Liberdade
O país da mulherada
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
“Você precisa ser especialmente cuidadoso quando tiver acumulado muitos pontos”, disse o pai dele.
“Eu sei, papai. Eu sei. Eu estava tomando cuidado. Só me distraí um pouco com a conversa de vocês dois.”
“Joey, sua vez?”
O que teria provocado aquela vontade incontrolável de sorrir ao testemunhar o descontrole de um amigo? Experimentou uma maravilhosa sensação de liberdade, por não precisar interagir desse modo com o próprio pai. Podia sentir sua boa sorte voltar mais e mais a cada momento que passava. Por Jonathan, ficou feliz de errar logo em sua tacada seguinte.
Mas Jonathan ficou puto com ele de qualquer maneira. Depois que o pai, duas vezes vitorioso, voltou para cima, ele começou a chamar Joey de veado de maneiras menos engraçadas, e finalmente disse que não achava boa ideia irem para Nova York com Jenna.
“Por que não?”, perguntou Joey, surpreso.
“Não sei. Perdi totalmente a vontade.”
“Vai ser ótimo. Podemos tentar ir até o Marco Zero e ver como ficaram as ruínas.”
“A área inteira está bloqueada. Não dá para ver coisa nenhuma.”
“Também quero ver o lugar de onde transmitem o programa Today.”
“Bobagem. É só uma vitrine.”
“Ora, vamos lá, é Nova York. A gente precisa ir.”
“Se é assim, pode ir com Jenna. É o que você quer no fim das contas, não é? Ir para Manhattan com a minha irmã, depois trabalhar com o meu pai nas férias. E minha mãe adora andar a cavalo. Quem sabe você também não quer sair para montar com ela.”
O aspecto ruim da boa sorte de Joey eram os momentos em que ela parecia acontecer às expensas de alguém. Nunca tendo sentido inveja ele próprio, ficava impaciente quando ela se manifestava nos outros. No secundário, mais de uma vez precisara abandonar a amizade com garotos que não suportavam o fato de ele ter muitos outros amigos. E o que tinha vontade de dizer era: por que você não cresce, caralho? Sua amizade com Jonathan, entretanto, não podia ser rompida, pelo menos não antes do fim do ano letivo, e embora Joey estivesse irritado com seu mau humor, entendia perfeitamente a dor de ser filho de alguém.
“Então está bem”, disse ele. “Ficamos aqui. E você pode me levar para conhecer Washington. Prefere assim?”
Jonathan deu de ombros.
“Sério. Vamos dar umas voltas em Washington.”
Jonathan ficou ruminando a ideia mais algum tempo. E então disse, “Você pegou o velho de jeito, cara. Toda essa baboseira sobre mentiras nobres? Você pegou o velho de jeito, mas de repente ficou com esse sorrisinho na cara, aceitando qualquer merda e só concordando. Você não passa de um veadinho de merda, de um puxa-saco”.
“Sei, mas também não vi você dizendo nada”, respondeu Joey.
“Já tive essa conversa toda outras vezes.”
“E então por que eu preciso passar por ela toda?”
“Porque ainda não passou. Ainda não conquistou o direito de evitar o assunto. Ainda não conquistou o direito de porra nenhuma.”
“Disse o dono do Land Cruiser.”
“Escute aqui, não quero mais falar sobre isso. Vou ler alguma coisa.”
“Ótimo.”
“E vou para Nova York com você. E não estou nem aí se você comer a minha irmã. Acho que vocês dois até se merecem.”
“O que isso quer dizer?”
“Você vai descobrir.”
“Vamos só continuar amigos, está bem? Não preciso ir para Nova York.”
“Não, nós vamos,” disse Jonathan. “Por mais que você possa achar isso ridículo, não quero ser visto dirigindo um conversível de duas portas.”
No andar de cima, em seu quarto que cheirava a peru, Joey achou uma pilha de livros na mesa de cabeceira—Elie Wiesel, Chaim Potok, Exodus, A história do povo judeu—e um bilhete do pai de Jonathan: Um pouco de combustível para você. Pode ficar com eles, ou passar adiante, Howard. Folheando suas páginas, sentindo tanto uma profunda falta de interesse pessoal quanto um respeito cada vez mais profundo pelas pessoas que se interessavam, Joey tornou a se enfurecer com a mãe. O desrespeito dela à religião só lhe parecia outra faceta da maneira de ela ser só eu eu eu: seu desejo competitivo copernicano de ser o sol em torno do qual tudo girava. Antes de ir dormir, ligou para 411 e obteve o número de Abigail Emerson em Manhattan.
Na manhã seguinte, antes que Jonathan tivesse acordado, ele ligou para Abigail, apresentou-se como filho da irmã dela e disse que estava indo a Nova York. Em resposta, sua tia emitiu um riso que era um estranho cacarejo e lhe perguntou se ele sabia fazer consertos no encanamento.
“Como assim?”
“As coisas começam a descer, mas não continuam e aí voltam”, disse Abigail. “Mais ou menos como eu, quando exagero no conhaque.” E falou a ele sobre a pouca pressão e os esgotos antiquados do Greenwich Village, sobre os planos de viagem do zelador do seu prédio, os prós e os contras dos apartamentos térreos com pátios e sobre o “prazer” de voltar à meia-noite do Dia de Ação de Graças e encontrar tudo que descera pela descarga de seu vizinho incompletamente desintegrado, flutuando em sua banheira e atingindo as margens de sua pia da cozinha. “É tudo uma verdadeira beleeeeza, uma delícia”, disse ela. “O início perfeito para um fim de semana sem zelador no prédio.”
“Bom, o que eu queria dizer é que talvez a gente pudesse se encontrar, ou coisa assim”, disse Joey. Já estava um tanto arrependido disso tudo, mas agora sua tia se mostrara receptiva, como se seu monólogo fosse uma coisa que antes ela precisasse mandar por água abaixo.
“Sabe”, disse ela, “já vi fotografias de você e da sua irmã. Uma beleeeeza de fotos, naquela beleeeeza de casa em que vocês moram. Acho que eu o reconheceria, se passasse por você na rua.”
“Ahn-ahn.”
“Infelizmente, meu apartamento não está muito lindo no momento. E também com um cheiro um tanto forte! Mas se quiser vir me conhecer no meu café predileto, e ser servido pelo garçom mais gay de todo o Village, que também é meu melhor amigo do sexo digamos masculino, eu iria achar uma beleeeeza. E posso lhe contar todas as coisas que a sua mãe não quer que você fique sabendo sobre nós.”
Joey gostou da ideia, e marcaram um encontro.
Na viagem a Nova York, Jenna trouxe uma colega dos tempos de curso secundário, Bethany, cuja aparência só era pouco estonteante em termos comparativos. As duas se instalaram no banco de trás, onde Joey não conseguia ver nem Jenna nem, em meio aos intermináveis gemidos estereofônicos de Slim Shady e do recitativo de suas letras por Jonathan, distinguir do que ela e Bethany estariam falando. A única interação entre os assentos da frente e de trás eram as críticas de Jenna à maneira como o irmão dirigia. Como se a hostilidade dele em relação a Joey na noite anterior tivesse sido transfigurada em fúria do asfalto, Jonathan encostava no carro da frente a cento e trinta por hora e murmurava insultos aos motoristas menos agressivos; no geral, dava a impressão de estar adorando se comportar muito mal. “Obrigado por não ter matado todo mundo”, disse Jenna quando a caminhonete 4 × 4 acabou parando numa garagem inacreditavelmente cara do centro da cidade, e a música parou piedosamente de tocar.
A viagem logo deu os primeiros sinais de ter sido um redondo fracasso. O namorado de Jenna, Nick, dividia um apartamento vazio e decadente na rua 54 com dois outros funcionários iniciantes de Wall Street, que também tinham ido passar o fim de semana fora. Joey queria conhecer a cidade, e mais ainda queria não ser visto por Jenna como um projeto de delinquente juvenil fã de Eminem, mas a sala era equipada com uma imensa tv de plasma e um Xbox último tipo que Jonathan o convidou para começar a usar imediatamente. “Vejo vocês mais tarde, garotos”, disse Jenna enquanto ela e Bethany saíam ao encontro de outras amigas. Três horas mais tarde, quando Joey sugeriu que saíssem antes que ficasse muito tarde, Jonathan respondeu para ele deixar de ser veado.
“O que está havendo com você?”, perguntou Joey.
“Não, um minuto, o que está havendo com você? Você devia ter saído atrás de Jenna, se queria fazer esses programas de mulher.”
Fazer algum programa de mulher pareceu muito interessante aos ouvidos de Joey. Gostava de mulheres, sentia falta da companhia delas e da maneira como elas falavam das coisas; estava com saudade de Connie. “Você é que disse que queria sair para fazer compras.”
“Por quê, acha que eu devia usar calças mais apertadinhas na bunda?”
“E jantar também podia ser uma boa?”
“Entendi, em algum lugar bem romântico, só nós dois no escurinho.”
“Não dizem que a pizza de Nova York é a melhor do mundo?”
“Não, é a de New Haven.”
“O.k., então alguma déli. Uma das famosas délis de Nova York. Estou morrendo de fome.”
“Vá olhar na geladeira.”
“Vá você olhar na porra da geladeira. Eu vou sair desta casa.”
“Perfeitamente. Pode ir.”
“Você vai estar aqui quando eu voltar? Para abrir a porta?”
“Vou, queridinha.”
Com um nó na garganta, uma vontade meio mulherzinha de chorar, Joey saiu na noite. Aquele tratamento da parte de Jonathan era muito decepcionante. Percebeu de repente sua maturidade superior, e enquanto atravessava os últimos bandos de compradores da Quinta Avenida, perguntava-se como poderia demonstrar essa maturidade a Jenna. Comprou cachorros-quentes de um vendedor de rua e enveredou pelas calçadas ainda mais lotadas próximas ao Rockefeller Center, onde ficou vendo os patinadores no gelo e admirando a imensa árvore de Natal ainda apagada, as alturas impressionantes às quais chegavam os holofotes que iluminavam a torre da nbc. E se ele gostasse de programas de mulher, qual o problema? Nem por isso era fresco. Só se sentia muito sozinho. Vendo os patinadores, sentindo saudades de St. Paul, ligou para Connie. Era o turno dela na Frost’s, e só podia falar no telefone o tempo de ele dizer que estava com saudade, descrever o lugar onde estava e dizer que gostaria que ela estivesse ali com ele.
“Eu te amo, cara”, disse ela.
“Eu também.”
No dia seguinte, ele teve a primeira oportunidade com Jenna. Ela parecia acordar cedo, e já tinha saído para buscar o café da manhã quando Joey, acordando cedo ele também, entrou na cozinha usando uma camiseta da Universidade da Virgínia e uma cueca samba-canção quadriculada. Ao vê-la lendo um livro à mesa da cozinha, sentiu-se praticamente nu.
“Comprei bagels para você e meu irmão imprestável”, disse ela.
“Obrigado”, respondeu ele, perguntando-se se deveria ir vestir uma calça ou continuar se exibindo daquele jeito mesmo. Como ela não demonstrou um interesse maior por ele, decidiu correr o risco de não se vestir. Mas em seguida, enquanto esperava um bagel torrar e observou seus cabelos, seus ombros e suas pernas nuas cruzadas, começou a ficar de pau duro. Estava a ponto de bater em retirada para a sala quando ela ergueu os olhos e disse, “Desculpe, mas este livro aqui? É chatíssimo”.
Ele se entrincheirou atrás de uma cadeira. “É sobre o quê?”
“Achei que fosse sobre a escravidão. Mas agora nem sei direito sobre o que ele fala.” Ela lhe estendeu duas páginas cobertas de prosa densa. “E o mais engraçado é que já é a segunda vez que eu leio. Está na metade dos currículos dos cursos de Duke. Quer dizer, no currículo da metade dos cursos. E não consigo entender qual é a história. Sabe, o que acontece no fim das contas com as personagens.”
“Eu li Canção de Salomão ano passado, na escola”, disse Joey. “Achei incrível. O melhor livro que eu já li na vida.”
Ela fez uma expressão complicada de indiferença na direção dele, e de tédio com seu livro. Ele se instalou à mesa de frente para ela, deu uma mordida no bagel e mastigou algum tempo, mastigou mais um pouco, e finalmente percebeu que engolir ia ser complicado. Mas não havia pressa, pois Jenna ainda estava tentando ler.
“O que você acha que está havendo com o seu irmão?”, disse ele depois de conseguir engolir alguns pedaços do pão.
“Como assim?”
“Ele está se comportando como um idiota. Meio imaturo. Você não acha?”
“E eu sei? Ele é seu amigo.”
Continuou a olhar para o seu livro. Sua impenetrabilidade desdenhosa era idêntica à das meninas mais cobiçadas de Virgínia. A única diferença era que ela era ainda mais atraente para Joey do que as garotas da universidade, e que agora estava tão perto que sentia o cheiro do xampu que ela usava. Por baixo da mesa, dentro da cueca, seu pau duro à meia altura apontava para ela como o enfeite de metal no capô de um Jaguar.
“E o que você vai fazer hoje?”, perguntou ele.
Ela fechou o livro, como que conformada com a presença contínua de Joey. “Compras”, disse ela. “E tem uma festa no Brooklyn hoje à noite. E você?”
“Parece que nada, porque o seu irmão não quer sair do apartamento de jeito nenhum. Eu tenho uma tia que vou encontrar às quatro, mas só isso.”
“Acho mais difícil para um homem”, disse Jenna. “Ficar em casa. Meu pai é incrível, e por mim está ótimo, acho ótimo ele ser famoso. Mas acho que Jonathan está sempre pensando que precisa provar alguma coisa.”
“Passando dez horas na frente da televisão?”
Ela franziu os olhos e fitou Joey diretamente, quem sabe pela primeira vez. “Você pelo menos gosta do meu irmão?”
“Não sei direito. Ele anda muito esquisito desde a noite de quinta. Você viu como ele estava dirigindo ontem? Achei que você talvez soubesse de alguma coisa.”
“Acho que, para ele, o mais importante é que gostem dele do jeito que é. Sabe como é, não por causa de o nosso pai ser quem é.”
“Entendi”, disse Joey. E teve a inspiração de dizer: “Ou por causa de a irmã ser como é.”
E ela corou! Um pouco. E sacudiu a cabeça. “Eu não sou ninguém.”
“Rá rá rá”, disse ele, corando também.
“Bom, nem existe comparação entre meu pai e mim. Não penso em coisas importantes, nem tenho grandes ambições. Na verdade, no fim das contas, sou uma pessoinha egoísta. Quatrocentos mil metros quadrados em Connecticut, uns cavalos com tratador em tempo integral, talvez um jato particular, e não preciso de mais nada.”
Joey percebeu que bastou uma alusão à beleza dela para fazê-la baixar a guarda e começar a falar de si mesma. E depois que a porta abriu uma brecha de um milímetro que fosse, depois de conseguir passar por aquela fenda, ele sabia exatamente o que fazer. Sabia escutar, sabia entender. E não era fingimento, fazer de conta que escutava ou entendia. Era Joey no País da Mulherada. Em pouco tempo, à luz suja e invernal da cozinha, enquanto atentava para as instruções de Jenna sobre a maneira correta de rechear um bagel, com salmão defumado, cebolas e alcaparras, não se sentia mais acanhado do que se sentiria conversando com Connie, ou a mãe dele, ou sua avó, ou a mãe de Connie. A beleza de Jenna continuava tão estonteante quanto sempre era, mas sua tensão cedeu inteiramente. Ele ofereceu a ela alguns bocados sobre a situação de sua família, e em retribuição ela admitiu que sua própria família não estava muito contente com o namorado dela.
“É uma loucura”, disse ela. “Acho que é por isso que Jonathan queria vir comigo, e não quer sair do apartamento. Acha que de algum modo vai conseguir atrapalhar as coisas entre mim e Nick. Como se ele, ficando no caminho e passando um o tempo aqui, pudesse acabar com toda a história.”
“Mas por que não gostam do Nick?”
“Bom, para começo de conversa, ele é católico. E jogava lacrosse no time da faculdade. Ele é muito inteligente, mas não tem o tipo de inteligência que eles acham boa.” Jenna riu. “Uma vez falei com ele sobre o instituto de pesquisas do meu pai, dizendo que era um think tank, e na reunião seguinte da fraternidade dele apareceu um letreiro em cima do barril de chope: Think Tank. Achei hilário. Mas por aí você já tem uma ideia.”
“Você costuma beber muito?”
“Não, tenho a resistência de uma pulga. Nick também parou de beber depois que começou a trabalhar. Hoje em dia ele toma um Jack Daniels’ com Coca-Cola por semana, no máximo. Está totalmente concentrado em subir na vida. Foi a primeira pessoa da família dele a completar os quatro anos de faculdade, totalmente ao contrário da minha, onde quem só tem um doutorado conseguiu muito pouco.”
“E ele trata você bem?”
Ela desviou o olhar, com a sombra de alguma coisa no rosto. “Eu me sinto incrivelmente protegida ao lado dele. E outro dia estava pensando, se eu estivesse com ele nas torres no Onze de Setembro, mesmo num andar bem alto, ele teria dado um jeito de me tirar de lá. Nós dois teríamos escapado. É o tipo de coisa que eu sinto.”
“Mas eram muitos homens do mesmo tipo na Cantor Fitzgerald”, disse Joey. “Negociadores muito calejados. Mas nenhum deles conseguiu sair.”
“Porque nenhum deles era igual ao Nick”, respondeu ela.
Ao vê-la com o espírito limitado por aqueles antolhos, Joey se perguntou o quanto precisaria se transformar numa pessoa mais dura, e quanto mais dinheiro precisaria ganhar para ser pelo menos admitido na corrida por uma mulher daquele tipo. Seu pau, dentro da cueca, tornou a se manifestar, como que para declarar sua disposição a enfrentar o desafio. Mas as partes mais moles de Joey, seu coração e seu cérebro, afundavam na desesperança diante da enormidade da tarefa.
“Acho que vou descer até a Wall Street mais tarde, para ver como ficou”, disse ele.
“Tudo lá fecha aos sábados.”
“Só quero ver o jeito como ficou, já que posso acabar indo trabalhar naquela área.”
“Sem querer ofender”, disse Jenna, tornando a abrir o livro. “Você me parece delicado demais para isso.”
Quatro semanas mais tarde, Joey estava de volta a Manhattan, tomando conta da casa de sua tia Abigail. Tinha passado todo o outono preocupado com o lugar onde iria ficar durante as férias de Natal e fim de ano, pois seus dois lares concorrentes em St. Paul tornavam um ao outro inaceitável, e três semanas era um período longo demais para se hospedar com a família de um amigo novo da faculdade. Tinha planejado vagamente ficar com algum dos seus melhores amigos do tempo da escola secundária, o que lhe permitiria fazer visitas separadas aos pais e à família Monaghan, mas acontece que Abigail tinha planos de ir a Avignon para passar o período de festas e participar de uma oficina internacional de mímica, e estava preocupada, quando o conheceu no feriado de Ação de Graças, em encontrar alguém de confiança para ficar em seu apartamento da Charles Street e cuidar das complexas demandas dietéticas de seus dois gatos, Tigger e Piglet.
O encontro com a tia havia sido interessante, ainda que um tanto unilateral. Abigail, embora mais jovem que a mãe de Joey, parecia mais velha em todos os aspectos menos nas roupas que usava, que eram adolescentes embora um tanto ultrapassadas. Cheirava a cigarro, e tinha um modo comovente de comer sua fatia de torta de musse de chocolate, subdividindo cada pedaço para intensificar a fruição do sabor, como se fosse a melhor coisa que iria acontecer a ela em todo aquele dia. As poucas perguntas que ela fez a Joey, respondeu ela mesma antes que ele conseguisse encaixar uma palavra. A maior parte do tempo foi dedicada a um único monólogo, com comentários irônicos e interjeições encabuladas, que lembrava um trem em que ele recebera a permissão de embarcar e viajar por algum tempo, cuidando de completar o contexto por conta própria e de tentar adivinhar boa parte das alusões. No meio desse palavrório, ela lhe pareceu uma triste versão de sua própria mãe em forma de caricatura, um aviso do que ela poderia se tornar se não tomasse cuidado.
Aparentemente, para Abigail, a simples existência de Joey constituía uma acusação que a obrigava a uma detalhada prestação de contas sobre sua vida. A sequência tradicional, casamento-bebês-dona-de-casa, nunca tinha sido a sua escolha, disse ela, nem o mundo superficial e comercializado do teatro convencional, com suas coreografias marcadas de agradecimento aos aplausos da plateia e seus diretores de elenco que só se interessavam pela modelo em voga no ano corrente e não tinham a mais vaga noção do que era originalidade, nem o mundo dos comediantes que se apresentavam sozinhos diante do microfone, no qual ela gastara muitíssssssimo tempo tentando entrar, desenvolvendo um texto ótimo sobre a verdade da infância nos lares ricos dos subúrbios americanos, antes de perceber que aquele mundo era intoxicado pela testosterona e o humor de mictório. Denegriu exaustivamente Tina Fey e Sarah Silverman, e depois louvou a “genialidade” de vários “artistas” homens que pareceram a Joey ser mímicos ou palhaços, e com os quais se declarou afortunada de manter contato cada vez maior, ainda que sobretudo em oficinas de interpretação. Enquanto a tia falava sem parar, Joey percebeu que admirava cada vez mais a determinação que ela demonstrava de sobreviver sem um sucesso do tipo plausivelmente ainda possível para ele. Era tão maluca e envolvida nas suas próprias coisas que ele foi poupado da contrariedade de sentir-se culpado, recaindo sem escalas direto na compaixão. Percebeu que, na qualidade de representante da sua melhor sorte e também da boa sorte da irmã, não podia fazer nada melhor por sua tia do que deixá-la justificar-se para ele, e prometer vir vê-la se apresentar o mais cedo que pudesse, ao que ela retribuiu com a oferta da casa para ele tomar conta.
Os primeiros dias de Joey na cidade, enquanto andava de loja em loja com seu colega de dormitório Casey, pareciam continuações hiperdefinidas dos sonhos urbanos que vinha tendo toda noite. Seres humanos vindo a seu encontro de todas as direções. Músicos andinos trauteando e batucando na Union Square. Bombeiros solenes fazendo acenos de cabeça para a multidão reunida em torno de um altar armado em homenagem ao Onze de Setembro junto ao posto do corpo de bombeiros. Uma dupla de mulheres de casacos de pele tendo a cara de pau de se apropriar de um táxi para o qual Casey acenara junto à porta da loja Bloomingdale’s. Garotas secundaristas gostosíssimas usando jeans por baixo das minissaias e sentando-se desleixadamente nos bancos do metrô, com as pernas muito abertas. Meninos do gueto com a cabeça coberta de trancinhas e usando parcas imensas e assustadoras, soldados da Guarda Nacional patrulhando a Grand Central portando armas de última geração. E a velhota chinesa vendendo dvds de filmes que ainda nem tinham estreado nos cinemas, o dançarino de break que distendeu um músculo ou rompeu um tendão e sentou-se no chão do vagão do metrô da linha 6 balançando de dor, o saxofonista insistente a quem Joey deu cinco dólares para ajudá-lo a chegar ao show onde estava sendo esperado para tocar, apesar de Casey adverti-lo de que estava sendo levado na conversa: cada um desses encontros foi como um poema que ele decorava na hora.
Os pais de Casey moravam num apartamento com um elevador que abria direto na sala, uma coisa que ele precisaria ter, concluiu Joey, se um dia ficasse rico em Nova York. Foi jantar com eles tanto na véspera de Natal quanto no próprio dia de Natal, reunindo assim numa só as mentiras que tinha contado a seus pais quanto ao lugar onde fora passar o período de festas. Casey e a família iam partir para uma estação de esqui na manhã seguinte, porém, e Joey sabia que de qualquer maneira estava abusando da hospitalidade de todos. Quando voltou para o apartamento bolorento e abarrotado de Abigail, e descobriu que Piglet e/ou Tigger tinha(m) vomitado em vários lugares, numa vingança felina em protesto contra sua ausência do dia todo, ele deparou com a estranheza e a burrice de seu plano de passar duas semanas inteiras sozinho em Nova York.
E na mesma hora deixou tudo ainda pior ao conversar com sua mãe e admitir que alguns dos planos tinham “dado errado” e que, “em vez” do que ele tinha imaginado, tinha ido tomar conta do apartamento da irmã dela.
“Está no apartamento de Abigail?”, perguntou ela. “Sozinho? Sem que ela nem falasse comigo? Em Nova York? Sozinho?”
“É”, disse Joey.
“Sinto muito”, disse ela, “mas você tem de dizer a ela que não é possível. Diga a ela para me ligar logo. Ainda hoje à noite. Daqui a pouco. Imediatamente. E que não pode responder que não.”
“Tarde demais. Ela foi para a França. Mas está tudo bem. A área onde ela mora é muito segura.”
Mas a mãe dele nem estava escutando. Dizia coisas ao pai dele, coisas que Joey não conseguia distinguir mas pareciam ser ditas em tom quase histérico. E então o pai dele pegou o telefone.
“Joey. Preste atenção. Está aí?”
“E onde mais?”
“Preste atenção. Se você não tiver a decência de vir passar alguns dias com a sua mãe na casa que significa tanto para ela e em que você decidiu nunca mais pisar, por mim não tem problema, nem vou dizer nada. Foi uma decisão errada sua, de que você vai poder se arrepender à vontade, o quanto quiser. E as coisas que você deixou no seu quarto, que nós estávamos esperando que você viesse para nos dizer o que fazer com elas—vamos simplesmente dar para o Exército de Salvação, ou deixar para os lixeiros levarem. Você é quem vai sair perdendo, e não nós. Mas ir ficar sozinho numa cidade em que você é jovem demais para ficar sozinho, uma cidade que foi atacada várias vezes por terroristas, e não só por uma ou duas noites, mas por várias semanas, é a maneira certa de deixar sua mãe nervosa o tempo todo.”
“Papai, a área aqui é perfeitamente segura. É o Greenwich Village.”
“Bom, você acabou com o Natal dela. E vai estragar os últimos dias dela nesta casa. Não sei por que ainda estou sempre esperando mais de você a essa altura dos acontecimentos, mas você está sendo egoísta e brutal com uma pessoa que ama você mais do que você pode imaginar.”
“Por que ela própria não pode vir me dizer”, respondeu Joey. “Por que precisa ser você? Como vou saber se é mesmo verdade?”
“Se você tivesse um mínimo de imaginação, saberia que só pode ser verdade.”
“Não quando ela própria nunca me diz nada! Se você está bravo comigo, por que não me diz por que você está bravo comigo, em vez de sempre vir me falar dos problemas dela?”
“Porque, para dizer a verdade, não estou tão preocupado quanto ela”, respondeu seu pai. “Acho que você não é tão inteligente quanto acha que é, e acho que não percebe todos os perigos do mundo. Mas concordo que você é bastante inteligente, e sei que sabe cuidar de si mesmo. Se um dia você tiver algum problema sério, espero que ligue para nós, antes de mais ninguém. Caso contrário, é porque fez uma escolha radical na sua vida, e não podemos fazer mais nada.”
“Está bem—muito obrigado”, disse Joey, com uma intenção só parcialmente sarcástica.
“Não agradeça a mim. Eu respeito muito pouco o que você está fazendo. Só estou admitindo que você já tem dezoito anos, e pode fazer o que quiser. E estou falando da decepção pessoal que sinto quando um dos nossos filhos não consegue decidir as coisas com a intenção de simplesmente ser mais gentil com a própria mãe.”
“ Por que você não pergunta a ela por que não?”, retorquiu Joey em tom furioso. “Ela sabe por que não! Porra, estou dizendo que ela sabe, papai. Já que você se preocupa tanto com a porra da felicidade dela, e tudo isso, por que você não pergunta a ela, em vez de ficar me aporrinhando?”
“Não fale comigo nesse tom.”
“Então não fale comigo nesse tom.”
“Está bem, então eu não falo mais.”
Seu pai deu a impressão de ficar satisfeito de encerrar o assunto, e Joey também. Gostava de sentir-se à vontade, no controle de sua vida, e era perturbador descobrir que existia essa outra coisa dentro de si, aquele reservatório de raiva, aquele complexo de sentimentos ligados à família que podia explodir inesperadamente e tomar conta dele por completo. As palavras enfurecidas que tinha dito ao pai pareciam predefinidas, como se existisse uma segunda identidade ressentida dentro dele funcionando o dia todo todo dia, normalmente invisível mas claramente em plena consciência e pronta a dar vazão ao que sentia à menor provocação, na forma de frases que independiam da sua vontade. O que o fazia ponderar sobre qual seria sua verdadeira identidade; o que o deixava muito perturbado.
“Se você mudar de ideia”, disse o pai dele quando esgotaram o estoque limitado de conversa fiada sobre o Natal, “terei o maior prazer em lhe comprar uma passagem de avião para você vir passar alguns dias aqui. Para sua mãe ia ser muito importante. E para mim também. Eu também ia ficar muito contente.”
“Obrigado”, disse Joey, “mas a questão, sabe como é, é que não posso. Preciso tomar conta dos gatos.”
“Você pode deixá-los num veterinário, sem sua tia saber de nada. Eu pago a hospedagem deles também.”
“Está bem, pode ser. Provavelmente não, mas talvez.”
“Então está bem, feliz Natal”, disse seu pai. “Sua mãe também manda um feliz Natal.”
Joey ouviu a voz dela ao fundo. Por que, exatamente, ela não tinha voltado ao telefone e dito feliz Natal diretamente a ele? Era quase uma acusação. Mais uma admissão inútil do quanto se sentia culpada.
Embora o apartamento de Abigail não fosse mínimo, não havia um centímetro quadrado dele que não tivesse sido ocupado por Abigail. Os gatos o patrulhavam como plenipotenciários do território, largando pelo por toda parte. O armário embutido do quarto estava atulhado de calças e suéteres em pilhas desordenadas que espremiam os casacos e vestidos que pendiam dos cabides, e suas gavetas estavam tão repletas que nem dava para abri-las. Seus cds eram todos de cantoras de cabaré impossíveis de ouvir e borbulhos New Age, acumulados em duas filas nas prateleiras e enfiados de lado como cunhas em cada fenda disponível. Até os livros só tratavam de Abigail, abordando questões como o Fluxo, a visualização criativa e o combate à dúvida interior. Havia também todo tipo de acessórios de caráter místico, não só judaicos como ainda queimadores de incenso orientais e estatuetas com cabeça de elefante. A única coisa relativamente escassa era comida. Ocorria agora a Joey, enquanto palmilhava a cozinha de um lado para o outro, que a menos que se dispusesse a comer pizza três vezes ao dia, ele precisaria sair até um mercado, fazer compras e preparar suas próprias refeições. Os mantimentos de Abigail consistiam em biscoitos de arroz, quarenta e sete formas de chocolate em barra ou em pó, e pacotes de macarrão instantâneo do tipo que só o satisfaziam por dez minutos e em seguida aumentavam ainda mais sua fome.
Pensou na casa espaçosa da Barrier Street, na comida maravilhosa que sua mãe preparava, pensou em desistir e em aceitar a passagem de avião que o pai oferecera, mas estava determinado a não deixar que sua identidade oculta tivesse novas oportunidades de se manifestar, e sua única opção para não continuar pensando em St. Paul era ir se deitar na cama de metal de Abigail e bater uma punheta, e depois mais outra enquanto os gatos miavam sua censura do lado de fora da porta, e depois, ainda insatisfeito, fuçar o computador da tia, pois não conseguia se conectar à internet com seu próprio computador na casa dela, e procurar alguma página pornográfica para mais uma punhetinha. Como costuma acontecer nesses casos, cada página gratuita com que ele deparava remetia a uma ainda mais pesada e mais atraente. Finalmente, um dos melhores desses sites começou a gerar janelas pop-up como num pesadelo de Aprendiz de Feiticeiro; e a coisa ficou tão feia que ele precisou desligar o computador. Ao religá-lo impaciente, com o pau esfolado e viscoso amolecendo ainda na mão, descobriu que algum programa de fora assumira o comando do sistema, sobrecarregando o disco rígido e congelando o teclado. Tudo bem que tivesse infectado o computador da tia. Mas agora ele não conseguia mais acesso à única coisa do mundo que queria, ver mais um rostinho bonito de mulher distendido pelo prazer, para gozar pela quinta vez e tentar dormir um pouco. Fechou os olhos e se acariciou o quanto pôde, esforçando-se para invocar da memória imagens suficientes para dar conta das necessidades, mas o miado dos gatos não o deixava se concentrar. Foi até a cozinha e abriu uma garrafa de conhaque que, esperava ele, não custaria muito para substituir.
Acordando tarde e de ressaca na manhã seguinte, sentiu o cheiro do que esperava ser apenas titica de gato mas acabou se revelando, quando Joey finalmente se arriscou a ir olhar no banheiro abarrotado, tomado por um calor infernal, extravasamento de esgoto em estado bruto. Chamou o zelador, o sr. Jiménez, que chegou duas horas mais tarde com uma cesta de compras de rodinhas repleta de ferramentas de encanador.
“Este prédio é antigo e tcheio de problemas”, disse o sr. Jiménez, sacudindo a cabeça com ar fatalista. Recomendou a Joey que sempre baixasse com força a tampa do ralo da banheira e também arrolhasse o ralo da pia quando não estivesse usando uma ou outra. Na verdade essas instruções faziam parte da lista de Abigail, além de intricados protocolos de alimentação felina, mas Joey, no dia anterior, na pressa de fugir do apartamento e chegar logo à casa de Casey, esquecera-se de cumpri-las.
“Tcheio, tcheio de problemas”, disse o sr. Jiménez, usando um desentupidor para forçar os dejetos do West Village de volta para o cano do esgoto.
Assim que Joey tornou a se ver sozinho, voltando a defrontar-se com o espectro de duas semanas de solidão, excessos no consumo de conhaque e/ou de masturbação, ligou para Connie e disse a ela que estava disposto a pagar a passagem de ônibus caso ela viesse para Nova York ficar com ele. Ela concordou na mesma hora, menos quanto ao pagamento da passagem; e as férias dele foram salvas.
Contratou um nerd para consertar o computador da tia e reconfigurar o seu próprio, gastou sessenta dólares em pratos pré-preparados na Dean & DeLuca, e quando foi à estação rodoviária esperar Connie em seu portão de chegada, pensou que nunca tinha ficado tão feliz na vida ao vê-la. No mês anterior, comparando-a mentalmente com a incomparável Jenna, ele perdera de vista o quanto ela também era linda, a seu modo esbelto, econômico e ardente. Estava usando uma japona que Joey não conhecia, caminhou em sua direção e encostou o rosto no dele, os olhos bem abertos junto aos olhos dele, como se apertasse o rosto contra um espelho. Uma dissolução drástica de todos os órgãos internos se desencadeou dentro de Joey. Agora estava a ponto de dar umas quarenta trepadas, mas não era só isso. Era como se a rodoviária e todos os viajantes de baixa renda que fluíam à volta deles estivessem equipados com controles de Brilho e Contraste que fossem radicalmente reduzidos pela mera presença daquela garota que ele conhecia desde sempre. Tudo parecia desbotado e distante enquanto ele a conduzia por corredores e passagens que ele vira plenamente coloridos apenas meia hora antes.
Nas horas que se seguiram, Connie fez várias revelações um tanto alarmantes. A primeira enquanto viajavam de metrô até a Charles Street e ele perguntou a ela como tinha conseguido uma folga tão longa no restaurante—se tinha encontrado gente para cobrir a sua ausência.
“Não, eu simplesmente fui embora”, respondeu ela.
“Você foi embora? Mas não é uma péssima época do ano para deixar o pessoal de lá na mão?”
Ela deu de ombros. “Você estava precisando de mim aqui. Eu disse que quando fosse o caso você só precisava me chamar.”
O susto de Joey com essa declaração restaurou o brilho e o matiz do vagão do metrô. Era exatamente como o cérebro dele, sempre que fumava maconha, teimava em retornar à consciência do presente depois de se perder em algum profundo devaneio semialucinatório: e percebeu que os outros passageiros do metrô estavam levando suas vidas, perseguindo suas metas, e que ele também precisava cuidar das mesmas coisas. E não ser aspirado para o núcleo de uma coisa que não tinha como controlar.
Levando em conta uma das conversas sexuais telefônicas mais loucas dos dois, em que os lábios da vagina dela tinham se aberto tão incrivelmente que cobriam seu rosto inteiro, e sua própria língua ficara tão comprida que a ponta conseguia alcançar a extremidade interna inatingível da vagina de Connie, ele se barbeara com todo o cuidado antes de partir para a rodoviária. Agora que os dois estavam juntos na realidade, porém, aquelas fantasias se revelavam absurdas e eram desagradáveis de rememorar. No apartamento, em vez de levar Connie direto para a cama, como fizera no fim de semana da Virgínia, ele ligou a tv e conferiu o placar de um jogo das finais do campeonato universitário de futebol americano que não significava nada para ele. Em seguida, pareceu-lhe de grande urgência ver se tinha recebido algum e-mail dos seus amigos nas últimas três horas. Connie se instalou com os gatos no sofá e ficou esperando pacientemente enquanto o computador dele ligava.
“Aliás”, disse ela, “sua mãe mandou um beijo.”
“O quê?”
“Sua mãe mandou um beijo. Estava do lado de fora quebrando o gelo da calçada quando eu saí de casa. Ela me viu com a sacola de viagem e perguntou aonde eu estava indo.”
“E você contou para ela?”
A surpresa de Connie foi perfeitamente inocente. “Era para não ter contado? Ela disse que era para eu me divertir, e mandou um beijo para você.”
“Em tom de sarcasmo?”
“Não sei. Talvez tenha sido, pensando bem. Eu fiquei contente de ela ter pelo menos falado comigo. Eu sei que ela me detesta. Mas achei que talvez tivesse finalmente começado a se acostumar comigo.”
“Duvido muito.”
“Desculpe se eu disse a coisa errada. Você sabe que eu jamais faria uma coisa dessas se soubesse que era a coisa errada. Você sabe disso, não sabe?”
Joey se levantou, deixando o computador e tentando conter a raiva. “Está tudo bem”, disse ele. “Não é culpa sua. Ou só um pouco sua culpa.”
“Ficou com vergonha de mim, cara?”
“Não.”
“Ficou com vergonha das coisas que a gente falou no telefone? É esse o problema?”
“Não.”
“Eu fiquei, um pouco. Falamos de umas taras bem impressionantes. Não sei se quero voltar a ter essas conversas.”
“Foi você que começou!”
“Eu sei. Eu sei, eu sei. Mas você não pode botar a culpa de tudo em mim. Só metade.”
Como para reconhecer que era verdade, ele correu até o lugar onde ela estava sentada no sofá e se ajoelhou a seus pés, inclinando a cabeça e apoiando as mãos nas pernas dela. Perto assim dos jeans que ela usava, seus jeans melhores e mais justos, ele pensou nas longas horas que ela havia passado num ônibus da Greyhound, enquanto ele assistia a jogos secundários do campeonato de futebol universitário e falava ao telefone com amigos. Estava em dificuldades, estava caindo numa fissura imprevista do mundo cotidiano, e não conseguia nem olhar para o rosto dela. Ela pousou as mãos na cabeça dele e não ofereceu nenhuma resistência quando, aos poucos, ele avançou e pressionou o rosto contra o zíper de suas calças, revestido de brim. “Está tudo certo”, ela soube que precisava dizer. “Vai dar tudo certo, cara. Tudo vai dar certo.”
Em sua gratidão, Joey despiu os jeans dela e pousou os olhos fechados em sua calcinha, e em seguida tirou esta também, para poder pressionar seu queixo e os lábios bem barbeados em seus pelos eriçados, que ele percebeu terem sido aparados para ele. Podia sentir um dos gatos se esfregando nos seus pés, pedindo atenção. Enxotou-o.
“Só quero ficar aqui mais ou menos três horas”, disse ele, aspirando o aroma dela.
“Pode ficar aí o tempo que quiser”, disse ela. “Não tenho nenhum outro programa.”
Mas aí o telefone de Joey tocou no bolso da calça. Ao pegá-lo para desligar, viu seu antigo número de St. Paul e teve vontade de espatifar o telefone de raiva que sentiu da mãe. Afastou as pernas de Connie e atacou-a com a língua, explorando, explorando, tentando preencher-se com ela.
A terceira e mais alarmante das revelações que ela lhe fez veio durante um interlúdio pós-coito em alguma hora adiantada da noite. Vizinhos até então ausentes sapateavam no chão do apartamento acima da cama deles, os gatos miavam amargamente do lado de fora da porta. Connie estava falando de seu sat, que ele nem se lembrava que ela ia fazer, e da surpresa que sentira ao ver como as perguntas de verdade eram muito mais fáceis que as perguntas dos livros de exercício que ela usara para estudar. Sentia-se encorajada a candidatar-se a faculdades no raio de algumas horas de Charlottesville, entre eles o Morton College, que precisava de alunos do Meio-Oeste para atender à diversidade geográfica e em que, agora, ela se sentia capaz de ser admitida.
O que pareceu totalmente errado a Joey. “Achei que você ia para a Universidade de Minnesota”, disse ele.
“Ainda pode ser que sim”, respondeu Connie. “Mas comecei a pensar que seria muito melhor ficar mais perto de você, para a gente poder se ver todo fim de semana. Quer dizer, contanto que tudo corra bem e a gente continue querendo. Você não acha boa ideia?”
Joey desenredou as pernas das dela, tentando ver as coisas com alguma clareza. “Sem dúvida nenhuma, pode ser que sim”, disse ele. “Mas você sabe que as faculdades particulares custam muito caro.”
Era verdade, disse Connie. Mas Morton oferecia ajuda financeira, e ela tinha conversado com Carol sobre o fundo formado para financiar os estudos dela, e Carol admitira que ainda tinha bastante dinheiro.
“Mais ou menos quanto?”, perguntou Joey.
“Muita coisa. Uns setenta e cinco mil dólares. Pode dar até para três anos, se eu conseguir um financiamento. E ainda tenho os doze mil que economizei, e sempre posso trabalhar nas férias de verão.”
“Que ótimo”, Joey obrigou-se a dizer.
“Eu só estava querendo esperar completar vinte e um anos antes de pegar o dinheiro. Mas aí pensei nas coisas que você me disse, e vi que você tinha razão quanto a terminar os estudos.”
“Mas se você fosse para a Universidade de Minnesota”, retrucou Joey, “podia se formar e ainda ter esse dinheiro todo depois de acabar.”
Em cima deles, uma televisão começou a vociferar, e o pisoteio continuava.
“Estou achando que você prefere que eu fique mais longe”, disse Connie em tom neutro, sem censura, enunciando um simples fato.
“Não, não”, respondeu ele. “De maneira nenhuma. Acho que podia ser ótimo estar mais perto. Só estou pensando em termos práticos.”
“Eu já não aguento mais morar naquela casa. Carol vai ter os bebês, e vai ficar ainda pior. Não posso mais ficar lá.”
Não pela primeira vez, Joey sentiu um ressentimento obscuro em relação ao pai de Connie. O homem já morrera havia alguns anos, Connie jamais tivera nenhuma relação com ele e raramente aludia à sua existência, mas para Joey isso de alguma forma o transformava mais ainda num rival. Era o homem que chegara lá primeiro. Tinha abandonado a filha e recompensado Carol com uma casa barata, mas seu dinheiro nunca parou de entrar e pagar a escola católica de Connie. Era uma presença na vida dela que não tinha nada a ver com Joey, e por mais que este ficasse feliz por ela ter a quem recorrer além de a ele, Joey—por não ser totalmente responsável por ela—, volta e meia sucumbia à censura moral daquele pai, que lhe parecia a origem de tudo que era amoral na própria Connie, a estranha indiferença que ela demonstrava em relação às regras e às convenções, sua capacidade ilimitada de amor idólatra, sua intensidade irresistível. E agora, por cima disso tudo, Joey ainda se ressentia do pai por tê-la deixado muito melhor em matéria de finanças do que ele próprio. O fato de ela não dar ao dinheiro nem um por cento da importância que ele dava só fazia as coisas piorarem ainda mais.
“Faz comigo alguma coisa que nunca fez”, disse ela em seu ouvido.
“Essa tv está me incomodando.”
“Faz aquela coisa que você me disse, cara. Nós dois vamos escutar a mesma música. Quero sentir você entrando em mim por trás.”
Ele esqueceu a tv, cujo som foi abafado pela pulsação do sangue em sua cabeça enquanto ele obedecia ao desejo dela. Depois que esse novo umbral foi transposto, suas resistências, ultrapassadas uma a uma, suas satisfações características, devidamente apreciadas, ele foi lavar-se no banheiro de Abigail, alimentou os gatos e deixou-se ficar um tempo na sala, sentindo a necessidade de manter alguma distância, por mais que fosse tênue e tardia. Despertou o computador do seu sono, mas havia um único e-mail novo. Vinha de um endereço desconhecido, em duke.edu, e na linha de assunto trazia “em ny?”. Só depois de abrir o e-mail e começar a ler ele entendeu que fora mandado por Jenna. Fora digitado, letra a letra, pelos dedos privilegiados de Jenna.
Olá sr. bergland. jonathan me disse que você está em nyc, como eu. quem
poderia saber quantos jogos de futebol estão sendo disputados e quanto
dinheiro os jovens banqueiros apostam em cada um deles? não eu,
respondeu a mosca. você ainda pode estar se dedicando a atividades
natalinas, a exemplo dos seus louros progenitores, mas nick manda dizer
que pode aparecer se tiver perguntas a fazer sobre wall street, ele irá
responder. sugiro que venha logo, enquanto perdura essa disposição
generosa da parte dele (e seu tempo vago!). ao que tudo indica, até a
goldman fecha nesta época do ano, quem iria dizer. sua amiga, jenna.
Ele leu a mensagem cinco vezes antes que ela começasse a perder o sabor. Parecia-lhe tão fresca e limpa quanto ele se sentia sujo e maldormido. Jenna ou estava sendo excepcionalmente generosa ou, se estava tentando esfregar o nariz dele na intimidade dela com Nick, excepcionalmente maldosa. De qualquer modo, ele viu que a tinha deixado impressionada.
Uma baforada de fumaça de maconha saiu do quarto, seguida por Connie, tão nua e silenciosa quanto os gatos. Joey fechou o computador e deu uma tragada no baseado que ela lhe ofereceu, em seguida mais uma, e depois outra, e mais outra, e mais outra, e mais outra, e mais outra.