Liberdade

Jonathan Franzen · Capítulo 9 de 12 · parte 3/3

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Liberdade

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

“Eu sei, é isso mesmo, eu sei disso perfeitamente”, disse Joey, sem querer ouvir falar de Nick. “Mas peças de caminhão, e coisas assim, tendem a aparecer mais em lugares do tipo do eBay. É só um meio de conectar compradores e vendedores que, de outra maneira, não teriam como se encontrar.”

“Só sei que Nick nunca compra nada pela internet. Não confia nem no PayPal. E sabe como é, ele é muito bem informado sobre essas coisas.”

“E foi justamente por isso que eu fui à Polônia. Porque essas coisas precisam ser feitas pessoalmente.”

“Exato, é o que Nick sempre diz.”

A maneira como ela mastigava as amêndoas com o maxilar um tanto solto demais estava deixando Joey irritado, bem como os dedos dela, por mais bem tratados que fossem, fuçando metodicamente em seu potinho. “Achei que você não gostava de beber”, disse ele.

“He-he. Ultimamente venho me aplicando em aumentar a minha tolerância. E progredi muito.”

“Bom, de qualquer maneira”, disse ele, “eu preciso que coisas boas aconteçam no Paraguai, ou não sei o que vou fazer. Gastei uma fortuna no transporte daquela sucata polonesa, e agora o meu sócio, Kenny, me disse que aquilo tudo não dá nem para receber parte do dinheiro. Está tudo largado no meio de um pasto perto de Kirkuk, provavelmente sem ninguém tomar conta. E Kenny ficou puto comigo por eu não ter mandado peças de caminhão mesmo, ainda que fossem de outras marcas, apesar de serem totalmente inúteis se não forem do mesmo modelo e do mesmo fabricante. E Kenny me disse, você só precisa de peso; eu recebo por peso, dá para acreditar? E eu: esses caminhões têm mais de trinta anos, e não foram fabricados para funcionar no meio de tempestades de areia ou do verão do Oriente Médio, vão todos quebrar, e quando você organiza comboios para atravessar um terreno cheio de insurgentes inimigos, não quer que um dos caminhões vá quebrar. E, enquanto isso, continuamos tendo muitos gastos, mas renda zero.”

Ele podia ter ficado um pouco apreensivo de admitir isso para Jenna caso ela estivesse prestando alguma atenção, mas ela estava engalfinhada com seu monitor individual do sistema de entretenimento a bordo, tentando desajeitadamente puxá-lo para fora do buraco onde ficava guardado. Ele, galante, a ajudou.

“Então, desculpe”, disse ela, “mas você estava dizendo...? Que não vai receber o dinheiro que esperava?”

“Não, ah, não, vou receber tudo, sem a menor dúvida. Na verdade, acho que vou ganhar mais dinheiro com esse negócio do que Nick no ano todo.”

“Francamente, duvido muito.”

“Bom, vai ser muito dinheiro.”

“Nick vive num outro universo de remuneração.”

Foi demais para Joey. “O que eu estou fazendo aqui?”, perguntou ele. “Você pelo menos queria que eu viesse? Ou me ignora ou fica falando sobre Nick, com quem eu achei que você tivesse terminado.”

Jenna deu de ombros. “Eu avisei que estava meio rabugenta. Mas posso te dizer uma coisa? Não estou muito interessada nos seus negócios. O motivo de você estar aqui, e de Nick não ter vindo, é que estou de saco cheio de ficar ouvindo ele falar de dinheiro o dia inteiro e toda noite.”

“Achei que você gostava de dinheiro.”

“Mas nem por isso quero ficar ouvindo falar dele o tempo todo. Foi você quem tocou no assunto.”

“Desculpe ter tocado no assunto!”

“Está bem. Aceito as suas desculpas. Mas sabe o que mais? Não entendo por que não posso falar de Nick quando você passa o tempo todo falando da sua namorada.”

“Eu só falo dela porque você me pergunta sobre ela.”

“Não sei qual é a diferença.”

“Bom, e além do mais, ela ainda é minha namorada.”

“Ah, sim. Essa diferença eu tenho de reconhecer.” E inesperadamente ela se debruçou e ofereceu sua boca à dele. Primeiro só um roçar de lábios, depois uma maciez que lembrava creme batido em temperatura morna, e depois pura carne. A sensação dos seus lábios correspondia plenamente à beleza, tão complexamente animada e valiosa, que sempre chamara a atenção dele. Ele se entregou àquele beijo, mas ela se afastou e sorriu com ar de aprovação. “Menino de sorte”, disse ela.

Quando uma comissária veio saber o que queriam para o jantar, ele pediu carne. Estava planejando comer apenas carne na viagem toda, na esperança de que pudesse deixá-lo constipado; esperava já estar no Paraguai quando precisasse se pôr à cata da aliança no banheiro. Jenna assistiu a Piratas do Caribe enquanto comia; ele pôs os fones de ouvido e ficou vendo com ela, preferindo entortar-se um pouco para dentro do espaço dela do que levantar seu próprio monitor, mas não houve mais nenhum beijo, e o problema dos assentos da classe executiva, como Joey descobriu quando o filme terminou e ambos se estenderam por baixo dos respectivos cobertores, era que qualquer aconchego ou contato acidental era impossível.

Ele não achava que adormeceria, mas de repente já era de manhã e o café estava sendo servido, e chegaram à Argentina. Não era nem de longe tão exótico quanto ele imaginara. Tirando que tudo estava em espanhol e que muito mais gente fumava, a civilização, lá, era igual à civilização em toda parte. O vidro temperado, a cerâmica do piso, as cadeiras de plástico e as luminárias eram exatamente iguais, e o embarque do voo até Bariloche começava pelos assentos do fundo, como qualquer voo local americano, e não havia nada de notavelmente diferente no 727, nas fábricas, nos campos cultivados ou nas estradas que Joey via de sua janela. A terra era a mesma terra, e plantas cresciam nela. A maioria dos passageiros da primeira classe falava inglês, e seis deles—um casal de ingleses e uma americana com três filhos—se reuniram a Joey e Jenna puxando suas malas com selos de prioridade na direção da van branca da Estancia El Triunfo que os esperava numa área de estacionamento proibido bem junto à porta do aeroporto de Bariloche.

O motorista, um jovem que não sorria e ostentava no peito uma negra pelagem espessa emergindo da camisa meio desabotoada, correu para pegar a mala de Jenna, acomodá-la na traseira e instalar a dona no banco da frente antes que Joey pudesse entender o que estava acontecendo. O casal de ingleses apoderou-se dos dois assentos seguintes, e Joey acabou por se sentar mais ao fundo, com a mãe e sua filhinha, que estava lendo um livro para adultos sobre a história de um cavalo.

“Meu nome é Félix”, disse o motorista num microfone desnecessário, “bem-vindos à província de Río Negro por favor usem os cintos de segurança vamos viajar duas horas a estrada às vezes é esburacada temos água e refrigerantes para quem quiser El Triunfo fica longe mas é lucsuosa desculpem os buracos na estrada obrigado.”

A tarde estava clara e quente, e o caminho até El Triunfo atravessava um próspero terreno subalpino, tão parecido com a parte oeste de Montana que Joey se perguntou por que tinham voado quase treze mil quilômetros para chegar lá. Mas o que Félix estava contando a Jenna, falando sem parar, num espanhol sussurrado, ficava totalmente abafado pelos zurros infindáveis de Jeremy, o inglês. Zurrava sobre os bons tempos em que a Inglaterra travara uma guerra contra a Argentina pelas ilhas Falklands (“A segunda melhor atuação armada da nossa história”), a captura de Saddam Hussein (“Ah, eu só queria sentir o cheiro desse senhor quando saiu daquele buraco”), essa vigarice do aquecimento global e a irresponsabilidade da manipulação do medo alheio por seus inventores (“No ano que vem vão querer nos falar dos perigos de uma nova era do gelo”), a inépcia ridícula dos dirigentes dos bancos centrais sul-americanos (“Se você chega a uma taxa de inflação de mil por cento, o problema não pode ser só falta de sorte”), a louvável indiferença dos sul-americanos ao futebol feminino (“Dessa vez são vocês, americanos, que podem brilhar nessa absurda caricatura de esporte”), os tintos surpreendentemente palatáveis produzidos na Argentina (“Deixam os melhores vinhos da África do Sul muito —para—trás”), e sua própria salivação copiosa só de pensar em comer bifes no café, no almoço e no jantar (“Sou carnívoro, carnívoro, total e repulsivamente carnívoro”).

Para aliviar a tagarelice de Jeremy, Joey travou uma conversa com a mãe, Ellen, que era bonitona sem ser atraente e usava as calças stretch cheias de bolsos que um certo tipo de mãe preferia nos dias de hoje. “Meu marido é um construtor de muito sucesso”, contou ela. “Estudei arquitetura em Stanford, mas atualmente fico em casa tomando conta das crianças. Resolvemos ensinar-lhes o primário em casa, o que tem ótimos resultados, e permite tirar férias de acordo com a nossa agenda, mas dá muito trabalho, isso eu posso dizer.”

Seus filhos, a menina leitora e os meninos que jogavam videogames portáteis atrás dela, ou não ouviram o que disse ou não se incomodavam em lhe dar tanto trabalho. Quando ela soube que Joey tinha uma pequena empresa em Washington, perguntou se ele por acaso conhecia Daniel Jennings. “Dan é um amigo nosso de Morongo Valley”, disse ela, “que fez um estudo completo sobre os nossos impostos. Voltou, estudou todos os debates que tinham acontecido no Congresso, e sabe o que ele descobriu? Que não existe base jurídica para o imposto de renda federal.”

“Na verdade não existe base jurídica para nada, quando você examina bem de perto”, disse Joey.

“Mas é óbvio que o governo federal não quer deixar ninguém saber que todo o dinheiro que ele coletou nos últimos cem anos na verdade pertence por direito a nós, os cidadãos americanos. Dan tem um site, onde dez professores de história concordam que ele tem razão, e que não existe a menor base jurídica para o imposto de renda. Mas ninguém nos grandes jornais ou televisões quer falar no assunto. Você não acha isso um pouco estranho? Não acha que pelo menos uma rede de tv, ou um jornal, não ia querer cobrir a questão?”

“É capaz de essa história ter um outro lado”, disse Joey.

“Mas por que só escutamos falar dele? Será que não merece ser noticiado que o governo federal deve aos contribuintes americanos trezentos trilhões de dólares? Porque foi esse o total que Dan calculou, com juros compostos. Trezentos trilhões de dólares.”

“É muito dinheiro mesmo”, concordou ele educadamente. “Mais ou menos um milhão de dólares para cada habitante dos Estados Unidos.”

“Exatamente. É um absurdo, você não acha? Quanto o governo deve a cada um de nós.”

Ele cogitou mencionar como seria difícil para o Tesouro reembolsar aos contribuintes, digamos, o dinheiro que tinha sido gasto para vencer a Segunda Guerra Mundial, mas Ellen não lhe pareceu uma pessoa com quem se podia argumentar, e ele estava ficando enjoado com a viagem. Ouviu Jenna falar um espanhol tão excelente que ele, tendo feito apenas alguns anos no curso secundário, não entendia nada muito além de caballos isso e caballos aquilo. Sentado de olhos fechados, numa van cheia de idiotas, foi tomado pelo pensamento de que as três pessoas que ele mais amava (Connie), respeitava (seu pai) e curtia (Jonathan) estavam no mínimo muito insatisfeitas com ele, para não dizer, nas palavras delas próprias, enojadas com ele. Não conseguia livrar-se dessa lembrança; era como um tipo de consciência se apresentando para o serviço. Usou toda sua força de vontade para não vomitar, posto que vomitar agora, trinta e seis horas depois que vomitar com vontade teria resolvido seus problemas, seria o cúmulo da ironia. Imaginara que o caminho para se tornar um sujeito totalmente calejado, para não prestar, ficaria mais íngreme e mais árduo só aos poucos, com muitos prazeres compensatórios durante o percurso, e que ele teria tempo de se aclimatar a cada estágio. Mas lá estava ele, ainda no início do caminho, já se sentindo como se fosse lhe faltar o estômago necessário.

A Estancia El Triunfo, entretanto, era sem dúvida paradisíaca. Aninhados junto a um rio de águas límpidas, cercados por montanhas amarelas que subiam mansamente na direção da linha arroxeada da cordilheira, ficavam jardins fartamente irrigados, cocheiras, estábulos de pedra e chalés para hóspedes dotados de todos os confortos mais modernos. O quarto de Joey e Jenna tinha um farto espaço deliciosamente desnecessário de piso de lajotas frescas e janelas imensas que se abriam para o rio que corria logo abaixo. Ele ficara preocupado com a possibilidade de deparar com duas camas, mas ou Jenna tinha a intenção original de dividir uma cama king size com a mãe ou havia alterado a reserva. Ele se estendeu sobre a colcha de brocado de um vermelho muito escuro, mergulhando em sua maciez de mil dólares por noite. Mas Jenna já estava vestindo suas roupas de montaria, e calçando suas botas. “Félix vai me mostrar os cavalos”, disse ela. “Quer vir também?”

Ele não queria, mas sabia que era melhor ir de qualquer modo. A bosta deles continua cheirando mal foi a frase que tomou sua mente quando se aproximaram dos fragrantes estábulos. À luz dourada do anoitecer, Félix e um ajudante conduziam um esplêndido garanhão negro pelo cabresto. Ele bufava, estremecia e corcoveava de leve, e Jenna se aproximou imediatamente dele, com uma expressão de arrebatamento que lembrou Connie e fez Joey gostar mais ainda dela, estendendo a mão para acariciar o lado de sua cabeça.

“Cuidado”, disse Félix.

“Está tudo bem”, respondeu Jenna, olhando fixamente nos olhos do animal. “Ele já está gostando de mim. Confia em mim, estou vendo. Não é, meu garoto?”

“¿Deseas que algo algo algo?”, perguntou Félix, puxando a rédea do cavalo.

“Fale inglês, por favor”, pediu Joey com frieza.

“Ele me perguntou se eu quero que ele sele o cavalo”, explicou Jenna, e então respondeu depressa em espanhol para Félix, que objetou que era algo algo algo peligroso; mas ela não aceitava ser contrariada. Enquanto o ajudante puxava com força o cabresto, ela agarrou a crina do animal, Félix pôs as mãos peludas em sua coxa e a ajudou a montar no dorso nu do cavalo. Este abriu as pernas e deu um salto de lado, puxando o cabresto, mas Jenna já estava debruçada sobre seu pescoço, o peito apoiado na crina do animal, o rosto perto das suas orelhas, murmurando palavras vazias mas reconfortantes. Joey ficou muitíssimo impressionado. Depois que o cavalo se acalmou, ela pegou as rédeas e saiu trotando até o canto das cocheiras, travando com a montaria recônditas negociações equestres, obrigando o animal a ficar imóvel, a andar para trás, a abaixar e erguer a cabeça.

O ajudante disse alguma coisa a Félix sobre a chica, em palavras roucas e cheias de admiração.

“Meu nome, aliás, é Joey”, disse Joey.

“Como vai”, disse Félix sem tirar os olhos de Jenna. “Quer um cavalo também?”

“Por enquanto estou bem. Só quero que me faça um favor e fale só inglês, está bom?”

“Como quiser.”

Fez bem a Joey ver o quanto Jenna ficava feliz montada no cavalo. Antes estava tão deprimida e mal-humorada, não só durante a viagem mas nas conversas por telefone dos últimos meses, que ele começara a se perguntar se havia qualquer outra coisa de que se pudesse gostar nela além de sua beleza. Agora ele percebia que Jenna pelo menos era capaz de fruir o que o dinheiro lhe facultava. Ainda assim, era desanimador pensar na quantidade de dinheiro necessária para fazê-la feliz. Ser a pessoa que a mantinha em cima de bons cavalos não era tarefa para os fracos de coração.

O jantar só foi servido depois das dez da noite, numa comprida mesa comunitária talhada inteira de uma árvore que devia ter quase dois metros de diâmetro. Os afamados filés argentinos estavam excelentes, e o vinho suscitou loas de aprovação da parte de Jeremy. Joey e Jenna traçaram taças e mais taças, e pode ter sido por isso que, depois da meia-noite, quando finalmente começaram os trabalhos em sua cama oceânica, ele viveu a primeira manifestação de um fenômeno de que já tinha ouvido falar, mas nunca tinha imaginado experimentar pessoalmente. Até no menos interessante dos seus casos, seu desempenho na cama sempre tinha sido admirável. Mesmo agora, enquanto ficava confinado pelas calças, tinha a impressão de estar tão duro quanto a madeira da mesa de jantar coletiva, mas ou estava enganado a respeito ou respondia muito mal à plena exposição a Jenna. Enquanto ela se esfregava de calcinha em suas pernas nuas, gemendo um pouco a cada investida, ele se sentia escapando centrifugamente pelos ares, um satélite escapando da gravidade, mentalmente cada vez mais longe da mulher cuja língua estava enfiada em sua boca e cujos seios espantosamente nada triviais estavam esmagados contra seu peito. Ela praticava preliminares um pouco mais brutais, e menos flexíveis, que as de Connie —o que respondia por parte do problema. Mas ele também não conseguia ver o rosto dela no escuro, e sem poder vê-lo ficava apenas com a memória, a ideia abstrata, do quanto era lindo. Repetia para si mesmo que até que finalmente estava ficando com Jenna, de que quem estava ali era Jenna, Jenna, Jenna. Entretanto, na falta de confirmação visual, o que tinha nos braços era apenas uma mulher genérica, suarenta e agressiva.

“Podemos acender a luz?”, perguntou ele.

“Fica claro demais. E assim eu não gosto.”

“Mas se for só a luz do banheiro? Está escuro demais.”

Ela rolou para longe dele e suspirou aborrecida. “Talvez fosse o caso de irmos dormir. Já é tão tarde, e de qualquer maneira estou toda ensanguentada.”

Ele levou a mão ao pênis e ficou desolado ao encontrá-lo ainda mais flácido do que julgava. “Pode ser que eu tenha tomado vinho demais.”

“Eu também. Então vamos dormir.”

“Vou só acender a luz do banheiro, está bom?”

Acendeu, e a visão dela esparramada na cama, confirmando sua identidade, a da mulher mais bonita que ele conhecia, deu-lhe a esperança de que todos os seus sistemas voltassem a funcionar. Ele rastejou para junto dela e deu início ao projeto de beijar cada centímetro do seu corpo, começando por seus pés e tornozelos perfeitos, depois subindo pelas pernas e pela parte interna das coxas.

“Desculpe, mas acho isso nojento”, disse ela de modo abrupto, quando ele chegou à sua calcinha. “Deixe comigo.” Ela o deitou de costas e abocanhou seu pênis. Mais uma vez, de início, estava duro, e a boca de Jenna era simplesmente celestial, mas em seguida ele escorregou e amoleceu um pouco, e Joey começou a se preocupar com esse amolecimento e a querer fazê-lo voltar a ficar duro pela força da vontade, de fazer a conexão acontecer na marra, a pensar na boca de quem ele estava penetrando, e aí, infelizmente, lhe ocorreu como a felação lhe interessava pouco, e se perguntou qual seria o seu problema. O interesse por Jenna sempre se devera em grande parte à impossibilidade de imaginar que poderia de fato transar com ela. Agora que ela se transformara numa pessoa cansada, embriagada e ensanguentada acocorada entre as pernas dele e se entregando profissionalmente ao desempenho oral, ela podia ser praticamente qualquer uma, menos Connie.

Justiça seja feita: Jenna continuou se esforçando bem depois que a fé dele próprio se extinguira. Quando ela finalmente parou, examinou o pênis dele com uma curiosidade de naturalista; e deu-lhe uma balançadinha. “Não está rolando, não é?”

“Não sei explicar. Estou muito envergonhado.”

“Rá, bem-vindo ao meu mundo dos antidepressivos.”

Depois que ela adormeceu e começou a emitir um ronco suave, ele ficou lá deitado, ardendo de vergonha, remorso e saudades. Estava muito, muito decepcionado consigo mesmo, embora não soubesse dizer por que deixar de comer uma garota por quem não estava apaixonado e de quem nem gostava tanto assim era uma decepção tão grande. Pensou no heroísmo de seus pais, que ficaram juntos todos esses anos, a necessidade mútua presente no fundo mesmo das piores brigas entre os dois. Viu a deferência de sua mãe pelo pai de um novo ângulo, e perdoou-a um pouco. Era uma infelicidade precisar de alguém, era um sinal de fragilidade flagrante, mas ele próprio agora se via, pela primeira vez, como alguém infinitamente incapaz de qualquer coisa, cem por cento incapaz de se adaptar em nome de qualquer objetivo em que pousasse a sua mira.

Às primeiras luzes austrais do amanhecer, acordou com um tesão monstruoso de cuja durabilidade não tinha a menor sombra de dúvida. Sentou-se e contemplou o emaranhado dos cabelos de Jenna, a fenda entre os seus lábios, a linha delicada de seu queixo, sua beleza quase sagrada. Agora que a luz era melhor, ele não acreditava no quanto tinha sido idiota no escuro. Escorregou de novo para baixo das cobertas e a cutucou de leve na base das costas.

“Pare com isso!”, disse ela em voz alta, imediatamente. “Estou tentando voltar a dormir.”

Ele aproximou o nariz dos ombros dela e inalou seu aroma de patchuli.

“Estou falando sério”, disse ela, afastando-se dele num arranco. “Não é culpa minha nós termos ficado acordados até as três da manhã.”

“Não eram três”, murmurou ele.

“Pois parece que eram três. Parece que eram cinco da manhã!”

“Agora são cinco da manhã.”

“Aaaagh! Nem me diga uma coisa dessas! Eu preciso dormir!”

E ele ficou ali interminavelmente deitado, monitorando com as mãos o quanto seu pau estava duro, tentando mantê-lo pelo menos a meia bomba. De fora vinham relinchos, sons metálicos distantes, o canto de um galo, os sons rurais de qualquer lugar no campo. Enquanto Jenna continuava a dormir, ou fingia que dormia, um movimento se anunciou nos intestinos de Joey. A despeito de sua resistência mais ferrenha, os movimentos recrudesceram até transformar-se numa urgência que sobrepujava todas as demais. Saiu andando para o banheiro e trancou a porta. Em sua bolsa de toalete trouxera um garfo justamente para a tarefa muito desagradável que se anunciava. Sentou-se segurando o garfo na mão suada enquanto a merda escorregava para fora dele. Era muita, o correspondente a dois ou três dias. Pela porta, ouviu o telefone tocar, a chamada que tinham pedido à portaria para despertá-los às seis e meia.

Ajoelhou-se no chão frio e olhou para dentro da privada, onde flutuavam quatro cocôs de bom tamanho, esperando ver de imediato a cintilação do ouro. O mais antigo dos quatro cagalhões era escuro, firme e coberto de nódulos, os que tinham vindo de profundezas maiores eram mais claros e já começavam a se dissolver um pouco. Embora ele, como qualquer pessoa, gostasse secretamente do cheiro de seus próprios peidos, o cheiro do próprio cocô era outra história. Era tão ruim que parecia alguma coisa maligna, no sentido moral. Cutucou um dos cagalhões mais moles com o garfo, tentando fazê-lo girar e examinar sua face inferior, mas a coisa se curvou e começou a esfacelar-se, turvando a água de marrom, e Joey viu que aquela história de garfo era uma fantasia, quem dera fosse tão simples. A água dali a pouco estaria toda turva e não deixaria passar a visão de coisa alguma, mesmo um aro de metal brilhante, e se a aliança se desprendesse da substância que a envolvia rolaria até o fundo da privada e possivelmente desceria cano abaixo. Sua única opção era remover os cagalhões um a um e esfacelá-los com os dedos, e precisava fazê-lo depressa, antes que as coisas absorvessem água demais. Prendendo a respiração, com os olhos lacrimejando furiosamente, pegou o cocô que lhe pareceu mais promissor e se viu obrigado a abandonar sua derradeira fantasia, a de que uma única mão pudesse bastar. Precisava usar as duas, uma segurando a merda e a outra vasculhando seu interior. Teve um engulho seco e foi ao trabalho, enterrando os dedos no excremento, um cilindro mole, morno e de uma leveza inesperada.

Jenna bateu na porta. “O que está acontecendo aí?”

“Um minuto!”

“O que você está fazendo aí? Batendo punheta?”

“Eu disse que abro daqui a um minuto! Estou com diarreia!”

“Ah, meu Deus. Pelo menos pode me passar um absorvente?”

“Um minutinho!”

Misericordiosamente, a aliança apareceu no segundo dos cocôs que ele desfez nas mãos. Algo duro no meio da maciez, um círculo luminoso em meio ao caos. Enxaguou as mãos o melhor que pôde na água imunda, acionou a descarga com o cotovelo e transferiu a aliança para a pia. O fedor era espantoso. Lavou as mãos, a aliança e a pia três vezes com muito sabão, enquanto Jenna, encostada à porta por fora, reclamava que só faltavam vinte minutos para o café da manhã. E a sensação foi muito estranha, mas foi a que decididamente o dominou: quando emergiu do banheiro com a aliança no dedo anular, e Jenna passou correndo por ele e depois saiu de novo às pressas, gemendo e xingando por causa do mau cheiro, ele já era outra pessoa. Enxergava sua própria pessoa com tamanha clareza que era como se conseguisse ver-se de fora. Era a pessoa que enfiara as mãos na própria merda para recuperar sua aliança de casamento. Não era a pessoa que achava que era, ou que preferiria ser se tivesse escolha, mas havia algo de reconfortante e libertador em ser de fato uma pessoa determinada, e não um amontoado de pessoas potenciais contraditórias.

Na mesma hora, o mundo lhe pareceu reduzir a velocidade e estabilizar-se, como se ele também estivesse se acomodando a novas necessidades. O primeiro cavalo que lhe entregaram nos estábulos, animal nervoso, o derrubou quase com gentileza, sem maldade, empregando apenas a violência estritamente necessária para desalojá-lo da sela. Puseram-no então em cima de uma égua de uns vinte anos de idade, de cujo dorso largo ele pôde ver Jenna afastar-se rapidamente em seu garanhão por uma trilha de terra seca, o braço esquerdo erguido num adeus de costas ou talvez por exigência do equilíbrio equestre, enquanto Félix passou a galope por Joey no encalço dela. Joey percebeu que faria mais sentido se ela acabasse trepando com Félix, e não com ele, pois Félix montava muito melhor; e isso lhe pareceu um alívio, talvez até uma mitzvah, visto que a pobre Jenna com certeza precisava ser comida por alguém. Ele, por seu lado, passou a manhã inteira cavalgando a passo, e afinal trotando um pouco ao lado da filha mais nova de Ellen, Meredith, a leitora de romances, que lia copiosamente histórias envolvendo cavalos. E nem por isso ele se sentiu mais frouxo; sentiu-se firme. O ar andino era adorável. Meredith deu a impressão de estar um pouco interessada nele, e transmitiu-lhe pacientes instruções de como comandar seu cavalo sem deixá-lo tão confuso. Jeremy, quando o grupo se reuniu para um lanche matinal ao lado de um riacho durante o qual não tiveram sinal de Jenna e Félix, mostrou-se instrutivo de modo mais maldoso com sua mulher de rosto muito corado, a quem aparentemente culpava por terem ficado tão para trás dos outros. Joey, pondo as mãos limpas em concha para beber água pura de uma bacia de pedra, e sem se incomodar nem um pouco com o que Jenna poderia estar fazendo, teve pena de Jeremy. Era divertido cavalgar na Patagônia—quanto a isso ela não tinha mentido.

Sua sensação de paz durou até o final da tarde, quando foi checar suas mensagens de voz a partir do telefone do quarto, às custas da mãe de Jenna, e deparou com recados de Carol Monaghan e Kenny Bartles. “Oi, querido, aqui é a sua sogra”, disse Carol. “E essa agora, hein? Sogra! Que coisa mais estranha de dizer. Achei a notícia maravilhosa, mas sabe de uma coisa, Joey? Vou ser honesta com você. Acho que se você gosta de Connie o suficiente para se casar com ela, e se tem sua maturidade em tão alta conta a ponto de resolver-se casar, devia ter a decência de contar aos seus pais. Só estou metendo o meu bedelho, mas não vejo motivo para tanto segredo, a não ser que você tenha vergonha de Connie. E não sei o que dizer de um genro que sente vergonha da minha filha. Talvez eu só deva dizer que não sou muito boa em matéria de guardar segredos, e pessoalmente sou contra todo esse mistério. Entendeu? Talvez seja melhor eu parar por aqui.”

“Mas que porra é essa, cara?”, dizia Kenny Bartles. “Onde é que você se meteu, cacete? Acabei de lhe mandar dez e-mails. Já chegou ao Paraguai? É por isso que não está me respondendo? Se o contrato diz 31 de janeiro, o Departamento de Defesa quer dizer 31 de janeiro. Espero que você tenha arranjado alguma coisa para mim, porque só faltam nove dias para 31 de janeiro; a lbi já está querendo comer a minha bunda porque essas merdas desses caminhões não param de quebrar. Um defeito na porra do eixo traseiro, parece, e espero que você consiga me mandar uns eixos traseiros para reposição. Ou qualquer merda, cara. Quinze toneladas de enfeites de capô, e eu vou agradecer muito. Até eu receber algum peso de você, até você me mostrar uma data de entrega confirmada de qualquer porra, eu não posso ter certeza de nada.”

Jenna voltou ao pôr do sol, ainda mais linda por estar coberta de poeira. “Estou apaixonada”, disse ela. “Conheci o cavalo dos meus sonhos.”

“Preciso ir embora”, respondeu Joey na mesma hora. “Preciso ir ao Paraguai.”

“O quê? Quando?”

“Amanhã de manhã. Melhor ainda seria hoje à noite.”

“Meu Deus, você ficou tão puto assim comigo? Não é minha culpa você ter mentido sobre o quanto sabe montar a cavalo. Não vim até aqui para ficar cavalgando a passo. E também não vim até aqui para desperdiçar cinco noites de quarto duplo.”

“É, sinto muito. Depois eu lhe devolvo a minha metade.”

“Pagar a metade é o caralho.” Ela o olhou da cabeça aos pés com uma expressão de desdém. “É só que não sei de que outra maneira você ainda pode me decepcionar. Acho que ainda não passei por todas as decepções possíveis com você.”

“Que coisa horrível de se dizer”, comentou ele em voz baixa.

“E pode acreditar que sou capaz de dizer coisas ainda piores, e vai ser logo.”

“Ah, e também não lhe contei que eu era casado. Que sou casado. Eu me casei com Connie. Vamos viver juntos.”

Os olhos de Jenna se arregalaram, como que de dor. “Meu Deus, você é muito estranho! Você é totalmente maluco.”

“Eu sei disso.”

“Achei que você me entendia de verdade. Ao contrário de todos os outros homens que já encontrei. Meu Deus, eu sou muito burra mesmo!”

“Não é verdade”, disse ele, apiedando-se dela pela profunda desvantagem da sua beleza.

“Mas se você acha que eu fico perturbada de saber que você é casado, está muito enganado. Se você acha que eu pensei que você podia servir como marido: meu Deus! Nem sair para jantar com você eu quero.”

“Então eu também não quero jantar com você.”

“Ótimo, então”, disse ela. “A partir de agora, você está confirmado como o pior companheiro de viagem de todos os tempos.”

Enquanto ela tomava banho, ele arrumou a mala e em seguida ficou deitado na cama, pensando que, talvez agora que estava tudo esclarecido entre eles, talvez eles pudessem transar pelo menos uma vez, para evitar a vergonha e a derrota de não terem transado nunca, mas quando Jenna saiu do banheiro, envolta num grosso roupão da Estancia El Triunfo, ela entendeu corretamente a expressão do rosto dele e disse, “Nem pensar”.

Ele deu de ombros. “Tem certeza?”

“Tenho, certeza absoluta. Volte para a sua mulherzinha. Não gosto de gente maluca que mente para mim. Na verdade, estou envergonhada de estar no mesmo quarto que você.”

E então ele foi para o Paraguai, e foi tudo um desastre. Armando da Rosa, o proprietário do maior estabelecimento paraguaio de venda de excedentes das forças armadas, era um ex-oficial sem pescoço com sobrancelhas brancas, que se uniam sobre o nariz e cabelos que pareciam tingidos com graxa preta de sapato. Seu escritório, num subúrbio de Assunção coalhado de favelas, tinha piso de linóleo lustroso de cera e uma imensa mesa metálica sobre a qual uma bandeirinha do Paraguai pendia de um mastro de madeira. A porta traseira dava para hectares e mais hectares de erva daninha, terra batida e barracões com telhados corrugados, patrulhados por cães imensos que não passavam de presas, esqueleto e pelagem eriçada, e davam a impressão de ter acabado de sobreviver à eletrocussão. O que Joey deduziu do solilóquio um tanto a esmo de Da Rosa, num inglês só um pouco melhor que o espanhol de Joey, foi que ele tinha sofrido um acidente de percurso em sua carreira, alguns anos antes, e só escapara da corte marcial graças a certos oficiais amigos que se mantiveram leais a ele, e recebera mais adiante, a título de compensação, a concessão para vender excedentes das forças armadas e equipamento militar descartado. Usava uniforme camuflado e uma pistola na cintura que provocava em Joey um certo desconforto quando caminhava à frente dele. Atravessaram um matagal cada vez mais alto e mais lenhoso, e tomado por um zumbido mais forte de imensas vespas sul-americanas, até que, perto de uma cerca frouxamente coroada de arame-navalha, chegaram à jazida mais importante de peças de caminhão Pladsky A 10. A boa notícia é que eram sem dúvida muito numerosas. A má notícia é que estavam em condições abomináveis. Uma fila de capôs de caminhão com as bordas corroídas de ferrugem se estendia em vários ângulos como dominós parcialmente caídos; eixos e para-choques se acumulavam em pilhas irregulares, lembrando gigantescos ossos de frango; blocos de motor se espalhavam pelo mato como cocô de um tiranossauro rex; montes cônicos de peças menores e mais seriamente oxidadas exibiam flores silvestres crescendo em suas encostas. Atravessando o mato alto, Joey foi desencavando emaranhados de peças de plástico entupidas de lama e/ou espatifadas, ninhos de cobra de mangueiras e correias rachadas pela exposição ao tempo, e caixotes de papelão apodrecidos e identificados por rótulos em polonês. Tentou conter lágrimas de decepção à vista daquilo.

“Muita ferrugem, não é?”, disse ele.

“Ferrugem? O que é isso?”

Joey quebrou um floco grande da calota mais próxima. “Ferrugem. Óxido de ferro.”

“É por causa da chuva”, explicou Da Rosa.

“Posso pagar dez mil dólares por tudo”, disse Joey. “Se o total for maior que trinta toneladas, pago quinze. Muito mais do que o valor de sucata.”

“Por que você quer essa merda?”

“Tenho uma frota desses caminhões, e preciso de peças.”

“Você é um rapaz muito novo. Por que quer esse lixo?”

“Porque eu sou um cretino.”

Da Rosa passeou o olhar pela cansada mata secundária que crescia, repleta de zumbidos, do outro lado da cerca. “Não posso vender tudo.”

“Por que não?”

“Esses caminhões, o exército não usa. Mas pode querer usar se começar uma guerra. Aí minhas peças vão valer muito.”

Joey fechou os olhos e estremeceu diante da estupidez daquilo tudo. “Qual guerra? O Paraguai vai lutar contra quem? A Bolívia?”

“Só estou dizendo que, se começar uma guerra, vamos precisar das peças.”

“Essas peças não prestam para porra nenhuma. Estou oferecendo quinze mil dólares por elas. Quince mil dólares.”

Da Rosa fez que não. “Cincuenta mil.”

“Cinquenta mil dólares? Nem. Por. Um. Caralho. Entendeu? De jeito nenhum.”

“Treinta.”

“Dezoito. Diez y ocho.”

“Veinticinco.”

“Vou pensar”, disse Joey, virando-se na direção do escritório. “Vou pensar se lhe pago vinte, no caso de serem mais de trinta toneladas. Veinte, está bem? É minha última oferta.”

Por mais ou menos um minuto, depois de apertar a mão sebenta de Da Rosa e entrar de novo no táxi que deixara à sua espera na rua, ficou satisfeito consigo mesmo, quanto à maneira como tinha conduzido a negociação, e acima de tudo com sua coragem de ter viajado até o Paraguai para isso. O que seu pai não entendia a respeito dele, o que só Connie entendia, é que ele tinha uma cabeça excelente para negócios, que nunca esquentava. Desconfiava que havia herdado esse instinto da mãe, que era uma competidora inata, e sentia uma satisfação filial particularmente intensa em exercê-lo. O preço que ele impusera a Da Rosa era muito menor do que se permitia esperar, e mesmo com o custo adicional de pagar a um despachante local para carregar tudo em contêineres e transportá-los até o aeroporto, mesmo com a quantia incrível que precisaria pagar para fretar um avião cargueiro para levar tudo até o Iraque, ainda ficaria dentro de parâmetros que lhe garantiam um lucro francamente obsceno. Mas à medida que o táxi se deslocava por áreas mais antigas, coloniais, de Assunção, começou a ficar com medo de não ser capaz. De não ser capaz de despachar aquele lixo tão notoriamente imprestável para tropas americanas que tentavam vencer uma guerra difícil e nada convencional. Embora não tenha sido ele quem criou o problema—inventado por Kenny Bartles, ao escolher os Pladsky obsoletos e desvalorizadíssimos para cumprir seu contrato—, ainda assim o problema era dele. E redundava num problema ainda pior: contando os custos iniciais do negócio e o carregamento parco mas ridiculamente caro das peças que encontrara em Łódz´, ele já tinha gastado todo o dinheiro de Connie e metade da primeira parcela do empréstimo que o banco lhe fizera. Mesmo que a essa altura ele de algum modo conseguisse se livrar do negócio, deixaria Connie sem um tostão e ele próprio irremediavelmente endividado. Revirou com nervosismo a aliança no dedo, várias e várias vezes, querendo enfiá-la de novo na boca para tranquilizar-se mas inseguro quanto à possibilidade de engoli-la de novo. Tentou se dizer que devia haver mais peças de A 10 em algum lugar, em algum armazém esquecido mas à prova d’água da Europa Oriental, mas já tinha passado dias inteiros procurando na internet e dando telefonemas, e as chances não lhe pareciam nada boas.

“Kenny escroto”, disse ele em voz alta, pensando que aquele era um péssimo momento para começar a ter uma consciência culpada. “Bandido, filho da puta.”

De volta a Miami, na última escala de seu voo de regresso, obrigou-se a ligar para Connie.

“Alô, cara”, respondeu ela animada. “Como estava Buenos Aires?”

Ele passou correndo pelos detalhes do itinerário e foi direto ao relato das suas ansiedades.

“Pois estou achando que você se saiu muito bem”, disse Connie. “Quer dizer, vinte mil dólares foi um preço ótimo, não foi?”

“Só uns dezenove mil a mais do que aquele lixo vale.”

“Não, cara, vale o que Kenny vai pagar a você.”

“E você não acha que eu devia estar com uma certa, digamos, inquietação moral em relação a isso? Por vender uma sucata imprestável para o governo?”

Ela ficou calada enquanto refletia a respeito. “Acho”, disse ela afinal, “que se você fica muito insatisfeito, talvez não devesse seguir adiante com isso. Eu queria que você só fizesse o que te deixasse feliz.”

“Não vou perder o seu dinheiro”, disse ele. “Disso pelo menos eu sei.”

“Não, pode perder. Não tem problema. Depois você ganha mais de algum outro modo. Eu confio em você.”

“Não vou perder. Quero que você volte a estudar. Quero uma vida para nós dois.”

“Bom, então vamos em frente! Por mim, estou pronta. Pronta até demais!”

Na pista do aeroporto, debaixo de um céu floridiano de um cinza instável, armas comprovadas de destruição em massa taxiavam. Joey queria que houvesse um outro mundo do qual ele pudesse fazer parte, um mundo mais simples em que uma vida confortável não precisasse ocorrer às custas de ninguém. “Recebi um recado da sua mãe”, disse ele.

“Eu sei”, disse Connie. “Eu mandei mal, Joey. Não contei nada para ela, mas ela viu a minha aliança e me perguntou diretamente, e aí não consegui deixar de responder.”

“Ela reclamou muito, dizendo que eu devia contar para os meus pais.”

“Deixa ela. Você conta para eles quando estiver preparado.”

Ele estava de péssimo humor quando chegou de volta a Alexandria. Sem poder mais viver na expectativa ou na fantasia de futuros encontros com Jenna, sem poder mais imaginar um bom resultado das negociações no Paraguai, tendo pela frente só obrigações desagradáveis, ele comeu todo um saco grande de batatas chips onduladas e ligou para Jonathan, na intenção de se arrepender e encontrar algum consolo na amizade. “E o pior de tudo é o seguinte”, disse ele. “Quando eu viajei, já era casado.”

“Não!”, respondeu Jonathan. “Você se casou com Connie?”

“Casei. Em agosto.”

“Eu nunca ouvi uma loucura maior na minha vida.”

“Achei melhor contar logo para você, porque de qualquer maneira você ia saber por Jenna. Que aliás não está nada feliz comigo a essa altura.”

“Ela deve ter ficado puta até a ponta dos cachos.”

“Eu sei que você acha que ela é horrível, e tudo o mais, mas não é assim. Na verdade ela só está perdida, e as pessoas só conseguem enxergar a beleza dela. Você teve muito mais sorte.”

Em seguida, Joey contou a Jonathan toda a história da aliança, a cena de horror no banheiro, com as mãos cobertas de merda e Jenna batendo na porta, e então, em seu próprio riso, e nas risadas e gemidos de nojo de Jonathan, encontrou o alívio que vinha procurando. Quando em seguida admitiu que Jonathan tinha razão sobre Kenny Bartles, a resposta de Jonathan foi clara e peremptória: “Você precisa se livrar desse contrato”.

“Não é fácil. Preciso proteger o investimento de Connie.”

“Arranje um jeito de sair. Agora. O que está acontecendo lá é horrível. Pior ainda do que você pensa.”

“Você ainda me odeia?”, perguntou Joey.

“Não te odeio. Só acho você um completo babaca. Mas odiar você está fora de questão.”

Joey ficou mais tranquilo com essa conversa, tanto que foi para a cama e dormiu doze horas. Na manhã seguinte, quando no Iraque já era o meio da tarde, ligou para Kenny Bartles e pediu para ser liberado do contrato.

“E as peças do Paraguai?”, perguntou Kenny.

“Em matéria de peso, tinha de sobra. Mas tudo uma merda, tudo enferrujado e inútil.”

“Mande de qualquer maneira. Senão quem se fode sou eu.”

“Foi você quem teve a ideia idiota de comprar os A 10”, disse Joey. “Não é culpa minha se não existem peças para eles.”

“Você acabou de me dizer que encontrou montes de peças. E estou dizendo para você me mandar o que achou. O que é que eu não estou entendendo aqui?”

“Só disse para você encontrar outra pessoa para comprar a minha parte. Não quero estar envolvido nisso.”

“Joey, calma, velho, escute aqui. Você assinou um contrato. E não está quase acabando o prazo para a Primeira Entrega: já passou da hora. Você não pode tirar o corpo logo agora. Pelo menos não sem perder tudo que já desembolsou. No momento, nem eu tenho o dinheiro para comprar a sua parte, porque o Exército ainda não me pagou pelas peças, já que o seu carregamento da Polônia chegou leve demais. Tente ver as coisas pelo meu lado, está bem?”

“Mas o que eu encontrei no Paraguai está com uma cara tão horrível que não acho que vão aceitar.”

“Isso você deixa por minha conta. Eu conheço o pessoal da lbi que atua aqui, e posso dar um jeito. Você só precisa me mandar trinta toneladas de carga, e depois pode voltar a ler poesia, ou o que você quiser.”

“Como é que eu posso saber que você vai dar um jeito?”

“Esse problema é meu. O seu contrato é comigo, e eu estou dizendo para você me mandar o peso e então vai receber o seu dinheiro.”

Joey não sabia o que era pior, o medo de que Kenny estivesse mentindo para ele e que ele iria se foder por completo, perdendo não só o dinheiro que já tinha desembolsado como os pagamentos que ainda tinha pela frente, ou a ideia de que Kenny estivesse dizendo a verdade e a lbi ia de fato pagar oitocentos e cinquenta mil dólares por peças praticamente sem valor. Ele não viu outra possibilidade além de passar por cima de Kenny e falar direto com a lbi. O que acarretou uma manhã inteira sendo transferido de telefone em telefone da sede da lbi, em Dallas, antes de conseguir falar com o vice-presidente a quem o caso dizia respeito. Apresentou seu dilema da maneira mais clara possível: “Não existem peças em bom estado disponíveis para esses caminhões, Kenny Bartles não quer rescindir o contrato e eu não quero mandar peças imprestáveis”.

“Bartles está disposto a aceitar o que você conseguiu?”, perguntou-lhe o vice.

“Está. Mas elas não prestam.”

“Não é problema seu. Se Bartles aceita, você está limpo. Acho que você devia despachar o carregamento agora mesmo.”

“Acho que o senhor não ouviu”, disse Joey. “Estou dizendo que o carregamento não serve para vocês.”

O vice passou algum tempo digerindo a informação e disse, “Não vamos mais fazer negócios com Kenny Bartles no futuro. Não estamos nem um pouco satisfeitos com a situação em torno dos caminhões A 10. Mas você não precisa se preocupar. Só precisa se preocupar com a possibilidade de ser processado por não cumprir o contrato.”

“Mas por quem—por Kenny?”

“É totalmente hipotético. Nunca vai acontecer, contanto que você despache as peças. Você só precisa se lembrar de que não estamos travando uma guerra perfeita num mundo perfeito.”

E Joey tentou se lembrar disso. Tentou se lembrar de que o pior que podia acontecer, nesse mundo imperfeito, era que todos os caminhões A 10 dessem defeito e precisassem ser trocados por caminhões melhores em algum momento, e que a vitória no Iraque poderia, por causa disso, sofrer um atraso infinitesimal, enquanto os contribuintes americanos teriam transferido alguns milhões de dólares para ele, Kenny Bartles, Armando da Rosa e os crápulas de Łódz´. Com a mesma determinação que usara para colher nas mãos o próprio cocô, tomou um avião de volta para o Paraguai, contratou um despachante e supervisionou pessoalmente o embarque de trinta e duas toneladas de peças em contêineres, tomando cinco garrafas de vinho nas cinco noites que precisou esperar para que a empresa Logística Internacional pusesse os contêineres a bordo de um veterano C-130 e o avião decolasse com eles, mas não havia aliança de ouro oculta nessa pilha de merda. Quando voltou a Washington, continuou a beber, e quando Connie finalmente chegou com três malas e se instalou na casa dele, ele continuou a beber e a dormir mal, e quando Kenny ligou de Kirkuk para dizer que a carga tinha sido aceita e que os 850 mil dólares de Joey estavam a caminho, ele passou uma noite tão terrível que ligou para Jonathan e contou tudo que tinha feito.

“Cacete, que coisa horrorosa”, disse Jonathan.

“E precisa me dizer?”

“Você precisa torcer para que ninguém descubra nada. Já estou ouvindo muitas histórias sobre os dezoito bilhões de dólares em contratos que foram liberados em novembro. Não me espantaria nem um pouco se o Congresso resolvesse investigar.”

“Existe alguém a quem eu possa contar tudo? Nem quero esse dinheiro, além do que eu devo a Connie e ao banco.”

“É muita nobreza da sua parte.”

“Eu não posso tirar esse dinheiro da Connie. Você sabe que eu só fiz essas coisas por causa dela. Mas eu me pergunto se você não podia contar essa história a alguém do Washington Post. Como se alguma fonte anônima tivesse contado a você.”

“Não se você quiser ficar anônimo. E se não quiser, sabe quem vai acabar se sujando, não é?”

“E se for eu o delator?”

“No momento em que você começar a delação, Kenny joga merda em você. A lbi joga mais merda. Eles têm uma verba imensa alocada só para cobrir de merda quem resolver abrir o bico. E você vai ser o bode expiatório perfeito. O universitário bonitinho que comprou as peças enferrujadas? Até o Post vai acreditar que a culpa é sua. Não que a sua atitude não mereça elogios. Mas recomendo vivamente que você fique de boca fechada.”

Connie conseguiu emprego numa agência de trabalho temporário enquanto esperavam que os oitocentos e cinquenta mil dólares percorressem toda a tubulação do sistema. Joey atravessava os dias vendo tv, jogando videogames e tentando adquirir alguns talentos domésticos, como planejar um jantar e comprar os ingredientes certos, mas uma simples ida ao supermercado o deixava exausto. A depressão que havia anos atocaiava as mulheres à sua volta parecia ter finalmente identificado a presa certa e cravado nele os dentes. A única coisa que tinha certeza de que precisava fazer, contar à sua família que se casara com Connie, não era capaz de ser feita. E essa necessidade preenchia seu apartamento como um caminhão Pladsky A 10, deixando para ele apenas um estreito espaço marginal e ar insuficiente para respirar. Continuava lá quando acordava, e quando ia dormir. Não conseguia imaginar-se dando a notícia para a sua mãe, porque era inevitável que ela percebesse o casamento como um golpe desferido pessoalmente contra ela. O que, de certa maneira, não deixava de ser. Mas Joey não temia menos a conversa com seu pai, a reabertura dessa ferida. E assim, todo dia, enquanto o segredo o sufocava, enquanto imaginava Carol dando com a língua nos dentes e contando tudo para os antigos vizinhos, um dos quais sem dúvida logo daria a notícia para os seus pais, Joey adiava o anúncio por mais um dia. E o fato de Connie jamais lhe cobrar nada só tornava o problema mais exclusivamente dele.

E então certa noite, na cnn, ele viu a notícia de uma emboscada perto de Fallujah em que vários caminhões americanos tinham quebrado, deixando os motoristas contratados para dirigi-los à mercê dos insurgentes que os chacinaram. Embora não tenha visto nenhum A 10 nas imagens da cnn, ficou tão ansioso que precisou beber até apagar. Acordou poucas horas depois, coberto de suor, quase sóbrio, ao lado de sua mulher, que dormia literalmente como um bebê—com aquela doce quietude de quem confia cegamente no mundo—e entendeu que precisava ligar para seu pai na manhã seguinte. Nada nunca lhe metera tanto medo de alguma coisa quanto de dar esse telefonema. Mas entendia agora que ninguém mais poderia aconselhá-lo quanto ao que fazer, se era o caso de botar a boca no trombone e aguentar as consequências ou ficar calado e embolsar o dinheiro, e que ninguém mais seria capaz de absolvê-lo. O amor de Connie era incondicional demais, o de sua mãe envolvido demais com ela mesma, o de Jonathan, secundário demais. Era para seu pai, homem rigoroso, de princípios, que ele precisava fazer um relato completo. Vinha combatendo aquele homem a vida inteira; agora chegara o momento de admitir que estava derrotado.