Lira da Mocidade: Primeiros Versos

Faustino Fonseca Júnior · Capítulo 21 de 27

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Lira da Mocidade: Primeiros Versos

Capítulo III

Rebanhos a pastarem nas campinas,

As aves a cruzarem-se no ar,

O serpear das aguas argentinas,

Os fructos a dourarem no pomar;

 

A pureza das auras matutinas,

Os dias que o bom sol nos vem dourar,

As flores assetinadas, purpurinas,

As poeticas noites de luar;

 

Os campos no sorrir da primavera,

A selva, as fragas onde vive a fera,

O universo em toda a immensidade,

 

Nunca foi concedido por herança.

Era pr'a humanidade a esperança

De um dia conquistar a felicidade.

 

III

 

Os maus, porém, poderam com presteza

Empolgar o que a todos pertencia.

O sangue era direito a uns—Nobreza—

E aos d'hoje o dinheiro—A burguezia—

 

E foi assim que os bens da natureza,

Que o creador a todos concedia,

Se viram disputados com fereza,

Se viram empolgar com ousadia.

 

E appareceu a fome. Então aos pobres

Os ricos atirando com uns cobres +AS REVOLUÇÕES+

Inventaram um Deus de caridade.

 

Mas haverem luctar, embora custe,

Depor de todo a Caridade-embuste.

Hastear a bandeira da Egualdade!

 

Lisboa, 1892