Livro dos Sonhos
De Onde e Como Se Originam
OS SONHOS
Quando o fogo exterior se retira pela noite, o fogo interior se encontra separado dele; então, se sai dos olhos, cai sobre um elemento diferente, se modifica e extingue, uma vez que deixa de ter uma natureza comum com o ar que o rodeia, que já não tem fogo. Deixa de ver, e conduz ao sono. Esses aparatos protetores da visão dispostos pelos deuses, as pálpebras, quando se fecham freiam a força do fogo interior. Este, por sua vez, acalma e aquieta os movimentos internos. E assim que estes se tenham apaziguado, sobrevém o sonho; e se o repouso é completo, um sono quase sem sonhos se abate sobre nós. Por outro lado, quando subsistem em nós movimentos mais acentuados, de acordo com sua natureza e segundo o lugar em que se encontrem, dele resultam imagens de diversos tipos, mais ou menos intensas, semelhantes a objetos interiores ou exteriores, e das quais conservamos alguma lembrança ao despertar.
Platão, Timeo, XLV
DO DIÁRIO EPISTOLAR DE CÉSAR PARA
LÚCIO MAMILIO TURRINO, NA ILHA DE CAPRI
(As notas que seguem parecem ter sido escritas durante os meses de janeiro e fevereiro)
1020. Certa vez me perguntaram, em tom de broma, se eu alguma vez havia experimentado o horror do vácuo. Respondi que sim, e desde então vez por outra sonho com ele.
Talvez por uma posição acidental do corpo adormecido, talvez uma indigestão ou, qualquer outra classe de distúrbio interno, mas o fato é que o terror que paralisa a mente não é menos real. Não é, como me pareceu durante certo tempo, a imagem da morte e o esgar de uma caveira, mas sim o estado em que se percebe a finalidade de todas as coisas. Esta nada se apresenta como ausência ou silêncio, mas sim como o mal absoluto desmascarado: engano e ameaça que reduz ao ridículo todo o prazer, que enfraquece e murcha todo o esforço. Este pesadelo é a réplica da visão que sucede os paroxismos de minha doença4. Neles me parece captar a clara harmonia do universo, me invade uma felicidade e uma confiança inefáveis, e eu queria gritar a todos os vivos e aos mortos que não há lugar do mundo que não tenha sido alcançado pela mão da benção.
(O texto continua em grego)
Os dois estados derivam de certos humores que atuam no organismo, porém em ambos se afirma a consciência de que "eu saberei isto de agora em diante". Como rechaçá-los com ilusões vãs se a memória os corrobora com testemunhas inumeráveis, radiantes ou terríveis? Impossível negar um sem negar o outro; mas desejaria eu distribuir a cada um, como um simples pacificador de aldeia, sua minguada porção de verdade.
Thorton Wilder, Os idos de março
4 Epilepsia.