Liberdade

Jonathan Franzen · Capítulo 10 de 12 · parte 2/3

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Liberdade

O monstro de Washington

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

“Escute”, disse ele, pondo-se de pé. “Não quero gritar com você. Não com Jessica em casa. Mas você precisa me ajudar e não ficar de falsidade quanto ao que você fez, ou então vou gritar até estourar a porra dos seus ouvidos.”

“Não estou sendo falsa.”

“Estou falando sério”, disse ele. “Não quero gritar com você. Vou sair deste quarto, e nunca mais quero ver você na minha vida. E isso é um pouco problemático, porque eu preciso trabalhar nesta casa, de modo que para mim não seria muito fácil sair daqui.”

“Eu sei, eu sei”, disse ela. “Eu sei que preciso ir embora. Só vou esperar Jessie sair, e depois desapareço da sua vida. Entendo perfeitamente como você está se sentindo. Mas preciso dizer só uma coisa antes de ir, para você saber. Quero que você saiba que para mim é igual a ser apunhalada no coração ir embora e deixar você com a sua assistente. É igual a sentir a pele ser arrancada dos meus seios. Eu não aguento, Walter.” Olhou para ele com olhos súplices. “Estou tão magoada e com tanto ciúme. Não sei o que fazer.”

“Você vai dar algum jeito.”

“Talvez. Algum dia. Um pouco. Mas você não percebe o que significa eu estar sentindo isso agora? Não vê que isso diz claramente quem eu amo? Não vê o que na verdade está acontecendo aqui?”

O vislumbre de seus olhos enlouquecidos, a implorar, tornou-se naquele momento tão insuportavelmente doloroso e repulsivo para Walter—produziu nele tamanho paroxismo de náusea cumulativa diante da dor que tinham infligido um ao outro ao longo daquele casamento—que ele começou a gritar, apesar de sua decisão em contrário: “Quem foi que me levou a isso? Quem nunca achou que eu fosse a pessoa certa? Quem precisava sempre de mais tempo para pensar? Você acha que vinte e seis anos foram um tempo razoável para pensar bem? De quanto tempo mais você ainda precisa, cacete? Você acha que alguma coisa me surpreendeu nesse seu texto? Você acha que eu não sabia de tudo a cada minuto de merda da vossa vida? E ainda assim eu continuava te amando, porque era mais forte que eu? E nisso desperdicei minha vida inteira?”

“Ah, isso é injustiça, ah, é injusto.”

“Pois a justiça que se foda! E você que vá se foder também!”

Deu um chute no texto e espalhou suas folhas pelo quarto, mas ainda teve disciplina para não bater a porta com estrondo atrás de si ao sair. No andar de baixo, na cozinha, Jessica estava torrando bagels para todos, com sua sacola de viagem ao lado da mesa. “Onde é que todo mundo se meteu hoje de manhã?”

“Sua mãe e eu tivemos uma briga.”

“Foi o que achei ter ouvido”, disse Jessica com o arregalar de olhos irônico que era sua reação costumeira ao fato de pertencer a uma família ainda menos equilibrada do que ela própria. “E agora está tudo bem?”

“Vamos ver, vamos ver.”

“Pensei em pegar o trem do meio-dia, mas posso embarcar mais tarde se você preferir.”

Como sempre tinha sido mais próximo de Jessica e julgava poder contar com o apoio dela, nem ocorreu a Walter que estivesse cometendo um erro tático ao afastá-la agora e deixá-la partir. Não percebia o quanto era crucial ser o primeiro a lhe contar a novidade e emoldurar devidamente a história: não lhe passou pela cabeça com qual velocidade Patty, com seu instinto de competidora, havia de providenciar a consolidação de sua aliança com a filha, e entupir seus ouvidos com sua versão dos fatos (Papai Larga a Mamãe com um Pretexto Bobo, e Se Pega com a Jovem Assistente). Não conseguia pensar para além do momento, e sua cabeça estava tomada por aquele tipo exato de sentimento que nada tinha a ver com a condição paterna. Abraçou Jessica e agradeceu-lhe profusamente por ter vindo ajudá-lo a dar início à Espaço Livre, e em seguida foi para o seu escritório olhar pela janela. O estado de emergência se atenuara o suficiente para que ele se lembrasse de todo o trabalho que ele devia estar fazendo, mas não o suficiente para que se dedicasse a fazê-lo. Ficou vendo um pássaro-gato saltitando em torno de uma azaleia que se preparava para florescer; invejou o passarinho por não saber o que ele sabia; trocaria de alma com ele sem hesitar. E então alçar voo, conhecer a leveza do ar por uma hora que fosse: faria a troca sem vacilar um segundo, e o pássaro-gato, com sua animada indiferença a ele, a segurança de sua identidade física, parecia consciente de como era preferível ser o passarinho.

Depois de um tempo sobrenaturalmente longo, depois de ouvir o barulho das rodinhas de uma mala grande e a batida da porta da frente, Lalitha veio bater de leve na porta do seu escritório e pôs a cabeça para dentro. “Está tudo bem?”

“Está”, disse ele. “Venha sentar no meu colo.”

Ela ergueu as sobrancelhas. “Agora?”

“É, agora. Se não, quando? Minha mulher foi embora, não é?”

“Foi, ela saiu de casa levando a mala.”

“Bom, ela não vai voltar. Então vamos lá. Por que não? Não tem ninguém mais na casa.”

E ela veio. Não era uma pessoa hesitante, Lalitha. Mas a cadeira de executivo não se prestava muito a receber alguém no colo; ela precisou segurar-se ao pescoço dele para ficar bem sentada, e mesmo assim a cadeira balançou ameaçadoramente: “É isso que você quer?”, perguntou ela.

“Na verdade, não. Não quero ficar neste escritório.”

“Concordo.”

Ele tinha tanta coisa para pensar que sabia que precisaria de várias semanas ininterruptas para digerir, se resolvesse começar àquela altura. A única maneira de não ficar pensando era seguir em frente. No quartinho de teto inclinado em que Lalitha dormia, no último andar, antigo quarto de empregada, que ele nunca fora visitar desde que ela viera morar lá, e cujo chão era uma pista de obstáculos de roupas limpas em pilhas e roupas sujas em outras pilhas, ele a pressionou contra a parede lateral do dormitório e entregou-se às cegas para a única pessoa que o queria incondicionalmente. Era outro estado de emergência, estavam em hora nenhuma de dia algum, era um gesto de desespero. Ele a apoiou em seus quadris e saiu andando em passos difíceis com a boca colada à dela, e em seguida começaram a se esfregar com violência ainda vestidos, e depois adveio uma dessas pausas, uma desconfortável rememoração de como eram universais os passos ascendentes até o sexo; como eram impessoais, ou pré-pessoais. Ele se afastou de modo abrupto, tomando o rumo da cama de solteiro desarrumada, e derrubou uma pilha de livros e documentos relacionados à superpopulação mundial.

“Um de nós dois precisa sair às seis para pegar Eduardo no aeroporto”, disse ele. “Só queria lembrar.”

“Que horas são agora?”

Ele virou o despertador muito empoeirado para verificar. “Duas e dezessete”, admirou-se ele. Era o horário mais estranho que já tinha visto em toda a vida.

“Desculpe o quarto estar tão desarrumado”, disse Lalitha.

“Eu gosto assim. Eu amo seu modo de ser. Está com fome? Estou com um pouco de fome.”

“Não, Walter.” Ela sorriu. “Não estou com fome. Mas posso ir buscar alguma coisa para você.”

“Eu estava pensando em alguma coisa como um copo de leite de soja. De alguma bebida à base de soja.”

“Vou pegar.”

Ela desceu as escadas, e era estranho pensar que os passos que ele ouviu subindo de volta os degraus, um minuto mais tarde, eram da pessoa que tomaria o lugar de Patty na vida dele. Ela se ajoelhou a seu lado e ficou olhando firme, faminta, enquanto ele tomava o leite de soja. Em seguida ela desabotoou a camisa dele com seus dedos ágeis de unhas pálidas. Está certo, então, pensou ele. Está certo. Vamos em frente. Mas enquanto acabava de se despir, as cenas da infidelidade de sua mulher, que ela havia narrado de forma tão exaustiva, voltaram a assolá-lo, trazendo com elas um impulso tênue mas concreto de perdoá-la; e ele sabia que precisava esmagar aquele impulso. Seu ódio por ela e por seu amigo tinha acabado de nascer e entrar em movimento, ainda não havia endurecido, a visão e os sons lastimáveis do pranto de Patty ainda estavam frescos demais em sua memória. Por sorte Lalitha tinha se despido e ficado apenas com uma calcinha branca de bolinhas vermelhas e, despreocupada, de pé ao lado dele, se deixava inspecionar. O corpo de Lalitha, em sua juventude, era incrivelmente espetacular. Sem marcas, desafiando a gravidade, quase intolerável de contemplar. É verdade que no passado ele conhecera o corpo de uma mulher até bem mais jovem, mas não tinha mais memória disso, ele próprio na ocasião era jovem demais para se dar conta da juventude de Patty. Estendeu a mão e aconchegou em sua palma o montículo quente e vestido entre as pernas de Lalitha. Ela deu um grito abafado, seus joelhos cederam e ela caiu por cima de Walter, banhando o corpo dele com um doce martírio.

Foi aí que o esforço para não fazer comparações começou a sério, antes de mais nada um esforço para tirar da cabeça a frase de Patty: “E nem era tão ruim”. Agora, em retrospecto, via que seu pedido anterior para que Lalitha fosse devagar com ele era baseado num autoconhecimento bem preciso. Mas ir devagar, depois que ele pusera Patty para fora de casa, não era mais possível. Ele precisava de alívio rápido simplesmente para poder continuar funcionando—para não ser totalmente arrasado pelo ódio ou pela autocomiseração— e, de certa forma, o alívio foi de fato muito agradável, pois Lalitha era mesmo louca por ele, quase literalmente gotejante de desejo, sem dúvida amplamente lubrificada de paixão. Ela olhava nos olhos dele com amor e alegria, sentenciando que era linda, perfeita e magnífica a masculinidade que Patty, em seu documento, tinha difamado e desprezado. Do que não gostar nessa situação? Ele era um homem em pleno vigor, ela era linda, jovem e insaciável; e era disso, na verdade, que se podia não gostar. As emoções dele não tinham como se manter à altura do vigor e da urgência da atração animal que havia entre eles, a interminabilidade de sua conjunção carnal. Ela precisava vir por cima, ela precisava ser esmagada debaixo do peso dele, ela precisava debruçar-se para fora da cama, ela precisava ter o rosto pressionado contra a parede, ela precisava rodeá-lo com suas pernas, atirar a cabeça para trás e ter seus seios muito redondos agitados em todas as direções. Tudo parecia intensamente significativo para ela, ela era um poço sem fundo de sons angustiados, e ele estava disposto a tudo. Em boa forma cardiovascular, encantado com a extravagância de Lalitha, procurando captar cada uma das suas vontades, e sentindo por ela um afeto profundo. Ainda assim, não era propriamente pessoal, e ele não conseguiu começar sua escalada para o orgasmo. E isso era muito estranho, um problema novo e imprevisto, devido em parte, talvez, à sua pouca familiaridade com o uso de camisinha, e ao quanto ela estava incrivelmente molhada. Quantas vezes, nos últimos dois anos, ele tinha se masturbado pensando em sua assistente, todas as vezes gozando em poucos minutos? Mais de cem. Seu problema, agora, era claramente psicológico. O despertador dela marcava 3:52 quando eles por fim desistiram. Não ficou muito claro se ela também tinha gozado, e ele não teve a coragem de perguntar. E então, quando ele ficou exausto, o Contraste que o espreitava de tocaia aproveitou a oportunidade para se manifestar, porque Patty, sempre que conseguia convencer-se de que estava interessada, nunca deixara de dar conta do recado para os dois, deixando ambos razoavelmente satisfeitos, deixando-o à vontade para ir trabalhar ou ler um livro, e ela pronta para as pequenas coisas pattyescas que tanto gostava de fazer. A dificuldade dela já bastava para criar atrito, e o atrito levava à satisfação...

Lalitha beijou a boca inchada de Walter. “No que você está pensando?”

“Não sei”, disse ele. “Em muitas coisas.”

“Está arrependido do que a gente fez?”

“Não, não, estou muito feliz.”

“Pois não me parece muito feliz.”

“Bem, é que acabei de botar minha mulher para fora de casa depois de vinte e quatro anos de casamento. Faz poucas horas.”

“Sinto muito, Walter. Você ainda pode voltar atrás. Eu vou embora e deixo vocês dois à vontade.”

“Não, isso eu posso lhe garantir. Nunca vou voltar atrás.”

“E você quer ficar comigo?”

“Quero.” Ele encheu as mãos com os cabelos negros de Lalitha, que cheiravam a xampu de coco, e enterrou o rosto neles. Agora tinha o que queria, mas se sentia um tanto solitário. Depois de tanto desejo, um desejo de alcance quase infinito, estava na cama com uma determinada garota finita que era linda, inteligente e esforçada mas também bagunceira, hostilizada por Jessica e incapaz de cozinhar coisa alguma. E era tudo que restava a ele, o único baluarte, entre ele e as inúmeras coisas que ele não queria. A imagem de Patty com seu amigo à beira do lago Sem Nome; o caráter muito humano e inteligente das conversas entre os dois; a reciprocidade adulta do sexo que praticavam; o quanto se sentiam gratos por ele, Walter, não estar presente. Começou a chorar nos cabelos de Lalitha, e ela o consolava, apagando com os dedos cada uma das lágrimas dele, e tornaram a transar num modo mais cansado e dolorido, até ele finalmente gozar, sem muita fanfarra, na mão dela.

Seguiram-se dias difíceis. Eduardo Soquel, ao chegar da Colômbia, foi recebido no aeroporto e instalado no quarto “de Joey”. A coletiva de segunda-feira foi prestigiada por doze repórteres e não acabou com Walter e Soquel, que em seguida deram uma longa entrevista telefônica a Dan Caperville, do New York Times. Walter, graças a uma vida inteira trabalhando no campo das relações públicas, conseguiu conter seu tumulto interno e persistir na transmissão da sua mensagem, deixando de cair nas armadilhas do jornalismo mais inflamatório. O Parque Pan-Americano da Mariquita-Azul, disse ele, representava um novo paradigma da conservação ambiental, na ciência e sustentado por capitais privados; a inegável feiura da mineração a céu aberto no topo das montanhas era mais que compensada pela perspectiva dos “empregos verdes” sustentáveis (ecoturismo, reflorestamento, extração sustentável e controlada de madeira) tanto na Virgínia Ocidental quanto na Colômbia; Coyle Mathis e os demais habitantes das montanhas transferidos para outras áreas tinham cooperado plena e louvavelmente com o Fundo e sua parceira, a lbi. Walter precisou exercer um autocontrole especial para tecer elogios à lbi, diante do que Joey lhe contara. Quando desligou o telefone, encerrando a conversa com Dan Caperville, saiu tarde para jantar com Lalitha e Soquel e tomou duas cervejas, levando o consumo de sua vida ao total de três.

Na tarde seguinte, depois que Soquel voltou para o aeroporto, Lalitha trancou a porta do escritório de Walter e se ajoelhou entre as pernas dele, disposta a recompensá-lo por seus labores.

“Não, não, não”, disse ele, impelindo a cadeira de rodinhas para longe dela.

Ela o perseguiu, de joelhos. “Só quero ver você. Você me deixa faminta.”

“Lalitha, não.” Ouvia os membros de sua equipe entregues às suas tarefas na parte da frente da casa.

“Só um segundinho”, disse ela, abrindo o zíper de suas calças. “Por favor, Walter.”

Ele pensou em Bill Clinton e Monica Lewinsky, e depois, ao ver a boca de sua assistente preenchida por sua carne e com os olhos a se erguer sorrindo para ele, lembrou da profecia de seu amigo maligno. Ela parecia estar adorando, mas mesmo assim—

“Não, sinto muito”, disse ele, empurrando-a com a maior delicadeza de que era capaz.

Ela franziu o sobrolho. Ficou magoada. “Você tem de deixar eu fazer o que quero”, disse ela, “se você me ama.”

“Eu amo você, mas agora é o momento errado.”

“Mas eu quero que você deixe. Quero fazer tudo agora.”

“Sinto muito, mas não.”

Ele se levantou, pôs-se de novo para dentro das calças e puxou o zíper. Lalitha continuou ajoelhada por mais alguns momentos, de cabeça baixa. Em seguida, levantou-se também, alisou a saia nas coxas e lhe deu as costas, com uma postura de infelicidade.

“Antes nós precisamos conversar sobre um problema”, disse ele.

“Está bem. Vamos conversar sobre o seu problema.”

“O problema é que precisamos demitir Richard.”

O nome, que até esse momento ele se recusara a pronunciar, ficou pairando na atmosfera da sala. “Mas por quê?”, perguntou Lalitha.

“Porque eu odeio esse sujeito, porque ele teve um caso com a minha mulher, e nunca mais quero ouvir o nome dele, e nada no mundo pode me fazer trabalhar com ele.”

Lalitha deu a impressão de se encolher ao ouvir a explicação. Sua cabeça pendeu, seus ombros desabaram, ela se transformou numa garotinha triste. “Foi por isso que sua mulher saiu daqui no domingo?”

“Foi.”

“Você ainda é apaixonado por ela, não é?”

“Não!”

“É sim. É por isso que não quer que eu chegue perto de você agora.”

“Não, não é nada disso. Absolutamente nada disso.”

“Bom, seja como for”, disse ela, endireitando o corpo de repente, “não podemos demitir Richard. O projeto é meu, e eu preciso dele. Já anunciei a presença dele para os estagiários, e preciso que ele consiga artistas para cantar em agosto. Então você pode ter os seus problemas com ele, e ficar muito triste por causa da sua mulher, mas não vou dispensar Richard.”

“Meu amor”, disse Walter. “Lalitha. Eu realmente te amo. Tudo vai dar certo. Mas tente ver a coisa do meu ponto de vista.”

“Não!”, disse ela, avançando para ele num espírito de franca insurreição. “Estou me lixando para o seu ponto de vista! A minha tarefa é cuidar do nosso trabalho contra o excesso de população, e é isso que eu vou fazer. Se você ainda gosta desse trabalho, e de mim, tem de me deixar fazer o que eu acho melhor.”

“Eu gosto. Gosto muito. Mas...”

“Mas coisa nenhuma. Nunca mais volto a dizer o nome dele. Você pode sair da cidade quando ele vier se reunir com os estagiários em maio. E depois pensamos como vai ser em agosto, quando ele chegar aqui.”

“Mas ele não vai mais querer fazer nada. No sábado já estava falando em dar para trás.”

“Eu falo com ele”, disse ela. “Como você talvez lembre, tenho algum talento para convencer as pessoas a fazer o que não querem. Sou uma funcionária particularmente eficiente, e espero que você tenha a bondade de me deixar fazer o meu trabalho.”

Ele deu a volta em sua mesa para abraçá-la, mas ela fugiu para a sala de espera.

Como ele amava o espírito e o empenho dela, e como ficou impressionado com sua raiva, não tornou a tocar no assunto. Mas à medida que o tempo ia passando, depois os dias, e ela não lhe transmitia que Richard estava se retirando da Espaço Livre, Walter deduziu que ele devia ter permanecido a bordo. Richard, que não acreditava em porra nenhuma! A única explicação imaginável era que Patty tivesse conversado com ele pelo telefone, deixando-o tão culpado que ele permanecera no projeto. E a ideia de que esses dois ainda se falassem sobre o que fosse, ainda que por apenas cinco minutos, e em especial sobre a ideia de poupar “o pobre Walter” (ah, essas palavras dela, essas palavras abomináveis) e salvar seu projeto de estimação, como uma espécie de prêmio de consolação, o deixava enjoado de fraqueza, degradação, tibieza e pequenez. E o assunto também se interpôs entre ele e Lalitha. Suas transas, embora diárias e duradouras, eram prejudicadas pela sensação de que ela também o tinha traído com Richard, pelo menos um pouco, de maneira que não se tornaram mais pessoais da maneira como ele esperava. Para qualquer lado que ele se virasse, dava de cara com Richard.

Igualmente perturbador, só que de outra maneira, era o problema da lbi. Joey, quando jantaram juntos, com uma comovente demonstração de humildade e autocensura, explicara o negócio sórdido em que tinha se envolvido, e o pior vilão da história, na opinião de Walter, era a lbi. Kenny Bartles era claramente um desses palhaços mais atrevidos, um sociopata da gangue Bush que pouco depois acabaria na cadeia ou numa cadeira do Congresso. A quadrilha Cheney-Rumsfeld, por mais que cheirassem mal os motivos que apresentou para invadir o Iraque, certamente teria preferido receber peças usadas mas utilizáveis de caminhão, no lugar do lixo que Joey tinha despachado do Paraguai. E o próprio Joey, embora devesse ter cuidado de não se envolver com Bartles, convencera Walter de que só fora adiante por causa de Connie; sua lealdade a ela, seu remorso terrível e sua coragem no geral (tinha apenas vinte anos de idade!) depunham todos a seu favor. A responsável por aquilo tudo, portanto—quem tinha pleno conhecimento da falcatrua e, ao mesmo tempo, a autoridade para aprová-la —, era a lbi. Walter nunca ouvira falar do vice-presidente com quem Joey tinha conversado, e que o ameaçara de processo, mas não havia dúvida de que o sujeito trabalhava no mesmo corredor que o amiguinho de Vin Haven que tinha concordado com a criação de uma fábrica de coletes à prova de balas na Virgínia Ocidental. Joey perguntou a Walter, no jantar, o que devia fazer, na opinião dele. Pôr a boca no trombone? Ou simplesmente doar seus ganhos para alguma organização de amparo a ex-combatentes inválidos, e retomar os estudos? Walter prometeu pensar a respeito durante o fim de semana, mas o fim de semana, para dizer o mínimo, não tinha sido muito favorável à reflexão moral serena. Foi só quando se viu diante dos jornalistas na manhã de segunda, descrevendo a lbi como uma empresa extraordinariamente positiva para o meio ambiente, que Walter teve a dimensão do seu próprio envolvimento.

E tentou, a partir de então, separar seus próprios interesses—o fato de que, se o filho do diretor executivo do Fundo revelasse sua história aos meios de comunicação, Vin Haven bem podia demiti-lo e a lbi podia até voltar atrás em seu acordo quanto à Virgínia Ocidental—do que era melhor para Joey. Por mais que os atos de Joey tenham sido arrogantes e dominados pela cobiça, parecia severo demais esperar que um garoto de vinte anos com pais problemáticos assumisse plena responsabilidade moral e se submetesse ao opróbrio generalizado, talvez até a um processo judicial. Ainda assim, Walter sabia que o conselho que pretendia dar a Joey—“Doe o lucro para a caridade, e siga em frente com a sua vida”—era extremamente benéfico para ele próprio e para o Fundo. Quis pedir a orientação de Lalitha, mas prometera a Joey não contar nada a ninguém; ligou para o filho e disse que ainda estava pensando no assunto, e convidou ele e Connie para um jantar com ele em seu aniversário, na semana seguinte.

“Sem a menor dúvida”, respondeu Joey.

“E também preciso lhe contar”, disse Walter, “que sua mãe e eu nos separamos. É uma notícia difícil, mas aconteceu no domingo. Ela saiu de casa por algum tempo, e não sabemos bem o que vai acontecer agora.”

“Tá”, disse Joey.

Tá? Walter franziu a testa. “Você entendeu o que eu disse?”

“Entendi. Ela já me contou.”

“Ah, sim. Claro. Só podia. E ela—”

“Sim. Me contou muita coisa. Muito mais do que devia, como sempre.”

“E então você entende que eu—”

“Sim.”

“E ainda assim aceita vir jantar comigo no meu aniversário?”

“Claro. Nós vamos, sem a menor dúvida.”

“Ora, obrigado, Joey. Te amo por isso. E por muitas outras coisas.”

“Tá.”

Em seguida Walter deixou um recado no telefone de Jessica, como vinha fazendo duas vezes por dia desde o domingo fatídico, sem que ela respondesse. “Jessica, escute aqui”, disse ele. “Não sei se você conversou com a sua mãe, mas diga ela o que disser você precisa ligar para mim e ouvir o que eu tenho a dizer. Entendeu? Por favor, ligue para mim. Essa história tem dois lados muito diferentes, e acho que você precisa ouvir os dois.” Teria ajudado se ele pudesse acrescentar que não havia nada entre ele e sua assistente, mas, na verdade, suas mãos, seu rosto e seu nariz estavam tão impregnados com o cheiro da vagina dela que o aroma persistia mesmo depois que ele tomava banho.

Ele estava comprometido, e perdendo em todas as frentes. Mais um revés ocorreu no segundo domingo de sua libertação, na forma de uma longa reportagem de primeira página no New York Times, escrita por Dan Caperville. “Fundação Aliada à Indústria Carvoeira Salva Montanhas pela Destruição.” A reportagem nem era factualmente muito equivocada, mas é claro que o Times não se deixara fascinar pela visão diversa que Walter tinha da mineração a céu aberto. A frente sul-americana do Parque nem era mencionada no artigo, e os melhores pontos da argumentação de Walter—novo paradigma, economia verde, recuperação em bases científicas—apareciam sepultados no pé da página, muito abaixo da descrição que Jocelyn Zorn fazia de como ele tinha gritado “sou eu o dono dessa [expletivo] toda!” e da rememoração de Coyle Mathis, “Ele me chamou de imbecil na minha cara”. A mensagem básica do artigo, além da afirmação de que Walter era uma pessoa extremamente desagradável, era que o Fundo tinha uma relação espúria com a indústria carvoeira e a fornecedora de equipamento militar lbi, consentia com a mineração a céu aberto em larga escala em sua reserva supostamente intacta, era odiado pelos ambientalistas locais, tinha expulsado de suas residências ancestrais vários moradores tradicionais da área e fora fundado e financiado por um discreto magnata da indústria energética, Vincent Haven, que, com a conivência do governo Bush, vinha destruindo outras áreas da Virgínia Ocidental com perfurações à procura de gás.

“Não é tão mau assim, não é tão mau assim”, respondeu Vin Haven quando Walter ligou para sua casa em Houston na tarde de domingo. “O parque vai ser criado de qualquer maneira, isso ninguém pode impedir. Você e a sua garota fizeram um ótimo trabalho. Quanto ao resto, agora você pode ver por que eu nunca me dou ao trabalho de conversar com a imprensa. Eles só enxergam o lado negativo, nada de bom.”

“Conversei com Caperville por duas horas”, disse Walter. “E fiquei com a impressão de que ele concordava comigo nos argumentos mais importantes.”

“Bem, e os seus argumentos estão na matéria”, comentou Vin. “Embora meio escondidos. Mas não se preocupe com isso.”

“Mas já estou preocupado! Quer dizer, nós vamos conseguir criar o parque, o que é ótimo para as mariquitas. Mas a ideia era estabelecer um modelo. E a matéria mostra um modelo de como não fazer as coisas.”

“Isso passa. Depois que tirarmos o carvão e começarmos a recuperar a área, as pessoas vão ver que você tinha razão. A essa altura, esse tal de Caperville vai estar escrevendo obituários.”

“Mas isso vai levar vários anos!”

“Você tem algum outro plano? É disso que está falando? Está preocupado com o seu currículo?”

“Não, Vin, só estou frustrado com a imprensa. Os passarinhos nem são levados em conta, só os interesses humanos.”

“E vai ser assim, até os passarinhos conseguirem controlar a imprensa”, replicou Vin Haven. “Encontro você em Whitmanville mês que vem? Eu disse a Jim Elder que ia aparecer na inauguração da fábrica de coletes à prova de balas, contanto que não tenha de posar para nenhuma foto. Posso passar por aí com meu jato e pegar você no caminho.”

“Obrigado, pegamos um voo comercial”, disse Walter. “Economia de combustível.”

“Não se esqueça de que eu ganho a vida vendendo combustível.”

“É mesmo, rá rá, bem lembrado.”

Era uma boa coisa contar com a aprovação paternal de Vin, mas teria sido bem melhor se Vin desse a impressão de um pai menos dúbio. O pior daquele artigo do New York Times—além da vergonha de figurar como um escroto num jornal que liam e em que confiavam todos os conhecidos de Walter—era seu receio de que o Times, na verdade, tivesse toda a razão quanto ao Fundo da Montanha Azul. Bem que ele sentira medo de ser trucidado pela imprensa, e agora que estava sendo trucidado precisava cuidar mais seriamente dos seus motivos para cultivar esse temor.

“Ouvi tudo quando você deu essa entrevista”, disse Lalitha. “E você falou muito bem. O único motivo para o New York Times não admitir que temos razão é que nesse caso eles precisariam voltar atrás em todos os editoriais que já publicaram contra a mineração a céu aberto.”

“E já é o que estão fazendo quanto à política de Bush no Iraque, na verdade.”

“Bem, você cumpriu o seu dever. E agora você e eu merecemos a nossa pequena recompensa. Você contou ao senhor Haven que vamos seguir em frente com a Espaço Livre?”

“Já estava achando uma sorte não ter sido simplesmente demitido”, respondeu Walter. “Não me pareceu que fosse o melhor momento para contar a ele que planejava gastar todos os recursos à minha disposição numa coisa que deve render uma publicidade ainda pior.”

“Ah, meu querido”, disse ela, abraçando-o, pousando a cabeça contra seu peito. “Ninguém mais entende as coisas boas que você está fazendo. Só eu.”

“Bem que pode ser verdade”, admitiu ele.

Ele preferia ser só abraçado por ela durante algum tempo, mas o corpo dela teve uma ideia diferente, e seu próprio corpo concordou. Vinham passando as noites na cama estreita que ela ocupava, já que o quarto dele ainda continuava repleto de vestígios de Patty, quarto sobre cujo destino ela não lhe dera nenhuma instrução, e que ele não tinha condições de resolver sozinho. Não era surpresa para ele que Patty não tivesse feito contato, mas ainda assim lhe parecia um movimento tático da parte dela, uma manobra hostil, não dar sinal de vida. Para uma pessoa que, em suas próprias palavras, só cometia erros, ela lançava uma sombra atemorizante enquanto se deslocava fosse por onde fosse no mundo. Walter se sentia um covarde escondido no quarto de Lalitha, porém o que mais poderia fazer? Estava sitiado por todos os lados.

No dia do seu aniversário, enquanto Lalitha mostrava os escritórios do Fundo a Connie, ele levou Joey até a cozinha e disse que ainda não sabia que linha de ação devia recomendar. “Acho que você não devia denunciar o esquema”, disse ele. “Mas não sei se estou agindo pelos motivos certos. Acho que não ando muito seguro dos meus valores morais. Essa história com a sua mãe, e mais a coisa que saiu no New York Times—você viu a matéria?”

“Vi”, respondeu Joey. Tinha as mãos enfiadas nos bolsos e ainda se vestia como um Universitário Republicano, de blazer azul e mocassins reluzentes. Até onde Walter sabia, continuava a ser um Universitário Republicano.

“Não me saí muito bem, não foi?”

“Não”, disse Joey. “Mas acho que muita gente percebeu que o artigo não foi justo.”

Walter, sem perguntar mais nada, aceitou com gratidão o consolo do filho. Vinha se sentindo minúsculo. “E ainda preciso ir a essa cerimônia da lbi na Virgínia Ocidental na semana que vem”, disse ele. “Estão inaugurando uma fábrica de coletes à prova de balas em que todas as famílias transferidas da área do parque vão trabalhar. Por isso acho que não sou a pessoa certa para você pedir opinião sobre a lbi, também estou muito envolvido com a empresa.”

“E por que você precisa ir?”

“Preciso fazer um discurso. Preciso fazer um agradecimento em nome do Fundo.”

“Mas você já garantiu a construção do parque. Por que não esquece o resto?”

“Porque ainda tenho outro programa grande que Lalitha vem tocando, sobre o excesso populacional, e preciso manter boas relações com o meu empregador. O dinheiro que estamos gastando é dele.”

“Então talvez seja melhor mesmo você ir”, disse Joey.

Mas não parecia nada convencido, e Walter detestava transmitir tamanha impressão de fraqueza e pequenez para o filho. Mas como que para passar uma impressão ainda mais fraca e ainda menor, perguntou se ele sabia qual era o problema de Jessica.

“Conversei com ela”, disse Joey, com as mãos ainda nos bolsos e os olhos pregados no chão. “Acho que ela está meio furiosa com você.”

“Deixei uns vinte recados no telefone dela!”

“Talvez fosse melhor você parar com isso. Acho que ela não ouviu nenhum. As pessoas nunca escutam mesmo todos os recados que recebem no telefone, só olham para ver quem ligou.”

“Bem, e você disse a ela que essa história tem dois lados?”

Joey deu de ombros. “Não sei. Tem mesmo?”

“Claro que tem! Sua mãe fez uma coisa terrível comigo. Uma coisa que me magoou muito.”

“Na verdade, não quero saber de mais nada”, disse Joey. “Acho que ela já me contou, de qualquer maneira. Prefiro não tomar partido.”

“Ela te contou quando? Há quanto tempo?”

“Semana passada.”

Quer dizer que Joey sabia o que Richard tinha feito—o que Walter tinha deixado seu melhor amigo, seu amigo astro do rock, fazer. Seu apequenamento aos olhos de seu filho não poderia ser maior. “Vou tomar uma cerveja”, disse ele. “Já que é meu aniversário.”

“Eu e Connie também podemos tomar uma?”

“Claro, foi para isso que pedi a vocês para passarem aqui antes. Na verdade, Connie pode beber o que ela quiser no restaurante também. Ela já tem vinte e um anos, não é?”

“É.”

“E não estou querendo insistir, só pedir uma informação: você contou à sua mãe que vocês se casaram?”

“Papai, estou procurando um jeito”, respondeu Joey contraindo o maxilar. “Me deixe fazer como puder, está bem?”

Walter sempre tinha gostado de Connie (e até, em segredo, gostava bastante da mãe de Connie, pelo quanto ela flertava com ele). Ela usava saltos perigosamente altos e uma sombra pesada sobre os olhos para a ocasião; ainda era jovem a ponto de querer parecer muito mais velha. No La Chaumière, ele observou com o coração cheio de orgulho o quanto Joey a tratava com cuidado e ternura, debruçando-se para ler o cardápio com ela e combinar o que iam pedir, e como Connie, já que Joey ainda não tinha idade suficiente, declinou o coquetel que Walter lhe ofereceu e preferiu pedir uma Coca Diet. Tinham uma confiança tácita um no outro que lembrava a Walter o que ocorria entre ele e Patty quando eram muito jovens, o comportamento de um casal unido que fazia frente contra o mundo; seus olhos se toldaram ao ver as alianças dos dois. Lalitha, pouco à vontade, tentando distanciar-se dos jovens e alinhar-se com um homem que tinha quase o dobro da sua idade, pediu um martíni e decidiu preencher o vácuo conversacional com palavras sobre a Espaço Livre e a crise de superpopulação do mundo, as quais Joey e Connie ouviram com a extrema cortesia de um casal seguro em seu mundo de duas pessoas. Embora Lalitha evitasse referências ao seu envolvimento com Walter, ele não tinha a menor dúvida de que Joey sabia que ela era bem mais que apenas sua assistente. Enquanto tomava sua terceira cerveja da noite, foi sentindo uma vergonha cada vez maior do que tinha feito, e uma gratidão cada vez maior por Joey se mostrar tão inalterado a respeito. Nada o enfurecia mais em relação a Joey, ao longo do tempo, que aquela casca de indiferença; e agora, como ela despertava sua gratidão! Seu filho tinha vencido essa guerra, ainda bem.

“Quer dizer que Richard ainda está trabalhando com vocês?”, perguntou Joey.

“Hum, está”, disse Lalitha. “Está ajudando muito. Na verdade, acabou de me contar que o White Stripes talvez colabore com o grande evento que estamos organizando em agosto.”

Joey, enquanto franzia as sobrancelhas e refletia a respeito da informação, teve o cuidado de não olhar na direção de Walter.

“A gente bem que podia ir ao evento”, disse Connie a Joey. “Podemos ir?”, perguntou ela a Walter.

“Claro que podem”, disse ele, forçando um sorriso. “Vai ser muito bom.”

“Eu gosto muito do White Stripes”, declarou ela satisfeita, a seu modo desprovido de subtexto.

“E eu gosto muito de você”, disse Walter. “Fico muito feliz de você fazer parte da nossa família. Fico muito feliz de você estar conosco hoje.”

“Eu também estou feliz de ter vindo.”

Joey não se incomodou com aquela conversa sentimental, mas estava claro que seus pensamentos estavam longe dali. Pensava em Richard, na sua mãe, na calamidade familiar em curso. E não havia nada que Walter pudesse dizer para facilitar as coisas para ele.

“Não posso”, disse Walter a Lalitha quando voltaram para a mansão, sozinhos. “Não posso mais aceitar o envolvimento desse escroto.”

“Já tivemos essa discussão”, respondeu ela, atravessando o corredor a passos rápidos na direção da cozinha. “Já resolvemos o assunto.”

“É, mas agora precisamos rediscutir”, disse Walter, caminhando atrás dela.

“Não vamos rediscutir nada. Não viu como Connie ficou animada na hora em que eu falei do White Stripes? Quem mais pode conseguir artistas como eles para nós? Tomamos a nossa decisão, decidimos bem, e realmente não quero ficar ouvindo você falar do quanto sente ciúme da pessoa com quem sua mulher transou. Estou cansada, bebi demais e preciso ir para a cama agora mesmo.”

“Ele era meu melhor amigo”, murmurou Walter.

“Estou pouco ligando. Juro, Walter. Eu sei que você acha que eu sou só mais uma garota, mas na verdade eu sou mais velha que os seus filhos, tenho quase vinte e oito anos. Sei que foi um erro me apaixonar por você. Sei que você não estava preparado, mas agora estou apaixonada e você não para de pensar nela.”

“Penso em você o tempo todo. Preciso muito de você.”

“Você transa comigo porque eu quero e porque você pode. Mas nosso mundo ainda gira em torno da sua mulher. O que ela tem de tão especial, eu nunca vou entender. Ela passa a vida inteira perturbando os outros. E eu preciso ser um pouco poupada disso, para poder dormir. Então talvez seja melhor você ir dormir na sua cama, e pensar no que quer fazer.”

“O que foi que eu disse?”, retrucou ele. “Achei que meu aniversário estava correndo bem.”

“Estou cansada. Foi uma noite exaustiva. Amanhã de manhã a gente se vê.”

E se despediram sem beijos. No seu telefone fixo, Walter encontrou um recado de Jessica, cuidadosamente calculado para ser gravado enquanto ele saía para jantar, desejando-lhe um feliz aniversário. “Desculpe por não ter respondido aos seus recados”, disse ela. “Tenho andado muito ocupada, e sem saber direito o que dizer. Mas pensei muito em você hoje, e espero que o seu dia tenha sido bom. Talvez a gente possa conversar um dia, mas não sei quando vou ter uma oportunidade.”

Clique.

Para Walter, foi um alívio dormir sozinho ao longo da semana seguinte. Estar num quarto ainda repleto das roupas, dos livros e das fotos de Patty, aprender a reforçar suas defesas contra ela. Durante o dia, havia muito trabalho adiado a fazer: organizar estruturas de administração na Colômbia e na Virgínia Ocidental, lançar uma contraofensiva de imprensa, encontrar novos doadores. Walter até pensou que seria possível parar de transar com Lalitha por algum tempo, mas a propinquidade diária impedia essa possibilidade—estavam sempre, sempre querendo mais. No entanto, ele sempre voltava à sua própria cama para dormir.

Na noite antes de voarem para a Virgínia Ocidental, ele estava arrumando sua maleta quando recebeu uma ligação de Joey, contando que decidira não denunciar a lbi e Kenny Bartles. “São nojentos”, disse ele. “Mas meu amigo Jonathan não para de dizer que só vou prejudicar a mim mesmo se sair falando em público. Então acho que vou distribuir o lucro, o que pelo menos vai diminuir muito meu imposto a pagar. Mas eu queria ter a certeza de que você concorda.”

“Está ótimo, Joey”, disse Walter. “Estou de acordo. Eu sei que você é muito ambicioso, sei que deve ser muito difícil abrir mão de tanto dinheiro. Já é muita coisa, só aí.”

“Bem, não vou perder nada no negócio. Só não vou lucrar. E agora Connie pode voltar a estudar, o que é ótimo. Estou pensando em tirar um ano para trabalhar, assim ela me alcança.”

“Ótimo. É ótimo ver vocês dois cuidando assim um do outro. Mais alguma coisa?”

“Bom, só que eu estive com a mamãe.”

Walter ainda tinha na mão duas gravatas, uma vermelha e outra verde, entre as quais tentava se decidir. A escolha, concluiu ele, não tinha a menor importância. “Foi mesmo?”, disse ele, escolhendo a verde. “Onde? Em Alexandria?”

“Não, em Nova York.”

“Quer dizer que ela está em Nova York.”

“Na verdade, está em Jersey City”, disse Joey.

O aperto no peito de Walter ficou mais forte.

“É, Connie e eu queríamos contar para ela em pessoa. Sobre o nosso casamento, sabe. E no fim das contas nem foi muito complicado. Ela tratou Connie muito bem. Sabe, ainda de cima para baixo, uma coisa um pouco forçada, o jeito como ela não parava de rir, mas sem maldade. Acho que ela está absorvida em muitas outras coisas. De qualquer maneira, acho que correu muito bem. Pelo menos foi o que Connie achou. Achei meio nhe-nhe-nhem. Mas queria dizer a você que ela já sabe, para se, sei lá, você conversar com ela, não ficar achando que precisa guardar segredo.”

Walter olhou para a sua mão esquerda, que tinha ficado branca e lhe parecia muito nua sem a aliança de casado. “Ela está na casa de Richard”, conseguiu dizer.

“Hum, é, acho que sim, por enquanto”, respondeu Joey. “Era melhor eu não ter contado?”

“E ele estava lá? Quando vocês foram se encontrar com ela?”

“É, estava. E Connie achou ótimo, porque ela gosta muito das músicas dele. Ele deixou ela ver as guitarras e violões que ele tem e tudo o mais. Não sei se eu já te contei que ela está pensando em aprender a tocar violão. Ela tem uma voz linda, e canta muito bem.”

Onde exatamente Walter vinha achando que Patty estava ele não saberia dizer. Na casa da amiga Cathy Schmidt, com alguma das outras antigas companheiras de time, talvez com Jessica, até quem sabe com os pais. Mas depois de ouvi-la proclamar com um tom tão convicto que estava tudo terminado entre ela e Richard, não tinha passado pela cabeça dele nem por um segundo que ela pudesse ter ido para Jersey City.

“Papai?”

“O quê.”

“Bom, eu sei que é estranho, está bem? Essa coisa toda é uma loucura. Mas você também está namorando, não é? Então, quer dizer, está tudo certo, não é? As coisas ficaram diferentes, e todo mundo precisa aprender a lidar com elas. Você não acha?”

“É”, disse Walter. “Você tem razão. Precisamos lidar com as coisas.”

Assim que desligou o telefone, ele abriu uma gaveta com um tranco, tirou sua aliança da caixa de abotoaduras em que tinha guardado, jogou na privada e deu a descarga. Com um movimento largo do braço, derrubou todas as fotos de Patty do tampo da cômoda—Joey e Jessica ainda inocentes, fotos da equipe de basquete feminino com uniformes comoventes no corte dos anos 70, as fotos dele de que ela mais gostava, e nas quais ele aparecia melhor—e depois pisoteou as molduras e os vidros até perder o interesse e começar a bater com a cabeça na parede. Saber que ela tinha voltado para Richard devia tê-lo libertado, devia tê-lo deixado à vontade para desfrutar o romance com Lalitha com a mais limpa das consciências. Mas ele não percebeu aquilo como uma libertação, e sim como a morte. Agora via (como a própria Lalitha vinha vendo desde sempre) que as últimas três semanas tinham sido apenas uma espécie de revanche, um luxo que ele merecia para compensar a traição de Patty. Apesar de insistir em afirmar que o casamento estava acabado, ele próprio não acreditava nisso nem um pouco. Atirou-se na cama e pôs-se a soluçar num estado ao qual todos os estados anteriores da sua existência pareciam infinitamente preferíveis. O mundo seguia em frente, o mundo estava cheio de gente que se dava bem, a lbi e Kenny Bartles fazendo fortuna, Connie voltando a estudar, Joey tomando a decisão certa, Patty indo viver com um astro do rock, Lalitha travando seu bom combate, Richard voltando para a música, Richard recebendo uma cobertura favorável da imprensa por ser muito mais ofensivo do que Walter, Richard encantando Connie, Richard trazendo o White Stripes... enquanto Walter ficava para trás com os mortos, os moribundos e os esquecidos, as espécies ameaçadas do planeta, todas as criaturas que não se adaptaram...

Em torno das duas da manhã, cambaleou até o banheiro e encontrou um frasco antigo da trazodona de Patty, com a validade expirada dezoito meses antes. Tomou três, sem saber se ainda iriam funcionar, mas pelo jeito conservavam suas propriedades: foi acordado às sete da manhã por Lalitha, que o sacudia com toda a força. Ainda vestia as roupas da véspera, as luzes estavam todas acesas, o quarto tinha sido devastado, sua garganta doía com a presumível violência dos seus roncos, e sua cabeça latejava horrivelmente por incontáveis bons motivos.

“Precisamos tomar um táxi agora”, disse Lalitha, puxando Walter pelo braço. “Achei que você já estaria pronto.”

“Não posso ir”, disse ele.

“Vamos, já estamos atrasados.”

Ele se endireitou e tentou manter os olhos abertos. “Antes eu preciso tomar um banho.”

“Não dá tempo.”

Ele adormeceu no táxi e acordou ainda no táxi, a caminho do aeroporto, no engarrafamento causado por algum acidente. Lalitha estava ao telefone com a companhia de aviação. “Agora precisamos fazer escala em Cincinnati”, disse ela a Walter. “Perdemos o nosso voo.”

“Por que simplesmente não deixamos de ir?”, disse ele. “Estou cansado de me comportar sempre bem.”

“Vamos pular o almoço e ir direto para a fábrica.”

“E se eu me comportasse mal? Você ia continuar gostando de mim?”

Ela o olhou com as sobrancelhas franzidas de preocupação. “Walter, você tomou algum remédio?”

“Estou falando sério. Ia continuar gostando?”

A preocupação de Lalitha se intensificou, e ela não disse nada. Ele adormeceu na área do portão de embarque do aeroporto; no avião para Cincinnati; em Cincinnati; no avião para Charleston; e no carro alugado que Lalitha saiu pilotando em alta velocidade até Whitmanville, onde ele acordou se sentindo um pouco melhor, subitamente faminto, sob um céu encoberto de abril e diante de uma paisagem bioticamente deserta do tipo que se transformara numa especialidade americana. Megaigrejas com laterais de plástico, um gigantesco Walmart, uma lanchonete Wendy’s, espaçosos retornos à esquerda, brancas fortalezas automotivas. Nada que uma ave à solta pudesse achar bom, a menos que fosse um estorninho ou um corvo. A fábrica de coletes à prova de balas (arder enterprises, uma empresa da família de empresas lbi) funcionava numa imensa estrutura de blocos de concreto cujo estacionamento recém-asfaltado ainda tinha as bordas irregulares, desembocando no mato. O estacionamento vinha sendo ocupado por veículos de passageiros de grande porte, entre eles um Navigator preto de que Vin Haven e outros homens de terno emergiram no mesmo momento em que Lalitha freou ruidosamente seu carro alugado.

“Desculpe termos perdido o almoço”, disse ela a Vin.

“Acho que a comida do jantar vai ser melhor”, respondeu ele. “E é melhor que seja, depois do que serviram no almoço.”

No interior da fábrica pairavam aromas fortes e agradáveis de tinta, plástico e máquinas novas. Walter percebeu a ausência de janelas, a predominância da iluminação artificial. Cadeiras dobráveis e um pódio tinham sido armados contra um fundo em que assomavam pilhas retangulares de matérias-primas embaladas com plástico. Cerca de cem nativos da Virgínia Ocidental se acotovelavam, entre eles Coyle Mathis, que usava um suéter de malha largo e calças jeans ainda mais largas com uma aparência tão nova como se ele as tivesse comprado no Walmart do meio do caminho. Duas equipes de tv locais tinham suas câmeras assestadas para o pódio e a faixa que pendia acima dele: empregos + segurança nacional = segurança no emprego .

Vin Haven (“Você pode procurar no Nexis a noite inteira sem encontrar uma única declaração à imprensa nos meus quarenta e sete anos de empresário”) sentou-se diretamente atrás das câmeras, enquanto Walter recebia de Lalitha uma cópia do discurso que ele tinha escrito e ela, revisado, e se reunia aos demais executivos de terno—Jim Elder, vice-presidente sênior da lbi, e Roy Dennett, ceo da subsidiária epônima—nas cadeiras atrás do pódio. Na primeira fila da plateia, com os braços cruzados bem alto no peito, estava Coyle Mathis. Walter não o via desde o fatídico encontro entre eles no jardim em frente à casa de Mathis (hoje transformado numa extensão estéril coberta de destroços), que olhava para Walter com uma expressão que lembrava a Walter, mais uma vez, seu próprio pai. A expressão de um homem que tentava barrar, com a ferocidade do seu desprezo, qualquer possibilidade de sentir-se constrangido ou de permitir que Walter se apiedasse dele. O que Walter achava muito triste. Enquanto Jim Elder, ao microfone, começou a louvar os bravos soldados americanos servindo no Iraque e no Afeganistão, Walter dirigiu um sorriso humilde a Mathis, para mostrar que estava triste por ele, triste por eles dois. Mas a fisionomia de Mathis não mudou, e ele não desgrudou os olhos de Walter.

“Acho que vamos ouvir agora algumas informações sobre o Fundo da Montanha Azul”, disse Jim Elder, “responsável por todos esses belos empregos permanentes criados em Whitmanville, beneficiando a economia local. Aplaudam comigo, por favor, Walter Berglund, diretor do Fundo. Walter!”

A tristeza de Walter por Mathis se transformou numa tristeza mais geral, uma tristeza pelo mundo, uma tristeza pela vida. Quando subiu ao pódio, procurou com os olhos Vin Haven e Lalitha, que estavam sentados lado a lado, e dirigiu a cada um dos dois um sorrisinho de remorso e desculpas. Em seguida, curvou-se sobre o microfone.

“Obrigado”, disse ele. “Sejam bem-vindos. E uma saudação especial ao senhor Coyle Mathis e os outros homens e mulheres de Forster Hollow empregados nesta fábrica incrivelmente ineficiente em matéria de consumo de energia. Bem diferente de Forster Hollow, não é?”

Além do zumbido grave do sistema, o único som que se ouvia era o eco de sua voz amplificada. Lançou um breve olhar a Mathis, cuja expressão permanecia congelada no desdém.

“E assim, isso mesmo, bem-vindos”, disse ele. “Bem-vindos à classe média! Era o que eu queria dizer. Mas só rapidamente, antes de seguir adiante, também queria dizer ao senhor Mathis, sentado aqui na primeira fila: sei que você não gosta de mim. E eu também não gosto de você. Mas sabe de uma coisa? Quando você estava se recusando a fazer qualquer negócio conosco, isso era uma coisa que eu respeitava. Não gostava nem um pouco, mas respeitava sua posição. Porque era independente. Entendeu? Porque eu também venho de um lugar um pouco parecido com Forster Hollow, antes de entrar para a classe média. E agora vocês também fazem parte da classe média, e eu queria lhes dar as boas-vindas, porque é realmente uma beleza, a classe média americana. É o esteio das economias de todo o planeta!”

Viu que Lalitha sussurrava no ouvido de Vin.

“E agora que vocês conseguiram esses empregos nesta fábrica de coletes à prova de balas”, continuou ele, “vocês vão poder fazer parte dessas economias. E vocês também vão poder ajudar a transformar em deserto cada palmo de hábitat nativo da Ásia, da África e da América do Sul! Vocês também vão poder comprar tv s de plasma de setenta polegadas que consomem uma quantidade absurda de energia, mesmo quando não estão ligadas! Mas tudo bem, porque foi por isso que pusemos vocês para fora das suas casas, para poder derrubar tudo e arrancar todo o minério das suas montanhas ancestrais, e alimentar os geradores a carvão que são a principal causa do aquecimento global e de outros fenômenos esplêndidos como a chuva ácida. Vivemos num mundo perfeito, não é? E o sistema é perfeito, porque enquanto vocês tiverem as suas tvs de plasma de setenta polegadas, e eletricidade para elas funcionarem, não precisam pensar sobre as consequências trágicas disso tudo. Podem ficar assistindo a Survivor: Indonésia até a Indonésia sumir do mapa!”

Coyle Mathis foi o primeiro a puxar a vaia. E logo imitado por muitos. Perifericamente, por cima do ombro, Walter viu Elder e Dennett se levantando.

Continuar: parte 3 de 3