Liberdade
A fúria do homem gentil
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
“Sim, mas é por isso que é tão bom ele ter aceitado trabalhar conosco. Eu não quero que você esteja na moda, não gosto de homens da moda. Gosto de um homem como você. Mas Richard pode nos ajudar na parte da comunicação.”
Walter ficou aliviado quando a garçonete veio anotar os pedidos e pôs fim ao prazer de ouvir os motivos pelos quais Lalitha gostava dele. Mas o perigo só fez se aprofundar quando ela tomou o segundo martíni.
“Posso lhe fazer uma pergunta pessoal?”, disse ela.
“Ah—claro.”
“A pergunta é a seguinte: você acha que eu devo ligar as minhas trompas?”
Ela falara tão alto que outras mesas ouviram, e Walter, por reflexo, levou o indicador aos lábios. Já sentia que estava chamando atenção demais, espalhafatosamente urbano, dividindo a mesa com uma garota de outra raça em meio às duas variedades de habitantes rurais da Virgínia Ocidental, os obesos e os muito magros.
“E me parece uma pergunta mais que lógica”, disse ela em voz mais baixa, “já que eu pelo menos sei que não quero filhos.”
“Bom”, disse ele, “eu não... eu não...” Queria dizer que, como Lalitha se encontrava tão pouco com Jairam, seu namorado havia tanto tempo, a gravidez não parecia um risco muito iminente, e que se ela engravidasse acidentalmente, sempre podia fazer um aborto. Mas parecia incrivelmente inadequado conversar com sua assistente sobre as suas trompas. Ela sorria para ele com uma espécie de timidez melosa, como se esperasse uma permissão sua ou temesse sua reprovação. “Acho que no fim das contas”, disse ele, “Richard tem razão, se me lembro bem do que ele disse. Ele disse que as pessoas sempre mudam de ideia sobre essas coisas. O melhor talvez seja deixar as opções em aberto.”
“Mas e se eu tiver certeza de que agora estou com a razão, e quem eu vou ser no futuro não me despertar confiança?”
“Bom, no futuro você já não vai ser mais quem foi. Vai ser outra pessoa. E essa nova pessoa pode querer outras coisas.”
“Então a pessoa nova que vou ser no futuro que se foda”, disse Lalitha, debruçando-se para a frente. “Se ela quiser se reproduzir, já não tenho mais o menor respeito por ela.”
Walter fez um esforço deliberado para não olhar em volta. “Mas por que você resolveu falar disso agora? Você quase nunca se encontra com Jairam.”
“Porque Jairam quer ter filhos, só isso. E não acredita que eu possa estar realmente decidida a não ter. Preciso mostrar a ele, para ele parar de me aborrecer. Não quero mais ser namorada dele.”
“Não sei se eu e você devíamos estar conversando sobre essas coisas.”
“Mas com quem eu posso conversar, então? Você é a única pessoa que me entende.”
“Ah, meu Deus, Lalitha.” A cabeça de Walter girava por causa da cerveja. “Sinto muito. Sinto muito mesmo. Estou achando que induzi você a uma estrada a que não queria induzir. Você ainda tem a vida toda pela frente, e eu... fico com a impressão de que induzi você a um caminho errado.”
A explicação não podia ser pior. Ao tentar dizer alguma coisa mais delimitada, mais específica em relação ao problema da população mundial, ele pareceu falar de alguma coisa ampla a respeito deles dois. Pareceu excluir uma possibilidade mais ampla que ainda não estava convencido de que devia excluir, muito embora soubesse que não era uma possibilidade concreta.
“É assim que eu penso, e não você”, disse Lalitha. “Não foi você quem pôs essas ideias na minha cabeça. Eu só estava pedindo o seu conselho.”
“Está bem, então acho que o meu conselho é para não ligar.”
“Está bem. Então vou tomar mais uma bebida. Ou você me aconselha a parar?”
“Aconselho você a parar.”
“Mas peça mais uma para mim, de qualquer maneira.”
Um despenhadeiro se abria à frente de Walter, em que ele poderia saltar no momento em que quisesse. Ficou chocado de ver como uma coisa daquelas podia abrir-se tão depressa diante dele. Na única outra ocasião—ou melhor, não, não, não, na única ocasião—em que ele se apaixonara, levara quase todo um ano para tomar uma atitude a respeito, e mesmo depois disso Patty é que respondera pela maior parte do trabalho pesado em nome dele. Agora, parecia que essas coisas podiam acontecer numa questão de minutos. Mais umas poucas palavras imprudentes, mais uma caneca de cerveja, e só Deus sabe...
“O que eu quis dizer”, atalhou ele, “é que eu posso ter ido longe demais com você nos meus argumentos sobre a superpopulação do mundo. De uma forma um tanto louca. Com a minha raiva meio cega, por causa dos meus problemas. Foi só isso que eu quis dizer.”
Ela assentiu com a cabeça. Diminutas pérolas de lágrimas pendiam de seus cílios.
“Eu me sinto muito como se fosse seu pai”, balbuciou ele.
“Entendi.”
Mas pai também era a palavra errada—excludente demais do tipo de amor que ainda lhe doía demais admitir que nunca haveria de se permitir.
“Obviamente”, disse ele, “sou novo demais para ser seu pai, ou quase novo demais, e além disso, de qualquer maneira, você tem o seu pai. Eu só estava falando de você ter me pedido um conselho paterno. Do fato de que, por ser seu chefe, e uma pessoa consideravelmente mais velha, eu sinto certa... preocupação com você. E disse ‘pai’ nesse sentido. Não em nenhum sentido tabu.”
Tudo isso soava um completo absurdo no momento mesmo em que ele dizia. O problema dele era justamente a porra dos tabus. Lalitha, que parecia saber disso, ergueu seus lindos olhos e olhou direto nos dele. “Você não precisa me amar, Walter. Eu posso amar você sozinha. Está bem? E isso você não tem como evitar.”
O abismo se ampliou vertiginosamente.
“Mas eu amo você!”, disse ele. “Quer dizer—de certa maneira. Uma maneira bem determinada. Sem dúvida eu amo. Muito. Muito mesmo. Está bem? Só não vejo que isso possa nos levar a lugar algum. Quer dizer, se vamos continuar trabalhando juntos, não podemos ficar conversando desse jeito. Já chegamos a um ponto muito, muito, muito, muito perigoso.”
“Eu sei.” Ela baixou os olhos. “E você é casado.”
“Pois é, exatamente. Exatamente. E aqui estamos nós.”
“Aqui estamos nós, exatamente.”
“Vou pedir a sua bebida.”
O amor declarado, o desastre evitado, ele continuou à procura da garçonete que os atendia e lhe pediu um terceiro martíni, carregado no vermute. Seu rosto corado, que fora e voltara durante a vida inteira, agora tinha vindo e não o deixava mais. Refugiou-se, com o rosto em brasas, no banheiro dos homens, e tentou urinar. Sua vontade era ao mesmo tempo premente e difícil de atender. Ficou de pé diante do mictório, respirando fundo, e estava finalmente a ponto de conseguir deixar as coisas fluírem quando a porta se abriu e alguém entrou. Walter ouviu o sujeito lavar as mãos e secá-las enquanto ele ficava ali parado com as faces em fogo e esperava a bexiga sobrepujar sua timidez. Estava de novo à beira do sucesso quando percebeu que o sujeito da pia se demorava de propósito, à espera dele. Desistiu de mijar, desperdiçou água com uma descarga desnecessária, e puxou o fecho das calças.
“Talvez fosse o caso de falar com um médico, amigo, sobre as suas dificuldades urinárias”, comentou com um sotaque sádico e arrastado o sujeito da pia. Branco, com uns trinta anos e as marcas de uma vida dura no rosto, correspondia perfeitamente à descrição que Walter faria do tipo de motorista que era contrário a sinalizar suas mudanças de direção com a seta. Postou-se ao lado do ombro de Walter enquanto este lavava depressa as mãos e as secava.
“Quer dizer que você gosta de carne escura?”
“O quê?”
“Estou dizendo que vi o que você está fazendo com aquela pretinha.”
“Ela é asiática”, disse Walter, contornando o sujeito. “Se me dá licença—”
“Doce é bom mas a bebida sobe mais depressa, não é mesmo?”
Sua voz vinha carregada de tanto ódio que Walter, temendo a violência, procurou bater em retirada pela porta sem dar nenhuma resposta. Não dava ou absorvia um soco em trinta e cinco anos, e imaginava que uma porrada fosse incomodar muito mais aos quarenta e sete que aos doze anos. Todo o seu corpo tremia de violência contida, sua cabeça girando diante da injustiça, quando se sentou diante de uma salada de alface hidropônica em sua cabine.
“Que tal sua cerveja?”, perguntou Lalitha.
“Interessante”, respondeu ele, tomando o resto de uma vez. Sentia a cabeça a ponto de soltar-se do pescoço e ascender até o teto como um balão de gás.
“Desculpe eu ter dito o que não devia.”
“Não se preocupe”, disse ele. “Eu—” também estou apaixonado por você. Terrivelmente apaixonado. “Eu estou numa posição difícil, querida”, disse ele, “quer dizer, não ‘querida’. Não ‘querida’ Lalitha. Querida. Estou numa posição difícil.”
“Talvez você devesse tomar mais uma cerveja”, disse ela com um sorriso malicioso.
“A questão é que eu também sou apaixonado pela minha mulher.”
“Claro que sim”, disse ela. Mas não estava nem tentando ajudar Walter a se livrar da situação. Arqueou as costas como uma gata e esticou-se para a frente por cima da mesa, exibindo as dez unhas claras de suas lindas mãos jovens dos dois lados de sua travessa de salada, convidando-o a tocá-las. “Estou tão bêbada!”, disse ela, sorrindo maldosamente para ele.
Ele correu os olhos em volta pelo salão de jantar de plástico para ver se o sujeito que o incomodara no banheiro estava assistindo à cena. Não estava patentemente à vista, e ninguém mais os fitava de maneira indevida. Baixando os olhos para Lalitha, que esfregava o rosto no tampo de plástico da mesa como se fosse o mais macio dos travesseiros, lembrou-se das palavras da profecia de Richard. A moça de joelhos, a cabeça subindo e descendo, sorrindo para cima. Ah, a clareza barata da visão do mundo de Richard Katz. Uma onda de ressentimento atravessou a relativa embriaguez de Walter e o fez recuperar o equilíbrio. Aproveitar-se daquela moça seria a atitude de Richard, mas não a dele.
“Sente-se direito”, disse ele em tom severo.
“Daqui a pouquinho”, murmurou ela, ondulando os dedos esticados.
“Não, sente-se direito agora. Somos a face pública do Fundo, e precisamos agir de acordo.”
“Acho que você devia me levar para o quarto, Walter.”
“Primeiro você precisa comer alguma coisa.”
“Hum”, disse ela, sorrindo de olhos fechados.
Walter levantou-se, foi atrás da garçonete e pediu-lhe que embalasse seus pratos para viagem. Lalitha ainda estava desabada para a frente, o terceiro martíni inacabado ao lado do cotovelo, quando ele voltou para a cabine. Ele a despertou e a segurou com firmeza pela metade superior do braço enquanto a levava para fora e a instalava no banco do carona. Voltando ao restaurante para buscar a comida, encontrou, no vestíbulo envidraçado, o sujeito do banheiro.
“Filho da puta, que gosta de carne escura”, disse o sujeito. “Dando espetáculo. Veio fazer o que aqui, filho da puta?”
Walter tentou contorná-lo, mas o sujeito barrou seu caminho. “Eu lhe fiz uma pergunta.”
“Não estou interessado”, disse Walter. Tentou abrir caminho mas o outro o empurrou com força contra a vidraça, fazendo sacudir a estrutura do vestíbulo. Naquele momento, antes que alguma coisa pior pudesse acontecer, a porta interna se abriu e a recepcionista veterana do restaurante perguntou o que estava havendo.
“Esta pessoa está me incomodando”, disse Walter, respirando com força.
“Pervertido de merda.”
“Resolvam essa questão fora do estabelecimento”, disse a recepcionista.
“Não vou a lugar nenhum. Esse tarado é que vai embora.”
“Então volte para a sua mesa, sente-se e não venha usar esse tipo de linguagem comigo.”
“Nem consigo comer, esse cara me deixa com o estômago embrulhado.”
Deixando os dois outros discutindo suas pendências, Walter entrou e descobriu-se na mira do olhar odiosamente assassino de uma jovem loura um tanto acima do peso, claramente a mulher do seu perseguidor, sozinha a uma mesa junto à porta. Enquanto esperava a chegada da comida, perguntou-se por que logo naquela noite, de todas as noites possíveis, ele e Lalitha haviam despertado aquele tipo de ódio. Tinham provocado alguns olhares aqui e ali, quase sempre em cidades menores, mas as coisas nunca tinham chegado a esse ponto. Na verdade, ficara agradavelmente surpreso com o número de casais mistos que vira em Charleston, e pela prioridade relativamente baixa do racismo entre os muitos males do estado. A maior parte da Virgínia Ocidental era branca demais para que a raça se transformasse numa questão primordial. Viu-se levado à conclusão de que o que tinha atraído a atenção do jovem casal fora a culpa, a culpa suja que ele próprio sentia e que se irradiava de seu reservado. Não sentiam ódio de Lalitha, sentiam ódio dele. E ele merecia. Quando a comida finalmente chegou, suas mãos tremiam tanto que ele mal conseguiu assinar o recibo do cartão de crédito.
De volta ao Days Inn, ele carregou Lalitha nos braços pela chuva e a depositou diante da porta do quarto dela. Estava convencido de que ela era perfeitamente capaz de caminhar, mas ele queria obedecer ao desejo que ela manifestara antes de entrar carregada em seu quarto. E na verdade até ajudava carregá-la nos braços como uma criança, porque o fazia lembrar suas responsabilidades. Quando ela se sentou na cama e desabou deitada, ele a cobriu com a colcha como antigamente cobria Jessica e Joey.
“Vou até o meu quarto jantar”, disse ele, afastando carinhosamente o cabelo da testa dela. “E vou deixar sua comida aqui.”
“Não”, disse ela. “Fique aqui e vamos ver televisão. Eu me curo da bebedeira e podemos comer juntos.”
E nisso também ele acabou fazendo o que ela queria, sintonizando na pbs e assistindo à última parte do NewsHour—alguma discussão sobre a ficha militar de John Kerry cuja irrelevância o deixou tão nervoso que mal conseguiu acompanhar a narração. Praticamente não aguentava mais nenhum tipo de noticiário. Tudo acontecia depressa demais, depressa demais. Sentiu uma pontada de simpatia pela campanha de Kerry, a quem agora restavam menos de sete meses para mudar o estado de espírito do país e expor três anos de mentiras e manipulações apoiadas em alta tecnologia.
Ele próprio vinha sofrendo uma pressão imensa para conseguir que os contratos com a Nardone e a Blasco fossem assinados antes que expirasse o acordo inicial das duas com Vin Haven, no dia 30 de junho, ficando sujeito à renegociação. Em sua pressa de dar conta de Coyle Mathis e cumprir seus prazos, sua única escolha fora assinar o negócio da fabricação de coletes à prova de balas com a lbi, por mais que lhe parecesse exorbitante e discutível. E agora, antes que mais alguma coisa pudesse ser revogada, as companhias de mineração se apressavam em destruir o Nine Mile Valley e invadir as montanhas com suas imensas escavadoras mecânicas, o que estavam autorizadas a fazer porque um dos poucos sucessos claros de Walter, na Virgínia Ocidental, fora conseguir prioridade para as licenças de mineração a céu aberto e convencer o Centro de Leis Ambientais dos Apalaches a remover a área afetada de suas medidas judiciais protelatórias. O acordo foi fechado, e Walter agora precisava esquecer a Virgínia Ocidental e começar a trabalhar com empenho em sua cruzada contra o crescimento populacional—precisava dar início ao programa de estágios antes que os estudantes universitários mais liberais do país já tivessem definido seus planos para o verão e preferissem ir trabalhar na campanha de Kerry.
Nas duas semanas e meia desde sua reunião em Manhattan com Richard, a população mundial tinha aumentado em sete milhões de habitantes. Um aumento líquido de sete milhões de seres humanos—o equivalente à população da cidade de Nova York—para abater mais florestas, sujar cursos d’água, pavimentar pastagens e atirar lixo plástico no oceano Pacífico, queimar gasolina e carvão, exterminar outras espécies, obedecer ao filho da puta do papa e continuar produzindo fieiras de doze filhos. Na opinião de Walter, não havia força maior a serviço do mal no mundo, uma causa mais profunda para o desespero com o destino da humanidade e do planeta incrível que lhe fora dado, que a Igreja Católica, embora, sem dúvida, os fundamentalismos siameses de Bush e Bin Laden chegassem perto nos dias atuais. Ele não podia ver uma igreja, um decalque dizendo homens de verdade amam jesus ou o símbolo de um peixe num carro sem sentir um aperto de raiva no peito. Num lugar como a Virgínia Ocidental, isso significava que ele se enraivecia mais ou menos toda vez que saía pelas ruas, o que sem dúvida contribuía para sua fúria nas estradas. E não era só a religião, nem era só tudo em tamanho jumbo a que seus compatriotas se julgavam com direito exclusivo, não eram só os Walmarts, os baldes de xarope de milho e os monstruosos caminhões com altura fora do comum; era a sensação de que ninguém mais no país perdia cinco segundos sequer pensando no que significava enfiar mais treze milhões de primatas por mês na superfície finita do mundo. A serenidade inabalável da indiferença de seus compatriotas o deixava simplesmente descontrolado de raiva.
Pouco tempo antes Patty tinha sugerido, como um antídoto para a fúria da estrada, que ele se distraísse com o rádio sempre que dirigisse, mas para Walter a mensagem de toda estação de rádio era que ninguém mais nos Estados Unidos pensava na ameaça de ruína do planeta. As estações que falavam de Deus ou só tocavam música country ou passavam os discursos de Russ Limbaugh eram todas, é claro, animadamente a favor da ruína; as estações de rock clássico ou só de notícias viviam criando muito caso em torno de quase nada; e a Rede Nacional de Rádio Pública parecia a Walter ainda pior. Mountain Stage e A Prairie Home Companion, literalmente tocando suas rabecas enquanto o planeta pegava fogo! E pior ainda eram a Morning Edition e All Things Considered. A equipe de jornalismo da Rádio Pública, que no passado tinha sido bastante liberal, transformara-se em apenas mais uma voz de ideologia de livre mercado de centro-direita, descrevendo a mínima desaceleração da taxa de crescimento do país como “má notícia”, e desperdiçando de propósito preciosos minutos de tempo de transmissão a cada manhã e fim de tarde—minutos que poderiam ter sido empregados para despertar a consciência sobre a premência da superpopulação mundial e da extinção em massa—em comentários ligeiros sobre romances e os maneirismos de conjuntos musicais como o Walnut Surprise.
E a televisão: a televisão era a mesma coisa que o rádio, só que dez vezes pior. O país que acompanhava cada guinada inventada de American Idol enquanto o mundo se incendiava parecia a Walter plenamente merecedor de qualquer pesadelo que o futuro lhe reservasse.
Ele sabia, claro, que era errado sentir-se assim—mesmo que só porque, pelos últimos vinte anos, em St. Paul, não era como ele se sentia. Percebia a íntima ligação entre a raiva e a depressão, sabedor de que era mentalmente insalubre viver tão exclusivamente obcecado com desdobramentos apocalípticos, sabedor de como, em seu caso, a obsessão se alimentava da frustração com sua mulher e a decepção com seu filho. É provável que, se estivesse de fato sozinho em sua fúria, não tivesse conseguido suportá-la.
Mas Lalitha estava a seu lado a cada passo. Ratificava sua visão e compartilhava sua sensação de urgência. Em sua entrevista inicial, ela lhe contara a viagem que fizera com a família de volta a Bengala Ocidental, aos catorze anos de idade. Tinha a idade exata para não ficar apenas triste e horrorizada, mas enojada com a densidade, o sofrimento e a precariedade da vida humana em Calcutá. Seu asco a levara, depois de sua volta aos Estados Unidos, a uma dieta vegetariana e aos estudos sobre o meio ambiente, mais centralizados, na faculdade, nos problemas da mulher nos países em desenvolvimento. Embora tenha conseguido um bom emprego na Nature Conservancy ao se formar, seu interesse genuíno—como o de Walter na juventude—sempre tinham sido as questões da superpopulação e da sustentabilidade.
Havia, certo, outro lado de Lalitha, um lado suscetível aos homens fortes e tradicionais. Seu namorado, Jairam, era corpulento e um tanto feio, mas arrogante e muito motivado, cirurgião cardíaco em treinamento, e Lalitha não era de modo algum a primeira jovem atraente que Walter tinha visto acoplar seus encantos a um tipo assim a fim de evitar ser abordada em todo lugar aonde ia. Mas seis anos das asneiras cada vez mais elaboradas de Jairam finalmente pareciam estar fazendo Lalitha mudar de ideia a respeito do noivo. A única verdadeira surpresa quanto à pergunta que ela fez a Walter naquela noite, a pergunta sobre a esterilização, era que sentira a necessidade de perguntar a ele.
Por que, de fato, ela havia perguntado isso a ele?
Ele desligou a tv e ficou andando de um lado para o outro pelo quarto dela, pensando melhor na questão, e a resposta lhe veio na hora: o que estava perguntando era se ele não podia querer ter um filho com ela. Ou talvez, mais precisamente, estava avisando que, caso ele quisesse, podia ser que ela não estivesse disposta.
E a coisa mais perversa era que—para ser honesto consigo mesmo—ele na verdade queria ter um filho com ela. Não que não adorasse Jessica e, de um modo mais abstrato, não amasse Joey. Mas a mãe deles agora lhe parecia muito distante. Patty era uma pessoa que provavelmente jamais quisera muito se casar com ele, alguém de cuja existência tinha descoberto logo através de Richard, que mencionou, numa noite de verão muito distante em Minneapolis, que a garota com quem ele dormia morava com uma estrela do time de basquete que não tinha nada a ver com o que ele achava até então das atletas mulheres. Patty quase ficara com Richard, e o fato gratificante de não ter ficado—de ter sucumbido ao amor de Walter—servira de base para toda uma vida em comum, o casamento, a casa e os filhos. Sempre foram um bom casal, mas um casal diferente; hoje em dia, cada vez mais, pareciam simplesmente incompatíveis. Já Lalitha era um espírito genuinamente semelhante ao seu, uma alma gêmea que o adorava sem reservas. Se um dia eles tivessem um filho, o filho seria como ele.
Continuou a andar de um lado para o outro pelo quarto dela, muito agitado. Enquanto sua atenção estivera absorvida pela bebida e pela agressividade dos locais, o abismo a seus pés só fizera aumentar mais e mais de tamanho. Agora ele já estava pensando em ter filhos com sua assistente! E nem mesmo estava disfarçando! E tudo isso tinha começado a acontecer na última hora. Sabia que era novo porque, quando ele lhe aconselhara a não ligar as trompas, sinceramente não estava pensando em si mesmo.
“Walter?”, disse Lalitha da cama.
“Oi, como é que você está?”, perguntou ele, correndo para junto dela.
“Pensei que estava a ponto de vomitar, mas agora já estou achando que não preciso.”
“Muito bom!”
Piscava rapidamente os olhos para ele, com um sorriso carinhoso. “Obrigada por ficar comigo.”
“Ora, imagine.”
“E você, como está indo com a sua cerveja?”
“Nem sei dizer.”
Os lábios dela estavam logo ali, aquela boca logo ali, e seu coração parecia a ponto de explodir sua caixa torácica com seus pulos. Beije-a! Beije-a! Beije-a!, era o que lhe dizia.
E então seu BlackBerry tocou. O toque era o canto da mariquita-azul.
“Atenda”, disse Lalitha.
“Humm...”
“Não, atenda. Estou bem, deitada aqui.”
A ligação era de Jessica, não era urgente, os dois conversavam todo dia. Mas ver o nome dela na telinha foi suficiente para puxar Walter da beira do abismo. Ele se sentou na outra cama e atendeu o telefone.
“Pelo som, você devia estar andando”, disse Jessica. “Anda correndo por aí?”
“Não”, respondeu ele. “Na verdade estava comemorando.”
“Pois parece que está numa esteira de exercício, de tanto que está ofegante.”
Nem restava ao braço dele a força de segurar o telefone junto ao ouvido. Deitou-se de lado e pôs a filha a par dos acontecimentos daquela manhã e de suas várias inquietações, sobre as quais ela fez o possível para tranquilizá-lo. Ele aprendera a gostar do ritmo daquelas conversas telefônicas diárias. Jessica era a única pessoa no mundo que ele deixava fazer-lhe perguntas sobre ele mesmo antes de cravá-la de perguntas sobre a vida dela; era assim que ela cuidava dele; era a descendente que tinha herdado seu senso de responsabilidade. Embora ela ainda quisesse virar escritora, e trabalhasse no momento como assistente editorial muito mal remunerada em Manhattan, tinha uma profunda simpatia verde e pretendia transformar a causa ambiental no foco de sua obra futura. Walter lhe contou que Richard estava vindo para Washington, e perguntou se ainda estava planejando encontrar-se com eles no fim de semana, para ajudá-los nas reuniões com sua valiosa inteligência de jovem. Ela disse que sem dúvida.
“E como foi o seu dia?”, perguntou ele.
“Bem”, disse ela. “Minhas companheiras de dormitório não foram magicamente substituídas por companheiras de dormitório melhores enquanto eu estava fora. Estou com uma pilha de roupas vedando a minha porta, para não deixar entrar o cheiro de fumaça.”
“Você precisa dizer a elas que não podem fumar no dormitório. Simplesmente vá lá e diga.”
“Não adianta, porque eu acabo perdendo no voto. As duas acabaram de começar. Pode ser que elas ainda descubram que é uma estupidez, e acabem parando. Enquanto isso, eu fico prendendo a respiração.”
“E o trabalho, como vai?”
“Como sempre. Simon está ficando cada vez mais nojento. Parece uma fábrica de sebo. Depois que ele passa pela sua mesa, você precisa esfregar tudo com um pano. Hoje ele ficou mais ou menos uma hora na mesa da Emily, tentando convencê-la a ir a um jogo dos Knicks com ele. Os editores vivem ganhando convites de graça para tudo, inclusive jogos de basquete, por motivos com que eu não consigo atinar. Imagino que a essa altura os Knicks devem estar desesperados para lotar os lugares para convidados especiais. E tudo que a Emily quer é encontrar mil novas maneiras de dizer não. Depois de algum tempo, entrei na conversa e fiquei pedindo a Simon notícias da mulher dele. Sabe como é—a esposa? Três filhos, em Teaneck? E aí, não vai parar de olhar dentro da blusa da Emily?”
Walter fechou os olhos e tentou encontrar algo para dizer.
“Papai? Você está aí?”
“Estou, estou aqui. Quantos anos tem, hum, Simon?”
“Não sei. Idade indeterminada. Provavelmente não mais que o dobro de Emily. Ninguém sabe dizer ao certo se ele tinge ou não o cabelo. Às vezes a cor fica um pouco diferente, de uma semana para outra, mas pode ser só uma questão de oleosidade da pele. Por sorte, não sou diretamente subordinada a ele.”
Walter teve um súbito receio de começar a chorar.
“Papai? Você está aí?”
“Estou, estou.”
“É que o seu celular fica tão mudo quando você não diz nada.”
“É, escute”, disse ele, “acho ótimo que você esteja vindo para o fim de semana. Acho que vamos acomodar Richard no quarto de hóspedes. Vamos precisar de uma reunião maior no sábado e depois de outra menor no domingo. Para tentar sair com um plano concreto. Lalitha já teve ótimas ideias.”
“Sem dúvida”, disse Jessica.
“Ótimo, então. Conversamos amanhã.”
“Está bem, te amo, papai.”
“Eu também, minha querida.”
Deixou o telefone escorregar da mão e ficou deitado chorando algum tempo, em silêncio, fazendo a cama vagabunda sacudir. Ele não sabia o que fazer, não sabia como viver. Cada coisa nova com que deparava na vida o impelia numa direção que o convencia plenamente de sua justeza, mas em seguida outra coisa surgia e o impelia na direção oposta, que também lhe parecia correta. Não havia uma narrativa controlando as coisas: ele se via como uma bola metálica puramente reativa num tabuleiro de pinball onde o único objetivo era manter-se vivo apenas para manter-se vivo. Jogar fora seu casamento e seguir com Lalitha lhe parecia irresistível até o momento em que viu a si mesmo na pessoa do colega de trabalho mais velho de Jessica, como mais um macho branco americano que consumia em excesso e sentia-se com direito a mais e mais e mais: em que viu o imperialismo romântico de sua paixão por uma mulher jovem e asiática, tendo esgotado os suprimentos domésticos. E o mesmo acontecia com o rumo que tinha traçado para o Fundo por dois anos e meio, convencido da solidez de seus argumentos e da justeza da sua missão, até sentir, naquela manhã, em Charleston, que cometera erros horríveis. E o mesmo com o movimento de controle da superpopulação: qual maneira de viver poderia ser melhor do que atacar de frente o desafio mais crítico de seu tempo? Um desafio que dava a impressão de já estar truncado e infértil, com a decisão de Lalitha de ligar as trompas. Como viver?
Estava enxugando os olhos, readquirindo o controle, quando Lalitha se levantou, aproximou-se e pôs uma das mãos em seu ombro. Ela cheirava a martíni recém-sorvido. “Meu chefe”, disse ela baixinho, acariciando o ombro de Walter. “Você é o melhor chefe do mundo. É um homem maravilhoso. Vamos acordar amanhã e tudo vai ter dado certo.”
Ele assentiu com a cabeça, fungou e inspirou entrecortadamente. “Por favor, não ligue as trompas”, disse ele.
“Não”, respondeu ela, sem parar de acariciá-lo. “Hoje à noite não.”
“Não precisa ter pressa de nada. Tudo precisa acontecer mais devagar.”
“Devagar, devagar, isso mesmo. Tudo vai acontecer bem devagar.”
Se ela o beijasse, ele teria correspondido a seu beijo, mas ela se limitou a continuar acariciando seu ombro, e pouco a pouco ele recuperou a capacidade de recompor uma aparência de sua identidade profissional. Lalitha tinha um ar ansioso, mas não decepcionado demais. Ela bocejou e esticou os braços como uma menina sonolenta. Walter a deixou com seu sanduíche e foi para o quarto com o seu filé, que devorou numa selvageria culpada, segurando a carne nas mãos e despedaçando-a com os dentes, a gordura escorrendo pelo queixo. Tornou a pensar no colega de trabalho de Jessica, oleoso e sem atrativos: Simon.
Devolvido à sobriedade pela lembrança, e pela solidão e a esterilidade de seu quarto, lavou o rosto e cuidou de seus e-mails por duas horas, enquanto Lalitha dormia em seu quarto repleto de atrativos, e sonhava—com o quê? Ele nem imaginava. Mas sentia que, por terem chegado tão perto do limiar e depois recuado tão atabalhoadamente, ambos tinham se vacinado contra o perigo de tornarem a se aproximar a esse ponto. O que agora lhe convinha à perfeição. Era assim que ele sabia viver: com a disciplina e a renúncia. Consolou-se com o tempo que ainda haveria de passar antes que ele e Lalitha tornassem a viajar juntos.
Cynthia, sua assessora de imprensa, lhe enviara por e-mail os rascunhos finais do texto completo do comunicado à imprensa, e do anúncio preliminar que ele faria ao meio-dia do dia seguinte, assim que a demolição de Forster Hollow tivesse começado. Havia também um recado seco e insatisfeito de Eduardo Soquel, o chefe das atividades do Fundo na Colômbia, comunicando que estava disposto a perder a quinceañera de sua filha mais velha no domingo e pegar um avião para Washington. Walter precisava de Soquel a seu lado na coletiva de segunda-feira, a fim de enfatizar a natureza pan-americana do parque e assinalar os sucessos do Fundo na América do Sul.
Não era incomum que negócios envolvendo a conservação de áreas extensas de terra fossem mantidos em sigilo até a conclusão, mas poucos eram os negócios que continham uma bomba comparável, na forma de mais de cinco mil hectares de floresta sendo liberados para mineração a céu aberto. No final de 2002, quando Walter se limitara a sugerir à comunidade ambientalista local que o Fundo poderia permitir a mineração a céu aberto na reserva destinada à mariquita-azul, Jocelyn Zorn tinha entrado em contato com todos os jornalistas adversários do carvão na Virgínia Ocidental. Uma revoada de matérias negativas resultara de seus esforços, e Walter percebera que não podia se dar ao luxo de revelar todos os traços de seu projeto ao público. O relógio não parava; não havia tempo para o trabalho lento de conscientizar o público e dar forma às suas opiniões. Melhor manter em segredo suas negociações com a Nardone e a Blasco, melhor deixar Lalitha convencer Coyle Mathis e seus vizinhos a assinar acordos de sigilo, e esperar que os faits ficassem accomplis. Mas agora o pano tinha subido, e o equipamento pesado estava a caminho. Walter sabia que precisava tomar a iniciativa e apresentar as coisas à sua maneira, como um exemplo do “sucesso” de uma recuperação respaldada na ciência e de uma relocação que dava a devida atenção aos interesses dos antigos habitantes. No entanto, quanto mais pensava agora no caso, mais convencido ficava de que a imprensa iria massacrá-lo pela decisão de permitir a mineração a céu aberto no alto das montanhas. Ele podia passar semanas empenhado em controlar os incêndios. E enquanto isso o relógio continuava caminhando no seu movimento contra a superpopulação, que a essa altura era tudo a que realmente dava importância.
Depois de reler o comunicado que seria distribuído à imprensa, ele checou mais uma vez sua caixa de entrada de e-mails e encontrou uma nova mensagem, de caperville@nytimes.com.
Olá, sr. Berglund,
Meu nome é Dan Caperville e estou trabalhando numa reportagem
sobre a conservação de terras na região dos Apalaches. Soube que o Fundo
da Montanha Azul fechou recentemente um acordo visando à preservação
de um vasto trecho de floresta em Wyoming, Virgínia Ocidental. Adoraria
conversar com o senhor assim que lhe for conveniente...
O quê, porra? Como é que o Times já sabia dos acordos assinados naquela manhã? Walter estava tão despreparado para refletir sobre esse e-mail, nas circunstâncias atuais, que compôs uma resposta na mesma hora, e a enviou antes de ter tempo de pensar duas vezes:
Caro sr. Caperville,
Muito obrigado pelo seu interesse! Adoraria conversar com o senhor
sobre as muitas iniciativas interessantíssimas que o Fundo tem em
andamento. Por coincidência, darei uma entrevista coletiva na próxima
segunda-feira em Washington, para anunciar um novo projeto ambiental de
grande importância e interesse, à qual espero que o senhor possa
comparecer. Em consideração à importância de seu jornal, também posso
enviar-lhe uma cópia adiantada do nosso comunicado na noite de domingo.
Se o senhor estiver disponível para conversar comigo no início da manhã de
segunda, antes ainda da coletiva, também talvez possa dar um jeito.
Ansioso para trabalhar em conjunto com o senhor Walter E. Berglund
Diretor executivo, Fundo da Montanha Azul
Mandou cópia de todas as mensagens para Cynthia e Lalitha, acompanhadas do comentário “que diabos foi isso?”, e depois ficou andando de um lado para o outro do quarto, muito agitado, pensando em como seria bom tomar uma segunda cerveja naquele momento. (Uma cerveja em quarenta e sete anos, e ele já se sentia dependente.) A coisa certa a fazer agora talvez fosse acordar Lalitha, voltar de carro para Charleston, pegar o primeiro avião para fora da cidade, transferir a coletiva para sexta-feira e procurar tomar a frente da história. Mas parecia que o mundo inteiro, o mundo enlouquecedor e veloz, estava conspirando para privá-lo das únicas duas coisas que ele de fato queria nesse momento. Já tendo perdido a oportunidade de beijar Lalitha, ele queria pelo menos passar o fim de semana planejando o movimento contra a superpopulação com ela, Jessica e Richard, antes de precisar lidar com aquela situação difícil na Virgínia Ocidental.
Às dez e meia, ainda caminhando de um lado para o outro pelo quarto, sentia-se tão despossuído, ansioso e com piedade de si mesmo que ligou para Patty em casa. Queria colher algum crédito pela sua fidelidade, ou talvez só pretendesse descontar parte de sua raiva numa pessoa que amava.
“Oi, como vai?”, disse Patty. “Eu não esperava que você fosse me ligar. Está tudo em ordem?”
“Está tudo horrível.”
“Aposto que sim! É difícil ficar dizendo que não quando na verdade quer dizer que sim, não é?”
“Ah, meu Deus, nem comece”, disse ele. “Por favor, pelo amor de Deus, não comece com essa história hoje à noite.”
“Desculpe. Só estava tentando me mostrar solidária.”
“Estou às voltas com um problema profissional aqui, Patty. Não é uma coisinha pessoal e emocional, acredite você ou não. Uma dificuldade profissional muito séria que me faz esperar pelo menos um pouco de compreensão. Alguém que esteve na reunião hoje de manhã deixou vazar alguma coisa para a imprensa, e eu preciso tentar sair na frente de uma história de que eu nem sei se quero estar na frente, porque eu já estava achando que tinha fodido com tudo por aqui. Porque tudo que eu consegui fazer foi entregar cinco mil e tantos hectares para serem transformados numa paisagem lunar, e agora o mundo precisa ser informado disso, e eu nem me importo mais com o projeto.”
“Bom, a verdade”, disse Patty, “é que a parte da paisagem lunar realmente causa uma péssima impressão.”
“Obrigado! Obrigado pela compreensão e pelo consolo!”
“Hoje mesmo eu li um artigo no Times a respeito disso.”
“Hoje?”
“É, eles até falaram do seu passarinho, e como a mineração a céu aberto vai fazer mal a ele.”
“Inacreditável! Hoje?”
“É, hoje.”
“Puta merda! Alguém deve ter visto o artigo no jornal de hoje e ligado para o repórter para passar as informações. Acabei de receber um e-mail dele meia hora atrás.”
“Bem, de qualquer maneira”, disse Patty, “você deve saber exatamente o que está fazendo, embora essa coisa de mineração a céu aberto pareça realmente um horror.”
Ele apertou a testa, sentindo-se de novo à beira das lágrimas. Não acreditava que sua própria mulher estava lhe dizendo aquelas coisas, àquela altura, logo naquele dia. “Desde quando você virou uma leitora tão fiel do Times?”
“Só estou dizendo que dá uma péssima impressão. E pela matéria não parece existir ninguém que discorde disso.”
“Logo você, que zombava da sua mãe por acreditar em tudo que ela lia no Times.”
“Rá rá rá! Quer dizer que agora eu virei a minha mãe? Só porque eu não gosto de mineração a céu aberto, de uma hora para outra eu virei Joyce?”
“Só estou dizendo que essa história tem outros lados.”
“Você acha que precisamos queimar mais carvão. Tornar mais fácil queimar mais carvão. Apesar do aquecimento global.”
Ele desceu a mão até os olhos e os apertou até fazê-los doer. “Você quer que eu lhe explique por que é assim? Quer que eu explique?”
“Se você achar melhor.”
“Estamos a caminho de uma catástrofe, Patty. De um colapso total.”
“Bem, e francamente, eu não sei o que você acha, mas estou começando a achar que pode ser até um alívio.”
“Não estou falando de nós dois!”
“Rá rá rá! Eu não tinha entendido, de verdade. Não entendi do que você estava falando.”
“Estou dizendo que a população mundial, e o consumo total de energia, precisa começar a diminuir em algum ponto. Já deixamos para trás qualquer hipótese de sustentabilidade. Quando o colapso vier, os ecossistemas vão ter uma oportunidade breve de se recompor, mas só se ainda houver alguma natureza. Assim, a questão é o quanto do planeta vai estar destruído antes do colapso final. Nós acabamos com todos os recursos, cortamos todas as árvores e esterilizamos todos os oceanos, antes do colapso? Ou algumas áreas vão conseguir sobreviver sem tanto estrago?”
“Seja como for, a essa altura eu e você já vamos estar mortos há muito tempo”, disse Patty.
“Ainda assim, antes de morrer, estou tentando criar uma área defendida. Um refúgio. Uma coisa para ajudar alguns ecossistemas a superar o ponto fatal. É esse o projeto.”
“Como se”, insistiu ela, “fosse haver uma epidemia mundial e as pessoas começassem a formar uma fila imensa para tomar Tamiflu, ou Cypro, e você estivesse cuidando de nos transformar nas últimas duas pessoas que ainda tomam os remédios. ‘Epa, desculpem, pessoal, foi mal, acabou de acabar aqui.’ Nós vamos nos comportar muito educadamente, com toda a gentileza, e depois todo mundo morre.”
“O aquecimento global é uma ameaça terrível”, disse Walter, recusando-se a morder a isca, mas ainda é melhor que resíduos radioativos. As espécies são capazes de se adaptar muito mais depressa do que achávamos antes. Se a mudança climática for acontecendo ao longo de cem anos, um ecossistema frágil tem a possibilidade de persistir. Mas quando um reator explode, tudo fica fodido na mesma hora, e fica fodido pelos quinhentos anos seguintes.”
“Quer dizer que viva o carvão. Vamos queimar mais carvão, mais carvão.”
“É complicado, Patty. O quadro se complica quando você pondera as alternativas. A energia nuclear é uma catástrofe esperando para acontecer. Os ecossistemas não têm nenhuma chance de se recuperar de uma calamidade assim. Todo mundo fala de energia eólica, mas o vento também não é uma boa escolha. Essa idiota, Jocelyn Zorn, tem um folheto que mostra as duas opções—as únicas duas opções, pelo que se pode deduzir. A Figura A mostra uma paisagem desértica e devastada depois da mineração a céu aberto; a Figura B mostra dez moinhos de vento numa paisagem intacta de montanha. E o que está errado na figura? O que está errado é a presença de apenas dez moinhos: o necessário seriam dez mil moinhos. Cada pico de montanha da Virgínia Ocidental precisaria ficar coberto de turbinas. Imagine que você é uma ave migratória tentando passar voando por isso. E se você cobrir o estado com moinhos de vento, acha que vai continuar a ser uma atração turística? E além disso, para concorrer com o carvão, os moinhos de vento teriam de funcionar para sempre. Daqui a cem anos, ainda estarão lá aquelas ventoinhas feias, triturando qualquer animal vivo que tente passar por elas. Enquanto o local da mineração a céu aberto, dentro de cem anos, se for reconstituído da maneira certa, pode não ficar perfeito, mas vai ser uma floresta madura e valiosa.”
“E você sabe disso, mas o jornal não”, disse Patty.
“Exatamente.”
“E não existe a possibilidade de você estar enganado.”
“Não em relação aos males do carvão, comparados com os da energia eólica ou nuclear.”
“Bem, então talvez, se você conseguir explicar isso tudo, como acabou de me explicar, as pessoas acreditem e você não tenha mais nenhum problema.”
“E você, acredita?”
“Não conheço bem todos os fatos.”
“Mas eu conheço, e estou dizendo a você! Por que você não acredita em mim? Por que não pode me dar um pouco de apoio?”
“Achei que esse papel era da sua Bonitinha. Estou meio sem prática, desde que ela tomou conta desse lado. Ela é tão melhor do que eu.”
Walter encerrou a conversa antes que pudesse degringolar ainda mais. Desligou todas as luzes e se arrumou para ir dormir à iluminação difusa do estacionamento que entrava pelas janelas. A escuridão era o único alívio disponível para seu estado de flagelação e sofrimento. Fechou as cortinas, mas a luz ainda se infiltrava pela base delas, de maneira que ele tirou os lençóis da outra cama e usou os travesseiros e cobertas para bloquear o máximo que conseguiu. Vestiu uma máscara de dormir e deitou-se com a cabeça coberta por um travesseiro, mas mesmo assim, por mais que apertasse a máscara, permanecia uma ligeira sugestão de fótons desgarrados atingindo suas pálpebras cerradas com força, uma escuridão imperfeita.
Ele e sua mulher se amavam, e diariamente causavam dor um ao outro. Tudo o mais que ele fazia em sua vida, até mesmo seu desejo por Lalitha, resultava em pouco mais que uma fuga dessas circunstâncias. Ele e Patty não conseguiam viver juntos mas não conseguiam imaginar viver longe um do outro. Cada vez que ele achava que tinham chegado a um ponto intolerável de ruptura, ficava claro que ainda podiam chegar mais longe sem se separar.
Uma noite tempestuosa em Washington, no verão anterior, ele afinal se dedicara a eliminar da desanimadoramente longa lista de coisas a fazer a programação de uma conta bancária online, o que já vinha adiando havia vários anos. Desde que se mudaram para Washington, Patty vinha cuidando cada vez menos da casa, deixando inclusive de fazer compras, mas ainda pagava as contas e mantinha em dia o talão de cheques da família. Walter nunca examinara os canhotos dos cheques até que, ao final de quarenta e cinco minutos de frustração com o programa do banco, deparou com as cifras acesas na tela de seu computador. Sua primeira ideia, quando viu o estranho padrão de retiradas regulares mensais de quinhentos dólares, foi que algum hacker na Nigéria ou em Moscou vinha roubando seu dinheiro. Mas por certo Patty teria reparado.
Subiu até o quartinho dela, onde ela tagarelava alegremente com uma das antigas companheiras de time de basquete—ela ainda produzia risos e graça para as pessoas da sua vida que não eram Walter—e deu-lhe a entender que só iria sair depois que ela parasse de falar ao telefone.