Joseph Anton: Memórias
8. Sr. Manhã e sr. Tarde
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
A história sempre muda, ele dissera a si m esm o m uitas vezes. Vivemos numa época acelerada e a história muda mais depressa que nunca. Mas sete anos haviam se passado, sete anos da sua década dos quarenta, o auge da vida de um hom em , sete anos da infância de seu filho que ele nunca recuperaria, e a história não tinha m udado. Ele estava enfrentando a possibilidade de aquilo não ser apenas um a fase — de o resto de sua vida ser daquele j eito. Era duro de engolir.
Todos sentiam a tensão. Zafar estava frustrado pelo segredo — Não posso trazer meus amigos em casa? — e ia m al na escola. Clarissa vinha conquistando um a reputação no Arts Council, tornando-se um a de suas figuras m ais queridas, um a espécie de padroeira de pequenas revistas por todo o país, e ele estava contente de vê-la encontrar seu lugar no m undo; m as desde o conflito sobre dinheiro a relação deles tinha ficado com prom etida. Não era hostil, m as tam bém não era m ais am igável, e isso era um a coisa ruim , triste. Elizabeth não estava grávida e isso m uitas vezes afetava seu hum or. Ela consultou um ginecologista e descobriu que, por várias razões internas, podia ser difícil ela conceber. Então havia esse problem a a superar além da translocação crom ossôm ica recíproca, e se e quando um bebê fosse concebido haveria problem as de segurança. Quanto a isso ela fechava os olhos e ignorava.
O novo ano com eçou. Caroline Michel telefonou para contar que as vendas da edição de capa dura de O último suspiro do mouro no Reino Unido j á tinham chegado a quase 200 m il exem plares. Porém , havia problem as na Índia. Em Bom baim , o partido Shiv Sena se ofendera por ser retratado com o “Eixo de Mum bai” no rom ance. Algum as outras pessoas não acharam engraçado que um dos personagens do livro possuísse um cachorrinho de pelúcia com rodas cham ado Jawaharlal, com o o prim eiro-m inistro do país. O rom ancista urdu de 68 anos Qurrantulain Hy der, que escrevera o fam oso rom ance sobre a Partição Aag ka Darya (Rio de fogo), anunciou que esse tipo de taxiderm ia ficcional provava que o autor não devia “nunca ser perdoado”.
Com o resultado da “controvérsia”, o governo indiano, com seu tradicional com prom isso com a liberdade de expressão, suspendeu a im portação do livro na alfândega usando algum pretexto m uito frágil. Ele telefonou para seu advogado indiano, Vij ay Shankardass, um hom em de fala m ansa e altos princípios que era um dos advogados m ais hábeis da Índia, e Vij ay disse que, se conseguissem que as organizações do com ércio livreiro da Índia se j untassem com a Rupa, editora do livro no país, poderiam ir logo à j ustiça com um a “lim inar” e pressionar o governo. Houve um conflito com o chefe da Rupa, Raj an Mehra, que de início intim idou-se, tem endo que acionar o governo pudesse ter repercussões desagradáveis para os negócios, m as Vij ay o aj udou a se decidir e por fim Mehra “fez o necessário”. No dia em que o caso foi j ulgado, o governo recuou, o bloqueio foi suspenso e O último suspiro do mouro entrou na Índia lançado livrem ente, sem qualquer problem a. Na Feira do Livro de Delhi, a liberação do rom ance foi um grande evento, “um a grande vitória”, que ele agradeceu a Vij ay . Mas Os versos satânicos continuava proibido na Índia, assim com o seu autor.
O outro problem a indiano era referente à casinha em Solan, nos m ontes Shim la. Seu avô paterno, Moham m ed Din Khaliqi Dehlavi, que ele não conhecera, tinha com prado o lugar m uito tem po antes com o um refúgio ao calor de Delhi, um chalé de pedra com seis côm odos num terreno pequeno, m as com um a fantástica vista das m ontanhas. Ele havia deixado a propriedade a seu filho único, Anis, e Anis Rushdie, antes de sua m orte, a doara a seu filho único. A casa fora requisitada pelo governo estadual de Him achal Pradesh através do Ato de Propriedades de Evacuados, que perm itia que a Índia tom asse posse da propriedade de qualquer pessoa que tivesse ido se instalar no Paquistão. Mas não era esse o caso dele, de form a que a casa fora tom ada ilegalm ente. Vij ay Shankardass estava cuidando do caso para ele tam bém , m as, em bora tivesse conseguido oficializar a posse de Anis da propriedade, a herança ainda não havia sido aceita e o governo de Him achal dissera, secam ente, que “não querem os ser vistos fazendo favores a Salm an Rushdie”.
Mais um ano se passaria antes que as diligentes pesquisas da equipe de Vij ay encontrassem o docum ento escondido que resolveu o caso — o docum ento em que um alto funcionário do governo de Him achal havia com etido perj úrio num a declaração j uram entada afirm ando que sabia que Salm an Rushdie havia se tornado cidadão paquistanês. Mas Salm an Rushdie nunca tivera nenhum a outra cidadania além da indiana e da britânica. Perj úrio era um crim e sério, punido com pena de prisão obrigatória, e quando souberam que Vij ay Shankardass estava de posse da declaração falsa as autoridades de Him achal ficaram de repente extrem am ente cooperativas. Em abril de 1997, a casa estava de novo em seu nom e, deixada em razoáveis condições pelo funcionário do governo que a invadira, e Vij ay recolheu as chaves.
Seus com entários favoritos a O último suspiro do mouro foram os de am igos indianos que entraram em contato depois de ler o livro liberado para perguntar com o ele havia conseguido escrevê-lo sem visitar a Índia. “Você entrou escondido, não foi?”, sugeriram . “Veio quietinho e absorveu as coisas. Senão, com o poderia saber essas coisas todas?” Isso pôs um grande sorriso em seu rosto. Sua m aior preocupação havia sido que seu “rom ance do exílio” parecesse um livro de estrangeiro, desligado da realidade indiana. Ele pensou em Nuruddin Farah levando a Som ália em seu coração onde quer que viaj asse, e ficou orgulhoso de ter escrito seu livro a partir da Índia particular que levava com ele a toda parte.
O rom ance estava obtendo alguns dos m elhores com entários de sua vida, confirm ações de que o longo descarrilam ento não o havia aleij ado. Houve um a pequena turnê de divulgação nos Estados Unidos, m as foi m uito cara. Tiveram de alugar um pequeno avião. As forças policiais am ericanas insistiram na necessidade de segurança, de form a que um a em presa de segurança privada chefiada por um suj eito experiente cham ado Jerom e H. Glazebrook teve de ser contratada. Foi generoso da parte de Sonny Mehta absorver a m aioria desses custos, em bora cada lugar contribuísse, assim com o ele tam bém . Sonny o acom panhou na turnê e deu festas luxuosas em Miam i (onde todo m undo parecia ser autor de rom ances de suspense, e onde, quando pediu a Carl Hiaasen que lhe desse inform ações sobre Miam i, o escritor am ericano respirou fundo e só parou de falar duas horas depois, dando em alta velocidade um a master class sobre as m alandragens políticas da Flórida) e depois em San Francisco (onde Czesław Miłosz, Robin William s, Jerry Brown, Linda Ronstadt e Angela Davis estavam entre os convidados). Eram eventos ligeiram ente furtivos, pois os convidados não ficavam sabendo a identidade do autor ou a localização da festa até o últim o m inuto.
A fina flor de Miam i e San Francisco foi revistada por guardas de segurança para o caso de estarem pensando em ganhar um dinheirinho extra indo atrás da recom pensa.
Sonny e ele tiveram tem po até para um fim de sem ana em Key West, onde Gita Mehta foi ao encontro deles, parecendo bem , de volta à sua m elhor loquacidade e anim ação. Ele achou que essa turnê de divulgação cara e fora do com um era o j eito silencioso de Sonny se desculpar pelos problem as que havia causado na época de Haroun e o mar de histórias e ficou feliz de virar a página do passado. Na véspera de seu em barque para Londres, O último suspiro do mouro lhe valeu o British Book Award, um troféu “Nibbie”, com o “escritor do ano”. (O Nibbie de livro do ano foi para a autora de obras de culinária Delia Sm ith, que, em seu discurso de agradecim ento, referiu-se a si m esm a em terceira pessoa: “Agradecem os a hom enagem ao livro de Delia Sm ith”.) Houve um a grande ovação quando seu prêm io foi anunciado. Não posso esquecer que existe uma Inglaterra que está do meu lado, ele disse a si m esm o. Dados os contínuos ataques a seu caráter nos j ornais, que passara a considerar coletivam ente com o Daily Insult [Insulto Diário], teria sido fácil, m as errado, se esquecer disso.
De volta à casa da Bishop’s Avenue, foi difícil se readaptar à vida com a polícia. Eles trancavam as portas à noite, m as nunca as destrancavam de m anhã. Fechavam com pulsivam ente as cortinas, m as nunca as abriam de novo. As cadeiras em que se sentavam quebravam sob seu peso e o piso de m adeira do hall de entrada estalava sob seus pés pesados. Era o sétim o aniversário da fatwa. Nenhum j ornal britânico publicou um a palavra de apoio ou de reconhecim ento. Era um a história velha e chata que parecia não ir para lugar nenhum ; não era notícia. Ele escreveu um artigo para o The Times em que tentou argum entar que o propósito da fatwa havia sido derrotado, m esm o que a fatwa em si ainda existisse: o livro não havia sido suprim ido, nem seu autor. Ele pensou na era de m edo e autocensura a que a fatwa dera origem — na qual a Oxford University Press havia se recusado a publicar um excerto de Os filhos da meia-noite num livro didático de inglês alegando tratar-se de um a questão “m uito sensível”; na qual o escritor egípcio Alaa Ham ed (ao lado de seu editor e gráfico) havia sido sentenciado a oito anos de prisão por escrever um rom ance, Masafa li-‘aql rajul [A distância na m ente de um hom em ], considerado um a am eaça à paz social e à unidade nacional; na qual editores ocidentais falavam abertam ente em evitar qualquer texto que pudesse ser considerado crítico ao islã — e não acreditava em seu próprio artigo. Tivera alguns pequenos sucessos, m as a vitória real não estava de form a algum a conquistada.
Ele falava com Elizabeth sobre os Estados Unidos. Lá eles não teriam de viver com quatro policiais ou com constantes acusações de custar um a fortuna à nação sem prestar nenhum serviço a ela. Tinham tido um a am ostra dessa liberdade nos últim os dois verões; podiam ter m uito m ais. Sem pre que ele puxava o assunto ela fechava um a carranca rebelde e não discutia. Ele com eçou a perceber que Elizabeth tinha m edo da liberdade, ou ao m enos m edo da liberdade com ele. Sentia-se segura apenas dentro da bolha da proteção. Se ele insistia em dar um passo para fora, ela poderia m uito bem não estar disposta a dar esse passo com ele. Pela prim eira vez (chocando a si m esm o), ele com eçou a im aginar um a vida sem ela. Foi a Paris para lançar a edição francesa de O último suspiro do mouro; a tensão entre eles não havia se abrandado.
Em Paris, les gentilhommes du Raid aprontaram seus truques de sem pre. Fecharam a rua inteira na frente do Hôtel de l’Abbay e, perto de Saint-Sulpice. Recusaram -lhe perm issão para com parecer a qualquer lugar público. “Se ele não gostar”, disseram a seus editores, “não precisa vir aqui.” Mas a boa notícia foi que o rom ance estava sendo m uito bem recebido, disputando o prim eiro lugar das listas de best-sellers com o últim o livro de Um berto Eco e com O encantador de cavalos. Houve tam bém reuniões políticas com o m inistro das Relações Exteriores, Herve de Charrette, e com o m inistro da Cultura, Philippe Douste-Blazy. Chez Bernard-Henri Lévy, ele encontrou o velho grande hom em do cinem a e do nouveau rom an Alain Robbe-Grillet, de quem m uito adm irava o rom ance O ciúme e o roteiro de Ano passado em Marienbad. Robbe-Grillet estava planej ando fazer um film e no Cam boj a no final do ano, estrelado por Jean-Louis Trintignant e por Arielle Dom basle, esposa de Bernard-Henri Lévy . Trintignant ia fazer um piloto que caía na selva cam boj ana e em seu delírio subsequente tinha fantasias com Arielle enquanto era tratado num a aldeia da selva por un médécin assez sinistre. O papel do m édico sinistro, Robbe-Grillet disse, entusiasm ado, é perfeito para você, Salm an. Duas sem anas no Cam boj a em dezem bro! Philippe Douste-Blazy vai cuidar de tudo! (Douste-Blazy, presente na ocasião, anuiu agradavelm ente e se desculpou tam bém pela reação excessiva da Raid. “Nas suas próxim as visitas vam os usar apenas dois guardas de segurança.”) Ele perguntou a Robbe-Grillet se podia ver um roteiro e Robbe-Grillet balançou a cabeça, im paciente, sim , claro, claro, m as você tem de fazer! Vai ser fantástico! O m édico, é você!
Nenhum roteiro j am ais foi enviado. O film e nunca foi feito.
Um a outra coisa aconteceu em Paris. Caroline Lang, a brilhante e linda filha de Jack Lang, foi lhe fazer com panhia no Hôtel de l’Abbay e um a tarde e, por causa de sua beleza, do vinho e das dificuldades com Elizabeth, tornaram -se am antes; e im ediatam ente depois decidiram não repetir o ato, m as continuar am igos. Depois dessas poucas horas j untos, ele teve de aparecer ao vivo na televisão, no Bouillon de culture, de Bernard Pivot, e sentiu que o turbilhão em ocional causado por sua infidelidade fez com que m ostrasse um a im agem pobre de si m esm o.
Andrew Wy lie e Gillon tinham chegado ao fim da estrada e resolveram encerrar sua associação. Andrew foi à casa dele, m uito aborrecido, com um a certa raiva, m as lam entando. “Ficou claro para m im ”, disse, ao m esm o tem po triste e indignado, “que Gillon nunca foi m eu parceiro. Brian Stone é parceiro de Gillon.” Brian era sócio deles, o agente que controlava o espólio de Agatha Christie. “A placa na agência de Londres”, Andrew disse, am argo, “ainda diz atken & stone.” A briga deles tinha sido causada por dinheiro, m as tam bém por visões diferentes. Andrew tinha sonhos grandiosos, expansionistas; Gillon era cauteloso e sem pre prudente financeiram ente. Não fora um a separação agradável; um divórcio feio, com o a m aioria dos divórcios. Andrew estava parecendo um am ante rej eitado, ao m esm o tem po desdenhoso e desesperado.
Ele ficou profundam ente perturbado com a separação de seus agentes. Gillon e Andrew tinham sido pilares de fortaleza nos últim os anos e ele confiava nos dois absolutam ente. Nenhum deles havia estrem ecido nem por um m om ento diante do ataque islâm ico, e sua coragem havia estim ulado m uitos editores a terem um a coragem que não teriam sem eles. Ele não podia im aginar o que faria sem a dupla, m as agora teria de escolher, em bora Gillon tivesse elegantem ente facilitado a escolha telefonando no dia seguinte para dizer: “Meu caro, evidentem ente você deve ficar com Andrew. Ele era seu agente prim eiro, ele trouxe você para m im e é claro que deve ficar com ele, está absolutam ente certo”.
Tinham passado por tanta coisa, tinham feito tanto j untos. Seu relacionam ento havia se aprofundado m uito além da cordialidade autor-agente. Tinham se tornado am igos chegados. E no entanto ele teria de deixar Gillon. Nunca havia im aginado que esse dia chegaria, sem pre pensara que Gillon e Andrew seriam seus agentes para sem pre. “Tudo bem ”, ele disse a Gillon. “Muito obrigado. Mas, no que m e toca, nada m udou entre nós.”
“Um dia desses vam os alm oçar”, disse Gillon, e acabou-se.
A Itália assum ira a presidência rotativa da União Europeia e estava no processo de persuadir todos os seus Estados m em bros a aceitar um a carta, a ser assinada em conj unto pela ue e pelo Irã, que aceitava que a fatwa seria válida eternam ente, em troca de um a breve declaração do Irã de que nunca seria im plem entada. As fontes de Frances D’Souza disseram que a troika de m inistros do Exterior da ue iria a Teerã para discutir o terrorism o, e estava se recusando a sequer tocar na fatwa a m enos que esse texto fosse aprovado — o que significava ser aprovado por ele, disse ela. O governo britânico estava resistindo, m as preocupado com seu isolam ento. Ele pediu que Frances inform asse a suas fontes que ele não vinha lutando havia sete anos para acabar aceitando que a União Europeia concordasse com a validade de um a ordem de assassinato extraterritorial. Ele j am ais concordaria com um a declaração dessas, nem em 1 m ilhão de anos. “Eles que se fodam , esses oportunistas filhos da puta”, ele disse. Não iria colaborar com essa hedionda im oralidade.
A “carta italiana” nunca foi assinada nem enviada.
Ele falou com Gail Rebuck, da Random House, para conseguir que ela assum isse a publicação de Os versos satânicos em brochura. Ela disse que Alberto Vitale parecia “receptivo” agora, m as que precisava de m ais garantias de segurança. Ele sugeriu a Gail e a Caroline Michel que elas obtivessem relatórios de todos os editores europeus das traduções de Versos em brochura, e da Central Books, dos distribuidores do consórcio do Reino Unido, sobre suas m edidas de segurança, se algum a havia, e m arcassem um a reunião com Helen Ham m ington, Dick Wood e Rab Connolly para saber o que estes achavam . Centímetro a centímetro, ele pensou. Vam os chegar lá, m as é tão dolorosamente lento.
Elizabeth ficou sabendo que Carol Knibb, a prim a que a havia criado quando sua m ãe m orrera, estava sofrendo de leucem ia linfocítica crônica, a m esm a llc que Edward Said estava enfrentando em Nova York. Elizabeth ficou arrasada com a notícia. Carol era a coisa m ais próxim a de fam ília com que ela contava. Ele tam bém ficou profundam ente triste. Carol era um a m ulher boa, doce. “É um câncer curável”, ele disse a Elizabeth. “Podem os aj udá-la a lutar. Ela deve falar com o m édico de Edward, o doutor Kanti Rai, em Long Island.”
A m orte vem indiscrim inadam ente para os doces e os am argos. Duas sem anas depois de saber do câncer de Carol, ele recebeu a notícia de um a m orte que não podia lam entar. O m alévolo gnom o Kalim Siddiqui em itira sua últim a am eaça. Estava participando de um a conferência em Pretória, África do Sul, quando um ataque do coração o m atara. Soube-se que ele havia feito recentem ente um a operação para colocação de ponte de safena, m as continuara bom bástico e raivoso, quando um hom em m ais sábio teria optado por um a vida m ais tranquila. Então, podia-se dizer que tinha escolhido seu fim . Não podia ter acontecido a ninguém melhor, ele pensou, m as não fez nenhum com entário público.
Michael Foot telefonou, m uito contente. “Com o é o nom e do deus m uçulm ano? O deus deles, com o é o nom e do cara?” Alá, Michael. “Ah, isso, Alá, claro, está certo. Bom , ele com toda certeza não está do lado do velho Siddiqui, não é? Hein?” Vamos lá, dr. Siddiqui, chegou a sua hora.
Elizabeth foi visitar Carol em Derby shire. Quando voltou, ficou contente de saber da últim a saída de Siddiqui. Ela tam bém leu as vinte páginas da sinopse recém -term inada do novo rom ance, O chão que ela pisa, e gostou tanto que a distância entre eles se fechou e foi tudo esquecido. E no dia seguinte — o universo não gostava que ele ficasse feliz por m uito tem po — ele foi levado para a Spy Central, para ser inform ado de notícias genuinam ente assustadoras.
Nunca era confortador se aproxim ar da grande fortaleza cor de areia j unto ao rio, m esm o com a im provável decoração de árvores de Natal; ele nunca havia ido ali para se alegrar. Nesse dia, num a sala de reuniões anônim a, viu-se confrontado com a tarde e a m anhã, o sr. P. M. e o
sr. A. M.,a um , o chefe de contraterrorism o para o Oriente Médio, o outro, o hom em das questões do Irã. Rab Connolly e Dick Wood estavam com ele, em “posição de ouvintes”. “Os serviços de segurança estão inform ados”, disse A. M., “de que o Irã — e com isso querem os dizer Kham enei, o líder suprem o, e o m inistro da Inteligência, Fallahian — pôs em ação um plano de longo prazo para encontrar e assassinar o senhor. Estão preparados para esperar m uito tem po e gastar m uito dinheiro. O plano pode estar em ação há j á dois anos, m as só tivem os certeza de sua existência nos últim os m eses.” “É nosso dever revelar isso ao senhor”, disse P. M. “Por isso estam os nos encontrando aqui com nossos nom es verdadeiros.”
Enquanto recebia a m á notícia do sr. Manhã e do sr. Tarde, ele estava esperando nervosam ente que dissessem que sua casa havia sido localizada pelo inim igo. Mas não era o caso. Porém , se seu endereço se tornasse conhecido, disse o sr. Manhã, seria m uito alarm ante. Iria exigir, no m ínim o, que ele recebesse proteção policial pelo resto da vida.
Ele expressou seus tem ores por Zafar, Elizabeth, Sam een, sua m ãe, que m orava em Karachi. “Não há indícios de que ninguém de sua fam ília ou am igos estej a visado”, disse o sr. Tarde. “Nem m esm o com o via de acesso ao senhor. O senhor, porém , continua sendo o alvo núm ero um .” “A negação é de extrem a im portância para os iranianos”, disse o sr. Manhã. “Por causa da artilharia política que estão recebendo depois dos ataques de anos recentes.” Shapur Bakhtiar, os assassinatos de Míkonos. “Eles preferirão usar pessoal não iraniano.” “Mas”, disse o sr. Tarde, para fazê-lo sentir-se um pouco m elhor, “o estágio de enviarem arm as pela m ala diplom ática, ou enviar pessoas ao país, ainda está distante m eses, talvez anos.”
Era o pior que ele podia esperar, um ataque a longo prazo ao estilo Bakhtiar. O sr. Manhã e o sr. Tarde não sabiam dizer que efeito um acordo político com o Irã poderia ter sobre essa tram a. Eles acreditavam que o m inistro do Exterior iraniano podia não estar inform ado de sua existência. “Está restrito a um grupo m uito pequeno dentro do Ministério da Inform ação”, disse o sr. Manhã. “Pode até haver outros no m inistério que gostariam de frustrar esse plano”, disse o sr. Tarde, “m as Fallahian e Kham enei parecem decididos a cum prir a fatwa, e Rafsanj ani talvez saiba tam bém .”
A boa notícia era que ele não havia sido localizado e que, na opinião de Manhã e Tarde, a am eaça da “com unidade geral” havia evaporado. “E agora”, disse o sr. Manhã, revelando um lam pej o de aço debaixo dos m odos corteses, “podem os fazer o que fazem os m elhor para derrubar a tram a — baixar um grande punho de ferro no m eio de tudo. Desm antelar a intriga com um golpe político tão pesado que será im possível arm ar um esquem a desses outra vez.”
Talvez ele só esteja tentando fazer com que eu me sinta melhor, ele pensou, mas está funcionando. Gosto da imagem desse punho.
Quanto ao m undo em geral, a história da fatwa estava perdendo a força. Não aparecia m ais nos j ornais e ele próprio vinha sendo visto aqui e ali, visitando am igos, com endo ocasionalm ente num restaurante, aparecendo em vários países para prom over seu novo livro. Era evidente para a m aioria das pessoas que a am eaça havia recuado, e para vários com entadores parecia provável que a proteção só continuasse porque ele insistia nela — insistia não porque fosse necessária, m as para satisfazer seu m onum ental egotism o. E nesse m om ento, quando qualquer farrapo de consideração pública estava sendo levado pelo vento, ele era inform ado de que o perigo era m aior do que j am ais havia sido, o ataque à sua vida, m ais sério do que qualquer um identificado antes. E ele não podia revelar isso. O sr. Manhã e o sr. Tarde tinham sido m uito claros a esse respeito.
Andrew encontrou para ele um a casa para alugar em Long Island, m uito isolada, na Little Noy ac Path, nos m orros acim a de Bridgeham pton. Seria alugada em nom e de Elizabeth e poderiam ficar lá por dois m eses. Sim , disse ele, vam os alugar. Resolveu continuar com seu plano de recuperar a liberdade pedaço a pedaço. Com portar-se com o se não tivesse ouvido o que ouvira na fortaleza da árvore de Natal. A única alternativa era voltar a ser um prisioneiro, e ele não estava preparado para isso. Então: sim , por favor, Andrew. Vam os fechar o contrato. Dois dias depois, Rab Connolly lhe disse que o sr. Manhã e o sr. Tarde acreditavam agora que os assassinos haviam concluído que ele estava m uito bem protegido no Reino Unido, de form a que tentariam m atá-lo quando estivesse viaj ando pelo exterior. E ele estava planej ando passar dois m eses em Long Island sem proteção, levando consigo Elizabeth e Zafar. Ele se sentiu, novam ente, com o o m otorista daquele Holden, sendo atingido por um cam inhão de m erda e indo direto para um a árvore, com as pessoas que m ais am ava a seu lado no carro. Conversou com Elizabeth. Ela ainda queria ir. Então, dane-se, eles iriam , e com isso provariam que podia ser feito.
Ele foi fazer um discurso em Barcelona. Foi para os Estados Unidos e pronunciou o discurso de abertura no Bard College. Ninguém tentou m atá-lo. Porém , um dissidente iraniano no exílio, Reza Mazloum an, ex-m inistro da Educação nos tem po do xá, que vivera sossegado no subúrbio parisiense de Créteil, foi encontrado m orto. Dois tiros na cabeça e um no peito. O m undo, que havia se ilum inado brevem ente quando O último suspiro do mouro fora publicado, escureceu de novo. Em sua im aginação, ele continuava tentando escrever um final feliz para sua própria história, m as não conseguia encontrá-lo. Talvez não fosse haver um . Dois tiros na cabeça e um no peito. Era um fim possível tam bém .
Elizabeth não engravidava e a tensão entre eles aum entou outra vez. Se ela não engravidasse logo, estava insistindo em tentar o cam inho de um a fertilização in vitro, em bora o problem a crom ossôm ico dele reduzisse m uito as chances de sucesso. Se ela de fato engravidasse, era provável que seu anonim ato fortem ente protegido acabasse e que a localização da casa da Bishop’s Avenue se tornasse de conhecim ento público. Isso transform aria o lugar num cam po arm ado; e, de qualquer form a, com o poderiam criar um filho no pesadelo em que eram obrigados a habitar? Que tipo de vida teria um a criança? Mas, contra todos os argum entos, ela determ inou sua necessidade absoluta e ele, sua determ inação de que deviam ser capazes de levar um a vida de verdade, e então foram em frente, iam continuar tentando, iam fazer tudo o que fosse preciso.
Vij ay Shankardass telefonou da Índia, dando-lhe notícias esperançosas. O m inistro das Relações Exteriores do novo governo indiano, Inder Guj ral, era a favor de perm itir que ele voltasse a visitar o país, e o m inistro do Interior concordara. Então, havia um a possibilidade de que seu longo exílio pudesse logo term inar.
Andrew estava fazendo circular sua sinopse de O chão que ela pisa e estava indo m uito bem com os editores, m as a questão da publicação a longo prazo da edição em brochura de Os versos satânicos ainda tinha de ser resolvida, e o agente quis colocar com o condição para qualquer acordo em língua inglesa que o editor assum isse Os versos tam bém . A essa altura, j á havia edições em brochura por toda parte, e a edição do consórcio ainda estava disponível em inglês, m as essa era essencialm ente um a form a de autopublicação e não podia ser a resposta a longo prazo. Na Inglaterra, Gail Rebuck e a Random House britânica estavam se encam inhando para concordar com a reedição em brochura com o um livro da Vintage, m as nos Estados Unidos o chefe da Random House, Alberto Vitale, não estava inclinado a fazer isso. A solução, Andrew sugeriu, podia ser a Holtzbrinck, cuj o ram o alem ão, a Kindler Verlag, j á havia publicado a brochura em língua alem ã sem dificuldades, e cuj a filial am ericana, a Henry Holt, parecia disposta a fazer o m esm o. Ele disse a Andrew que gostaria de ficar com a Random House no Reino Unido, e Andrew disse que chegara à m esm a conclusão, de form a que estavam “no m esm o pé”.
No final da últim a era glacial, as geleiras recuaram de Long Island, deixando para trás as m orenas que criaram os m ontes cobertos de florestas nos quais ele e Elizabeth passaram aquele verão. A casa baixa, espaçosa, pertencia a um casal m ais velho, Milton e Patricia Grobow, que de início ele não conseguiu conhecer, um a vez que, em teoria, ele não existia, e Elizabeth estava lá para passar o verão sozinha, “para escrever e ver am igos”. Depois, quando os Grobow descobriram o que estava acontecendo, ficaram genuinam ente felizes de proverem a ele um refúgio de verão. Eram gente boa, ética e liberal, com um a filha que trabalhava na The Nation, e disseram ficar orgulhosos de poder aj udar. Mas, m esm o antes de ser descoberto, ele estava feliz ali, num lugar onde o m aior perigo que tinham de enfrentar era a doença de Ly m e. Contaram aos am igos m ais chegados onde estavam , m antiveram -se afastados do m ovim ento dos Ham ptons, cam inhavam na praia ao anoitecer, e ele sentiu, com o sem pre nos Estados Unidos, um lento renascer de seu verdadeiro eu. Com eçou a escrever o novo rom ance e a casa dos Grobow, cercada por cam pos e pela floresta, revelou-se o lugar perfeito para trabalhar. O livro, que ele estava com eçando a entender que seria longo, foi se desdobrando aos poucos. Elizabeth era um a j ardineira em penhada e passava horas felizes cuidando das plantas dos Grobow. Zafar foi para a Grécia com a m ãe e depois foi se j untar a eles, adorou o lugar e durante algum tem po conseguiram ser apenas um a fam ília passando o verão na praia. Saíam para fazer com pras nas loj as, com iam em restaurantes, e, se as pessoas os reconheciam , eram discretas dem ais para se introm eter em sua privacidade. Um a noite, Andrew e Cam ie Wy lie levaram -nos para j antar no Nick & Toni’s e o pintor Eric Fischl, que estava saindo do restaurante, parou j unto à m esa deles para cum prim entar Andrew, virou-se para ele e perguntou: “Devem os ficar todos com m edo porque você está aqui conosco?”. Tudo o que ele conseguiu pensar em responder foi: “Bom , você não precisa ter m edo, porque j á está de saída”. Ele sabia que Fischl não dissera aquilo por m aldade, era um a piada, m as nesses m eses especiais em que escapara da bolha de sua vida real irreal ele não gostava de ser lem brado de que a bolha ainda estava lá, esperando por ele.
Voltaram a Londres no com eço de setem bro e logo depois o m aior desej o de Elizabeth se realizou. Ela estava grávida. Im ediatam ente ele com eçou a tem er pelo pior. Se um de seus crom ossom os defeituosos tivesse sido escolhido, o feto não se form aria e ela abortaria m uito em breve, provavelm ente no fim do próxim o ciclo m enstrual. Mas ela estava alegre e confiante de que daria tudo certo, e seu instinto m ostrou-se correto. Não houve aborto, e logo puderam ver a im agem de ultrassom de seu filho vivo e saudável.
“Vam os ter um filho”, ele disse.
“Vam os”, ela respondeu, “vam os ter um filho.”
Era com o se o m undo inteiro cantasse.
O último suspiro do mouro recebeu o Aristeion Prize da União Europeia, ao lado do r om a nc e Morbus Kitahara, do rom ancista austríaco Christoph Ransm ay r, m as o governo dinam arquês anunciou que ele não teria perm issão para com parecer à cerim ônia de prem iação em Copenhague, em 14 de novem bro de 1996, por questões de segurança. Disseram estar inform ados de um a “am eaça específica” à sua vida, m as a Divisão Especial lhe disse que não sabia de nenhum a am eaça e que, se houvesse algum a, os dinam arqueses seriam obrigados a inform á-los a respeito. Então era apenas um pretexto. Com o sem pre, o que ele prim eiro sentiu foi hum ilhação, m as o segundo sentim ento foi de indignação, e ele resolveu que dessa vez não ia baixar a cabeça. Em itiu um a declaração através da Artigo 19. “É escandaloso que Copenhague, a atual ‘capital da cultura’ da União Europeia, se recuse a dar perm issão para o vencedor do prêm io de literatura da própria ue com parecer à cerim ônia de prem iação. É um a decisão covarde, exatam ente oposta ao que se deveria fazer diante de am eaças com o a fatwa iraniana. Se existe o desej o de que essas am eaças não se repitam , é im portante dem onstrar que elas não surtem efeito.” Políticos dinam arqueses de todos os partidos, inclusive o partido do governo, atacaram a decisão e o governo dinam arquês cedeu. Em 13 de novem bro, ele tom ou o avião para a Dinam arca e a cerim ônia de prem iação teve lugar no novo Museu de Arte Moderna Arken, que estava cercado por policiais arm ados e parecia um cam po de prisioneiros, a não ser pelo fato de todos os presentes estarem vestidos a rigor.
Depois da cerim ônia, seu editor, Johannes Riis, sugeriu que fossem com alguns am igos a um agradável bar de Copenhague para tom ar um drinque, e quando estavam no bar a “cervej a de Natal” chegou. Hom ens usando chapéus verm elhos de Papai Noel entraram com caixas da tradicional cervej a de inverno e ele recebeu um a das prim eiras garrafas, assim com o um chapéu de Papai Noel, que pôs na cabeça. Alguém tirou um a fotografia: o hom em que tinha sido considerado perigoso dem ais para entrar na Dinam arca, sentado com o qualquer um em um bar com um , bebendo cervej a e usando um chapéu de festa. Essa foto desafiadoram ente não am eaçadora quase derrubou o governo dinam arquês quando apareceu na prim eira página de todos os j ornais na m anhã seguinte. O prim eiro-m inistro, Poul Ny rup Rasm ussen, teve de se desculpar publicam ente pelo veto prévio. Depois, houve um a reunião com Rasm ussen, que o cum prim entou por sua pequena vitória. “Eu apenas resolvi lutar”, disse ele ao perplexo prim eiro-m inistro. “Sim ”, disse Rasm ussen envergonhado, “e lutou m uito bem .”
* * *
Ele queria pensar em outras coisas. Ao com eçar o ano no qual ia com pletar cinquenta anos e se tornar pai pela segunda vez, sabia que estava farto de lutar por lugares em aviões, de se aborrecer com os nom es com que era cham ado nos j ornais, com policiais dorm indo em sua casa, com o lobby a políticos, e com os secretos sr. Manhã e sr. Tarde falando de assassinato. Seu novo livro estava vivo em sua cabeça e um a vida nova crescia no útero de Elizabeth. Para o livro, ele lia Rilke, ouvia Gluck, assistiu num a fita vhs borrada ao grande film e brasileiro Orfeu negro, e alegrou-se ao descobrir na m itologia hindu um m ito de Orfeu invertido: o deus do am or Kam a m orto por Shiva num m om ento de raiva e trazido de volta à vida apenas devido aos pedidos de sua esposa Rati, Eurídice resgatando Orfeu. Um triângulo girava devagar em sua m ente, em cuj as três pontas estavam arte, am or e m orte. Poderia a arte, alim entada pelo am or, transcender a m orte? Ou devia a m orte, apesar da arte, inevitavelm ente consum ir o am or? Ou talvez a arte, m ediando o am or e a m orte, pudesse se tornar m aior que am bos. Estava com cantores e com positores na cabeça, porque no m ito de Orfeu as artes da m úsica e da poesia eram unidas. Mas o cotidiano não podia ficar de fora. Ele se preocupava constantem ente com o tipo de vida que poderia oferecer ao m enino que estava vindo para vê-los, entrando neste m undo do vazio do não ser para encontrar... o quê? Helen Ham m ington e suas tropas vigiando cada m ovim ento seu? Era im pensável. No entanto, ele tinha de pensar. Sua im aginação queria voar, m as ele sentia pesos de chum bo am arrados nos tornozelos. Eu poderia estar preso numa casca de noz e me considerar rei do espaço infinito, Ham let dizia, m as Ham let não tinha tentado viver com a Divisão Especial. Se você estava preso num a casca de noz j unto com quatro policiais dorm indo ali, então, com certeza, ó príncipe da Dinam arca, você teria pesadelos.
Em agosto de 1997, seria com em orado o quinquagésim o aniversário da independência da Índia e haviam solicitado a ele que editasse um a antologia de escritores indianos especialm ente para a ocasião. Ele pediu que Elizabeth o aj udasse. Era um a coisa que podiam fazer j untos, algo para pensar j untos, distante das dificuldades de suas vidas.
Ele andava conversando com a polícia sobre um a m udança de sistem a. Elizabeth e ele precisavam preparar espaço para o bebê e talvez encontrar um a babá para m orar na casa. Não podiam m ais oferecer acom odação a quatro policiais toda noite e, de qualquer form a, para que serviam eles, se estavam todos dorm indo? Pela prim eira vez encontrou receptividade às suas ideias na Yard. Concordaram que os policiais não dorm iriam m ais em sua residência. Ele teria um a equipe diurna e depois haveria um turno de dois policiais que ficariam na “sala de estar da polícia”, acordados, de olho no conj unto de m onitores de vídeo. Com esse arranj o, disseram , ele poderia finalm ente ter um a “equipe exclusiva”, não com posta de m em bros de outras equipes servindo m eio período, m as destacados apenas para ele, e isso sim plificaria sua vida. O novo arranj o passou a funcionar no com eço de j aneiro de 1997 e ele notou que todos os agentes de proteção estavam abatidos e m al-hum orados. Ah, ele pensou num lam pej o, é por causa das horas extras.
Um a das grandes vantagens de participar de um a “proteção secreta” com o a Operação Malaquita, e de viver com o beneficiário 24 horas por dia, era a fantástica rem uneração de horas extras. Em todas as outras proteções “abertas”, a equipe de proteção voltava para casa à noite e a residência do beneficiário era protegida por guardas uniform izados. Agora, de repente, os pagam entos por horas extras noturnas haviam desaparecido. Não era de adm irar que eles estivessem um pouco desanimados, para falar a verdade, Joe, e não era de adm irar que os chefões da Yard houvessem concordado tão depressa com sua sugestão. Ele havia econom izado um m onte de dinheiro.
No fim de sem ana seguinte, ele descobriu que “a conveniência especial de um a equipe exclusiva” era um a ficção. Ele foi convidado a passar o fim de sem ana na casa de Ian McEwan, em Oxford, m as foi abruptam ente inform ado pelo assistente de Ham m ington, Dick Stark, cuj a satisfação consigo m esm o com eçara a ser um a irritação constante, de que não havia m otoristas disponíveis, de form a que ele teria de ficar em casa o fim de sem ana inteiro. Havia um a “carência de pessoal”, se bem que, “evidentem ente”, se Elizabeth precisasse ir ao hospital, eles dariam um j eito. De agora em diante, “sem pre haveria m aiores dificuldades nos fins de sem ana”. Ele precisaria avisar na terça-feira se quisesse algum a m ovim entação no sábado ou dom ingo. A viagem a Oxford parecia, disseram , “m uita m obilização por m uito pouco”.
Ele tentou discutir. Havia agora três agentes em sua casa o dia inteiro, então, se quisesse ir a um evento particular com o um j antar na casa de um am igo, eles só precisariam arranj ar m ais um m otorista — era assim tão difícil? Mas, com o sem pre na Scotland Yard, havia apenas um a vontade m ínim a de colaborar. A eleição geral estava chegando, pensou, e se o Partido Trabalhista vencesse ele teria pessoas m ais am igáveis em altos postos. Precisava obter garantias de que teria aj uda para viver um a vida decente. Não aceitar aprisionam ento, com as saídas reguladas ao bel-prazer da polícia.
Nesse m eio-tem po, Elizabeth passou a ficar obcecada com o segredo. Ela não queria que ninguém fora do círculo m ais próxim o deles ficasse sabendo que estava grávida, até o bebê nascer. Ele não sabia m ais com o guardar um segredo desses. Queria ter o direito de viver um a vida honesta com sua fam ília. Chegou a falar com ela sobre casam ento, m as quando m encionou um contrato pré-nupcial a conversa virou briga. Tentou falar da m aior liberdade nos Estados Unidos e a briga ficou pior. Estavam enlouquecendo, ele pensou. Trancados e insanos. Duas pessoas que se am avam sendo esm agadas pelo estresse im posto a eles pela polícia, pelo governo e pelo Irã.
O Daily Insult publicou na página fem inina um a m atéria sobre um psicólogo alem ão que afirm ava que hom ens feios se davam bem com m ulheres bonitas porque eram m ais atenciosos. “Será um a inform ação bem -vinda no esconderij o de Salm an Rushdie”, conj eturou o Insult.
Ele falou com Frances D’Souza para form arem um grupo de parlam entares sim páticos à sua causa, e talvez até acrescentar uns dois lordes favoráveis, com o Richard Rogers. (Ele não tinha um m em bro do Parlam ento que o representasse porque seu endereço não podia ser revelado.) Ela achou que era um a boa ideia. Um a sem ana depois, Mark Fisher, porta-voz de artes do Partido Trabalhista, convidou-o para tom ar um drinque na Câm ara dos Com uns com Derek Fatchett, representante de Robin Cook, porta-voz para assuntos exteriores do Partido Trabalhista e provável m inistro do Exterior num governo trabalhista. Fatchett ouviu o que ele tinha a dizer, foi se enfurecendo aos poucos e disse: “Prom eto a você que, quando estiverm os no poder, será um a alta prioridade para nós resolver esse assunto”. Mark prom eteu acom panhar todos os aspectos do caso. Por quê, ele se perguntou ao sair, chutando a si m esm o, não pensei antes nesse esquema de adote um parlamentar?
Com pareceu à festa anual do Esquadrão “A”, m al-hum orado com os oficiais superiores, e foi em bora assim que perm itiu a boa educação. Depois, permitiram que fosse j antar com Caroline Michel e Susan Sontag num restaurante. Ele contou a Susan sobre o bebê e ela perguntou se eles iam se casar. Hum , ele gaguej ou, estam os bem assim , m uita gente não se casa hoj e em dia. “Case com ela, seu filho da puta!”, Susan exclam ou. “Ela é a m elhor coisa que aconteceu a você até hoj e!” E Caroline concordou. “É! O que está esperando?” Elizabeth pareceu m uito interessada na resposta dele. Quando ele chegou, parou na cozinha encostado ao fogão e disse, secam ente: “Melhor nós casarm os, então”. Na m anhã seguinte, assim que acordaram , Elizabeth perguntou: “Você se lem bra do que fez ontem à noite?”. Ele achou que estava se sentindo bem a respeito, o que o surpreendia. Depois da catástrofe Wiggins ele pensara que nunca m ais ia se arriscar em outro casam ento. Mas lá ia ele de novo, com o dizia a canção, arriscando-se no am or.
Ela não queria se casar grávida. Então talvez pudessem esperar até o verão, depois que o bebê chegasse, nos Estados Unidos. Poucas sem anas antes, com o um a espécie de presente de Natal, permitiram que eles aceitassem o convite de Richard Ey re para assistir à sua produção de Guys and dolls, no National Theater, e agora Elizabeth podia passar alguns m eses no papel de Adelaide, “a bem conhecida noiva”. Assim que ele fez essa piada, a pessoa ficou resfriada.
A bbc estava tentando adaptar Os filhos da meia-noite com o um a m inissérie em cinco capítulos, m as o proj eto esbarrava em dificuldades com o roteiro. O escritor Ken Tay lor, que tivera tanto sucesso com a adaptação de A joia da Coroa, de Paul Scott, estava achando o m uito diferente Os filhos da meia-noite um a tarefa m ais difícil. Alan Yentob telefonou e disse: “Se quiser que a série sej a feita, acho que vai ter de assum ir”. Kevin Loader, o produtor da série, prom eteu dar a m á notícia a Ken Tay lor, m as nunca o fez, e Ken, com o era de se esperar, ficou zangado quando descobriu. Porém o novo roteiro foi escrito e o diretor Tristram Powell lhe disse que Mark Thom pson, o novo controlador da bbc2, tinha adorado os capítulos e “apoiava totalm ente o proj eto”. Isso era bom . Mas os problem as reais que o proj eto enfrentaria não viriam de dentro da bbc.
Rab Connolly foi visitá-lo, num clim a conciliatório. Ele negou que os parlam entares trabalhistas estivessem pressionando a Scotland Yard, m as parecia provável. “Acho que podem os dizer que você não vai m ais ter problem as com coisas com o aquela visita a McEwan”, disse ele.
Era a sem ana de aniversário da fatwa e a inform ação “supersecreta” que o sr. Manhã e o sr. Tarde tinham lhe dado estava em todos os j ornais. “A segurança tinha sido reforçada” em torno dele, revelou o The Guardian, o que não era verdade, “porque o m i5 soube de um a am eaça específica”, o que era. Nesse m eio-tem po, Sanei da Recom pensa havia aum entado o valor em m eio m ilhão de dólares. O The Times fez da oferta de recom pensa sua reportagem de capa e, num editorial, exigiu que a Grã-Bretanha levasse a União Europeia a tom ar um a atitude nova e m ais dura com o Irã. Ele próprio escreveu um artigo publicado no m undo inteiro, e deu entrevistas à cnn e à bbc para apoiá-lo, sugerindo que, se um ataque assim fosse feito a pessoas consideradas “im portantes” — Margaret Thatcher, Rupert Murdoch, Jeffrey Archer —, a com unidade internacional não teria ficado de braços cruzados durante oito anos, balindo, im potente. A ausência de solução refletia, portanto, a convicção generalizada de que a vida de certas pessoas — a vida de escritores problem áticos, por exem plo — valia m enos que a de outros.
Mas ele estava m ais preocupado com Zafar do que com o Irã. Zafar passara no exam e de m otorista e ganhara um pequeno carro, m as a idade adulta parecia ainda estar longe. A em oção do carro m otivara um com portam ento m eio m aluco. Havia um a garota, Evie Dalton, e Zafar estava posando de gazeteiro. Saía de casa de m anhã cedo, dizendo que sua classe inteira havia sido convocada para aulas extras de inglês para repassar a m atéria — que m entiroso fluente ele havia se revelado! Era um dano causado pela fatwa e, se viesse a ser um dano a longo prazo, seria intolerável. Um a garota havia telefonado para a escola fingindo ser Clarissa, para dizer que ele tinha um a consulta m édica e chegaria atrasado. A escola, farej ando a tram oia, telefonou para Clarissa para conferir, e a m entira foi descoberta. Clarissa falou com a m ãe de Evie, Mehra, e é claro que a boa senhora indiana ficou profundam ente chocada.
Zafar foi para a escola na hora do alm oço e se viu em m aus lençóis. Seus pais o castigaram e ele não ia poder usar o carro por um bom tem po. O sim ples fato de ele desaparecer, sabendo do pânico que isso ia representar para seu pai acerca de sua segurança, era sinal do quanto estava fora dos eixos. Ele havia sido um m enino bom , sensato. Mas agora era um adolescente.
Ele saiu para j antar com Zafar, só os dois, e isso aj udou. Ele entendeu que era im portante fazer aquilo regularm ente e se sentiu tolo de não ter percebido isso antes. Zafar estava preocupado por causa do irm ão novo, ele disse. Você éum pai mais velho, pai, e ele vai crescer com uma vida estranha, como eu. Ele queria m uito levar Evie à casa da Bishop’s Avenue. Mas duas sem anas depois estava com o coração partido. Evie, de quem ele se sentia tão próxim o porque eram am bos m eio indianos, o tinha deixado por seu m elhor am igo, Tom . “Mas eu não consigo ficar bravo com ninguém por m ais de duas horas”, ele disse, com ovedoram ente. Estava tentando continuar am igo dos dois (e conseguiu; Evie e Tom continuaram entre seus com panheiros m ais chegados). Mas a situação pesou para ele e afetou seriam ente seu rendim ento escolar. Ele tinha de tom ar j eito. A época dos exam es estava próxim a.
Duas sem anas depois, Zafar teve perm issão para usar o carro de novo e quase im ediatam ente sofreu um acidente. Telefonou às nove e quinze da m anhã; o acidente tinha acontecido logo depois da esquina da Bishop’s Avenue, na Winnington Road, m as seu pai prisioneiro não tinha permissão para fazer o que qualquer pai faria: correr para o local e se certificar de que o filho estava bem . Em vez disso, teve de ficar em sua gaiola, aflito, enquanto Elizabeth ia ao encontro de Zafar. O rapaz teve sorte: o nariz sangrando e um corte no lábio, nenhum ferim ento ou ossos quebrados. O acidente havia sido culpa dele. Tinha tentado ultrapassar um carro que estava dando sinal para a direita, batido no carro e depois derrubado um m uro baixo de j ardim . A polícia local disse que ele podia ter m atado alguém e que seria processado por direção perigosa (o que acabou não acontecendo). Enquanto isso, na casa da Bishop’s Avenue, os protetores de seu pai estavam dizendo, prestativos: “Bom , ele andava dirigindo m uito depressa; o acidente era só questão de tem po”.