Liberdade
Más notícias
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Por algum tempo, as únicas sombras que maculavam sua satisfação eram os sucessivos adiamentos da viagem de Jenna a Washington. Um tema recorrente de suas conversas era o arrependimento que ela sentia por ter aprontado pouco antes de se comprometer com Nick (“acho que ter galinhado por um ano em Duke não conta”, dizia ela). E Joey percebia naquele arrependimento a sugestão da oportunidade, e ficou confuso quando, apesar do tom de sedução cada vez mais cru dos telefonemas que ela lhe dava, Jenna desmarcou por duas vezes os planos de vir visitá-lo, e mais ainda quando ficou sabendo, por Jonathan, que ela tinha ido visitar os pais em McLean sem lhe contar nada.
E então, no feriado de Quatro de Julho, durante uma visita à família que só fez por delicadeza, ele revelou ao pai os detalhes de seu trabalho na ripi, na expectativa de deixá-lo impressionado com o tamanho do seu salário e a vastidão das suas responsabilidades; e o pai quase o deserdou ali mesmo. Até aquele momento, em toda a sua vida, a relação entre eles tinha sido essencialmente um enfrentamento imobilizado, um empate de vontades. Mas agora não bastava mais a seu pai mandá-lo passear com um sermão sobre sua frieza e arrogância. Agora ele dizia aos berros que Joey o deixava enojado, que sentia náuseas físicas ao pensar que tinha criado um filho tão egoísta e irrefletido, capaz de se aliar a monstros que vinham destruindo o país em favor de seu enriquecimento pessoal. Sua mãe, em vez de defendê-lo, saiu correndo dali: para cima, para o quartinho dela. Joey sabia que ela ligaria para ele no dia seguinte, tentando acertar a situação, com besteiras do tipo de que seu pai só tinha ficado bravo porque o amava. Mas ela era covarde demais para ficar ali, e não havia nada que ele pudesse fazer além de cruzar os braços com força, transformar o rosto numa máscara e sacudir a cabeça, repetindo para o pai, vezes sem conta, que não devia criticar coisas que não entendia direito.
“O que eu não estou entendendo direito?”, perguntou o pai. “A guerra só começou por causa da política e do lucro. E ponto final!”
“Só porque você não gosta das posições políticas das pessoas”, disse Joey, “não quer dizer que tudo que elas fazem está errado. Você parte do princípio de que tudo que elas fazem é ruim, e fica esperando que nada dê certo, porque detesta as posições políticas delas. Não quer nem saber das coisas boas que estão acontecendo.”
“Nada de bom está acontecendo.”
“Ah, claro. O mundo é todo definido em preto e branco. Nós somos todos maus, e vocês são todos bons.”
“E você acha que o modo certo de o mundo funcionar é os garotos do Oriente Médio da sua idade terem as cabeças e as pernas arrancadas a bomba para você poder ganhar um monte de dinheiro? É esse o mundo perfeito em que você vive?”
“Claro que não, pai. Quer parar um pouco de ficar falando essas besteiras? As pessoas lá estão morrendo porque a economia do país está fodida! Estamos tentando consertar a economia, entende?”
“Você não devia ganhar oito mil dólares por mês”, disse o pai dele. “Eu sei que você se acha esperto, mas só pode haver algum problema num mundo em que um garoto despreparado de dezenove anos consegue ganhar esse salário. A sua situação fede a corrupção de longe. Para mim você está cheirando muito mal.”
“Francamente, pai. Dane-se.”
“Nem quero mais saber o que você anda fazendo. Eu fico enojado. Pode contar para a sua mãe, mas faça o favor de me deixar de fora.”
Joey teve a bravura de sorrir para não chorar. Estava sentindo uma dor que lhe parecia estrutural, como se ele e o pai só tivessem escolhido suas posições políticas para poderem detestar um ao outro, e a única maneira de sair desse impasse fosse a ruptura. Não contar nada para seu pai, não tornar mais a vê-lo a menos que precisasse muito, não lhe parecia má ideia. Não ficou nem mesmo com raiva, só queria deixar aquela mágoa para trás. Voltou no automático para o seu apartamento conjugado, que a mãe o ajudara a alugar mobiliado, e mandou mensagens tanto para Connie quanto para Jenna. Connie devia ter ido cedo para a cama, mas Jenna ligou de volta à meia-noite. Não era propriamente a melhor ouvinte do mundo, mas ouviu o suficiente sobre o horrível feriado que ele passara em família para responder que o mundo não era justo e nunca iria ser, que sempre haveria gente que ganhava e gente que perdia, e que pessoalmente, na vida tragicamente finita que lhe fora dada, ela preferia ganhar e viver cercada de outros ganhadores. Quando ele perguntou a ela, então, por que não ligara para ele de McLean, ela disse que não achava “seguro” sair com ele para jantar.
“Por que não seria seguro?”
“Você virou um mau hábito meu”, disse ela. “Que eu preciso manter sob controle. Não posso tirar os olhos do meu objetivo.”
“Pois não me parece que você e o seu objetivo estejam se dando muito bem.”
“O objetivo está muito ocupado tentando tirar o emprego do chefe. É o que as pessoas fazem naquele mundo, tentam comer o fígado uns dos outros. O que, pasme, ninguém acha censurável. Mas também consome quase todo o tempo das pessoas. Qualquer mulher gosta de ser convidada para sair de vez em quando, especialmente nas primeiras férias depois de se formar.”
“E é por isso que você precisa vir me encontrar”, disse ele. “Eu sem dúvida vou convidar você para sair.”
“Sem dúvida. Mas meu chefe tem compromissos seguidos nos Hamptons pelas próximas três semanas, e não posso ser dispensada do meu papel de seguradora de prancheta. Pena que também precise trabalhar tanto, caso contrário eu tentava encaixar você em alguma coisa.”
Ele tinha perdido as contas dos encontros pela metade e das meias promessas que ela já lhe fizera desde que se conheciam. Nenhuma das coisas interessantes que ela sugeria jamais chegava a acontecer, e ele jamais conseguia saber por que ela insistia em sugeri-las. Às vezes ele achava que podia ser uma competição entre ela e o irmão. Ou talvez porque Joey fosse judeu e do gosto do pai dela, a única pessoa que ela nunca zoava. Ou talvez ela estivesse fascinada pela relação dele com Connie, regalando-se com as pepitas de intimidade que ele depunha a seus pés. Ou talvez ela estivesse autenticamente interessada em Joey e quisesse ver como ele iria ficar quando envelhecesse mais um pouco, e quanto dinheiro conseguiria ganhar. Ou talvez todas as respostas anteriores. Jonathan não tinha nenhuma outra explicação a propor, além de que sua irmã não prestava, era um monstro do Planeta Meninas Mimadas, com a consciência ética de uma esponja marinha, mas Joey tinha a impressão de vislumbrar coisas mais profundas na garota. Recusava-se a acreditar que alguém que dispusesse do poder de tamanha beleza pudesse carecer tanto assim de ideias interessantes quanto ao respectivo uso.
No dia seguinte, quando contou a Connie que brigara com o pai, ela não entrou no mérito dos argumentos de cada um, mas atacou diretamente a mágoa que ele estava sentindo, e disse que ficava com muita pena dele. Tinha voltado a trabalhar de garçonete e parecia disposta a esperar o verão inteiro para tornar a vê-lo. Kenny Bartles lhe prometera as duas últimas semanas de agosto de férias pagas se ele concordasse em trabalhar todos os fins de semana até lá, e ele não queria Connie por perto para complicar as coisas se Jenna viesse encontrá-lo em Washington; não via como poderia escapar por uma, duas ou três noites sem contar a Connie o tipo de mentira flagrante que tentava manter num nível mínimo.
Ele atribuiu aos efeitos do Celexa a equanimidade com que ela aceitou o adiamento. Mas uma noite, durante um telefonema de rotina, enquanto ele tomava uma cerveja em seu apartamento, ela recaiu num silêncio especialmente prolongado que só terminou quando ela disse, “Cara, eu preciso lhe contar umas coisas”. A primeira coisa é que ela tinha parado de tomar a medicação. A segunda é que o motivo de ter parado é que havia começado a dormir com o gerente do restaurante onde trabalhava, e já estava cansada de não gozar nunca. Fez sua confissão com um curioso distanciamento, como se falasse de alguma garota que não fosse como ela, uma garota cujo comportamento fosse deplorável mas compreensível. O gerente, contou ela, era casado, tinha dois filhos adolescentes e morava na avenida Hamlin. “Achei melhor contar para você”, disse ela. “Posso parar, se você quiser que eu pare.”
Joey tremia. Quase convulsivamente. Uma corrente de ar gelado entrava por uma porta mental que ele supunha fechada e trancada à chave, mas na verdade ficara escancarada; uma porta pela qual ele poderia fugir. “E você, quer parar?”
“Não sei”, respondeu ela. “Eu até que gosto um pouco, por causa do sexo, mas não sinto nada por ele. Só sinto coisas por você.”
“Bem. Meu Deus, preciso pensar um pouco.”
“Eu sei que é um horror, Joey. Eu devia ter contado assim que aconteceu. Mas por algum tempo foi tão bom que outra pessoa se interessasse. Você sabe quantas vezes nós transamos desde outubro?”
“É, eu sei. Estou ciente.”
“Ou duas vezes ou nenhuma vez, se você contar o tempo em que eu estava doente. Alguma coisa aí não está certa.”
“Eu sei.”
“Nós nos amamos mas nunca nos encontramos. Você não sente falta?”
“Sinto.”
“E está transando com outras pessoas? É assim que você consegue aguentar?”
“É, eu transei. Poucas vezes. Mas nunca mais de uma vez com ninguém.”
“Bem que eu desconfiava, mas não queria perguntar. Não queria que você achasse que eu não permitia. E não foi por isso que eu acabei transando com outro. Transei porque estou me sentindo só. Estou me sentindo tão só, Joey. Me dá vontade de morrer. E me sinto só porque amo você e você está longe. Transei com outro homem porque amo você. Sei que pode parecer uma loucura, ou desonestidade, mas é verdade.”
“Eu acredito em você”, disse ele. E acreditava mesmo. Mas a dor que sentia dava a impressão de não ter nada a ver com acreditar ou não, com o que ela contou ou pudesse não ter contado. O simples fato de sua linda Connie ter se deitado com algum porco de meia-idade, ou de ter tirado suas calças jeans e sua calcinha mínima e ter aberto as pernas, várias vezes, se concretizara em palavras só o tempo suficiente para ela dizê-las e Joey escutá-las antes de retornar à mudez e alojar aquilo dentro de si, fora do alcance das palavras, como uma bola de giletes. Entendia, com toda a lucidez, que ela podia gostar menos daquele porco gerente do que ele próprio das meninas, todas bêbadas ou profundamente bêbadas, em cujas camas excessivamente perfumadas ele fora parar no ano anterior, mas a essa altura a lucidez não conseguia mais alcançar a dor que havia dentro dele, assim como não adiantava pensar Pare! para interromper o movimento de um ônibus sem freio vindo em nossa direção. A dor era fora do comum. Mas ainda assim era estranhamente bem-vinda e restauradora, servindo de aviso de que estava vivo e participando de uma história que ia bem além de si mesmo.
“Me diga alguma coisa, cara”, disse Connie.
“Quando foi que começou?”
“Não sei. Há três meses.”
“Bem, talvez seja melhor você continuar com ele, e só ele”, disse Joey. “Talvez seja melhor você ter logo um filho com ele; quem sabe ele instala você numa casa só sua.”
Era feio referir-se a Carol assim, mas em resposta Connie se limitou a perguntar-lhe, com uma sinceridade límpida. “É o que você quer que eu faça?”
“Não sei mais o que eu quero.”
“E não é nem de longe o que eu quero. O que eu quero é estar com você.”
“Pode ser. Mas depois de passar três meses trepando com outro cara.”
O que devia tê-la feito começar a chorar e pedir perdão, ou pelo menos agredi-lo de volta, mas ela não era uma pessoa comum. “É verdade”, disse ela. “Você tem razão. É perfeitamente justo. Eu devia ter contado da primeira vez que aconteceu, e nunca mais ter repetido. Mas ir pela segunda vez não parecia tão pior do que ter ido da primeira. E depois a terceira, e a quarta. E aí eu resolvi parar com o meu remédio, porque me parecia uma idiotice transar sem sentir praticamente nada. E aí precisei começar a conta do zero.”
“E agora você está sentindo tudo, e adorando.”
“Sem dúvida melhorou muito. Você é a pessoa que eu amo, mas pelo menos as minhas terminações nervosas voltaram a funcionar.”
“E por que você resolveu me contar logo agora? Por que não deixou completar quatro meses? Quatro meses não são piores do que três, não é?”
“O que eu estava planejando eram exatamente quatro meses”, disse ela. “Achei que devia deixar para contar quando fosse até aí no mês que vem, e a gente podia fazer planos de se ver mais, para voltarmos logo à monogamia. Ainda é o que eu quero. Mas ontem à noite voltei a ter maus pensamentos, e achei que era melhor contar logo a você.”
“Você está deprimida? A sua médica sabe que você parou de tomar o remédio?”
“Ela sabe, mas Carol não. Carol acha que o remédio vai resolver todos os problemas entre nós. E acha que vai resolver o problema dela para sempre. Eu pego um comprimido no frasco toda noite e enfio na minha gaveta de meias. Acho que ela pode estar contando quando eu vou trabalhar.”
“Acho que você devia continuar tomando”, disse Joey.
“Eu volto, se não puder mais estar com você. Mas se eu for te ver, quero sentir tudo. E acho que não vou precisar do remédio se continuar me encontrando com você. Sei que pode parecer uma ameaça ou coisa parecida, mas é apenas a verdade. Não estou querendo forçar você a decidir a voltar a me ver ou não. Eu sei que fiz uma coisa muito errada.”
“E está arrependida?”
“Eu sei que devia dizer que sim, mas na verdade eu não sei. Você está arrependido de ter dormido com outras pessoas?”
“Não. Sobretudo agora.”
“É o que estou sentindo, cara. Exatamente a mesma coisa que você. Espero que você se lembre disso, e me deixe voltar a ficar com você.”
A confissão de Connie foi a última, e melhor, chance que Joey teve de sair da situação com a consciência limpa. Teria sido fácil dispensá-la por justa causa, se ele sentisse raiva suficiente para tanto. Depois que desligou o telefone, recorreu à garrafa de Jack Daniels de que normalmente tinha a disciplina de manter-se afastado, e em seguida saiu caminhando pelas ruas úmidas e desertas de seu não bairro, deleitando-se com o calor estúpido do verão e o rugido coletivo dos aparelhos de ar condicionado que só faziam aumentá-lo. Num dos bolsos de suas calças estava um punhado de moedas que ele tirou e começou a atirar, algumas de cada vez, na rua. Jogou todas fora, os tostões de sua inocência, as moedas mais valiosas de sua autossuficiência. Precisava livrar-se, ficar livre. Não tinha com quem falar da sua dor, seus pais nem pensar, mas tampouco Jonathan, por medo de estragar a boa imagem de Connie que o amigo cultivava, e certamente não Jenna, que não entendia o que era o amor, nem seus colegas—todos eles, sem exceção, viam uma namorada como um empecilho insensato no caminho dos prazeres a que pretendiam dedicar os dez anos seguintes. Estava totalmente só, e não entendia como aquilo lhe acontecera. De que modo uma dor chamada Connie se instalara no centro da sua vida. Era levado à loucura por sentir com tantos pormenores o que ela sentia, por entendê-la tão bem, por não ser capaz de imaginar a vida dela sem ele. Toda vez que tinha uma oportunidade de livrar-se dela, a lógica do interesse próprio o deixava na mão: era suplantada, como uma roda de engrenagem de que sua mente insistia em se desencaixar, pela lógica deles dois como casal.
Uma semana inteira se passou sem que ela tornasse a ligar, e depois mais outra. Pela primeira vez, o fato de que ela era mais velha atingiu sua sensibilidade. Ela já chegara aos vinte e um anos e se tornara legalmente adulta, uma mulher interessante e atraente para homens casados. Nas garras do ciúme, ele se via de uma hora para outra como o mais afortunado dos dois, o carinha em quem ela concentrara o seu ardor. Ela assumiu proporções fantasticamente irresistíveis em sua imaginação. Às vezes, tinha a impressão vaga de que a ligação entre eles dois era extraordinária, mágica, parecendo um conto de fadas, mas que só agora ele entendia o quanto precisava dela. Nos primeiros dias desse silêncio, Joey conseguiu acreditar que a estava castigando ao deixar de ligar para ela, mas logo percebeu que era ele o castigado, a pessoa esperando para ver se ela, em seu oceano de sentimento, conseguiria encontrar uma gota de misericórdia e romper o silêncio por ele.
Enquanto isso, sua mãe lhe informou que não lhe mandaria mais cheques mensais de quinhentos dólares. “Seu pai, infelizmente, não deixa mais”, disse ela com uma ligeireza que o deixou amuado. “Espero que pelo menos tenha sido útil enquanto durou.” Joey sentiu certo alívio por não ter mais que permitir que sua mãe o sustentasse e não ter mais a obrigação de corresponder ligando regularmente para ela; também era um alívio parar de mentir para o estado da Virgínia sobre o quanto ainda dependia do sustento dos pais. Mas ele acabara contando com aquelas contribuições mensais para fechar suas contas, e agora se arrependia de ter tomado tantos táxis e pedido que lhe entregassem tantas refeições ao longo daquelas férias. Não tinha como deixar de odiar o pai e sentir-se traído pela mãe, que, na hora do aperto, apesar de tantas queixas sobre o casamento que desfiava nos ouvidos de Joey, parecia sempre se curvar à vontade do seu pai.
E foi então que sua tia Abigail ligou para lhe oferecer seu apartamento no final de agosto. Nos últimos dezoito meses, ele fora incluído na lista de destinatários dos e-mails que Abigail enviava para anunciar as performances que fazia em pequenas salas de espetáculo de nome bizarro em Nova York, e com intervalos de poucos meses sempre ligava para ele a fim de declamar-lhe um de seus solilóquios de autojustificativa. Quando ele apertava o botão Ignorar do seu telefone, ela não deixava recado, mas simplesmente continuava a ligar até que ele apertasse Atender. Ele tinha a impressão de que os dias dela consistiam basicamente em percorrer todos os números de telefone que conhecia até alguém atender, e ele detestava ficar cogitando sobre quem mais poderia estar nessa agenda, tendo em vista a fragilidade de sua própria relação com a tia. “Estou me dando umas feriazinhas de presente na praia”, disse-lhe ela dessa vez. “E o pobre Tigger morreu de câncer felino, não antes de alguns tratamentos caríssssssimos para câncer de gatos, e Piglet está completamente sozinho.” Embora Joey estivesse se sentindo um tanto mal por causa de seu flerte com Jenna, parte de um novo desconforto de ordem geral em torno da infidelidade, aceitou a oferta de Abigail. Se Connie nunca mais aparecesse, pensou ele, podia consolar-se materializando-se na vizinhança de Jenna e convidando-a para jantar.
E então Kenny Bartles ligou com a notícia de que estava passando adiante a ripi e seus contratos para um amigo dele na Flórida. Na verdade, já tinha vendido. “Mike vai ligar para você amanhã de manhã”, disse Kenny. “Eu disse a ele que você precisava continuar contratado até 15 de agosto. Não queria ter de me preocupar com sua substituição depois disso, de qualquer jeito. Agora arranjei negócios bem maiores e melhores.”
“É mesmo?”, perguntou Joey.
“É. A lbi está disposta a me subcontratar para lhes conseguir uma frota de caminhões pesados. Não é trabalho para gente fresca, e vai dar muito mais dinheiro que a história do pão. É fácil, só entrar e sair—e nem precisa dessa cascata de relatórios trimestrais. Eu compareço com os caminhões, eles preenchem o cheque, e ponto final.”
“Parabéns.”
“É, mas tem uma coisa”, disse Kenny. “Ainda posso precisar de você aí em Washington. Estou procurando um sócio para dividir o investimento comigo e cobrir parte do que me falta para começar o negócio. Se você estiver disposto a trabalhar, pode tirar um bom salário mensal, também.”
“Me parece boa ideia”, disse Joey. “Mas preciso voltar para a universidade, e não tenho dinheiro para investir.”
“Está bem. Certo. A vida é sua. Mas que tal uma participação nos lucros? Até onde entendi o edital, o caminhão polonês Pladsky A 10 serve perfeitamente. Não são mais fabricados, mas existem verdadeiras frotas deles paradas em bases militares da Hungria e da Bulgária. E em algum lugar da América do Sul também, o que não me ajuda muito. Mas vou contratar motoristas na Europa Oriental, formar um comboio de caminhões que vai atravessar a Turquia, e entregar o lote em Kirkuk. Isso vai me deixar ocupado por não sei quanto tempo, e também preciso subcontratar uma compra de novecentos mil dólares em peças de reposição. Você acha que pode cuidar dessa parte das peças, como um subcontratado do subcontratado?”
“Não entendo nada de peças de caminhão.”
“Nem eu. Mas a Pladsky produziu uns vinte mil A 10, nos bons tempos. Devem existir toneladas de peças soltas por lá. Você só precisa descobrir onde estão, encaixotar todas, e embarcar num navio. Entra com trezentos mil dólares, e recebe novecentos seis meses mais tarde. É um retorno mais que razoável, dadas as circunstâncias. Minha impressão é de que a margem de lucro é até pequena em relação à dificuldade para encontrar o material. E ninguém vai fazer muitas perguntas. Você acha que consegue pôr as mãos em trezentos mil dólares?”
“Mal consigo pôr as mãos em dinheiro para pagar meu almoço”, disse Joey. “Tendo de pagar meus estudos e tudo o mais.”
“Bom, mas na verdade você só precisa conseguir cinquenta mil. Com isso, e mais um contrato assinado na mão, qualquer banco do país adianta o resto. Você pode cuidar de quase tudo pela internet sem sair do dormitório da universidade, ou da sua casa. Bem melhor que trabalhar lavando pratos, não é?”
Joey pediu algum tempo para pensar. Mesmo com a comida de restaurante e todos os táxis que se permitira, ele tinha dez mil dólares separados para o ano letivo seguinte, além de outros oito mil potenciais em seu cartão de crédito, e uma busca rápida na internet revelou vários bancos dispostos a fazer empréstimos a juros altos contra garantias pequenas, bem como várias páginas encontradas pelo Google a partir de “peças pladsky a 10”. Ele sabia que Kenny jamais lhe teria oferecido o contrato das peças se localizá-las fosse tão fácil quanto tinha dado a entender, mas Kenny cumprira tudo que prometera em relação à ripi, e Joey não conseguia parar de pensar no quanto seria excelente ganhar meio milhão de dólares antes de completar vinte e um anos, dali a um ano. Num impulso, porque ficou animado e, para variar, despreocupado com sua relação, rompeu seu silêncio telefônico com Connie para solicitar a opinião dela. Muito mais tarde, ele haveria de se censurar por já ter em mente a poupança que ela possuía, além do fato de estar agora legalmente habilitada a dispor dos recursos, mas no momento em que fez a ligação sentia-se inocente de todo e qualquer interesse pessoal.
“Ah, meu Deus, cara”, disse ela. “Eu estava começando a achar que você nunca mais falaria comigo.”
“Essas semanas foram muito complicadas.”
“Meu Deus, eu sei, eu sei. Estava começando a achar que eu não devia ter contado nada a você. Você vai conseguir me perdoar?”
“É provável.”
“Ah! Ah! É melhor do que provavelmente não.”
“É muito provável”, disse ele. “Se você ainda quiser vir me ver.”
“Você sabe que sim. Mais que qualquer coisa no mundo.”
Ela não dava nem um pouco a impressão da mulher mais velha e independente que ele vinha imaginando, e um estremecimento em seu estômago o avisou de que ele precisava reduzir a velocidade e que sem dúvida queria voltar com ela. Mas aconselhava também a não confundir o medo de perdê-la com um desejo ativo de estar com ela. Mas ele estava louco para mudar de assunto, para não atolar num terreno emocional abstrato, e ouvir a opinião dela sobre a proposta de Kenny.
“Meu Deus, Joey”, disse ela depois que ele explicou tudo, “você tem de aceitar. Eu ajudo você.”
“Como?”
“Eu lhe dou o dinheiro”, disse ela, como se fosse uma bobagem da parte dele até mesmo perguntar. “Ainda tenho mais de cinquenta mil dólares na minha poupança.”
A mera menção da cifra o deixou sexualmente excitado, e o remeteu aos primeiros dias dos dois juntos na Barrier Street, no primeiro outono de seu curso colegial. O disco Achtung baby, do U2, adorado pelos dois mas especialmente por Connie, foi a trilha sonora de seu defloramento recíproco. A faixa de abertura, em que Bono admitia estar pronto para qualquer coisa, pronto para o avanço (“ready for the push”), era a canção do amor de um pelo outro e de ambos pelo capitalismo. A canção deixara Joey se sentindo pronto para o sexo, pronto para largar a infância, pronto para ganhar dinheiro de verdade vendendo relógios na escola católica de Connie. Ele e ela já começaram como sócios no sentido mais pleno, ele o empreendedor e fabricante, ela sua leal contrabandista e vendedora com um dom surpreendente. Até seu negócio ser fechado pelas freiras ressentidas, ela exibira um talento notável para a venda indireta, uma frieza aparente que deixava as colegas loucas pelo produto que ela e Joey ofereciam. Todo mundo na Barrier Street, inclusive a mãe de Joey, sempre confundira os modos quietos de Connie com uma certa burrice, ou lentidão. Só Joey, com seu acesso privilegiado, tinha visto todo o potencial que ela possuía, e hoje achava que era esta a história da vida do casal: ele ajudando e estimulando Connie a contrariar as expectativas gerais, especialmente da mãe dele, que subestimava o valor de seus recursos ocultos. Era central para sua fé em seu futuro nos negócios aquela capacidade de perceber valor, identificar oportunidades, onde outros não viam nada, e central também para o seu amor por Connie. Ela funcionava de um modo misterioso. Os dois tinham começado a trepar em meio às pilhas de notas de vinte dólares que ela trouxera da escola.
“Mas você precisa da sua poupança para voltar para a universidade”, disse ele ainda assim.
“Posso voltar mais adiante”, respondeu ela. “Você precisa dele agora, e eu posso lhe dar. Mais tarde você me devolve.”
“Mais tarde eu devolvo em dobro. Você vai ter dinheiro de sobra para cobrir os quatro anos de estudo.”
“Se você preferir”, disse ela. “Mas não precisa.”
Marcaram um encontro para comemorar juntos o vigésimo aniversário dele em Nova York, local onde tiveram a semana mais feliz depois que ele deixou St. Paul. Na manhã seguinte, Joey ligou para Kenny e se declarou pronto para o negócio. A nova rodada de contratos no Iraque só seria assinada em novembro, disse Kenny, e assim Joey podia continuar estudando e só se certificar de que tinha o financiamento à mão para quando fosse preciso.
Sentindo-se rico por antecipação, ele pagou sem piscar a passagem do trem expresso Acela para Nova York e comprou uma garrafa de champanhe de cem dólares a caminho da casa de Abigail. O apartamento dela estava mais abarrotado do que nunca, e Joey ficou feliz de fechar a porta atrás de si e tomar um táxi até o aeroporto de La Guardia para buscar Connie no avião que ele fizera questão que ela pegasse em vez de vir de ônibus. Toda a cidade, seus pedestres seminus ao calor de agosto, seus tijolos e suas pontes desbotados no nevoeiro, lhe parecia um afrodisíaco. Indo receber sua namorada, que vinha dormindo com outra pessoa mas voltara voando para a sua vida, ímã atraído por outro ímã, ele se sentia o rei da cidade. Quando a viu caminhando pelo corredor do aeroporto, evitando com agilidade os encontrões com outros passageiros, como se absorta demais para vê-los antes do último instante, sentiu-se muito rico, dono de mais do que apenas dinheiro. Repleto de importância, de vida para queimar, de riscos loucos a correr, da história deles dois. Ela o viu e começou a assentir com a cabeça, concordando com alguma coisa que ele nem dissera ainda, o rosto tomado pela alegria e pela admiração. “É! É! É!”, disse ela espontaneamente, soltando a alça de sua maleta e colidindo com ele. “É!”
“É?”, respondeu ele, rindo.
“É!”
Sem nem mesmo trocarem um beijo, passaram correndo pelo andar onde a bagagem era entregue e correram para o ponto dos táxis, onde, por algum milagre, não havia fila. No banco de trás do seu táxi, ela tirou o casaco leve e suado, sentou no colo dele e começou a soluçar de um modo que lembrava um orgasmo ou um ataque. Seu corpo parecia totalmente, totalmente novo nos braços de Joey. Parte da mudança era real—estava um pouco menos eriçada, um pouco mais mulher—, mas a maior parte estava apenas na cabeça dele. Sentia-se inexprimivelmente grato pela infidelidade de Connie. Seu sentimento era tão vasto que achou que só um pedido de casamento teria como comportá-lo. E poderia ter feito o pedido ali mesmo, e naquela hora, se não tivesse percebido as estranhas marcas na parte interna do antebraço esquerdo dela. Corria pela pele fina uma série de cortes retos paralelos, cada um de uns cinco centímetros de comprimento, os mais próximos do cotovelo apagados e totalmente cicatrizados, os outros, quanto mais próximos do pulso, mais frescos e avermelhados.
“Pois é”, disse ela, com o rosto molhado, olhando para as cicatrizes com ar admirado. “Eu que fiz. Mas já está tudo bem.”
Ele perguntou o que tinha acontecido, embora soubesse a resposta. Ela beijou sua testa, beijou seu rosto, beijou seus lábios e fitou longamente seus olhos. “Não fique assustado, cara. Foi só uma coisa que eu precisei fazer como penitência.”
“Meu Deus.”
“Joey, preste atenção. Escute. Eu tomava todo o cuidado, limpava a lâmina com álcool. Só precisava fazer um corte a cada noite que não tinha notícias suas. Fiz três na terceira noite e depois mais um em cada noite seguinte. Parei assim que você apareceu.”
“E se eu não tivesse ligado? O que você iria fazer? Cortar os pulsos?”
“Não. O suicídio nem me passava pela cabeça. Isso é o que eu fiz em vez de pensar nessas coisas. Só precisava sentir um pouco de dor. Você não consegue entender?”
“Tem certeza de que nunca pensou em suicídio?”
“Eu nunca faria uma coisa dessas com você. Nunca.”
Ele percorreu as cicatrizes com as pontas dos dedos. Em seguida, ergueu seu pulso sem marcas e o pressionou contra os olhos. Ele achava bom ela ter se cortado por ele; não tinha como evitar o sentimento. A maneira como ela funcionava era misteriosa mas fazia sentido para ele. De algum modo, na sua cabeça, Bono estava cantando que tudo ia bem: all right, all right.
“E você sabe o que é incrível?”, perguntou Connie. “Parei em quinze, exatamente o número de vezes que traí você. Você ligou para mim exatamente na noite certa. Foi uma espécie de sinal. E tome aqui.” Do bolso traseiro das calças jeans, tirou um cheque administrativo dobrado. Tinha adquirido a curva da sua bunda, e estava impregnado com o suor da sua bunda. “Eu tinha cinquenta e um mil dólares na minha conta. Quase exatamente o que você me disse que precisava. Mais um sinal, não acha?”
Ele desdobrou o cheque, preenchido em nome de joseph r. berglund na quantia de cinquenta mil dólares. Ele não costumava ser supersticioso, mas não tinha como deixar de admitir que os sinais eram impressionantes. Eram do mesmo tipo dos sinais que diziam às pessoas desequilibradas, “Você precisa matar o presidente agora”, ou às pessoas deprimidas, “Se atire de uma janela agora”. Aqui, o imperativo urgente e irracional era, aparentemente, “Unam as suas vidas em matrimônio agora”.
Na altura da Grand Central Station, o trânsito para fora da cidade estava engarrafado, mas andava bem no outro sentido, e o táxi avançava sem problemas: mais um sinal. O fato de não terem precisado entrar na fila para pegar um táxi fora um sinal. O fato de amanhã ser aniversário dele era mais um sinal. Não se lembrava do estado em que se encontrava nem uma hora antes, quando seguia para o aeroporto. Tudo que existia era o momento presente com Connie, o que antes, quando tinham caído numa fissura e mergulhado num mundo em que eram duas pessoas distintas, só acontecia à noite, num quarto ou em outro espaço confinado. Agora, acontecia à luz do dia, em meio ao nevoeiro da cidade. Ele a tomou nos braços, com o cheque administrativo repousando no esterno suado de Connie, entre as alças úmidas de sua camiseta sem mangas. Uma das mãos dela pressionava um dos peitos dele, como se ele pudesse dar leite. O cheiro adulto das axilas dela o deixou intoxicado, desejou que fosse muito mais forte, sentiu que não havia limite para o quanto ele desejava que os sovacos dela emitissem um forte odor.
“Obrigado por ter dado para outro sujeito”, murmurou ele.
“Não foi nada fácil.”
“Eu sei.”
“Quer dizer, foi bem fácil num certo sentido. Mas quase impossível num outro. Você sabe, não sabe?”
“Sei, sem a menor dúvida.”
“E foi difícil para você também? O que você fez, seja o que for, no ano passado?”
“Na verdade não.”
“Porque você é homem. Eu sei exatamente como você se sente, Joey. Você acredita nisso?”
“Acredito.”
“Então vai dar tudo certo.”
E, pelos dez dias seguintes, tudo deu certo. Mais tarde, claro, Joey perceberia que os primeiros dias encharcados de hormônios depois de um longo período de abstinência foram um momento nada ideal para tomar decisões importantes quanto ao futuro. Perceberia que, em vez de tentar responder ao peso insuportável da doação de cinquenta mil dólares de Connie com algo tão pesado quanto uma proposta de casamento, ele devia ter assinado uma nota promissória com previsão detalhada de pagamento tanto do principal quanto dos juros. Perceberia que, se tivesse passado pelo menos uma hora longe dela, caminhando sozinho ou conversando com Jonathan, podia ter adquirido alguma proveitosa lucidez ou distância. Perceberia que decisões pós-coitais eram muito mais realistas que as pré-coitais. Àquela altura, entretanto, ainda estavam no pós-nada, tudo era pré, pré e pré. A avidez com que se desejavam só fazia aumentar, num ciclo ininterrupto que atravessava as noites e os dias, como o compressor do produtivo aparelho de ar condicionado instalado na janela do quarto de Abigail. As novas dimensões do prazer de ambos, a sensação de seriedade adulta que lhes conferia sua sociedade comercial e a doença e a infidelidade de Connie, tornavam todos os prazeres anteriores irrelevantes e pueris em comparação. O prazer deles era tão intenso, e seu apetite por ele tão infinito, que quando parou por apenas uma hora, na terceira manhã que passaram juntos na cidade, Joey saiu automaticamente à procura do que pudesse trazê-lo de volta. E disse, “Nós dois precisamos nos casar”.
“Eu estava pensando a mesma coisa”, disse Connie. “Quer se casar agora?”
“Assim, hoje?”
“É.”
“Acho que você precisa esperar um tempo. Fazer um exame de sangue?”
“Bom, então vamos fazer o exame. Você quer?”
O coração dele pulsava em sua virilha. “Quero!”
Mas primeiro precisavam trepar para gastar a excitação de ir fazer o exame de sangue. Depois trepar porque ficaram excitadíssimos ao descobrir que não precisavam de exame nenhum. Depois saíram andando pela Sexta Avenida como um casal de bêbados que não se incomodava com o que alguém pudesse pensar sobre eles, como assassinos com as mãos banhadas em sangue, Connie sem sutiã, extravagante e atraindo os olhares masculinos, Joey num tal estado de irreflexão movida a testosterona que, se alguém o tivesse desafiado, ele teria respondido com um murro pela pura felicidade da luta. Estava dando o passo que precisava ser dado, o passo que vinha querendo dar desde a primeira vez que seus pais lhe tinham dito que não. A caminhada de cinquenta quarteirões rumo ao norte da cidade com Connie, num calor de forno, ao som das buzinas dos táxis, pelas calçadas imundas, lhe pareceu durar tanto quanto até então tinha durado toda a sua vida.
Entraram na primeira joalheria deserta com que depararam na rua 47, e pediram um par de alianças de ouro que pudessem usar imediatamente. O joalheiro vestia um traje hassídico da cabeça aos pés—quipá, cachinhos nas têmporas, filactérios, casaca preta, tudo de acordo com as regras. Olhou primeiro para Joey, cuja camiseta branca estava manchada com pingos de mostarda de um cachorro-quente que tinha devorado pelo caminho, e depois para Connie, cujo rosto ardia de calor e abrasão contra o rosto de Joey. “Vocês dois vão se casar?”
Ambos assentiram com a cabeça, nenhum dos dois ousando dizer sim em voz alta.
“Mazel tov”, disse o joalheiro, abrindo gavetas. “Tenho aqui alianças de todos os tamanhos.”
A Joey, através de um fino rasgo em sua bolha de loucura ademais bastante resistente, ocorreu algum remorso em relação a Jenna. Não como uma pessoa que ele desejava (o desejo retornaria mais tarde, quando voltasse a ficar sozinho, devolvido à sanidade mental), mas por ser a esposa judia com quem agora ele nunca mais haveria de casar: como a pessoa para quem podia fazer alguma diferença o fato de ele ser judeu. Havia muito que ele tinha desistido de se importar, ele próprio, com sua condição judaica, mas ainda assim, ao ver o joalheiro envergando todos aqueles surrados ornamentos hassídicos, seu uniforme de minoria religiosa, teve a sensação peculiar de que era uma traição àquele povo casar-se com uma não judia. Por mais moralmente dúbia que Jenna fosse em quase todos os aspectos, ainda assim era judia, com irmãos e irmãs de seus bisavós mortos nos campos de concentração, e aquilo a humanizava, atenuava sua beleza desumana, e lhe causava pena por deixá-la para trás. E o interessante é que tinha esse sentimento em relação a Jenna mas não a Jonathan, que já era plenamente humano para Joey e não precisava da condição judaica para humanizar-se mais.
“O que você acha?”, perguntou Connie, olhando para as alianças dispostas sobre o veludo escuro.
“Não sei”, disse ele de dentro de sua nuvenzinha de remorso. “Estou achando todas lindas.”
“Pegue as alianças, sinta o peso, a textura”, disse o joalheiro. “Ouro não estraga.”
Connie virou-se para Joey e procurou seus olhos. “Tem certeza de que quer isso mesmo?”
“Acho que sim. E você?”
“Tenho. Se você quiser.”
O joalheiro se afastou do balcão e encontrou alguma coisa com que se ocupar. E Joey, ao se ver através dos olhos de Connie, não aguentou a incerteza presente na expressão do seu próprio rosto, que o enfurecia imensamente em nome dela. Todo mundo sempre duvidava dela, e ela precisava que ele não hesitasse: ele decidiu que não teria a menor dúvida.
“Claro”, disse ele. “Vamos olhar as alianças.”
Quando escolheram as alianças, Joey tentou barganhar o preço, o que sabia ser a praxe numa loja como aquela, mas o joalheiro se limitou a lançar-lhe um olhar decepcionado, como se dissesse: Você vai se casar com essa garota e vem criar caso comigo por causa de cinquenta dólares?
Deixando a loja, com as alianças no bolso da frente, ele quase colidiu na calçada com um de seus antigos companheiros de ala de dormitório, Casey.
“Rapaz!”, disse Casey. “O que você está fazendo aqui?”
Usava um terno com colete e já começava a perder o cabelo. Ele e Joey tinham se afastado, mas Joey ouvira dizer que ele ia passar as férias trabalhando no escritório de advocacia do pai. Esbarrar com ele naquele momento pareceu a Joey mais um sinal importante, embora não soubesse dizer exatamente do quê. E ele perguntou: “Você se lembra de Connie, não é?”.
“Oi, Casey”, disse ela com os olhos amigáveis e cintilantes.
“Claro que sim, oi”, disse Casey. “Mas, rapaz, que porra é essa? Achei que você estava em Washington.”
“Estou de folga.”
“Pois devia ter ligado para mim, eu não tinha ideia. Mas o que vocês dois estão fazendo nesta rua, aliás? Comprando as alianças de noivado?”
“É, rá rá, isso mesmo”, disse Joey. “E você?”
Casey pescou um relógio na ponta de uma corrente do bolso do colete. “É ou não é o máximo? Era do pai do meu pai. Mandei limpar e consertar.”
“É lindo”, disse Connie. Inclinou-se para admirá-lo, ao que Casey franziu as sobrancelhas para Joey, com uma expressão cômica de alarme. Dentre as várias reações de homem para homem que tinha à disposição, Joey optou por um ar sarcástico de submissão, sugerindo uma abundância de sexo excelente, as exigências irracionais das namoradas, a respectiva cobiça por bugigangas reluzentes e assim por diante. Casey lançou um breve olhar de entendido aos ombros nus de Connie e assentiu com ar ponderado. Toda essa troca levou quatro segundos, e Joey ficou aliviado ao constatar como era fácil, mesmo naquele momento, ser visto por Casey como uma pessoa igual a ele, Casey: compartimentalizar. Era um bom modo de levar adiante sua vida habitual de estudante.
“Rapaz, você não está morrendo de calor com esse terno?”, perguntou ele.
“Meu sangue é do Sul”, disse Casey. “Eu não suo como vocês que vêm de Minnesota.”
“Suar é muito bom”, respondeu Connie. “Eu adoro suar no verão.”
Palavras que deixaram Casey um pouco chocado: era uma declaração intensa demais. Guardou o relógio no bolso e olhou rua abaixo. “De qualquer maneira”, disse ele, “se vocês quiserem sair ou fazer alguma coisa, não deixem de me ligar.”
Quando ficaram novamente a sós, em meio ao intenso fluxo de empregados que deixavam o trabalho, às cinco horas, pela Sexta Avenida, Connie perguntou a Joey se tinha dito alguma coisa errada. “Você ficou envergonhado?”
“Não”, respondeu ele. “Esse cara é uma besta completa. Trinta e cinco graus à sombra e ele sai de terno e colete? É uma besta, um sujeito metido, com aquele relógio antigo. Já está virando o pai dele.”
“Eu abro a boca e saem coisas estranhas.”
“Não fique preocupada com isso.”
“Você fica com vergonha de estar se casando comigo?”
“Não.”
“Pois me pareceu que sim. Não estou dizendo que seja culpa sua. Só não quero deixar você encabulado perto dos seus amigos.”
“Você não me deixa com vergonha”, respondeu ele, irritado. “É só que a maioria dos meus colegas nem têm namorada. Eu fico numa posição muito diferente.”
Seria razoável esperar uma briga a essa altura, esperar que ela tentasse extrair dele, ou por retraimento ou através de queixas, uma declaração mais categórica sobre seu desejo de casar-se com ela. Mas era quase impossível brigar com Connie. Insegurança, desconfiança, ciúme, possessividade, paranoia —o tipo de coisa desagradável que tanto incomodava os amigos dele que, por pouco tempo, haviam tido namoradas—eram-lhe todas estranhas. Se de fato ela não tinha esses sentimentos, ou se alguma poderosa inteligência animal a levava a suprimi-las, ele não saberia dizer. Quanto mais ele se misturava a ela, mais sentia também, ao mesmo tempo, que não a entendia nem um pouco. Ela só reconhecia a existência do que estava bem à sua frente. Fazia o que fazia, reagia ao que escutava, mas de outro modo dava a impressão de não ser nem um pouco afetada por coisas que ocorriam fora do seu campo de visão. Ele estava impregnado pela afirmação de sua mãe, de que brigar era bom num relacionamento. Na verdade, quase lhe parecia que só estava se casando com Connie para ver se ela enfim começaria a brigar com ele: para afinal começar a saber quem ela era. Mas quando eles se casaram de verdade, na tarde seguinte, nada mudou, em absoluto. No banco traseiro de um táxi, enquanto se afastavam do Fórum, ela trançou os dedos de sua mão esquerda, onde brilhava a aliança, aos dedos igualmente ornamentados da mão esquerda dele e deitou a cabeça em seu ombro com uma expressão que não podia ser exatamente descrita como satisfação, porque implicaria que antes ela estava insatisfeita. Era antes algo como uma entrega muda ao ato, ao crime, que os dois precisaram cometer. No encontro seguinte entre Joey e Casey, em Charlottesville, uma semana mais tarde, nenhum dos dois sequer mencionou Connie.
A aliança ainda estava em algum ponto do seu abdômen enquanto ele abria caminho em meio ao mar quente e revolto dos viajantes no Aeroporto Internacional de Miami, localizando Jenna numa área mais protegida e fresca da sala vip da classe executiva. Ela estava de óculos escuros e ainda portava a proteção adicional de um iPod e do último número da Condé Nast Traveler. Ela passou Joey em revista da cabeça aos pés, como quem verifica se um produto encomendado lhe foi entregue em estado aceitável, e em seguida retirou sua bagagem de mão da cadeira ao lado da sua e—com certa relutância, achou ele —puxou os fones do iPod para fora dos ouvidos. Joey sentou-se sorrindo apalermado com o maravilhamento de viajar com ela. E nunca tinha voado de executiva.
“O que foi?”, perguntou ela.
“Nada. Só estou sorrindo.”
“Ah, achei que era alguma sujeira no meu rosto, ou coisa assim.”
Vários homens próximos a ela olhavam para Joey com ar hostil. Ele se obrigou a devolver o olhar de cada um deles, para deixar bem claro que Jenna já lhe estava prometida. Ia ser cansativo, percebeu ele, precisar repetir aquilo em cada lugar público aonde fossem. Os homens também olhavam para Connie, às vezes, mas pareciam aceitar, sem maiores ressentimentos, que ela pertencia a ele. Com Jenna, desde já, ele tinha a sensação de que o interesse dos outros homens não era desestimulado pela sua presença, mas persistia, procurando maneiras de contorná-la.
“Vou logo avisando que estou meio rabugenta”, disse ela. “Estou ficando menstruada, e acabei de passar três dias em meio a meus ancestrais, vendo fotografias dos respectivos netos. Além do mais, nem acreditei nisso, mas nesta sala vip agora é preciso pagar pelas bebidas. E eu fiquei boba. Se é assim, podia ter ficado sentada mais perto do portão de embarque.”
“Quer que eu traga alguma coisa para você?”
“Quero, sim. Um Tanqueray duplo, com tônica.”
Não parecia ocorrer a ela ou, por sorte, ao atendente do bar, que Joey era menor de vinte e um anos. Voltando com as bebidas e a carteira bem mais leve, ele encontrou Jenna com os tampões novamente nos ouvidos e o rosto enfiado em sua revista. Ele se perguntou se ela não o estaria confundindo de algum modo com Jonathan, de tão pouca importância que dava à sua chegada. Ele tirou da sacola o livro que sua irmã lhe dera de Natal, Reparação, se esforçando para se interessar em suas descrições de salas e jardins, mas seu espírito não se afastava do texto que Jonathan lhe mandara naquela tarde: “espero q vc se divirta olhando o dia inteiro p/ uma bunda de cavalo”. Era a primeira vez que o amigo se dirigia a ele desde que Joey lhe telefonara preventivamente, três semanas antes, contando-lhe seus planos de viagem. “Posso ver que está dando tudo certo para você”, disse Jonathan. “Primeiro a insurgência dos iraquianos, e depois a perna da minha mãe.”
“Não que eu quisesse que ela quebrasse a perna”, disse Joey.
“Não, claro que não. E também imagino que você esperasse que os iraquianos nos recebessem com corbelhas de flores. Tenho certeza de que você lamenta muito a maneira como as coisas estão se desdobrando. Só não o suficiente para deixar de lucrar com os acontecimentos.”
“E o que eu podia fazer? Dizer não? Sugerir que ela fosse sozinha? Ela na verdade está bastante deprimida. E com muita vontade de viajar comigo.”
“E com certeza Connie concorda plenamente com tudo isso. E já deu o selo de aprovação aos seus planos.”
“E o que você tem a ver com isso? Se fosse da sua conta, pode ser que eu me desse ao trabalho de lhe dar alguma resposta.”
“Sabe o quê? Eu na verdade tenho muito a ver com isso, porque vou precisar mentir para ela. Já preciso mentir quando converso com ela e ela me pergunta o que eu acho de Kenny Bartles, porque você está usando o dinheiro dela e não quero que ela se preocupe. E agora vou precisar mentir a respeito de mais essa história.”
“E que tal simplesmente deixar de conversar com ela a toda hora?”
“Não é a toda hora, seu escroto. Eu devo ter tido umas três conversas com ela nos últimos três meses. Ela me considera um amigo, está bem? E pelo que eu entendi, passa semanas inteiras sem nenhuma notícia sua. E eu, devia fazer o quê? Deixar de atender o telefone quando ela me liga? Ela me liga para saber de você. O que é meio estranho mesmo, afinal de contas, não é? Porque ela ainda é sua namorada.”
“Eu não vou para a Argentina para comer a sua irmã.”
“Rá. Rá. Rá.”
“Juro por Deus, estou indo como amigo dela. Da mesma forma como você e Connie são amigos. Porque a sua irmã está deprimida e é uma gentileza com ela. Mas Connie não ia entender, então eu preferia que você simplesmente deixasse de tocar no assunto, se ela ligasse; é o melhor que você pode fazer por todos os envolvidos.”
“Você é um babaca, Joey, de querer me convencer disso, e nem quero mais falar com você. Aconteceu alguma coisa com você que me deixa verdadeiramente enojado. Se Connie ligar para mim enquanto você estiver viajando, não sei o que eu vou dizer. Acho que não vou contar nada para ela. Mas ela só me liga quando você fica um tempo sem aparecer, e estou de saco cheio de ficar no meio dessa situação. Então vá se foder, faça o que quiser, mas me deixe fora dessa história.”
Tendo jurado a Jonathan que não transaria com Jenna, Joey sentia-se protegido contra qualquer contingência na Argentina. Se nada acontecesse, sua honra ficaria provada. Se alguma coisa viesse a acontecer, ele não precisaria lidar com a decepção e a tristeza por nada ter acontecido. Seria uma resposta para a questão que ainda estava em aberto em seu espírito: ele era uma pessoa durona ou uma pessoa delicada? O que o futuro lhe reservava? Sentia-se muito curioso em relação ao seu futuro. A julgar por seu torpedo enfurecido, Jonathan não pretendia fazer parte desse futuro, qualquer que fosse. E a mensagem sem dúvida era afiada, mas Joey, de seu lado, já estava farto do moralismo permanente do amigo.
No avião, refugiados na privacidade de seus assentos imensos, e sob a influência de uma segunda bebida reforçada, Jenna dignou-se a tirar os óculos escuros e trocar algumas palavras. Joey lhe contou sua recente viagem à Polônia, perseguindo a miragem de peças de reposição para o Pladsky A 10, e sua descoberta de que só pouquíssimos dentre as aparentes dúzias de fornecedores que anunciavam essas peças na internet não eram uma completa falcatrua ou clones do mesmo único fornecedor de Łódz´, onde Joey e seu intérprete quase pior que imprestável encontraram pouquíssimas peças para comprar pelo preço que fosse. Lanternas traseiras, para-lamas, chapas de porta, algumas caixas de baterias e grades de radiador, mas pouquíssimas peças para o motor e a suspensão, que eram críticas para a manutenção adequada desses veículos fora de linha desde 1985.
“A internet é mesmo uma merda, não é?”, disse Jenna. Ela tinha catado todas as amêndoas de sua tigelinha, e agora começava a catar as do pote de Joey.
“Demais, demais”, concordou ele.
“Nick sempre dizia que o comércio internacional via internet é coisa para otários. Qualquer coisa financeira pela internet, aliás, a não ser que o sistema seja exclusivo de quem opera. Diz que a informação gratuita, por definição, não vale nada. Quer dizer, se um fornecedor chinês aparece na internet, você já pode deduzir, só por isso, que não presta.”