Livro dos Sonhos
O Sonho de Coleridge
O fragmento lírico Kubla Khan (cinqüenta e tantos versos rimados e irregulares, de prosódia requintada) foi sonhado pelo poeta inglês Samuel Taylor Coleridge em um dia de verão de 1797. Coleridge escreve que se havia retirado para uma granja nos confins de Exmoor, quando uma indisposição obrigou-o a tomar um hipnótico. O sono venceu-o momentos depois da leitura de Purchas, que narra a edificação de um palácio por Kubla Khan, o imperador que deve sua fama ocidental a Marco Polo. No sonho de Coleridge, o texto lido casualmente começou a germinar e a multiplicar-se; o homem que dormia intuiu uma série de imagens visuais, e, simplesmente, de palavras que as manifestavam. Ao cabo de algumas horas despertou com a certeza de haver composto, ou recebido, um poema de cerca de trezentos versos. Lembrava--se deles com singular clareza e conseguiu terminar um fragmento que figura em suas obras. Uma visita inesperada interrompeu-o e lhe foi impossível, depois disso, lembrar-se do resto.
"Descobri, com não pequena surpresa e mortificação — conta Coleridge — que embora retivesse de um modo vago a forma geral da visão, tudo o mais, salvo umas oito ou dez linhas soltas, havia desaparecido assim como as imagens na superfície de um rio no qual se joga uma pedra, porém — ai de mim! — sem a sua ulterior restauração". Swinburne sentiu que o que fora resgatado representava o mais alto exemplo da música do inglês e que o homem capaz de analisá-lo poderia (a metáfora é de John Keats) destecer um arco-íris. As traduções ou resumos de poemas cuja virtude fundamental é a música, são vãs e podem ser prejudiciais; que nos baste reter, por agora, que a Coleridge foi dada em um sonho uma página de indiscutível esplendor. Ouviu uma música; viu erguer-se o palácio e ouviu as palavras do poema.
O caso, ainda que extraordinário, não é o único. No estudo psicológico The World of Dreams, Havelock Ellis equiparou-o com o do violinista e compositor Giuseppe Tartini, que sonhou que o Diabo (seu escravo) executava no violino uma sonata prodigiosa; o sonhador, ao despertar, deduziu de sua lembrança imperfeita o Trillo dei Diavolo. Outro exemplo clássico de cerebração inconsciente é o de Robert Louis Stevenson, a quem um sonho (segundo ele mesmo conta em Chapter on Dreams) lhe deu o argumento de Olalla e outro, em 1884, o de Dr. Jekill and Mr. Hyde. Tartini quis imitar na vigília a música de um sonho; Stevenson recebeu do sonho argumentos, quer dizer, formas gerais; mais afim à inspiração verbal de Coleridge é a que Beda o Venerável atribui a Caedmon {Historia ecclessiastica gentis Anglocum, IV, 24).
À primeira vista o sonho de Coleridge corre o risco de parecer menos assombroso que o de seu precursor. Kubla Khan é uma composição admirável e as nove linhas do hino sonhado por Coleridge quase não apresentam outra virtude além de sua origem onírica, porém, Coleridge já era um poeta e a Caedmon foi revelada uma vocação. Não obstante, há um fato anterior que magnífica até os limites do insondável a maravilha do sonho em que se engendrou Kubla Khan. Se este fato è verdadeiro, a história do sonho de Coleridge é anterior em muitos séculos a Coleridge e ainda não chegou ao seu fim.
O poeta sonhou em 1797 (outros acham que foi em 1798) e publicou o seu relato do sonho em 1806, a maneira de glosa ou justificativa do poema inconcluso. Vinte anos depois apareceu em Paris, fragmentariamente, a primeira versão ocidental de uma destas histórias universais em que a literatura persa é tão rica, o Compêndio de histórias de Rashid ed-Din, que data do século XIV. Em uma página se lê: "A leste de Shang-tu, Kubla Khan erigiu um palácio, segundo um plano que havia visto em um sonho e que guardava na memória". Quem escreveu isto foi o vizir de Gashan Mahmud, que descendia de Kubla.
Um imperador mongol, no século XIII, sonha um palácio e o edifica conforme a visão; no século XVIII, um poeta inglês que não podia saber que esta construção se originou de um sonho, sonha um poema sobre o palácio. Confrontadas com essa simetria, que trabalha com almas de homens e abarca continentes, parecem-me significar nada ou muito para as levitações, as ressurreições e o aparecimento dos livros religiosos.
Que explicação preferimos? Aqueles que de antemão rechaçam o sobrenatural (eu trato sempre de pertencer a esse grupo) julgarão que a história dos dois sonhos é uma coincidência, um desenho traçado pelo acaso, como as formas de leões e de cavalos que as vezes configuram as nuvens. Outros argüirão que o poeta soube de algum modo que o imperador havia sonhado o palácio e disse ter sonhado o poema para criar uma esplêndida ficção que em si aplacasse ou justificasse o truncado e o rapsódico dos versos 21. Esta conjetura é verossímel, porém nos obriga a postular, arbitrariamente, um texto não identificado por sinólogos no qual Coleridge tivesse podido ler, antes de 1816, o sonho de Kubla22. Mais encantadoras são as hipóteses que transcendem o racional. Por exemplo, é válido supor que a alma do imperador, uma vez destruído o palácio, penetrou na alma de Coleridge para que este o reconstruísse em palavras, mais duradouras que os mármores e metais.
O primeiro sonho acrescentou um palácio à realidade; o segundo que teve lugar cinco séculos depois, acrescentou um poema (ou um princípio de poema) sugerido pelo palácio. A semelhança dos sonhos deixa entrever um plano, e o período enorme revela um executor sobre-humano. Indagar o propósito desse imortal ou desse longevo seria, talvez, mais atrevido do que inútil, porém é lícito supor que isso não foi alcançado. Em 1691, o Pe. Gerbillon, da Companhia de Jesus, comprovou que do palácio de Kubla Khan somente restavam ruínas; do poema, consta-nos que somente se resgataram uns cinqüenta versos. Tais fatos permitem conjeturar que a série de sonhos e de trabalhos não chegou ao seu fim. Ao primeiro sonhador lhe foi mostrada
21 " Em princípios do século XIX ou em fins do XVIII, Kubla Khan, no julgamento dos leitores de gosto clássico, era muito menos apreciado do que hoje em dia. Em 1884, Traill, que foi o primeiro biógrafo de Coleridge, escreveu: "0 extravagante poema onírico Kubla Khan é pouco mais do que uma curiosidade psicológica". de noite a visão do palácio, e ele o construiu; ao segundo, que desconhecia o sonho do anterior, o poema sobre o palácio. Se o esquema não falhar, alguém, em uma noite das que nos separam os séculos, sonhará o mesmo sonho e não suspeitará que outros já o sonharam, e dará a ele a forma de um mármore ou de uma música. Talvez a série de sonhos não tenha fim; talvez a chave esteja no último deles.
Já escrito o texto anterior, entrevejo, ou creio entrever, uma outra explicação. Talvez um arquétipo ainda não revelado aos homens, um objeto eterno (para usar a terminologia de Whitehead) esteja ingressando paulatinamente no mundo; sua primeira manifestação foi o palácio; a segunda, o poema. Quem os tivesse comparado teria visto que eram essencialmente iguais.
Jorge Luis Borges
OS SONHOS DE ASTIAGES
Após quarenta anos de reinado, morreu o rei medo Ciaxares, e sucedeu-o no trono seu filho Astiages. Tinha Astiages uma filha chamada Mandane; sonhou que ela vertia tanta urina que esta cobria toda a Ecbátana e toda a Ásia. Tratou de não deixá-la casar-se com nenhum medo, e deu-a em matrimônio ao persa Cambises, homem de boa família, caráter pacífico e condições medianas. Voltou Astiages a sonhar, e viu que do centro do corpo de sua filha saía uma parreira que cobria toda a Ásia com sua sombra. O significado era claro: o filho dela o substituiria. Mandou sua filha retornar, e quando esta deu a luz, entregou a criança ao seu parente Hárpago para que ele o matasse.
22 Veja-se John I.ivingstone Lowes: The road to Xanandu, 1927, páginas 358, 585 Hárpago sentiu medo e piedade, e entregou o menino ao vaqueiro Mitradates, ordenando-lhe que o matasse. Mitradates tinha Perra por esposa e esta acabara de parir um filho morto. O menino que lhe haviam entregado estava luxuosamente vestido; decidiram fazer a troca, pois também sabiam que era filho de Mandane e assim preservavam seu futuro. O menino cresceu e seus companheiros pastores proclamaram-no rei de seus jogos, e o menino rei se revelou inflexível. Astiages inteirou-se e obrigou a Mitradates confessar sua origem. Soube da desobediência de Hárpago, mas fingiu perdoa-lo e convidou-o a um banquete, e pediu que lhe entregasse o filho para ser companheiro de seu neto. Durante o banquete fez servir a Hárpago, assados, pedaços de seu filho. Quando soube disso, Hárpago dominou-se. Astiages consultou novamente seus adivinhos, e eles responderam:
Se vive, há de reinar; porém como já reinou entre os pastores, não há perigo de que alcance uma nova coroa. Satisfeito, Astiages enviou -o suposto filho de Mitradates aos seus verdadeiros pais, que ficaram felizes em vê-lo com vida. O menino cresceu, fez-se rapaz e jovem guerreiro, e, com a ajuda de Hárpago, destronou Astiages, tratando-o com benevolência. Assim fundou Ciro, o antigo pastor, o império persa, e assim o conta Heródoto no quinto dos Nove Livros da História.
ROMÂNTICA
Uma vida atingida é um sonho de adolescente realizado na idade madura.
Alfred de Vigny
O PÃO DISPUTADO
I. Versão árabe
Um muçulmano, um cristão e um judeu vão de viagem. Esgotaram suas provisões e ainda lhes resta dois dias de caminhada no deserto. Nessa noite encontraram um pão. Que fazer? Bastaria para um, porém é pouco para três. Decidem que o coma aquele que tenha o mais belo sonho. Ao amanhecer, disse o cristão: Sonhei que um demônio me levava ao inferno, que pude contemplar em todo o seu horror. Disse o muçulmano: Sonhei que o anjo Gabriel me levava ao paraíso, e pude apreciar todo o seu esplendor. Disse o judeu: Sonhei que o demônio levava o cristão ao inferno e que o anjo Gabriel levava o muçulmano ao paraíso, e eu comi o pão.
Nuzhetol Udeba
II. Versão judaica
Jesus, Pedro e Judas viajam juntos. Chegam a uma pousada. Há um único pato... Pedro: Sonhei que estava sentado junto ao filho de Deus. Jesus: Sonhei que Pedro estava sentado ao meu lado. Judas: Sonhei que estáveis sentados juntos e que eu comia o pato. Os três buscaram o pato. Não havia pato.
História Jeschual Nazareni
QUE PASSE
Ah! Muito bem! Façam entrar o infinito!
Louis Aragon
ENTRE SONHOS
A soberana virtude deste clima insular reside no que o médico de Molière chamara de sua "propriedade dormitiva". Somente dormindo pode uma pessoa repor-se de tanta ociosidade. O famoso preceito da escola salermitana (sex horas dormire... 23), ainda que expressado em excelente latim de cozinha, nos saberia a um gracejo de mau gosto. Seis horas de decúbito! Admitamos o mínimo de oito ou nove a bem da pedagogia, e claro que não se deve esquecer a sesta de cada tarde. Tampouco se deve temer as conseqüências; as reservas de sono são aqui tão inesgotáveis como as ondas do Paraná: depois de quatro movimentos de remo, à guisa de hipnótico, muito poderás seguir adiante até o toque de recolher. No que me diz respeito, sei dizer que com este regime dominei as piores insônias — as que são trazidas pelo vento norte ao amanhecer — sem recorrer ao remédio extremo e sempre perigoso das leituras proibidas, quero dizer, tediosas. Este ambiente vegetativo é uma bênção para os nervos; parece-me a cada momento que me estou transformando em salgueiro...
À maneira de ex-voto ao deus Morfeu, consagrarei, pois, esta conversa dominical ao tema sedativo que o título anuncia. E desta vez não se dirá que estou sem assunto. Estudada devidamente a matéria, ou seja, entre o dormir e o velar, não resultaria tão frívolo como parece. O sono não é o parêntese da vida, mas sim uma de suas faces mais
23 Dormir seis horas. (N. do T.). curiosas, como que nadando no mistério e confinada no sobrenatural. Por isso os poetas entendem-no melhor do que os fisiologistas. Enquanto que os segundos vivem discutindo se o estado cerebral, durante o sono, corresponde à anemia ou à congestão, sem que o problema tenha resposta definitiva, os primeiros, desde Homero até Tennyson, entrevem a verdade através do prisma irisado da ilusão. O maior de todos deixou tombar esta palavra profunda, que chega até onde não penetram, sondas e psicômetros:
"Somos feitos da matéria de sonhos..." E um herói de Musset, comentando à sua maneira o divino Shakespeare, canta deliciosamente:
La vie est un sommeil, Vamour en est le rêve...
Porém, que delicado é o nosso instrumental psicológico! Que moderna e matizada língua é esta que, sob o simples rótulo de sonho, segue enfiando nos alforges de Sancho toda a família de sommeil, somme, songe, rêve, reverie,24 etc, reduzindo a gama inteira a esta única nota de trombone!
Não sou um sonhador extremado — dormindo, bem entendido. Costumo passar noites consecutivas sem provar este devaneio da "cerebração inconsciente", que para outros é sinônimo de dormir. E como me consta que nem em atos nem em gestos sou sonâmbulo, deveria admitir, segundo a teoria corrente, que na maior parte das vezes se não me lembro de meus sonhos é porque não os tenho. Veremos em seguida como também nisto é mister fazer-se distinções, sendo a realidade um pouco menos simples do que a teoria. Seja como for, refleti muito sobre esta singular dissociação orgânica, que representa uma espécie de divórcio periódico entre a alma e o corpo. É possível que em razão mesmo de sua pequena freqüência, meus sonhos conservem maior solidez que os de outros. De minha longínqua infância ficaram-
24 O sentido desta palavra, que significa estado de inércia, como sonho, devaneio, etc, pode variar segundo o contexto em que está inserida. (N. do T.). me quatro ou cinco, quase tão lúcidos como o de ontem à noite, que precisamente deu motivo a estas linhas e que logo resumirei. Outros, tenho-os anotados em meus cadernos: alguns de caráter tão estranho ou pavoroso que, mesmo hoje, basta-me reler a anotação para ressuscitar a sensação primitiva em seu paroxismo de angústia e terror.
Além disso, observei em meus próximos, e as vezes muito de perto, os acidentes exteriores do sonho, especialmente do pesadelo. Certamente minha vida tão agitada proporcionou-me material observável. Na promiscuidade das viagens, desde os tambos 25 da Bolívia até os camarotes de navios e os sleeping-cars presenciei, mais do que era necessário, os dramas e comédias da humanidade adormecida. Porém nenhuma experiência ulterior foi tão completa e contínua como a primeira, à qual me vou referir por tratar-se de um indivíduo desaparecido. Esta foi a base da minha pequena teoria pessoal acerca do sonho; a ela referi invencivelmente minhas observações posteriores, e até as afirmações dos livros, para comprovar sua exatidão. Muitos anos passaram e pode ser que eu tenha hoje mais aguçado o meu instrumental analítico. Contudo, subsistem para mim os resultados daquela grande iniciação juvenil, e acho que a pedra de toque não envelheceu.
Vivia eu em Salta, há vinte e três anos passados, na casa de um comerciante nascido em Tucumán. Jovens e íntimos amigos, dormíamos os dois no mesmo quarto para poder conversar de cama a cama, embora sobrassem quartos desocupados em nosso casarão colonial capaz de abrigar comodamente a família de Noé. Recolhiamo-nos quase sempre juntos, e quando, por excepcional casualidade, o programa noturno não era comum, o primeiro que se liberava costumava ir esperar o outro no "Bilhar de Lavin", na vizinhança. Como eu tivesse o péssimo costume de ler deitado, passava sempre uma ou duas horas velando o sono de meu amigo. Este, que acordado não
25 O sentido desta palavra, que significa estado de inércia, como sonho, devaneio, etc, pode variar segundo o contexto em que está inserida. (N. do T.). quebrava um prato, dormindo se transformava em um mauvais coucheur. Quando mais tranqüilo, roncava como uma trombeta alemã, até acordar assustado com o próprio trombetear. Não era este porém o seu pior excesso. Meu companheiro, sonhava em voz alta, padecendo de cruéis pesadelos que me deixavam com ele... com Jesus na boca, se é que assim se pode definir o que, pela impaciência, me saía da boca. Quando senti os inconvenientes da coabitação, era muito tarde para remediar. Primeiro deteve-me o carinho; em seguida a curiosidade, ou melhor dizendo, um interesse crescente por este drama cerebral que, aos meus olhos — ou se preferem, aos meus ouvidos — e com a cortina baixada, se representava e em cujo desempenho passei de testemunha muda a colaborador entendido.
Não insistirei nos detalhes que concordam com a teoria clássica, e que minha própria experiência de vários meses confirmou, limitando-me a assinalar os traços que a contradizem abertamente. O que mais se costuma sentir falta nos tratados de medicina, e por conseguinte nos de psiquiatria — a mais conjetural e arriscada destas ciências ainda em cueiros — é precisamente o espírito científico, que não se serve de atitudes de magister dixit nem de fórmulas convencionais. Advertimo-nos, por exemplo, que as alucinações do paladar, e sobretudo as do olfato, são muito mais raras do que as dos outros sentidos; a observação carece de alcance, pois supõe-se que em estado normal as sensações de paladar e olfato não são representativos, pois nos é impossível imaginar o perfume do jasmim com seu caráter próprio, em relação ao da violeta. Quanto ao paladar, cujas sensações estão indissoluvelmente unidas às do tato, sua vaga e suposta representação no sonho terá que ser ilusória ou devida à referida associação.
O volumoso tratado de Brierre de Boismont está cheio de casos pueris, tão despidos de crítica como os de Lombroso; assim, como o caso clássico da famosa sonata de Tartini que, segundo dizia o compositor, lhe foi "ditada pelo diabo". A interpretação psiquiátrica, que atribui aquela obra a um fenômeno de cerebração inconsciente, revela no sábio um potencial de credulidade igual ao do músico, se é que não maior ainda. No que me diz respeito, ainda prefiro a lenda em bloco, com o diabo e respectivos chifres.
Mais graves, todavia, parecem-me as histórias relativas ao sonambulismo, e que os autores piedosamente transmitem uns aos outros, ainda que se choquem com seus próprios princípios teóricos. Tal é a célebre história do monge, trazida por Foderé e reproduzida por todos seus sucessores. Faz referência a um prior da grande Cartuxa, que certa noite em que ficara escrevendo em sua cela, viu entrar um jovem religioso, rígido, com os olhos fixos e as feições contraídas. O sonâmbulo dirigiu-se à cama do prior, felizmente vazia, e mergulhou nela três vezes uma grande faca que trazia... No dia seguinte o prior interrogou o frade, e este lhe descreveu a cena ponto por ponto, acrescentando que havia sido impelido ao crime imaginário por um sonho em que vira sua mãe assassinada pelo prior.
Sem discutir-se o caso, que pode ser real, não parece ser duvidoso que, afora outros detalhes evidentemente apócrifos, toda a confissão do paciente haja sido forjada. O homem que continua dormindo depois de um acesso de sonambulismo não conserva, ao despertar, lembrança alguma de seus atos, e muito menos do sonho que o teria impulsionado: a amnésia é absoluta 26. O mesmo não acontece nos casos de pesadelo que se interrompem bruscamente por razões externas; e esta diferença, que creio ser fundamental, se verá confirmada por meu caso do homem de Tucumán (ou de Salta).
Não parece que o pesadelo deva distinguir-se psicologicamente do sonho ordinário, nem tampouco do sonambulismo parcial; se bem que é fartamente sabido que entre este e aquele, as diferenças patológicas permanecem características. O sonambulismo espontâneo é uma entidade mórbida, uma neurose; o cauchemar, por sua vez, pode ser um acidente isolado, o episódio de uma in-digestão, ou o sintoma de
26 Em minha recente obra Une Enigme Littéraire, critiquei a cena das bebedeiras de vinho em Don Quixote (I. XXV), a qual o célebre alienista Bali considerou "um modelo de observação ". uma alteração distante dos centros nervosos. Vistos de fora, os dois estados não diferem unicamente pelo contraste que oferece a impotência física do indivíduo em um, com a motilidade que o caracteriza no outro e que lhe deu seu nome; e além disso, há a forma como terminam. Habitualmente basta a própria angústia do pesadelo para trazer o brusco despertar; o acesso sonambúlico, ao contrário, segue sua evolução tranqüila (salvo acidente exterior) até refundir-se nó sono ordinário. De volta à realidade ambos os indivíduos, o sonhador conserva muito viva a lembrança de seu sonho, enquanto que o sonâmbulo esqueceu-o completamente. E aqui vêm as observações pessoais que anunciei.
Meu amigo de Salta não era propriamente sonâmbulo, ainda que em duas ou três ocasiões eu o vi levantar--se dormindo e começar a vestir-se; porém seus sonhos angustiosos eram quase cotidianos. Padecia de uma aflição crônica do estômago e, conseqüentemente, quando lhe ocorria jantar, o pesadelo era incrível. Chegava com o primeiro sono, revestindo-se quase sempre da mesma forma exterior, como que correspondendo a um drama interno pouco variável, conforme me contou umas vinte vezes. Omitindo detalhes, era sempre uma altercação com homens emponchados, peões ou artesãos (meu amigo possuía um engenho de açúcar) que o insultavam; o dormido se indignava, proferindo ameaças que me anunciavam a inevitável catástrofe; pouco a pouco, um breve queixume, acompanhado de gemidos prolongados... havia recebido uma punhalada no epigástrio e se sentia morrer...
Meu pobre companheiro me relatava a cena com uma lucidez e um colorido comovedores. Como já disse, esta não variava a não ser por certos detalhes secundários. Em pouco tempo cheguei a saber de cor a história, como sabia a de Barba Azul. O que a princípio me surpreendia era a fantástica rapidez das peripécias que, contadas, parecia durarem horas, enquanto que em realidade se sucediam e se ajuntavam em poucos segundos. Já familiarizado com o incidente, e quase sempre acordado nesse momento, conseguia muitas vezes prevenir o ataque mudando a posição do sonhador. Outras vezes eu intervinha na cena fingindo prestar ajuda ao agredido, pondo-me ao seu lado, mostrando-lhe seus inimigos em fuga ou prostrados no chão diante da nossa arremetida heróica. Esta sugestão costumava ser eficaz e como, além de benéfica, era para mim divertida, continuei a usá-la prodigamente, buscando novos efeitos.
Quando o paciente acordava durante a ação de minha intervenção, referia-se a mim como autor de façanhas tais, que eu ficava pasmo: meus quatro gritos reais não passavam de um simples tampão que o sonho convertera em fantástica epopéia. Não obstante, se ocorria que, dominada a crise e facilitada a digestão, meu amigo ingressasse sem acordar no sono normal, na manhã seguinte não conservava a mais remota lembrança de seu pesadelo frustrado. Esta dupla observação, que repeti muitas vezes e que em outras circunstâncias confirmei, me permite estabelecer, contrariamente ao que li em várias oportunidades, o seguinte:
1.°, — que a sugestão pode ser tão eficaz no sonho normal (e o pesadelo não é, psicologicamente, outra coisa) como no sonambúlico; e 2.°, — que a amnésia subseqüente ao pesadelo interrompido obedece provavelmente à mesma causa que o esquecimento tão freqüente dos sonhos ordinários. Esta causa não é outro senão a superposição de novas imagens sobre as antigas. Já se disse que a hora mais propícia para os sonhos é a que precede o despertar da manhã, abrindo-se então, de par em par, a porta de marfim da fantasia. O que sem dúvida ocorre é que os últimos sonhos subsistem sozinhos, porque cobrem ou apagam os anteriores, da mesma forma que, numa tropa em marcha, somente as últimas filas deixam no caminho pegadas perceptíveis.
Com respeito à completa independência de alguns sonhos, de seu surgimento e desenvolvimento sem relação aparente com nossa vida diária, de sua fantástica incoerência, se justificaria formular-se algumas distinções. Não me parece que os observadores profissionais tenham considerado aquela independência como um fato psicológico de primeira ordem; é que para a elaboração de um sonho não constituem materiais ou elementos as coisas em si, mas sim sua representação atual, quando presentes — ou sua evocação, quando passadas. A imagem de Rosas, que uma leitura de ontem me chamou atenção, ou um passeio de barco pelo rio das Conchas, que realizava naquele momento, eram para mim acontecimentos intelectuais da mesma categoria e perfeitamente contemporâneas, e dessa forma se imprimiam na chapa sensível do cérebro. Se a atenção fixou suas imagens no mesmo plano — assim como o hipossulfito fixa na chapa fotográfica a imagem viva junto ao quadro da parede — poderá o sonho associá-las e combiná-las com aparente incoerência, porém na realidade com inegável lógica.
Vou contar em poucas palavras o sonho pueril e tragicamente absurdo que tive na noite passada e que, como disse, foi o ponto de partida desta conversa sonolenta.
Encontrava-me no Cabildo de Buenos Aires, na presença de Rosas que ordenava minha prisão e execução imediata. Eu era Maza 27, sem deixar de ser Groussac. Conseguia fugir e me achava subitamente no terraço de São Francisco, com minha família, que não era a real.
Depois de vinte cenas delirantes, traziam um cavalo ao terraço, no qual eu devia fugir para as províncias do Norte, atravessando o Rio da Prata, etc.
Pois bem; todas estas loucuras obedeciam, conforme me mostrara a reflexão, ao seguinte fio lógico: no mesmo dia, e quase na mesma hora, me lembrei da nossa fazenda de Santiago, vendo passar um gaúcho a cavalo; logo tive a idéia de ir de barco até a ilha que por aí possuem os franciscanos; finalmente, durante o trajeto pensei longamente em um episódio do ano de 40, mencionado em um estudo do marinheiro francês Page sobre Rosas, e que se desenvolve precisamente nas margens do rio Paraná.
We are such stuff — as dreams are made on... Repito as palavras profundas que Shakespeare põe na boca de Próspero na mais bela, na
27 O Tenente-coronel Ramon Maza, autor e primeira vítima da conspiração de 1839. mais poética e mortalmente triste de suas comédias. Somos feito do mesmo tecido que os nossos sonhos, o que quer dizer que, reciprocamente, tecemos os nossos sonhos com a nossa substância. A inquietação instintiva do poeta, pois, parece que penetrava em maior profundidade que a sabedoria dos sábios, a qual há séculos gira em torno da verdade suspeitada sem contudo atrever-se a dar-lhe uma fórmula positiva. Não será porque, longe de atirar no poço do mistério a sonda experimental que somente faz turvar suas ondas, o poeta, ao inclinar-se sobre a brilhante superfície, consegue divisar o céu refletido que contém a grande explicação?
O sonho absorve uma porção considerável de nossa vida e, por outro lado, não parece duvidoso que o ato de sonhar seja uma forma intermitente de loucura, um delírio periódico mais ou menos caracterizado. Delirar, segundo a raiz etmológica, significaria propriamente "semear fora do sulco". Esta idéia não implica que o sulco seja mal traçado ou que a semente esteja estragada; assinala simplesmente o fato da impropriedade, da direção errada. Assim é o delírio, em sua forma mais comum, uma série de atos ou de palavras incoerentes desprovidas de conseqüência e apropriação, sem que isto impeça' que, separadamente, cada ação possa ser razoável e cada palavra correta. Seria por acaso outra a definição de sonho?
O que se denominou "instabilidade mental" não é um acidente, mas sim o nosso modo de ser fisiológico. Para quem estuda o corpo humano, a persistência da saúde parece um milagre de cada instante. E o que diremos do nosso aparelho cerebral, que a cada vinte e quatro horas penetra no cone de sombra de sua razão eclipsada? Não é prodigioso que cada manhã, com a boa e santa luz do sol, emerja também a inteligência intacta de suas trevas e fantasmas noturnos?
Sem dúvida, o lar, a família, os rostos conhecidos e amados, a sucessão regular dos atos habituais hão de ser outros tantos marcos e pontos de repère que mantêm em equilíbrio a razão precária. Eles nos guiam pelo labirinto de escolhos onde poderíamos soçobrar; à maneira da navegação antiga, que se movia prudentemente de cabo a cabo, buscando na costa sempre visível a sua tímida orientação. Finalmente veio para o navegante a bússola tutelar, que lhe permitiu sulcar tanto de noite quanto de dia o maré tenebrosum. Efêmeros exploradores do infinito: onde encontraremos nós a nossa bússola, se a tudo que antes dávamos este nome se declarou antiguidade, se precipita e se desfaz?
Paul Groussac, A viagem intelectual (1904)
O SORRISO DE ALÁ
Alá viu que Jesus percorria um vale e que adormecia e sonhava, e que no sonho via uma caveira. Disse Alá: Oh, Jesus! Pergunta-lhe, e ela te responderá. Jesus rezou em voz alta, e diante de seu hálito taumatúrgico a caveira começou a falar. Disse que sua alma estava de castigo, através de todos os tempos, porque havia pertencido a um povo que sofreu a ira de Alá; descreveu Azrayel, o anjo da morte, assim como as visões e os castigos que presenciou em cada uma das sete portas do inferno. Voltou Jesus a orar, e a caveira recuperou corpo e vida para servir ao Onipresente durante doze anos é depois morrer na paz de Deus. Com isto Jesus despertou e sorriu. Com isto sorriu Alá.
Tradicional do Oriente Médio
O SONHADO
Careço de realidade, temo não interessar a ninguém. Sou um farrapo, um dependente, um fantasma. Vivo entre temores e desejos; temores e desejos que me dão vida e que me matam. Já disse que sou um farrapo.
Jazo nas sombras, em grandes e incompreensíveis esquecimentos. De repente me obrigam a sair à luz, uma luz cega que quase me assegura a realidade. Porém logo se ocupam deles mesmos e me esquecem. Novamente perco-me na sombra, gesticulando com ademanes cada vez mais imprecisos, reduzido ao nada, à esterilidade.
A noite é o meu próprio império. Em vão trata de afastar-me o esposo, crucificado em seu pesadelo. As vezes satisfaço vagamente, com agitação e torpeza, o desejo da mulher que se defende sonhando, encolhida, e que finalmente se entrega, grande e macia como um travesseiro.
Vivo uma vida precária, dividida entre estes dois seres que se odeiam e se amam, que me fazem nascer como um filho deformado. Não obstante, sou belo e terrível. Destruo a tranqüilidade do casal, ou a inflamo com ò mais cálido amor. As vezes me coloco entre os dois, e o abraço íntimo me faz recobrar, maravilhoso. Ele percebe a minha presença e se esforça para aniquilar-me, para tomar o meu lugar. Mas finalmente, derrotado, exausto, vira as costas para a mulher, devorado pelo rancor. Permaneço junto a ela, palpitante, e a cinjo com meus braços ausentes que pouco a pouco se dissolvem no sonho.
Deveria ter começado dizendo que ainda não acabei de nascer, que sou gerado lentamente, com angústia, em um processo longo e submerso. Eles maltratam com seu amor, inconscientes, minha existência de nonato.
Trabalham longamente a minha vida entre seus pensamentos, mãos torpes que se empenham em modelar--me, fazendo-me e desfazendo-me, sempre insatisfeitos.
Porém um dia, quando por acaso derem com minha forma definitiva, escaparei e poderei sonhar-me eu mesmo, vibrante de realidade. Afastar-se-ão eles, um do outro. E eu abandonarei a mulher e perseguirei o homem. E montarei guarda a porta da alcova brandindo uma espada flamejante.
Juan José Arreola, Confabulario total (1962)
O SONHO DE CHUANG TZU
Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta e não sabia, ao acordar, se era um homem que tinha sonhado ser uma borboleta, ou uma borboleta que agora sonhava ser um homem.
Herbert Allen Giles, Chuand Tzu (1889)
O SONHO DE SARMENTO
Em Nápoles, na noite em que desci do Vesúvio, a febre das emoções do dia dava-me pesadelos horríveis, em lugar do sono que meus agitados membros reclamavam. As labaredas do vulcão, a escuridão do abismo que não deve ser escuro, se misturavam que sei eu a que absurdos da imaginação aterrorizada, e ao acordar daqueles sonhos que queriam despedaçar-me, uma única idéia se mantinha tenaz, persistente como um fato real ... Minha mãe morreu!... Por sorte tenho-a aqui ao meu lado e ela me instrui em coisas de outros tempos, ignoradas por mim, esquecidas por todos. Aos setenta e seis anos de idade minha mãe atravessou a cordilheira dos Andes para despedir-se de seu filho antes de descer a sepultura! Somente isto bastaria para dar uma idéia da energia moral de seu caráter.
D. F. Sarmento, Recuerdos de Província (1851)
OS SONHOS DE LUCIANO
No século II, o sofista greco-siríaco Luciano de Samosata (d. 125-185) teve vários sonhos. Em um deles narrou seus dias de infância, transcorrida e recuperada em visões. Tentou ser escultor no atelier de um tio, porém em um sonho lhe apareceram duas mulheres, a Retórica e a Escultura, enaltecendo seus méritos respectivos. Luciano segue a Retórica, ganha riquezas e honrarias, exorta os jovens a seguir seu exemplo e a serem constantes frente às primeiras dificuldades da vida. Em outro sonho, chamado O Galo, Micilio sonha felizmente com riquezas e se lamenta de sua miserável vida de lavrador; desperta-o o canto do galo, que em sua vida anterior havia sido Pitágoras; o galo demonstra ao lavrador que a riqueza é fonte de desgraças e preocupações, enquanto que a pobreza proporciona uma vida mais serena e feliz. No terceiro sonho, Viagem aos Infernos ou O Tirano, narra a chegada dos mortos à Estígia: o filósofo Cinisco escarnece tanto que o Tirano se desespera, trata de fugir e recuperar seu passado poder e esplendor; intervém Micilio (agora sapateiro e não mais lavrador) que não teme o juízo final e o espera com alegre curiosidade. Cinisco e ele receberão a bem-aventurança, enquanto que o Tirano enfrentará o castigo.
Rodericus Bartius, Los que son números y los que no lo son
COSTUMA VESTIR SOMBRAS
O sonho, autor de representações,
em seu teatro armado sobre o vento
de sombras soi vestir o vulto belo.
Luis de Góngora
O SONHO DO REI
— Agora está sonhando. Com quem sonha? Sabes?
— Ninguém sabe.
— Sonha contigo. E se deixasse de sonhar, o que seria de ti?
— Não sei.
— Desaparecerias. És uma figura de um sonho. Se este rei despertasse, te apagarias como uma vela.
Lewis Carrol, Alice na terra do espelho (1871)
DREAMTIGERS
Durante a infância exerci com fervor a adoração do tigre; não o tigre esbranquiçado dos camalotes do Rio Paraná e da confusão amazônica, mas sim o tigre raiado asiático, real, a quem somente podem enfrentar os guerreiros, encastelados no dorso de um elefante. Costumava eu demorar-me interminavelmente diante de uma das jaulas do Zoológico; e eu gostava das volumosas enciclopédias e dos livros de história natural por causa do esplendor dos seus tigres. (Ainda me recordo dessas figuras; eu, que não posso lembrar-me sem errar do rosto ou do sorriso de uma mulher). Passou a infância, e caducaram os tigres e sua paixão, porém eles ainda estão nos meus olhos. Nesta corda de rede submersa ou caótica seguem prevalecendo, e assim, se durmo, me distrai um sonho qualquer e em seguida sei que se trata de um sonho. Costumo pensar, então: este é um sonho, uma pura diversão da minha vontade, e já que tenho um poder ilimitado, vou produzir um tigre.
Oh, incompetência! Meus sonhos não sabem nunca engendrar a fera desejada. O tigre aparece, sim, porém dissecado e débil, com impuras variações de fôrma, ou de um tamanho inadmissível, ou muito fugaz, ou parecendo--se mais com um cachorro ou com um pássaro.
Jorge Luis Borges
O TEMPLO, A CIDADE, OS ARQUÉTIPOS,
O SONHO
Lugar sagrado por excelência, o templo tinha um protótipo celeste. No monte Sinai Jeová mostra a Moisés a "forma" do santuário que deverá construir-lhe: "E me farão um santuário, e eu habitarei no meio deles, conforme em tudo ao modelo do tabernáculo que eu te mostrarei; e ao de todos os meus vasos para o culto; e o farei deste modo;..." (Êxodo, 25, 8-9). E quando Davi entrega ao seu filho Salomão o plano dos edifícios do templo, do tabernáculo e de todos os utensílios, assegura-lhe que "Todas estas coisas (disse o rei) me foram dadas escritas pela mão de Deus, para que eu compreendesse todas as obras do desenho" (Crônicas I, 28, 19). Por conseguinte, viu o modelo celestial.
O mais antigo documento referente ao arquétipo de um santuário é a inscrição de Gudea relacionada com o templo por ele erguido em Lagash. O rei vê em sonho a deusa Nidaba que lhe mostra um painel no qual se mencionam as estrelas benéficas e um deus que lhe revela o plano do templo. Também as cidades têm seu protótipo divino. Todas as cidades babilônicas tinham seus arquétipos em constelações: Sippar, em Câncer; Nínive, na Ursa Maior; Assur, em Artur, etc. Senaquerib manda edificar Nínive segundo o "projeto estabelecido desde tempos remotos na configuração do céu". Não apenas há um modelo que precede a arquitetura terrestre, mas este, ainda, se encontra situado em uma "região" ideal (celeste) da eternidade. É o que proclama Salomão: "Mandaste-me edificar um templo sobre o teu santo monte, e um altar na cidade em que habitas./conforme o modelo do teu santo tabernáculo, que preparaste desde o princípio". (Sabedoria 9, 8).
Uma Jerusalém celestial foi criada por Deus antes que a cidade de Jerusalém fosse construída pela mão do homem. A ela se refere o profeta, no livro de Baruc, e em outros.
"Crês tu que esta é a cidade da qual eu disse: Edifiquei-te na palma das minhas mãos? A construção que atualmente se encontra no meio de vós não é a que se revelou em Mim, a que já estava pronta no momento em que decidi criar o paraíso e que mostrei a Adão antes do seu pecado..."
A Jerusalém celeste acendeu a inspiração de todos os profetas hebreus: Tobias, Isaías, Ezequiel, etc. Para mostrar-lhe a cidade de Jerusalém, Deus transporta Ezequiel em um sonho estático e o leva a uma montanha muito elevada.
E os Oráculos sibilinos conservam a lembrança da Nova Jerusalém, no centro da qual resplandece "um templo com uma torre gigantesca que loca as nuvens e todos vêem". A mais bela descrição, porém, da Jerusalém celestial se encontra no Apocalipse: (Diz João) "Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu de junto de Deus, adornada como uma esposa ataviada para o seu esposo"
Mircea Eliade, O mito do eterno retorno (1951)
PROVÉRBIOS E CANTARES
XXI
Ontem eu sonhei que via a Deus
e que a Deus falava;
e sonhei que Deus me ouvia...
Depois sonhei que sonhava.
XLVI
A noite sonhei que ouvia a Deus,
gritando-me: Alerta!
Logo era Deus quem dormia e eu gritava:
Desperta!
Antônio Machado
ETCETERA
O sonho é o grão de trigo que sonha com a espiga, o antropóide que sonha com o homem, o homem que sonha com o que virá.
Raymond de Becker
A VOZ NO QUE SONHA
Eunápio narrou com muita imaginação uma suposta vida de Jâmblico de Caleis (c. 250-c. 325). Sabemos que foi discípulo de Porfírio, que o distinguiu; sabemos que foi mestre de neoplatonismo na Síria, onde juntamente com ele estudaram Teodoro de Asine, Dessipo, Sópatro, Eufrásio, Edésio, Eustácio. Sua obra fundamental foi um vasto comentário sobre a doutrina pitagórica, em dez livros dos quais conservamos cinco. Em sua minuciosa Biblioteca, Focio informa sobre a estranha derivação que Jâmblico imprimiu ao neoplatonismo: munido de traduções caldéias, inclinou-se para uma salvação através dos ritos, propugnou um misticismo mágico e enredou a salvação das almas em uma suspeitosa subestimação da sabedoria. Propôs-se a encabeçar uma forte reação místico-mágica contra a difusão do cristianismo, e chamou-se a si mesmo de "Novo Asclépio". De seus sonhos de redenção, nada ficou de pé; porém em De mysteriis aegipto-rum (se é que esta obra verdadeiramente lhe pertence) observou que no homem ocorrem os sonhos "divinos" em um estado intermediário entre o sono e a vigília, e que é por isso que se pode ouvir a voz de quem sonha: essa voz que se torna misteriosa (que se distorce), como estranhas se tornam as imagens percebidas.
Rodericus Bartius, Los que son números y los que no lo son
O SONHO DE D'ALAMBERT
É a segunda das três partes de um diálogo que escreveu Denis Diderot (1713-1784), e que ficou inédito até sua publicação em 1830. As três partes são: Entretien entre D'Alambert et Diderot, Rêve de D'Alambert e Suite de Ventretien. D'Alambert abre o diálogo com uma profissão de deísmo e manifesta sua fé em um ser supremo; Diderot lhe responde que toda a diferença tradicional entre os três reinos da natureza é arbitrária e insustentável: na natureza somente podemos distinguir empiricamente entre uma sensibilidade inerte e uma ativa, pois a sensibilidade é própria da matéria e inseparável dela. Não há lugar para o livre arbítrio. A única diferença entre as ciências "rigorosas" (a física, a matemática) e as "conjeturais" (a história, a moral, a política) é que das primeiras podemos obter uma segurança normal para nossas provisões, e das segundas seguranças relativas, pois se conhecêssemos todos os elementos e as forças em jogo, seríamos como a divindade. D'Alamberi alude ao celicismo como refúgio, porém Diderot lhe demonstra que ninguém pode, racionalmente, declarar-se cético. D'Alambert retorna a sua casa e é presa de vários pesadelos: a senhorita Espinasse anota as palavras do sonhador, que o doutor Bordeau (a quem mandaram chamar) examina as notas e se diverte adivinhando a continuação do sonho (ou das palavras). D'Alambert acorda e a senhorita Espinasse e o doutor dialogam sobre o homem, conjunto de microrganismo temporariamente associados sob a dependência do sistema nervoso central. Fazem-se previsões que a ciência do nosso tempo corrobora. O doutor se lança a um exame rigoroso sobre a eliminação de toda a idéia sobre livre arbítrio, responsabilidade, mérito ou demérito, virtude e vício. São simples estados fisiológicos particulares, e não se pode falar de atos "contra natura" porque tudo é natureza. Neste ponto, o doutor (que sustenta as idéias de Diderot) desconcerta-se pelas simples conseqüências de seu raciocínio e suspende o diálogo.
Eus stáq quio W Wil lde, Li it te er ra atura france es sa ( (1884)
O SONHO
Murray sonhou um sonho.
A psicologia vacila quando tenta explicar as aventuras do nosso eu imaterial em suas andanças pela região do sonho, "gêmeo da morte". Este relato não quer ser explicativo: limitar-se-á a registrar o sonho de Murray.
Uma das fases mais enigmáticas dessa vigília do sonho, é que, acontecimentos que parecem abarcar meses ou anos, ocorrem em minutos ou instantes.
Murray aguardava a morte cm sua cela de condenado. Um foco elétrico no teto baixo do corredor iluminava sua mesa. Em uma folha de papel branco uma formiga corria de um lado para outro e Murray bloqueou-lhe o caminho com um envelope. A eletrocução teria lugar às nove da noite. Murray sorriu diante da agitação do mais sábio dos insetos.
No pavilhão havia sete condenados à morte. Desde que estava ali, três já tinham sido conduzidos: um, enlouquecido e brigando como um lobo preso em uma armadilha; outro, não menos louco, ofertando ao céu uma devoção hipócrita; e o terceiro, um covarde, desmaiou e tiveram que amarrá-lo a uma tábua. Perguntou-se como responderiam por ele seu coração, suas pernas e sua cara; porque era esta a sua noite. Pensou que já eram quase nove horas.
No outro lado do corredor, na cela em frente, estava encarcerado Carpani, o siciliano que havia matado sua noiva e dois policiais que foram prendê-lo. Muitas vezes, de cela a cela, haviam jogado damas, gritando cada um a jogada para o seu parceiro invisível.
Uma grande voz retumbante, de indestrutível qualidade musical, chamou:
— Então, senhor Murray. Como se sente? Bem?
— Muito bem, Carpani — disse Murray serenamente, deixando que a formiga pousasse sobre o envelope e depositando-a com suavidade no chão de pedra.
— £ assim que eu gosto, senhor Murray. Homens como nós têm que saber morrer como homens. Na semana que vem é a minha vez. É assim que eu gosto. Lembre-se, senhor Murray, que eu ganhei a última partida de clamas. Talvez voltemos a jogar outra vez.
A estóica pilhéria de Carpani, seguida de uma gargalhada ensurdecedora, deu novo alento a Murray; é verdade que Carpani tinha ainda uma semana de vida.
Os encarcerados ouviram o ruído seco dos ferrolhos ao abrir-se a porta no extremo do corredor. Três homens avançaram até a cela de Murray e abriram-na. Dois eram guardas; o outro era Frank — mio, isto era antes, agora ele se chamava reverendo Francisco Winston —, amigo e vizinho em seus anos de miséria.
— Consegui que me deixassem substituir o capelão da prisão — disse, ao apertar a mão de Murray. Na mão esquerda tinha uma pequena Bíblia entreaberta.
Murray sorriu levemente e arrumou uns livros e uma lapiseira na mesa. Teria gostado de falar, mas não sabia o que dizer. Os presos davam o nome de Rua do Limbo a este pavilhão de vinte e três metros de comprimento por nove de largura. O guardião habitual da Rua do Limbo, um homem imenso, rude e bondoso, tirou do bolso um frasco de uísque e ofereceu a Murray dizendo:
— É costume, você sabe. Todos bebem para tomar ânimo. Não há perigo de se viciarem.
Murray sorveu um grande gole.
— É assim que eu gosto — disse o guardião. Um bom calmante e tudo sairá bem.
Saíram para o corredor e os condenados o souberam. A Rua do Limbo é um mundo fora do mundo, e se lhe falta algum dos sentidos, o substitui por outro. Todos os condenados sabiam que eram quase as nove, e que Murray iria para a cadeira às nove. Há também, nas muitas Ruas do Limbo, uma hierarquia do crime. O homem que mata abertamente, na paixão da luta, menospreza a ratazana humana, a aranha, a serpente. Por isso, dos sete condenados somente três gritaram suas despedidas a Murray, quando este se afastou pelo corredor entre as sentinelas: Carpani; Marvin, que ao tentar uma evasão havia assassinado um guarda; e Basset, o ladrão que teve que matar porque um inspetor, num trem, se recusou a levantar as mãos. Os outros quatro guardavam um humilde silêncio.
Murray se maravilhava com sua própria serenidade e quase indiferença. Na sala das execuções havia uns vinte homens, empregados da cadeia, jornalistas e curiosos que...
Neste momento, no meio de uma frase, o sonho foi interrompido pela morte de O. Henry. Sabemos, contudo, o final: Murray, acusado e condenado pelo assassinato de sua amada, enfrenta seu destino com inexplicável serenidade. Conduzem-no à cadeira elétrica. Amarram-no. Imediatamente a câmara, os espectadores, os preparativos da execução lhe parecem irreais. Pensa que é vítima de um erro terrível. Por que o prenderam nesta cadeira? Que fez ele? Que crime cometeu? Acorda: ao seu lado estão sua mulher e seu filho. Compreende que o assassinato, o processo, a sentença de morte, a cadeira elétrica, são um sonho. Ainda trêmulo, beija o rosto da mulher. Nesse momento o eletrocutam.
A execução interrompe o sonho de Murray.
O. Henry
O SONHO DE MACÁRIO
Sonhou São Macário que caminhava pelo deserto quando encontrou uma caveira, e que tocou-a com seu báculo. Pareceu-lhe que ela se queixava e ele perguntou quem era. "Eu era um dos sacerdotes idolatras que habitavam este lugar; tu és o abade Macário", Acrescentou que cada vez que Macário rezava pelos condenados, estes experimentavam algum consolo; todos estavam mergulhados e enterrados num fogo infernal com fundura semelhante à distância que vai do céu à terra, e não podiam ver-se; porém quando algum piedoso se lembrava deles, conseguiam vislumbrar-se vagamente, e o horrendo espetáculo fazia com que se sentissem menos sós.
Vidas dos Padres Eremitas do Oriente