Liberdade
2. Melhores amigas
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
“Mas é uma coisa ofensiva!”
“E além disso”, disse Patty, “acho que ele realmente gosta de coxas bem grossas. Acho que na verdade é disso que ele está falando: ele gosta daquele tipo da Idade da Pedra. Sabe como: mulheres gordas. O que é bonitinho e dá pena, mas ele gosta tanto de arte antiga.”
“Mas você, que é feminista, não fica ofendida?”
“Não acho que eu seja realmente feminista.”
“Inacreditável!”, disse Walter, muito vermelho. “Você não é a favor da emenda da igualdade de direitos?”
“Bem, eu não sou muito politizada.”
“Mas você só veio aqui para Minnesota porque ganhou uma bolsa para jogar basquete, o que nem podia ter acontecido há alguns anos. Você só veio para cá graças às leis federais feministas. Você só está aqui graças às leis de igualdade entre os sexos no sistema de ensino!”
“Mas isso é uma simples questão de justiça”, disse Patty. “Se metade dos alunos são do sexo feminino, precisam receber metade das verbas para o esporte.”
“Mas isso é feminismo!”
“Não, é justiça simples. Porque, tipo assim, Ann Meyers? Você sabe quem é? Ela era uma grande estrela na ucla e acabou assinando com a liga profissional, o que é ridículo. Ela é uma garota e tem mais de um metro e noventa e cinco. Nunca vai jogar. Os homens são atletas melhores que as mulheres e sempre vão ser. É por isso que cem vezes mais gente vai ver os jogos de basquete masculino do que os de basquete feminino—os homens são capazes de fazer muito mais do ponto de vista atlético. É besteira negar esse fato.”
“Mas se você quiser ser médica, e não deixarem você entrar na escola de medicina porque preferem alunos homens?”
“Seria uma injustiça, também, mas eu não quero ser médica.”
“O que você quer, afinal?”
Mais ou menos sem pensar, como sua mãe se empenhava tanto em promover carreiras impressionantes para as filhas, e também porque sua mãe tinha sido, na opinião de Patty, uma mãe precária, Patty tendia a querer ser dona de casa e uma mãe fora do comum. “Quero morar numa linda casa antiga e ter dois filhos”, disse ela a Walter. “Quero ser uma mãe excelente.”
“E quer ter uma profissão também?”
“Criar os filhos é a carreira que eu quero.”
Ele franziu a testa e assentiu com a cabeça.
“É o seguinte”, disse ela, “não sou uma pessoa muito interessante. Sou muito menos interessante que suas outras amigas.”
“Isso não tem nem um pingo de verdade”, disse ele. “Você é incrivelmente interessante.”
“Bom, agradeço muito por você falar assim, mas acho que não faz muito sentido.”
“Acho que existe muito mais dentro de você do que você acha que merece ser apreciado.”
“E eu acho que você não tem uma visão muito realista de mim”, disse Patty. “Aposto que você não seria capaz de dizer uma coisa interessante a meu respeito.”
“Bom, só para começar, o seu talento de jogadora”, disse Walter.
“Quicar uma bola na quadra. Muito interessante.”
“E a maneira como você pensa”, disse ele. “Você achar que esse professor nojento é um doce e dá pena.”
“Mas você não concorda comigo?”
“E a maneira como você fala da sua família. A maneira como conta histórias sobre eles. O fato de ter se afastado deles e de ter começado uma vida própria aqui. Tudo isso é incrivelmente interessante.”
Patty nunca tinha estado com um homem tão obviamente apaixonado por ela. O assunto sobre o qual estavam falando implicitamente, claro, era o desejo que Walter sentia de pôr as mãos nela. Ainda assim, quanto mais tempo ela passava com ele, mais Patty começava a sentir que, muito embora ela não fosse boa pessoa—ou talvez porque não fosse boa pessoa, por ser morbidamente competitiva e atraída por coisas insalubres—, ela era de fato uma pessoa razoavelmente interessante. E Walter, de tanto insistir febrilmente naquilo, vinha conseguindo aos poucos se tornar por sua vez interessante para ela.
“Se você é tão feminista assim”, disse ela, “por que é amigo de Richard? Ele não é um sujeito que não respeita as mulheres?”
O rosto de Walter se anuviou. “Sem dúvida, se eu tivesse uma irmã, nunca apresentaria Richard a ela.”
“Por quê?”, perguntou Patty. “Porque ele iria tratá-la mal? Ele é cruel com as mulheres?”
“Não porque queira. Ele gosta de mulheres. É que ele acaba com elas muito depressa.”
“Porque somos permutáveis? Porque somos simples objetos?”
“Não é uma questão política”, disse Walter. “Ele é a favor da igualdade de direitos. É mais como se fosse o vício dele, ou um dos vícios. Sabe, o pai dele bebia muito, e Richard não bebe. Mas é a mesma coisa que esvaziar todas as bebidas da casa no ralo depois de uma bebedeira. É assim que ele trata as garotas depois que se cansa delas.”
“Que coisa horrível.”
“É, não é uma coisa que eu admire muito nele.”
“Mas vocês ainda são amigos, apesar de você ser feminista.”
“Você não deixa de ser leal a um amigo só porque ele não é perfeito.”
“Não, mas tenta ajudá-lo a se transformar numa pessoa melhor. Explica o que está errado nas coisas que ele faz.”
“É isso que você fazia com Eliza?”
“É verdade, nisso você tem razão.”
Na conversa seguinte que ela teve com Walter, ele a convidou finalmente para um encontro a dois, cinema-e-depois-jantar. O filme (o que era a cara de Walter) era uma sessão gratuita, um filme grego em preto e branco chamado O ogro de Atenas. Enquanto se instalaram no departamento de artes da universidade, cercados de assentos vazios, esperando o filme começar, Patty descreveu seus planos para o verão seguinte, que consistiam em passar algum tempo na casa dos pais de Cathy Schmidt nos subúrbios de Minneapolis, continuar a fisioterapia, e preparar-se para voltar às quadras na temporada seguinte. Inesperadamente, no cinema vazio, Walter lhe perguntou se ela não preferia ir morar no quarto que Richard estava deixando, de mudança para Nova York.
“Richard vai embora?”
“Vai”, respondeu Walter. “Tudo que é interessante em matéria de música acontece em Nova York. Ele e Herrera querem reorganizar a banda e tentar alguma coisa por lá. E eu ainda tenho três meses de contrato do apartamento.”
“Ora veja só”, disse Patty compondo o rosto com cuidado. “E eu iria morar no quarto dele.”
“Bom, não vai ser mais o quarto dele”, disse Walter, “mas o seu. De lá até o ginásio é uma caminhada curta. Pode ser bem mais fácil do que ter de vir de ônibus ou trem de Edina.”
“Quer dizer que você está me convidando para ir morar com você.”
Walter corou e evitou os olhos dela. “Você tem um quarto só seu, claro. Mas sim, se você quiser jantar comigo e sair, eu também ia adorar. Acho que eu sou alguém em quem você pode confiar, que vai respeitar seu espaço mas também vai estar lá se você quiser companhia.”
Patty perscrutou o rosto dele, fazendo força para entender bem. Sentia-se ao mesmo tempo (a) ofendida e (b) muito triste de saber que Richard estava indo embora. Quase chegou a sugerir a Walter que era melhor ele beijá-la primeiro, se ia convidá-la para morar com ele, mas estava tão ofendida que naquele momento preferia não ser beijada. E então as luzes do cinema se apagaram.
Na memória da autobiógrafa, o enredo de O ogro de Atenas gira em torno de um tímido contador ateniense com óculos de aro de osso que um dia está andando na rua e vê o próprio retrato na primeira página de um jornal, debaixo da manchete o ogro de atenas ainda à solta. Os passantes logo começam a apontar para ele e a persegui-lo, e ele está à beira de ser capturado quando é salvo por um bando de terroristas ou criminosos que o confundem com seu chefe, que é um monstro. O bando tem um plano ousado de explodir o Partenon ou coisa parecida, e o herói passa o tempo todo tentando explicar para eles que é apenas um tímido contador, e não o Ogro, mas os bandidos contam tanto com a sua ajuda, e o resto da cidade está tão decidido a acabar com ele, que chega um momento incrível em que ele tira os óculos e se transforma no destemido líder do bando—o Ogro de Atenas! E diz, “Muito bem, rapazes, nosso plano vai ser o seguinte”.
Patty viu o filme imaginando Walter como o contador e pensando no momento em que iria tirar seus óculos do mesmo modo. Depois, enquanto jantavam no Vescio’s, Walter interpretou o filme como uma parábola sobre o comunismo na Grécia do pós-guerra e explicou a Patty como os Estados Unidos, precisando de parceiros para a Otan no sul da Europa, vinham patrocinando havia muito a repressão política naquela região. O contador, disse ele, era uma figura do Homem Comum que acaba aceitando sua responsabilidade e se junta à luta pela violência contra a repressão de direita.
Patty estava tomando vinho. “Não concordo com nada disso”, disse ela. “Acho que o filme conta a história de um personagem que nunca chegou a ter uma vida de verdade, por ser uma pessoa tão responsável e controlada, e na verdade não tem a menor ideia do que é capaz. E só se sente plenamente vivo quando é confundido com o Ogro. Apesar de só ter sobrevivido alguns dias depois disso, ele não se importa de morrer porque no fim das contas acabou fazendo alguma coisa da vida, percebendo o potencial que tinha.”
Walter ficou pasmo com essas palavras. “Mas a morte dele é totalmente sem sentido” disse ele. “Ele não consegue nada.”
“Mas então por que ele muda?”
“Por solidariedade com o bando que salva a vida dele. Ele percebe que tem uma responsabilidade com eles. Eles estavam em minoria, e precisavam dele, e ele foi leal. E morreu por lealdade.”
“Meu Deus”, admirou-se Patty, “você é de uma correção a toda prova.”
“Pois não é assim que eu me sinto”, disse Walter. “Às vezes eu me acho o sujeito mais imbecil da face da Terra. Quem me dera conseguir ser desonesto. Quem me dera só pensar em mim mesmo o tempo todo, como Richard, tentando ser algum tipo de artista. E não é por causa da minha correção que eu não consigo. É porque simplesmente não tenho estrutura para isso.”
“Mas o contador também achava que não tinha estrutura para isso. E se surpreendeu consigo mesmo.”
“Foi, mas o filme não é realista. O sujeito da foto no jornal não era só parecido com o ator, era ele. E se ele se entregasse para as autoridades, poderia ter esclarecido tudo depois de algum tempo. O erro dele foi sair correndo. É por isso que eu digo que é uma parábola. Não é uma história realista.”
Patty achou estranho estar tomando vinho com Walter, que era totalmente abstêmio, mas estava num humor perverso e rapidamente bebeu um bocado. “Tire os óculos”, disse ela.
“Não”, respondeu Walter. “Senão não vou ver você.”
“Qual o problema? Sou só eu. Só Patty. Tire.”
“Mas eu adoro ver você! Adoro olhar para você!”
Seus olhos se encontraram.
“É por isso que você quer que eu vá morar com você?”, perguntou Patty.
Ele corou, “É”.
“Bem, então talvez o melhor fosse a gente ir dar uma olhada no seu apartamento, para eu poder resolver.”
“Hoje à noite?”
“É.”
“Você não está cansada?”
“Não. Não estou cansada.”
“E o joelho, não está doendo?”
“Meu joelho está ótimo, obrigada.”
Pela primeira vez ela estava pensando só em Walter. Se você lhe perguntasse, enquanto descia a rua 4 de muletas envolta pelo ar macio e propiciatório de maio, se tinha alguma esperança de deparar com Richard no apartamento, ela responderia que não. Ela queria sexo agora, e se Walter tivesse um pingo de bom senso teria evitado o apartamento assim que ouviu a tv ligada do outro lado da porta—teria levado Patty para algum outro lugar, qualquer outro lugar, para o quarto dela, qualquer canto. Mas Walter acreditava no verdadeiro amor e parecia ter medo de encostar a mão em Patty antes de ter certeza de ser correspondido. Ele a levou direto para o apartamento, onde Richard estava sentado na sala com os pés descalços em cima da mesa de centro, com um violão no colo e um caderno de espiral a seu lado no sofá. Estava vendo um filme de guerra, tomando uma Pepsi gigante, mascando tabaco e cuspindo numa lata de tomate de setecentos e cinquenta gramas. Tirando isso, a sala estava limpa e despojada.
“Achei que você tinha ido ver um show”, disse Walter.
“O show era uma merda”, disse Richard.
“Você se lembra de Patty, não é?”
Patty avançou timidamente de muletas até ficar mais visível. “Oi, Richard.”
“Patty que não é considerada alta”, disse Richard.
“Eu mesma.”
“Apesar de ser bem alta. Por sorte Walter finalmente conseguiu atrair você até aqui. Eu estava começando a ficar preocupado, achando que nunca ia acontecer.”
“Patty está pensando em vir morar aqui no verão”, disse Walter.
Richard levantou as sobrancelhas. “É mesmo.”
Era mais magro, mais novo e mais atraente do que na lembrança dela. Foi horrível como de uma hora para outra ela passou a querer negar que tivesse pensado em morar ali com Walter ou imaginado ir para a cama com ele aquela noite. Mas não havia como negar o fato de que estava ali. “Estou procurando um lugar perto do ginásio”, disse ela.
“Claro. Faz sentido.”
“Ela estava querendo ver o seu quarto”, disse Walter.
“O quarto está meio desarrumado.”
“Você fala como se em algum momento não estivesse”, disse Walter com um riso alegre.
“Às vezes passo por períodos de desarrumação relativamente menos grave”, disse Richard. Desligou a tv esticando o dedão do pé. “Como vai sua amiguinha Eliza?”, perguntou a Patty.
“Ela não é mais minha amiga.”
“Eu já tinha contado”, disse Walter.
“Queria ouvir de fonte segura. Ela é uma porra-louca total, não é? Eu não percebi logo de cara, mas, porra, depois ficou claro.”
“Cometi o mesmo erro”, disse Patty.
“Walter foi o único que viu a verdade desde o primeiro dia. A Verdade Sobre Eliza. Nem é um mau título.”
“Minha vantagem foi que ela me detestou à primeira vista”, disse Walter. “E aí eu pude ver quem ela era com mais clareza.”
Richard fechou seu caderno e cuspiu saliva marrom dentro da lata. “Vou deixar vocês em paz, crianças.”
“Você está trabalhando em alguma coisa?”, perguntou Patty.
“A merda de sempre, que ninguém consegue ouvir. Estava tentando escrever alguma coisa sobre essa gata, Margaret Thatcher. A nova primeira-ministra da Inglaterra.”
“Gata é um exagero e tanto no caso de Margaret Thatcher”, disse Walter. “Velha viúva se aplica melhor.”
“O que você acha da palavra ‘gata’?”, perguntou Richard a Patty.
“Ah, não sou do tipo exigente.”
“Walter diz que eu não devia usar. Diz que é uma forma de tratamento aviltante. Na minha experiência, as próprias gatas nunca se incomodaram.”
“Parece que você saiu direito dos anos 60”, disse Patty.
“Parece um homem de Neanderthal”, disse Walter.
“Dizem que os homens de Neanderthal tinham um crânio enorme”, disse Richard.
“Assim como os bois,” replicou Walter. “E outros ruminantes.”
Richard riu.
“Achava que atualmente só os jogadores de beisebol mascavam tabaco”, disse Patty. “É bom?”
“Pode experimentar, se está a fim de ficar vomitando”, disse Richard, levantando-se. “Eu vou sair de novo. E deixar vocês dois sozinhos.”
“Espere, eu quero experimentar”, disse Patty.
“Não é uma boa ideia”, disse Richard.
“Não, eu realmente quero experimentar.”
O clima entre ela e Walter estava irreparavelmente desfeito, e agora ela estava curiosa para ver se tinha o poder de fazer Richard ficar em casa. Finalmente tinha encontrado a oportunidade de demonstrar o que vinha tentando explicar a Walter desde a noite em que haviam se conhecido—que ela não era uma boa pessoa, e não servia para ele. Era também, claro, uma oportunidade para Walter arrancar os óculos, comportar-se como um ogro e expulsar o rival. Mas Walter, nesse momento como em todos, só queria que Patty conseguisse o que queria.
“Deixe ela experimentar”, disse ele.
Ela lhe dirigiu um sorriso agradecido. “Obrigada, Walter.”
O tabaco era mentolado e queimou intensamente suas gengivas. Walter trouxe uma caneca de café para ela cuspir, e ela ficou sentada no sofá qual uma participante de um experimento, esperando a nicotina fazer efeito, e apreciando ser alvo de tanta atenção. Mas Walter estava prestando atenção em Richard, também, e quando o coração dela começou a disparar ela teve a súbita lembrança de Eliza dizendo que Walter era meio apaixonado por seu amigo; lembrou-se dos ciúmes de Eliza.
“Richard está todo animado com Margaret Thatcher”, disse Walter. “Ele acha que ela representa os excessos que hão de conduzir inevitavelmente o capitalismo à autodestruição. Ele deve estar escrevendo uma canção de amor.”
“Você me conhece bem”, disse Richard. “Uma canção de amor para a senhora com o cabelão.”
“Nós discordamos quanto à possibilidade de uma revolução marxista”, explicou Walter a Patty.
“Humm,” disse ela, cuspindo.
“Walter acha que o Estado liberal é capaz de se reformar”, disse Richard. “Acha que a burguesia americana vai aceitar por conta própria restrições cada vez maiores às liberdades pessoais.”
“Costumo ter ótimas ideias para canções, que Richard inexplicavalmente sempre rejeita.”
“A canção do uso eficiente de combustível. A canção sobre o transporte público. A canção sobre o seguro saúde. Uma canção falando do imposto sobre bebês.”
“É território virgem, em matéria de conteúdo para canções de rock”, disse Walter.
“Dois Filhos é Bom, Quatro Filhos é Demais.”
“Dois Filhos é Bom—Zero Filhos é Melhor.”
“Já estou vendo as massas tomando as ruas.”
“Primeiro você precisa ficar incrivelmente famoso”, disse Walter. “Depois as pessoas prestam atenção no que você disser.”
“Vou procurar fazer isso.” Richard virou-se para Patty. “Tudo bem por aí?”
“Humm”, disse ela, ejetando a massa mascada na caneca de café. “Entendi o que você disse sobre a náusea.”
“Só faça o possível para não vomitar no sofá.”
“Tudo bem com você?”, perguntou Walter.
A sala oscilava e pulsava. “Não consigo acreditar que você goste disso”, disse Patty a Richard.
“Mas eu gosto.”
“Tudo bem com você?”, tornou a perguntar Walter.
“Tudo bem. Só preciso ficar sentada bem quietinha.”
Na verdade estava enjoadíssima. Não havia nada a fazer além de ficar sentada no sofá e ouvir Walter e Richard trocar alfinetadas sobre política e música. Walter, com grande entusiasmo, mostrou a ela o compacto simples dos Traumatics e obrigou Richard a tocar os dois lados do disco no aparelho de som. A primeira canção era “Odeio a luz do sol”, que ela já tinha ouvido no show durante o outono, e que agora lhe pareceu o equivalente sonoro da absorção de um excesso de nicotina. Mesmo a um volume baixo (Walter, nem é preciso dizer, tinha um respeito patológico pelos vizinhos), a canção lhe transmitiu uma sensação mórbida e lúgubre. Ela sentia o olhar de Richard fixo nela enquanto ouvia sua voz de barítono cantando, e percebeu que não tinha se enganado sobre o modo como olhara para ela nas outras ocasiões em que tinham se encontrado.
Em torno das onze, Walter começou a bocejar incontrolavelmente.
“Sinto muito”, disse ele. “Preciso levar você para casa agora.”
“Pode deixar que volto andando sozinha. E as minhas muletas ainda podem servir como arma de defesa.”
“Não”, disse ele. “Vamos com o carro de Richard.”
“Não, você precisa ir dormir, coitadinho. Richard talvez possa me levar. Não pode?”, perguntou a ele.
Walter fechou os olhos e emitiu um suspiro infeliz, como se tivesse ultrapassado seus limites.
“Claro”, disse Richard. “Eu levo você.”
“Mas antes ela precisa ver o seu quarto”, disse Walter, ainda de olhos fechados.
“Fique à vontade”, disse Richard. “A condição do quarto fala por si mesma.”
“Não, eu quero um guia”, disse Patty, lançando-lhe um olhar significativo.
As paredes e o teto do quarto dele eram pintados de preto, e a desordem absoluta que a influência de Walter tinha suprimido na sala aqui se espalhava sem freios. Havia lps e capas de lp por toda parte, além de várias latas cheias de cuspe, mais um violão, prateleiras abarrotadas de livros, um tumulto de meias e roupas de baixo, e lençóis escuros embaralhados onde era interessante e de certa forma nada desagradável imaginar que Eliza tinha sido vigorosamente abatida.
“Uma cor bem alegre!”, disse Patty.
Walter tornou a bocejar. “Claro que vou pintar tudo.”
“A não ser que Patty goste de preto”, disse Richard da porta.
“Nunca tinha pensado em preto”, disse ela. “É interessante.”
“Para mim, uma cor muito repousante”, disse Richard.
“Quer dizer que você vai se mudar para Nova York”, disse ela.
“Vou.”
“Legal. Quando?”
“Daqui a duas semanas.”
“Ah, na mesma época em que vou para lá. Meus pais fazem vinte e cinco anos de casados. E estão planejando algum Evento pavoroso.”
“Você é de Nova York?”
“Do condado de Westchester.”
“Eu também. Mas possivelmente de outra parte do condado.”
“Bem, dos subúrbios.”
“Muito diferente de Yonkers.”
“Já passei por Yonkers de trem mais de mil vezes.”
“Exatamente o que eu queria dizer.”
“E você vai de carro para Nova York?”, perguntou Patty.
“Por quê?”, perguntou Richard. “Quer uma carona?”
“Talvez! Você me leva?”
Ele balançou a cabeça. “Preciso pensar.”
Os olhos do pobre Walter estavam se fechando, e ele praticamente não estava vendo essa negociação. A própria Patty estava sem fôlego de tanta culpa e confusão, e saiu muletando depressa na direção da porta, onde, de longe, agradeceu a ele pela noite.
“Desculpe eu ter ficado tão cansado”, disse ele. “Tem certeza de que não quer que eu leve você em casa?”
“Eu levo”, disse Richard. “Vá para a cama.”
Walter estava com um aspecto muito infeliz, mas pode ter sido só sua exaustão. Em plena rua, sob um ar favorável, Patty e Richard caminharam em silêncio até chegarem ao Impala enferrujado de Richard, que parecia se empenhar ao máximo em não encostar nela enquanto ela se sentava e lhe entregava suas muletas.
“Eu achava que você devia ter uma van”, disse ela enquanto ele se instalava a seu lado. “Achava que todas as bandas tinham vans.”
“Herrera é que tem uma van. Este é o meu meio de transporte pessoal.”
“E é nele que vamos para Nova York.”
“É, escute uma coisa.” Ele enfiou a chave na ignição. “Você precisa resolver para que lado você vai. Está entendendo? Desse jeito não é justo com Walter.”
Ela olhou direto para a frente através do para-brisa. “O que não é justo?”
“Dar esperança a ele. Dar corda.”
“Você acha que estou fazendo isso?”
“Ele é uma pessoa fora do comum. E leva tudo muito, muito a sério. Com ele você precisa tomar cuidado.”
“Eu sei”, respondeu ela. “Você não precisava me dizer.”
“Bem, então o que você veio fazer aqui? Eu tive a impressão—”
“De quê? Teve a impressão de quê?”
“De que interrompi alguma coisa. Mas aí, quando eu tentei ir embora...”
“Meu Deus, você é mesmo um cretino.”
Richard assentiu, como se não se importasse nem um pouco com o que Patty achava dele, ou como se estivesse cansado de ouvir mulheres idiotas lhe dizerem coisas idiotas. “Quando eu tentei ir embora”, disse ele, “você deu a impressão de não entender a deixa. O que não tem problema, a escolha é sua. Eu só queria ter certeza de que você sabe que vai partir o coração de Walter em mil pedaços.”
“Não quero falar sobre isso com você.”
“Ótimo. Não vamos falar sobre isso. Mas você tem estado muito com ele, não é? Praticamente todo dia, não é? Faz muitas semanas.”
“Nós somos amigos. Saímos juntos.”
“Ótimo. E você sabe como é a situação em Hibbing.”
“Sei. A mãe dele precisa de ajuda para cuidar do motel.”
Richard deu um sorriso desagradável. “É isso que você sabe?”
“Além disso, o pai dele não está bem, e os irmãos dele não fazem nada.”
“E foi isso que ele lhe contou. Só isso.”
“O pai dele tem enfisema. A mãe dele é inválida.”
“E ele está trabalhando vinte e cinco horas por semana em construção e ainda assim tirando notas altas no curso de direito. E ainda assim, todo dia, tem todo esse tempo para passar com você. Que sorte a sua ele ter tanto tempo de sobra. Mas você é uma gata bonitinha, e merece, não é? E também está muito contundida. Isso e ser bonitinha: já tem direito a nem perguntar nada para ele.”
Patty ardia com a sensação de injustiça. “Sabe”, disse ela com voz hesitante, “ele sempre me disse como você trata mal as mulheres. Ele sempre fala disso.”
O que não deu a impressão de interessar nem um pouco a Richard. “Só estou tentando entender essa história no contexto de você ser tão amiguinha da pequena Eliza”, disse ele. “Agora está fazendo mais sentido. Não fez, da primeira vez que vi você. Achei que fosse uma moça boazinha dos subúrbios.”
“Quer dizer que também sou uma cretina. É isso que você quer dizer? Eu sou uma cretina e você é um cretino.”
“Exatamente. Você é quem sabe. Ninguém Aqui é Uma Pessoa Legal. Pode ser. Só estou pedindo para você não tratar Walter mal.”
“Não estou tratando!”
“Só estou dizendo o que eu penso.”
“Bom, está pensando tudo errado. Eu gosto do Walter. Gosto de verdade.”
“Mas ainda assim acho que você não sabe que o pai dele está morrendo do fígado e o irmão mais velho está preso por roubo de carro, e o outro irmão gastando todo o soldo que recebe do Exército nas prestações do Corvette de coleção que comprou. E Walter está dormindo em média quatro horas por noite enquanto vocês saem como bons amigos, só para você ter acesso à minha casa e poder dar em cima de mim.”
Patty ficou muda.
“De fato eu não sabia disso tudo”, disse ela depois de algum tempo. “Não tinha todas as informações. Mas você não devia ser amigo dele se tem problema quando alguém dá em cima de você.”
“Ah, quer dizer que a culpa é minha. Entendi.”
“Me desculpe, mas é um pouco, sim.”
“Não vou mais discutir”, disse Richard. “Você precisa pensar bem e arrumar a sua cabeça.”
“Eu sei que preciso”, disse Patty. “Mas você de qualquer modo é um cretino.”
“Escute aqui, eu levo você a Nova York, se é isso que você quer. Dois cretinos na estrada. Pode ser divertido. Mas, se é isso que você quer, precisa me fazer um favor: parar de dar corda ao Walter.”
“Está bem. Agora por favor me deixe em casa.”
Talvez devido à nicotina, ela passou a noite inteira acordada passando em revista esses acontecimentos, tentando fazer o que Richard recomendou e arrumar a cabeça. Mas era um estranho kabuki mental, porque ao mesmo tempo que dava voltas e mais voltas em torno da questão de saber que tipo de pessoa ela era, e como ia ser no fim das contas sua vida, um fato concreto permanecia fixo e imutável em seu centro: ela queria sair pela estrada com Richard e, além disso, ia fazer a viagem. A triste verdade é que a conversa que tiveram no carro tinha sido animadora e ao mesmo tempo um grande alívio para ela—animadora porque Richard a deixava animada e um alívio porque, finalmente, depois de meses tentando ser alguém que não era, ou não era exatamente, ela se sentia e queria agir como a pessoa que na verdade era, sem fingimento. Era por isso que sabia que ia acabar encontrando um modo de fazer a viagem. Ela só precisava superar sua culpa em relação a Walter e sua tristeza por não ser o tipo de pessoa que os dois queriam que ela fosse. Como ele tinha feito bem em não se precipitar no caso dela! Como tinha sido sensível em relação à sua dúvida secreta! Quando ela se dava conta do quanto ele tinha razão e era perceptivo em relação a ela, mais triste e culpada se sentia por decepcioná-lo, e se via devolvida ao beco sem saída da indecisão.
E então, por quase uma semana, não teve notícias dele. Desconfiava que ele estivesse mantendo distância a conselho de Richard—que Richard lhe tivesse feito uma preleção de fundo misógino sobre a infidelidade das mulheres e a necessidade de proteger melhor seu coração. Na imaginação de Patty, seria um grande serviço que Richard lhe prestava, e uma coisa terrível pela desilusão que havia de provocar em Walter. Não conseguia parar de pensar em Walter carregando uma planta imensa para ela no ônibus, na vermelhidão de poinsétia do rosto do rapaz. Lembrou as noites em que, no corredor do dormitório dela, ele tinha sido encurralado pela Chata da Ala, Suzanne Storrs, que penteava os cabelos de lado por cima da cabeça com o repartido bem baixo, e como ele ouviu com toda a paciência o monótono discurso de Suzanne sobre a dieta que fazia, os males da inflação e o superaquecimento do quarto dela, além de sua decepção generalizada com os administradores e os professores da universidade, enquanto Patty, Cathy e suas outras amigas riam de Ilha da Fantasia: como Patty, para todos os efeitos incapacitada pelo joelho, preferiu não se levantar para ir salvar Walter de Suzanne, por medo de que Suzanne depois disso viesse para o quarto dela e infligisse sua chatice a todas as outras, e como Walter, embora perfeitamente capaz de brincar com Patty sobre os problemas de Suzanne, e embora sem dúvida preocupado com todo o trabalho que tinha pela frente e com o horário em que precisava acordar, deixou que Suzanne o encurralasse novamente em outras noites, porque ela simpatizara com ele e lhe inspirava pena.
Basta dizer que Patty não conseguia exatamente decidir para que lado ia. Não voltaram a se falar até Walter ligar para ela de Hibbing para pedir desculpas pelo sumiço e contar que seu pai estava em coma.
“Oh, Walter, estou sentindo a sua falta!”, exclamou ela, embora aquilo fosse exatamente o tipo de coisa que Richard recomendaria que ela não dissesse.
“Eu também!”
Ela se lembrou de perguntar detalhes sobre o estado do pai dele, muito embora só tivesse sentido fazer as perguntas certas se ela estivesse disposta a ir em frente com ele. Walter falou de falência do fígado, edema pulmonar, um prognóstico de merda.
“Sinto muito,” disse ela. “Mas escute. Em relação ao quarto—”
“Ah, você não precisa resolver nada disso agora.”
“Não, mas eu preciso lhe dar uma resposta. Se você for alugar para alguma outra pessoa—”
“Eu prefiro alugar para você.”
“Bem, eu sei, e até posso querer, mas preciso viajar semana que vem, e pensei em ir para Nova York de carro com Richard. Já que ele vai na mesma época.”
Qualquer suspeita de que Walter pudesse não estar percebendo as implicações foi dissipada por seu silêncio repentino.
“Mas você não tem uma passagem de avião?”, perguntou ele finalmente.
“É reembolsável”, mentiu ela.
“Então tudo bem”, disse ele. “Mas você sabe que Richard não é muito confiável.”
“É verdade, eu sei, eu sei”, respondeu ela. “Você tem razão. Só achei que podia economizar um dinheirinho, que depois podia usar para o aluguel.” (Um aprofundamento da mentira. Os pais dela é que tinham comprado a passagem.) “Faço questão de pagar o aluguel de junho, haja o que houver.”
“Não faz o menor sentido se você não for para lá.”
“Bom, eu devo ir, o que estou dizendo é que ainda não tenho certeza.”
“Está bom.”
“É o que eu quero. Só não tenho certeza. Por isso, se aparecer outro inquilino, você devia aceitar. Mas eu pago o mês de junho, sem dúvida.”
Houve outro silêncio antes de Walter, com uma voz desalentada, dizer que precisava desligar.
Empolgada por ter levado a cabo aquela difícil conversa, Patty ligou para Richard e lhe garantiu que tinha feito a escolha necessária, ao que Richard respondeu que a data de partida ainda estava um tanto incerta e ele pretendia parar no caminho para ver um ou dois shows em Chicago.
“Contanto que eu esteja em Nova York antes do sábado que vem”, disse Patty.
“Isso mesmo, a festa do aniversário de casamento. Onde vai ser?”
“No Mohonk Mountain House, mas você só precisa me deixar em Westchester.”
“Vou ver o que dá para fazer.”
Não é muito divertido cair na estrada com um motorista que considera você, e talvez todas as mulheres, um pé no saco, mas Patty só foi saber disso depois que já tinha embarcado. Os problemas começaram com a data de partida, que precisou ser adiantada por causa dela. Depois, um problema mecânico na van fez Herrera se atrasar, e como era com amigos de Herrera que Richard pretendia ficar em Chicago, e como Patty de qualquer maneira não estava incluída no combinado, tudo indicava que a situação por lá ficaria constrangedora. Patty também não era muito competente em matéria de calcular distâncias, e assim, quando Richard se atrasou três horas para passar e pegá-la e só foram sair de Minneapolis no final da tarde, ela não imaginou como estaria tarde quando chegassem a Chicago e como era importante percorrer a I-94 num tempo bom. A culpa não era dela de terem saído tão atrasados. E ela nem achava excessivo pedir, perto de Eau Claire, que parassem para ela ir ao banheiro, e depois, uma hora mais tarde, perto de lugar nenhum, para comer alguma coisa. Ela tinha caído na estrada, e queria aproveitar! Mas o banco traseiro estava cheio de equipamentos que Richard nunca deixava fora de suas vistas, e suas necessidades básicas eram satisfeitas por um naco de fumo de mascar (tinha uma latona no piso para cuspir), e embora não reclamasse das muletas, pelo quanto atrasavam e complicavam tudo que ela fazia, tampouco disse para ela se recostar e curtir a paisagem. Durante a travessia de Wisconsin, a cada minuto do caminho, a despeito da grosseria dele e da irritação mal disfarçada diante das necessidades humanas mais razoáveis de Patty, ela sentia a pressão quase física do interesse dele em trepar, o que também não ajudava muito a tornar mais leve a atmosfera no carro. Não que ela não se sentisse muito atraída por ele. Mas ela precisava de algum tempo e espaço para respirar, e mesmo levando em conta sua juventude e inexperiência, a autobiógrafa admite envergonhada que seu meio de ganhar esse tempo e espaço era conduzir a conversa, perversamente, para Walter.
Num primeiro momento, Richard não queria conversar sobre ele, mas depois que ela conseguiu começar ficou sabendo de muitas coisas sobre os tempos de Walter na faculdade. Sobre os grupos de estudo que tinha organizado —sobre a explosão populacional, sobre a reforma do colégio eleitoral—e que quase nenhum outro aluno tinha assistido. Sobre os programas pioneiros de música New Wave que ele produziu durante quatro anos na rádio do campus. Sobre seu abaixo-assinado para melhorar a vedação das janelas nos dormitórios do Macalester College. Sobre os editoriais que tinha escrito para o jornal da faculdade falando, por exemplo, das bandejas do refeitório que ele manipulava na esteira rolante: calculou quantas famílias de St. Paul poderiam ser alimentadas só com os restos de uma noite, lembrando aos colegas que outros seres humanos precisariam se ver às voltas com a manteiga de amendoim que eles espalhavam por toda parte, e de como ele adotara uma postura filosófica diante do hábito que os colegas tinham de derramar três vezes mais leite que o necessário em seus flocos de cereal e depois deixar tigelas cheias de leite imprestável nas bandejas: será que achavam que o leite era um alimento gratuito e infinito como a água, sem nenhuma consequência ambiental? Richard contou tudo isso no mesmo tom protetor que adotara com Patty duas semanas antes, um tom de remorso estranhamente carinhoso em relação a Walter, como se lhe provocasse algum incômodo a dor que Walter causava a si próprio malhando em ferro frio contra as duras realidades da vida.
“E ele tinha namoradas?”, perguntou Patty.
“Sempre escolhia mal”, disse Richard. “Se apaixonava pelas gatas mais impossíveis. As que já tinham namorado. As metidas com as artes, que frequentavam outro tipo de círculo. Houve uma segundanista de que ele não desistiu durante todo o último ano. Cedeu a ela o horário de sexta-feira à noite que tinha na rádio e ficou com a tarde de terça. E eu só soube tarde demais para impedir a troca. Ele reescrevia os trabalhos dela, ia com ela ao teatro. Era uma coisa horrível de acompanhar, o modo como ela manipulava Walter. Estava sempre aparecendo no nosso quarto de surpresa.”
“Que engraçado”, disse Patty. “Por que será?”
“Ele nunca escuta os meus avisos. É muito teimoso. E não é muito fácil de perceber, mas ele sempre vai atrás da aparência. As mais bonitas e bem-feitas de corpo. Nessa questão ele é muito ambicioso. E por isso não foi muito feliz nos tempos da faculdade.”
“E a menina que vivia aparecendo no seu quarto. Você gostava dela?”
“Não gostava do que ela estava fazendo com Walter.”
“Um tema que se repete muito na sua vida, não é?”
“A menina tinha um gosto de merda e o horário na rádio sexta-feira à noite. A certa altura, só havia um modo de fazer Walter ver as coisas com clareza. Sobre o tipo de gata com quem estava se metendo.”
“Ah, quer dizer que você está fazendo um favor a ele. Entendi.”
“Todo mundo é moralista.”
“Não, estou falando sério. Estou percebendo por que você não respeita as mulheres. Se você só vê, desde sempre, as garotas que querem que você traia seu melhor amigo. Fica claro que é uma situação muito esquisita.”
“Você eu respeito”, disse Richard.
“Rá rá rá.”
“Você tem uma cabeça boa. Eu não me incomodaria de ficar com você durante o verão, se você quiser passar um tempo em Nova York.”
“Não me parece muito viável.”
“Só estou dizendo que eu iria gostar.”
Ela teve mais ou menos três horas para cultivar essa fantasia—contemplar as luzes traseiras dos carros que trafegavam para um lado e para o outro pela grande metrópole, pensando como seria ser a gata de Richard, se alguma mulher que ele respeitava podia fazê-lo mudar, imaginando-se nunca mais de volta para Minnesota, tentando visualizar o apartamento que podiam encontrar para morar, saboreando a ideia de atiçar Richard contra sua desdenhosa irmã do meio, conjecturando sobre a consternação da família perante o quanto ela ficara moderna, e imaginando seu sumiço de cada noite—antes de chegarem à realidade da Área Sul de Chicago. Eram duas da manhã e Richard não conseguiu encontrar o edifício onde moravam os amigos de Herrera. Trilhos de trem e um rio escuro e ameaçador estavam o tempo todo no caminho deles. As ruas estavam desertas salvo por um ou outro táxi aventureiro e ocasionalmente Jovens Negros Assustadores do tipo que costuma aparecer no noticiário.
“Um mapa poderia ajudar”, disse Patty.
“As ruas são numeradas. Não era para ser tão difícil.”
Os amigos de Herrera eram artistas. O edifício em que moravam, que Richard finalmente localizou com a ajuda de um chofer de táxi, parecia desabitado. Tinha uma campainha pendendo de dois fios, mas que, para surpresa deles, funcionava. Alguém afastou um pedaço de lona que cobria uma das janelas da frente e depois desceu para reclamar com Richard.
“Desculpe, cara”, disse Richard. “Mas atrasamos muito na estrada. Só precisamos de um lugar para dormir umas noites.”
O artista estava usando uma cueca vagabunda e molhada. “Acabamos de começar a tapar as goteiras do quarto hoje”, disse ele. “Ainda está bem molhado. Herrera não tinha falado de chegar no fim de semana?”
“Ele não ligou ontem para vocês?”
“Ligou. E eu disse para ele que o quarto de hóspedes está uma zona.”
“A gente não liga. E agradece. Preciso levar umas coisas para dentro.”
Patty, inútil para carregar o que fosse, ficou tomando conta do carro enquanto Richard o esvaziava lentamente. O quarto que lhes deram tinha um cheiro pesado que ela era jovem demais para reconhecer como massa para aplicar em paredes pré-fabricadas do tipo dry wall, jovem demais para achar familiar e reconfortante. A única luz vinha de uma fôrma de alumínio presa a uma escada coberta de respingos de massa.
“Deus do céu,” disse Richard. “Quem está trabalhando aqui, um bando de macacos?”
Por baixo de uma pilha empoeirada e respingada de massa de pedaços de lona plástica havia um colchão de casal sem cobertas, todo manchado de ferrugem.
“Imagino que não esteja à altura do seu padrão tipo Sheraton”, disse Richard.
“Algum lençol?”, perguntou Patty timidamente.
Ele foi revirar o espaço principal e voltou com uma colcha indiana, um cobertor fino e uma almofada de chenile. “Você dorme aqui”, disse ele. “Posso ficar no sofá.”
Ela lhe lançou um olhar interrogativo.
“Está tarde”, disse ele. “Você precisa dormir.”
“Tem certeza? Aqui tem bastante espaço. Você não vai caber direito num sofá.”
Ela estava morta, mas queria ficar com ele e tinha levado o equipamento necessário, e sentia uma certa urgência de levar aquilo a cabo logo, registrar o fato irrevogavelmente nos livros, antes de ter tempo de pensar demais e mudar de ideia. E muitos anos se passaram, quase metade da vida, antes que ela conhecesse—e ficasse devidamente perplexa com—o motivo que levou Richard a ficar inesperadamente tão cavalheiresco no meio da noite. Naquela ocasião, no meio daquela obra úmida de massa, ela só pôde supor que tivesse se equivocado de algum modo em relação a ele, ou que tivesse acabado com o tesão dele se comportando como um pé no saco e por sua inutilidade para carregar o que fosse.
“Ali tem uma coisa que passa por banheiro”, disse ele. “Talvez você tenha mais sorte que eu e encontre o interruptor de luz.”
Ela lhe dirigiu um olhar de desejo de que ele se desviou depressa e de propósito. A surpresa e a mágoa com aquilo, a tensão da viagem, a tensão da chegada, o horror daquele quarto: ela apagou a luz e se deitou de roupa e chorou muito tempo, tomando o cuidado de manter o choro inaudível, até sua decepção se dissolver em sono.
Na manhã seguinte, acordada às seis da manhã pela luz feroz do sol, enfurecendo-se totalmente por ter ficado horas esperando que alguém começasse a se mover naquele apartamento, ela decidiu encher o saco dos outros de verdade. Aquele dia inteiro representou uma espécie de nadir da vida inteira em matéria de cordialidade. Os amigos de Herrera eram fisicamente estranhos e deram-lhe a impressão de que ela era praticamente uma não pessoa por nunca entenderem suas alusões culturais bem informadas. Deram-lhe três breves oportunidades de provar seu valor, depois do que passaram a ignorá-la brutalmente, depois do quê, para seu grande alívio, saíram do apartamento com Richard, que voltou sozinho com uma caixa de roscas para o café da manhã.
“Vou dar um jeito naquele quarto hoje”, disse ele. “Fico doente de ver o trabalho de merda que estão fazendo lá. Que tal lixar um pouco de parede?”
“Eu tinha pensado em ir até a beira do lago, ou coisa assim. Quer dizer, aqui está tão quente. Ou talvez a algum museu.”
Ele a fitou com ar grave. “Você está pensando em ir a um museu.”
“Qualquer coisa, só para sair um pouco e aproveitar Chicago.”
“Podemos sair hoje à noite. O Magazine vai tocar. Você conhece o Magazine?”
“Não conheço ninguém. Você ainda não percebeu?”
“Você está de mau humor. Quer voltar logo para a estrada.”
“Não quero fazer nada.”
“Se a gente conseguir limpar o quarto, você vai dormir melhor hoje à noite.”
“Nem quero saber. Mas não estou com a menor vontade de lixar parede.”
A área da cozinha era um chiqueiro nauseabundo que nunca tinha passado por uma faxina, exalando um cheiro de doença mental. Sentada no sofá onde Richard tinha dormido, Patty tentou ler um dos livros que trouxera na esperança de deixá-lo impressionado, um romance de Hemingway em que o calor, o mau cheiro, seu cansaço, o nó que sentia na garganta e os discos do Magazine que Richard não parava de tocar tornavam impossível concentrar-se. Quando o calor ficou intolerável, ela entrou no quarto que ele estava revestindo de massa e lhe disse que ia sair para dar uma volta.
Ele estava sem camisa, os pelos do peito colados e lisos devido ao suor que escorria. “A região aqui não serve muito para isso”, disse ele.
“Bom, quem sabe você vem comigo.”
“Daqui a mais uma hora.”
“Não, deixe para lá”, disse ela. “Eu vou sozinha mesmo. Eles nos deram uma chave?”
“Você está pensando mesmo em sair sozinha daqui de muletas?”
“Estou, a não ser que você queira vir comigo.”
“O que, como acabei de dizer, eu posso até fazer daqui a uma hora.”
“Bom, não estou com vontade de esperar uma hora.”
“Nesse caso”, disse Richard, “a chave está na mesa da cozinha.”
“Por que você está me tratando tão mal?”
Ele fechou os olhos e deu a impressão de contar até dez em silêncio. Era óbvio o quanto ele desgostava das mulheres e das coisas que elas diziam.
“Por que você não toma um banho frio”, disse ele, “e espera eu acabar.”
“Sabe, ontem houve um momento em que eu achei que você estava gostando de mim.”
“Eu gosto de você. Só estou trabalhando um pouco.”
“Ótimo”, disse ela. “Pode trabalhar.”
Nas ruas, ao sol da tarde, fazia mais calor que no apartamento. Patty se locomovia com uma agilidade considerável, tentando não chorar obviamente demais, tentando dar a impressão de que sabia aonde estava indo. O rio, quando ela chegou às suas margens, parecia mais benigno que à noite, quase tomado por plantas e pela poluição e não maligno e voraz. Do outro lado ficavam ruas mexicanas enfeitadas para algum feriado mexicano recente ou iminente, ou talvez enfeitadas o tempo todo. Encontrou uma taquería com ar-condicionado onde olharam muito para ela mas ninguém a incomodou, e ela pôde sentar-se, tomar uma Coca-Cola e espojar-se no seu sofrimento de menina. Seu corpo queria tanto Richard, mas o resto via bem que ela tinha cometido um Erro ao vir com ele: que tudo de que ela esperava da parte dele e de Chicago era uma fantasia pura e simples de sua cabeça. Expressões de que ela se lembrava do espanhol aprendido na escola secundária, lo siento, hace mucho calor e ¿qué quiere la señora?, insistiam em brotar em meio ao burburinho. Ela invocou toda a sua coragem e pediu três tacos, que devorou enquanto acompanhava o infindável desfile de ônibus pela janela, cada um arrastando atrás de si um rastro cintilante de imundície. O tempo passava de um modo peculiar que a autobiógrafa, com sua experiência hoje abundante de tardes assassinadas, pode agora identificar como depressivo (interminável e ao mesmo tempo de uma rapidez nauseante, repleto de segundo a segundo, vazio de conteúdo de hora a hora); até que finalmente, à medida que se encerrava o expediente, grupos de jovens trabalhadores entraram e começaram a dedicar um excesso de atenção a ela, falando em espanhol de suas muletas, o que a obrigou a ir embora.
Enquanto voltava, o sol se mostrava como um globo alaranjado no final das ruas que corriam de leste a oeste. A intenção de Patty, como agora se permitia perceber, tinha sido sair por tempo suficiente para deixar Richard muito preocupado com ela, e nisso ela parecia ter fracassado por completo. Não havia ninguém no apartamento. As paredes do quarto dela estavam quase acabadas, o chão fora escrupulosamente varrido, a cama, arrumada para ela com lençóis e travesseiros de verdade. Em cima da colcha indiana havia um bilhete de Richard, em maiúsculas microscópicas, dando o endereço de um clube noturno e instruções de como chegar lá tomando o trem elevado. E concluía: advertência: precisei levar nossos anfitriões comigo.
Antes de decidir se saía ou não, Patty se deitou para um cochilo e só despertou horas mais tarde, muito desorientada, com a volta dos amigos de Herrera. Saiu pulando numa perna só até a sala e lá ficou sabendo, com o mais desagradável deles, o de cueca da noite anterior, que Richard tinha saído com outras pessoas e mandara dizer a Patty que não esperasse por ele—mas que voltaria com tempo de sobra para seguirem viagem até Nova York.
“Que horas são agora?”, perguntou ela.
“Mais ou menos uma.”
“Da manhã?”
O amigo de Herrera a olhou com desprezo. “Não, é que estamos passando por um eclipse total.”
“E aonde Richard foi?”
“Saiu com umas garotas que conheceu. Não disse para onde.”
Como já foi dito, Patty não era muito boa para calcular distâncias rodoviárias. Para chegar a Westchester a tempo de ir com sua família para a Mohonk Mountain House, ela e Richard precisariam sair de Chicago às cinco da manhã. Ela só acordou muito depois disso, deparando com um dia cinzento tempestuoso, uma outra cidade, uma outra estação. Richard continuava desaparecido. Patty comeu umas roscas velhas e virou algumas páginas do seu Hemingway até as onze, quando até ela percebeu que as contas não tinham como fechar.
Tomou coragem e ligou para seus pais, a cobrar.
“Chicago!”, disse Joyce. “Não acredito. Está perto do aeroporto? Consegue pegar um avião? Achamos que a essa altura você já estaria chegando. Seu pai quer sair cedo, por causa do tráfego de fim de semana.”
“Eu me atrapalhei”, disse Patty. “Desculpe.”
“Bom, será que você consegue chegar lá amanhã de manhã? O jantar só vai ser amanhã à noite.”
“Vou fazer tudo que puder”, disse Patty.
Joyce, a essa altura, já estava na Assembleia Estadual havia três anos. Se em seguida ela não tivesse enumerado para Patty todos os parentes e amigos da família que estavam convergindo para Mohonk a fim de prestigiar aquele importante tributo a um casamento, a incrível animação com que os três irmãos de Patty estavam aguardando o evento, e como ela (Joyce) se sentia incrivelmente honrada com o afeto que lhe chegava, transbordante, dos quatro cantos do país, é possível que Patty tivesse feito o necessário para chegar a tempo. Na realidade, porém, uma calma e uma certeza estranhas tomaram conta dela enquanto ouvia a mãe falar. Uma chuva leve começara a cair sobre Chicago; cheiros agradáveis de concreto molhado e do lago Michigan alcançaram até Patty pela brisa que agitava as cortinas de lona. Com uma falta de ressentimento inédita, um olhar frio que acabara de adquirir, Patty olhou para si mesma e viu que ninguém seria prejudicado, nem mesmo sentiria muito, se ela simplesmente deixasse de ir ao aniversário de casamento. A maior parte do caminho já tinha sido percorrida. Ela viu que já estava quase livre, e dar o último passo lhe pareceu um tanto terrível, mas não terrível no mau sentido, se é que isso quer dizer alguma coisa.
Estava sentada ao lado de uma janela, sentindo o cheiro da chuva e observando o vento curvar as ervas e o mato que cresciam no teto de uma fábrica havia muito abandonada, quando recebeu o telefonema de Richard.
“Mil desculpas”, disse ele. “Estou chegando aí daqui a uma hora.”
“Nem precisa se apressar”, respondeu ela. “Já é tarde demais há muito tempo.”
“Mas a festa é amanhã de noite.”
“Não, Richard, amanhã era o jantar. Eu precisava chegar lá hoje. Antes das cinco da tarde.”
“Merda. Está de brincadeira comigo?”
“Você se esqueceu mesmo disso?”
“Agora está tudo meio misturado na minha cabeça. Já faz algum tempo que eu não durmo.”
“Está bem, de qualquer modo. Agora não tem mais a menor pressa. Acho que vou voltar para casa.”
E foi o que ela fez. Empurrou a mala escada abaixo e desceu atrás com suas muletas, parou um táxi de passagem na Halstead Street, pegou o ônibus Greyhound para Minneapolis e mais um até Hibbing, onde Gene Berglund estava morrendo num hospital luterano. Fazia uns cinco graus e caía uma chuva forte nas ruas vazias do começo da manhã no centro de Hibbing. As faces de Walter estavam mais coradas do que nunca. Diante da parada do ônibus, no carro de alto consumo de gasolina de seu pai, fedendo a cigarro, Patty jogou os braços em torno do seu pescoço e resolveu descobrir se ele sabia beijar, e ficou muito satisfeita de constatar que ele sabia direitinho.
* Patty só iria ver uma foto de Khadafi muitos anos depois da faculdade, e mesmo então, embora tenha percebido de imediato a semelhança com Richard Katz, não deu importância ao fato de que a Líbia parecia ter o chefe de Estado mais bonito do mundo.