Liberdade

Jonathan Franzen · Capítulo 3 de 12 · parte 2/3

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Liberdade

2. Melhores amigas

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

“Sou um sujeito muito limpo”, disse ele, a sério. “Você não corre nenhum risco de saúde.”

“Mas e você, não vai usar nada?”

“Vou dividir ao meio. Você vai precisar de alguma proteção.”

Patty ficou vendo enquanto ele dividia cuidadosamente os tampões de ouvido.

“Acho que vou ficar com eles na mão e esperar para ver se preciso”, disse ela.

Ficaram ali de pé quinze minutos. Eliza finalmente apareceu deslizando e balançando, com ar radiante, bem no momento em que as luzes baixaram e o público se aproximou do palco. A primeira coisa que Patty fez foi deixar cair os tampões de ouvido. Houve muito mais empurrões do que a situação parecia impor. Alguém muito gordo e vestido de couro se encaixou em suas costas e a imprensou contra a beira do palco. Eliza já estava sacudindo os cabelos e saltitando de expectativa, de maneira que coube a Walter afastar o gordo com um empurrão e permitir a Patty ficar de pé ereta.

Os Traumatics que entraram correndo em cena eram formados por Richard, seu baixista da vida toda Herrera, e dois garotos magrelas que pareciam mal saídos do secundário. Na época, Richard era mais exibido do que se tornaria mais tarde, depois que ficou claro que jamais chegaria a ser um ídolo e lhe pareceu melhor comportar-se como um anti-ídolo. Ele pulava na ponta dos pés, dava meias piruetas com a mão segurando o braço da guitarra, e assim por diante. Informou a plateia de que a banda ia tocar todas as músicas que sabia, o que devia levar uns vinte e cinco minutos. Em seguida ele e a banda perderam totalmente o controle, produzindo uma onda tão intolerável de barulho que Patty não conseguia discernir nenhum ritmo naquilo. A música dava a impressão de comida quente demais para se poder sentir o gosto, mas a falta de ritmo ou melodia não impedia o núcleo central de punks da plateia de começar a pular no mesmo lugar, dar ombradas uns nos outros e pisar em todos os pés femininos disponíveis. Tentando ficar fora do alcance, deles, Patty separou-se de Walter e Eliza. O barulho era simplesmente insuportável. Richard e dois outros traumáticos berravam nos microfones, Odeio a luz do sol! Odeio a luz do sol!, e Patty, que gostava bastante da luz do sol, recorreu a seus truques de jogadora de basquete para conseguir fugir de lá imediatamente. Mergulhou na massa com os cotovelos bem altos, emergiu do meio da imundície de cara para Carter e sua garota cintilante e continuou em renovando até se ver na calçada ao ar cálido e renovado de setembro, sob um céu de Minnesota que ainda apresentava uma surpreendente claridade crepuscular.

Ficou parada junto à porta da Longhorn, acompanhando os fãs dos Buzzcocks que chegavam atrasados e esperando para ver se Eliza viria à sua procura. Mas foi Walter, e não Eliza, quem apareceu.

“Estou bem”, disse ela. “Só descobri que não é o tipo de coisa que eu gosto.”

“Posso levar você em casa?”

“Não, você devia voltar. E pode dizer a Eliza que eu vou voltar sozinha para casa, que ela não precisa se preocupar.”

“Não acho que ela esteja nem um pouco preocupada. Deixe eu levar você em casa.”

Patty disse que não, Walter insistiu, ela insistiu em recusar, ele insistiu em levar. Em seguida ela entendeu que ele não tinha carro, e estava se oferecendo para pegar o ônibus com ela, e ela insistiu em recusar de novo desde o início, ao que ele tornou a insistir em acompanhá-la. Muito mais tarde, ele contou que já estava ficando caído por ela enquanto esperavam no ponto do ônibus, mas uma sinfonia equivalente não se fazia ouvir na cabeça de Patty. Ela se sentia culpada por estar abandonando Eliza, arrependida de ter deixado cair os tampões de ouvido e de não ter ficado para ver Richard cantar mais um pouco.

“Estou me sentindo como se tivesse sido reprovada num teste lá dentro”, disse ela.

“Mas você gosta desse tipo de música?”

“Gosto de Blondie. Gosto de Patti Smith. Acho que no fundo não, não gosto desse tipo de música.”

“Então posso perguntar por que você veio?”

“Bem, Richard me convidou.”

Walter assentiu com a cabeça, como se aquilo tivesse um sentido particular para ele.

“Richard é boa pessoa?”, perguntou Patty.

“Muito!”, disse Walter. “Quer dizer, depende. Sabe, a mãe dele fugiu de casa quando ele era pequeno, e se transformou numa fanática religiosa. O pai dele trabalhava nos Correios, bebia e teve câncer de pulmão quando Richard estava no secundário. Richard cuidou dele até ele morrer. É um sujeito muito leal, só que não tanto com as mulheres. Na verdade, ele não trata as mulheres muito bem, se é isso que você quer saber.”

Patty já tinha intuído esse fato, e por algum motivo não ficou abatida com a informação.

“E você?”, quis saber Walter.

“Eu o quê?”

“Você é boa pessoa? É a minha impressão. Apesar...”

“Apesar?”

“Eu detesto a sua amiga!”, explodiu ele. “Não acho que ela seja uma boa pessoa. Na verdade, acho que é uma pessoa horrível. Mente e é maldosa.”

“Bem, mas é minha melhor amiga”, respondeu Patty em tom ofendido. “E ela não é nada horrível comigo. Talvez vocês dois tenham começado com o pé esquerdo.”

“Ela sempre leva você a lugares e deixa você plantada enquanto vai cheirar pó com os outros?”

“Não, na verdade isso nunca tinha acontecido.”

Walter não disse nada, só ficou entregue à sua antipatia. Não havia ônibus à vista.

“Às vezes eu me sinto muito bem ao ver como ela me curte”, disse Patty depois de algum tempo. “Às vezes não tanto assim. Mas quando é...”

“Nem me passa pela cabeça que possa existir gente que não curta você”, disse Walter.

Ela sacudiu a cabeça. “Alguma coisa está errada comigo. Adoro todas as minhas outras amigas, mas sinto sempre que existe um muro entre mim e elas. Como se todas fossem um tipo de pessoa e eu fosse outro. Mais competitiva e egoísta. No fim das contas, menos boa. De algum modo eu sempre acabo me sentindo como se estivesse fingindo quando estou com elas. Com Eliza não preciso fingir nada. Posso ser simplesmente eu mesma e ainda assim ser melhor do que ela. Quer dizer, não sou nada boba. Eu sei que ela é uma pessoa bem doida. Mas uma parte minha adora estar com ela. Você às vezes sente a mesma coisa com Richard?”

“Não”, respondeu Walter. “Na verdade costuma ser bem desagradável estar com ele a maior parte do tempo. Havia uma coisa que me agradava muito nele no começo, no primeiro ano. Ele é totalmente dedicado à música, mas também tem muita curiosidade intelectual, coisa que eu admiro muito.”

“É porque você é uma pessoa boa de verdade”, disse Patty. “Você gosta dele do jeito que é, não pelo que faz você sentir. Deve ser essa a diferença entre nós dois.”

“Mas você me parece uma pessoa boa de verdade!”, disse Walter.

Patty sabia, no fundo, que ele estava tendo a impressão errada acerca dela. E o erro que ela cometeu, o erro realmente importante para toda a vida, foi o de aderir à visão que Walter tinha dela, apesar de saber que não estava certa. Ele parecia tão convencido de que ela era boa que no fim das contas acabou derrotando suas resistências.

Quando finalmente chegaram de volta ao campus, naquela primeira noite, Patty percebeu que vinha falando de si havia uma hora sem se dar conta de que Walter se limitava a fazer perguntas, sem responder a nenhuma. A ideia de demonstrar alguma simpatia recíproca e se interessar por ele agora lhe parecia simplesmente cansativa, porque não sentia atração por ele.

“Posso ligar para você uma hora dessas?”, perguntou ele à porta de seu dormitório.

Ela explicou que não teria muita disponibilidade para a vida social nos meses seguintes, devido aos treinamentos. “Mas foi muita delicadeza sua ter me trazido em casa”, disse ela. “Muito obrigada.”

“Você gosta de teatro? Tenho uns amigos com quem costumo ir ao teatro. Não estou falando de sairmos só nós dois num encontro.”

“É que estou tão ocupada.”

“Esta cidade tem ótimas peças de teatro”, persistiu ele. “Aposto que você ia gostar.”

Oh, Walter: será que ele sabia que seu traço mais interessante, nos meses que Patty se dedicou a conhecê-lo, era ser amigo de Richard Katz? Terá percebido como, cada vez que Patty se encontrava com ele, arrumava algum modo despretensioso de conduzir a conversa na direção de Richard? Será que ele não desconfiou, naquela primeira noite, quando ela concordou em deixá-lo ligar para ela, que ela estava pensando em Richard?

Quando entrou e subiu para o quarto, ela encontrou preso à porta um recado que Eliza lhe mandara por telefone. Ficou sentada na cama com os olhos ardendo da fumaça em seu cabelo e em suas roupas, até Eliza ligar de novo para o telefone do corredor, com o barulho da música ao fundo, e a censurar por tê-la deixado muito assustada ao desaparecer daquele jeito.

“Foi você que desapareceu”, disse Patty.

“Fui só dar um alô a Richard.”

“E só voltou meia hora depois.”

“E Walter?”, perguntou Eliza. “Foi embora com você?”

“Ele me trouxe em casa.”

“Argh, que nojo. E ele contou o quanto me odeia? Acho que na verdade ele tem é ciúme de mim. Acho que ele tem algum lance com Richard. Talvez um lance gay.”

Patty olhou para os dois lados no corredor para ter certeza de que ninguém estava ouvindo. “Foi você que levou as drogas para o Carter no aniversário dele?”

“O quê? Não ouvi.”

“foi você que levou aquelas coisas que você e o carter estavam usando no aniversário dele?”

“Não estou ouvindo!”

“o pó do aniversário de carter. foi você que levou para ele?”

“Não! Meu Deus! Foi por isso que você foi embora? É por isso que ficou chateada? Foi isso que Walter lhe disse?”

Patty, com o queixo trêmulo, desligou o telefone e passou uma hora tomando banho.

Seguiu-se outro período de marcação por pressão de Eliza, mas dessa vez à meia força, porque agora também estava cercando Richard. Quando Walter cumpriu sua ameaça de telefonemas para Patty, ela se sentiu inclinada a sair com ele, tanto por sua ligação com Richard quanto pelo frisson de ser desleal a Eliza. Walter teve o tato de não tornar a falar de Eliza, mas Patty nunca deixou de perceber a opinião que ele tinha sobre sua amiga, e alguma parte virtuosa dela gostava da ideia de se dedicar a alguma atividade cultural em vez de encher a cara de vinho com soda e ficar ouvindo os mesmos discos mil vezes. Acabou vendo duas peças e um filme com Walter ao longo do outono. Depois que a temporada de basquete começou, ela também o via sentado sozinho nas arquibancadas, muito corado, adorando o jogo e acenando sempre que ela olhava em sua direção. Começou a ligar para ela nos dias seguintes aos jogos para cobrir de elogios seu desempenho e dar mostras de um tipo de compreensão sutil de sua estratégia em campo, coisa que Eliza nunca sequer se dera ao trabalho de simular. Quando ele não a encontrava em casa e deixava um recado, Patty tinha o frisson suplementar de ligar de volta na esperança de conseguir falar com Richard, mas Richard, infelizmente, nunca estava em casa quando Walter não atendia.

Nos minúsculos intervalos entre os blocos de tempo que passava respondendo às perguntas de Walter, ela conseguiu descobrir que ele vinha de Hibbing, Minnesota, e que pagava parte dos seus estudos com o que ganhava em meio expediente como carpinteiro para o mesmo mestre de obras que empregava Richard como operário, e que precisava levantar às quatro da manhã para estudar. Sempre começava a bocejar em torno das nove da noite, o que Patty, devido a seus horários igualmente apertados, gostava de ver quando saía com ele. A eles se juntavam, como Walter tinha prometido, três amigas dele do curso secundário e da faculdade, três moças inteligentes e criativas cujos problemas de excesso de peso e cujos vestidos com muitas pregas teriam provocado comentários ácidos da parte de Eliza caso ela as visse. Foi com essa troica de adoradoras que Patty começou a descobrir o quanto Walter era prodigiosamente especial.

Segundo as amigas, Walter fora criado num quartinho apertado atrás do escritório de um motel chamado Whispering Pines, com um pai alcoólatra, um irmão mais velho que lhe dava surras regulares, um irmão mais novo que copiava com o máximo capricho as zombarias do mais velho, e a mãe, cujos problemas físicos e o amor-próprio abalado prejudicavam tanto seu desempenho que na alta temporada, durante o verão, Walter muitas vezes passava as tardes inteiras fazendo faxina nos quartos e depois registrava os hóspedes retardatários enquanto o pai bebia com seus amigos do grupo de veteranos e a mãe dormia. O que era um suplemento à sua função familiar rotineira de ajudar o pai a manter as instalações do motel, desde pavimentar o estacionamento a desentupir ralos e consertar a caldeira de água quente. O pai contava com sua ajuda, e Walter sempre correspondia na esperança permanente de conquistar seu apreço, o que as amigas diziam ser impossível, todavia, porque Walter era sensível e intelectualizado demais, e interessado de menos por caça, picapes e cerveja (ao contrário dos irmãos). Apesar de trabalhar num emprego não remunerado que no fim das contas o ocupava durante o ano inteiro, Walter ainda conseguia fazer papéis principais em montagens estudantis de peças e musicais, inspirar a devoção perene em vários amigos de infância, aprender a cozinhar e a costurar com a mãe, dedicar-se a seu interesse pela natureza (peixes tropicais; formigueiros; atendimento de emergência para passarinhos caídos do ninho; prensagem de flores) e ser o orador da formatura de sua classe. Conseguiu uma bolsa de estudos numa das universidades de elite, mas em vez disso preferiu ir para Macalester, próxima o bastante de Hibbing para poder tomar um ônibus nos fins de semana e ajudar a mãe a combater o renitente declínio físico do motel (parece que a essa altura o pai tinha enfisema e ficara incapacitado). Walter havia sonhado em ser diretor ou ator de cinema, mas em vez disso fora estudar direito porque, como contaram que ele dissera, “Alguém nessa família precisa ganhar dinheiro”.

Contra o bom senso—já que não tinha atração por Walter—Patty se sentia competitiva e vagamente ofendida pela presença de outras moças no que podiam ter sido encontros, e ficava gratificada ao perceber que era ela, e não as outras, quem trazia certo brilho aos olhos dele e quem fazia um rubor incontrolável surgir em seu rosto. Ela, Patty, gostava de estar no centro das atenções. Mais ou menos em qualquer situação. Na última peça que assistiram, em dezembro, no Guthrie, Walter chegou momentos antes de a cortina abrir, coberto de neve, com livros de bolso de presente para as outras meninas e, para Patty, uma enorme poinsétia que tinha trazido no ônibus e depois pelas ruas cobertas de neve, e tivera imensa dificuldade para deixar guardada na chapelaria. Ficou claro para todas, até mesmo para Patty, que dar livros interessantes para as outras moças enquanto para ela dava uma planta tinha a intenção contrária do desrespeito. O fato de Walter não estar investindo seu entusiasmo em alguma versão mais esbelta de suas amigas simpáticas e dedicadas, e sim em Patty, que aplicava toda a sua inteligência e criatividade sobretudo em inventar novas maneiras aparentemente indiferentes de mencionar Richard Katz, era espantoso e alarmante mas também, inegavelmente, lisonjeiro. Depois da peça, Walter carregou a poinsétia até o quarto dela no dormitório, no ônibus e atravessando mais ruas e calçadas cobertas de neve semiderretida. O cartão, que ela abriu ao chegar em seu quarto, dizia Para Patty, com grande afeto, de seu fã e admirador.

Foi bem nessa época que Richard finalmente deu o fora em Eliza. Ao que parece, era especialista em foras brutais. Eliza estava transtornada quando ligou para Patty e lhe contou, reclamando que “aquele veado” tinha virado Richard contra ela, que Richard não lhe dava a menor chance, e que Patty precisava ajudar e marcar um encontro entre ela e Richard, que se recusava a falar com ela, abrir a porta do apartamento ou até—

“Estou na época das finais”, disse Patty com frieza.

“Você podia ir até lá e eu ia com você”, disse Eliza. “Só preciso estar com ele para poder explicar.”

“Explicar o quê?”

“Que ele precisa me dar uma chance! Que eu mereço ser ouvida!”

“Walter não é gay”, disse Patty. “É uma coisa que você inventou na sua cabeça.”

“Ah, meu Deus, agora ele virou você também contra mim!”

“Não”, respondeu Patty. “Não é assim.”

“Vou até aí agora e a gente bola um plano.”

“Tenho prova final de história amanhã de manhã. Preciso estudar.”

Patty ficou sabendo então que Eliza tinha parado de frequentar as aulas seis semanas antes, por estar tão amarrada em Richard. Era culpa dele, ela tinha desistido de tudo por ele, e agora ele a punha para fora e ela precisava evitar que os pais descobrissem que ia ser reprovada em tudo, ela ia agora ao dormitório de Patty e Patty precisava ficar lá e esperar por ela, para poderem bolar algum plano.

“Estou muito cansada”, disse Patty. “Preciso estudar e depois dormir.”

“Não acredito! Ele virou vocês dois contra mim! As duas pessoas de quem eu mais gosto no mundo!”

Patty conseguiu se livrar do telefonema, correu para a biblioteca e ficou lá até a hora de fechar. Estava convencida de que Eliza estaria à sua espera na porta do dormitório, fumando um cigarro atrás do outro e determinada a mantê-la acordada até o meio da noite. Ela detestava ter de pagar aquele pesado tributo à amizade, mas também estava resignada, e assim achou estranhamente decepcionante chegar de volta a seu dormitório e não encontrar nem sinal de Eliza. Quase resolveu ligar para ela, mas o alívio e o cansaço superaram sua culpa.

Três dias se passaram sem notícias de Eliza. Na noite anterior à partida de Patty para os feriados de Natal, ela finalmente ligou para Eliza a fim de verificar se estava tudo bem, mas o telefone tocou e tocou. Ela tomou o avião para casa em Westchester envolta num nevoeiro de culpa e preocupação que só ficou mais denso a cada uma de suas tentativas frustradas, do telefone da cozinha dos pais, de entrar em contato com a amiga. Na véspera de Natal, ela chegou ao ponto de ligar para o Motel Whispering Pines, em Hibbing, Minnesota.

“Que presente de Natal maravilhoso!”, disse Walter. “Você ligar.”

“Ah, bem, obrigada. Na verdade estou ligando para saber de Eliza. Ela praticamente desapareceu.”

“Sorte a sua,” disse Walter. “Richard e eu fomos obrigados a desligar o telefone da parede.”

“Quando?”

“Faz dois dias.”

“Ah, bom, já é um alívio.”

Patty continuou conversando com Walter, respondendo a suas muitas perguntas, descrevendo o consumismo desvairado dos irmãos na época natalina e os momentos anuais de humilhação pelos quais ela passava com toda a família, lembrando como ela já era velha quando tinha parado de acreditar em Papai Noel, a bizarra troca de alfinetadas sexuais e escatológicas entre seu pai e sua irmã do meio, as “queixas” da irmã do meio, dizendo que seus cursos do primeiro ano em Yale eram muito fáceis, e o arrependimento da mãe, vinte anos depois, de sua decisão de parar de comemorar o Hanuká e outras festividades judaicas. “E como vão as coisas do seu lado?”, perguntou Patty a Walter depois de meia hora.

“Bem”, respondeu ele. “Estou assando um bolo com a minha mãe. Richard está jogando damas com meu pai.”

“Gostei da ideia. Queria estar aí.”

“Eu também queria que você estivesse aqui. Podíamos sair para caminhar com sapatos de neve.”

“Gostei dessa ideia também.”

O que era verdade, e Patty não sabia mais se era a presença de Richard que tornava Walter interessante ou se ele podia ser interessante por conta própria —por sua capacidade de dar sempre a impressão de que o lugar onde estava era um recanto agradável.

O horrível telefonema de Eliza aconteceu na noite de Natal. Patty atendeu na extensão do porão, onde estava assistindo sozinha a um jogo de basquete da nba. Antes que sequer tivesse tempo de pedir desculpas, a própria Eliza pediu desculpas pelo silêncio e disse que tinha perdido muito tempo com consultas médicas. “Dizem que estou com leucemia,” contou ela.

“Não.”

“Vou começar o tratamento depois do ano-novo. Meus pais são as únicas outras pessoas que sabem, e você não pode contar a ninguém. Especialmente a Richard. Jura que não conta para ninguém?”

A nuvem de culpa e preocupação de Patty se condensou numa tempestade de sentimentos. Chorou, chorou e perguntou a Eliza se ela tinha certeza, se os médicos tinham certeza. Eliza explicou que vinha se sentindo cada vez mais cansada desde o outono, mas que não quis contar a ninguém, porque tinha medo de que Richard lhe desse o fora se por acaso ela estivesse com mononucleose, mas que finalmente começou a se sentir tão mal que foi consultar um médico, e o veredicto tinha chegado dois dias depois: leucemia.

“Do tipo ruim?”

“Todas são do tipo ruim.”

“Mas é do tipo que dá para curar?”

“A chance de conseguir bons resultados com o tratamento é boa”, disse Eliza. “Vou saber melhor daqui a uma semana.”

“Vou voltar mais cedo. Posso ficar com você.”

Mas Eliza, estranhamente, não queria mais que Patty ficasse com ela.

Quanto à tal história do Papai Noel: a autobiógrafa não tem a menor simpatia por pais que mentem, mas reconhece que existem diferenças de grau na mentira. Há as mentiras que se contam às pessoas para quem estamos preparando uma festa-surpresa, mentiras contadas para o bem, e as mentiras que se contam às pessoas para fazê-las passar vergonha por acreditar nelas. Num Natal, já adolescente, Patty ficou tão irritada com os comentários sobre sua crença infantil prolongada na existência de Papai Noel (que persistira mesmo depois de dois irmãos mais novos terem perdido a fé) que se recusou a sair do quarto para a ceia de Natal. O pai dela, vindo conversar, dessa vez parou de zombar e lhe disse seriamente que a família tinha preservado suas ilusões porque a inocência era uma coisa linda e sentiam um amor especial no caso dela por conta disso. O que foi uma coisa muito boa de escutar e ao mesmo tempo uma óbvia cascata, desmentida pelo prazer que todos encontravam em rir dela. Patty achava que os pais têm o dever de ensinar os filhos a reconhecer a realidade sempre que deparam com ela.

Digamos apenas que Patty, nas muitas semanas de inverno que passou bancando a Florence Nightingale para Eliza—saindo a pé em meio a uma nevasca para comprar-lhe sopa, fazendo faxina na cozinha e no banheiro, ficando acordada até tarde com ela vendo tv quando devia estar dormindo antes de um jogo, às vezes adormecendo com os braços em volta da amiga emaciada, submetendo-se a declarações extremas de afeto (“Você é meu anjo bom”, “Vendo seu rosto eu me sinto no céu” etc. etc.) e se recusando, durante todo esse tempo, a ligar de volta para Walter e explicar por que não tinha mais tempo para sair com ele—, deixou de perceber várias bandeiras vermelhas. Não, disse Eliza, a quimioterapia dela não era do tipo que faz cair o cabelo. E não, não era possível marcar as sessões de tratamento nos horários em que Patty poderia passar para pegá-la na clínica. E não, ela não queria desistir do apartamento para ficar na casa dos pais, e, sim, os pais vinham sempre visitá-la, era só um acaso que nunca coincidisse com as vindas de Patty, e, não, não era incomum que pacientes de câncer se autoaplicassem antieméticos com uma seringa como a que Patty vislumbrou no chão debaixo da mesa de cabeceira de Eliza.

Pode-se dizer que a maior das bandeiras vermelhas tenha sido a maneira como ela, Patty, evitava Walter. Ela o viu em dois jogos no mês de janeiro e falou rapidamente com ele, mas ele faltou a muitos jogos depois disso, e a explicação consciente que ela se dava para não retornar muitas das ligações posteriores dele era sua vergonha de admitir quanto tempo estava passando com Eliza. Mas onde estava a vergonha em cuidar de uma amiga sofrendo de câncer? E, da mesma forma, até que ponto lhe seria difícil, quando estava na quinta série, abrir seus ouvidos para a zombaria das colegas em relação a Papai Noel, se tivesse o mínimo interesse em conhecer a realidade? Ela jogou fora o vaso com a poinsétia, embora a planta ainda estivesse viva.

Walter acabou se encontrando com ela no fim de fevereiro, no final do dia de muita neve do jogo dos Gophers contra a ucla, seu adversário mais importante da temporada. Patty já estava de mau humor com o mundo naquele dia, devido a uma conversa telefônica matinal com a mãe, que fazia aniversário. Patty resolveu não falar sobre a própria vida para descobrir mais uma vez que Joyce não estava ouvindo e não dava a mínima para a importância do adversário da sua equipe, mas nem teve oportunidade de exercer esse autocontrole, pois Joyce estava tão eletrizada com a irmã do meio de Patty, que tinha feito um teste para o papel principal numa montagem off Broadway de A convidada do casamento por insistência especial de seu professor de Yale e conseguiu ficar como substituta da protagonista, o que parecia uma façanha e tanto, que podia resultar no afastamento temporário de Yale da irmã, a qual moraria na casa dos pais e se dedicaria em tempo integral ao teatro; e Joyce estava radiante.

Quando Patty viu Walter contornando a esquina de tijolinhos da Biblioteca Wilson, virou-se e saiu andando depressa, mas ele veio correndo atrás dela. A neve se acumulara em seu chapéu de pelo; o rosto dele estava vermelho como a luz de um farol de navegação. Embora ele tentasse sorrir e se mostrar simpático, sua voz tremia quando perguntou a Patty se ela tinha recebido algum dos seus recados telefônicos.

“É que eu tenho andado muito ocupada”, disse ela. “Desculpe, de verdade. Eu não ter ligado de volta.”

“Foi alguma coisa que eu disse? Você ficou ofendida de algum modo?”

Ele estava magoado e irritado, o que ela detestava.

“Não, não, de maneira alguma”, disse ela.

“Eu teria ligado mais, só que não queria ficar incomodando.”

“Só estou mesmo muito, muito ocupada”, murmurou ela enquanto a neve caía.

“A pessoa que atende seu telefone começou a falar comigo com uma voz cada vez mais aborrecida, porque eu sempre deixo o mesmo recado.”

“Bom, é que o quarto dela fica ao lado do telefone, é por isso. Dá para entender. Ela anota muitos recados.”

“Não estou entendendo”, disse Walter, quase chorando. “Você quer que eu deixe você em paz? É isso?”

Ela detestava esse tipo de cena, detestava.

“A verdade é que eu estou só muito ocupada”, disse ela. “E tenho um jogo importante hoje à noite, só isso.”

“Não”, disse Walter, “alguma coisa está errada. O que foi? Você está com um ar tão infeliz!”

Ela não queria falar sobre a conversa com a mãe, porque estava tentando trazer a cabeça para a questão do jogo e era melhor não ficar remoendo essas coisas. Mas Walter exigiu com tamanho desespero uma explicação—de um modo que ia além dos sentimentos dele, quase que em nome da justiça—que ela se sentiu obrigada a dizer alguma coisa.

“Escute”, disse ela, “você precisa jurar que não vai contar para o Richard”, embora ela percebesse, no momento mesmo em que falava do assunto, que jamais tinha entendido o porquê dessa proibição, “mas Eliza está com leucemia. É uma coisa horrível.”

Para surpresa dela, Walter caiu na risada. “Não me parece nada provável.”

“Pois é verdade”, disse ela. “Ache você provável ou não.”

“Está bem. E ela continua consumindo heroína?”

Um fato a que ela raramente prestava atenção antes—que ele era dois anos mais velho do que ela—de repente se fez presente.

“Ela está com leucemia”, disse Patty. “Não sei dessa história de heroína.”

“Até Richard tem o juízo de não se meter com essa porcaria. O que, pode acreditar, não é dizer pouco.”

“Eu não sei de nada disso.”

Walter assentiu com a cabeça e sorriu. “Então você é realmente um doce de pessoa.”

“Não sei de nada disso”, repetiu ela. “Mas agora preciso ir comer e me preparar para o jogo.”

“Hoje à noite eu não posso ir ver você jogar”, disse ele enquanto se virava para ir embora. “Eu bem que queria, mas Harry Blackmun vai dar uma conferência, e eu preciso ir.”

Ela se virou para ele, irritada. “Nenhum problema.”

“Ele é juiz da Suprema Corte. Escreveu Roe vs. Wade.”

“Eu sei”, disse ela. “Minha mãe tem praticamente um altar em que queima incenso para ele. Não precisa me explicar quem é Harry Blackmun.”

“Está bem. Desculpe.”

A neve rodopiava entre os dois.

“Está bem, então não incomodo mais você”, disse Walter. “Sinto muito por Eliza. Espero que ela fique bem.”

A autobiógrafa não culpa ninguém além de si mesma—nem Eliza, nem Joyce, nem Walter—pelo que aconteceu em seguida. Como toda jogadora, ela passara por várias fases de erros de arremesso e tinha disputado vários jogos abaixo das suas possibilidades, mas mesmo nas piores noites ela se sentia segura por fazer parte de alguma coisa maior—da equipe, do espírito esportivo, da ideia de que o esporte era importante—e encontrava um verdadeiro conforto nos gritos de estímulo de suas irmãs companheiras de equipe e em seus rituais cômicos contra o azar no intervalo entre o primeiro e o segundo tempo, as variações sobre os temas da bola furada e dos dedos frouxos, as frases feitas que ela própria tinha gritado mil vezes antes. Ela sempre queria a bola, porque a bola sempre a tinha salvado, a bola era o que Patty tinha certeza de possuir na vida, a bola sempre fora sua companheira leal nos infindáveis verões da sua infância. E todos os rituais que as pessoas repetem na igreja e parecem insípidos ou falsos para os não crentes— os tapas na palma da mão depois de cada cesta, o aglomerado de abraços depois de cada lance livre convertido, os toques das palmas erguidas com cada companheira que saía da quadra, os gritos permanentes dizendo “Vamos lá, shawna cathy cesta, uhuu, uhuu !” ou “Grande jogada, !” e “!”—tinham se tornado tão naturais para ela e faziam tanto sentido, como formas de apoio necessárias para um alto desempenho automático, que a ideia de ficar envergonhada por eles lhe pareceria mais absurda do que se envergonhar do fato de que correr de um lado para o outro da quadra a fazia suar muito. Os esportes femininos não eram só graça e leveza, claro. Por baixo dos abraços havia rivalidades encruadas, juízos morais e uma impaciência profunda, Shawna culpando Patty por passar bolas demais para Cathy e de menos para ela própria, Patty se irritando cada vez que a pivô reserva Abbie Smith transformava mais uma posse de bola num arremesso que não conseguia converter, Mary Jane Rorabacker cultivando um ressentimento permanente contra Cathy por não convidá-la a dividir o quarto com Patty e Shawna no segundo ano embora as duas tenham jogado juntas na St. Paul Central School, todas as estreantes sentindo um alívio culpado quando uma recruta promissora, rival em potencial, jogava mal sob pressão etc. etc. etc. Mas os esportes de competição se baseavam num ato de devoção, numa profissão de fé, e depois que aquilo se impregnava na pessoa, fosse no curso secundário ou, em último caso, no colegial, você não precisava mais pensar em nada importante quando se dirigia ao ginásio e vestia o uniforme, você sabia a Resposta à Pergunta, a Resposta era a Equipe, e quaisquer pensamentos venais de cunho pessoal eram deixados de lado.

É possível que Patty, na agitação que se seguiu a seu encontro com Walter, tenha se esquecido de comer direito. Mas não há dúvida de que alguma coisa estava errada desde o momento em que chegou à Williams Arena. A equipe da ucla era toda grande e usava muito o jogo físico, e três das jogadoras que começaram em quadra tinham pelo menos um metro e oitenta, e a estratégia da treinadora Treadwell para o jogo era forçar o desgaste delas na transição e fazer as jogadoras menores, especialmente Patty, atacar em velocidade antes que as adversárias tivessem tempo de armar a defesa. Para a defesa delas, o plano era usar de muita agressividade e tentar provocar as duas principais cestinhas do adversário a acumular faltas desde cedo. Ninguém esperava que as Gophers vencessem, mas se ganhassem chegariam entre as vinte principais equipes do ranking extraoficial do país—mais alto do que jamais tinham chegado durante a carreira de Patty. Assim, aquela era uma péssima noite para ela perder a fé.

Ela sentia uma fraqueza diferente no seu núcleo. Seus movimentos tinham o desembaraço de sempre nas arrancadas, mas seus músculos lhe davam uma impressão de inelasticidade. Os gritos das companheiras de equipe lhe davam nos nervos, e uma constrição no peito, um certo embaraço, a impedia de gritar de volta com elas. Conseguiu isolar todos os pensamentos sobre Eliza, mas em vez disso se descobriu refletindo como, embora sua carreira fosse se encerrar dali a uma temporada e meia, sua irmã do meio podia se transformar numa atriz famosa pela vida inteira, e como tinha sido portanto um investimento duvidoso de seu tempo e de seus recursos dedicar-se tanto ao esporte, e com quanto descuido ela havia ignorado os anos de insinuações da mãe nesse sentido. Nada disso, pode-se dizer com certeza, era recomendado como modo de pensar antes de um jogo importante.

“Só jogue como sempre, jogue bem”, disse a treinadora Treadwell. “Quem é a líder?”

“Eu sou a líder.”

“Mais alto.”

“Eu sou a líder!”

“Mais alto.”

“eu sou a líder.”

Se você já jogou algum esporte de equipe, vai saber que, com essas palavras, Patty se sentiu imediatamente mais forte, mais centrada e mais dotada de espírito de liderança. É engraçado como isso funciona—a transfusão de confiança através de meras palavras. Ela se sentiu bem durante o aquecimento e quando trocou um aperto de mão com a capitã adversária e sentiu os olhos da outra equipe tentando avaliá-la, sabendo que deviam ter dito a elas que era uma cestinha impressionante e sempre puxava os ataques de sua equipe, ela se revestiu de sua fama como se fosse uma armadura completa. Depois que o jogo tem início, porém, e a confiança começa a se esvair, a transfusão de fora para dentro da quadra deixa de ser possível. Patty converteu uma cesta num arremesso próximo com uma das mãos, e sua noite mais ou menos acabou ali. Já no segundo minuto de jogo, soube pelo nó que sentia na garganta que ia jogar pior do que nunca. Sua contrapartida na equipe adversária tinha cinco centímetros, quase quinze quilos e um alcance vertical diabólico a mais que ela, mas o problema não era apenas físico, nem principalmente físico. O problema era o defeito da sua postura. Em vez de reagir com ardor competitivo à vantagem física das adversárias, e de correr sem descanso atrás da bola, como a treinadora lhe dissera para fazer, sentiu-se derrotada pela injustiça: ficou com pena de si mesma. As adversárias começaram a marcar sob pressão na quadra toda e descobriram que a marcação funcionava de maneira espetacular. Shawna pegou um rebote e passou para Patty, mas ela foi encurralada num canto e perdeu a bola. Ela tornou a receber a bola mas caiu fora da quadra. Tornou a receber a bola, fez uma finta e passou direto para as mãos de uma defensora, como se a desse de presente. A treinadora pediu tempo e disse a ela para se colocar mais à frente da quadra nas transições, mas as adversárias estavam à sua espera lá também. Um passe longo saiu das suas mãos direto para a arquibancada. Tentando lutar contra o nó na garganta, tentando se enfurecer, ela fez carga numa adversária e a falta foi marcada. Ela não conseguia saltar. Errou dois arremessos de dentro do garrafão, e a treinadora a tirou da quadra para uma conversa.

“Onde está a minha garota? Cadê a minha líder?”

“Hoje eu estou sem gás.”

“Você tem gás de sobra, só precisa encontrar. Está aí dentro. Procure direito.”

“Está bem.”

“Grite comigo. Bote para fora.”

Patty abanou a cabeça. “Não quero botar para fora.”

A treinadora, agachada, olhou direto para ela, e Patty, recorrendo a toda sua força de vontade, obrigou-se a olhá-la nos olhos.

“Quem é a minha líder?”

“Sou eu.”

“Grite.”

“Não consigo.”

“Você quer que eu deixe você no banco? É isso que você quer?”

“Não!”

“Então volte para lá. Precisamos de você. Seja qual for o problema, conversamos sobre ele mais tarde. Certo?”

“Certo.”

E essa nova transfusão se transformou diretamente em hemorragia, sem circular nem uma vez pelo corpo de Patty. Ela ficou na quadra em consideração a suas companheiras de equipe, mas reverteu a seu antigo costume de ser desprendida, de acompanhar as jogadas em vez de organizá-las, de passar em vez de arremessar, e depois a seu costume ainda mais antigo de ficar rondando pela beira da quadra e tentar um ou outro arremesso de longe, alguns dos quais poderiam ter sido convertidos em alguma outra noite, mas não naquela. Como é difícil a pessoa se esconder numa quadra de basquete! Patty era suplantada pela defesa mais e mais vezes, e cada vez parecia tornar a próxima ainda mais provável. O que ela estava sentindo se tornou muito familiar mais adiante em sua vida, quando entrou em contato com a depressão grave, mas naquela noite de fevereiro era uma novidade horrenda sentir o jogo rodopiando à sua volta, totalmente fora de seu controle, e intuir que a importância de tudo que acontecia, cada chegada ou escapada da bola, cada batida pesada de seus pés no chão, cada momento em que tentava de novo marcar uma adversária plenamente concentrada e determinada, cada tapa animador das companheiras de equipe durante o intervalo, era o quanto ela era ruim, o quanto seu futuro era vazio e o quanto toda resistência era inútil.

A treinadora por fim a deixou sentada no banco na primeira metade do segundo tempo, quando sua equipe perdia por uma diferença de vinte e cinco pontos. Ela reviveu um pouco assim que se viu a salvo no banco. Reencontrou a voz e começou a exortar as companheiras de equipe e levantar as mãos para trocar toques com elas como uma novata ansiosa, chafurdando na degradação de se ver reduzida a chefe de torcida num jogo de que devia ter sido a estrela, aceitando a vergonha de ser consolada com um excesso de delicadeza pelas companheiras compadecidas. Sentiu que merecia plenamente aquele aviltamento e aquela vergonha, depois da maneira como tinha jogado mal. Chafurdar naquela merda foi o melhor que ela fez no dia.

Depois, no vestiário, ela aturou o sermão da treinadora com os ouvidos fechados então ficou sentada num banco, soluçando por meia hora. Suas amigas tiveram o respeito de deixá-la fazer o que queria em paz.

Com sua parca forrada de plumas e seu gorro do time, ela foi até o Auditório Northrop, esperando que a conferência de Blackmun ainda estivesse em andamento, mas o local estava escuro e trancado. Pensou em voltar ao seu dormitório e ligar para Walter, mas percebeu que o que realmente queria agora era mandar o treinamento às favas e encher a cara de vinho. Caminhou pelas ruas cobertas de neve até o apartamento de Eliza, e lá percebeu que o que realmente queria era brigar aos gritos com a amiga.

Eliza, no interfone, alegou que era tarde e que estava cansada.

“Não, você precisa me deixar subir”, disse Patty. “Não tem escolha.”

Eliza abriu a porta e depois se deitou no sofá. Estava de pijama, ouvindo algum tipo de jazz vibrante. O ar estava denso de letargia e fumaça estagnada. Patty se postou de pé ao lado do sofá, sem tirar a parca, com a neve derretendo dos seus tênis, e observou como Eliza respirava devagar e como levou tempo para que o impulso de falar se concretizasse—vários movimentos faciais aleatórios foram ficando cada vez menos aleatórios e finalmente se aglutinaram numa pergunta murmurada: “Como foi o jogo”.

Patty não respondeu. Depois de algum tempo, ficou claro que Eliza esquecera a sua presença.

Não fazia muito sentido gritar ofensas para ela no momento, de maneira que Patty preferiu revistar o apartamento. Os apetrechos e a droga surgiram imediatamente, bem no chão junto à cabeceira do sofá—Eliza se limitara a jogar uma almofada por cima de tudo. Embaixo de uma pilha de coletâneas de poesia e revistas de música estava o fichário azul de três furos. Até onde Patty pôde dizer, nada tinha sido acrescentado a ele desde o verão. Ela percorreu os papéis e as contas de Eliza, procurando alguma coisa de ordem médica, mas não achou nada. O disco de jazz estava tocando com repetição automática. Patty desligou o aparelho e sentou-se junto à mesinha de centro com o álbum, a droga e os apetrechos à sua frente. “Acorde”, disse ela.

Eliza apertou ainda mais os olhos.

Patty cutucou sua perna. “Acorde.”

“Preciso de um cigarro. A químio de hoje acabou comigo.”

Patt levantou-a, puxando pelo ombro.

“Oi”, disse Eliza, com um sorriso borrado. “Que bom ver você.”

“Não quero mais ser sua amiga,” disse Patty. “Nunca mais quero ver você.”

“Por quê?”

“Não quero, só isso.”

Eliza fechou os olhos e sacudiu a cabeça. “Mas eu preciso de você para me ajudar”, disse ela. “Estou tomando drogas por causa da dor. Por causa do câncer. Queria lhe contar. Mas fiquei com vergonha.” Escorregou de lado e voltou a ficar deitada.

“Você não está com câncer”, disse Patty. “É uma mentira que você inventou porque tem alguma ideia maluca a meu respeito.”

“Não, estou com leucemia. Estou com leucemia, sem a menor dúvida.”

“Eu vim até aqui para lhe dizer em pessoa, por cortesia. Mas agora estou indo.”

“Não. Você precisa ficar. Estou com um problema de drogas, e você precisa me ajudar.”

“Não tenho como ajudar. Você precisa ir para a casa dos seus pais.”

Houve um longo silêncio. “Me arruma um cigarro”, disse Eliza.

“Eu odeio os seus cigarros.”

“Eu achei que você sabia como são os pais”, disse Eliza. “E que você nunca é a pessoa que eles queriam.”

“Não sei de nada a seu respeito.”

Houve mais um silêncio. E então Eliza disse: “Você sabe o que vai acontecer se você for embora, não sabe? Eu vou me matar”.

“Ah, grande motivo para eu ficar e ser sua amiga,” respondeu Patty. “Vai ser muito divertido para nós duas.”

“Só estou dizendo que é o mais provável que eu faça. Você é a única coisa que eu amo e é linda e real.”

“Não sou uma coisa”, disse Patty, corrigindo a injustiça.

“Você já viu alguém se injetando? Eu peguei o jeito muito bem.”

Patty pegou a seringa e as drogas e guardou tudo no bolso da parca. “Qual é o telefone dos seus pais?”

“Não ligue para eles.”

“Vou ligar para eles. Você não tem escolha.”

“E vai ficar comigo? Vai vir me visitar?”

“Vou”, mentiu Patty. “Agora me dê o telefone deles.”

“Eles vivem perguntando por você. Acham que você é uma boa influência na minha vida. Você vai ficar comigo?”

“Vou”, tornou a mentir Patty. “Qual é o telefone deles?”

Quando os pais chegaram, depois da meia-noite, exibiam a expressão soturna de pessoas interrompidas em sua longa trégua em lidar exatamente com aquele tipo de coisa. Patty estava fascinada de por fim os conhecer, mas o sentimento evidentemente não era correspondido. O pai usava barba e tinha olhos escuros muito fundos, a mãe era miúda e calçava botas de couro de salto alto, e juntos eles emitiam uma poderosa vibração sexual que lembrou a Patty o cinema francês e os comentários de Eliza de que eram o amor da vida um do outro. Patty não se incomodaria se lhe dirigissem algumas palavras de desculpas por deixarem a filha solta assediando terceiros como ela, ou algumas palavras de gratidão por ter mantido a filha fora das mãos deles nos últimos dois anos, ou algumas palavras de admissão de quem dera o dinheiro para financiar aquela última crise. Mas, assim que a pequena família nuclear se viu reunida na sala, desdobrou-se um estranho drama diagnóstico em que parecia não haver papel algum para Patty.

“Que drogas?”, disse o pai.

“Hum, heroína”, respondeu Eliza.

“Heroína, cigarros, bebida. E o que mais? Mais alguma coisa?”

“Um pouco de pó de vez em quando. Menos, ultimamente.”

“Mais alguma coisa?”

“Não, só isso.”

“E a sua amiga? Também está tomando?”

“Não, ela é a estrela do time de basquete”, disse Eliza. “Eu contei para vocês. Ela é totalmente careta, e ótima pessoa. Ela é o máximo.”

“E ela sabia que você estava tomando?”

“Não, eu disse a ela que estava com câncer. Ela não sabia de nada.”

“E isso está acontecendo desde quando?”

“Desde o Natal.”

“E ela acreditou em você. Você inventou uma mentira dessas e ela acreditou.”

Eliza deu um risinho.

“Foi, eu acreditei nela”, disse Patty.

O pai nem olhou na direção dela. “E o que é isto aqui”, disse ele, pegando o fichário azul.

“É o meu Álbum de Patty”, disse Eliza.

“Parece alguma espécie de álbum de uma obsessão”, disse o pai para a mãe.

“E então ela ameaçou ir embora”, disse a mãe, “e você respondeu que ia se matar.”

“Mais ou menos isso”, admitiu Eliza.

“Uma obsessão completa”, comentou o pai, folheando o álbum.

“E você está mesmo pensando em suicídio?”, perguntou a mãe. “Ou foi só uma ameaça para a sua amiga não ir embora?”

“Principalmente uma ameaça”, disse Eliza.

“Principalmente?”

“Está bem, não estou na verdade pensando em me matar.”

“Mas ainda assim você entende que agora temos de levar isso a sério”, disse a mãe. “Não temos alternativa.”

“Bom, acho que agora vou embora”, disse Patty. “Tenho aula de manhã.”

“Que tipo de câncer você fingiu que tinha?”, perguntou o pai. “Em que lugar do corpo?”

“Eu disse que era leucemia.”

“No sangue. Um câncer imaginário no seu sangue.”

Patty pôs a droga na almofada de uma poltrona. “Vou deixar isto aqui”, disse ela. “Preciso mesmo ir embora.”

Os pais olharam para ela, trocaram um olhar, e assentiram com a cabeça.

Eliza se levantou do sofá. “Quando é que vou ver você? Amanhã?”

“Não”, disse Patty. “Acho que não.”

“Espere!” Eliza veio correndo e segurou Patty pela mão. “Eu fiz uma cagada enorme, mas vou melhorar, e aí vamos nos ver de novo. Certo?”

“Está bem”, mentiu Patty enquanto os pais se aproximavam para afastar a filha.

Do lado de fora, o céu ficara mais limpo e a temperatura caíra a quase vinte graus negativos. Patty aspirou várias golfadas profundas de limpeza para dentro dos pulmões. Estava livre! Estava livre! E, ah, como gostaria agora de voltar e jogar novamente a partida contra a ucla. Mesmo à uma da manhã, mesmo de estômago vazio, ela estava pronta para jogar como nunca. Desceu correndo a rua de Eliza por simples entusiasmo com sua liberdade, ouvindo as palavras da treinadora pela primeira vez, três horas depois de terem sido proferidas, ouvindo-a dizer que era só um jogo, que todo mundo jogava mal às vezes, que amanhã ela voltaria a ser quem sempre tinha sido. Sentia-se pronta a se dedicar mais intensamente do que nunca a ficar em forma e aperfeiçoar ainda mais seus fundamentos, pronta para ir mais ao teatro com Walter, pronta para dizer à mãe, “Gostei muito da notícia sobre a peça de teatro!”. Pronta para se tornar uma pessoa melhor em todos os sentidos. Em sua animação, corria tão às cegas que não viu o gelo negro na calçada até sua perna esquerda escorregar horrivelmente de lado por trás de sua perna direita, seu joelho se rasgar todo e ela ficar caída no chão.

Não há muito a dizer sobre as seis semanas seguintes. Passou por duas cirurgias, a segunda por causa de infecção provocada pela primeira, e se tornou uma craque no uso de muletas. A mãe veio de avião para acompanhar a primeira cirurgia e tratou os funcionários do hospital como se fossem caipiras de inteligência questionável, obrigando Patty a pedir desculpas em seu nome e a mostrar-se especialmente cordata sempre que a mãe estava fora do quarto. Quando ficou claro que Joyce podia ter tido razão em não confiar naqueles médicos, Patty ficou tão arrasada que nem mesmo lhe falou da segunda operação até o dia seguinte. Garantiu a Joyce que não havia necessidade de tomar de novo o avião—ela tinha mil amigas para cuidar dela.

Walter Berglund aprendeu com a mãe como cuidar de mulheres com problemas de locomoção, e se aproveitou da longa incapacidade de Patty para reinserir-se em sua vida. No dia seguinte à sua primeira cirurgia, apareceu com um pinheirinho de um metro de altura e sugeriu que ela podia preferir uma planta viva a flores de corte de curta duração. Depois disso, dava um jeito de visitar Patty quase todos os dias, menos nos fins de semana, quando ia a Hibbing ajudar os pais, e logo se tornou querido de suas amigas atletas pela delicadeza. As mais feias ficavam satisfeitas ao ver como ele lhes dava mais atenção que os sujeitos que só se importavam com a aparência, e Cathy Schmidt, a mais animada de todas, declarou que Walter era tão inteligente que devia entrar para a Suprema Corte. Era uma novidade no Mundo do Esporte Feminino, ter um homem ali no meio com que todo mundo se sentia tão à vontade e natural, um sujeito que podia se encontrar com elas no corredor durante os intervalos das aulas e ser considerado mais uma das meninas. E todo mundo percebeu que ele era louco por Patty, e todo mundo, menos Cathy Schmidt, concordou que essa paixão era uma coisa excelente.

Cathy, como já disse, era mais esperta que o resto. “Você não curte ele tanto assim, não é?”, perguntou ela.

“Acho que sim”, disse Patty. “Mas ao mesmo tempo acho que não.”

“Então... vocês dois não estão...”

“Não! Nada. Acho que eu nem devia ter contado a ele que fui estuprada. Ele ficou todo nervoso quando eu contei. Todo... carinhoso e... protetor e... perturbado. E agora ele parece estar esperando por uma permissão por escrito, ou que eu tome a iniciativa. E nesse sentido as muletas não estão ajudando nem um pouco. Mas eu me sinto como se um ótimo cachorro, treinado por conta própria, me seguisse para todo lado.”

“O que não é muito bom”, disse Cathy.

“Não, não é. Mas também não consigo me livrar dele, porque ele me trata tão incrivelmente bem, e eu adoro conversar com ele.”

“Você está mais ou menos gostando dele.”

“Isso mesmo. Talvez até um pouco mais para mais que para menos. Mas —”

“Mas não tão mais assim.”

“Isso mesmo.”

Walter se interessava por tudo. Lia cada palavra do jornal e da revista Time, e em abril, depois que Patty voltou a ficar semiambulatória, começou a convidá-la para palestras, filmes de arte e documentários que, não fosse por ele, ela nem sonharia em ir ver. Fosse por causa do quanto ele a amava ou do vazio deixado em sua agenda pela contusão, era a primeira vez que outra pessoa conseguia enxergar através de seu exterior de desportista e ver luzes acesas lá dentro. Embora ela se sentisse inferior a Walter em praticamente todas as categorias do conhecimento humano afora o esporte, sentia-se grata a ele por deixar claro que na verdade ela era dotada de uma opinião própria e que suas opiniões podiam divergir das dele. (O que era um contraste reconfortante com Eliza, a qual, se você perguntasse quem era o atual presidente dos Estados Unidos, responderia rindo que não tinha a menor ideia enquanto trocava o disco no aparelho de som.) Walter se inflamava com opiniões sérias e singulares sobre todo tipo de questão— detestava o papa e a Igreja Católica, mas era a favor da revolução islâmica no Irã, que esperava fosse conduzir a medidas melhores de conservação de energia nos Estados Unidos; gostava da nova política de controle populacional da China, e achava que os Estados Unidos deveriam adotar alguma medida semelhante; preocupava-se menos com o acidente nuclear de Three Mile Island do que com o preço baixo da gasolina e a necessidade de construção de sistemas de transporte de alta velocidade sobre trilhos que tornassem o carro de passeio obsoleto etc. etc. —e Patty encontrou seu papel quando começou a aprovar com obstinação muitas coisas que ele reprovava. Gostava especialmente de discordar dele em relação à Sujeição das Mulheres. Numa tarde, quase no final do semestre, tomando café juntos na sede da Organização dos Estudantes, os dois tiveram uma conversa memorável sobre o professor de Arte Primitiva de Patty, cujas aulas ela descrevia elogiosamente para Walter como um modo de lhe sugerir de maneira sutil aquilo de que sentia falta em sua personalidade.

“Que horror”, disse Walter. “Parece um desses professores de meia-idade que só sabem falar de sexo.”

“Bom, mas ele estava falando de estatuetas da fertilidade”, disse Patty. “Não é culpa dele se a única escultura que conhecemos de cinquenta mil anos atrás fala de sexo. Além disso, ele tem uma barba branca, o que já basta para me deixar com pena dele. Quer dizer, para me fazer pensar. Ele está lá, em cima do estrado, e quer falar todas essas coisas indecentes sobre as ‘jovens de hoje’, entende, e nossas ‘coxas finas’ e tudo mais, e sabe que está nos deixando constrangidas, e sabe que tem aquela barba e é um sujeito de meia-idade, enquanto nós todos somos, sabe como é, mais novos. Mas ainda assim não consegue evitar de dizer essas coisas. Acho que deve ser tão difícil. Não conseguir evitar de passar vergonha.”

Continuar: parte 3 de 3