Joseph Anton: Memórias
7. Um caminhão de estrume
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
7. Um cam inhão de estrum e
Seu m aior problem a, ele pensava nos m om entos m ais am argos, era não estar m orto. Se estivesse m orto, ninguém na Inglaterra teria de se incom odar com o custo de sua segurança, se ele m erecia ou não tratam ento tão especial por tanto tem po. Ele não teria de brigar pelo direito de entrar num avião, ou de batalhar com oficiais de polícia superiores por m inúsculos increm entos em liberdade pessoal. Não haveria m ais nenhum a necessidade de se preocupar com a segurança de sua m ãe, irm ãs, filho. Não teria m ais de conversar com políticos (grande vantagem ). Seu exílio da Índia não m achucaria. E o nível de estresse seria definitivam ente m enor.
Ele devia estar m orto, m as obviam ente não tinha entendido isso. Essa era a m anchete que todo m undo havia preparado, esperando para rodar. Os obituários estavam escritos. Um personagem num a tragédia, ou m esm o num a farsa trágica, não podia reescrever o roteiro. No entanto, ele insistia em viver e, ainda por cim a, falando, defendendo seu caso, acreditando que não era o ofensor e sim o ofendido, defendendo seu trabalho e tam bém — se desse para acreditar em tal tem eridade — insistindo em conseguir de volta sua vida, centím etro a centím etro, passo a doloroso passo. “O que é o que é: é loira, tem peitos grandes e m ora na Tasm ânia? Salm an Rushdie!” era um a piada popular, e, se ele tivesse concordado em entrar em algum program a de proteção a testem unhas e passasse seus dias tediosos em algum lugar obscuro sob nom e falso, então isso tam bém seria aceitável. Mas o sr. Joseph Anton queria voltar a ser Salm an Rushdie e isso, francam ente, não era bonito da parte dele. Sua história não era um a história de sucesso e certam ente não havia nela lugar para o prazer. Morto, ele podia até receber o respeito devido a um m ártir da liberdade de expressão. Vivo, era um a am olação desagradavelm ente duradoura.
Quando estava sozinho em seu quarto, tentando se convencer de que aquilo não era m ais que a solidão conhecida do escritor trabalhando, tentando esquecer os hom ens arm ados que j ogavam cartas no andar de baixo e sua incapacidade de ir até a porta sem perm issão, era fácil escorregar para a am argura. Mas felizm ente parecia haver um a coisa nele que despertava e recusava essa derrota pouco atraente e cheia de autocom iseração. Ele ordenou a si m esm o lem brar as regras m ais im portantes que tinha feito para si: não aceitar as descrições da realidade feitas pelo pessoal da segurança, políticos e sacerdotes. Em vez disso, insistir na validade de seus próprios j uízos e instintos. Seguir em frente, na direção de um renascim ento, ou ao m enos um a renovação. Renascer com o ele mesmo em sua própria vida: esse era o obj etivo. E, se ele era um “m orto em licença”, bem , os m ortos tam bém tinham suas buscas. Segundo os antigos egípcios, a m orte era um a busca, um a j ornada em direção ao renascim ento. Ele tam bém viaj aria de volta do Livro dos Mortos para o “lum inoso livro da vida”.
E o que poderia ser um a m elhor afirm ação da vida, do poder da vida sobre a m orte, do poder de sua vontade de derrotar as forças orquestradas contra ele, do que trazer ao m undo um a nova vida? De repente, ele estava pronto. Disse a Elizabeth que concordava; deviam tentar ter um filho. Todos os problem as continuavam existindo, as questões de segurança, a translocação crom ossôm ica recíproca, m as ele não se im portou. A nova vida im poria suas próprias regras, insistiria naquilo que precisasse. Sim ! Ele queria ter um segundo filho. Em todo caso, não teria sido certo im pedir Elizabeth de ser m ãe. Eles estavam j untos havia três anos e m eio, e ela o am ara e apoiara com todo o coração. Mas agora não era só ela que queria um filho. Depois que disse sim, vamos ter, ela não conseguia parar de rir para ele, de abraçá-lo e beij á-lo a noite inteira. No j antar, tom aram um a garrafa de Tignanello para com em orar, em m em ória de seu prim eiro “encontro”. Ele sem pre brincava com Elizabeth que ela, naquela noite na casa de Liz Calder, tinha “dado em cim a dele” depois do j antar. “Ao contrário”, ela dizia, “você deu em cim a de mim.” Agora, estranhos três anos e m eio depois, estavam em sua própria casa, depois de um a boa refeição, term inando um a garrafa de bom vinho tinto toscano. “Acho que você pode dar em cim a de m im outra vez”, ele disse.
O ano de 1994 com eçou com um a rej eição. O The New York Times retirou o convite para distribuir um a coluna internacional. A agência francesa do serviço de notícias reclam ou que sua equipe e escritórios correriam perigo. Não estava claro se os proprietários do j ornal sabiam , ou se tinham aprovado a decisão. Dois dias depois, estava claro que os Sulzberger sabiam do fato e que o convite havia sido definitivam ente retirado. Gloria B. Anderson, a chefe da agência em Nova York, lam entou não poder fazer nada. Ela disse a Andrew que havia feito o convite inicialm ente por razões estritam ente com erciais, m as desde então com eçara a ler Rushdie e agora era sua fã. Isso era bom , m as inútil. Mais de quatro anos se passariam antes que Gloria telefonasse outra vez.
A Operação Malaquita era o m elhor serviço de proteção. Os outros m em bros do Esquadrão “A” cham avam -na de “trabalho glorioso” e, em bora os veteranos da operação Bob Maj or e Stanley Doll m odestam ente desdenhassem a ideia, ela era com pletam ente verdadeira. A Operação Malaquita, na opinião dos colegas oficiais, fazia o trabalho m ais perigoso e m ais im portante. Os outros “apenas” protegiam políticos. A Malaquita defendia um princípio. Os policiais entendiam isso claram ente. Era um a vergonha o país fazer confusão. Em Londres, havia dois parlam entares tóris prontos para fazer perguntas à Câm ara dos Com uns sobre o custo da proteção. Estava claro que a m aioria dos parlam entares conservadores acreditava que a proteção era um desperdício de dinheiro e queriam que fosse encerrada. Ele tam bém queria, gostaria de dizer a eles. Ninguém estava m ais ansioso que ele para recuperar um a vida norm al. Mas o novo encarregado da Operação Malaquita, Dick Wood, lhe disse que a inteligência iraniana “ainda estava tentando m ais do que nunca” encontrar seu alvo. Rafsanj ani tinha aprovado a questão havia m uito tem po e os assassinos não precisavam m ais lhe prestar contas. Isso continuava a ser a principal preocupação deles. Logo depois, Stella Rim ington, chefe do m i5, disse na palestra Dim bleby, evento anual da bbc, que “aparentem ente os esforços determ inados para localizar e m atar o autor Salm an Rushdie vão continuar”.
Estava na hora da festa da Divisão Especial outra vez. Elizabeth tentou encantar John Maj or, m as ele não deu atenção, “não deu nenhum a entrada a ela”, para usar um a das frases favoritas de Sam een. Ela ficou chateada e disse: “Sinto que falhei com você”, o que era ridículo, claro. Maj or de fato prom eteu a Frances D’Souza que faria um a declaração em 14 de fevereiro, de form a que pelo m enos isso foi conquistado nessa noite. E o secretário do Interior, Michael Howard, foi sim pático tam bém . No m eio da festa, seus protetores os levaram num a turnê pelos andares da Divisão Especial. Viram a “sala reservada”, onde o oficial de plantão o deixou dar um a olhada no “Livro dos Malucos” e atender um telefonem a sórdido de um m aluco. Viram o departam ento de registros no 19o andar, com um a linda vista de Londres, os arquivos secretos, que não puderam abrir, o livro que continha as palavras código atuais do ira, que, quando usadas, significavam que o anônim o que ligara estava alertando para um a bom ba de verdade. Era interessante que, apesar da inform atização, tanta coisa ainda fosse m antida em caixinhas de arquivo.
Depois da festa, a equipe levou Elizabeth e ele para um drinque no bar favorito da polícia, o Exchange. Ele se deu conta de que todos tinham ficado m uitos próxim os. No fim da noite, alertaram -no de que havia um “bandido bem im portante e experiente” na cidade, queriam “ser francos” com ele e dizer que precisariam ser “extracuidadosos” durante alguns dias. Um a sem ana depois, ele soube que o “bandido” estivera treinando outros bandidos para m atá-lo, despertando-os de seu sono bandido. Então agora havia diversos bandidos em ação à procura dele, para fazer aquilo que bandidos são ativados para fazer.
O quinto aniversário da fatwa estava chegando. Ele telefonou para Frances e fez as pazes com ela e Carm el, m as estava m uito pouco propenso naquele m om ento para continuar a cam panha. Nesse ano, seus am igos fizeram o possível para se encarregar de parte da carga. Julian Barnes escreveu um artigo fantástico na revista The New Yorker, inteligente e bem pesquisado, um a análise do que estava acontecendo escrita por alguém que o conhecia e gostava dele. Christopher Hitchens escreveu na London Review of Books e John Diam ond escreveu num tabloide, para com bater em seu próprio cam po a tentativa dos tabloides de descaracterizar o assassinato. O dram aturgo Ronald Harwood teve um encontro em seu favor com o secretário-geral da onu, Boutros Boutros-Ghali. “Bu-Bu foi m uito sim pático”, Ronnie lhe disse. “Ele perguntou se os britânicos tentaram os bastidores da diplom acia através dos indianos e dos j aponeses, porque os iranianos davam ouvidos a eles.” Ele não soube responder, m as desconfiava que a resposta fosse Não. “Ele disse que, se os britânicos quiserem que ele tente fazer isso, Douglas Hurd terá de solicitar form alm ente.” Ele se perguntou por que isso não tinha sido feito.
Nesse m eio-tem po, por toda a Europa, com a aproxim ação do aniversário, a cobertura era solidária. Fora da Grã-Bretanha, ele era visto com o agradável, engraçado, talentoso e digno de respeito. Foi fotografado pelo grande William Klein e depois Klein m encionou a Caroline Michel o quanto havia gostado da foto: “Ele é tão interessante e engraçado”. “Se ao m enos eu pudesse encontrar todo m undo em pequenos grupos”, ele disse a Caroline, “talvez pudesse pôr um fim a todo esse ódio e desprezo. Está aí: um a solução talvez sej a um j antar íntim o entre eu, Kham enei e Rafsanj ani.” “Vou tratar disso im ediatam ente”, disse Caroline.
O Parlam ento Internacional de Escritores, em Estrasburgo, elegeu-o presidente e pediu que escrevesse um a espécie de declaração de intenção. “Nós [escritores] som os m ineiros e j oalheiros”, ele escreveu, em parte,
sinceros e m entirosos, bufões e com andantes, vira-latas e bastardos, pais e am antes,
arquitetos e dem olidores. Som os cidadãos de m uitos países: o país finito e com fronteiras
da realidade observável e da vida cotidiana, os estados unidos da m ente, as nações
celestiais e infernais do desej o, e a república desim pedida da língua. Juntos constituím os
um território m uito m aior do que o governado por qualquer poder terreno; no entanto as
defesas contra esse poder podem parecer m uito fracas. O espírito criativo é m uito
frequentem ente tratado com o um inim igo por aqueles potentados poderosos ou m esquinhos
que se ressentem de nosso poder de construir im agens do m undo que entram em choque
com , ou solapam , sua visão m ais sim plória e m enos generosa. O m elhor da literatura
sobreviverá, m as não podem os esperar que o futuro a liberte das correntes do censor.
A grande realização do Parlam ento de Escritores foi a fundação da Rede Internacional de Cidades-Refúgios, que nos quinze anos seguintes cresceria até incluir m ais de trinta cidades, de Liubliana à Cidade do México, passando por Am sterdam , Barcelona e Las Vegas. As nações m uitas vezes tinham razões para não dar asilo a escritores perseguidos — os Ministérios do Exterior inevitavelm ente tem iam que, digam os, dar as boas-vindas a um escritor chinês perseguido pudesse descarrilar um acordo com ercial —, m as, em nível urbano, prefeitos m uitas vezes consideravam pouco arriscada essa iniciativa. Não custava m uito prover um escritor am eaçado com um pequeno apartam ento e um estipêndio básico por alguns anos. Ele tinha orgulho de estar envolvido na gênese do esquem a e sem dúvida sua assinatura nas cartas que o Parlam ento enviasse fariam um a diferença. Ele ficou contente de poder usar seu próprio nom e, que havia adquirido um a espécie de fam a estranha, som bria, para beneficiar outros escritores que precisavam de aj uda.
Em 14 de fevereiro essa “declaração” apareceu no The Independent. Ele estava preocupado com a possibilidade de que esse j ornal, com seu histórico de conciliação com os m uçulm anos, conspirasse para conferir algum tipo de tom negativo ao texto, e foi o que aconteceu. No Dia dos Nam orados ele acordou e descobriu seu texto na página 3, ao lado de um a notícia sobre o aniversário, enquanto toda a página de editoriais foi entregue ao texto da detestável Yasm in Alibhai-Brown sobre a fatwa e com o esta havia produzido m uitos resultados bons, positivos, perm itindo que a com unidade m uçulm ana britânica ganhasse um a identidade e um a voz. “Não fosse aquele fatídico 14 de fevereiro de 1989”, ela escreveu, “o m undo estaria correndo descontroladam ente para o direito inalienável de usar calças j eans e com er ham búrgueres do McDonald’s.” Que bom que Khom eini estim ulava um novo debate sobre os valores islâm icos e ocidentais, ele pensou; com pensava até transform ar alguns escritores em ham búrgueres.
“Feliz aniversário!” O fato de os am igos telefonarem para dar os parabéns em seu dia especial havia se transform ado em um a tradição de hum or negro. Elizabeth fez para ele um elaborado cartão de Dia dos Nam orados, m isturando o rosto dela com o de Frida Kahlo. Hanif Kureishi ia para o Paquistão e concordou em levar um a carta para a m ãe do aniversariante em Karachi. Caroline Lang telefonou de Paris para dizer que o m inistro do Interior durão Charles Pasqua tinha sido convencido a concordar que o sr. Rushdie pernoitasse na França, não apenas em residências particulares, com o tam bém em hotéis. (Pasqua depois seria condenado pela venda ilegal de arm as a Angola e receberia a sentença de um ano de prisão que fora suspensa. O m inistro do Exterior belga, Willy Claes, foi condenado por aceitar propina. Assim era o m undo político. Relativam ente poucos rom ancistas eram culpados das form as m ais lucrativas de corrupção.)
As cam panhas dos dois anos anteriores deram fruto na form a de declarações de líderes m undiais. Dessa vez, John Maj or usou palavras fortes num a declaração: Nós todos queremos deixar claro ao governo iraniano que ele não pode gozar de relações plenas e amigáveis com o resto da comunidade internacional a menos e até que [...],e o líder da oposição, John Sm ith, disse: Condeno inteiramente [...] é intolerável que [...] apelo ao governo iraniano que [...], e Ase Kleveland, m inistro da Cultura norueguês, disse: Vamos intensificar nossos esforços de oposição e exigimos que a fatwa seja repelida, e Dick Spring, da Irlanda, disse: Inaceitável e séria violação, e o m inistro do Exterior canadense, André Ouellet, disse: O fato de Rushdie ter sobrevivido é uma esperança de liberdade para o mundo.
Meio m ilhão de exem plares do panfleto de Auster-DeLillo (para o qual se levantou dinheiro afinal) foi distribuído naquele dia. Pour Rushdie foi publicado nos Estados Unidos com o título de For Rushdie. E Frances e Carm el levaram Michael Foot, Julian Barnes e outros à em baixada iraniana para entregar um a carta de protesto, m as não conseguiram agendar a presença de nenhum j ornalista. Carm el tam bém disse à rádio bbc que a fatwa havia sido am pliada para atingir tam bém a fam ília e os am igos dele. Era um a observação equivocada, inexata e fora de propósito, que podia pôr em risco as pessoas m ais próxim as a ele. Clarissa estava ao telefone um m inuto depois da transm issão, para perguntar o que estava acontecendo. John Diam ond ligou em seguida e ele teve de trabalhar duram ente o resto do dia para convencer a bbc a transm itir um a retratação.
Gillon vinha tentando arranj ar a im pressão e distribuição da edição em brochura de Versos na Grã-Bretanha e inform ou que conseguira. Bill Norris, chefe da distribuidora Central Books, da qual a Troika Books era a divisão literária, ficou contente de assum ir a tarefa, anim ado e sem m edo. A Central Books distribuía literatura antifascista e, conform e disse Norris, estava sem pre recebendo am eaças por isso. Seu prédio j á tinha proteção. Mas seu interesse estava na prom oção do livro, não no escândalo. Ele respirou fundo e disse sim . Vamos fazer isso. Vamos desafiar os filhos da puta.
Sentiu intensam ente que a literatura era um a terra que ele não habitava fazia algum tem po. Quase quatro anos haviam se passado desde que term inara Haroun e o mar de histórias, e sua escrita continuava indo m al, ele não conseguia se concentrar, estava com eçando a entrar em pânico. Pânico podia ser um a coisa boa, j á o tinha levado a trabalhar antes, m as aquele era o m ais longo — sim , ele ia usar o term o — bloqueio de escritor de toda a sua vida. Ele estava apavorado e sabia que tinha de superar aquilo. Março seria o m ês do vai ou racha. Frances Coady, a editora britânica da Random House, havia sugerido “quem sabe um livrinho de contos para segurar as pessoas” e isso podia ser um a volta. O que im portava era escrever e ele não estava escrevendo. Não de verdade. Nada.
Tentou fazer um esforço para se lem brar com o era ser escritor, obrigou-se a redescobrir hábitos de um a vida inteira. A inquirição interior, a espera, a confiança na tram a. A descoberta lenta ou rápida de com o cortar o corpo do m undo ficcional, onde penetrá-lo, que j ornada fazer dentro dele e com o sair. E a m agia da concentração, com o cair num poço profundo ou num buraco no tem po. Cair dentro da página, procurar o êxtase que vinha tão raram ente. E o trabalho duro da autocrítica, o áspero interrogatório de suas frases, usando o que Hem ingway cham ava de detector de merda. A frustração de topar com os lim ites do talento e do entendim ento. “Abra o
universo um pouco m ais.” Sim ; ele era o cachorro de Bellow.a
Um a notícia estranha: foi revelado que ele recebera o Prêm io Estatal Austríaco para Literatura Europeia dois anos antes, m as o governo austríaco im pedira a divulgação da inform ação. Agora havia um tum ulto e protestos na m ídia austríaca. O m inistro da Cultura austríaco, Rudolf Scholten, adm itiu que tinha sido ingênuo e pediu para falar com o dr. Rushdie pelo telefone. Quando o dr. Rushdie ligou para ele, o m inistro foi sim pático e se desculpou: tinha sido um erro e todos os arranj os seriam logo providenciados. O m istério do prêm io “secreto” da Áustria foi noticiado em toda a Europa. Nenhum j ornal britânico achou que valesse a pena noticiar, porém . Mas o bom e velho The Independent publicou um artigo com parando a coraj osa decisão de Taslim a Nasreen de viver “abertam ente” (isto é, ela não podia sair de seu apartam ento fortem ente protegido o dia inteiro, só se aventurando a sair sob a capa da noite num carro de vidros escurecidos) com o desej o do autor de Os versos satânicos de continuar “escondido” (o que envolvia lutar por sua liberdade com as lim itações da polícia e m esm o assim sair em plena luz do dia para lugares públicos, sendo alvo de críticas).
No m undo das som bras dos assassinos fantasm as, o m inistro do Exterior iraniano Ali Akbar Velay ati estava dizendo que a fatwa não podia ser revogada. Na verdade, Velay ati falou em Viena, e quase im ediatam ente a polícia estava dizendo ao alvo principal da fatwa que seu plano de visitar aquela cidade para receber o Prêm io Estatal era “perigoso dem ais”. Gente dem ais sabia dem ais a respeito. Dick Wood disse que a posição oficial do Foreign Office era que seria bobagem dele ir. Mas a decisão final cabia a ele, em bora “soubessem ” que “algum a coisa estava planej ada”. Ele disse que não queria ser apavorado, não queria fugir de som bras, e Dick, falando no âm bito pessoal, disse que concordava. “Leva tem po para planej ar um atentado e eles não tiveram tem po suficiente.”
Em Viena, Rudolf Scholten e sua esposa, Christine, um a m édica, receberam -nos com o velhos am igos. O chefe de segurança disse que “certas atividades” do centro cultural islâm ico eram suspeitas e que, infelizm ente, sua liberdade teria de ser restringida. Não puderam andar na rua, m as m ostraram -lhes a cidade do alto do Burgtheater, cuj o diretor, Claus Pey m ann, um suj eito boêm io e grandalhão, o convidou para voltar logo e realizar um evento ali. Foram levados de carro pelos bosques de Viena — adoráveis, escuros e profundos com o os bosques do fam oso poem a “alucinatório” de Robert Frost —, m as ele não teve perm issão para sair do carro, o que transform ava o bosque em algo ainda m ais alucinatório. Depois do j antar, Elizabeth ficou com os Scholten, m as ele foi levado de helicóptero até o quartel-general da Divisão Especial austríaca, nos arredores de Viena, e passou a noite lá. Milhas a percorrer antes de dormir. Um hom em que estivera observando o prédio de apartam entos dos Scholten foi seguido e entrou na em baixada do Iraque, não do Irã. Portanto ele devia ser da pm oi, cuj o quartel-general ficava no Iraque. (Saddam Hussein oferecia voluntariam ente um abrigo seguro aos inim igos de seu inim igo Khom eini.) No dia seguinte, a polícia austríaca circundou-o em form ação de falange e acom panhou-o até o interior do salão onde seria realizada a cerim ônia de entrega do prêm io. Helicópteros da polícia zuniam no céu. Mas tudo transcorreu sem incidentes. Ele recebeu seu prêm io e foi para casa.
De volta a Londres, teve um a conversa, altas horas da noite, com o chefe do contraterrorism o am ericano, Robert Gelbard, que disse ter inform ações “perturbadoras e específicas” sobre continuados “esforços” contra ele da parte dos iranianos, “sinal da frustração deles”, disse, “m as, com o isso é um a coisa nova, você ainda vai ficar sabendo m ais”. Termine esse bendito romance, Salman, ele dizia a si m esm o. Pode ser que não lhe reste muito tempo. O The Observer publicou um artigo descrevendo um conflito entre Rafsanj ani e Kham enei a respeito do caso Rushdie. Rafsanj ani queria abolir a Fundação 15 Khordad, base da força de Sanei da Recom pensa, e proibir o uso de esquadrões da m orte. Mas Kham enei im pediu am bos os m ovim entos e reiterou a fatwa. Nada m udou.
Na Noruega, o sindicato de escritores anunciou que ele seria o convidado de honra de sua conferência anual em Stavanger. O chefe da associação m uçulm ana local, Ibrahim Yildiz, disse que, se Rushdie fosse a Stavanger, ele o m ataria. “Se eu encontrar as arm as e tiver a oportunidade, não deixarei que escape.”
Ele vinha dando pela falta de pequenas som as de dinheiro da gaveta da escrivaninha onde m antinha os trocados — e aquela casa tinha quatro policiais arm ados! — e não sabia o que pensar. Então, Clarissa ligou para dizer que o extrato do banco de Zafar m ostrava m uito dinheiro e retiradas altas. Zafar disse a ela que um rapaz da escola (cuj o nom e não citava) tinha “vendido um a coisa de casa que não devia ter pegado” e pedira que ele guardasse o dinheiro. Isso era evidentem ente m entira. Ele disse tam bém a Clarissa que tinha “repassado com papai as entradas e saídas da conta”, m as não fizera isso. Segunda m entira.
Eles decidiram im por sérias sanções. A conta seria fechada, ele não teria acesso ao dinheiro dela e a m ais nenhum a m esada enquanto não contasse o que realm ente estava acontecendo. Meia hora depois — quem disse que sanções econôm icas não funcionam ? — Zafar confessou. Vinha surripiando dinheiro da gaveta da m esa do pai. O barco inflável que ele queria custara m uito m ais do que achava que ia custar, 250 libras, não 150, e havia outras despesas, coisas que ele precisava ter a bordo do barco, e levaria séculos econom izar o dinheiro, ele queria m uito o barco. Recebeu um castigo severo — nada de tv, a conta bancária fechada, teria de devolver trinta libras por m ês de sua m esada de cinquenta libras m ensais e não poderia usar o barco (um inflável Mirror, que ele j á havia com prado, e só agora os pais descobriam ) até que tivesse pagado por ele honestam ente. Clarissa e ele esperavam que esse episódio chocasse Zafar e o devolvesse à honestidade. Mas ele tinha de aprender tam bém que os pais haviam confiado absolutam ente nele e que agora precisava conquistar de volta essa confiança. Ao m esm o tem po, ele não podia duvidar de seu am or, que era incondicional. Zafar pareceu aterrorizado e cheio de vergonha. Não quis discutir o castigo.
Cinco dias depois, Elizabeth descobriu que sua j oia m ais preciosa, a pulseira talism ã de ouro que pertencera a sua m ãe, tinha desaparecido do esconderij o, um a caixa dentro de outra caixa dentro de seu arm ário de roupas. Nada m ais sum ira. Ele pediu que ela desse um a busca, m as ela parecia ter concluído que Zafar a pegara. Deu um a busca pela m etade e não encontrou a j oia. Zafar estava dorm indo em seu quarto e ela insistiu que ele fosse acordado e questionado. Ele im plorou a ela que revirasse a casa de pernas para o ar prim eiro, m as ela disse que tinha procurado e a j oia não estava lá. Então ele teve de acordar o filho e acusá-lo, em bora todo o instinto que possuía lhe dissesse que aquele filho seu não poderia ter feito um a coisa dessas, ele não sabia onde Elizabeth guardava suas j oias e negava ter feito qualquer coisa. E, quando o rapazinho estava deitado em sua cam a, acordado e absolutam ente infeliz no m eio da noite, Elizabeth encontrou a pulseira, que estivera lá o tem po todo.
Então ele é que ficou envergonhado diante do filho. E entre ele e Elizabeth caiu um a som bra que não se desfez depressa.
Estavam na casa de Ronnie e Natasha Harwood, que com em oravam 35 anos de casados, e o j uiz Stephen Tum im , inspetor chefe das prisões de Sua Maj estade, um cavalheiro rubicundo e risonho, que o ira recentem ente havia prom etido m atar, estava conversando sobre a proteção, e com o era ser forçado pela Divisão Especial a deixar sua casa de trinta anos. A esposa dele, Winifred, contou que tinha sofrido um colapso nervoso. Ela ia à casa, com escolta policial, para pegar as coisas de que precisava, e ver as cam as arrum adas e saber que nunca m ais ninguém dorm iria nelas a fazia sentir-se, disse, com o um m orto em visita. Os dois foram vitim ados pela tristeza e a pior parte era não saber quando aquilo ia term inar. “É com o os condenados a prisão perpétua”, disse o j uiz Tum im . “Quando alguém é detido à disposição de Sua Majestade, nunca sabe por quanto tem po será. Isto é um a condenação perpétua tam bém , ou algo m uito parecido.” Stephen e Winifred tiveram de ficar no quartel m ilitar na Albany Street, perto de Regent’s Park, onde ele e Elizabeth quase foram confinados. Mas fizeram por Stephen coisas que nunca foram oferecidas a eles. O Estado concordara em avaliar e com prar a casa dele, porque, com o disse o bom j uiz, “gente sob proteção não consegue encontrar ninguém idiota o bastante para com prar sua casa”. “Eu encontrei”, ele replicou, e Ronnie Harwood disse, com um sorriso travesso: “É, é m eu editor, Robert McCrum ”.
Tum im era um conversador m aravilhoso. Ele havia conhecido o notório serial killer Dennis Nilsen ao visitar um a prisão e ficara “um pouco alarm ado” quando Nilsen pediu para falar com ele a sós. “Mas ele só queria se exibir porque tinha virado um hom em m uito culto.” Nilsen fora preso porque o esgoto de sua casa entupiu com carne e vísceras hum anas. Ele m atara ao m enos quinze hom ens e m eninos e fazia sexo com seus corpos m ortos. Tum im achou Nilsen “m uito sinistro”, o que parecia provável. Ele e Tum im tinham tido os m esm os agentes de proteção e fofocaram um pouco sobre eles. “Trabalho perfeito para acobertar um caso extraconj ugal”, Tum im concordou. “Não posso contar onde vou, querida, nem quando volto, é tudo confidencial, sabe. Todos têm casos, naturalm ente. Nós provavelm ente tam bém teríam os.” Ele contou para Tum im a história do agente de proteção bígam o. “São hom ens m uito bonitos, sabe?”, disse o j uiz, com preensivo.
Por fim , Tum im com eçou a se sentir seguro quando o diretor da prisão Maze, em Long Kesh, Irlanda do Norte, onde o hom em do ira Bobby Sands havia m orrido num a greve de fom e contra as condições do “bloco H”, lhe contou que ele não estava m ais na lista negra do ira. Tinha estado, m as agora havia sido rem ovido. “O pessoal da inteligência não sabe m uito, de fato”, disse ele. “Mas se eu m e recusasse a sair de casa provavelm ente teria levado um tiro. Eu tinha o costum e de sentar à j anela e olhar o rio lá em baixo, e do outro lado do rio havia uns arbustos, perfeitos para um atirador. Eu seria um alvo fácil com o um pato. Os m eninos da proteção m e diziam : Toda vez que o senhor for ao jardim, vai se perguntar se não há um atirador nas moitas. Mas agora está tudo bem .”
Ronnie contou no dia seguinte que o j uiz agora fazia piada sobre essa época, m as que ela tinha sido um m om ento terrível para ele e sua fam ília. Um a das filhas de Tum im , insatisfeita de estar num a casa cheia de hom ens arm ados, com eçara a deixar recados em cada côm odo, proibido fum ar e outras instruções. A perda de privacidade e espontaneidade era o m ais difícil de tolerar. Tinha sido m uito bom falar com alguém que passara pelo que ele estava passando e saber que um a história dessas podia ter um final feliz. Elizabeth e Winifred Tum im haviam reclam ado um a com a outra do peso das portas dos carros blindados. Não havia m uita gente com que se podia falar disso. “Faz a gente ficar gostando m uito m ais da polícia”, dissera o j uiz, “ser m uito m enos tolerante com os canalhas. No m eu caso, o ira. Você tem de aguentar outros canalhas, nem todos m uçulm anos.”
O sr. Anton detectou um a m udança na atitude da polícia em relação à Operação Malaquita. Por um lado, eles planej avam instituir um a “vigilância secreta” da casa de Zafar e Clarissa, e ele ficou contente, porque sem pre se preocupara que a Burm a Road ficasse sem nenhum a atenção. Dick Wood disse que ele talvez tivesse de “m udar de equipe” quando saísse, m esm o para ir ao cinem a, porque não queria que os rostos das pessoas que ficavam na casa da Bishop’s Avenue se tornassem m uito conhecidos. Por outro lado, para o próprio beneficiário da Malaquita a m elhor atitude era sair. O agente de proteção Tony Dunblane confidenciou: “Pessoalm ente sinto que nós, da divisão, não devíam os fazer o serviço dos iranianos para eles m antendo você trancado”. Logo depois, seu superior Dick Wood concordou. “Tenho a im pressão”, disse Dick, “de que há m ais de três anos você está sendo tratado com o um a criança m alcriada.” Muitas restrições com as quais o sr. Greenup insistira eram desnecessárias. “Então, veja você”, ele replicou. “Três anos e pouco da minha vida mais desagradáveis do que era preciso porque Greenup não gostava de mim. Eu tinha de batalhar cada centímetro.” “Não sei com o você aguentou”, disse Dick. “Nenhum de nós aguentaria.”
Helen Ham m ington abrandara tam bém e estava disposta a aj udar o beneficiário da Malaquita a ter um a vida ligeiram ente m elhor. Talvez todos os seus encontros com líderes m undiais tivessem aj udado a m udar a atitude dela. Talvez seus próprios argum entos tivessem finalm ente surtido algum efeito. Ele não perguntou.
Em 1982, ele havia visitado um a velha sinagoga em Cochin, Kerala, um a pequena j oia revestida de ladrilhos de cerâm ica azul da China (ladrilhos de cantão & não há dois iguais, dizia um a placa). A história da com unidade quase extinta de j udeus do Kerala estim ulou sua im aginação e ele foi falar com o pequeno zelador da sinagoga, um velho cavalheiro com um belo nom e do sul da Índia, Jackie Cohen, e crivou-o de perguntas.
Depois de alguns m inutos, o sr. Cohen ficou im paciente. “O que tanto quer saber?”, o velho zelador queixoso perguntou. “Bem ”, ele replicou, “sou escritor e talvez escreva algum a coisa sobre este lugar.” Jackie Cohen sacudiu um a m ão ossuda, dispensando-o. “Não precisa”, disse, um pouco altivo. “Já tem os um folheto.”
Ele havia feito um diário de sua visita ao Kerala e algum instinto de escritor lhe dizia para não desperdiçá-lo. Agora aquele diário, resgatado da St. Peter’s Street, m ostrava-lhe o cam inho de volta para seu trabalho. Debruçou-se sobre ele dia após dia, lem brando-se da beleza do porto de Cochin, dos arm azéns de pim enta que guardavam o “ouro negro de Malabar” e dos im ensos abanos da igrej a onde Vasco da Gam a havia sido enterrado. Enquanto cam inhava pelas ruas do bairro j udeu em sua m ente, o trecho de Cochin de O último suspiro do mouro com eçou a ganhar vida. Aurora Zogoiby e seu filho Moraes, o Mouro, o guiaram por seu m undo.
Seu pesadelo fora longo e a literatura, difícil de retom ar. Todos os dias ele pensava em William Ny gaard e seus buracos de bala, em Ettore Capriolo chutado e esfaqueado, em Hitoshi Igarashi m orto num a poça de sangue no elevador. Não só ele, o autor sem -vergonha, com o o m undo dos livros — a literatura em si — tinham sido vilipendiados, alvej ados, chutados, esfaqueados, m ortos e culpados ao m esm o tem po. No entanto, a vida real dos livros era profundam ente diferente desse m undo de violência, e nele ele redescobriu o discurso que adorava. Em ergiu de sua alienada realidade cotidiana e m ergulhou em Aurora, seu glam our, seus excessos boêm ios, suas pitorescas contem plações de langor e desej o, com o um hom em esfaim ado num banquete.
Ele havia lido um a história sobre Lênin contratar sósias para viaj ar pela União Soviética fazendo os discursos que ele não tinha tem po de fazer, e pensou que seria engraçado se, no Kerala, onde o com unism o era popular, os leninistas locais resolvessem contratar Lênins indianos para fazer a m esm a coisa. Lênin Alto Dem ais, Lênin Baixo Dem ais, Lênin Gordo Dem ais, Lênin Magro Dem ais, Lênin Manco Dem ais, Lênin Calvo Dem ais e Lênin Dentes de Menos m archaram para suas páginas e com eles vieram a leveza e o brio. Talvez pudesse escrever um bom livro, afinal. O último suspiro do mouro seria seu prim eiro rom ance adulto desde Os versos satânicos. Havia m uita coisa em penhada na recepção desse livro. Ele tentou tirar essas ideias da cabeça.
Sua vida diária estava agora m enos perturbada do que tinha sido quando escrevera Haroun e o mar de histórias, m as o dom da concentração profunda m ostrou-se m ais difícil de reconquistar. O im perativo de sua prom essa a Zafar conduzira Haroun por todas as m udanças de casa e todas as incertezas. Agora ele tinha um lugar para viver e um a sala agradável onde escrever, m as estava distraído. Fez um esforço para retom ar velhas rotinas. Levantava-se de m anhã e ia diretam ente se sentar a sua m esa, sem tom ar banho nem se vestir para o dia, às vezes sem nem escovar os dentes, e se obrigava a ficar sentado ali de pij am a até com eçar o trabalho do dia. “A arte de escrever”, dissera Hem ingway, “é a arte de aplicar o assento da calça ao assento da cadeira.” Sente-se, ele ordenava a si m esm o. Não se levante. E aos poucos, aos poucos, sua velha força voltou. O m undo foi em bora. O tem po parou. Ele caiu alegrem ente naquele lugar profundo onde livros não escritos estão à espera de ser encontrados, com o am antes que exigem prova de absoluta devoção antes de aparecerem . Ele era um escritor outra vez.
Quando não estava escrevendo o rom ance, estava revisando velhos contos e pensando em novos para a coletânea que estava cham ando de Oriente, Ocidente — um título em que, pensou, a vírgula representava ele m esm o. Tinha os três contos do “Oriente” e os três do “Ocidente” e estava trabalhando em três histórias de cruzam ento cultural que com poriam a parte final da coletânea. “Tchekhov e Zulu” era sobre diplom atas indianos obcecados com Star Trek na época do assassinato da sra. Gandhi e sua am izade com Salm an Haidar no Alto-Com issariado indiano forneceu m aterial útil. “A harm onia das esferas” era um a história quase real baseada no suicídio de um am igo íntim o de Cam bridge, Jam ie Webb, escritor sobre tem as ocultos que desenvolveu esquizofrenia aguda e acabou se m atando com um tiro. E o conto m ais longo, “O cortesão”, ainda estava sendo escrito. Em m eados dos anos 1960, quando seus pais se m udaram de Bom baim para Kensington, tinham trazido j unto sua velha ayah Mary Menezes para cuidar durante algum tem po de sua irm ã m ais nova, então com apenas dois anos. Mas Mary sentia m uita falta da Índia, o coração partido de saudade por outro lugar. Ela com eçara a ter efetivam ente problem as de coração, acabando por retornar à Índia. No m om ento em que chegou lá, os problem as de coração desapareceram e nunca m ais voltaram . Ela vivera até m ais de cem anos. A ideia de que se podia efetivam ente correr o risco de m orrer de coração partido era um a coisa sobre a qual valia a pena escrever. Ele j untou a história de Mary com a de um zelador da Europa Oriental que conhecera na agência de publicidade Ogilvy & Mather, em Londres, um hom em m ais velho que m al falava inglês e sofria as sequelas de um derram e, m as que j ogava xadrez com um a fluência e um a força que poucos oponentes conseguiam enfrentar. Em sua história, o j ogador de xadrez silenciado e a ayah com saudade de casa se apaixonavam .
A polícia havia preparado um brinde especial para ele e Elizabeth. Foram levados ao legendário Black Museum da Scotland Yard, que norm alm ente não era aberto ao público. A tem peratura no m useu era m antida m uito baixa e ele estrem eceu ao entrar. O curador, John Ross, que supervisionava a bizarra coleção de arm as de assassinatos reais e outros m em orabilia do crim e, disse que gostaria que a polícia britânica tivesse perm issão para m atar. Talvez a longa proxim idade com aqueles instrum entos da m orte tivesse afetado sua m aneira de pensar. No Black Museum havia m uitas arm as disfarçadas — guarda-chuvas revólveres, cassetetes que eram arm as de fogo, facas que disparavam balas. Todas as arm as de fantasia de rom ances policiais e film es de espionagem estavam ali, expostas em m esas, e cada arm a havia m atado um hom em ou m ulher. “Usam os isto aqui para treinar agentes j ovens”, disse o sr. Ross. “Para eles entenderem , sabe?, que qualquer coisa pode ser um a arm a.” Ali estava a arm a usada por Ruth Ellis, a últim a m ulher a ser enforcada na Inglaterra, para m atar seu am ante, David Blakely. Ali a arm a com a qual, em Caxton Hall, Westm inster, em 1940, o assassino sique Udham Singh assassinara sir Michael O’Dwy er, ex-governador do Punj ab, para vingar o fuzilam ento de indianos no m assacre de Am ritsar 21 anos antes, em 13 de abril de 1919. Ali o fogareiro e a banheira na qual o serial killer John Reginald Christie tinha cozinhado e cortado em filés suas vítim as em Rillington Place 10, oeste de Londres. E ali a m áscara m ortuária de Heinrich Him m ler.