabeth foi vê-la, acom panhada por Fitz e um m em bro da equipe de proteção, e todos gostaram . “Sem dúvida podem os dar um j eito nela”, disse Elizabeth, e o policial tam bém fez sinal de positivo. Ele poderia ter um a base perm anente de novo, pois isso fora resolvido na m ais alta esfera, disse a polícia. Ele foi de carro à casa duas vezes, m as não houve m eio de entrar. A casa ficava atrás de um a área com um portão duplo, um a m ansão com telhado de em pena alta e fachada caiada. Anônim a e convidativa. Ele aceitou a palavra de Elizabeth e agiu o m ais depressa que pôde. Dez dias depois de Elizabeth ter visto a propriedade da Bishop’s Avenue, 9 pela prim eira vez, tinham feito os contratos necessários e a casa era dele. Mal podia acreditar. Tinha um a casa de novo. “Você deve entender”, ele disse a seu novo agente de segurança, um suj eito elegante que seus colegas cham avam de cht (iniciais de Colin Hill-Thom pson), “que, assim que m e m udar para lá, nunca m ais vou fazer essas viagens de um lado para outro de novo”. Colin talvez fosse o m ais solidário de todos os agentes que o protegera. “Isso m esm o”, disse. “Mantenha-se firm e. Eles aprovaram e agora é isso aí.”