Joseph Anton: Memórias
10. No Halcyon Hotel
10. No Halcy on Hotel
Até com eçar sua vida com Padm a, ele sabia m uito pouco sobre a cidade de Los Angeles, a não ser a noção convencional de que era o lugar onde nasciam as ilusões. Durante longo tem po, acreditou que o logotipo da Twentieth Century -Fox era um a construção de verdade, e não sabia que o leão da m gm estava bocej ando e não rugindo, e quis saber em que cordilheira ficava a m ontanha Param ount. Em outras palavras, ele era ingênuo, com o a m aioria dos fanáticos por cinem a, m esm o tendo sido criado num a cidade cinem atográfica tão im portante quanto Holly wood, e deveria por certo ser um cínico endurecido que queria apenas desm ascarar a autoprom oção, a vaidade, a crueldade e o engano da indústria. Em vez disso, ele em barcava em tudo, em toda a bobagem das pegadas na calçada do Chinese Theater, sabia que sua im aginação sofrera a influência form adora de Fellini e Buñuel, m as tam bém de John Ford e Howard Hawks, de Errol Fly nn, de Sete noivas para sete irmãos, de Os cavaleiros da távola redonda e de Scaramouche — influência tão profunda com o a de Sterne ou Joy ce —, e os nom es das ruas, Sunset Boulevard, Coldwater Cany on, Malibu Colony, faziam seu coração bater m ais rápido, e era ali que Natanael West m orava quando escrevera O dia do gafanhoto, e ali é que m orava Jim Morrison nos prim eiros dias do The Doors. Ele era um caipira total; sua am iga nicaraguense Gioconda Belli estava m orando em Santa Monica e o apresentou a um a L. A. m ais esperta, m ais política, assim com o sua am iga Roxana Ty nan, que estava trabalhando na cam panha eleitoral do futuro prefeito Antonio Villaraigosa, e um dia ele encontrou-se com o acadêm ico Zachary Leader na farm ácia Rexall, na esquina de Beverly e La Cienega, e Leader lhe disse que fora ali que Aldous Huxley tinha tom ado m escalina pela prim eira vez, “então essas”, disse ele, apontando as portas de vidro corrediças da farm ácia, “são as portas da percepção”.
Os fam iliares m ais próxim os de Padm a (a m ãe tinha voltado para o padrasto depois de algum as sem anas de separação) m oravam em West Covina, um lugar profundam ente deselegante, e ela frequentara a La Puente High School — num bairro tão pouco seguro, segundo contou, que todo dia depois da escola ela ia correndo para casa e não parava enquanto não chegasse lá —, de form a que essa era ainda m ais um a versão da cidade para ele explorar. Mesm o em Holly wood ele se lem brou da tristeza das histórias de Pat Hobby, de F. Scott Fitzgerald, sobre um roteirista sem dinheiro, e teve suficiente m orbidez para procurar Cielo Drive e o fantasm a de Sharon Tate. Ainda se sentia com o um presidiário que saíra recentem ente da gaiola, então para ele um dos grandes prazeres da cidade era o que m uita gente não gostava nela: dirigir. Fazia anos que ele não podia dirigir sozinho, então alugou um carro e dirigia durante horas, conhecendo as ruas da cidade e os cânions labirínticos, seguia a Pacific Coast Highway e voltava pelo Million Dollar Hotel, e se as autopistas estavam congestionadas ele pegava as ruas secundárias e de qualquer m odo gostava de ficar sentado no trânsito, cantarolando a velha canção das Pointer Sisters, “Fire” (Estou rodando no seu carro/ você liga o rádio...), de que ele se lem brava porque tinha sido um sucesso quando ele viera à cidade com o j ovem redator de publicidade para fazer com erciais para a tintura de cabelos Nice’n’Easy , da Clairol, e rodara pela cidade escoltado por dois policiais de Beverly Hills com óculos espelhados que achavam que eram Starsky e Hutch (“Quer que pare o trânsito para você? Tem certeza que não? Porque eu posso parar o trânsito com toda facilidade, sabe!”). Agora não havia policiais e ele estava vivendo com um a linda m ulher no apartam ento dela em West Holly wood, na Kings Road, entre Beverly e Melrose, enquanto reform avam seu apartam ento em Nova York, e havia dias em que a vida era m uito, m uito boa.
O apartam ento era pequeno, então m uitas vezes ele trabalhava na biblioteca em Beverly Hills, alegrem ente anônim o, e, com o adorava história local, m ergulhou no passado da cidade e descobriu que os anj os de seu nom e eram aqueles da prim eira igrej inha de São Francisco de Assis, a Porziuncola, e ficou sabendo do povo Lagarto, que teria m orado em túneis debaixo da cidade m ilhares ou centenas de anos antes ou talvez na sem ana passada. Durante um breve m om ento, sentiu vontade de escrever sobre G. Warren Shufelt, que em 1934 inventou um tipo de m áquina vibratória que efetivam ente localizou os túneis, aos quais se podia ter acesso por um porão da biblioteca central e iam até o Dodger Stadium , e então, depois dessa grande descoberta, e antes que pudesse m ostrar os túneis para qualquer outra pessoa, o grande Shufelt desapareceu total e misteriosamente!, nunca mais foi visto, quer dizer, o que aconteceu com ele? Hm m , ele refletiu, pensando bem talvez escrever sobre G. Warren não fosse um a ideia tão boa.
Holly wood era um a cidade pequena dentro de um a cidade grande e em cinco m inutos um recém -chegado com o ele se transform ava no especial do m ês. O diretor de cinem a Michael Mann convidou-o para j antar e eles discutiram o proj eto de um film e sobre a fronteira m exicana. O astro de cinem a Will Sm ith contou-lhe que tinha aprendido com Moham m ed Ali a fazer os passos de dança “Ali shuffle”. O produtor Brian Grazer cham ou-o em seu escritório para perguntar se ele queria escrever um film e sobre sua vida. Poucos anos antes, ele soubera por Christopher Hitchens que Milos Form an havia pensado que um film e sobre Rushdie poderia ser um grande parceiro para seu outro film e sobre a liberdade de expressão, O povo contra Larry Flynt, m as a ideia não soara direito, com o aquela não soava tam bém . Se ele contasse sua própria história, disse a Grazer, seria prim eiro num livro. (Ele tam bém gostava de estar em Holly wood sem estar nos negócios. Era, bem , era mais legal. No m om ento em que assinasse um contrato de roteiro, seria apenas m ais um funcionário.)
Alm oçou com Christopher Hitchens e Warren Beatty, grande fã de Christopher, no Beverly Hills Hotel. “Se m e perm ite dizer”, Warren Beatty com eçou, “quando nos vim os outro dia no j antar do senhor Chow, você estava com um a m ulher tão linda que quase m e fez desm aiar.” Naquela época, ele confiava inteiram ente nela, então respondeu: “Vou telefonar para ela. Talvez possa vir nos encontrar”. “Por favor, diga a ela”, Beatty prosseguiu, “que Warren Beatty está aqui e achou que ela é tão linda que quase desm aiou.” Ela estava no carro, im paciente, quando ele telefonou. (Detestava dirigir.) “Estou alm oçando com Warren Beatty ”, ele disse, “ele falou que acha você tão linda que quase desm aiou.” “Cale a boca”, ela disse, “não tenho tem po para suas piadas.”
Quando conseguiu convencê-la de que realm ente estava dizendo a verdade, ela de fato foi ao encontro deles e deliberadam ente não fez nada para se em bonecar, chegou de calça de m oletom e top, com o visual, é claro, que faria Warren Beatty desm aiar. “Por favor, m e desculpe”, disse a ele o am ante legendário, “por ter feito papel de idiota por sua esposa durante cinco m inutos. Depois disso, podem os alm oçar.” Provavelm ente era m uito bom que Anette Bening existisse, ele disse a si m esm o, senão... bem , não im portava. Eles continuaram alm oçando e pronto.
Carrie Fisher, sua am iga m ais próxim a em Holly wood, de inteligência e de língua afiadas, não tinha tanta certeza quanto a Padm a. Ela deu um a festa para que ele pudesse conhecer Meg Ry an, especialm ente, que podia ser m ais adequada, e de quem ele gostou m uito, m esm o quando ela repetiu (três vezes): “Sabe, as pessoas estão tão enganadas a seu respeito!”. Mas aí o assunto foi para a vida espiritual e Meg contou de suas m uitas visitas a ashrams na Índia e de sua adm iração pelos swamis Muktananda e Gurum ay i. Isso atrapalhou, principalm ente porque ele falou a ela sobre seu ceticism o em relação à indústria de gurus e sugeriu que ela talvez gostasse de ler o livro Carma-Cola, de Gita Mehta. “Por que você é tão cínico?”, ela perguntou, com o se genuinam ente quisesse saber a resposta, e ele disse que para quem crescia na Índia era fácil concluir que essas pessoas eram fraudes. “Claro, existem m uitos charlatães”, ela disse, sensata, “m as não dá para diferenciar?” Ele balançou a cabeça tristem ente. “Não”, disse. “Para m im não dá.” E foi o fim da conversa.
A transferência de West Holly wood para Pem bridge Mews foi brutal, e o divórcio, que ficara feio dem ais para descrever, as grandes dificuldades colocadas para o acesso a seu filhinho, que o deixavam louco, o preço que não parava de subir da reform a do apartam ento em Nova York, que no fim estava em estado m uito pior do que ele pensara, e as m udanças de hum or de Padm a, tão frequentes que ele ficava contente se as coisas ficavam bem entre eles por dois dias seguidos, tudo teve de ser tratado através de um a névoa de j et lag. E um dia, em L. A., ele ouviu a notícia que estava esperando horrorizado havia alguns anos. John Diam ond m orrera. Ele afundou o rosto nas m ãos e, quando a m ulher que dizia am á-lo perguntou o que era e ele contou, ela disse: “Sinto m uito que estej a triste, m as você vai ter de aguentar a tristeza até passar”. Nesses m om entos, ele achava que não podia ficar com ela nem m ais dois segundos.
Mas ficou. Ficou por m ais seis anos. Ao se lem brar daqueles anos com o olhar desiludido de seu eu pós-divórcio, não entendeu inteiram ente o próprio com portam ento. Talvez tivesse sido um a form a de obstinação, ou um a recusa em destruir a relação pela qual havia destruído um casam ento, ou um a recusa em em ergir da ilusão de um futuro feliz com ela, m esm o que fosse um a m iragem . Ou talvez ela fosse sim plesm ente linda dem ais para ele deixá-la.
Na época, porém , ele tinha um a resposta m ais sim ples. Ficou com ela porque a am ava. Porque se am avam . Porque estavam apaixonados.
Eles rom peram , sim , várias vezes nesses anos, por breves períodos, e era sem pre ele que se afastava dela; m as finalm ente ele a pediu em casam ento e logo depois do casam ento foi ela quem o deixou. Depois que ela foi em bora, Milan, que tinha sido o paj em na cerim ônia, perguntou: “Pai, com o que um dia tão bonito pode não ter nenhum a im portância?”. Ele não soube responder. Sentia a m esm a coisa.
Houve bons m om entos, é claro. Eles fizeram um lar j untos, decoraram e m obiliaram o apartam ento, felizes com o qualquer casal. “Montei nossa casa com você com am or e coração puro”, ela disse a ele, anos depois, quando estavam se falando outra vez, e ele acreditou. Havia am or e paixão entre eles e, quando era bom , era m uito bom m esm o. Foram j untos ao baile do Livro em Am sterdam para o lançam ento de Woede, que era Fúria em holandês, e ela fez um grande sucesso; todo m undo ficou fascinado com sua beleza e o noticiário nacional m ostrou o film e de sua chegada ao aeroporto com o fundo m usical de Charles Aznavour cantando “Isn’t she lovely ”, e depois houve um a m esa de discussão sobre sua beleza extraordinária entre quatro críticos salivantes. Então ela ficou feliz e foi am orosa com ele, a nam orada perfeita. No entanto, havia m om entos m ais baixos, e estes estavam se tornando m ais frequentes. Aos poucos, ele entendeu que ela estava ficando com petitiva com ele, achando que ele ofuscava seu brilho. Ela não gostava de papéis secundários. “Não venha com igo”, ela disse a ele perto do fim do relacionam ento, quando foram convidados para um evento de prem iação cinem atográfica em honra de Deepa Mehta, am iga dele, “porque quando você está presente as pessoas só querem falar com você.” Ele disse que não dava para ela escolher os dias da sem ana em que era casada. “Sem pre tive orgulho de estar a seu lado”, ele disse, “e fico triste de você não sentir a m esm a coisa a m eu respeito.” Mas ela estava decidida a sair da som bra dele, a vencer sozinha; e no fim foi isso que fez.
Na Era da Aceleração, um a coluna de j ornal não podia ser escrita com alguns dias de antecedência. Ele tinha de acordar no dia da entrega de seu artigo m ensal internacional para o The New York Times, ler as notícias, ver quais eram os assuntos que estavam deixando as pessoas m ais ansiosas, pensar em algum a coisa que legitim am ente tivesse a oferecer sobre um desses assuntos e escrever m il palavras até as cinco da tarde, o m ais tardar. Jornalism o com prazo era um trabalho m uito diferente do de um rom ancista, e ele levou algum tem po para aprender. A certa altura, passou a ser anim ador pensar nesse tipo de rapidez. Era um privilégio tam bém ser adm itido com o com entarista, aquele pequeno grupo de colunistas que tinham sido ungidos com o form adores de opinião m undiais. Ele j á havia descoberto com o era difícil ter opiniões, principalm ente o tipo de opiniões que “funcionavam ” nessas colunas — opiniões fortes, intensam ente discutidas. Era um problem a para ele form ular um a opinião forte por m ês e, portanto, assom brava-se com os colegas — Thom as Friedm an, Maureen Dowd, Charles Krautham m er et al. — que eram capazes de ter duas opiniões por semana. Estava em seu terceiro ano e j á havia escrito sobre antiam ericanism o, Charlton Heston e a National Rifle Association, Caxem ira, Irlanda do Norte, Kosovo, o ataque ao ensino da teoria da evolução no Kansas, Jörg Haider, Elián González e Fij i. Sentia que podia estar no lim iar de esgotar as coisas sobre as quais nutria em oções fortes, e sugeriu a Gloria B. Anderson, do serviço de notícias do The New York Times, que talvez estivesse chegando a hora de desistir da coluna. Ela tentou m uito dissuadi-lo. Várias colunas dele haviam im pressionado, ela disse. No com eço do ano 2000, ele escrevera que “a luta que vai definir a nova era será entre Terrorism o e Segurança”. Era algo para o qual estava bem qualificado para escrever, ela disse, e, se ele tivesse razão, e ela estava certa de que tinha, então, com o disse, “a pauta de notícias irá a seu encontro e as pessoas vão querer saber o que você tem a dizer”.
Gloria não sabia, nem ele tam pouco, com o a m udança que ela previra na linha das notícias iria m udar repentina e enfaticam ente. Ninguém estava olhando pela j anela da sala de aula para a tem pestade alada que se form ava no parquinho. Ele não sabia, nem Gloria, que os pássaros haviam se j untado no trepa-trepa do parque e estavam prontos para atacar.
Sua atenção estava voltada para outro lado. Tinha um rom ance novo para ser lançado na Inglaterra. Na capa, havia um a foto em preto e branco do Em pire State Building com um a pequena nuvem negra acim a dele, brilhando nas bordas. Era um livro sobre fúria, e no entanto seu autor não fazia ideia da fúria que viria.
Foi seu rom ance m enos bem recebido desde Grimus. Um ou dois críticos gostaram do rom ance e escreveram a respeito com sim patia e com preensão. Muitos resenhadores britânicos o trataram com o um a autobiografia m aldisfarçada e acim a de m ais de um a crítica aparecia um a foto dele com sua “ardente nam orada nova”. Era doloroso, sim , m as no fim isso o lançava num novo tipo de liberdade. Ele sem pre se im portara, às vezes dem ais, com boas críticas. Agora, via que isso tam bém era m ais um a versão da arm adilha de querer ser am ado na qual ele catastroficam ente caíra m uitos anos antes. Independentem ente do que dissessem de seu novo livro, ele continuava orgulhoso dele, sabia por que o rom ance era com o era e ainda sentia haver boas razões artísticas para suas escolhas. Então, de repente ele se tornou capaz de virar as costas para a m aledicência. Com o todo escritor, queria que seu trabalho fosse apreciado, isso ainda era verdade. Com o todo escritor, ele estava num a j ornada intelectual, linguística, form al e em ocional; os livros eram m ensagens dessa j ornada e ele esperava que os leitores fossem gostar de viaj ar com ele. Mas, via agora, se em algum ponto eles não fossem capazes de seguir a estrada que ele tom ara, seria um a pena, m as ele ainda tom aria a m esm a estrada. Se não podem vir comigo,sinto muito, ele disse silenciosam ente a seus críticos, mas ainda assim vou seguir esse rumo.
Em Telluride, Colorado, ele tinha de tom ar cuidado com a velocidade ao andar, ao subir escadas, com quanto álcool tom ava. O ar era rarefeito e ele era asm ático. Mas era um paraíso m ontanhês. Talvez o ar fosse rarefeito no outro Éden tam bém , ele pensou, m as tinha certeza de que não havia tantos film es bons sendo exibidos naquela arm adilha de serpente e m açã situada em algum ponto a oeste da terra de Nod.
Tom Luddy e Bill Pence, curadores do Telluride Film Festival, convidavam a cada ano um terceiro curador para trabalhar com eles, e em 2001 foi sua vez. Ele selecionou um a breve lista de film es “pessoais” para m ostrar, entre eles A fortaleza de ouro, de Saty aj it Ray, sobre um m enino que sonhava com um a vida anterior em um a fortaleza dourada cheia de j oias; Solaris, de Andrei Tarkovsky, sobre um planeta que era um a única m ente tão poderosa que podia realizar os desej os m ais profundos dos hom ens; e a obra-prim a silenciosa de Fritz Lang, Metropolis, um poem a som brio sobre tirania e liberdade, hom em e m áquina, restaurado e resgatado afinal da trilha sonora eletrônica de Giorgio Moroder.
Era o fim de sem ana do Dia do Trabalho, seu últim o tem po livre antes do lançam ento de Fúria nos Estados Unidos. Ele encontrou-se com Padm a em Los Angeles e pegaram o avião rum o ao Colorado, para passar o aniversário de 31 anos dela, que seria em 1o de setem bro, assistindo a film es nas m ontanhas e cam inhando pelas ruas inform ais da cidade em que Butch e Sundance roubaram seu prim eiro banco, tom ando um café com Werner Herzog aqui, um papo com Fay e Dunaway ali. Em Telluride, ninguém estava caçando nem vendendo e todo m undo era acessível. Os polivalentes cinem atográficos Leonard Maltin e Roger Ebert, o docum entarista Ken Burns e outras pessoas bem inform adas do cinem a estavam acessíveis, transm itindo conhecim ento e fazendo piada. Em Telluride, todo m undo concordava que Tom Luddy conhecia todo m undo na terra. O grande Luddy, Senhor da Transgressão e m estre de cerim ônias, levava tudo num a boa. Telluride era um lugar divertido. Para pegar o elevador de esqui até o alto da m ontanha onde ficava o auditório Chuck Jones, era preciso fazer um a Weserva Wabbit.
Viram o film e francês de sucesso O fabuloso destino de Amélie Poulain,com seu elem ento de fantasia ligeiram ente m eloso, e o croata Terra de nin guém, dirigido por Danis Tanovic, que era com o um Esperando Godot num a trincheira sob fogo, e o prim oroso Um tiro no coração, de Agniezka Holland, produzido pela hbo, adaptação do rom ance de MikalGilm ore sobre seu irm ão assassino, Gary. Viam três film es por dia, dorm iam em alguns deles e nos intervalos e depois das proj eções havia festas. Desceram da m ontanha em 3 de setem bro e oito dias depois era im possível não lem brar daquele m om ento edênico com o um paraíso do qual não apenas eles, m as o m undo inteiro havia sido expelido.
A data oficial de lançam ento de Fúria nos Estados Unidos era 11 de setem bro de 2001. Nessa data, um rom ance que pretendia ser um retrato ultracontem porâneo e satírico de Nova York foi transform ado pelos acontecim entos em um rom ance histórico sobre um a cidade que não era m ais aquela sobre a qual ele havia escrito, cuj a idade dourada havia term inado do j eito m ais abrupto e horrendo; um rom ance que, lido por aqueles que se lem bravam de com o a cidade tinha sido, inspirava um a em oção que não fazia parte dos planos do autor: nostalgia. Nos quadrinhos Doonesbury, de Garry Trudeau, um dos personagens dizia, triste: “Sabe, sinto m uita saudade de 10 de setem bro”. Ele entendeu que foi isso que aconteceu com seu rom ance. Os eventos do Onze de Setem bro o transform aram num retrato da véspera. A fortaleza de ouro cheia de j oias era agora apenas um sonho de um a vida anterior, perdida.
Em 10 de setem bro de 2001, ele não estava em Nova York, m as em Houston, Texas. Tinha feito um a leitura na Barnes & Noble da Union Square no dia 5, depois tom ado um avião para Boston na turnê pelo livro e passara lá os dias 6 e 7. Na m anhã de 8 de setem bro havia partido do aeroporto Logan apenas três dias antes dos aviões fatais e passou dois dias em Chicago. Depois, na noite do dia 10, um a casa lotada no Alley Theater, em Houston — novecentas pessoas na plateia, duzentas não conseguiram entrar, contou Rich Levy, da série de leituras Inprint, seu anfitrião nessa noite —, e um a surpresa do lado de fora: um a pequena m anifestação islâm ica contra sua presença, com duzentas pessoas talvez. Parecia um a volta ao passado. Na m anhã seguinte, ele se lem brou dos barbudos portando cartazes e se perguntou se eles estavam se lam entando por ser identificados com o extrem istas naquele dia específico, de todos os dias que podiam ter escolhido para revelar seu fanatism o.
Ele tinha acabado de acordar quando um j ornalista de rádio telefonou para seu quarto no hotel. Ele concordara em falar para a estação antes de pegar o avião para Minneapolis, m as ainda era m uito cedo. “Desculpe”, disse a voz em seu ouvido, “m as vam os ter de cancelar. Diante do que aconteceu em Nova York, estam os m ergulhando na cobertura daquilo.” Ele nunca havia adquirido o hábito am ericano de ligar a televisão antes de m ais nada de m anhã. “O que está acontecendo em Nova York?”, perguntou. Houve um a pausa e a voz disse: “Ligue a televisão agora”. Ele pegou o controle rem oto e, m enos de um m inuto depois, viu o segundo avião bater.
Não conseguiu se sentar. Não parecia certo se sentar. Ficou parado na frente da televisão com o controle na m ão e o núm ero 50 mil m artelando em sua cabeça. Cinquenta m il pessoas trabalhavam nas Torres Gêm eas. Ele não conseguia im aginar o núm ero de m ortos. Lem brou-se de sua prim eira noite em Nova York, de sua visita ao restaurante Windows on the World [Janelas do Mundo], na Torre Norte. Lem brou-se de Paul Auster contando sobre a travessia de Philippe Petit de um a torre a outra num a corda bam ba. Mas, acim a de tudo, ficou parado ali, olhando os prédios queim arem , e depois, num a descrente agonia, gritou ao m esm o tem po que m ilhares de outras pessoas no m undo inteiro: “Não está m ais lá! Não existe m ais!”, quando a Torre Sul caiu.
Pássaros gritavam no céu.
Ele não sabia o que fazer, então partiu para o aeroporto, m as na m etade do cam inho o rádio m andou voltar porque o tráfego aéreo no país havia sido interrom pido. De volta ao Four Seasons, ele não tinha m ais quarto e o saguão estava cheio de outras pessoas na m esm a situação. Encontrou um a poltrona num canto e com eçou a fazer telefonem as. Rich Levy, da Inprint, veio em seu socorro. Disse que o poeta Ed Hirsch e sua esposa, Janet, que estavam retidos em Washington, tinham oferecido sua casa perto da Menil Collection, no Museum District, se ele concordasse em dar com ida para o cachorro. Foi confortador aquele dia ficar na casa de um escritor, sozinho entre livros, no m undo da m ente, enquanto a dem ência governava o m undo.
Não m orreu ninguém que ele conhecesse, m as m orreram m ilhares. A esposa de Peter Carey, Alison Sum m ers, estava no caixa eletrônico ao pé da Torre Norte quando o prim eiro avião bateu, m as sobrevivera. Cary l Phillips, na Hudson Street, viu acontecer, assim com o Robert Hughes na Prince. A j ovem Sophie Auster, em seu prim eiro dia de ensino m édio e sozinha no trem do m etrô pela prim eira vez na vida, passou debaixo das Torres Gêm eas quando a atrocidade estava acontecendo lá em cim a. Doze de setem bro foi um segundo dia de horror e tristeza. Olhe nossa linda cidade despedaçada, ele pensou, chorando, e se deu conta do quanto j á estava profundam ente ligado a ela. Seguiu a pé pela rua da casa dos Hirsch até a capela Rothko. Mesm o para um hom em ateu, parecia um bom lugar para se abrigar. Havia outras pessoas lá; não m uitas, só algum as, graves. Ninguém falava com ninguém . Não havia nada a dizer. Cada um sozinho com a própria tristeza.
Evidentem ente, a turnê de seu livro estava cancelada. Ninguém estava interessado em livros. Os únicos livros vendidos nas sem anas seguintes foram a Bíblia, o Corão, e livros sobre a Al-Qaeda e o Talibã. Um psicólogo estava dizendo na televisão que os nova-iorquinos que tinham estado distantes de suas fam ílias em 11 de setem bro deviam procurar seus entes queridos para provar que estavam bem . Não bastava telefonar. Seria preciso a prova dos próprios olhos. Sim, ele pensou, eu devia ir para Londres. Mas não era possível. A proibição de decolagens fora suspensa e os aeroportos estavam com eçando a reabrir. Houston reabriu, e depois o lax, m as os aeroportos de Nova York continuavam fechados e as viagens internacionais tam bém estavam paradas. Teria de esperar m ais alguns dias.
Telefonou para Padm a em Los Angeles e disse que ia vê-la. Ela disse que estava fazendo um as fotos de lingerie.
Dez dias depois dos ataques, em sua últim a noite em Los Angeles, antes de pegar o avião para Londres, ele j antou na casa de Eric e Tania Idle com Steve Martin, Garry Shandling e outros. Pelo m enos três dos hom ens m ais engraçados dos Estados Unidos estavam em torno da m esa, m as estava difícil fazer graça. Por fim , Garry Shandling disse, com a voz e o corpo tristes com o os de um cão de caça: “Que coisa horrível. Parece que todo m undo perdeu alguém , ou conhece alguém que perdeu alguém ... Na verdade, eu conhecia vários dos terroristas...”. Era o m ais negro do hum or negro, a prim eira piada sobre o Onze de Setem bro, e o riso liberou parte da tristeza que todo m undo estava sentindo, m as ele não acreditava que Shandling fosse usar a piada no futuro próxim o em suas apresentações.
Robert Hughes, crítico de arte da revista Time, disse a ele, pelo telefone, que depois que viu os aviões voando sobre o Soho tinha cam inhado em choque. A cam inho de casa, havia parado num a padaria e encontrado as prateleiras com pletam ente vazias. Não sobrara nem um pão, nem um a rosquinha, e o velho padeiro, parado no m eio do vazio, tinha aberto os braços e dito: “Devia acontecer isso todo dia”.
Em Londres, seus problem as m atrim oniais agora pareciam triviais. Elizabeth cedeu brevem ente e perm itiu que Milan ficasse em Pem bridge Mews. Ele pegou o filho na escola, com eu com ele, lavou seu cabelo e o pôs na cam a. Ficou ao lado dele um a hora, olhando o m enino dorm ir. Milan tinha lhe dado um abraço forte e prolongado ao voltar, e Zafar tam bém tinha se m anifestado fisicam ente m ais do que era seu estilo. O psicólogo tinha razão. Em bora os dois soubessem , com a parte racional da cabeça, que ele nem estava em Nova York, e portanto estava evidentem ente seguro, não tinham a prova de seus próprios olhos.
No Le Nouvel Observateur, da França, e no The Guardian, de Londres, seu rom ance era cham ado de presciente, profético até. Ele não era um profeta, disse a um j ornalista. Já tivera problem as com profetas e não estava interessado em se candidatar ao posto. Mas se perguntava por que havia sentido tam anha urgência no livro, por que ele insistira em ser escrito imediatamente e de onde tinham vindo aquelas Fúrias pairando sobre Nova York e dentro do coração do personagem .
Pediram que escrevesse algum a coisa — o rum o das notícias sem dúvida estava virando em sua direção agora —, m as ele não escreveu durante duas sem anas depois dos ataques. Muitas das prim eiras coisas que pensou lhe pareceram redundantes. Todo m undo tinha visto o horror e não era preciso que ninguém dissesse o que deviam sentir. Então, lentam ente, suas ideias com eçaram a tom ar form a. “O fundam entalista quer derrubar m uito m ais que edifícios”, ele escreveu.
Para dar apenas um a breve lista, essa gente é contra liberdade de expressão, sistem a
político m ultipartidário, sufrágio universal para adultos, governo responsável, j udeus,
hom ossexuais, direitos das m ulheres, pluralism o, secularism o, saias curtas, danças, hom ens
sem barba, teoria da evolução, sexo [...]. O fundam entalista acredita que nós não
acreditam os em nada. Em sua visão de m undo, ele tem suas certezas absolutas, enquanto
nós estam os m ergulhados em deleites sibaritas. Para provar que ele está errado, tem os
prim eiro de saber que ele está errado. Tem os de concordar sobre o que im porta: beij os em
lugares públicos, sanduíches de bacon, discordância, m oda inovadora, literatura,
generosidade, água, um a distribuição m ais j usta dos recursos m undiais, cinem a, m úsica,
liberdade de pensam ento, beleza, am or. Essas são nossas arm as. Não fazendo guerra, m as
através da ausência de m edo com que escolhem os viver é que irem os derrotá-los. Com o
derrotar o terrorism o? Não nos aterrorizando. Não deixando o m edo governar nossa vida.
Mesm o que estej am os com m edo.
(Enquanto ele estava escrevendo isso, apareceu na im prensa um a história de que ele estava sendo banido das com panhias aéreas am ericanas pela Adm inistração Federal de Aviação dos Estados Unidos. A British Airway s e as com panhias europeias continuaram calm as, m as nos Estados Unidos o pânico generalizado criou um problem a de transporte para ele m ais um a vez. “Entendo”, ele pensou, não sem certa am argura, “prim eiro vocês deixam todos os terroristas em barcarem nos aviões, e agora querem im pedir os rom ancistas antiterrorism o. É esse seu plano para m anter a segurança dos Estados Unidos.” Quando as coisas se acalm aram , a entidade do governo se acalm ou tam bém e suspendeu as restrições; seus problem as ficaram im ediatam ente m ais leves, em bora duas com panhias am ericanas continuassem se recusando a transportá-lo por m ais dez anos.)
Ele foi à França para o lançam ento de Furie, que no novo m undo que estava tom ando form a foi m uito m ais bem recebido do que tinha sido em língua inglesa, no velho m undo que cessara de existir. Quando voltou a Londres, foi a um j antar no apartam ento de um am igo e outro convidado, um certo sr. Proudie, partiu para a argum entação j á com um de que “os Estados Unidos pediram por isso, os Estados Unidos m ereceram isso”. Ele protestou energicam ente, dizendo que não era hora para esse tipo de antiam ericanism o britânico, que desrespeitava e crim inalizava os inocentes m ortos. O sr. Proudie respondeu com extrem a agressividade: “Nós protegem os você, não?”. Com o se isso com provasse o que dizia. Na discussão que se seguiu eles quase chegaram às vias de fato.
Ele escreveu um segundo artigo, que term inava assim : “Se o terrorism o tem de ser derrotado, o m undo islâm ico tem de em barcar nos princípios secularistas-hum anistas em que se baseia a m odernidade, e sem os quais a liberdade de seus países continuará sendo um sonho distante”. Na época, isso foi considerado por m uitos com o um a quim era e, na pior das hipóteses, a tola recusa de um liberal em aceitar a resistência da visão de m undo islâm ica. Dez anos depois, os j ovens do m undo árabe, na Tunísia, no Egito, na Líbia, na Síria e em outras partes, tentaram transform ar suas sociedades exatam ente de acordo com esses princípios. Eles queriam em pregos e liberdade, não religião. Não ficou claro se conseguiram o que queriam , m as para o m undo não deixaram dúvidas de que queriam isso.
Foi um belo outono em Nova York, m as a cidade estava fora do eixo. Ele cam inhou pelas ruas e viu o m esm o ar de susto em todos os olhares. Barulhos fortes eram anúncio de repetição da tragédia. Cada conversa era um lam ento, cada reunião parecia um velório. Então, lentam ente, o alento voltou. Houve um dia em que a ponte do Brookly n foi fechada por causa de um a am eaça de bom ba e, em vez de ficarem apavoradas, as pessoas ficaram bravas com o transtorno no seu dia. Aquela era a Nova York do estou andando por aqui, que ele adorava. Estava recuperando seu encanto. As restrições a traj etos que fossem além da rua 14 ainda vigoravam , m as estavam dim inuindo. O terrível buraco no chão e o igualm ente m elancólico buraco no céu ainda estavam lá e incêndios ainda queim avam no solo abaixo, m as m esm o essa agonia podia ser tolerada. A vida venceria a m orte. Não seria a m esm a coisa que antes, m as tudo bem . Ele passou o Dia de Ação de Graças desse ano na casa de Paul, Siri e Sophie Auster, e Peter Carey e Alison Sum m ers estavam lá tam bém . Deram graças pela sobrevivência de Sophie e de Alison e por tudo o que era bom no m undo, que precisava, m ais do que nunca, ser valorizado.
A história de sua pequena batalha tam bém estava chegando ao fim . O prólogo era passado e agora o m undo estava às voltas com o evento principal. Teria sido fácil, depois de tudo o que acontecera com ele e depois da enorm idade do crim e contra a cidade, sucum bir ao ódio à religião em cuj o nom e essas coisas eram feitas e aos seus adeptos tam bém . Qualquer um que parecesse vagam ente árabe experim entou algum a reação naquelas sem anas e m eses posteriores ao desastre. Jovens com cam isetas nas quais se lia a culpa não é m inha, sou hindu. Motoristas de táxis am arelos, m uitos dos quais tinham nom es islâm icos, enfeitaram seus carros com bandeiras e adesivos patrióticos para aplacar a raiva dos passageiros. Mas nessa questão da raiva tam bém a cidade, com o um todo, m ostrou-se reservada. Os m uitos não eram responsabilizados pelos crim es de poucos. E ele tam bém recusou a raiva. A raiva transform ava a pessoa na criatura daqueles que a enraiveciam , dava a eles m uito poder. A raiva m atava a m ente e agora, m ais do que nunca, precisava-se da m ente para viver, para encontrar um j eito de se erguer acim a da dem ência.
Ele escolheu acreditar na natureza hum ana e na universalidade de seus direitos, da ética e das liberdades, e se colocar contra as falácias do relativism o que estavam no coração da invectiva dos exércitos dos religiosos (odiamos vocês porque não somos como vocês) e de seus parceiros de viagem no Ocidente tam bém , m uitos dos quais, decepcionantem ente, estavam à esquerda. Se a arte do rom ance revelava algum a coisa, era que a natureza hum ana era um a grande constante em qualquer cultura, em qualquer lugar, em qualquer tem po, e que, com o dissera Heráclito 2 m il anos antes, o ethos do hom em , sua m aneira de ser no m undo, era seu daimon, o princípio orientador que m odelava sua vida — ou, na form ulação m ais m edular, m ais fam iliar da ideia, que caráter era destino. Era difícil se apegar a essa ideia quando a fum aça da m orte ainda estava no céu acim a do Marco Zero e os assassinos de m ilhares de hom ens e m ulheres cuj o caráter não havia determ inado seu destino estavam na cabeça de todo m undo, não im portava se eram trabalhadores em penhados, am igos generosos, pais am orosos ou grandes rom ânticos, os aviões não tinham se im portado com seu ethos; e, sim , agora o terrorism o podia ser destino, a guerra podia ser destino, nossas vidas não estavam m ais em nosso controle total; m as, ainda assim , era preciso insistir em nossa natureza soberana, talvez m ais do que nunca em m eio ao horror era im portante defender a responsabilidade hum ana individual, dizer que os assassinos eram m oralm ente responsáveis por seus crim es e que nem sua fé, nem sua raiva dos Estados Unidos eram desculpa; era im portante, na época de ideologias gigantescas, infladas, não esquecer a escala hum ana, continuar insistindo em nossa hum anidade essencial, continuar fazendo am or, por assim dizer, num a zona de com bate.
Nas páginas de seu rom ance estava claro que o eu hum ano era heterogêneo, não hom ogêneo, não um a coisa, m as m uitas, m últiplo, fragm entado e contraditório. A pessoa que você era para seus pais não era a m esm a que você era com seus filhos, seu eu trabalhador era diferente de seu eu com o am ante, e, dependendo da hora do dia e de seu estado de espírito, você podia pensar em si m esm o com o alto, ou m agro, ou indisposto, ou fã de esportes, ou conservador, ou m edroso, ou ardente. Todos os escritores e leitores sabiam que os seres hum anos eram entidades am plas, não estreitas, e era a am plidão da natureza hum ana que perm itia que leitores encontrassem um a base com um e pontos de identificação com Madam e Bovary, Leopold Bloom , o coronel Aureliano Buendía, Raskolnikov, Gandalf, o Cinzento, Oskar Matzerath, as irm ãs Makioka, o Continental Op, o conde de Em sworth, m iss Marple, o barão nas árvores e Salo, o m ensageiro m ecânico do planeta Tralfam adore em As sereias de Titã, de Kurt Vonnegut. Leitores e escritores podiam levar esse conhecim ento da identidade de base am pla para o m undo que ficava além das páginas dos livros, e usar esse conhecim ento para encontrar a base com um com seus sem elhantes. Dois hom ens podiam torcer para tim es de futebol diferentes, m as votar do m esm o j eito. Podiam votar em diferentes partidos, m as concordar sobre o m elhor j eito de criar os filhos. Podiam discordar sobre a criação dos filhos, m as ter em com um o m edo do escuro. Podiam ter m edo de coisas diferentes, m as gostar da m esm a m úsica. Podiam detestar o gosto m usical um do outro, m as adorar o m esm o Deus. Podiam discordar energicam ente na questão religiosa, m as torcer para o m esm o tim e de futebol.
Isso era o que a literatura sabia, sem pre soubera. A literatura tentava abrir o universo, expandir, m esm o que só ligeiram ente, a som a total do que era possível para seres hum anos perceber, entender e assim , finalm ente, existir. A grande literatura ia aos lim ites do conhecido e forçava as barreiras da linguagem , da form a, da possibilidade, para fazer o m undo parecer m aior, m ais am plo do que antes. No entanto, essa era um a era em que hom ens e m ulheres se viam pressionados a definições cada vez m ais estreitas de si m esm os, estim ulados a se cham ar de apenas um a coisa, sérvio, ou croata, ou israelense, ou palestino, ou hindu, ou m uçulm ano, ou cristão, ou baha’i, ou j udeu, e quanto m ais estreita ficava sua identidade, m aior a perspectiva de conflitos entre eles. A visão que a literatura tinha da natureza hum ana estim ulava a com preensão, a com paixão e a identificação com pessoas diferentes de nós m esm os, m as o m undo estava em purrando todo m undo para a direção oposta, para a estreiteza, o fanatism o, o tribalism o, o cultism o e a guerra. Existia m uita gente que não queria o universo aberto, que preferiria, de fato, que ele se fechasse bastante, de form a que, quando artistas fossem à fronteira e pressionassem , encontrassem forças poderosas pressionando de volta. E, no entanto, eles faziam o que tinham de fazer, m esm o às custas de sua própria tranquilidade e, às vezes, de suas vidas.
O poeta Ovídio foi exilado por César Augusto num lugar infernal no m ar Negro cham ado Tom is. Ele passou o resto de seus dias im plorando para voltar a Rom a, m as a perm issão nunca foi dada. Então a vida de Ovídio foi arruinada; m as a poesia de Ovídio sobreviveu ao Im pério Rom ano. O poeta Mandelstam m orreu em um dos cam pos de trabalho de Stálin, m as a poesia de Mandelstam sobreviveu à União Soviética. O poeta Lorca foi m orto pelos brutais falangistas do generalíssim o Franco na Espanha, m as a poesia de Lorca sobreviveu ao regim e tirânico de Franco. A arte era forte, os artistas, m enos. A arte podia, talvez, cuidar de si m esm a. Artistas precisam de defensores. Ele tinha sido defendido por seus colegas artistas quando precisara. Tentaria fazer o m esm o para outros necessitados de agora em diante, outros que pressionassem fronteiras, transgredissem e, sim , blasfem assem ; todos esses artistas que não perm itissem que os hom ens do poder ou da religião traçassem linhas na areia e ordenassem que não podiam ser atravessadas.
Ele proferiu as palestras Tanner em Yale. Foram intituladas “Cruze esta linha”.
Quanto à batalha em torno de Os versos satânicos, ainda era difícil dizer se estava term inando em vitória ou derrota. O livro não havia sido suprim ido, nem seu autor, m as os m ortos perm aneciam m ortos, e surgira um clim a de m edo que dificultava que livros com o esse fossem publicados, ou m esm o, talvez, escritos. Outras religiões logo seguiram o exem plo do Irã. Na Índia, extrem istas hindus atacaram film es e astros de cinem a (o superastro Shah Rukh Khan foi alvo de violento protesto m eram ente por dizer que os j ogadores de críquete paquistaneses deviam participar de um cam peonato na Índia) e obras acadêm icas (com o a biografia do rei guerreiro m arata Shivaj i escrita por Jam es Laine, que “ofendeu” tanto os adm iradores contem porâneos desse m onarca a ponto de atacarem a biblioteca de pesquisa em Pune onde Laine tinha feito sua pesquisa, destruindo m uitos docum entos e obj etos antigos insubstituíveis). Na Grã-Bretanha, siques atacaram o autor sique de Behzti (Desonra), um a obra que não aprovaram . E a violência islâm ica continuava. Na Dinam arca, um som aliano com um m achado e um a faca, ligado à m ilícia radical al-Shabab, invadiu a casa do cartunista Kurt Westergaard, em Aarhus, depois da publicação dos cham ados “cartuns dinam arqueses” que haviam despertado a ira de extrem istas islâm icos. Nos Estados Unidos, a Yale University Press, editora de um livro que discutia o caso dos “cartuns dinam arqueses”, acovardou-se e não incluiu os cartuns no livro. Na Grã-Bretanha, a casa do editor de um livro sobre a esposa m ais j ovem do profeta Maom é recebeu um a carta-bom ba. Seria necessária um a luta m uito m ais prolongada para se poder dizer que teve fim a era de am eaças e tem ores.
Perto do final de 2001, a adaptação que a Roy al Shakespeare Com pany produziu de Os filhos da meia-noite rum ou para os Estados Unidos, para ser apresentada em Ann Arbor, Michigan, e depois no Apollo Theater, no Harlem ; um a noite, durante a tem porada de Nova York, ele seria entrevistado no palco depois do espetáculo e para conseguir realizar algo além de seus sonhos m ais loucos — representar Apollo. Ao m esm o tem po, estava trabalhando em Shalimar, o equilibrista. No fim das contas, isso é o que ele era, um contador de histórias, um criador de form as, um fazedor de coisas que não existiam . Seria sábio retirar-se do m undo do com entário e da polêm ica para voltar a se dedicar àquilo que m ais am ava, a arte que havia dom inado seu coração, m ente e espírito desde j ovem e viver de novo no universo do era um a vez, do kan ma kan, era assim e não era assim , e fazer a j ornada da verdade sobre as águas do faz de conta.
De seu posto dickensiano, estilo “vam os am arrar as pontas soltas”, lá no futuro, ele viu o florescim ento do talento m usical de sua sobrinha Mishka; viu sua sobrinha May a iniciar, contente, um a vida com o professora de crianças pequenas; e viu o casam ento de sua sobrinha Meena, filha de sua irm ã afastada Bunno. Viu Zafar trabalhando bem , feliz, e Milan crescendo para se tornar outro bom rapaz. E Elizabeth e ele em bons term os outra vez. Bill Buford se divorciou, fez outro casam ento m ais feliz e tornou-se um bem -sucedido autor de livros sobre com ida. Nigella Lawson se tornou autora de livros sobre com ida de sucesso gigantesco e casou-se com o colecionador de arte Charles Saatchi. Frances D’Souza tornou-se baronesa e então, em 2011, passou a presidir a Câm ara dos Lordes. William Ny gaard aposentou-se e seu filho Mads assum iu seu posto na Aschehoug. Marianne Wiggins tornou-se professora de literatura na Universidade do Sul da Califórnia. Jam es Fenton e Darry l Pinckney deixaram Long Ley s Farm e se m udaram para Nova York. Pauline Melville foi atacada por um assaltante assassino em sua casa em Highbury Hill, m as conseguiu se desam arrar e escapar por um a j anela. O invasor foi pego e preso. A vida hum ana continuava. As coisas funcionavam m elhor do que nunca, m uito m elhor do que ele poderia esperar naquele som brio Dia dos Nam orados de 1989.
Nem tudo term inou bem . Em agosto de 2005, Robin Cook sofreu um ataque cardíaco num a m ontanha nas Terras Altas escocesas e m orreu.
E sua Ilusão, seu Fantasm a da Liberdade? Em 24 de m arço de 2002, ele levou Padm a ao j antar e festa da Vanity Fair em Holly wood, no dia da entrega do Oscar. Chegaram ao Morton’s e ele viu quando ela posou e fez piruetas para a m uralha de fotógrafos aos gritos, queim ando com a cham a brilhante de sua j uventude e beleza; ele olhou a expressão no rosto dela e de repente pensou: Ela está fazendo sexo, sexo com centenas de homens ao mesmo tempo, e eles não precisam nem tocar nela, não há como um homem competir com isso. E no fim ele a perdeu, sim , m as era m elhor perder as ilusões e viver na consciência de que o m undo era real, e de que nenhum a m ulher podia fazer com que fosse com o ele queria que fosse. Isso dependia dele.
Dois dias depois da cerim ônia de entrega do Oscar, ele voltou a Londres e foi recebido na saída do avião por Nick Cottage, um afável agente da Divisão Especial com um bigode antiquado, que lhe disse que um dos chefões, Bob Sait, ele próprio dono de um belo bigode estilo lorde Kitchener, queria encontrar com ele na m anhã seguinte. “Se eu fosse você”, Nick acrescentou, m isterioso, “faria seus próprios arranj os para o resto do dia.” Ele se recusou a explicar o que queria dizer, m as deu um sorriso enigm ático de oficial da polícia secreta.
Ele foi levado ao Halcy on Hotel, em Holland Park, um elegante edifício rosado, onde havia reservado um a suíte. Jason Donovan recebera de volta sua casa em Pem bridge Mews no fim do ano de contrato. Antes de ir para Los Angeles para a entrega dos prêm ios da Academ ia, ele havia encontrado outra casa em Notting Hill para alugar, em Colville Mews, em frente à butique, que crescia rapidam ente, da j ovem estilista Alice Tem perley. O novo local estaria disponível dentro de um as duas sem anas e ele tinha deixado suas coisas num depósito e feito a reserva no Halcy on para cobrir o intervalo, inicialm ente por duas noites apenas. As férias de Páscoa de Milan iam com eçar no dia seguinte e ele planej ava passar um a sem ana na França com os dois m eninos. Iriam de carro para a casa de am igos em Courtoin, na Borgonha, e depois visitariam Paris e a EuroDisney no cam inho de volta.
Às dez em ponto na m anhã de quarta-feira, 27 de m arço de 2002, Bob Sait e Nick Cottage encontraram -se com ele no Halcy on Hotel. “Bom , Joe”, disse Sait, e corrigiu, “desculpe, Salm an, com o você sabe, estávam os m antendo esta proteção por conselho dos serviços de inteligência até eles sentirem que seria certo baixar a avaliação de risco contra a sua pessoa.”
“Tem sido um pouco estranho, Bob”, ele disse, “porque nos Estados Unidos eu venho agindo com o um a pessoa norm al há anos, m as quando volto para cá vocês insistem em continuar...”
“Então, espero que fique satisfeito”, Bob Sait disse, “de saber que o nível de risco foi reduzido, bem drasticam ente, na verdade, e norm alm ente não oferecem os proteção a ninguém avaliado nesse novo nível.”
O coração dele tinha com eçado a bater m ais forte, m as ele tentou perm anecer com um a aparência controlada. “Sei”, disse. “Então, vocês estão retirando a proteção.”
“Eu só queria lhe dar a oportunidade”, disse Bob Sait, “de dizer se isso seria aceitável. Está de acordo com o que você vem questionando, seria correto dizer isso?”
“Seria”, ele respondeu, “seria, sim , e é aceitável.”
“Gostaríam os de fazer um a festa para você na Yard assim que for conveniente”, disse Nick Cottage. “Para reunir o m áxim o possível dos rapazes que trabalharam com você ao longo dos anos. Foi um de nossos proj etos de proteção m ais longos e há m uito orgulho pelo que foi feito. E um grande reconhecim ento do que você suportou tam bém , m uita gente da equipe disse que achava que não teria aguentado do j eito que você aguentou, então seria bom ter a oportunidade de com em orar, se você concordar.”
“Eu adoraria”, ele disse, o sangue subindo ao rosto.
“Gostaríam os de convidar alguns dos seus am igos próxim os tam bém ”, Nick disse. “Aqueles que tanto aj udaram ao longo dos anos.”
Então não havia m ais nada a dizer. “Então, o que acontece agora?”, ele perguntou. “O que precisa ser feito?” Bob e Nick se levantaram . “Foi um privilégio, Joe, desculpe, Salm an”, disse Bob Sait e estendeu a m ão. “Boa sorte para você, parceiro”, disse Nick. Apertaram -se as m ãos, eles se viraram e foram em bora. Pronto. Mais de treze anos depois que a polícia entrara em sua vida, eles giravam nos calcanhares e saíam . Foi tão abrupto que ele riu alto.
A festa da Divisão Especial realm ente aconteceu logo depois. Um dos agentes que com pareceram foi Rab Connolly, que havia concluído o curso de graduação em literatura pós-colonial que com eçara durante a proteção. “Tenho um a coisa para você”, ele sussurrou com o um vilão de teatro, e escorregou um pequeno obj eto de m etal na m ão dele. “O que é?”, ele perguntou a Rab. “É a bala”, disse Rab, e era. A bala que o pobre Mike Merrill havia disparado acidentalm ente na casa da Bishop’s Avenue ao lim par a arm a. “Essa foi por pouco”, Rab disse. “Achei que ia gostar de guardar com o suvenir.”
* * *
Ele estava parado na porta do Halcy on Hotel, olhando os j aguares da polícia irem em bora. Então se lem brou de que tinha de ir até a im obiliária em Westbourne Grove, assinar os papéis do aluguel da casa em Colville Mews e dar m ais um a olhada no lugar. “Tudo bem , então”, pensou, “lá vai.” Saiu do Halcy on Hotel para a Holland Park Avenue, estendeu o braço e parou um táxi que passava.
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