Liberdade

Jonathan Franzen · Capítulo 7 de 12 · parte 3/3

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Liberdade

A fúria do homem gentil

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

“Foi dinheiro vivo”, disse ela quando ele lhe mostrou os extratos impressos da conta. “Eu fiz esses cheques para sacar dinheiro vivo.”

“Quinhentos por mês? Perto do fim de cada mês?”

“É nessas horas que preciso de dinheiro.”

“Não, você sempre retirou duzentos dólares mais ou menos a cada duas semanas. Eu conheço suas retiradas. E aqui, por exemplo, estão me cobrando uma tarifa por um cheque visado. No dia 15 de maio?”

“Foi.”

“Pois me parece um cheque visado, e não um saque em dinheiro vivo.”

Na direção do Observatório Naval, onde Dick Cheney morava, a trovoada castigava um céu da cor da água do Potomac. Patty, instalada no seu sofazinho, cruzou os braços numa atitude de desafio. “Está bem!”, disse ela. “Você me pegou! Joey precisava do dinheiro para o aluguel do verão. E vai me pagar quando ganhar, mas estava sem fundos na hora em que precisou.”

Pelo segundo verão seguido, Joey estava trabalhando em Washington sem ficar na casa dos pais. Sua rejeição à ajuda e à hospitalidade deles já era motivo suficiente de irritação para Walter; mas pior ainda era a identidade do seu empregador de verão: uma nova empresa pequena e corrupta—financiada (embora àquela altura isso não significasse muito para Walter) por amigos de Vin Haven na lbi —, que tinha conseguido o contrato sem concorrência para privatizar a indústria do pão no Iraque recém-liberado. Walter e Joey já tinham brigado por causa disso poucas semanas antes, no feriado de Quatro de Julho, quando Joey veio fazer um piquenique com eles e lhes comunicou muito tardiamente seus planos para as férias de verão. Walter perdeu a cabeça, Patty correu para se esconder no seu quarto e Joey ficou ali sentado, ostentando seu ar superior de republicano. Seu ar superior de quem frequentava Wall Street. Como se fizesse um favor de tolerar o pai idiota e caipira, com seus princípios antiquados; como se ele próprio tivesse certeza do que fazia.

“Quer dizer que nós temos um quarto em perfeita ordem aqui em casa”, disse Walter a Patty, “mas para ele não serve, porque ele quer ser mais adulto, mais dono do seu destino. Podia até precisar ir de ônibus para o trabalho! Misturado com a gentalha!”

“Ele precisa continuar sendo residente do estado da Virgínia, Walter. E ele vai pagar, está bem? Eu sei o que você iria dizer se eu lhe perguntasse, por isso fiz sem dizer nada. Se você não quer que eu tome nenhuma decisão por minha conta, devia confiscar o talão de cheques. Tomar meu cartão do banco. Eu venho implorar dinheiro a você toda vez que eu precisar.”

“Todo mês! Você tem mandado dinheiro para ele todo mês! Para o Doutor Independência!”

“Tenho emprestado dinheiro para ele. Está bem? Quase todos os amigos dele têm recursos ilimitados! Ele é muito frugal, mas se quiser se ligar a essas pessoas, e fazer parte desse mundo —”

“O grande mundo das sedes de fraternidades, frequentado pelas pessoas do melhor tipo —”

“Ele está seguindo um plano. Está seguindo um plano, e quer deixar você impressionado —”

“Essa é nova.”

“É só para comprar roupas e poder sair com os amigos”, disse Patty. “É ele quem paga os próprios estudos, que paga casa e comida e, se um dia você for capaz de perdoá-lo por não ser uma cópia idêntica sua em todos os sentidos, talvez consiga ver o quanto vocês dois são parecidos. Você se sustentava exatamente da mesma maneira que ele quando tinha a mesma idade.”

“Verdade, mas eu usei as mesmas três calças de veludo pelos quatro anos de faculdade, não saía para beber cinco dias por semana, não recebia dinheiro da minha mãe nem fodendo.”

“Pois o mundo de hoje é muito diferente, Walter. E talvez, talvez, ele saiba melhor que você do que uma pessoa precisa para progredir neste mundo.”

“Trabalhar para um fornecedor militar, encher a cara toda noite com garotos republicanos das fraternidades. Será mesmo a única maneira de progredir? A única opção disponível?”

“Você não faz ideia do quanto esses meninos de hoje sentem medo. É muita pressão. Por isso gostam de se divertir bastante—e daí?”

O velho ar-condicionado da mansão não era páreo para a umidade que se abatia sobre ela de fora para dentro. As trovoadas eram quase contínuas e se espalhavam em todas as direções; a pereira ornamental do lado de fora junto à janela sacudia os ramos como se alguém estivesse subindo em seus galhos. O suor escorria por todas as partes do corpo de Walter sem contato direto com suas roupas.

“É interessante ver você defendendo os jovens de hoje de uma hora para outra”, disse ele, “já que costuma ser tão —”

“Estou defendendo o seu filho”, disse ela. “Que, para quem não reparou, não é um desses idiotas que andam por aí arrastando sandália de dedo, e é consideravelmente mais interessante que —”

“Não consigo acreditar que você está mandando dinheiro para ele poder beber! Você sabe o que isso parece? Parece o dinheiro dado às grandes empresas. Todas essas companhias supostamente partidárias da liberdade de mercado penduradas nas tetas do governo federal. ‘Precisamos reduzir o tamanho do governo, não queremos mais regulação, não queremos mais taxas, mas, ah, enquanto isso —’”

“Ele não está se pendurando em teta nenhuma, Walter”, disse Patty em tom de ódio.

“Foi uma expressão metafórica.”

“Pois para mim você escolheu uma metáfora muito interessante.”

“Foi, escolhi com todo o cuidado. Essas companhias que se fazem de adultas e defensoras do livre mercado, quando na verdade são bebês imensos devorando o orçamento da União enquanto todo o resto da população passa fome. O Departamento de Pesca e Vida Selvagem tem o orçamento cortado todo ano, menos cinco por cento a cada ano que passa. Você precisa ir a um escritório deles, são todos escritórios-fantasma. Sem funcionários, sem dinheiro para comprar terras, sem —”

“Ah, os peixes, tão importantes, e a vida selvagem...”

“eu me preocupo com essas coisas. Você não consegue entender? Não consegue respeitar? Se não consegue respeitar, por que ainda está vivendo comigo? Por que não pega e vai embora?”

“Porque ir embora não é resposta que se dê. Meu Deus, você acha que eu nunca pensei nisso? Entrar no mercado de trabalho com os meus talentos, a minha experiência profissional e o meu corpo espetacular de meia-idade? Na verdade eu acho maravilhoso o que você tem feito pelo seu passarinho —”

“Conversa.”

“Está certo, vá lá, não é a coisa que mais me interessa no mundo, mas —”

“E qual é a coisa que interessa você? Não existe nada que te interesse. Você fica sentada o dia inteiro sem fazer nada, nada, nada, nada, um dia atrás do outro, e isso acaba comigo. Se você pelo menos saísse e arrumasse um emprego, e ganhasse um salário, ou fizesse alguma coisa por outro ser humano, em vez de ficar fechada no seu quarto com pena de si mesma, podia se sentir menos sem valor, é só isso.”

“Certo, mas, meu bem, ninguém quer me pagar oitocentos mil dólares por ano para salvar alguma espécie de passarinho. O emprego é bom, mas é para quem pode. O que não é o meu caso. Quer que eu vá trabalhar preparando Frappuccinos em algum Starbucks? Você acha que oito horas por dia num Starbucks vão me fazer sentir uma pessoa de maior valor?”

“Pode ser! Você bem que podia tentar! Pois nunca tentou, na vida inteira!”

“Ah, até que enfim está aparecendo! Agora estamos chegando a algum lugar!”

“Eu não devia ter deixado você ficar em casa. O erro foi esse. Não sei por que seus pais nunca fizeram você começar a trabalhar, mas —”

“Eu já trabalhei! Que merda, Walter!” Ela tentou dar-lhe um chute e só por acaso deixou de acertá-lo no joelho. “Trabalhei um verão inteiro para o meu pai, e foi horrível. E depois você me viu na Universidade de Minnesota, você sabe que eu trabalho, se precisar. Trabalhei lá dois anos direto. Mesmo quando estava com oito meses de gravidez, ainda ia ao trabalho.”

“Ficava batendo papo com Treadwell, tomando café e assistindo a filmes de jogos antigos. Isso não é trabalho, Patty. É um favor de alguma pessoa que gosta de você. Primeiro você trabalhou com o seu pai, depois com as suas amigas no Departamento de Atletismo.”

“E as dezesseis horas por dia em casa, por vinte anos? Sem salário? Não contam? Também foram só um ‘favor’? Criar os seus filhos? Cuidar da sua casa?”

“Era o que você queria.”

“E você, não?”

“Por você. Eu queria por você.”

“Ah, conversa fiada, tudo conversa fiada. Queria por você também. Estava o tempo todo concorrendo com Richard, e sabe disso. O único motivo de estar esquecendo isso agora é que no fim das contas não deu tão certo assim. Você não está mais ganhando.”

“Não tem nada a ver com ganhar.”

“Mentira! Você é tão competitivo quanto eu, só que mente a respeito. E é por isso que não me deixa. É por isso que eu preciso do tal emprego. Porque de outro modo é um fracasso para você.”

“Não vou ficar ouvindo essas coisas. Isso deve ser alguma realidade alternativa.”

“Seja o que for, não precisa ouvir nada, mas eu ainda faço parte do mesmo time que você. E, acredite ou não, ainda quero ganhar. O motivo de eu estar ajudando Joey é que ele também faz parte da nossa equipe, e vou ajudar você também. Amanhã mesmo vou sair, porque é o que você quer, e —”

“Não tem nada a ver com o que eu quero.”

“tem tudo a ver com o que você quer. Você ainda não entendeu? Eu não quero nada. Não acredito em nada. Não tenho fé em nada. A única coisa que eu tenho é o meu time. E então vou conseguir um emprego porque é o que você quer, e depois disso espero que você pelo menos me deixe em paz, e me deixe mandar o dinheiro que eu quiser para Joey. Você nem precisa me ver muito mais —e não precisa ficar tão enojado.”

“Não estou enojado.”

“Bem, isso é mais do que eu consigo compreender.”

“E você não precisa ir trabalhar, se não quiser.”

“Preciso, sim! Está muito claro, você não acha? Você deixou bastante claro.”

“Não. Você não precisa fazer nada. Só voltar a ser a minha Patty. Só voltar para mim.”

E então ela começou a chorar torrencialmente, e ele se deitou ao lado dela. As brigas tinham se transformado no portal dos dois para o sexo, e eram quase a única maneira como o sexo ainda acontecia. Enquanto a chuva açoitava e o céu relampejava, ele tentava deixá-la cheia de amor-próprio e desejo, tentava transmitir-lhe o quanto ele precisava que ela continuasse a ser a pessoa em que ele pudesse enterrar seu afeto. Nunca funcionava muito, mas ainda assim, quando acabavam, vinham alguns minutos em que ficavam deitados nos braços um do outro na majestade tranquila de seu duradouro casamento, abandonando-se na tristeza compartilhada e no perdão por tudo que tinham infligido um ao outro, e conseguiam descansar.

Na manhã seguinte, Patty saiu à procura de um emprego. Voltou em menos de duas horas e entrou no escritório de Walter, na “estufa” com muitas janelas da mansão, para anunciar que a República da Saúde local a contratara como recepcionista no primeiro balcão da academia.

“Recepcionista do primeiro balcão não me parece muito adequado, tendo em vista as suas possibilidades.”

“Adequado para quem?”

“Para as pessoas que vão poder ver você.”

“E que pessoas são essas?”

“Não sei. Pessoas a quem eu posso estar pedindo dinheiro, ou apoio no Congresso, ou ajuda com a regulamentação.”

“Ah, meu Deus. Você ouviu o que você mesmo está dizendo? Ouviu o que acabou de dizer?”

“Escute, estou tentando ser honesto com você. Não reclame comigo por ser honesto.”

“Estou reclamando do conteúdo do que você diz, Walter, e não da sua honestidade. Você percebeu: ‘Não me parece muito adequado’. Caramba!”

“Estou dizendo é que você é inteligente demais para um trabalho de recepcionista de academia.”

“Não, está dizendo que estou velha demais. Você não iria achar nada demais se Jessica passasse o verão trabalhando lá.”

“Na verdade, iria ficar decepcionado se ela só quisesse fazer esse trabalho durante as férias.”

“Ah, está bom, então. Não tenho mesmo como ganhar. ‘Qualquer emprego é melhor que nenhum emprego, mas, não, espere um pouco, o emprego que você quer e para o qual está qualificada não é melhor que nenhum emprego.’”

“Então está bom. Aceite. Para mim tanto faz.”

“Obrigada pelo interesse.”

“Só acho que você está se desvalorizando.”

“Bom, talvez seja só por algum tempo”, disse Patty. “Talvez eu consiga uma licença de corretora, como todas as mulheres inempregáveis da cidade, e comece a vender casinhas miseráveis no centro com o piso desnivelado por dois milhões de dólares. ‘Aqui mesmo neste banheiro, em 1962, Hubert Humphrey defecou em quantidades enormes, e, em reconhecimento por esse momento histórico, a propriedade foi incluída no Registro Nacional, o que explica o excedente de cem mil dólares que os proprietários estão pedindo por ela. E também temos um pequeno mas adorável pé de azaleia no jardim dos fundos, perto da janela da cozinha.’ Posso começar a usar cor-de-rosa, verde e uma capa de chuva Burberry. Com a minha primeira comissão, compro uma caminhonete Lexus 4 × 4. Vai ser muito mais adequado.”

“Eu disse que está bem.”

“Obrigada, meu bem! Obrigada por me deixar aceitar o emprego que eu quero!”

Walter a viu sair a passos largos pela porta e parar ao lado da mesa de Lalitha. “Oi, Lalitha”, disse ela. “Acabei de conseguir um emprego. Vou trabalhar na minha academia.”

“Ótimo”, disse Lalitha. “Você gosta da academia.”

“Gosto, mas Walter acha que não é adequado. O que lhe parece?”

“Acho que qualquer trabalho honesto traz dignidade para a pessoa.”

“Patty”, disse Walter. “Eu já disse que tudo bem.”

“Está vendo, agora ele mudou de ideia”, disse ela a Lalitha. “Antes, ele me disse que não era adequado.”

“É, eu ouvi.”

“Isso mesmo, rá rá rá. Deve ter ouvido mesmo. Mas é importante fingir que não, está bem?”

“Melhor fechar a porta se não quiser que ninguém escute”, respondeu friamente Lalitha.

“Todo mundo aqui precisa se esforçar muito no fingimento.”

Tornar-se recepcionista da academia República da Saúde fez pelo estado de espírito de Patty tudo que Walter esperava de um emprego. Tudo e, infelizmente, mais um pouco. A depressão de Patty deu a impressão de melhorar na mesma hora, o que porém só demonstra o quanto a palavra “depressão” é enganosa, porque Walter tinha certeza de que a infelicidade, a raiva e o desespero de Patty continuavam todos presentes por baixo de seu novo modo de ser, animado e quebradiço. Ela passava as manhãs em seu quarto, trabalhava no turno da tarde/noite da academia, e só chegava em casa bem depois das dez. Começou a ler revistas sobre beleza e boa forma, e a aplicar uma perceptível maquiagem nos olhos. As calças de moletom e jeans que ela vinha usando em Washington, o tipo de roupas frouxas que os pacientes psiquiátricos costumam preferir, deram lugar a jeans justos que custavam bem mais caro.

“Você está ótima”, disse Walter uma noite, tentando ser simpático.

“Bom, agora que eu tenho renda própria”, disse ela, “preciso de alguma coisa em que possa gastar, não é?”

“Sempre pode fazer alguma doação para o Fundo da Montanha Azul.”

“Rá rá rá!”

“Estamos muito necessitados.”

“Estou achando graça, Walter. Só um pouquinho, mas sempre uma certa graça.”

No entanto, não parecia estar achando graça nenhuma. Dava a impressão de estar decidida a atingi-lo, ou contrariá-lo, ou provar alguma coisa. Walter começou a se exercitar ele próprio na República, usando cinco passes gratuitos que ela lhe dera, e ficou perturbado com a intensidade da simpatia que ela dirigia aos frequentadores cujos cartões ela passava pela fenda de leitura. Usava camisetas da academia com mangas bem curtas e dizeres provocativos (empurre, puxe, suar é bom) que realçavam seus braços lindamente torneados. Seus olhos tinham o brilho dos de um viciado em anfetamina, e seu riso, que sempre exercia um efeito especial sobre Walter, soava falso e um pouco assustador quando ele o ouvia ecoar atrás de si no saguão de entrada da academia. Agora ela o dirigia a todos, sem discriminação, sem nenhum critério, a todos os que passavam pela porta da Wisconsin Avenue. E então um dia ele viu um folheto sobre aumento de seios na mesa dela, em casa.

“Meu Deus”, disse ele, examinando as figuras. “Que coisa obscena.”

“Na verdade, é um folheto de esclarecimento médico.”

“É um folheto produzido pela doença mental, Patty. Na verdade, é um guia para mostrar como a mulher pode ficar mais louca.”

“Bem, sinto muito, só achei que podia ser bom, pelo pouco que ainda resta da minha relativa juventude, ter um pouco de peito de verdade. Ver como pode ficar.”

“Você já tem peito. Eu adoro os seus peitos.”

“Acho ótimo, meu bem, mas na verdade a decisão não é sua, porque o corpo não é seu. É meu. Não é o que você sempre disse? É você o feminista desta casa.”

“Por que você resolveu fazer isso? Não estou entendendo o que você resolveu fazer consigo mesma.”

“Bom, se você não gosta, sempre pode ir embora. Já pensou nisso? Seria uma solução, digamos, instantânea para o problema.”

“Bom, isto nunca vai acontecer, e assim—”

“eu sei que nunca vai acontecer.”

“Oh! Oh! Oh! Oh!”

“E já que é assim, acho que bem pode ser a hora de comprar um belo par de peitos novos, para ajudar a passar os anos e me dar algum objetivo para economizar meus trocados, só isso. Não estou falando de peitos imensos, grotescos. Quem sabe você acaba até gostando. Já pensou nessa possibilidade?”

Walter ficava assustado com o envenenamento a longo prazo que podia resultar daquelas brigas entre os dois. Sentia sua toxicidade formar reservatórios em seu casamento, como os rejeitos poluentes da mineração carvoeira nos vales dos Apalaches. Nos locais onde os reservatórios desses rejeitos eram realmente imensos, como no condado de Wyoming, as empresas carvoeiras tinham construído instalações de processamento bem ao lado de suas minas, e usavam a água do rio mais próximo para lavar o carvão extraído. A água poluída era recolhida em reservatórios enormes de lama tóxica, e Walter se preocupara tanto com algum transbordamento dessa lama no meio do parque que encarregara Lalitha de mostrar-lhe que não precisava se preocupar tanto. O que não tinha sido nada fácil, já que não havia como negar que, em paralelo com a extração do carvão, também subiam das profundezas substâncias nefastas como o arsênico e o cádmio, até então sepultadas em segurança por milhões de anos. Era possível tentar jogar o veneno de volta nos poços das minas abandonadas, mas ele sempre dava um jeito de infiltrar-se até os aquíferos da área e de acabar infectando a água potável. Na verdade, era um fenômeno parecido com a merda acumulada no fundo que acaba sendo agitada quando um casal começa a brigar: depois que certas coisas são ditas, como tornar a esquecê-las? Lalitha conseguiu resultados de pesquisa suficientes para convencer Walter de que, se a lama tóxica fosse armazenada com todo o cuidado e devidamente contida, acabava secando o suficiente para ser coberta com pedra moída e terra, e depois era possível fazer de conta que nem existia. E essa história acabara se transformando na narrativa básica sobre a lama tóxica que estava decidido a divulgar na Virgínia Ocidental. E, da mesma forma, Walter acreditava em refúgios ecológicos e na recuperação ambiental em bases científicas, porque precisava acreditar neles, por causa de Patty. Mas agora, deitando-se na cama e tentando adormecer naquele colchão hostil do Days Inn, entre os ásperos lençóis do Days Inn, ele foi tomado pela dúvida. Seria mesmo verdade...?

Deve ter adormecido em algum momento, porque quando o despertador tocou, às três e quarenta, sentiu-se cruelmente arrancado do limbo. Tinha mais dezoito horas de trabalho, pavor e raiva pela frente. Lalitha bateu em sua porta às quatro em ponto, tomada pelo frescor, usando um par de jeans despretensiosos e sapatos de caminhada. “Estou péssima!”, disse ela. “E você?”

“Péssimo também. Mas pelo menos a sua cara, ao contrário da minha, está ótima.”

A chuva tinha parado durante a noite, sendo sucedida por um nevoeiro denso cheirando a sul que molhava quase tanto quanto ela. Durante o café da manhã, numa parada de caminhões do outro lado da estrada, Walter contou a Lalitha a história do e-mail de Dan Caperville do New York Times.

“Você quer voltar agora?”, perguntou ela. “Dar a entrevista coletiva amanhã de manhã?”

“Eu já disse a Caperville que ia falar na segunda-feira.”

“Mas pode dizer que irá antecipar. E tira logo essa coisa do caminho, para podermos passar o fim de semana em paz.”

Mas Walter estava tão dolorosamente exausto que não conseguia imaginar dar uma entrevista coletiva na manhã seguinte. Ficou sentado, sofrendo em silêncio, enquanto Lalitha, fazendo o que ele não tivera coragem de enfrentar na noite anterior, lia a matéria do Times em seu BlackBerry. “São só doze parágrafos”, disse ela. “Nem é tão mau assim.”

“Deve ter sido por isso que ninguém leu e eu só fui saber do artigo pela minha mulher.”

“Ah, então falou com ela ontem à noite?”

Lalitha quis dizer alguma coisa com isso, mas ele estava cansado demais para descobrir o quê. “Só me pergunto quem vazou as informações”, disse ele. “E até que ponto.”

“Talvez tenha sido a sua mulher.”

“Vai ver que foi.” Ele riu e depois viu a expressão dura no rosto de Lalitha. “Ela jamais faria uma coisa dessas”, disse ele. “Na verdade, ela nem liga tanto assim para isso.”

“Hum.” Lalitha enfiou uma garfada de panqueca na boca e correu os olhos pela lanchonete com a mesma expressão dura e infeliz. Ela, claro, tinha todos os motivos para estar com raiva de Patty, e de Walter, àquela altura. Sentia-se rejeitada e só. Mas foram os primeiros segundos em que ele detectou alguma frieza da parte dela; e foram terríveis. O que ele jamais havia entendido quanto aos homens numa posição como a sua, nos livros que tinha lido e nos filmes que tinha visto sobre o assunto, agora estava mais claro para ele: o sujeito não pode esperar um amor constante e incondicional sem, em algum momento, corresponder. Ninguém podia reivindicar algum crédito apenas por se comportar direito.

“Só quero fazer a nossa reunião do fim de semana”, disse ele. “Se eu pelo menos conseguir trabalhar dois dias na questão da explosão populacional, enfrento qualquer coisa na segunda-feira.”

Lalitha terminou suas panquecas sem falar com ele. Walter obrigou-se a engolir também boa parte do seu café da manhã, e saíram ambos na manhã escura poluída de luz. No carro alugado, ela ajustou o banco e os espelhos, que ele tinha deslocado na noite anterior. Enquanto ela cruzava o braço à frente do corpo para ajustar o cinto de segurança, ele pousou a palma da mão desajeitada em seu pescoço e puxou-a para perto, deixando os olhos dela muito próximos dos seus, numa troca séria de olhares à luz sempre acesa à beira da estrada.

“Não consigo viver cinco minutos sem você do meu lado”, disse ele. “Nem cinco minutos. Você sabia disso?”

Depois de pensar por um instante, ela fez que sim. Em seguida, largando o cinto de segurança, ela pôs as duas mãos nos ombros dele, deu-lhe um beijo solene e recuou um pouco para avaliar o efeito. Ele se sentia como se tivesse ido até onde podia e fosse incapaz de dar mais um passo por conta própria. Ficou simplesmente esperando enquanto ela, franzindo a testa de concentração como uma criança, tirava seus óculos, dobrava-os no painel do carro, punha as mãos em torno de sua cabeça e encostava o narizinho dela no seu. Ficou perturbado por algum tempo ao constatar o quanto o rosto dela se parecia com o de Patty assim tão de perto, mas bastou fechar os olhos e beijá-la para ver o quanto era pura Lalitha, os lábios almofadados, a boca com uma doçura de pêssego, a cabeça em que o sangue circulava tão quente por baixo dos cabelos sedosos. Debateu-se um pouco pensando em como era errado beijar uma pessoa tão jovem. Percebia a juventude dela como uma espécie de fragilidade em suas mãos, e ficou aliviado quando ela tornou a recuar para encará-lo com os olhos cintilantes. Sentiu que era o momento de admitir alguma coisa, mas não conseguia parar de olhar para ela, que pareceu entender essa insistência como um convite para se espremer por cima da alavanca do câmbio e sentar-se no seu colo de frente para ele no banco do carona, para que ele pudesse abraçá-la com mais liberdade. A violência com que ela o beijou naquele momento, o abandono faminto, lhe trouxe uma alegria tão extrema que sentiu o chão lhe faltar. Sentiu-se em queda livre, tudo em que acreditava começou a desfazer-se no escuro, e ele começou a chorar.

“Ah, o que foi?”, perguntou ela.

“Você precisa ir devagar comigo.”

“Devagar, devagar, sei”, disse ela, beijando suas lágrimas, enxugando-as com seus polegares acetinados. “Walter, você está triste?”

“Não, querida, pelo contrário.”

“Então me deixe amar você.”

“Está bem. Eu deixo.”

“Está bem mesmo?”

“Está”, disse ele, chorando. “Mas acho que devíamos seguir viagem.”

“Já já.”

Ela estendeu a língua até encostar nos lábios dele, e ele os afastou para deixá-la entrar. Havia mais desejo por ele na boca de Lalitha do que em todo o corpo de Patty. Os ombros dela, que ele abraçava através do casaco de náilon, pareciam só osso e gordura de bebê, sem nenhum músculo, pura maleabilidade e puro desejo. Ela endireitou as costas e afundou-se nele, empurrando os quadris contra seu peito; e ele não estava pronto. Nunca chegara tão perto, mas ainda não estava plenamente a postos. Sua resistência na noite anterior não tinha sido apenas uma questão de tabu ou de princípio, e suas lágrimas não eram de pura alegria.

Intuindo a situação, Lalitha afastou-se dele e estudou seu rosto. Em resposta ao que quer que tenha visto, ela voltou para o banco do motorista e ficou a observá-lo de mais longe. Agora que ele a afastara, sentia uma vontade intensa de vê-la de volta ali, mas tinha uma vaga impressão, a partir das histórias que tinha ouvido e lido acerca de homens naquela posição, de que aquilo era o pior que podiam fazer: manter a menina no anzol, e dar-lhe mais linha. Ficou sentado por mais algum tempo à luz imutável e arroxeada da rua, ouvindo os caminhões que passavam pela estrada interestadual.

“Desculpe”, disse ele finalmente. “Ainda estou tentando resolver como vou viver com isso.”

“Está tudo bem. Eu lhe dou algum tempo.”

Ele assentiu com a cabeça, atentando para a palavra algum.

“Mas posso lhe fazer uma pergunta?”, disse ela.

“Pode me fazer um milhão de perguntas.”

“Bom, por enquanto só uma. Você acha que vai poder me amar?”

Ele sorriu. “Acho que sim, sem a menor dúvida acho que sim.”

“Então não preciso de mais nada.” E ela deu a partida no motor.

Em algum ponto acima do nevoeiro, o céu azulava. Lalitha enveredou pelas estradas secundárias que saíam de Beckley a uma velocidade bem acima da legal, e Walter ficou feliz de olhar pela janela sem pensar no que lhe acontecia, só se deixando levar pela queda livre. O fato de a floresta de caducifólias dos Apalaches estar entre os ecossistemas temperados de maior biodiversidade do mundo, abrigando uma variedade de espécies de árvores, orquídeas e invertebrados de água doce que as planícies e as costas arenosas só podiam invejar, não era algo fácil de se ver das estradas que percorriam. Ali a terra tinha se traído, sua topografia retorcida e sua riqueza de recursos extraíveis desestimulando o igualitarismo dos pequenos agricultores de Jefferson, dando origem em seu lugar à concentração dos direitos de exploração do solo e à mineração nas mãos dos ricos de fora do estado, e consignando às margens os nativos pobres e os trabalhadores importados: ao abate de madeira, ao trabalho nas minas, à extração do sustento para suas existências pré e, mais tarde, pós-industriais de escassas sobras de terra que, levados pelo mesmo impulso de procriação que agora tomara conta de Walter e Lalitha, tinham ocupado com um excesso de gerações pouco espaçadas de famílias grandes demais. A Virgínia Ocidental era a república das bananas dos próprios Estados Unidos, seu Congo, sua Guiana, sua Honduras. As estradas eram razoavelmente pitorescas no verão, mas àquela altura, com as folhas ainda caídas, era possível ver toda a extensão dos pastos com suas cascas de ferida de pedregulhos à flor da terra, as copas raquíticas de jovens plantas da cobertura secundária, as encostas rasgadas e os cursos d’água arruinados pela mineração, os celeiros decrépitos e as casas sem pintura, os trailers usados como residência enterrados até a cintura em dejetos plásticos e metálicos, os caminhos maltratados de terra batida levando para lugar nenhum.

Mais longe das cidades, as cenas eram menos deprimentes. A distância trazia o alívio da ausência de pessoas: a ausência de pessoas significava maior abundância de tudo o mais. Lalitha deu uma guinada violenta para desviar-se de um tetraz no meio da estrada, um tetraz arauto, um embaixador da boa vontade aviária augurando a devoção à cobertura florestal mais vigorosa, às alturas menos maculadas e aos cursos d’água mais limpos do condado de Wyoming. Até o tempo estava melhorando para eles.

“Eu quero você”, disse Walter.

Ela sacudiu a cabeça. “Não diga mais nada, está bem? Ainda temos trabalho pela frente. Vamos cuidar do nosso trabalho, e depois vamos ver.”

Walter sentiu-se tentado a pedir que ela parasse numa das áreas rústicas de piquenique ao longo do Black Jewel Creek (do qual o Nine Mile era um dos principais tributários), mas seria uma irresponsabilidade, ponderou ele, pôr as mãos nela antes de ter certeza de que estava pronto. Com a gratificação assegurada, o adiamento era suportável. E a beleza da região ali no alto, a doce umidade carregada de esporos do ar do início de primavera, era tão reconfortante para ele.

Já passava das seis quando chegaram à bifurcação que conduzia a Forster Hollow. Walter tinha esperado encontrar a circulação de caminhões pesados e equipamentos de terraplanagem na estrada de Nine Mile, mas não havia nenhum veículo à vista. Em vez disso, encontraram marcas profundas de pneus e lagartas na lama. Nos pontos onde a mata tinha sido invadida, galhos recém-partidos jaziam no chão ou pendiam aleijados das árvores que se elevavam acima deles.

“Parece que alguém chegou aqui antes da hora”, disse Walter.

Lalitha acelerava a espasmos, fazendo o carro derrapar de traseira na lama, andando perigosamente junto à beira da estrada para evitar os galhos caídos maiores.

“Parece até que chegaram aqui ainda ontem”, disse Walter. “Acho que podem ter entendido mal e trazido o equipamento para cá ontem, para hoje começar bem cedo.”

“Já tinham o direito legal de entrar, a partir do meio-dia.”

“Mas não foi o que disseram. Disseram que seria às seis da manhã de hoje.”

“Foi. Mas são empresas carvoeiras, Walter.”

Chegaram a uma das passagens mais estreitas do caminho e a encontraram grosseiramente alargada por uma escavadeira e o arrasto de correntes, os troncos empurrados para o fundo da grota ao lado. Lalitha aumentou o giro do motor, balançou e deslizou de lado por uma ladeira improvisada de lama, pedra e tocos. “Ainda bem que este carro é de aluguel!”, disse ela, enquanto acelerava com gosto rumo à estrada desimpedida mais à frente.

Três quilômetros adiante, no limite de terras que não pertenciam ao Fundo, o caminho estava bloqueado por alguns carros de passageiros que tinham parado, de ré, à frente de uma cancela de corrente montada por trabalhadores de colete laranja. Walter reconheceu Jocelyn Zorn e algumas de suas mulheres discutindo com um encarregado de capacete plástico com uma prancheta nas mãos. Num outro mundo, não muito diverso daquele, Walter poderia ter sido amigo de Jocelyn Zorn. Ela lembrava a Eva do famoso retábulo de Van Eyck; era pálida, tinha os olhos opacos e um ar vagamente macrocefálico de tanto que sua testa era alta. Mas tinha uma compostura graciosa e desconcertante, uma inalterabilidade que fazia pensar em ironia, e era o tipo de tempero amargo que geralmente agradava ao paladar de Walter. Ela veio andando pela estrada ao encontro dele e de Lalitha, chegando assim que os dois puseram os pés na lama.

“Bom dia, Walter”, disse ela. “Pode me explicar o que está acontecendo aqui?”

“Parece que estão trabalhando na estrada”, respondeu Walter com dissimulação.

“E jogando muita sujeira no rio. Que já está turvo quase até a metade do caminho do Black Jewel. Não estou vendo muito esforço de controle da erosão por aqui. Na verdade, não estou vendo nada aqui em matéria de controle.”

“Vamos falar com eles sobre isso.”

“Pedi ao Departamento de Proteção do Meio Ambiente que viesse dar uma espiada. Imagino que devam chegar lá por volta do mês de junho. Você comprou a aprovação deles também?”

Por baixo das manchas marrons que cobriam o para-choque do carro mais próximo às máquinas, Walter conseguiu ler as carvoeiras querem ver minha caveira.

“Vamos recuar um pouco, Jocelyn”, disse ele. “Será que podemos dar uns dois passos atrás, e tentar ver essa situação em plano geral?”

“Não”, respondeu ela. “Não me interessa. O que me interessa é a sujeira no rio. E também o que estará acontecendo do outro lado desta cerca.”

“O que está acontecendo é o começo da preservação de mais de vinte e cinco mil hectares de mata, sem estradas, até o fim dos tempos. Estamos garantindo um hábitat contínuo para até dois mil casais em idade reprodutiva de mariquitas-azuis.”

Zorn baixou os olhos opacos para o chão enlameado. “Exatamente. A espécie pela qual vocês se interessam. Um bonito passarinho.”

“Por que não vamos a algum outro lugar”, disse Lalitha em tom animado, “sentar e conversar sobre a situação maior? Estamos do mesmo lado, afinal.”

“Não”, disse Zorn. “Vou ficar por aqui mais um pouco. Pedi a um amigo meu da Gazette para vir até aqui ver como andam as coisas.”

“E também andou conversando com o New York Times?”, ocorreu a Walter perguntar.

“Andei. E eles estavam muito interessados. Hoje em dia, basta falar em mineração a céu aberto que qualquer um se interessa. É o que vocês estão pensando em fazer aqui em cima, não é?”

“Vamos dar uma coletiva na segunda-feira”, disse ele. “E vou explicar todo o plano. Acho que, quando você souber dos detalhes, vai ficar animada. Podemos lhe conseguir uma passagem de avião, se você quiser vir. Adoraria ver você por lá. Você e eu podíamos até dialogar em público, se você quiser falar das suas dúvidas.”

“Em Washington?”

“É.”

“Faz sentido.”

“É onde fica a nossa base.”

“Sei. É onde fica a base de todo mundo.”

“Jocelyn, temos vinte mil hectares aqui que nunca mais vão ser tocados. O resto vai se seguir daqui a poucos anos. Na minha opinião, tomamos decisões bastante certas.”

“Acho que discordamos, então.”

“Pense a sério em vir nos encontrar em Washington na segunda-feira. E peça para o seu amigo da Gazette me ligar mais tarde.” Walter entregou a Zorn um cartão de visitas que tirou da carteira. “Diga a ele que podemos levá-lo a Washington também, se ele se interessar.”

De algum ponto mais alto das montanhas, chegou-lhes um murmúrio de trovoada que soava como uma explosão, provavelmente no alto de Forster Hollow. Zorn enfiou o cartão de visitas num dos bolsos de sua parca impermeável. “Aliás”, disse ela, “tenho conversado com Coyle Mathis. Já sei o que vocês estão fazendo.”

“Coyle Mathis está legalmente impedido de falar a respeito disso”, respondeu Walter. “Terei o maior prazer em me sentar com você e conversar sobre o assunto, se for o caso.”

“O fato de ele estar morando numa casa novinha de cinco quartos em Whitmanville já fala por si mesmo.”

“Uma bela casa, não é?”, perguntou Lalitha. “Muito, muito melhor que a antiga casa dele.”

“Talvez você devesse ir fazer uma visita e ver se ele concorda mesmo com isso.”

“De qualquer maneira”, disse Walter, “vocês precisam tirar os carros do caminho, para podermos passar.”

“Hum”, disse Zorn, em tom desinteressado. “Acho que você poderia chamar alguém para nos rebocar, se o celular pegasse aqui em cima. Mas não pega.”

“Ah, deixe disso Jocelyn.” A raiva de Walter estava superando as barreiras que ele erguera para contê-la. “Não podemos nos comportar como adultos? Reconhecer que estamos fundamentalmente do mesmo lado, apesar de não concordarmos quanto aos métodos?”

“Infelizmente, não”, disse ela. “Meu método é fechar a passagem na estrada.”

Sem se permitir dizer mais nada, Walter saiu andando encosta acima e deixou que Lalitha viesse correndo atrás dele. Um flagelo, a manhã estava sendo um flagelo. O encarregado de capacete, que lhe parecia tão jovem quanto Jessica, explicava às outras mulheres, com uma cortesia notável, por que elas precisavam tirar seus carros da frente. “Você tem um rádio?”, perguntou-lhe Walter em tom abrupto.

“Desculpe. E você, quem é?”

“Sou o diretor do Fundo da Montanha Azul. Eu tinha marcado um encontro no alto da estrada às seis da manhã.”

“Exatamente, senhor Berglund. Mas acho que vai ser difícil se essas senhoras não tirarem os carros delas do caminho.”

“Bem, então que tal usar o rádio e pedir que alguém desça para vir nos buscar?”

“Infelizmente, estão fora do alcance. Esses vales aqui em cima ficam todos numa zona morta.”

“Está bem.” Walter respirou fundo. Viu uma caminhonete estacionada do outro lado da cerca. “Então você talvez possa nos levar até lá na sua caminhonete.”

“Não estou autorizado a sair da área da cancela.”

“Então empreste o carro para nós.”

“Também não posso. O seguro não vai cobrir o senhor na área de trabalho. Mas se essas senhoras tirarem o carro da frente só por um instante, o senhor pode seguir no seu veículo.”

Walter virou-se para as mulheres, nenhuma das quais parecia menos que sexagenária, e dirigiu-lhes um vago sorriso de súplica. “Por favor?”, disse ele. “Não trabalhamos numa companhia carvoeira. Somos conservacionistas.”

“Conservacionistas o cacete!”, disse a mais velha delas.

“Não, é verdade”, disse Lalitha num tom tranquilizador. “Seria do interesse de todos se nos deixassem passar. Estamos aqui para monitorar o trabalho e verificar se está sendo feito de forma responsável. Estamos de fato do mesmo lado, e temos a mesma preocupação com o meio ambiente. Na verdade, se uma ou duas de vocês quiserem vir conosco —”

“Infelizmente, isso eu não posso autorizar”, disse o encarregado.

“Pois foda-se a sua autorização!”, disse Walter. “Precisamos passar! Eu sou o dono dessa porra toda! Entendeu agora? Isso tudo aqui é meu!”

“E então, está gostando?”, perguntou-lhe a mais velha das mulheres. “Nessas horas a sensação não é tão boa. De estar do outro lado da cerca.”

“O senhor pode passar se quiser, andando”, disse o encarregado, “mas adianto que fica bem longe. Com toda essa lama, calculo que deve levar umas duas horas.”

“Só me empreste a caminhonete, está bem? Eu indenizo você, ou você pode dizer que eu roubei o carro, ou o que você quiser. Só me empreste a porra da caminhonete.”

Walter sentiu a mão de Lalitha em seu braço. “Walter? Vamos nos sentar no carro um minutinho.” Ela se virou para as mulheres. “Estamos totalmente do mesmo lado, e agradecemos a vocês por terem vindo para manifestar sua preocupação por esta linda floresta, que estamos totalmente empenhados em preservar.”

“Interessantes, os métodos que vocês escolheram”, comentou a mais velha das mulheres.

Enquanto Lalitha conduzia Walter na direção do carro alugado, foram escutando o equipamento pesado que, com um ronco poderoso, vinha subindo a estrada atrás deles. O ronco transformou-se num rugido que depois se revelou um par de imensas retroescavadeiras da largura da estrada, com as lagartas cobertas de lama. O motorista da escavadeira da frente deixou o motor tossindo fuligem enquanto descia da cabine para trocar uma palavra com Walter.

“O senhor precisa chegar seu veículo mais para a frente, para podermos seguir adiante.”

“E por acaso você está vendo algum modo de eu sair daqui?”, respondeu ele, furioso. “Está vendo a porra de algum modo de eu sair da porra do lugar?”

“Não sei. Mas nós não podemos sair de ré. O último lugar onde dava para fazer a volta ficou mais de um quilômetro e meio para trás.”

Antes que Walter pudesse se enfurecer mais ainda, Lalitha o pegou pelos braços e cravou os olhos fervorosos no seu rosto. “Você precisa me deixar cuidar disso. Você está nervoso demais.”

“Tenho bons motivos para estar nervoso!”

“Walter. Vá sentar no carro. Agora.”

E ele obedeceu. Ficou lá sentado por mais de uma hora, mexendo em seu BlackBerry desconectado da rede e ouvindo os ruídos do desperdício insensato de combustível fóssil enquanto a retroescavadeira parada atrás dele continuava com o motor funcionando em ponto morto. Quando o motorista finalmente teve a ideia de desligá-lo, Walter ouviu um coro de motores vindo de mais além— a essa altura mais quatro ou cinco caminhões pesados e equipamentos de terraplanagem estavam enfileirados. Alguém precisava convocar a polícia estadual para lidar com Zorn e suas fanáticas. Enquanto isso, inacreditavelmente, num dos pontos mais isolados do condado de Wyoming, ele estava preso num engarrafamento de trânsito. Lalitha corria para cima e para baixo pela estrada, conversando com os vários grupos, fazendo o possível para manter um clima de boa vontade. Para passar o tempo, Walter compilava mentalmente a grandeza de todos os novos problemas acumulados no mundo desde que ele acordara de madrugada. Aumento líquido da população: 60 mil. Aumento da área de ocupação humana nos Estados Unidos: 400 hectares. Aves mortas por gatos domésticos e silvestres nos Estados Unidos: 500 mil. Barris de petróleo queimados no mundo: 12 milhões. Toneladas de dióxido de carbono despejadas na atmosfera: 11 milhões. Tubarões mortos só para remoção das barbatanas e largados no mar sem as ditas cujas: 150 mil... Os valores, quando ele tornou a fazer as contas algum tempo mais tarde, lhe trouxeram uma estranha satisfação ressentida. Há dias tão ruins na vida que só quando pioram, só quando degeneram numa verdadeira orgia de infelicidade, podemos achar que foram de algum modo resgatados.

Já eram quase nove da manhã quando Lalitha voltou para junto dele. Um dos motoristas, disse ela, tinha encontrado um ponto da estrada, duzentos metros abaixo, onde um carro de passeio podia encostar para deixar passar o equipamento mais pesado. O motorista do fim da fila ia descer de ré com o caminhão até o asfalto, e ligar para a polícia.

“Quer tentar subir a pé até Forster Hollow?”, perguntou Walter.

“Não”, respondeu Lalitha, “quero ir embora imediatamente. Jocelyn trouxe uma câmera. Não queremos ser fotografados perto da ação policial.”

Seguiu-se meia hora de troca de marchas, ranger de freios e emissões explosivas de fumaça de diesel, sucedida por mais quarenta e cinco minutos de estrada respirando as descargas malcheirosas do último caminhão da fila, enquanto desciam de ré centímetro a centímetro a entrada do vale. Quando finalmente chegaram à estrada, na liberdade da pista desimpedida, Lalitha dirigiu de volta até Beckley numa velocidade frenética, pisando no acelerador até o fundo em cada curto trecho reto, queimando borracha em cada curva.

Estavam nos miseráveis arredores da cidade quando o BlackBerry de Walter entoou um canto de mariquita-azul, chancelando a volta dos dois à civilização. A ligação era de um número das Cidades Gêmeas, talvez conhecido, talvez não.

“Papai?”

Walter franziu a testa, espantado. “Joey! Ora essa! Alô!”

“É, oi. Alô.”

“Tudo bem com você? Nem reconheci seu número, já faz tanto tempo.”

A linha pareceu emudecer, como se a ligação tivesse caído. Ou talvez ele tivesse dito a coisa errada. Mas aí Joey falou de novo, numa voz que parecia pertencer a outra pessoa. A um garoto trêmulo e hesitante. “É, pois então, papai, hum—você tem um tempinho?”

“Pode falar.”

“Pois, então, é, acho que é o seguinte, estou com uma espécie de problema.”

“O quê?”

“Eu disse que estou com um problema.”

Era o tipo de ligação que todo pai e toda mãe sempre tem medo de receber; mas Walter, por um instante, não se sentia pai de Joey. E disse, “Ora veja, eu também! E mais todo mundo!”.