Lira da Mocidade: Primeiros Versos
Capítulo III
Rebanhos a pastarem nas campinas,
As aves a cruzarem-se no ar,
O serpear das aguas argentinas,
Os fructos a dourarem no pomar;
A pureza das auras matutinas,
Os dias que o bom sol nos vem dourar,
As flores assetinadas, purpurinas,
As poeticas noites de luar;
Os campos no sorrir da primavera,
A selva, as fragas onde vive a fera,
O universo em toda a immensidade,
Nunca foi concedido por herança.
Era pr'a humanidade a esperança
De um dia conquistar a felicidade.
III
Os maus, porém, poderam com presteza
Empolgar o que a todos pertencia.
O sangue era direito a uns—Nobreza—
E aos d'hoje o dinheiro—A burguezia—
E foi assim que os bens da natureza,
Que o creador a todos concedia,
Se viram disputados com fereza,
Se viram empolgar com ousadia.
E appareceu a fome. Então aos pobres
Os ricos atirando com uns cobres +AS REVOLUÇÕES+
Inventaram um Deus de caridade.
Mas haverem luctar, embora custe,
Depor de todo a Caridade-embuste.
Hastear a bandeira da Egualdade!
Lisboa, 1892