Joseph Anton: Memórias

Salman Rushdie · Capítulo 10 de 11 · parte 1/3

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Joseph Anton: Memórias

9. Sua ilusão milenarista

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

9. Sua ilusão m ilenarista

 

Às vezes, o am or não bastava. Um ano depois da m orte do m arido, Negin Rushdie descobriu que seu prim eiro m arido, o j ovem bonito que se apaixonara por ela quando era a j ovem Zohra Butt, ainda estava vivo. O casam ento deles não tinha sido arranj ado, m as fora um verdadeiro “casam ento por am or”, e eles não haviam se separado porque pararam de se am ar, m as porque ele não podia ter filhos e a m aternidade era im perativa. A tristeza de trocar o am or de um hom em pelo am or dos próprios filhos não nascidos foi tão profunda que durante m uitos anos ela não falou o nom e dele e seus filhos, quando chegaram e cresceram , nem sabiam de sua existência, até que no fim ela revelou a Sam een, sua filha m ais velha: “O nom e dele era Shaghil”, disse, e ficou verm elha, chorou, com o se estivesse confessando um a infidelidade. Ela nunca o m encionou a seu filho, nunca contou com o ele ganhava a vida ou em que cidade residia. Ele era o fantasm a dela, o fantasm a do am or perdido e, por lealdade a seu m arido, pai de seus filhos, ela sofria, assom brada, em silêncio.

Quando Anis Rushdie m orreu, o irm ão dela, Mahm ood, contou a Negin que Shaghil ainda era vivo, que nunca havia se casado de novo, ainda a am ava e queria vê-la outra vez. Seus filhos a anim aram a entrar em contato. Não havia nenhum im pedim ento entre os dois velhos am antes. O im perativo da m aternidade, evidentem ente, não era m ais um a obstrução. E seria um a tolice deixar que sentim entos ilógicos de deslealdade ao falecido Anis se pusessem no cam inho dela. Não havia por que ela viver sozinha pelo resto da vida — e ela viveu dezesseis anos depois da m orte de Anis —, quando existia a possibilidade de renovar um velho am or e perm itir que ele ilum inasse seus últim os anos. Mas, quando lhe falavam nesses term os, ela dava um pequeno sorriso rebelde e balançava a cabeça com o um a m enina. Naqueles anos da fatwa, ela foi a Londres diversas vezes, ficou na casa de Sam een e ele a visitava sem pre que podia. O prim eiro m arido, Shaghil, ainda era apenas um nom e para ele. Ela ainda se recusava a falar dele, a contar se era um hom em engraçado ou sério, ou o que m ais gostava de com er, ou se cantava, ou se era alto com o seu irm ão varapau Mahm ood ou baixo com o Anis. Em Os filhos da meia-noite, seu filho havia escrito sobre um a m ãe com um prim eiro m arido que não podia lhe dar filhos, m as aquele triste poeta e político, “Nadir Khan”, fora criado pela im aginação do autor apenas. Nenhum traço de Shaghil aparecia nele, a não ser o problem a biológico. Mas agora o hom em real estava escrevendo cartas a ela e, quando ela não sorria com o um a m ocinha boba, apertava os lábios com força e balançava a cabeça, recusando-se a discutir o assunto.

E m O amor nos tempos do cólera, o grande rom ance de Gabriel García Márquez, os am antes Ferm ina Daza e Florentino Ariza se separavam quando ainda m uito j ovens, m as se encontravam de novo no ocaso da vida. Negin Rushdie estava recebendo a oferta de um am or crepuscular assim , m as, por razões que nunca revelou, resistia. Para essa sua resistência tam bém havia um antecedente literário, em A época da inocência, de Edith Wharton: Newland Archer, em seus últim os anos, acom panhado pelo filho adulto, senta-se, paralisado, num a pracinha francesa, debaixo do toldo e do balcão do apartam ento de seu antigo am or, a condessa Olenska, incapaz de subir a escada para vê-la. Talvez ele não quisesse que ela o visse velho. Talvez ele não quisesse vê-la velha. Talvez a lem brança do que ele não tivera a coragem de agarrar fosse esm agadora dem ais. Talvez ele a tivesse enterrado fundo dem ais e não conseguisse m ais exum á-la, e o horror de estar com a condessa Olenska e não sentir m ais o que sentira fosse dem ais para ele suportar.

“É mais real para mim do que se eu subisse”, ele de repente ouviu a si mesmo dizendo; e o medo de que aquela última sombra de realidade pudesse perder a nitidez o manteve enraizado no banco enquanto os minutos iam se sucedendo.

Negin Rushdie não tinha lido nenhum dos dois livros, m as, se tivesse, não acreditaria na feliz reunião de Ferm ina e Florentino, ou m elhor, havia nela algo que não perm itia que acreditasse nesse final. Ela estava im obilizada com o Newland Archer ficara im obilizado, a passagem dos anos a havia bloqueado, e, m uito em bora um a expressão de am or tom asse conta de seu rosto cada vez que o nom e dele era m encionado, ela não conseguia agir sobre o que sentia. Para ela, era m ais real sem ele do que se ele voltasse. Então ela nunca respondeu às suas cartas, nunca telefonou para ele e nunca o viu nos dezesseis anos que lhe restaram . Morreu viúva de seu m arido e m ãe de seus filhos e não conseguiu, ou não quis, escrever um últim o capítulo para a própria história. Às vezes, o am or não bastava.

Anis Rushdie tam bém tinha sido casado antes, com o Negin. Nesse aspecto, eles eram excepcionais para sua classe, lugar e época, que fosse o segundo casam ento de am bos. Da prim eira m ulher de Anis, seus filhos sabiam apenas que era m al-hum orada e que os dois brigavam o tem po inteiro. (Os filhos sabiam que o pai tam bém tinha tem peram ento forte.) E sabiam tam bém de um a grande tragédia. Anis e a prim eira m ulher tinham tido um a filha, sua m eia-irm ã, cuj o nom e nunca foi revelado. Certa noite, a prim eira m ulher telefonou para Anis e disse que a m enina estava m uito doente e podia m orrer, e ele achou que ela estava m entindo, que estava inventando a história com o artifício para atraí-lo de volta, então ignorou o telefonem a e a m enina m orreu. Quando ele soube que a filha estava m orta, correu para a casa da prim eira m ulher, m as ela não deixou que entrasse, em bora ele esm urrasse a porta, chorando.

O casam ento de Anis e Negin perm anecia um m istério para o filho deles. Para as crianças, parecia um a vida infeliz, na qual a decepção sem pre crescente se expressava toda noite em explosões regadas a uísque das quais ela procurava proteger os filhos. Mais de um a vez os filhos m ais velhos, Sam een e Salm an, tentaram convencer os pais a se divorciarem , para que eles, filhos, pudessem gozar da com panhia de cada um sem ter de suportar os efeitos colaterais de sua infelicidade. Anis e Negin não seguiram o conselho dos filhos. Por baixo da desgraça das noites, havia algum a coisa que am bos achavam que era “am or” e, com o am bos acreditavam nisso, podia-se dizer que existia. O m istério que existe no coração da intim idade dos outros, a incom preensível sobrevivência do am or no coração da ausência de ternura: isso foi um a coisa que ele aprendeu com a vida de seus pais.

E tam bém : se seus pais tivessem sido divorciados antes, e depois vivessem vidas “am orosas” infelizes, você cresceria acreditando na im perm anência do am or, acreditando que o am or era m ais som brio, m ais áspero, m enos satisfatório, m enos confortador do que diziam as canções e os film es. E, se isso fosse verdade, então ele, com seus m uitos casam entos rom pidos, que lição estava ensinando a seus filhos? Um am igo um dia lhe dissera que ficar num casam ento infeliz é que era a tragédia, não o divórcio. Mas a dor que ele causara às m ães de seus filhos, as duas m ulheres que o am aram m ais do qualquer outra pessoa, o assom brava. Ele não culpava seus pais por terem dado um m au exem plo. Aquilo era obra dele e sua responsabilidade. Por m ais que a vida o tivesse m achucado, as feridas que infligira a Clarissa e Elizabeth eram piores. Ele am ara as duas, m as seu am or não tinha sido bastante forte.

 

Ele am ara suas irm ãs, e elas se am avam entre elas, m as a m aioria dessas relações tam bém havia se desm anchado. Sam een e ele perm aneceram próxim os. Quando crianças, ele era o m enino bonzinho e ela, a m enina m á. Ele a salvava dos problem as com os pais, e ela batia nos outros por ele. Um dia, o pai de um dos m eninos em quem ela havia dado um soco, um certo Mohan Mathan, foi à casa deles, Villa Windsor, para reclam ar com Anis. “Sua filha bateu no m eu filho!”, ele gritou, indignado, e Anis com eçou a rir. “Se eu fosse você”, ele disse, “baixava a voz antes que todo m undo na vizinhança fique sabendo disso.”

O elo entre eles nunca se enfraqueceu, m as aos poucos foram se dando conta de que sua irm ã Bunno — o nom e de verdade dela era Nevid, m as sem pre fora Bunno em fam ília — se ressentia disso. Ela era cinco anos m ais nova que ele, quatro anos m ais nova que Sam een, e a experiência que vivera na infância fora ser excluída da intim idade dos irm ãos m ais velhos. Ela acabara brigando horrivelm ente com eles e com os pais, tinha ido para a Califórnia e se afastado de todos. Muitas vezes ele sentia dor pela “irm ã perdida”, m as então ela explodiu em sua vida tão violentam ente que ele recuou de novo. A certa altura, ela se convenceu, loucam ente, de que ele e Sam een haviam de algum a form a roubado sua herança e am eaçou expô-lo e denunciá-lo em público. Ele teve de pedir a advogados que a alertassem e depois disso passaram longo tem po sem se falar. A m ais nova da fam ília, Nabeelah, conhecida com o Gulj um , com eçou brilhantem ente com o um a grande beleza e um a talentosa engenheira de estruturas, m as o desequilíbrio m ental que destruiu seu trabalho, seu casam ento, as relações com a fam ília e, por fim , sua vida com eçou a se revelar, ela se pôs a m ascar tabaco, abusar do uso de m edicam entos controlados, a com er, até sua beleza ficar sepultada debaixo de um a m ontanha de gordura e então, chocantem ente, ela foi encontrada m orta em sua cam a e foi assim que aconteceu de a m ais nova deles ser a prim eira a ir em bora.

O am or, em sua fam ília, geralm ente não bastava.

Chegou o décim o aniversário da queim a do livro em Bradford e depois o décim o aniversário da fatwa — Dez anos!, ele pensou, como o tempo voa quando a gente está se divertindo —, e as pessoas de sem pre com eçaram a fazer os barulhos de sem pre. O sr. Shabbir Akhtar, que o The Independent descrevia com o pensador “brilhante”, disse que não queim ariam Os versos satânicos agora porque eles não davam m ais a sensação de “excluídos”. (Nos anos que se seguiram , m uitos m uçulm anos britânicos, inclusive alguns dos m ais zelosam ente hostis, iriam sugerir que a cam panha sobre o rom ance havia sido um erro. Alguns só queriam dizer que tinha sido um erro tático, porque fizera seu autor m ais fam oso e aum entara a venda do livro, m as outros chegavam a dizer que tinham aprendido a im portância de defender a liberdade de expressão.) No Dia dos Nam orados, os m em bros da Guarda Revolucionária iraniana disseram em Teerã que a fatwa “seria cum prida” e Sanei da Recom pensa confirm ou que a “aniquilação” dele ainda estava nos planos. Mas não houve m anifestações, nem reuniões nas m esquitas, nenhum aiatolá m ais velho fazendo serm ões sanguinários. Então a data foi m ais tranquila do que ele tem ia.

Ele continuou pressionando a polícia por m ais liberdade. Agora que Frank Bishop trabalhava para ele, pago por ele, sem dúvida Frank podia assum ir m ais deveres e, a propósito, econom izar bastante para eles? Ele havia aprendido o suficiente sobre a diferença entre “am eaça” e “risco” para saber que o risco ligado à sua aparição sem aviso num a festa particular, num restaurante, teatro ou cinem a era praticam ente nenhum . Não havia razão para envolver toda um a equipe de proteção. Frank podia desem penhar esse papel. Mas eles relutaram em escalar a proteção. Pediram -lhe que deixasse as coisas com o estavam até depois de sua visita de verão a Long Island, e ele concordou, relutante.

O prim eiro furor de 1999 veio depois da concessão do visto indiano. No últim o m inuto, o funcionário que cuidava dos vistos na India House tentou dizer que ele podia receber apenas o visto regular de visitante por seis m eses, e Vij ay Shankardass teve de ir à India House e falar com o alto-com issário Lalit Mansingh, assim com o com o m inistro do Exterior, que por acaso estava em Londres, e eles concordaram em “fazer o que era certo” e conceder o visto de cinco anos ao qual todas as pessoas de origem indiana tinham direito. Ficou decidido tam bém que se visitasse a Índia ele teria direito a proteção da polícia indiana.

Im ediatam ente com eçou a “raiva” m uçulm ana na Índia. O velho e feroz im ã Bukhari, na Jum a Masj id, em Delhi (que dez anos antes havia condenado o “Salm an errado”), vociferou contra a decisão do visto diante de um a m ultidão de 3 m il crentes nas preces de sexta-feira. Ele “estava disposto a m orrer”, disse, para im pedir a visita do sr. Rushdie. Dois dias depois, o Tehran Times previu que ele seria assassinado na Índia. “Talvez a Providência tenha decretado que essa pessoa desavergonhada encontre seu fim onde nasceu.” Na Índia, o único líder não pertencente ao pbj a apoiar a decisão do visto foi o secretário-geral do Partido Com unista da Índia (Marxista). Mani Shanker Aiy ar, do Partido do Congresso, disse que seu partido tinha “toda razão” de banir Os versos satânicos e seu autor e que, se o pbj havia concordado com o visto, devia “assum ir as consequências”. Mas então acrescentou, estranham ente, que, se o sr. Rushdie efetivam ente viesse à Índia, “seria um hóspede e m uito bem recebido”. O im ã Bukhari disse que os m uçulm anos iriam “obj etar de acordo com a Constituição”, m as que, se algum m uçulm ano resolvesse m atar o blasfem o, teria o apoio de todos os m uçulm anos. A escritora Githa Hariharam m andou-lhe um a série de e-m ails didáticos e ideológicos que eram sim plesm ente aborrecidos. Estava claro que um a viagem à Índia teria de esperar até os ânim os esfriarem .

 

Theresa, do escritório de Bono, telefonou. “Alô, Salm an? Tem um a cópia da letra da sua canção, com o é m esm o?, ‘The ground beneath her feet’?” Ah, claro, na verdade ele tinha um a cópia. “Só que daria para m andar para o estúdio im ediatam ente?, eles estão para gravar o vocal e Bono perdeu a letra.” Claro, ele podia fazer isso. Im ediatam ente. Sim .

 

* * *

 

Então, durante algum tem po foi só doença e m édicos e o bater de asas do anj o exterm inador. A prim a de Elizabeth, Carol Knibb, e seu m arido, Brian, foram passar vários dias na Bishop’s Avenue e tarde da noite ele teve o prim eiro vislum bre da cabeça de Carol, calva por causa da quim ioterapia. Sem querer, ele se lem brou da cena de As bruxas, de Roald Dahl, em que as bruxas tiram seus traj es m undanos e “hum anizantes”. Ele gostava m uito de Carol e ficou zangado consigo m esm o por essa reação que era, no m ínim o, vergonhosa. Ela fora consultar Kanti Rai, nos Estados Unidos, e ele a estava tratando, m as não reagira ao tratam ento tão bem com o Edward Said, e o prognóstico não era bom . Mas ainda podia tentar outras coisas, ele disse, resolutam ente alegre.

Iris Murdoch m orreu. Ele com parecera a um alm oço no Arts Council em hom enagem a ela, pouco depois da publicação de seu últim o rom ance, Jackson’s dilemma, um livro arrasado pela crítica. Iris estava deprim ida, ele se lem brou, e dissera a ele que achava que tinha de parar de escrever. “Sem dúvida não por causa de um as críticas ruins”, ele disse a ela. “Você é Iris Murdoch.” “É”, ela respondeu, triste, “m as às vezes as pessoas param de gostar da gente, as ideias acabam e talvez sej a m elhor sim plesm ente parar.” Poucos m eses depois, foi diagnosticada a doença de Alzheim er.

E Derek Fatchett m orreu. Teve um súbito ataque do coração num pub e foi-se em bora. Ninguém tinha trabalhado m ais ou com m ais determ inação para resolver o problem a da fatwa. Tinha apenas 54 anos.

 

Ele estava sofrendo de um a afecção cham ada ptose. Suas pálpebras não se abriam direito e ficavam cada vez m ais baixas, principalm ente a direita. Isso estava com eçando a interferir em sua visão. Se não operasse, chegaria o dia em que não poderia abrir os olhos de j eito nenhum .

Seus olhos velados, de Sleepy LaBeef,a eram sem pre usados com o m etáfora para sua vilania, m as acabaram se revelando apenas um problem a m édico.

O m elhor m édico para a cirurgia de ptose era Richard Collin. Ele atendia no hospital para oficiais King Edward vii, “onde toda a fam ília real fazia suas operações”, disse o sr. Collin, m as quando o escritor indiano estava prestes a entrar na sala disseram que a enferm eira chefe havia se recusado a recebê-lo com o paciente por causa da segurança. A equipe foi falar com ela, felizm ente conseguiu acalm á-la, e a cirurgia foi realizada. Ele sem pre se perturbava de ficar tanto à m ercê do m edo dos outros, a sensação era de um a bofetada, e ele nunca podia devolver o tapa. Na véspera da operação, Clarissa telefonou. Zafar estava decidido a abandonar a faculdade. Ele detestava a escola. Era um a “m erda”. Ele recebera o convite de gerenciar um clube noturno em Londres e esperava prom over concertos. Tinha um am igo com quem pensava organizar um evento no estádio de Wem bley e era essa a vida que queria. Tinha estourado a conta no banco tam bém e era preciso cuidar disso. Estavam am bos m uito preocupados de ele viver, com o disse Clarissa, “nas nuvens”, e a preocupação os aproxim ou outra vez. Zafar precisava de pais fortes e unidos agora. Falaram com o filho e Zafar concordou em desistir da ideia do concerto em Wem bley . Ele não estava contente com aquilo.

 

Quando voltou a si depois da cirurgia, havia um a bandagem sobre seus olhos. Ele cham ou e ninguém respondeu. “Olá?” Cham ou de novo e m ais um a vez e nenhum a resposta. Não sabia onde estava, não enxergava e ninguém falava com ele. Talvez algum a coisa tivesse dado errado. Talvez ele tivesse sido sequestrado. Ou talvez estivesse em algum a antessala do inferno esperando as atenções do diabo. Olá olá olá, nenhum a resposta, alguém me escuta, ninguém escutava, tem alguém aí tem alguém, bem , se estivessem ali não estavam falando nada. Poucos m inutos, ou sem anas, de pânico (literalm ente) cego term inaram quando a voz de um a enferm eira disse que sim , que estava ali, que sentia m uito, Elizabeth tinha acabado de ir para casa dorm ir, eram três da m anhã e ela havia ido ao banheiro. Timing perfeito, ele pensou, eu volto da anestesia exatamente na hora em que a enfermeira tem de dar uma mijada.

De m anhã, o curativo foi retirado e houve outro m om ento bizarro quando suas pálpebras não reagiram adequadam ente ao com ando do cérebro, trem endo loucam ente, e cada um a independente da outra, até que tudo se assentou, ele não estava cego por algum corte acidental, trouxeram -lhe um espelho e seus olhos estavam bem abertos. Talvez o olho direito um pouquinho aberto dem ais. “É”, disse o sr. Collin, “vam os esperar um a sem ana e depois talvez façam os um pequeno aj uste.”

Suas novas pálpebras debutaram num a ocasião triste, m as decididam ente im portante, um a festa na casa de Ruthie e Richard Rogers para com em orar o décim o aniversário de casam ento de Nigella Lawson e John Diam ond. As perspectivas para John eram ruins, piores do que ruins, não havia por que fazer nenhum a outra cirurgia, a quim ioterapia poderia lhe dar algum tem po, m as só isso. Seus am igos se reuniram para com em orar sua vida e John fez um “discurso” que escreveu e proj etou sim ultaneam ente num a alta parede branca, um discurso cuj a característica m ais notável foi fazer todo m undo dar m uita risada.

Enquanto isso, as novas pálpebras estavam exercendo um grande efeito sobre as pessoas. Está de óculos novos? Está tão bem! Tomou sol? Está tão... alegre! Mais tarde, quando a im prensa foi inform ada da história, o The Sunday Times publicou um artigo quase apologético sobre a m aneira com o o tinha visto ao longo dos anos. De repente, o j ornal entendeu que aquele “olhar altivo, arrogante e sinistro de gângster” era produto de um estado degenerativo das pálpebras. Ele parecia “revitalizado, renascido”, disse o artigo. “Com o os olhos enganam .”

Ele teve de ir a Turim , Itália, receber um doutorado honorário, antes de Richard Collin poder aj ustar o olho direito aberto dem ais, e nas fotografias da ocasião ele parecia ligeiram ente dem ente. A viagem correu bem ; dessa vez a polícia italiana foi sim pática, ansiosa por agradar, discreta, m uito diferente dos colegas de Mântua. Seu colega na honraria, John Beum er iii, era m édico de câncer de boca da Universidade da Califórnia em Los Angeles e fez um discurso incrivelm ente apavorante sobre novas técnicas no tratam ento de carcinom as orais, com a língua costurada à bochecha e coisas sem elhantes, e enquanto ele ouvia Beum er pensava: “Nada disso salvou m eu am igo”.

Por coincidência, o presidente Khatam i, do Irã, estava visitando Rom a no m esm o dia, e a im prensa, excitada com a sincronicidade, tirou bom proveito do fato. Khatam i, inevitavelm ente, não acreditou que fosse um a coincidência e “criticou violentam ente” a Europa por apoiar o rom ancista. “Apoiar Rushdie significa apoiar a guerra entre civilizações”, ele disse. “Lam ento m uito que um a pessoa que insultou os sentim entos de m ais de 1 bilhão de m uçulm anos sej a atualm ente elogiada em países europeus.” Era um hom em que dizia não querer um choque de civilizações, m as que depois caracterizava tudo o que desgostava com o “guerra”; um hom em que dizia ser “contra o terrorism o”, m as que isentava atos de violência com o a fatwa, afirm ando que não se tratava de terrorism o, m as de j ustiça. E esse era o hom em “m oderado” em cuj a palavra o governo britânico pedira que confiasse.

 

A data de lançam ento de O chão que ela pisa estava chegando e a turnê pelos Estados Unidos era um problem a. A m aioria das linhas aéreas europeias agora estava disposta a transportá-lo, m as com panhias am ericanas ainda se recusavam a fazê-lo. Ele podia chegar a Nova York e, voando pela Air Canada, chegar até a Costa Oeste, m as o resto do país tinha de ser coberto alugando-se um avião particular. E haveria um custo adicional dos serviços de segurança de Jerry Glazebrook. De algum a form a tinham de arrum ar 125 m il dólares para um a turnê de duas sem anas, e os editores estavam dispostos a investir apenas por volta de 40 m il. Ele falou com Andrew Wy lie e Jerry Glazebrook e conseguiram baixar os custos de segurança para 10 m il dólares, e os vários eventos estavam dispostos a contribuir, no total, com cerca de 35 m il dólares pelas palestras, m ais os custos de segurança. Se ele investisse o que recebera da The New Yorker pelos excertos do livro e os últim os três ou quatro m eses de rendim entos de sua coluna internacional no The New York Times, conseguiriam pagar as contas. Ele estava decidido a fazer a turnê acontecer, então disse a Andrew para concordar, em bora isso significasse para ele sacrificar 80 m il dólares de rendim entos. As críticas inglesas apareceram e foram no geral m uito positivas, e ele não queria sacrificar a edição am ericana.

Não havia por que se deter no que diziam os críticos, gostassem ou não do livro, m as o estranho caso de Jam es Wood m ereceu um a pequena nota de pé de página. O sr. Wood criticou O chão que ela pisa no The Guardian, que tam bém publicou o prim eiro excerto no Reino Unido, e seu artigo foi esplêndido. “Seu novo rom ance é espetacular [...] um a realização considerável, inventivo, com plexo [...] esse rom ance brilhante [...] solto, bem -hum orado, lúdico, transm ite um a alegria criativa, o m ais generoso nessa liberdade e prazer desde Os filhos da meia-noite. Desconfio que virá a ser, m erecidam ente, o livro m ais apreciado de Rushdie.”

 

Bem, obrigado, James, ele pensou. Quando o rom ance foi lançado nos Estados Unidos, o sr. Wood fez um j ulgam ento m ais duro. Ele escreveu outra crítica, na revista The New Republic, um a versão revisada do texto do The Guardian, na qual o “m erecidam ente” sum iu de seu elogio. O livro era agora um a “derrota caracteristicam ente pós-m oderna”, cuj a “sedutora libertinagem não tem um chão sob os pés”. As duas resenhas foram publicadas com um intervalo de apenas sete sem anas. Um crítico que contradizia a si m esm o de acordo com as predileções literárias de seus contratantes talvez devesse dar algum as explicações.

Ele foi a Nova York para dar entrevistas e quase im ediatam ente se sentiu m uito doente. Fez o possível para cum prir a agenda pesada, m as no fim a febre alta o forçou a consultar um m édico. Disseram que estava com um a severa infecção pulm onar, quase um a pneum onia, e se tivesse deixado passar m ais um dia certam ente precisaria ter sido hospitalizado. Com eçou a tom ar antibióticos fortes e de algum a form a conseguiu dar conta das entrevistas. Com pleto o trabalho, ele se sentia trêm ulo, m as m elhorou e foi a um a recepção na casa de Tina Brown, onde se viu num círculo de convidados cuj os outros m em bros eram Martin Am is, Martin Scorsese, David Bowie, Im an, Harrison Ford, Calista Flockhart e Jerry Seinfeld. “Senhor Rushdie”, Seinfeld perguntou, nervoso, “por acaso assistiu ao episódio que fizem os sobre o senhor?” Era o episódio em que Kram er dizia ter visto “Salm an Rushdie” na sauna e ele e Jerry interrogavam o hom em cuj o nom e, “Sal Bass”, eles achavam ser um codinom e para, bem , Salmão. Quando ele garantiu ao sr. Seinfeld que tinha achado o episódio m uito engraçado, o com ediante ficou visivelm ente relaxado.

A turnê por oito cidades dos Estados Unidos transcorreu sem alarm es, exceto pela grande feira com ercial, a BookExpo Am erica, em Los Angeles, que se recusou a recebê-lo. Porém , enquanto estava na cidade, ele foi convidado a visitar a Mansão Play boy, cuj o proprietário era visivelm ente m ais valente que os organizadores da bea. Morgan Entrekin, editor da Grove/Atlantic, tinha publicado o livro The century of sex: Play boy ’s history of the sexual revolution, de Hugh Hefner, e por isso teve perm issão de fazer um a festa para o pessoal dos livros na m ansão. O pessoal dos livros m archou devidam ente Holm by Hill acim a e com em polgação bebeu cham panhe m orno num a tenda no gram ado da Hefnerlândia, sob o tédio term inal do olhar desdenhoso das coelhinhas. No m eio da noitada, Morgan se aproxim ou dele, acom panhado de um a j ovem loira com um lindo sorriso e um corpo im provável. Era Heather Kozar, a Play m ate do Ano recém -eleita, um a m oça m uito j ovem com excelentes m aneiras que, decepcionantem ente, insistia em cham á-lo de sir. “Desculpe, sir, não li nenhum dos seus livros”, ela se desculpou. “Para dizer a verdade, eu não leio m uitos livros, sir, porque fico cansada e durm o.” Sim , sim , ele concordou, m uitas vezes ele tam bém sentia a m esm a coisa. “Mas certos livros, sir”, ela acrescentou, “com o a Vogue, eu tenho de ler para ficar a par do que está acontecendo.”

Ele voltou a Londres e se subm eteu ao aj uste das pálpebras até parecerem norm ais, com em orou o segundo aniversário de Milan e o vigésim o de Zafar e, em seguida, estava com 52 anos. Em seu aniversário, Sam een e as duas filhas foram j antar com ele, Pauline Melville e Jane Wellesley tam bém , e alguns dias depois ele levou Zafar à Center Court, em Wim bledon, para ver Sam pras vencer Henm an na sem ifinal. Se não fosse pelos policiais, a vida pareceria quase norm al. Talvez as velhas nuvens estivessem aos poucos se desm anchando, m as novas nuvens se form avam . “A brecha entre E. e m im , a respeito de m udar para N. Y., está am eaçando nosso casam ento”, ele escreveu em seu diário. “Não vej o saída. Vam os ter de passar tem poradas separados, eu num apartam ento em Manhattan, ela em Londres. Mas com o suportar a separação desse adorável m enino que eu am o tanto?”

Em m eados de j ulho, foram para a casa Grobow em Bridgeham pton, onde ficaram por nove sem anas, e foi durante esse tem po que ele sucum biu à sua ilusão m ilenarista.

Mesm o que não acreditasse que a chegada do m ilênio traria a Segunda Vinda de Cristo, era possível ficar seduzido pela ideia “m ilenarista” de que tal dia, que só ocorria um a vez a cada m il anos, podia inaugurar um a grande transform ação e que a vida — a vida do m undo, m as tam bém dos indivíduos dentro dele — seria m elhor no novo m ilênio que alvorecia. Bem, pode-se esperar, ele pensou.No com eço de agosto de 1999, a ilusão m ilenarista que iria tom ar conta dele e m udar sua vida apresentou-se sob a form a de m ulher, nada m ais, nada m enos que na ilha da Liberdade. Era realm ente risível que ele a tivesse encontrado debaixo da estátua da Liberdade. Na literatura, um a cena dessas pareceria pesadam ente sobrecarregada. Mas a vida real às vezes m artelava sua m ensagem para ter certeza de que você a entendia, e na sua vida real Tina Brown e Harvey Weinstein deram um a festa luxuosa na ilha da Liberdade, para lançar a sua revista Talk, de tão curta vida, e houve fogos de artifício no céu, Macy Gray cantando I try to say goodbye and I choke, I try to walk away and I stumble, e um a lista de convidados que ia de Madonna a ele próprio. Ele não conheceu Madonna nessa noite, senão podia ter lhe perguntado sobre o que sua assistente, Caresse, tinha dito a um produtor de televisão que enviara a ela um exem plar de O chão que ela pisa na esperança de conseguir um com entário favorável da grande dam a — afinal o livro era sobre um a grande estrela do rock im aginária. “Ah, não”, Caresse respondera, “Madonna não leu o livro. Ela picou o livro.” (Quando ele de fato conheceu Madonna com Zadie Sm ith m uitos anos depois, na festa do Oscar da Vanity Fair, ela só falou dos valores das propriedades na área de Marble Arch em Londres e ele não se deu ao trabalho de perguntar sobre o livro picado, porque ele e Zadie estavam fazendo um grande esforço para não rir do j ovem garanhão italiano, alto e lindo, cuj a frase de sedução sussurrada pareceu im pressionar a sra. Ciccone: “Você é italiana, não?”, ele perguntou, chegando m uito perto. “Dá para perceber...”.)

Elizabeth tinha ficado em Bridgeham pton com Milan e ele fora à cidade com Zafar, Martin e Isabel. Havia luzes penduradas nas árvores da ilha da Liberdade, um a brisa fresca de verão vinha do m ar, eles não conheciam ninguém , e quando a luz do dia acabou era difícil m esm o ver quem estava lá, m as tudo bem . Então, debaixo da grande dam a de cobre, ele se viu face a face com Padm a Lakshm i e im ediatam ente se deu conta de que a tinha visto antes, ou sua foto pelo m enos, num a revista italiana na qual ele tam bém aparecera e se lem brou de que tinha pensado: “Se algum dia eu encontrar esta m ulher, estou frito”. No m om ento, ele disse: “Você é aquela linda indiana que tinha um program a na televisão italiana e que voltou aos Estados Unidos para ser atriz”. Ela não podia acreditar que ele soubesse algum a coisa a seu respeito, então com eçou a duvidar que ele fosse quem ela pensava que era e fez com que ele dissesse seu nom e com pleto e então quebrou-se o gelo. Eles conversaram apenas alguns m inutos, m as conseguiram trocar núm eros de telefone e no dia seguinte, quando ele ligou, a linha estava ocupada, porque naquele exato m om ento ela estava ligando para ele. Ele estava sentado em seu carro j unto à baía Mecox, e sentiu, flutuando até ele sobre a água brilhante, o arom a forte de fritura.

Ele era um hom em casado. Sua esposa e o filho de dois anos estavam em casa à sua espera, e, se as coisas tivessem sido diferentes, ele teria percebido a verdade óbvia de que um a aparição que parecia encarnar tudo o que ele esperava do futuro, um a lady Liberty de carne e sangue, tinha de ser um a m iragem e que m ergulhar nela com o se fosse real era cham ar a desgraça para si m esm o, im por um a dor considerável à sua m ulher e colocar um peso inj usto na Ilusão em si, um a am ericana de origem indiana que tinha grandes am bições e planos secretos que nada tinham a ver com a satisfação das necessidades m ais profundas dele.

Seu nom e era um a raridade, um nom e quebrado em dois pelo divórcio de sua m ãe. Ela nascera Padm alakshm i Vaidy anathan, em Delhi (em bora a m aior parte de sua fam ília “tam bram ”, ou tâm il brâm ane, vivesse em Madras), m as seu pai, Vaidy anathan, havia abandonado a ela e à m ãe, Vij ay alakshm i, quando ela estava com um ano. Vij ay alakshm i se desvencilhou rapidam ente do nom e do ex-m arido, separando em dois seu próprio nom e e o da filha. Logo depois ela foi cum prir um com prom isso de enferm agem em Sloan-Kettering, Nova York, depois m udou-se para Los Angeles e casou-se de novo. Padm a só conheceu seu pai quando tinha quase trinta anos. Outra m ulher sem pai. O padrão da vida rom ântica dele continuava a se repetir.

“Você viu um a ilusão e destruiu sua fam ília por ela”, Elizabeth diria a ele, e tinha razão, O Fantasm a da Liberdade era um a m iragem num oásis. Ela parecia conter seu passado indiano e seu futuro am ericano. Ela era livre dos cuidados e preocupações que haviam infernizado sua vida com Elizabeth e que Elizabeth não conseguia deixar para trás. Ela era o sonho de deixar tudo para trás e com eçar de novo — um sonho de peregrino am ericano —, um a fantasia Mayflower m ais sedutora que sua beleza, e sua beleza era m ais brilhante do que o sol.

Em casa, houve m ais um a grande briga sobre coisas que tinham se tornado as coisas sobre as quais sem pre brigavam . A exigência de Elizabeth de ter m ais filhos im ediatam ente, que ele não queria, entrava em choque com seu sonho m eio realizado de liberdade nos Estados Unidos, que ela tem ia, e o levou um a sem ana depois a Nova York, onde, num a suíte do Mark Hotel, Padm a disse a ele: “Existe um a pessoa m á dentro de m im e quando ela aparece sim plesm ente pega tudo o que quer”, e m esm o esse alerta não o fez voltar correndo para o leito m atrim onial. A Ilusão havia se tornado poderosa dem ais para ser dissipada por toda a evidência que a realidade podia prover. Ela não podia ser o sonho que ele sonhava com ela. Seus sentim entos por ele — com o viria a aprender — eram reais, m as interm itentes. Ela era am biciosa de um j eito que m uitas vezes obliterava o sentim ento. Eles teriam um a espécie de vida em com um — oito anos do prim eiro encontro até o divórcio, tem po não desprezível — e no fim , inevitavelm ente, ela partiu o coração dele com o ele havia partido o de Elizabeth. No fim , ela seria a m elhor vingança de Elizabeth.

Foi apenas um a noite. Ela voltou a Los Angeles e ele voltou prim eiro para a Little Noy ac Path e depois para Londres. Estava trabalhando em um a proposta de livro de oitenta páginas, tratam entos para quatro rom ances e um livro de ensaios, que ele esperava fosse fazer dinheiro suficiente para poder com prar sua residência em Manhattan, e as coisas entre Elizabeth e ele continuavam ásperas; m as ele encontrou am igos, recebeu seu doutorado honorário em Liège e ficou feliz de Günter Grass finalm ente ganhar o Prêm io Nobel; e, se conseguiu não se im portar dem ais por não estar na lista dos finalistas do Booker Prize (com o tam bém não estavam o m uito elogiado Vikram Seth e Roddy Doy le), foi porque telefonava para Padm a em seu apartam ento em West Holly wood tarde da noite, e isso o fazia se sentir m elhor do que se sentira em dez anos. Depois, foi a Paris para a publicação de La terre sous ses pieds e ela foi ao encontro dele para um a sem ana de prazer em briagador pontuado por golpes de culpa.

 

Zafar não voltou a Exeter, m as qualquer sentim ento que seus pais tivessem a respeito do assunto de repente se tornaram irrelevantes, porque Clarissa deu entrada no hospital com m ais de um litro de líquido nos pulm ões, resultado de um a séria infecção na região das costelas. Ela vinha reclam ando de agudo desconforto com seu clínico geral j á fazia algum tem po, m as ele não pedira nenhum exam e e disse-lhe que era tudo psicológico. Agora ela queria processá-lo por negligência m édica, m as por trás de suas palavras raivosas crescia um m edo horrível. Fazia quase exatam ente cinco anos que ela fora declarada livre do câncer, e depois de cinco anos a pessoa devia poder relaxar, m as agora ela estava com m uito m edo de que aquela coisa terrível voltasse. Ela telefonou e disse: “Não contei para Zafar, m as pode haver um câncer secundário no pulm ão ou no osso. O raio X está m arcado para a sem ana que vem e, se houver algum a som bra, provavelm ente será inoperável”. Sua voz trem eu e falhou, m as ela se controlou. Estava dem onstrando força, m as depois do fim de sem ana seu irm ão, Tim , telefonou para confirm ar que o câncer tinha voltado. Havia células cancerosas no fluido retirado de seus pulm ões. “Você conta para Zafar?” Sim , ele contaria.

Continuar: parte 2 de 3