Liberdade
O monstro de Washington
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
“Só mais uma coisa, bem depressa”, continuou ele, “porque eu quero ser breve. Só mais algumas observações sobre este mundo perfeito. Queria falar desses imensos carros novos que fazem menos de quatro quilômetros por litro e que agora vocês vão poder comprar e dirigir para todo lado, agora que entraram para a mesma classe média da qual eu faço parte. E o nosso país precisa de tantos coletes à prova de balas justamente porque algumas pessoas em certas partes do mundo não querem os americanos roubando todo o petróleo deles para abastecer os nossos veículos. Assim, quanto mais vocês andarem de carro, mais seguros ficam os seus empregos nesta fábrica de coletes à prova de balas! Não é um arranjo perfeito?”
A plateia estava toda de pé, e começara a gritar com ele, mandando que calasse a boca.
“Já chega”, disse Jim Elder, tentando afastá-lo do microfone.
“Só mais uma coisinha!”, exclamou Walter, tirando o microfone do suporte e saindo com ele na mão. “Quero dar-lhes as boas-vindas a esta empresa, uma das mais corruptas e inescrupulosas do mundo inteiro! Estão ouvindo? A lbi está cagando para os seus filhos e suas filhas que estão derramando sangue no Iraque, contanto que continuem recebendo seus lucros de mil por cento! E eu sei disso com certeza! Digo e posso provar! Também faz parte do mundo perfeito de classe média em que vocês estão entrando! Agora que vão trabalhar para a lbi, podem finalmente ganhar dinheiro para não deixar seus filhos entrar para o exército e morrer nos caminhões enguiçados da lbi, com esses coletes vagabundos no corpo!”
O microfone foi cortado, e Walter recuava, tentando fugir do linchamento que se anunciava. “e enquanto isso”, gritou ele, “estamos pondo mais treze milhões de pessoas no mundo a cada mês! treze milhões de seres humanos para matar uns aos outros na disputa pelos recursos naturais! e enquanto isso extinguir todos os outros seres vivos do planeta! a porra do mundo é mesmo perfeita, se vocês não estiverem pensando nas outras espécies que vivem nele! nós somos o câncer do planeta! o câncer do planeta!”
E a essa altura ele tomou um murro no queixo desferido por Coyle Mathis em pessoa. Começou a cair de lado, sua visão sendo invadida por insetos voadores de clarões de magnésio, seus óculos perdidos, e concluiu que talvez já tivesse dito tudo que devia. Estava cercado por Mathis e uma dúzia de outros homens, e eles começaram a infligir-lhe muita dor. Caiu no chão, tentando escapar por entre uma floresta de pernas que lhe desferiam pontapés com seus tênis produzidos na China. Encolheu-se em forma de bola, temporariamente cego e surdo, a boca cheia de sangue, com pelo menos um dente quebrado, absorvendo mais pontapés. Em seguida os chutes foram cessando e outras mãos pousaram nele, inclusive as de Lalitha. Com a volta do som, ele ouvia a voz dela furiosa: “Fiquem longe dele! Fiquem longe dele!”. Ele engasgou e vomitou sangue no chão. Os cabelos de Lalitha roçaram o sangue enquanto ela examinava seu rosto. “Você está bem?”
Ele sorriu o melhor que podia. “Começando a me sentir melhor.”
“Ah, meu chefe. Coitado do meu querido chefe.”
“Me sentindo claramente bem melhor.”
Era a época da migração, do voo, dos cantos e do sexo. Na região neotropical, onde a diversidade era a maior de qualquer ponto da Terra, algumas centenas de espécies de aves se agitam e deixam para trás vários outros milhares de espécies, muitas delas com um parentesco taxonômico bem próximo, que não se incomodam em permanecer no mesmo lugar, coexistindo e se reproduzindo ao calmo ritmo dos trópicos. Entre as centenas de espécies de tanagrídeos, exatamente quatro levantam voo a cada ano rumo à América do Norte, enfrentando os riscos da longa jornada em troca da fartura de alimento e de lugares para construir seus ninhos nos bosques temperados durante o verão. As mariquitas-azuis percorrem os ares ao longo da costa do México e do Texas, espalhando-se pelas florestas decíduas dos Apalaches e dos Ozarks. O beija-flor-de-papo-vermelho engorda graças às flores da província de Veracruz e atravessa mais de mil quilômetros por cima do golfo do México, queimando no processo mais da metade de seu peso corporal, pousando em Galveston para recobrar o fôlego. As andorinhas-do-mar se transferem de uma região subártica à outra, os andorinhões cochilam em pleno voo e nunca pousam, tordos repletos de canto esperam um vento sul e então voam sem parar por doze horas, atravessando vários estados americanos na mesma noite. Os arranha-céus, as linhas de transmissão, as turbinas de vento, as torres de telefonia celular e o tráfego das rodovias determinam a morte de milhões de aves migratórias, mas outros milhões chegam ao destino, muitas delas procurando a mesma árvore em que tinham feito o ninho no ano anterior, a mesma serrania ou o mesmo banhado em que adquiriram a plumagem, e lá, no caso dos machos, começam a cantar. A cada ano, chegam e encontram uma área mais extensa de seu antigo lar pavimentada para estacionamentos ou estradas, ou desmatadas pela madeira, ou loteada, ou devastada em favor da escavação de poços de petróleo ou minas de carvão, ou fragmentada pela construção de shopping centers, ou arada para a produção de etanol, ou amplamente despida de sua cobertura natural para a construção de pistas de esqui, trilhas de mountain bike e campos de golfe. Aves migratórias esgotadas por suas jornadas de quase dez mil quilômetros precisam competir com quem chegou antes pelos poucos farrapos restantes de território; procuram em vão por uma companheira com quem se acasalar, desistem de construir ninhos e subsistem sem se reproduzir, ou são caçadas por esporte por gatos criados à solta. Mas os Estados Unidos ainda são um país rico e relativamente jovem, e bolsões repletos de aves ainda podem ser encontrados por quem sabe onde procurar.
O que Walter e Lalitha, ao final de abril, numa caminhonete carregada com equipamento de camping, decidiram fazer. Tinham um mês de folga antes de precisarem trabalhar a sério na Espaço Livre, e suas responsabilidades com o Fundo da Montanha Azul tinham acabado. Quanto ao carbono que lançavam na atmosfera com aquela caminhonete sedenta de gasolina, Walter retirava algum consolo por ter ido para o trabalho a pé ou de bicicleta nos últimos vinte e cinco anos, e por não ser dono de mais nenhuma residência além da casinha fechada à margem do lago Sem Nome. Sentia que merecia desperdiçar algum petróleo depois de uma vida inteira de virtude, merecia um verão cheio de natureza para compensar o verão que lhe tinham roubado na adolescência.
Enquanto ficara internado no hospital do condado de Whitman, recebendo o devido tratamento para seu maxilar deslocado, seu rosto ferido e suas costelas contundidas, Lalitha tinha feito um esforço desesperado para apresentar sua explosão como um surto psicótico induzido pela trazodona. “Ele estava literalmente sofrendo de sonambulismo”, argumentou ela com Vin Haven. “Não sei quantos comprimidos ele tomou, mas foi mais de um, e poucas horas antes. Ele literalmente não sabia o que dizia. Foi culpa minha, por ter deixado ele falar assim mesmo. Você devia demitir a mim, e não a ele.”
“Pois me pareceu que ele tinha uma ideia muito clara do que estava dizendo”, respondeu Vin, surpreendentemente com pouquíssima raiva. “É uma pena que ele tenha precisado racionalizar as coisas a esse ponto. Trabalha tão bem, mas depois precisou analisar tudo intelectualmente.”
Vin organizou uma conferência telefônica com os outros dirigentes do Fundo, que aprovaram sua proposta de desligar Walter imediatamente do projeto, e instruiu seus advogados a exercer sua opção de recompra dos direitos de residência dos Berglund na mansão de Georgetown. Lalitha comunicou aos candidatos a estágio na Espaço Livre que seu financiamento tinha sido interrompido, que Richard Katz estava saindo do projeto (Walter, de seu leito de hospital, tinha finalmente vencido essa queda de braço) e que a própria existência da Espaço Livre estava ameaçada. Alguns dos candidatos responderam por e-mail cancelando suas inscrições; dois deles disseram que continuavam querendo trabalhar como voluntários; o resto nem resposta deu. Como Walter estava sendo despejado da mansão e continuava se recusando a falar com a mulher, Lalitha ligou para ela. Patty chegou alguns dias depois numa caminhonete alugada, enquanto Walter se escondia no Starbucks mais próximo, e arrumou todos os pertences que não queria mandar para um depósito.
Foi exatamente ao fim desse dia tão desagradável, depois da partida de Patty e da volta de Walter de seu exílio regado a cafeína, que Lalitha foi olhar em seu BlackBerry e encontrou oitenta novas mensagens de jovens de todo o país, perguntando se era tarde demais para se oferecer como voluntários para a Espaço Livre. Seus endereços de e-mail tinham mais tempero que o jovemliberal@universidadecara.edu das primeiras candidaturas. Eram loucolivre e alvodebomba, eram pornofetal, jainista3 ou talibanjr, @gmail e @cruzio. No dia seguinte de manhã, já tinham recebido mais cem mensagens, juntamente com propostas de bandas amadoras de quatro cidades—Seattle, Missoula, Buffalo e Detroit—para organizar shows em benefício da Espaço Livre em suas comunidades.
O que tinha acontecido, como Lalitha logo concluiu, foi que as imagens das tv s locais mostrando o discurso de Walter e o tumulto resultante tinham se tornado virais. Fazia pouco tempo que se tornara possível distribuir vídeo pela internet, e o vídeo de Whitmanville (CancerDoPlaneta.wmv) tinha circulado por todas as frestas mais radicais da blogosfera, os sites dos que insistiam em denunciar a conspiração em torno do Onze de Setembro, os devotos do Clube da Luta e os militantes do peta, um dos quais finalmente desencavara o link para a Espaço Livre no site do Fundo da Montanha Azul. E de um dia para o outro, apesar de ter perdido seu financiamento e seu principal simpatizante do mundo da música, a Espaço Livre ganhou um vasto fã-clube e, na pessoa de Walter, um herói.
Fazia tempo que ele não ria muito das coisas, mas agora ria o tempo todo, e depois gemia por causa da dor nas costelas. Saiu de casa uma bela tarde e logo depois voltou com uma caminhonete branca Econoline usada e uma lata de tinta spray verde, e escreveu espaço livre em letras irregulares nos flancos e na traseira da caminhonete. Queria pagar tudo com o próprio dinheiro, dos ganhos iminentes pela venda da casa, para bancar o grupo até o fim do verão, imprimir alguns folhetos, pagar uma ninharia aos estagiários e oferecer algum pagamento às bandas participantes dos shows, mas Lalitha anteviu possíveis questões jurídicas por conta do divórcio e não deixou. Ao que Joey, de maneira totalmente inesperada, ao saber dos planos do pai para as férias de verão, preencheu um cheque de cem mil dólares para a Espaço Livre.
“É ridículo, Joey”, disse Walter. “Não posso aceitar esse dinheiro.”
“Claro que pode”, respondeu Joey. “O resto vai para os ex-combatentes, mas Connie e eu também achamos sua causa interessante. Você me sustentou quando eu era pequeno, não foi?”
“Claro, porque você é meu filho. Todos os pais fazem isso. Ninguém espera ser reembolsado. Acho que você nunca conseguiu entender a ideia.”
“Mas não é engraçado que eu possa fazer isso? Não é uma ironia bacana? É dinheiro de Banco Imobiliário. Não quer dizer nada para mim.”
“Eu tenho minhas economias, posso gastar se quiser.”
“Mas pode economizar para a velhice”, disse Joey. “Pode acreditar que não vou doar tudo para a caridade quando começar a ganhar dinheiro a sério. Esse caso é especial.”
Walter estava tão orgulhoso de Joey, tão agradecido por não estar mais brigando com ele, e tão inclinado, portanto, a deixá-lo ser o cara maior, que não resistiu mais ao cheque. O único erro que cometeu foi contar a Jessica. Ela tinha finalmente falado com ele no hospital, mas seu tom deixava claro que ainda não estava pronta para travar amizade com Lalitha. Também não ficou impressionada com o que ele tinha dito em Whitmanville. “Mesmo abstraindo o fato de que ‘câncer do planeta’ é exatamente o tipo de expressão que concordamos que era contraproducente”, disse ela, “acho que você não escolheu o inimigo certo. A sua mensagem não ajuda em nada quando aponta como inimigas do meio ambiente as pessoas que estudaram pouco e só estão tentando melhorar de vida. Eu sei que você não gosta dessas pessoas. Mas precisa tentar esconder essa antipatia, e não transformá-la em bandeira.” Num telefonema que deu mais adiante, ela fez uma referência irritada ao republicanismo do irmão, e Walter reafirmou que Joey tinha se transformado numa pessoa diferente depois que se casara com Connie. Na verdade, contou ele, Joey era agora um dos maiores contribuintes da Espaço Livre.
“E onde ele arranjou esse dinheiro?”, perguntou imediatamente Jessica.
“Bem, nem é grande coisa”, retrocedeu Walter, percebendo seu erro. “Somos um grupo pequeno, sabe, então tudo é relativo. É só a importância simbólica de ele ter doado alguma coisa—e mostra o quanto ele está mudado.”
“Hum.”
“Quer dizer, nem se compara à sua colaboração. Você ajudou demais. Passando aquele fim de semana conosco, e nos ajudando a dar forma à ideia. Foi demais.”
“E agora?”, perguntou ela. “Você vai deixar o cabelo crescer e começar a usar uma bandana? Viajando por aí de caminhonete? O número completo do coroa? É isso que vai acontecer agora? Porque nesse caso eu gostaria de ser a voz serena e baixa a dizer que preferia você como era antes.”
“Prometo que não deixo o cabelo crescer. Prometo nunca usar bandana. Nunca vou deixar você com vergonha de mim.”
“Infelizmente, acho que para isso já é tarde demais.”
Talvez fosse inevitável: ela falava cada vez mais como Patty. A raiva dela seria mais dura para Walter caso ele não estivesse gostando tanto, a cada minuto do dia, do amor de uma mulher que o queria por inteiro. Sua felicidade lhe lembrava seus primeiros tempos com Patty, o tempo em que dividiam a criação dos filhos e a reforma da casa, mas agora ele se percebia muito melhor, e era capaz de apreciar sua felicidade com mais nitidez em cada pormenor, e Lalitha não era a preocupação e o enigma que Patty, em algum nível, sempre tinha continuado a ser para ele. Com Lalitha, tudo que havia à sua frente estava à sua disposição. Os momentos que viviam na cama, assim que ele se recuperou dos ferimentos, transformaram-se na coisa de que ele sempre tinha sentido falta sem saber que sentia.
Depois que a empresa de mudanças removeu os últimos vestígios da família Berglund da mansão, ele e Lalitha partiram na caminhonete rumo à Flórida, na intenção de depois seguir a oeste atravessando a faixa sul do país antes que o tempo ficasse quente demais. Estava determinado a mostrar a ela um socó, e encontraram o primeiro no pântano de Corkscrew, na Flórida, ao lado de um laguinho sombreado e de uma passarela que rangia com o peso de aposentados e turistas, mas era um socó sem apego à socolidão, revelando-se à plena vista enquanto os clarões das câmeras dos turistas era rebatido por sua camuflagem irrelevante. Walter insistia em percorrer os diques cobertos de terra de Big Cypress à procura de um socó de verdade, um socó tímido, e submeteu Lalitha a um extenso solilóquio sobre o dano ecológico provocado pelos usuários de jipes capazes de andar em qualquer terreno, os irmãos espirituais de Coyle Mathis e Mitch Berglund. De algum modo, apesar de todos os estragos, a mata rasa e os lagos de águas escuras ainda estavam cheios de aves, além de inúmeros jacarés. Walter por fim identificou um socó num banhado repleto de cartuchos vazios de espingarda e embalagens de Budweiser desbotadas pelo sol. Lalitha freou a caminhonete em meio a uma nuvem de poeira e admirou devidamente a ave através dos seus binóculos até ser interrompida por uma carreta que transportava três jipes roncando por eles.
Ela nunca tinha acampado antes, mas se adaptou bem e Walter ficava morto de tesão por ela em suas roupas arejadas tipo safári. Ajudava bastante o fato de ela ser imune ao sol e repelir os mosquitos na mesma medida que ele os atraía. Ele tentou ensinar a ela alguns rudimentos da cozinha, mas ela preferia armar a barraca e planejar os trajetos. Ele acordava todo dia antes do amanhecer, fazia café na cafeteira italiana de seis xícaras e voltava para dentro da barraca levando um café com leite de soja para ela. Em seguida eles saíam para caminhar em meio ao orvalho e à luz cor de mel. Ela não era tão apaixonada quanto ele pela vida silvestre, mas tinha um jeito especial para localizar aves menores em meio à folhagem mais densa, estudava os guias de campo e gemia de encanto toda vez que percebia e corrigia uma falsa identificação de Walter. Mais adiante, ainda pela manhã, quando a vida das aves se acalmava, eles avançavam mais algumas horas para o oeste na caminhonete, e procuravam o estacionamento de algum hotel com conexão wireless sem senha, para que ela pudesse continuar em contato com seus futuros estagiários e ele pudesse manter atualizado o blog que ela criara para ele. Depois mais um parque estadual, mais um jantar ao ar livre, mais uma sessão eufórica de engalfinhamento na barraca.
“Você está cansada disso?”, perguntou ele uma noite, num terreno de acampamento especialmente bonito e vazio em meio ao território semidesértico do sudoeste do Texas. “Podíamos passar uma semana num motel, mergulhar na piscina, trabalhar um pouco.”
“Não, eu adoro ficar vendo como você gosta de procurar animais”, disse ela. “Adoro ver você feliz, depois de ter passado tanto tempo insatisfeito. Adoro viajar com você.”
“Mas talvez você esteja cansada?”
“Ainda não”, disse ela, “mesmo achando que não entendo muito bem a natureza. Não tanto quanto você. Me parece uma coisa tão violenta. Aquele corvo comendo os filhotes de andorinha, os papa-moscas, os guaxinins que comem tantos ovos, os gaviões que matam tudo. As pessoas falam da paz da natureza, mas eu vejo nela exatamente o contrário da paz. É um morticínio permanente. Pior ainda que entre os seres humanos.”
“Para mim”, disse Walter, “a diferença é que as aves só matam porque precisam comer. Não matam com raiva, não matam ao acaso. Não é uma coisa neurótica. E por isso a natureza é pacífica. As coisas vivem ou deixam de viver, mas não é tudo envenenado de ressentimento, neurose e ideologia. É um alívio, depois da minha raiva neurótica.”
“Mas estou achando você muito menos raivoso.”
“Porque estou passando cada minuto dos dias com você, não tenho compromissos e não preciso lidar com outras pessoas. Mas imagino que a raiva vá voltar.”
“Por mim, não me incomoda se ela voltar”, disse Lalitha. “Respeito seus motivos para sentir tanta raiva. Faz parte do motivo para eu te amar. Mas fico muito feliz de ver você feliz.”
“Só penso que você não podia ser mais perfeita”, disse ele, pondo as mãos em seus ombros. “E aí você fica ainda mais perfeita.”
Na verdade, ele ficava perturbado com a ironia da sua situação. Quando finalmente deu vazão à raiva, primeiro com Patty e depois em Whitmanville, livrando-se assim tanto do seu casamento quanto do Fundo, ele se desvencilhara de duas das causas mais importantes de sua raiva. Por algum tempo, em seu blog, ele tentou minimizar e qualificar o “heroísmo” de suas declarações quanto ao “câncer do planeta”, afirmando que o vilão era o Sistema, não os cidadãos originários de Forster Hollow. Mas seus fãs o censuraram tão redonda e intensamente por isso (“onde está a sua macheza, cara, seu discurso foi demais” etc.) que ele acabou sentindo que lhes devia um relato honesto de todos os pensamentos negativos que tinha cultivado enquanto dirigia pelas estradas da Virgínia Ocidental, todas as posições radicais contra o crescimento da população que ele tinha engolido em nome de uma postura profissional. Vinha acumulando argumentos incisivos desde pelo menos seus tempos de estudante; o mínimo que podia fazer agora era compartilhá-los com os jovens aos quais, milagrosamente, eles pareciam interessar. A ira enlouquecida dos seus leitores era preocupante, porém, e destoava de sua disposição pacífica. Lalitha, por sua vez, já estava muito ocupada selecionando centenas de novos candidatos a estagiários e telefonando para os que lhe pareciam mais aptos a se mostrar responsáveis e avessos à violência; quase todos que ela declarava não doidos eram mulheres jovens. O compromisso dela com o combate à superpopulação era tão prático e humanitário quanto o de Walter era abstrato e misantrópico, e uma medida do aprofundamento do amor que ele sentia por ela era o quanto a invejava e desejava ficar mais parecido com ela.
No dia anterior ao último destino de sua viagem de férias—o condado de Kern, na Califórnia, lar de um número incrível de aves canoras em fase reprodutiva—pararam para visitar o irmão de Walter, Brent, na cidade de Mojave, perto da base aérea onde servia. Brent, que nunca tinha se casado, cujo herói político e pessoal era o senador John McCain e cujo desenvolvimento emocional dava a impressão de ter cessado quando se alistou na Força Aérea, não podia se mostrar mais profundamente desinteressado pela separação entre Walter e Patty ou por seu envolvimento com Lalitha, que ele tratou mais de uma vez como “Lisa”. Ele pagou a conta do jantar, porém, e tinha notícias sobre o irmão mais velho dos dois, Mitch. “Eu pensei”, disse ele, “que se a casa da mamãe ainda está vazia, você talvez pudesse deixar Mitch morar lá um tempo. Ele não tem telefone nem endereço, sei que anda bebendo, e que deve uns cinco anos de pensão. Sabe, ele e Stacy tiveram mais um filho pouco antes da separação.”
“Quantos no total”, perguntou Walter. “Seis?”
“Não, só cinco. Dois com Brenda, um com Kelly, dois com Stacy. Acho que não adianta mandar dinheiro, porque ele bebe tudo. Mas pensei que um lugar para morar podia fazer bem a ele.”
“Muito gentil da sua parte, Brent.”
“Só estou falando. Eu sei da sua situação com ele. Mas é só que, sabe, se a casa no fim das contas está mesmo vazia.”
Cinco era um bom tamanho para a ninhada de uma ave canora, já que os pássaros vinham sendo perseguidos e encurralados em toda parte pela espécie humana, mas não para uma pessoa, e esse número tornava mais difícil para Walter sentir pena de Mitch. Imperfeitamente escondido no fundo de sua mente, havia o desejo de que todos os outros habitantes do mundo se reproduzissem um pouco menos, para que ele pudesse se reproduzir um pouco mais, mais uma vez, com Lalitha. Essa vontade, claro, era um absurdo: ele chefiava um movimento contra o aumento populacional, já tivera dois filhos com uma idade deplorável do ponto de vista demográfico, não se sentia mais decepcionado com seu filho, já estava quase na idade de ser avô. Ainda assim, não conseguia parar de imaginar uma criança crescendo na barriga de Lalitha. Era um sentimento presente na raiz de todas as trepadas entre eles, era o sentido cifrado da beleza que Walter via no corpo dela.
“Não, não, não, querido”, disse ela, sorrindo, o nariz colado no dele, quando ele tocou no assunto dentro da barraca deles, num camping do condado de Kern. “Comigo, nunca ia acontecer. E você sempre soube. Sou diferente das outras mulheres. Sou uma aberração, tanto quanto você é uma aberração, só que de outro tipo. Deixei bem claro, não foi?”
“Sem a menor dúvida. Eu só estava conferindo.”
“Pode conferir o quanto quiser que a resposta vai ser sempre a mesma.”
“E você sabe por quê? Por que você é diferente?”
“Não, mas eu sei quem eu sou. Sou a mulher que não quer ter filhos. É a minha missão no mundo. A minha mensagem.”
“Eu amo quem você é.”
“Então deixe que isso seja a única coisa que você não acha perfeita.”
Passaram o mês de junho em Santa Cruz, onde a melhor amiga de Lalitha do tempo de estudante, Lydia Han, fazia pós-graduação em literatura. Primeiro acamparam no chão da casa dela, depois no quintal, depois na mata. Usando o dinheiro de Joey, Lalitha comprou passagens de avião para os vinte estagiários que tinha escolhido. O orientador de Lydia Han, Chris Connery, um marxista descabelado especializado em China, permitiu que os estagiários desenrolassem seus sacos de dormir no gramado da faculdade e usassem seus banheiros, e cedeu para a Espaço Livre uma sala de reunião no campus para três dias de intenso treinamento e planejamento. O aparente fascínio que Walter exercia sobre as moças de dezoito anos que predominavam entre os contratados—de dreadlocks ou cabeça raspada, cobertas de piercings ou tatuagens assustadoras, com uma fertilidade coletiva tão intensa que ele quase sentia seu cheiro—o fazia corar o tempo todo enquanto pregava para eles sobre os males do crescimento descontrolado da população mundial. Seu alívio era escapar para longas caminhadas com o professor Connery pelos espaços livres em torno de Santa Cruz, pelas montanhas acobreadas e os gotejantes bosques de sequoias, ouvindo as profecias otimistas de Connery quanto ao colapso econômico global e à revolução operária, contemplar as aves desconhecidas da costa da Califórnia, e conhecer alguns dos freegans e coletivistas radicais que moravam em terras públicas, num regime estrito de rigorosa pobreza. Eu devia ter sido professor universitário, pensou Walter.
Só em julho, quando abriram mão da segurança de Santa Cruz e voltaram à estrada, tomaram contato com a fúria que vinha dominando o país naquele verão. Por que os conservadores, que controlavam todos os três poderes do governo federal, ainda estavam tão irados—com o ceticismo respeitoso de alguns acerca da guerra do Iraque, com os casais gays que queriam se casar, com o afável Al Gore e a cautelosa Hillary Clinton, com as espécies ameaçadas e seus defensores, com os impostos e o preço da gasolina que estavam entre os menores de todas as nações industrializadas, com a grande imprensa cujos controladores eram eles próprios conservadores, com os mexicanos que aparavam a grama de suas casas e lavavam os pratos em que comiam—era até certo ponto um mistério para Walter. Seu pai fora um homem tomado por esse tipo de fúria, certo, mas numa era muito mais liberal. E a fúria conservadora tinha engendrado uma contrafúria de esquerda que praticamente chamuscou suas sobrancelhas nos eventos da Espaço Livre organizados em Los Angeles e San Francisco. Entre os jovens com que falava, o epíteto indiscriminado para todo mundo, de George Bush e Tim Russert a Tony Blair e John Kerry, era “palerma”. Que o Onze de Setembro tinha sido uma armação da Halliburton e da família real saudita era artigo de fé quase universal. Três conjuntos iniciantes apresentaram canções em que teciam fantasias mal elaboradas em torno da tortura e da execução do presidente e do vice (Encho a tua boca de merda/ Dick, e me sinto melhor/ Isso mesmo, George Bush/ Agora um tiro na tua testa). Lalitha insistira com os estagiários, e especialmente com Walter, sobre a necessidade de apresentar uma mensagem disciplinada, e ater-se aos fatos concretos em torno da superpopulação, e procurar congregar a maior variedade possível de simpatizantes. Mas sem as bandas famosas que Richard poderia ter atraído, os eventos reuniam principalmente pessoas já doutrinadas, descontentes do tipo que saía à rua com máscaras de esqui para lutar contra a omc. Toda vez que Walter subia ao palco, era aclamado por sua explosão de Whitmanville e pelos textos destemperados que publicava no blog, mas assim que falava de prudência e de deixar que os fatos falassem por si mesmos, a plateia se calava ou começava a repetir as palavras de ordem mais populares que ele tinha criado—“Câncer do planeta!” e “O papa que se foda!”. Em Seattle, onde o clima estava especialmente pesado, ele saiu do palco debaixo de vaias esparsas. Foi mais bem recebido no Meio-Oeste e no Sul, especialmente onde havia universidades, mas as plateias por outro lado eram muito menores. Quando ele e Lalitha chegaram a Athens, Geórgia, ele estava tendo muita dificuldade para acordar cedo. Estava exausto de tanto viajar e oprimido pela ideia de que aquela feia cólera de toda a nação não passava de um eco amplificado da sua própria raiva, de que tinha deixado sua desavença pessoal com Richard impedir que a Espaço Livre conquistasse um público mais vasto, e de que ele estava gastando um dinheiro de Joey que deveria ter sido doado à Federação Americana de Planejamento Familiar. Se não fosse por Lalitha, que dirigia na maior parte do tempo e entrava com todo o entusiasmo necessário, ele teria abandonado a turnê e continuado a observar pássaros.
“Sei que você está desanimado”, dizia Lalitha ao volante enquanto saíam de Athens. “Mas pelo menos estamos conseguindo levantar o problema. Todos os semanários gratuitos reproduzem o que declaramos palavra por palavra quando falam de nós. Todos os blogueiros e revistas online estão falando em superpopulação. Não se falava desse assunto desde os anos 70. De repente, no dia seguinte, começam a falar. As novas ideias se fortalecem antes nas margens. Só porque nem sempre as coisas são do melhor jeito, você não devia desanimar.”
“Salvei mais de vinte e cinco mil hectares de terra na Virgínia Ocidental”, disse ele. “E mais ainda na Colômbia. Foi um bom trabalho, com resultados concretos. Por que não continuei?”
“Porque você sabia que não basta. A única coisa que realmente pode nos salvar é mudar o modo como as pessoas pensam.”
Ele olhou para a namorada, de mãos firmes ao volante, olhos brilhantes fixos na estrada, e achou que estava a ponto de explodir de desejo de ser igual a ela; e de gratidão por ela não se incomodar que ele fosse, em vez disso, quem era. “Meu problema é que eu não gosto tanto assim das pessoas”, disse ele. “A verdade é que não acredito que sejam capazes de mudar.”
“Imagine, você gosta muito das pessoas. Nunca vi você maltratar ninguém. Quando conversa com os outros, você está sempre sorrindo.”
“Não estava sorrindo em Whitmanville.”
“Na verdade, estava sim. Mesmo lá. O que contribuiu para tudo ser ainda mais estranho.”
De qualquer modo, não havia muitas aves a observar nos dias de canícula. Depois que o território tinha sido reivindicado e o acasalamento concretizado, não era vantagem para nenhum passarinho ser muito conspícuo. Walter fazia caminhadas matinais nos refúgios e parques que sabia estarem cheios de vida, mas o mato alto e as árvores de folhagem densa permaneciam imóveis em meio à umidade estival, como casas trancadas de que não tinha a chave, como casais que só tinham olhos um para o outro. O hemisfério Norte absorvia a energia do Sol, convertida silenciosamente pelas plantas em alimento para os animais; os únicos subprodutos sonoros eram o zumbido e o bater de asas dos insetos. Era o momento do prêmio para os migrantes neotropicais, eram os dias que precisavam ser totalmente usufruídos. Walter tinha inveja daquelas tarefas a cumprir, e se perguntou se não estaria ficando deprimido porque era o primeiro verão em quarenta anos em que não precisava trabalhar.
O festival nacional da Espaço Livre estava marcado para o último fim de semana de agosto e, infelizmente, na Virgínia Ocidental. O estado ficava longe do centro, e o acesso por transporte público era bastante difícil, mas quando Walter propôs mudar o local, em seu blog os seguidores já estavam animados com a ideia de ir à Virgínia Ocidental e reclamavam das altas taxas de natalidade do estado, do fato de ser controlado pela indústria carvoeira, da alta densidade de fundamentalistas cristãos, e de sua responsabilidade por fazer as eleições de 2000 penderem em favor de George Bush. Lalitha pedira permissão a Vin Haven para realizar o evento num antigo sítio de criação de cabras nas terras hoje controladas pelo Fundo, e Haven, pasmo diante da temeridade da garota, e tão incapaz quanto qualquer outra pessoa de resistir à sua pressão de luvas de pelica, tinha consentido.
Um trajeto extenuante através do chamado Rust Belt elevou sua quilometragem total a mais de quinze mil quilômetros, seu consumo de petróleo a mais de trinta barris. E calhou que sua chegada às Cidades Gêmeas, em meados de agosto, coincidiu com a primeira frente fria com cheiro de outono daquele verão. Ao longo de toda a grande floresta boreal do Canadá, do norte do Maine e de Minnesota, a floresta boreal ainda substancialmente intacta, as mariquitas, os papa-moscas, os patos e as andorinhas tinham completado sua função de pais, trocado a plumagem de acasalamento por cores melhores para a camuflagem, e recebiam, através do frio do vento e do ângulo do sol, os sinais para partir de volta rumo ao sul. Os pais muitas vezes decolavam primeiro, deixando os filhos para trás a fim de treinar seus voos, se alimentar sozinhos e depois encontrar o caminho por conta própria, de maneira mais desajeitada e com taxas mais altas de mortalidade, até o território de inverno. Menos da metade dos que partiam no outono voltaria na primavera seguinte.
Os Sick Chelseas, uma banda de St. Paul que Walter uma vez ouvira abrindo um concerto dos Traumatics e imaginara que não sobreviveria nem mais um ano, ainda estavam vivos e tinham conseguido reunir um público grande no evento da Espaço Livre, suficiente para serem levados ao festival da Virgínia. Os únicos outros rostos conhecidos na multidão eram os de Seth e Merrie Paulsen, os antigos vizinhos de Walter na Barrier Street, com uma aparência trinta anos mais velha que todo o resto dos presentes, menos o próprio Walter. Seth adorou Lalitha, e não conseguia parar de encará-la, tendo ignorado os protestos de cansaço de Merrie e insistido num último jantar, depois do show, no restaurante Taste of Thailand. Foi um verdadeiro festival de bisbilhotice, enquanto Seth sondava Walter para obter informações privilegiadas sobre o casamento agora notório de Joey e Connie, o paradeiro de Patty, a história detalhada da relação entre Walter e Lalitha e das circunstâncias por trás das porradas que o New York Times dera em Walter (“Deus do céu, você saiu muito mal naquela matéria”), enquanto Merrie bocejava e produzia uma expressão cuidadosamente resignada.
De volta ao seu motel, muito tarde da noite, Walter e Lalitha tiveram o que quase chegou a ser uma briga. O plano original era tirarem alguns dias de folga em Minnesota para visitar a Barrier Street, a casa à beira do lago Sem Nome e Hibbing, e ver se conseguiam encontrar Mitch, mas agora Lalitha queria dar meia-volta e ir direto para a Virgínia Ocidental. “Metade do pessoal que já chegou lá se descreve como anarquista”, disse ela. “E não é à toa. Precisamos ir logo para lá e cuidar da logística.”
“Não”, disse Walter. “Nós só resolvemos deixar St. Paul para o fim para que pudéssemos passar alguns dias aqui e descansar. Você não quer conhecer o lugar onde eu fui criado?”
“Claro que sim. Mais tarde. Mês que vem.”
“Mas já estamos aqui. Não custa nada tirar dois dias; depois vamos direto para Wyoming. Aí não precisamos mais refazer o caminho todo. Não faz sentido percorrer três mil quilômetros a mais.”
“Por que estamos nos comportando assim?”, perguntou ela. “Por que você não quer enfrentar a coisa mais importante agora, e deixar o passado para mais tarde?”
“Porque foi o que nós planejamos.”
“Era um plano, não um contrato.”
“Bem, e também estou um pouco preocupado com Mitch.”
“Mas você detesta Mitch!”
“Nem por isso quero que o meu irmão viva na rua.”
“É, mas um mês a mais não vai fazer tanta diferença”, respondeu ela. “Podemos voltar em seguida.”
Ele abanou a cabeça. “E também preciso saber como está a casa. Faz mais de um ano que ninguém vem aqui.”
“Walter, não. Aqui estamos você e eu, é a coisa que nós criamos, e está acontecendo agora.”
“Podemos deixar a caminhonete aqui, ir de avião e alugar um carro. Só íamos perder um dia no final das contas. E ainda sobra uma semana para cuidarmos da logística. Por favor? Por mim?”
Ela pegou o rosto dele com as mãos e lançou-lhe um olhar de cão pastor. “Não”, disse ela. “Por favor, faça isso por mim.”
“Então vá você”, disse ele, se afastando. “Pegue um avião que eu vou de carro e chego daqui a poucos dias.”
“Por que você está fazendo isso? Foi o encontro com Seth e Merrie? Eles fizeram você ficar lembrando do passado?”
“Foi.”
“Bom, então tire isso da cabeça e venha comigo. Precisamos ficar juntos.”
Como uma nascente gelada no fundo de um lago de água mais quente, a antiga depressão devida aos genes suecos brotava por dentro de Walter: a sensação de que não merecia uma parceira como Lalitha, de não ter sido feito para uma vida de liberdade e heroísmo fora da lei; de precisar de uma situação contrária mais tediosa e persistente de insatisfação para nela forjar sua existência. E via que simplesmente cultivando esses sentimentos ele começava a criar uma nova situação de discórdia com Lalitha. E era melhor, pensou ele depressivamente, que ela ficasse sabendo desde logo como ele era na verdade. Que entendesse o quanto ele era igual ao irmão, ao pai e ao avô. E por isso tornou a abanar a cabeça. “Vou continuar conforme os planos”, disse ele. “Vou ficar aqui mais dois dias com a caminhonete. Se não quiser vir comigo, compramos uma passagem de avião para você.”
Tudo podia ter sido diferente se ela tivesse chorado nessa hora. Mas era teimosa, determinada e estava furiosa com ele, e ao amanhecer ele a levou até o aeroporto, pedindo desculpas até ela dizer basta. “Está bem”, disse ela, “já me conformei. Não vou me preocupar com isso agora. Estamos fazendo o que cada um precisa fazer. Eu ligo para você quando chegar e nos vemos logo.”
Era uma manhã de domingo. Walter ligou para Carol Monaghan e depois percorreu um trajeto bem conhecido até Ramsey Hill. Blake tinha abatido mais árvores e arbustos no terreno de Carol, mas de resto nada mais mudara na Barrier Street. Carol deu um abraço caloroso em Walter, pressionando seus seios contra ele de um modo que não lhe parecia muito apropriado a alguém da mesma família, e depois, por uma hora, enquanto as gêmeas corriam guinchando pelo grande salão à prova de crianças e Blake, nervoso, se levantava, saía, voltava e tornava a sair, ele e Carol fizeram o possível para se comportar como bons consogros.
“Fiquei louca de vontade de ligar para você assim que eu soube”, disse Carol. “Precisei, sem exagero, sentar em cima das minhas mãos para não discar seu número. Não entendi por que Joey não queria lhe contar logo.”
“Sabe como é, ele teve alguns problemas com a mãe”, disse Walter. “E comigo também.”
“E como vai Patty? Ouvi dizer que vocês dois não estão mais juntos.”
“Verdade.”
“Não vou ficar calada, Walter. Vou dizer o que penso, apesar de me criar problemas. Acho que essa separação já vem de muito tempo. Eu não gostava da maneira como ela tratava você. Parecia que tudo sempre tinha de acontecer em torno dela. Então pronto—falei.”
“Mas sabe, Carol, essas coisas são complicadas. E agora ela é também sogra de Connie. E eu espero que vocês duas encontrem algum jeito de se dar bem.”
“Ah. Por mim nós duas não precisamos nos ver. Só espero que ela reconheça que a minha filha é uma graça de pessoa.”
“Eu pelo menos reconheço. Acho Connie uma jovem maravilhosa, com muito potencial.”
“Bem, você sempre foi o mais simpático dos dois. Sempre foi uma graça também. Nunca me arrependi de ser sua vizinha, Walter.”
Ele resolveu deixar passar a injustiça do comentário, resolveu não lembrar a Carol os muitos anos de generosidade que Patty tinha demonstrado com ela e Connie, mas ficou muito triste por Patty. Sabia o quanto ela tentava dar o melhor de si, e o incomodava ver-se alinhado agora às muitas pessoas que só conseguiam ver seu lado mais desagradável. O nó na sua garganta foi sinal do quanto, apesar de tudo, ele ainda a amava. Ajoelhando-se para alguma interação cortês com as gêmeas, lembrou-se de como ela sempre se sentira muito mais à vontade que ele com crianças pequenas, como ela se esquecia de si quando ficava com Jessica e Joey na época em que tinham a idade das gêmeas, como ficava feliz e absorta. Tinha sido bem melhor, concluiu ele, que Lalitha tivesse ido para a Virgínia Ocidental, deixando-o a sós para sofrer no passado em paz.
Depois de se livrar de Carol, e deduzindo pela fria despedida de Blake que não tinha sido perdoado por ser tão liberal, Walter seguiu de carro até Grand Rapids, parou para comprar mantimentos e chegou ao lago Sem Nome no fim da tarde. Havia uma sinistra tabuleta de vende-se em frente à propriedade dos Lundner, bem ao lado, mas a casa deles havia atravessado o ano de 2004 tão medianamente quanto tinha resistido à passagem de tantos outros anos. A chave extra ainda pendia debaixo do assento do velho banco rústico de madeira, e descobriu que não era tão insuportável assim estar nos mesmos aposentos onde sua mulher e seu melhor amigo o tinham traído; muitas outras memórias tomavam conta dele com uma nitidez que lhe era suficiente. Ele varreu e recolheu folhas até a noite cair, feliz por ter um trabalho de verdade, para variar, e depois, antes de ir dormir, ligou para Lalitha.
“Aqui está uma loucura”, contou ela. “Ainda bem que eu vim e ainda bem que você não veio, porque eu acho que você ia ficar muito nervoso. Parece o Forte Apache, ou coisa assim. Nosso pessoal praticamente precisa de segurança contra os fãs que chegaram mais cedo. Parece que todos aqueles encrenqueiros de Seattle vieram direto para cá. Organizamos um acampamento perto do poço, com um banheiro químico, mas o lugar já está cercado por outras trezentas pessoas. Eles se espalharam pela propriedade toda, estão bebendo a água do mesmo riacho que passa ao lado do lugar onde estão cagando, e estão tratando os habitantes locais com antipatia. A estrada toda até aqui está coberta de pichações. De manhã, preciso mandar os estagiários irem pedir desculpas aos donos das propriedades pichadas, e oferecer uma nova pintura. Andei por todo lado pedindo às pessoas que se acalmassem um pouco, mas estão todos doidões e se espalharam por uns cinquenta mil metros quadrados, e não existe liderança, é totalmente amorfo. Depois escureceu e começou a chover, e precisei voltar para a cidade e encontrar um motel.”
“Posso pegar um avião amanhã”, disse Walter.
“Não, venha de caminhonete. Precisamos acampar na própria área. Agora você só ia ficar furioso. Eu consigo lidar com essa história sem ficar tão irritada, e as coisas já devem estar melhores quando você chegar aqui.”
“Bom, então dirija com cuidado por aí, está bem?”
“Pode deixar”, disse ela. “Eu te amo, Walter.”
“Eu também.”
A mulher que ele amava o amava também. Ele tinha certeza disso, mas não sabia de mais nada ao certo, àquela altura ou a partir de então; nunca chegou a saber dos outros fatos vitais. Se ela realmente dirigiu com cuidado. Se estava ou não correndo ao transitar pela estrada vicinal que a chuva deixara escorregadia de volta à fazenda de criação de cabras na manhã seguinte, se estava ou não fazendo cada uma das perigosas curvas fechadas da montanha a uma velocidade excessiva. Se um caminhão de carvão tinha surgido de surpresa numa dessas curvas e produzido o efeito que os caminhões de carvão produziam toda semana em outros pontos da Virgínia Ocidental. Ou se alguém, instalado no banco alto de um 4 × 4, talvez alguém cujo celeiro tivesse sido pichado com as palavras espaço livre câncer do planeta ou , tinha visto uma jovem de pele escura dirigindo um compacto alugado de fabricação coreana e decidido dar-lhe uma fechada, segui-la de uma distância muito curta, ultrapassá-la quase raspando ou mesmo forçá-la de propósito para fora da pista sem acostamento.
O que quer que tenha acontecido exatamente, em torno das 7:45, menos de dez quilômetros ao sul da fazenda de cabras, o carro dela desceu um barranco longo e muito íngreme, espatifando-se contra uma nogueira. O relatório da polícia nem sequer oferecia o débil consolo de uma morte imediata. Mas o trauma foi grave, ela sofreu fratura da pélvis e ruptura de uma artéria femural, e certamente morreu antes que Walter, às 7:30 da manhã em Minnesota, devolvesse a chave da casa a seu prego debaixo do banco e tomasse o rumo do condado de Aitkin, à procura do irmão.
Ele sabia, a partir de sua longa experiência com o pai, que sempre era melhor conversar com um alcoólatra na parte da manhã. Tudo que Brent sabia dizer sobre a última ex de Mitch, Stacy, era que ela trabalhava num banco em Aitkin, a sede do condado, e ele começou a percorrer os bancos locais um a um, encontrando Stacy no terceiro. Ela era bonitona, ao modo robusto das moças do campo, parecia ter uns trinta e cinco anos e falava como uma adolescente. Embora nunca tivesse visto Walter, parecia disposta a atribuir-lhe uma significativa responsabilidade pela forma como Mitch tinha abandonado seus filhos. “Você podia procurar na propriedade do amigo dele, Bo”, disse ela dando de ombros com raiva. “Da última vez que eu soube, Bo estava deixando Mitch ficar no quartinho em cima da garagem, mas já faz uns três meses.”
Pantanoso, coberto de uma camada de gelo e desprovido de riqueza mineral, o condado de Aitkin era o mais pobre do estado de Minnesota, e portanto abundava em aves, mas Walter não perdeu tempo em procurá-las enquanto percorria a retilínea Estrada Vicinal 5 à procura da propriedade de Bo. Havia um vasto campo em que se viam restos não colhidos de uma safra de colza, e um milharal bem menor entremeado de muito mais ervas do que devia. O próprio Bo estava ajoelhado no caminho que dava na casa, consertando o descanso de uma bicicleta de menina cujos punhos eram enfeitados com franjas de plástico cor-de-rosa, enquanto um grupo variado de crianças pequenas entrava e saía pela porta da frente da casa, sempre aberta. Suas faces estavam coradas pelo gim, mas ele era jovem e tinha os músculos de um profissional de luta livre. “Quer dizer que você é o irmão da cidade grande”, disse ele, apertando os olhos surpresos para a caminhonete de Walter.
“Sou eu”, disse Walter. “Me disseram que Mitch estava morando com você.”
“É, ele aparece e depois some. Agora deve estar perto do lago Peter, no camping do condado que fica lá. Está querendo falar com ele sobre alguma coisa em especial?”
“Não, só estou de passagem pela área.”
“É, ele tem estado bem mal depois que Stacy pôs ele para fora de casa. Eu tento ajudar um pouco.”
“Ela pôs Mitch para fora?”
“Bem, sabe como é. Toda história tem dois lados, não é?”
Walter ainda precisou percorrer quase uma hora até o lago Peter, já nas proximidades de Grand Rapids. Chegando ao camping, que lembrava um pouco um cemitério de automóveis e era especialmente desprovido de encantos ao sol do meio-dia, Walter viu um velho barrigudo acocorado ao lado de uma barraca vermelha manchada de lama, descamando peixes em cima de uma folha de jornal. Só depois de passar de carro bem ao lado dele é que descobriu, pela semelhança com seu pai, que era Mitch. Estacionou a caminhonete ao lado de um choupo, para que ficasse um pouco na sombra, e perguntou-se o que estava fazendo ali. Não estava preparado para oferecer a Mitch a casa do lago Sem Nome; achava que ele e Lalitha ainda poderiam ocupá-la por uma ou duas estações do ano enquanto resolviam como seria o futuro. Mas queria ficar mais parecido com Lalitha, mais destemido e humanitário, e embora percebesse que poderia ser mais bondoso simplesmente deixando Mitch em paz, respirou fundo e caminhou em direção à barraca vermelha.
“Mitch”, disse ele.
Mitch estava limpando um peixe de uns vinte centímetros e não levantou os olhos. “Oi.”
“Sou Walter. Seu irmão.”
E então Mitch levantou os olhos, com uma expressão automática de desdém que em seguida se transformou num sorriso autêntico. Tinha perdido sua beleza, ou, mais precisamente, seus belos traços tinham encolhido, convertendo-se num miúdo oásis facial em meio a um deserto inchado e queimado de sol. “Puta merda”, disse ele. “O pequeno Walter! O que você está fazendo aqui?”
“Passei para ver você.”
Mitch limpou as mãos na sua bermuda imunda, e estendeu uma delas a Walter. A mão era flácida, e Walter a apertou com força.
“Olha só, que bom”, disse Mitch num tom genérico. “Eu estava pensando mesmo em abrir uma cerveja. Quer uma? Ou continua abstêmio?”
“Aceito uma cerveja”, disse Walter. Percebeu que teria sido mais generoso e digno de Lalitha ter trazido alguns pacotes de cerveja, e depois pensou que também era bondoso dar a Mitch a oportunidade de ser generoso com alguma coisa. Não sabia qual seria a bondade maior. Mitch atravessou a área suja onde acampava até uma imensa geladeira portátil, e voltou com duas latas de cerveja Pabst Faixa Azul.
“É”, disse ele. “Eu vi essa caminhonete passando e me perguntei se algum tipo de hippie estava chegando aqui. Você virou hippie?”
“Não exatamente.”
Enquanto moscas e varejeiras se esbaldavam com as tripas de seu projeto interrompido de limpeza de peixe, Mitch sentou-se com Walter num par de antiquíssimos banquinhos de acampamento, feitos de madeira e lona salpicada de mofo, que tinham sido do pai deles. Walter reconheceu outros equipamentos igualmente antigos espalhados pela área. Mitch, como o pai, era ótimo de conversa, e enquanto falava com Walter sobre seu modo de vida atual, e da litania de episódios de azar, problemas de coluna, acidentes de carro e irreconciliáveis desentendimentos maritais que tinham levado a esse tipo de existência, Walter percebeu de que maneira seu irmão era um bêbado diferente do pai deles. O álcool, ou a passagem do tempo, parecia ter expurgado todas as memórias da inimizade entre ele e Walter. Não exibia nenhum sinal de senso de responsabilidade, mas também, em consequência, nenhuma postura defensiva ou ressentimento. O dia estava ensolarado e ele estava só fazendo o de sempre. Bebia o tempo todo, mas sem pressa; a tarde ia ser longa.
“De onde você está tirando dinheiro?”, quis saber Walter. “Está trabalhando?”
Mitch debruçou-se um pouco vacilante e abriu uma caixa de apetrechos de pesca que continha uma pequena pilha de notas e talvez uns cinquenta dólares em moedas. “Meu banco”, disse ele. “E isso aí deve durar até o tempo esfriar de novo. Trabalhei de vigia noturno em Aitkin no inverno passado.”
“E o que você vai fazer quando esse dinheiro acabar?”
“Encontro alguma coisa. Eu sei tomar conta de mim.”
“Você não se preocupa com os seus filhos?”
“É, às vezes eu me preocupo. Mas eles têm boas mães que sabem cuidar deles, e eu não presto para isso. Acabei entendendo que só sei tomar conta de mim mesmo.”
“Um homem livre.”
“É o que eu sou.”
E se calaram. Uma brisa fraca tinha começado a soprar, projetando um milhão de diamantes na superfície do lago Peter. Do outro lado, alguns pescadores preguiçavam em botes de alumínio. Um pouco mais perto, um corvo crocitava, outro acampado rachava lenha. Walter tinha passado o verão inteiro acampando, muitas vezes em lugares mais remotos e menos ocupados que aquele, mas em momento algum se sentira mais longe das coisas que constituíam sua vida do que agora. Seus filhos, seu trabalho, suas ideias, as mulheres que ele amava. Sabia que seu irmão não estava interessado na sua vida—passara do ponto de se interessar por qualquer coisa—e não sentia o menor desejo de falar a respeito. Infligir aquelas informações a Mitch. Mas no exato momento em que seu celular tocou, mostrando um número desconhecido da Virgínia Ocidental, ele estava pensando como sua vida tinha sido afortunada e repleta de bênçãos.