Liberdade
O país da mulherada
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
No andar de cima, em seu quarto de canto, encontrou Jonathan lendo John Stuart Mill e assistindo à nona rodada de um jogo das finais nacionais de beisebol. “Está me acontecendo uma coisa muito difícil”, disse Jonathan. “Estou começando a querer torcer pelos Yankees.”
Joey, que nunca via beisebol sozinho, mas podia ser convencido a ver com outros, sentou-se em sua cama enquanto Randy Johnson arremessava foguetes para um jogador dos Yankees de olhos derrotados. O placar marcava quatro a zero. “Ainda podem virar”, disse ele.
“De jeito nenhum”, disse Jonathan. “E eu sinto muito, mas desde quando um time que entrou na Liga só há quatro anos vai disputar as finais? Ainda estou tentando me convencer de que existe um time de beisebol no Arizona.”
“Finalmente você está vendo a luz da razão.”
“Não me entenda errado. Ainda não existe nada melhor que uma derrota dos Yankees, de preferência por um ponto de diferença, de preferência numa bola mal passada por Jorge Posada, a maravilha sem queixo. Mas justamente neste ano você fica com certa vontade de ver o time de Nova York vencer no fim das contas. É um sacrifício patriótico do país inteiro em favor de Nova York.”
“Pois eu torço para eles ganharem todo ano”, disse Joey, embora não tivesse ligação forte com nenhum time.
“É, e de onde saiu essa? Você não devia torcer pelos Twins?”
“Acho que é principalmente porque meus pais odeiam os Yankees. Meu pai torce pelos Twins porque eles têm uma folha de pagamento bem pequena, e naturalmente os Yankees são o inimigo em matéria de salários dos jogadores. E minha mãe é maníaca contra tudo que vem de Nova York.”
Jonathan lhe lançou um olhar interessado. Até aquele dia, Joey tinha revelado muito pouco sobre os pais, só o suficiente para evitar a impressão de que mantinha um sigilo irritante a respeito deles. “Por que ela odeia Nova York?”
“Não sei. Talvez porque ela tenha vindo de lá.”
Na tv de Jonathan, Derek Jeter foi eliminado quando tentava chegar à segunda base, e o jogo acabou.
“Uma mistura muito complexa de emoções”, disse Jonathan, desligando a tv .
“Sabia que eu nem conheço os meus avós?”, disse Joey. “Minha mãe é muito esquisita em relação a eles. Durante toda a minha infância, eles só vieram nos visitar uma vez, por mais ou menos quarenta e oito horas. E o tempo todo minha mãe ficou completamente neurótica e representando. Fomos visitar os dois uma outra vez, quando passamos férias em Nova York, e também foi horrível. Eles me mandavam cartões de aniversário com três semanas de atraso, e aí minha mãe xingava os dois das piores coisas por causa disso, apesar de não ser exatamente culpa deles. Afinal, como é que iam se lembrar do aniversário de uma pessoa que nunca conseguem ver?”
Jonathan estava franzindo a testa, concentrado. “Onde em Nova York?”
“Não sei. Em algum subúrbio. Minha avó está na política, e acho que é deputada estadual. É uma senhora judia fina e elegante com quem a minha mãe não suporta nem ficar na mesma sala.”
“O quê? O que você disse?”, disse Jonathan sentando-se reto na cama. “Sua mãe é judia?”
“Acho que teoricamente sim.”
“Cara, você é judeu! E eu não tinha a menor ideia!”
“Mas só, deixe eu ver, um quarto”, disse Joey. “É uma coisa bem diluída.”
“Mas você pode imigrar para Israel agora mesmo, se quiser, e não lhe perguntam nada.”
“O sonho de toda a minha vida.”
“Só estou dizendo. Você pode andar armado com uma Desert Eagle, ou pilotar um desses jatos de combate, e sair com uma autêntica sabra.”
Para ilustrar o que estava dizendo, Jonathan abriu seu laptop e entrou até num site especializado em fotos de deusas israelenses bronzeadas com cinturões de munição cruzados diante de seus seios imensos e nus.
“Não fazem meu tipo”, disse Joey.
“Eu também não curto,” disse Jonathan, com uma honestidade talvez apenas parcial. “Só estou dizendo que podia ser bom se você curtisse esse tipo de coisa.”
“E por outro lado, também não existe um problema de ocupação ilegal de terras e abuso dos direitos dos palestinos?”
“Existe! O problema é ser uma ilha de democracia e de governo pró-ocidental cercada de muçulmanos fanáticos e ditaduras hostis.”
“É, mas isso só quer dizer que escolheram muito mal o lugar para pôr a ilha”, disse Joey. “Se os judeus não tivessem ido para o Oriente Médio, e se não tivéssemos de ficar sustentando o Estado deles, talvez os países árabes não fossem tão hostis conosco.”
“Cara. Você já ouviu falar do Holocausto?”
“Eu sei. Mas por que eles não foram para Nova York, por exemplo? Os americanos deixavam todo mundo entrar. Podiam construir suas sinagogas, e assim por diante, e podíamos manter uma relação normal com os árabes.”
“Mas o Holocausto aconteceu na Europa, que era supostamente um lugar civilizado. Quando um povo perde metade da população mundial num genocídio, não confia em ninguém para cuidar da sua segurança.”
Joey tinha uma consciência incômoda de que estava defendendo posições que eram mais dos seus pais do que dele mesmo, e que assim ia perder uma discussão que nem fazia muita questão de ganhar. “Está certo”, persistiu ele ainda assim, “mas por que o problema precisa ser nosso?”
“Porque cabe a nós proteger a democracia e o livre mercado onde eles existirem”, disse Jonathan. “É o problema da Arábia Saudita—um excesso de gente raivosa sem a menor perspectiva econômica. Por isso Bin Laden pode recrutar tanta gente lá. Concordo totalmente com você em relação aos palestinos. Só o que fizeram foi inventar um gigantesco criadouro de terroristas. É por isso que precisamos tentar levar a liberdade para todos os países árabes. Mas não podemos começar abandonando a única democracia de toda a região.”
Joey admirava Jonathan não só pela calma, mas por ter a confiança de não precisar fingir que era burro para se manter tranquilo. Conseguia a difícil proeza de ser inteligente sem perder a calma. “Bom”, disse Joey, para mudar de assunto, “ainda estou convidado para o Dia de Ação de Graças?”
“Convidado? Agora está duplamente convidado! Minha família não é do tipo de família judaica que detesta judeus. Meus pais gostam de judeus. Vão estender o tapete vermelho para você.”
Na tarde seguinte, sozinho no quarto deles, e oprimido por ainda não ter feito a ligação prometida para dizer a Connie que fosse a um médico, Joey se viu abrindo de repente o computador de Jonathan e procurando fotos de sua irmã, Jenna. Não considerava invasão ir direto para as fotos de família que Jonathan de qualquer maneira já tinha mostrado. A empolgação do companheiro de quarto com a sua condição de judeu parecia um presságio de uma recepção igualmente calorosa da parte de Jenna, e ele copiou as duas fotos mais atraentes dela no disco rígido do seu próprio computador, alterando a extensão dos arquivos para torná-los impossíveis de achar por qualquer pessoa que não fosse ele, de modo a poder imaginar alguma alternativa concreta a Connie antes de lhe dar o temido telefonema.
Em matéria de mulheres, a faculdade até agora não tinha sido muito satisfatória. Comparadas a Connie, as meninas realmente atraentes que ele tinha conhecido na Virgínia pareciam todas cobertas de Teflon, envoltas numa nuvem de suspeita quanto às motivações de Joey. Até as mais bonitinhas usavam maquiagem em excesso e roupas formais demais, e se vestiam para os jogos dos Cavaliers como se estivessem indo ao Kentucky Derby. É verdade que algumas das garotas do segundo escalão, nas festas em que beberam demais, lhe tinham dado a entender que ele era um rapaz para quem estariam disponíveis. Mas por algum motivo, fosse por ser um banana, por odiar ter que gritar mais alto que a música, por ter uma opinião excessivamente favorável de si mesmo ou por ser incapaz de ignorar o quanto o excesso de álcool deixava as garotas burras e irritantes, ele tomara desde cedo uma posição rigorosa contra essas festas e contra ficar com essas meninas, e decidiu que preferia de longe andar com os outros rapazes.
Ficou sentado segurando o telefone por muito tempo, meia hora, talvez, enquanto o céu nas janelas ia se acinzentando e começava a chover. Esperou tanto tempo, e num tamanho estupor de relutância, que foi quase o disparo de um arqueiro Zen quando seu dedo polegar, por conta própria, pressionou o código de discagem rápida correspondente ao número de Connie, e o som do telefone tocando o fez entrar em ação.
“Ei!”, atendeu ela com sua voz habitual e animada, uma voz de que vinha sentindo falta, percebeu ele. “Onde é que você está?”
“No meu quarto.”
“E como está aí?”
“Não sei. O céu está meio encoberto.”
“Meu Deus, estava nevando aqui mais cedo. Já chegou o inverno.”
“Sei, escute”, disse ele. “Você está bem?”
“Eu?”
Ela parecia surpresa pela pergunta. “Estou. Com saudade de você cada minuto do dia, mas com isso já estou ficando acostumada.”
“Desculpe ter passado tanto tempo sem ligar.”
“Tudo bem, eu adoro conversar com você, mas entendo que você precisa de disciplina. Estava agora mesmo preenchendo os papéis para pedir uma vaga em Inver Hills. E também me inscrevi para fazer o exame sat em dezembro, como você sugeriu.”
“Eu sugeri?”
“Se eu vou para uma escola de verdade no outono, como você disse, preciso fazer o sat primeiro. Comprei um livro que ensina a estudar para o exame. E vou estudar três horas por dia.”
“Quer dizer que você está realmente bem.”
“Estou! E você?”
Joey se esforçou para conciliar o relato de Carol sobre Connie com o tom lúcido e composto que ele ouvia ao telefone. “Conversei com sua mãe ontem à noite”, disse ele.
“Eu sei. Ela me disse.”
“E ela está grávida?”
“Pois é, uma verdadeira bênção na vida de todos nós. Acho que vão ser gêmeos.”
“É mesmo? Por quê?”
“Não sei. É a minha intuição. Que de algum modo vai ser especialmente horrível.”
“Toda a nossa conversa foi bem estranha.”
“Agora eu falei com ela”, disse Connie. “E ela não vai mais ligar para você. Se ligar, me conte que eu mando parar de novo.”
“Ela disse que você estava muito deprimida”, contou Joey.
O que provocou um súbito silêncio, do gênero buraco negro total, como só Connie sabia fazer.
“Ela disse que você passava os dias dormindo e que não comia direito”, disse Joey. “Estava muito preocupada com você.”
Depois de outro silêncio, Connie disse, “Eu fiquei um pouco deprimida algum tempo. Mas Carol não tinha nada a ver com isso. E agora eu estou melhor”.
“Mas quem sabe não é melhor você tomar um antidepressivo, ou coisa assim?”
“Não. Estou me sentindo muito melhor.”
“Bom, ótima notícia”, disse Joey, embora sentisse que alguma coisa não ia nada bem—que uma fraqueza mórbida e um excesso de apego da parte dela podiam fornecer-lhe uma rota de fuga viável.
“E você, tem dormido com outras pessoas?”, perguntou Connie. “Achei que podia ser por isso que estava ligando.”
“Não! Não. De maneira nenhuma.”
“Por mim não tem problema. Já no mês passado eu pensei em dizer isso. Você é um homem, tem as suas necessidades. Não quero que vire um monge. Se for só sexo, qual é o problema?”
“O mesmo também vale para você”, disse ele com gratidão, sentindo que havia ali outra possível rota de fuga.
“Só que no meu caso não tem como acontecer”, disse Connie. “Ninguém mais me enxerga como você. Sou invisível para os homens.”
“Nisso eu não posso acreditar.”
“Não, é verdade. Às vezes eu tento ser simpática, ou até dar um pouco de bola para alguém no restaurante. Mas parece mesmo que sou invisível. E na verdade eu nem ligo. Só quero você mesmo. E acho que as pessoas sentem isso.”
“Eu quero você também”, ele se pegou a murmurar, contrariando certas normas de segurança que tinha fixado para si mesmo.
“Eu sei”, disse ela. “Mas os homens são diferentes, só isso. Pode ficar à vontade.”
“Na verdade ando é me masturbando muito.”
“É, eu também. Por horas e horas. Às vezes é a única coisa que me dá vontade de fazer o dia inteiro. Deve ser por isso que Carol acha que estou deprimida.”
“Mas talvez você esteja mesmo deprimida.”
“Não, é só que eu gosto de gozar muitas vezes. Penso em você, e gozo. Penso de novo em você, e aí gozo de novo. É só isso.”
Muito rapidamente a conversa se desdobrou em sexo telefônico, que eles não praticavam desde os primeiros dias, quando se esgueiravam pelos cantos e sussurravam nos telefones dos respectivos quartos. E de lá para cá tinha ficado muito mais interessante, porque tinham aprendido o que dizer um para o outro. Ao mesmo tempo, era como se nunca tivessem transado—o que era verdadeiramente cataclísmico.
“Eu queria poder limpar os seus dedos com a língua”, disse Connie quando acabaram.
“Estou lambendo por você”, disse Joey.
“Muito bem. Lambe por mim. O gosto está bom?”
“Está.”
“Juro que estou sentindo na minha boca.”
“E eu também estou sentindo o seu gosto.”
“Ah, cara.”
O que levou imediatamente a mais sexo por telefone, numa versão mais nervosa, porque as aulas da tarde de Jonathan estavam acabando e ele podia voltar logo.
“Cara”, disse Connie. “Ah, cara. Cara, cara, cara.”
Joey, quando chegou novamente ao clímax, teve a impressão de que estava com Connie no quarto dela na Barrier Street, ele de costas arqueadas ela de costas arqueadas, o peito chato dele os peitos pequenos dela. Ficaram respirando em uníssono nos seus celulares. Ele estava enganado, na noite anterior, quando tinha dito a Carol que ela, e não ele, era responsável pelo modo como Connie era. Sentia agora, no corpo, como cada um dos dois tinha transformado o outro no que era.
“Sua mãe quer que eu vá passar o Dia de Ação de Graças aí com vocês”, disse ele depois de algum tempo.
“Não precisa vir”, disse ela. “Nosso acordo é que íamos tentar ficar nove meses sem nos ver.”
“Bem, mas ela meio que me encheu o saco para ir.”
“Ela é assim mesmo. Um pé no saco. Mas agora eu falei com ela, e ela não vai mais telefonar.”
“Quer dizer que você não se incomoda?”
“Você sabe o que eu quero. O Dia de Ação de Graças não tem nada a ver com isso.”
Ele estava esperando, por razões paradoxalmente opostas, que Connie fosse dizer o mesmo que Carol, e insistir que ele fosse passar o feriado com elas. Estava louco, por um lado, para estar com ela e dormir com ela, e, por outro, para encontrar algum defeito nela, de maneira a ter alguma coisa a que resistir e com que romper. E o que ela estava fazendo, em vez disso, com sua lucidez tranquila, era reajustar um anzol de que por algum tempo, nas últimas semanas, ele tinha conseguido se livrar. Prendendo-o mais fundo do que nunca.
“É melhor eu desligar”, disse ele. “Jonathan está chegando da faculdade.”
“Está bem”, disse Connie, e o liberou.
A conversa entre eles tinha sido tão loucamente diferente de suas expectativas que ele nem mesmo lembrava mais o que estava esperando antes. Tinha levantado de sua cama como se emergisse de um buraco de minhoca aberto na trama da realidade, o coração batendo com força, a visão alterada, e ficou andando de um lado para o outro pelo quarto acompanhado pelo olhar coletivo de Tupac e Natalie Portman. Sempre tinha gostado muito de Connie. Sempre. E então por que agora, no mais inoportuno dos momentos, ele se sentia arrastado, como se pela primeira vez, por essa correnteza titânica de gostar dela de verdade? Como podia acontecer que, depois de anos de sexo com ela, anos de sentir ternura por ela e vontade de protegê-la, ele só agora estivesse sendo sugado por essas águas mais pesadas do afeto? Sentindo-se ligado a ela dessa maneira assustadoramente consequente? Por que agora?
Estava errado, estava errado, ele sabia que estava errado. Sentou-se em frente ao computador para ver as fotos da irmã de Jonathan e tentar restabelecer alguma ordem. Por sorte, antes que conseguisse trocar as extensões dos arquivos de volta para jpg e ser pego em flagrante delito, Jonathan entrou no quarto.
“Meu camarada, meu irmão judeu”, disse ele, caindo na cama como a vítima de uma bala. “E aí?”
“E aí”, disse Joey, fechando depressa a janela aberta no monitor.
“Epa, estou sentindo um certo cheiro de cloro no ar? Você foi nadar na piscina, ou coisa assim?”
Joey, naquele instante, quase contou tudo para o colega de quarto, toda a história entre ele e Connie até o presente momento. Mas o mundo de sonho onde estava até então, o submundo da mescla das identidades sexuais, desaparecia depressa em face da presença masculina de Jonathan.
“Não sei do que você está falando”, ele disse com um sorriso.
“Abra um pouco uma das janelas, pelo amor de Deus. Quer dizer, você me agrada e tudo o mais, mas ainda não estou disposto a transar contigo.”
Levando a sério a queixa de Jonathan, Joey abriu as janelas. Tornou a ligar para Connie no dia seguinte, e de novo dois dias depois. Esqueceu-se rapidamente dos seus argumentos contra os telefonemas frequentes e se entregou satisfeito ao sexo telefônico como substituto para sua masturbação solitária na biblioteca de ciências, que agora lhe parecia uma triste aberração, de lembrança embaraçosa. Conseguiu convencer-se de que, enquanto evitassem a conversa mole e a troca de notícias, e só falassem de sexo, não havia problema em manter aquela exceção ao embargo estrito de excesso de contato. Enquanto continuavam a alargar a exceção, porém, outubro se transformou em novembro, os dias cinzentos foram encurtando e ele percebeu que ouvir Connie afinal dar nome às coisas que tinham feito e às coisas que imaginava fazer com ele no futuro só tornava o contato entre eles mais profundo e mais real. E esse aprofundamento era um tanto estranho, porque só estavam estimulando a masturbação um do outro. Mas retrospectivamente lhe parecia que, em St. Paul, o silêncio de Connie formara uma espécie de barreira de proteção: conferira à sua atividade sexual o que um político poderia chamar de negabilidade. Descobrir agora que o sexo vinha sendo plenamente registrado nela como linguagem—como palavras que ela conseguia dizer em voz alta—a tornava muito mais real para ele como pessoa. Os dois agora não podiam mais fingir que eram só dois jovens animais mudos fazendo o que faziam de maneira irrefletida. As palavras tornavam tudo menos seguro, as palavras não tinham limite, as palavras criavam um mundo próprio. Certa tarde, da maneira que Connie descreveu, seu clitóris excitado chegou a vinte centímetros de comprimento, um proeminente lápis de ternura com que ela separou com cuidado os lábios do pênis de Joey e penetrou até a base do seu membro. Num outro dia, a pedido dela, Joey lhe descreveu a superfície quente e lisa de cada cocô que deixava o ânus dela e caía em sua boca aberta, onde, como eram apenas palavras, tinham o sabor do melhor chocolate amargo. Enquanto as palavras dela soassem em seu ouvido, estimulando-o a ir em frente, ele não tinha vergonha de nada. Voltava àquele buraco de minhoca quatro ou até cinco vezes por semana, desaparecendo no mundo que os dois criaram, e mais adiante reemergia, fechava as janelas e saía para o refeitório ou para o salão do dormitório, desincumbindo-se sem dificuldade da afabilidade rasa que a vida de estudante exigia dele.
Era, como Connie tinha dito, só sexo. A permissão que ela lhe dera de desenvolver a atividade em outras frentes estava bem presente no espírito de Joey enquanto ele viajava com Jonathan até NoVa para o Dia de Ação de Graças. Estavam no Land Cruiser de Jonathan, que ele ganhara como presente de formatura no curso secundário e agora deixava estacionado do lado de fora do campus em desafio declarado à regra que não permitia que os primeiranistas tivessem carro. Era impressão de Joey, a partir do que vira em filmes e livros, que muita coisa podia acontecer depressa quando os estudantes deixavam a faculdade para o Dia de Ação de Graças. Durante todo o outono, ele tomara o cuidado de não perguntar nada a Jonathan sobre a irmã, Jenna, imaginando que não teria nada a ganhar despertando prematuramente as suspeitas do colega de quarto. Mas, assim que ele tocou no nome de Jenna a bordo do Land Cruiser, viu que todo seu cuidado não lhe valera de nada. Jonathan lhe lançou um olhar compreensivo e disse, “Ela namora sério”.
“Sem dúvida.”
“Ou, não, desculpe, defini mal. Devia dizer que ela leva muito a sério um namorado que na verdade é ridículo e um imbecil de marca maior. Não vou insultar a minha própria inteligência perguntando por que você quer saber dela.”
“Só estava sendo delicado”, disse Joey.
“Rá rá. Foi interessante, quando ela finalmente saiu de casa e foi para a faculdade. Descobri quais amigos meus eram realmente meus amigos e quais só estavam interessados em poder entrar quando ela estava em casa. Que eram mais ou menos uns cinquenta por cento.”
“Eu tive o mesmo problema, mas não com a minha irmã”, disse Joey, sorrindo ao pensar em Jessica. “No meu caso, era uma mesa de totó, outra de hóquei e um barril de cerveja.” E continuou, inspirado pela liberdade de estarem viajando, a divulgar para Jonathan as circunstâncias dos seus dois últimos anos de escola secundária. Jonathan escutava com a devida atenção, mas parecia interessado só numa parte da história, a parte em que Joey morava na casa de sua namorada.
“E onde essa pessoa está agora?”, perguntou ele.
“Em St. Paul. Ainda não saiu de casa.”
“Está de sacanagem!”, disse Jonathan, muito impressionado. “Mas espere um pouco. A garota que Casey viu entrando no seu quarto no Yom Kippur—não era ela, ou era?”
“Na verdade, era”, disse Joey. “Nós terminamos, mas nessa época tivemos uma recaída.”
“Seu mentiroso de merda! Você me disse que era só uma história passageira”
“Não. Eu só disse que não queria falar a respeito.”
“Mas você me levou a acreditar que era só uma menina com quem estava ficando. Não posso acreditar que você a trouxe para cá quando eu saí de viagem.”
“Como eu disse, foi só uma recaída rápida. Agora estamos separados.”
“É mesmo? E vocês não conversam pelo telefone?”
“Só um pouco. Ela anda muito deprimida.”
“Estou impressionado de ver como você é um mentiroso calculista.”
“Eu não minto”, disse Joey.
“Disse o mentiroso. Você tem alguma foto dela no seu computador?”
“Não”, mentiu Joey.
“Joey, o garanhão em segredo”, disse Jonathan. “Joey, o fujão. Puta merda.
Agora estou entendendo você melhor.”
“Está certo, mas ainda sou judeu, e você ainda precisa gostar de mim.”
“Eu não disse que não gostava de você. Só disse que estava entendendo você melhor. Estou cagando para a sua namorada—não vou dizer nada para Jenna. Só vou dizer desde já que você não vai achar a chave do coração dela.”
“Que é o quê?”
“Um emprego na Goldman Sachs. Que é onde o namorado dela trabalha. E ele diz que o projeto dele é ganhar mais de cem milhões de dólares antes dos trinta anos.”
“Ele vai estar na casa dos seus pais?”
“Não, está em Cingapura. Acabou de se formar o ano passado, e já mandaram o sujeito para a porra de Cingapura para fechar negócios de centenas de bilhões de dólares, ou coisa parecida. Ela também vai estar em casa solitária.”
O pai de Jonathan era fundador e presidente emérito de um instituto de pesquisas dedicado à defesa do exercício unilateral da supremacia militar americana para tornar o mundo mais livre e mais seguro, especialmente para os Estados Unidos e Israel. Quase não tinha havido uma semana, em outubro e novembro, sem que Jonathan não mostrasse a Joey um editorial do Times ou do Journal em que seu pai se estendesse sobre a ameaça do Islã radical. Também o viram aparecer no programa NewsHour e na Fox News. Ele tinha uma boca cheia de dentes excepcionalmente brancos que exibia sempre que começava a falar, e parecia mais velho, quase o suficiente para ser avô de Jonathan. Além de Jonathan e Jenna, tinha três filhos muito mais velhos de casamentos anteriores, além de duas ex-mulheres.
A casa onde morava com a terceira esposa ficava em McLean, Virgínia, num beco sem saída cercado de florestas que parecia uma visão do lugar onde Joey queria ir morar assim que ficasse rico. Dentro da casa, cujo piso era de tábuas do melhor carvalho, parecia haver uma infinidade de aposentos que davam para uma ravina de mata em que pica-paus passavam voando em velocidade em meio às árvores quase sem folhas. Apesar de ter crescido numa casa que considerava cheia de livros e de bom gosto, Joey ficou aturdido com a quantidade de volumes encadernados e pela qualidade obviamente ímpar do verdadeiro butim que o pai de Jonathan tinha acumulado em períodos distintos de residência no exterior. Tanto quanto Jonathan ficara surpreso ao saber das aventuras de Joey na escola secundária, Joey agora se surpreendia ao ver o quanto seu bagunceiro e um tanto grosseiro companheiro de quarto tinha crescido em meio ao luxo da classe alta. A única nota destoante eram os muito adornados objetos de culto judaico, todos de brilho um tanto excessivo, distribuídos por vários cantos e nichos da sala. Vendo Joey franzir a testa diante de uma menorá banhada em prata e especialmente monstruosa, Jonathan lhe assegurou que era antiquíssima, rara e valiosa.
A mãe de Jonathan, Tamara, que claramente tinha sido uma gata no passado, e ainda jogava um bolão, mostrou a Joey o quarto e o banheiro luxuosos que seriam de uso exclusivo dele. “Jonathan me disse que você é judeu”, disse ela.
“É, parece que eu sou”, confirmou Joey.
“Mas não praticante?”
“Nem mesmo consciente do fato, pelo menos até um mês atrás.”
Tamara balançou a cabeça. “Não consigo entender”, disse ela. “Sei que é muito comum, mas nunca vou conseguir entender.”
“Mas eu também não era cristão, nem mais nada”, disse Joey à guisa de desculpa. “Tudo isso fazia parte de uma questão que nem existia.”
“Bem, mas você é muito bem-vindo à nossa casa. Acho que vai achar interessante aprender alguma coisa sobre a sua herança. Vai ver que Howard e eu não somos especialmente conservadores. Só achamos importante ter consciência da condição judaica e lembrar-nos sempre dela.”
“Eles vão enquadrar você, nem que seja à força”, disse Jonathan.
“Não se preocupe, usamos a força com muita gentileza”, disse Tamara com um sorriso de cpc.
“Ótimo”, respondeu Joey. “Eu estou disposto a tudo.”
Assim que puderam, os dois rapazes se refugiaram na sala de jogos do porão, cujas instalações deixavam no chinelo inclusive as do grande salão de Blake e Carol. Era praticamente possível jogar tênis na extensão azul da mesa de sinuca inglesa de mogno. Jonathan ensinou a Joey um jogo complexo, interminável e especialmente frustrante chamado Cowboy Pool, que precisava ser jogado numa mesa que não tivesse um mecanismo de coleta central das bolas encaçapadas. Joey estava a ponto de sugerir que trocassem por hóquei de mesa, que jogava com uma habilidade fulminante, quando a irmã, Jenna, apareceu no porão. Mal tomou conhecimento de Joey, do alto de sua maturidade de mulher dois anos mais velha, e começou a conversar sobre questões urgentes de família com o irmão.
Joey entendeu de repente, como nunca antes, o que as pessoas queriam dizer quando usavam a expressão “de tirar o fôlego”. Jenna tinha o tipo de beleza perturbadora que relegava tudo à sua volta, inclusive as funções orgânicas essenciais de quem a observava, a uma condição mais que secundária. Seu corpo, sua pele e sua estrutura óssea faziam os traços que ele antes admirara em tantas meninas “bonitas” parecerem aproximações precárias da beleza; mesmo as fotografias não lhe faziam justiça. Seus cabelos eram fartos, brilhantes e de um louro claro e arruivado, e ela usava um casaco de moletom grande demais da Universidade Duke e calças de pijama de flanela, que, longe de esconderem a perfeição do seu corpo, demonstravam seu poder de superar a mais larga das calças. Tudo mais em que Joey punha os olhos na sala de jogos só se destacava por não ser ela—era tudo a mesma bobajada de segunda classe. E ainda assim, quando ele arriscava um olhar para ela, seu cérebro ficava perturbado demais para registrar alguma coisa. Era estranhamente cansativo. Parecia não existir maneira alguma de arrumar os traços do seu rosto que não ficasse falsa ou envergonhada. Percebeu dolorosamente que estava sorrindo como um estúpido para o chão, enquanto ela e seu espantosamente indiferente irmão implicavam um com o outro sobre a expedição de compras a Nova York que planejavam fazer na sexta-feira.
“Você não pode deixar o conversível para nós”, disse Jonathan. “Joey e eu vamos parecer um casal gay naquela coisa.”
O único defeito evidente de Jenna era a voz, aguda e infantil. “Sei”, disse ela. “Um casal gay com as calças caindo até o meio da bunda.”
“Só não entendo por que você não pode ir com o conversível para Nova York”, disse Jonathan. “Você foi outras vezes.”
“Porque mamãe está dizendo que eu não posso. Não num fim de semana de feriado. O Land Cruiser é mais seguro. Eu trago de volta no domingo.”
“Está brincando? O Land Cruiser capota por qualquer besteira. Não existe carro menos seguro.”
“Bom, se você quiser pode discutir com a mamãe. Diga a ela que o carro que você ganhou de formatura não é seguro e capota por qualquer besteira, e que por isso não posso ir nele para Nova York.”
“Ei”, Jonathan se virou para Joey. “Quer ir passar o fim de semana em Nova York?”
“Claro!”, respondeu Joey.
“Fique com o conversível”, disse Jenna. “Ele não vai dar nenhum problema nesses três dias.”
“Não, achei a ideia ótima”, disse Jonathan. “Podemos ir todos para Nova York no Land Cruiser fazer compras. Você pode me ajudar a encontrar umas calças que considere dentro dos seus padrões.”
“Os motivos para nem pensarmos no assunto?”, perguntou Jenna. “Primeiro, você nem tem onde ficar.”
“Por que não podemos ficar com você na casa de Nick? Ele não está em Cingapura, ou coisa assim?”
“Nick não vai querer um bando de rapazes mais novos no apartamento dele. E ainda por cima pode ser que ele volte na noite de sábado.”
“Dois não são um bando. Somos só eu e meu companheiro de quarto de Minnesota, um sujeito incrivelmente organizado.”
“Sou muito organizado”, garantiu-lhe Joey.
“Sem a menor dúvida”, disse ela com interesse zero, do alto de sua idade. A presença de Joey, ainda assim, parecia complicar sua resistência—não podia ser tão taxativa com um desconhecido como era com o irmão. “Está bem, estou me lixando”, disse ela. “Vou perguntar a Nick. Mas se ele disser que não, vocês não vêm.”
Assim que ela subiu as escadas, Jonathan apresentou a palma da mão para que Joey lhe desse um cumprimento. “Nova York! Nova York!”, disse ele, “Aposto que podemos ficar com a família de Casey se Nick for tão babaca como sempre. Eles moram em algum lugar do Upper East Side.”
Joey ainda estava em choque com a beleza de Jenna. Caminhou até o lugar que ela havia ocupado, que cheirava ligeiramente a patchuli. Que ele conseguisse passar um fim de semana inteiro perto dela, devido apenas à sorte de ser companheiro de quarto de Jonathan, parecia-lhe uma espécie de milagre.
“Você também, já estou vendo”, disse Jonathan, balançando tristemente a cabeça. “A história se repete.”
Joey sentiu que corava. “O que eu não entendo é como você saiu tão feio.”
“Ah, sabe o que dizem dos pais mais velhos. Meu pai tinha cinquenta e um anos quando eu nasci. Dois anos cruciais de degradação genética. Nem todos os rapazes são bonitões como você.”
“Não sabia que você se interessava.”
“Que interesse? Só vejo beleza nas garotas, onde ela precisa existir.”
“Vá se foder, playboy.”
“Bonitão, bonitão.”
“Vá tomar no cu. Agora vou foder com você num jogo de hóquei de mesa.”
“Contanto que só queira no jogo.”
Apesar da ameaça de Tamara, felizmente houve muito pouca instrução religiosa, ou qualquer tipo de interação invasiva com os pais durante a estada de Joey em McLean. Ele e Jonathan se instalaram no home theater do porão, que tinha poltronas reclináveis e uma tela de projeção de dois metros e meio, e ficaram acordados até as quatro da manhã vendo péssimos programas de tv e lançando dúvidas sobre a heterossexualidade um do outro. Quando os dois acordaram no Dia de Ação de Graças, multidões de parentes estavam chegando à casa. Como Jonathan era obrigado a conversar com eles, Joey se viu flutuando pelos lindos aposentos da casa como uma molécula de hélio, dedicando-se a procurar linhas de visada pelas quais Jenna pudesse passar, ou melhor, em que pudesse pousar. A excursão do dia seguinte a Nova York, que seu namorado surpreendentemente autorizara, era como dinheiro no banco: ele teria, no mínimo, duas longas viagens de carro para tentar impressioná-la. Por enquanto, tudo que queria era acostumar seus olhos com ela, fazer dela algo menos impossível. Ela usava um vestido decoroso de gola alta, um vestido simpático, e ou era muito habilidosa na aplicação dos cosméticos ou simplesmente quase não usava maquiagem. Ele atentou para as boas maneiras que ela exibia, manifestas em sua paciência com tios calvos e tias plastificadas que pareciam ter muito a lhe dizer.
Antes de o jantar ser servido, ele escapou até seu quarto e ligou para St.
Paul. Ligar para Connie estava fora de questão no estado em que se encontrava; a vergonha por suas conversas indecentes, curiosamente ausente ao longo de todo o outono, agora se manifestava. Já seus pais eram outra questão, mesmo que só pelos cheques de sua mãe que vinha descontando.
Foi seu pai quem atendeu o telefone em St. Paul e conversou com ele por mais de dois minutos antes de passar a ligação para sua mãe, o que Joey entendeu como uma espécie de traição. Na verdade ele respeitava muito o pai—pela constância de suas censuras; pelo rigor dos seus princípios—e podia respeitar ainda mais se seu pai não tratasse sua mãe com tanta deferência: algum apoio masculino podia ser produtivo para Joey, mas em vez disso seu pai sempre o entregava para a sua mãe, e lavava as mãos diante do que acontecesse entre os dois.
“Olá”, disse ela com um afeto que o deixou arrepiado. Na mesma hora decidiu tratá-la mal, mas, como acontecia com tanta frequência, ela contrariou sua expectativa com seu senso de humor e sua risada cascateante. Dali a pouco, ele tinha descrito tudo em McLean para ela, menos Jenna.
“Uma casa cheia de judeus!”, disse ela. “Que interessante para você.”
“Você é judia”, disse ele. “E por isso eu também sou judeu. E Jessica também, e os filhos dela, se ela tiver.”
“Não, só se você for na conversa deles”, disse sua mãe. Depois de três meses morando na Costa Leste, Joey conseguia perceber que a mãe tinha um ligeiro sotaque de Minnesota. “É o seguinte”, disse ela, “acho que em matéria de religião cada um só é o que diz que é. Ninguém mais pode dizer pela pessoa.”
“Mas você não tem religião nenhuma.”
“Exato. Foi uma das poucas coisas em que meus pais e eu concordamos, benditos sejam. Que a religião é uma estupidez. Embora minha irmã atualmente discorde de mim, o que significa que continuamos a discordar a respeito de absolutamente tudo.”
“Qual irmã?”
“Sua tia Abigail. Parece que ela anda estudando profundamente a Cabala, e redescobrindo as raízes judaicas, sejam lá quais forem. E como eu sei disso? Porque recebemos uma corrente dela, na verdade um e-mail, sobre a Cabala. Achei de muito mau gosto, e devolvi o e-mail para ela, pedindo que por favor não me mandasse mais nenhuma corrente, e ela me respondeu com um e-mail sobre a Jornada Espiritual.”
“Eu nem sei o que é a Cabala”, disse Joe.
“Ah, ela vai ter o maior prazer em lhe contar em detalhe, se um dia você quiser entrar em contato com ela. É uma coisa muito Importante e Mística —e acho que a Madonna também anda metida nisso, o que já deve ser informação suficiente.”
“Madonna é judia?”
“É, Joey, daí o nome dela.” A mãe riu dele.
“Bom, de qualquer maneira”, disse ele, “estou tentando encarar a ideia com a mente aberta. Não queria rejeitar uma coisa sobre a qual ainda nem sei direito o que eu penso.”
“Muito bem. E quem sabe? Pode até ajudar você em alguma coisa.”
“Pode”, confirmou ele em tom frio.
Na mesa compridíssima do jantar, instalaram-no do mesmo lado que Jenna, o que o poupou da visão de sua beleza e permitiu que se concentrasse em conversar com um dos tios calvos, que supôs que ele fosse judeu e o regalou com o relato de sua recente viagem de férias-traço-negócios a Israel. Joey fez de conta que já tinha ouvido falar e que ficava impressionado com muita coisa que lhe era completamente estranha: o Muro das Lamentações e seus túneis, a Torre de Davi, Masada, Yad Vashem. Um ressentimento tardio de sua mãe, associado ao luxo extremo da casa e a seu fascínio por Jenna e um certo sentimento inédito de genuína curiosidade intelectual, o fazia desejar de fato tornar-se mais judeu ainda —para ver como podia ser aquele tipo de pertencimento a um grupo.
O pai de Jonathan e Jenna, na outra extremidade da mesa, discorria sobre questões internacionais com tamanho conhecimento de causa que pouco a pouco as outras conversas foram cessando. Os cordões de pele em seu pescoço, que lembravam um peru, eram bem mais perceptíveis ao vivo do que pela tv, e podia-se ver que era a pequenez quase encolhida de seu crânio que dava tamanha proeminência a seu sorriso muito, muito branco. O fato de uma pessoa tão murcha ter produzido a incrível Jenna parecia a Joey coadunar-se com a sua eminência. Ele falava da “nova difamação escrita com letras de sangue” que circulava pelo mundo árabe, a mentira segundo a qual não havia judeus nas Torres Gêmeas no Onze de Setembro, e sobre a necessidade, em tempos de emergência nacional, de responder a mentiras malignas com meias verdades benevolentes. Falou de Platão como se tivesse recebido aulas a seus pés atenienses. Referia-se a membros do gabinete presidencial por seus prenomes, explicando como “nós” estávamos “pressionando” o presidente a aproveitar esse momento histórico único para cuidar de um impasse geopolítico insolúvel, e expandir radicalmente a esfera da liberdade. Em tempos normais, disse ele, a grande maioria da opinião pública americana era isolacionista e não queria saber de nada, mas os ataques terroristas “nos” tinham trazido uma oportunidade de ouro, a primeira desde o fim da Guerra Fria, para que “o filósofo” (qual filósofo, exatamente, Joey não sabia ao certo, ou tinha perdido a referência anterior a ele) se apresentasse e unisse o país em torno da missão que sua filosofia revelara ser correta e necessária. “Precisamos aprender a exagerar um pouco certos fatos”, disse ele, com seu sorriso, a um tio que o contrariara em tom ligeiro duvidando do poderio nuclear do Iraque. “A mídia moderna não passa de uma sombra muito borrada na parede, e o filósofo precisa estar preparado para manipular essa sombra a serviço de uma verdade maior.”
Entre o impulso que Joey sentia de impressionar Jenna e sua irrupção em palavras, só houve um curto instante de terror em queda livre. “Mas como saber o que é a verdade?”, perguntou ele em voz alta.
Todos os rostos se viraram para ele, e seu coração disparou.
“Nunca podemos saber ao certo”, respondeu o pai de Jenna, fazendo aquela coisa do sorriso. “Você tem toda razão. Mas quando descobrimos que a nossa compreensão do mundo, baseada em décadas e décadas de cuidadoso estudo empírico pelos melhores cérebros, está de acordo com o princípio indutivo da liberdade humana universal, é uma boa indicação de que nosso pensamento está pelo menos aproximadamente no caminho certo.”
Joey fez um aceno entusiasmado com a cabeça, para demonstrar sua concordância total e profunda, e ficou surpreso quando, contra a sua vontade, persistiu: “Mas parece que, se começarmos a mentir sobre o Iraque, vamos nos igualar aos árabes com a mentira de que nenhum judeu foi morto no Onze de Setembro”.
O pai de Jenna, nem um pouco abalado, disse, “Você é um rapaz muito inteligente, não é?”.
Joey não soube dizer se isso foi dito com intenção irônica.
“Jonathan diz que você é bom aluno”, continuou o velho em tom delicado. “E assim estou imaginando que já deve ter sentido alguma frustração com pessoas menos inteligentes que você. Pessoas que não só são incapazes como também não querem admitir certas verdades cuja lógica lhe parece mais que evidente. Que parecem nem se importar com o fato de seus argumentos não terem lógica. Nunca lhe aconteceu de sofrer uma frustração desse tipo?”
“Mas é porque são pessoas livres”, disse Joey. “Não é para isso que existe a liberdade? O direito de cada um pensar o que quiser? Mas é verdade, e eu admito que, às vezes, isso é um saco.”
Em torno da mesa, ouviram-se alguns risinhos.
“Exato”, disse o pai de Jenna. “A liberdade é um saco. E é justamente por isso que é imperativo aproveitarmos a oportunidade que nos foi dada meses atrás. Para fazer todo um país de pessoas livres abandonar uma lógica defeituosa e adotar uma lógica melhor, pelos meios que forem necessários.”
Incapaz de suportar mais um segundo que fosse de exposição, Joey assentiu ainda mais vigorosamente com a cabeça. “O senhor tem razão,” disse ele. “Entendi, o senhor tem razão.”
O pai de Jenna foi em frente e descarregou mais uma quantidade de fatos exagerados e opiniões inabaláveis de que Joey não ouviu quase nada. Seu corpo latejava com a empolgação de ter dito o que pensava e ter sido ouvido por Jenna. A sensação que ele havia perdido durante todo o outono, de que era alguém a ser respeitado, estava voltando. Quando Jonathan se levantou da mesa, ele se levantou um pouco vacilante e seguiu o amigo até a cozinha, onde recolheram uma quantidade suficiente de vinho deixado nas taças para encher dois copos de meio litro.
“Cara”, disse Joey, “você não pode misturar assim tinto e branco.”
“É rosé, bestalhão”, disse Jonathan. “E desde quando você é enólogo?”
Levaram seus copos cheios para o porão e consumiram o vinho jogando hóquei de mesa. Joey ainda estava tão alterado que mal sentia os efeitos da bebida, o que foi uma sorte quando o pai de Jonathan desceu as escadas e veio juntar-se a eles. “Que tal um joguinho de Cowboy Pool?”, perguntou ele, esfregando as mãos.“Imagino que Jonathan já lhe ensinou o jogo da casa.”
“Ensinou, e eu errei todas as jogadas”, respondeu Joey.
“É o rei dos jogos de mesa e taco, combinando o que há de melhor no bilhar francês e nos jogos de caçapa”, disse o velho enquanto arrumava a bola 1, a bola 3 e a bola 5 nos seus lugares. Jonathan parecia um tanto envergonhado dele, o que deixou Joey interessado, pois tendia a acreditar que só os pais dele eram capazes de deixar alguém realmente envergonhado. “E temos mais uma regra especial que quero usar hoje à noite. Jonathan? O que você acha? A regra foi criada pra impedir que um jogador muito habilidoso fique matando a bola 5 e aumentando a contagem. Vocês podem fazer isso, contanto que aprendam a puxar a bola branca em linha reta, mas eu sou obrigado a dar uma vez numa das tabelas ou encaçapar outra bola cada vez que eu matar a 5.”
Jonathan revirou os olhos. “É, boa ideia, papai.”
“Vamos dar o pontapé inicial?”, perguntou seu pai, passando giz no taco.
Joey e Jonathan se entreolharam e contiveram explosivamente uma risada. O velho nem percebeu.
Joey sofreu por jogar tão mal, e os efeitos do vinho começaram a ficar aparentes quando o velho lhe deu uns conselhos que só o fizeram jogar pior ainda. Jonathan, enquanto isso, competia intensamente, aplicando-se com uma seriedade ferrenha que Joey nunca vira nele antes. Durante uma de suas jogadas mais longas, o pai dele puxou Joey para um lado e lhe perguntou quais eram seus planos para o verão.
“Ainda falta muito tempo”, disse Joey.
“Nem tanto assim, na verdade falta pouco. O que interessa mais a você?”
“Antes de mais nada eu preciso ganhar dinheiro, e ficar na Virgínia. Estou pagando meus próprios estudos.”
“Jonathan me contou. É uma ambição impressionante. E me desculpe se eu for longe demais, mas minha mulher disse que você está começando a desenvolver algum interesse pela sua herança ancestral, depois de ter sido criado sem fé. Não sei se isso tem a ver com sua decisão de abrir caminho no mundo por conta própria, mas, se tiver, quero lhe dar meus parabéns por pensar com a própria cabeça e ter a coragem de seguir o que acha certo. Com o tempo, você pode até voltar, para conduzir sua família em sua própria caminhada.”
“Eu realmente fico com pena de não ter aprendido nada a respeito.”
O velho sacudiu a cabeça no mesmo espírito de censura que tomara sua mulher. “Nós temos a tradição mais maravilhosa e duradoura do mundo”, disse ele. “Acho que para um jovem de hoje deve ter um apelo especial, porque tem tudo a ver com a escolha individual. Ninguém diz a um judeu em que ele deve acreditar. Cada um precisa concluir por conta própria. Cada um pode escolher o próprio equipamento e os programas que vai usar, por assim dizer.”
“É, interessante”, disse Joey.
“E quais são seus outros planos? Está interessado numa carreira de negócios, como todo mundo parece estar nos dias de hoje?”
“Sem dúvida, estou pensando em cursar economia.”
“Muito bom. Querer ganhar dinheiro não tem nada de errado. Eu não precisei ganhar o meu dinheiro, mas ainda assim posso dizer que me saí muito bem no trabalho de administrar o que me deram. Devo muito ao meu bisavô em Cincinnati, que chegou aqui sem nada. Deram-lhe uma oportunidade neste país, com a liberdade de fazer o melhor uso possível das suas capacidades. E é por isso que decidi viver como venho vivendo—honrando essa liberdade e tentando garantir que o próximo século americano seja tão abençoado quanto o que passou. Nada de errado em ganhar dinheiro, absolutamente nada. Mas precisa haver alguma coisa a mais na sua vida, além dele. Você precisa escolher de que lado está, e lutar por ele.”
“Sem a menor dúvida”, disse Joey.
“Pode ser que o Instituto crie empregos bem pagos no verão, se você estiver interessado em fazer alguma coisa pelo país. Nossa arrecadação cresceu muitíssimo depois dos ataques. É muito gratificante de ver. Você pode se candidatar, se achar uma boa ideia.”
“Sem a menor dúvida!”, disse Joey. Estava começando a lembrar um dos jovens interlocutores de Sócrates, cuja participação nos diálogos, página após página, consistia em variações de “Sim, inquestionavelmente” e “Sem dúvida deve ser assim”. “Me parece uma ótima ideia”, disse ele. “Sem dúvida vou me candidatar.”
Pondo efeito demais para puxar a bola branca, Jonathan suicidou-se inesperadamente, perdendo assim todos os pontos que tinha acumulado na jogada. “Merda!”, exclamou ele, e ainda acrescentou, em complemento, “Puta merda!” Bateu com o taco na beira da mesa, e seguiu-se um momento constrangedor.