Livro dos Sonhos
O Dom Esclarecido
De toda a memória somente vale
o dom esclarecido de evocar os sonhos.
Antônio Machado
CAEDMON
Caedmon deve sua fama, que perdurará, a razões alheias ao gozo estético. A gesta de Beowulf é anônima; Caedmon, em contrapartida, é o primeiro poeta anglo-saxão, por conseguinte inglês, cujo nome foi conservado. No Êxodo e nas Linhagens dos Apóstolos, a nomenclatura é cristã, porém o sentimento é gentio; Caedmon é o primeiro poeta saxão de espírito cristão. A estas razões, deve-se acrescentar a curiosa história de Caedmon, tal como a ela se refere Beda o Venerável no quarto livro de sua História Eclesiástica:
"No mosteiro desta abadia (a abadia Hild de Streoneshalh) houve um irmão honrado pela graça divina, porque costumava compor canções que levavam à piedade e à religião. Tudo o quanto aprendia de homens versando nas sagradas escrituras, vertia em linguagem poética com a maior doçura e fervor. Muitos, na Inglaterra, o imitaram na composição de cantos religiosos. O exercício do canto não lhe tinha sido ensinado pelos homens ou por meios humanos; havia recebido ajuda divina e sua faculdade de cantar derivava diretamente de Deus. Por isso não compôs canções fingidas ou ociosas. Este homem havia vivido no mundo até alcançar uma idade avançada, e não tinha sabido nada de versos Costumava participar de festas nas quais se havia decidido que, a fim de que se incentivasse alegria, todos cantariam, uns depois dos outros, acompanhando-se com harpa, e cada vez que as harpas se aproximavam dele, Caedmon se erguia envergonhado e voltava para casa. Uma vez- abandonou o local da festa e foi para os estábulos, porque lhe haviam recomendado cuidar dos cavalos naquela noite. Dormiu, e em sonho viu um homem que lhe ordenava: "Caedmon, canta-me alguma coisa". Caedmon respondeu dizendo: "Não sei cantar e por isto deixei a festa e vim deitar-me". O que lhe havia falado disse: "Cântaras". Caedmon replicou então: "Que posso eu cantar?". A resposta foi: "Canta-me a origem de todas as coisas". E Caedmon cantou versos e palavras que não havia escutado nunca, nesta ordem: "Louvemos agora o guardião do reino celestial, o poder do Criador e o conselho de sua mente, as obras do glorioso Pai; como Ele, Deus eterno, originou cada maravilha. Fez primeiro o céu como teto para os filhos da terra; depois fez, todo-poderoso, a terra, para dar um solo aos homens". Ao despertar, guardava de memória tudo o que havia cantado no sonho. A estas palavras acrescentou muitas outras, no mesmo estilo, dignas de Deus.
Beda conta que a abadia dispôs que os religiosos examinassem a nova capacidade de Caedmon, e, uma vez demonstrado que o dom poético lhe havia sido conferido por Deus, instou-o a entrar na comunidade. "Cantou a criação do mundo, a origem do homem, toda a história de Israel, o êxodo do Egito e a entrada na terra prometida, a encarnação, paixão e ressurreição de Cristo, sua ascenção ao céu, a chegada do Espírito Santo e o ensino dos apóstolos. Cantou também o terror do juízo final, os horrores do inferno e as bem-aventuranças do céu". O historiador agrega que Caedmon, anos depois, profetizou a hora em que iria morrer, e esperou-a dormindo. Deus, ou o anjo de Deus, o havia ensinado a cantar; esperemos que tenha voltado a encontrar-se com seu anjo.
Jorge Luís Borges
CONVÉM DISTINGUIR
Por que comparas teu mandado interior com um sonho? Ele te parece, por acaso, absurdo, incoerente, inevitável, irrepetível, origem de alegrias ou terrores infundados, incomunicável em sua totalidade, porém ansioso de ser comunicado, como são precisamente os sonhos?
Franz Kafka, Quarto caderno in oitavo
A ÚLTIMA VISITA DO CAVALEIRO
ENFERMO
Todos o chamavam de Cavaleiro Negro, porém ninguém jamais soube seu verdadeiro nome. Depois de seu inopinado desaparecimento, dele não restou nada mais do que a lembrança de seus sorrisos e um retrato pintado por Sebastiano del Piombo que o representava envolvido em uma peliça e com uma das mãos enluvada pendendo suavemente como se estivesse adormecido. Alguns dos que mais ò estimaram (e eu, um dos poucos entre eles) recordam sua cútis amarelo pálido, transparente, a leveza quase feminina de seus passos e a habitual languidez dos olhos.
Na verdade, era um semeador de assombros. Sua presença dava um calor fantástico às coisas mais simples; quando sua mão tocava algum objeto, parecia que este entrava no mundo dos sonhos... Ninguém lhe perguntou qual era o seu mal e porque não se cuidava. Caminhava sempre, sem parar, dia e noite. Ninguém soube jamais onde era sua casa ou conheceu seus pais e seus irmãos. Apareceu um dia na cidade, e passados alguns anos, em outro dia, desapareceu.
Na véspera, quando o céu começava a iluminar-se, veio ao meu quarto despertar-me. Senti a carícia de sua luva em minha fronte, e o vi, com seu sorriso que mais parecia a lembrança de um sorriso, tendo os olhos mais distraídos do que de costume. Compreendi que havia passado a noite em claro, aguardando com ansiedade o amanhecer: tremiam-lhe as mãos e todo seu corpo parecia tomado pela febre.
Perguntei a ele se sua doença o fazia sofrer mais do que nos outros dias.
— Crês então, como todos os outros, que eu tenho uma enfermidade? Por que não dizer que eu sou uma enfermidade? Nada me pertence, porém eu sou de alguém e há alguém a quem pertenço.
Acostumado as suas estranhas digressões, nada disse. Acercou-se de minha cama e tocou-me outra vez a fronte com sua luva.
— Não tens o menor sinal de febre e estás perfeitamente são e tranqüilo. Talvez isto te espante, mas posso dizer quem sou. E talvez não possa voltar a repeti-lo.
Deixou-se cair em uma poltrona e prosseguiu em voz mais alta:
— Não sou um homem real, com ossos e músculos, gerado por homens. Não sou mais do que a figura de um sonho. Há uma imagem de Shakespeare que é, com referência a mim, literal e tragicamente exata: Sou feito da mesma matéria de que são feitos os sonhos! Existo porque há alguém que me sonha; há alguém que dorme e sonha e me vê agir e viver e mover-me, e neste momento sonha que eu digo tudo isto. Quando começou a sonhar-me, comecei a existir: hoje sou hóspede de suas grandes fantasias noturnas, tão intensas que me tornaram visível àqueles que estão acordados. O mundo da vigília, porém, não é o meu. Minha verdadeira vida é a que transcorre na alma do meu adormecido criador. Não recorro a enigmas nem a símbolos; o que digo é verdade. Ser ator de um sonho não é o que mais me atormenta. Há poetas que disseram que a vida dos homens é a sombra de um sonho e há filósofos que sugeriram que a realidade é uma alucinação. Porém, quem é aquele que me sonha? Quem é este ser que me fez surgir e que ao despertar me apagará? Quantas vezes penso nesse meu dono que dorme!... A pergunta me agita desde que descobri de que estou feito.
Compreenderás a importância que este problema tem para mim. As personagens dos sonhos desfrutam de bastante liberdade; tenho também os meus caprichos. A princípio, me aterrorizava a idéia de despertá-lo, quer dizer, de aniquilar-me. Levei uma vida virtuosa. Até que me cansei da humilhante qualidade de espetáculo e desejei ardentemente o que antes temia: despertá-lo. E não deixei de cometer delitos. Porém aquele que me sonha, não se espantará com o que faz tremer os demais homens? Regozija-se com as visões terríveis, ou não lhes dá importância? Nesta monótona ficção, digo ao meu sonhador que sou um sonho: quero que ele sonhe que está sonhando. Não existem homens que acordam quando se dão conta de que estão sonhando? Quando, quando conseguirei isso?
O Cavaleiro Enfermo colocava e tirava a luva da mão esquerda; não sei se esperava que, de um momento para outro, algo de atroz acontecesse.
— Acreditas que eu esteja mentindo? Por que eu não posso desaparecer? Console-me; diga algo, tenha piedade deste aborrecido espectro.
Não atinei dizer coisa alguma. Deu-me sua mão, parecendo-se mais alto do que antes, e sua pele era diáfana. Disse algo em voz baixa, saiu do meu quarto, e desde então somente uma pessoa pode vê-lo.
Giovanni Papini, O trágico cotidiano (1906)
CONFÚCIO SONHA SUA MORTE
Por último, a lassitude o invadiu. Tinha já 73 anos, era verão (de 479 a.C.) e tinha compreendido muito bem o significado de seu sonho. Pediu que avisassem a Tse-kong, o último de seus grandes discípulos. Tse-kong atendeu prontamente, e achou que Krong-tse, mais do que recebê-lo, dele se despedia.
O mestre lhe disse:
— Sonhei que estava sentado, recebendo as libações. Encontrava-me entre duas colunas. Aqueles que eram da dinastia Sia, como se ainda reinassem no palácio, expunham seus mortos sobre a escadaria oriental; os da dinastia Tcheu os expunham sobre a escadaria ocidental, aquela que se oferece aos hóspedes; e os da dinastia In expunham-nos entre as duas colunas — não havia ali nem donos nem hóspedes. Descendo dos soberanos In; sem dúvida, vou morrer. É bom que assim seja, pois já não há nenhum príncipe inteligente que possa servir-se de mim.
Poucos dias depois morreu, no décimo sexto ano de Ngae-kong de Lux, quadragésimo primeiro de Tsing-oang dos Tcheu.
Eustáquio Wilde, Um outono em Pequim
A CORÇA BRANCA
De que agreste balada da verde Inglaterra,
De que lâmina persa, que região arcana,
Das noites e dias que o nosso ontem encerra,
Veio a corça branca com que sonhei esta manhã?
Duraria um segundo.
Vi-a cruzar o prado
E perder-se no ouro de uma tarde ilusória,
Leve criatura feita de um pouco de memória
E de um pouco de olvido, corça de um só lado.
As deiades que regem este curioso mundo
Deixaram-me sonhar-te, porém não ser teu dono;
Talvez numa esquina do porvir profundo
Volte a encontrar-te, corça branca de um sonho.
Também eu sou um sonho lúcido que perdura
Um pouco mais que o sonho do prado e da brancura.
Jorge Luis Borges
COSTUMA ACONTECER
Meu filho estava chorando a minha morte. Podia vê-lo reclinado sobre meu féretro. Queria correr para dizer-lhe que não era verdade, que se tratava de outra pessoa, talvez absolutamente semelhante, mas não pedia por causa do crocodilo. Estava ele ali em frente, no buraco, pronto para engolir-me, e eu gritava com todas as minhas forças; e os que me velavam, em vez de avisar meu filho, olhavam-me com ar de censura, talvez porque açulavam a fera e temiam serem atacados eles mesmos. Clide era o único que nem me via, nem me ouvia. O homem da funerária quando chegou com uma caixa, parecia um violinista, porém dela tirou um maçarico. Se fosse certo, tudo estaria perdido, pensei; me enterrariam vivo e eu não poderia explicar nada. Os vizinhos quiseram afastar meu filho, por ser aquele o momento mais penoso, mas ele se agarrava no caixão. O homem começou a soldar a tampa pelo lado dos pés, e eu não agüentei mais: fechei os olhos e corri para a vala sem importar-me com uma morte segura. Depois disso só me lembro de um golpe na ponta do queixo, algo como um raspão da pele contra um fio. Talvez o roçado contra um dos dentes. Quando senti o calor da solda, acordei e comprendi tudo. Clide tinha razão: eu estava morto. A mesma sala, a mesma gente. Meu pobre filho continuava ali. O maçarico roncava na altura da barriga da perna. O empregado levantou a extremidade livre da tampa, tirou o lenço e enxugou o sangue da minha ferida. "Isto costuma acontecer", — disse ele — "por causa do maçarico".
Jorge Alberto Ferrando, Paio a pique (1975)
SEM RECLAMAÇÕES
Deus não castiga ninguém sem ter avisado antes.
Orígenes
SONHO DA PÁTRIA
Desde que deixei de me ocupar, durante a vigília, da fantasia e suas habituais possibilidades representativas, seus artesãos se agitam autônomos nos meus sonhos: e com uma razão aparente e uma aparente conseqüência, armam uma pitoresca algaravia. Tal como me havia previsto o mestre louco e instruído, vi em sonhos a cidade nativa, aldeia maravilhosamente transformada e transfigurada, porém não pude penetrar nela. E quando consegui fazê-lo, despertei com sensações desfavoráveis. Voltei ao sono e aos sonhos. Aproximei-me da casa paterna por caminhos sinuosos que flanqueavam rios atapetados de rosais. Na margem, um camponês lavrara a terra com um arado dourado puxado por dois bois brancos. Os sulcos se enchiam de grãos que o camponês lançava ao ar e caíam sobre mim como uma chuva de ouro.
Gottfried Keller,
Henrique o verde
SONHA O FIDALGO DA TORRE
I
Mas Gonçalo, que abominava aquela lenda, a silenciosa figura degolada, errando por noites de inverno entre as ameias da Torre com a cabeça nas mãos — despegou da varanda, deteve a Crônica imensa:
— Toca a deitar, ó Videirinha, hein? Passa das três horas, é um horror. Olhe! O Titó e o Gouveia jantam cá na Torre, no Domingo. Apareça também, com o violão e cantiga nova; mas menos sinistra...
Atirou o charuto, fechou a vidraça da sala — a "sala velha", toda revestida desses denegridos e tristonhos retratos de Ramires que ele desde pequeno chamava as carantonhas dos avós. E, atravessando o corredor, ainda sentia rolarem ao longe, no silêncio dos campos cobertos de luar, façanhas rimadas dos seus:
Ai! lá na grande batalha...
El-Rei Dom Sebastião.. .
O mais moço dos Ramires
Que era pagem do guião...
Despido, soprada a vela, depois de um rápido sinal da cruz, o Fidalgo da Torre adormeceu. Mas no quarto, que se povoou de sombras, começou para ele uma noite revolta e pavorosa. André Cavaleiro c João Gouveia romperam pela parede, revestidos de cotas de malha, montados em horrendas tainhas assadas! E lentamente, piscando o olho mau, arremessavam contra o seu pobre estômago pontoadas de lança, que o faziam gemer e estorcer sobre o leito de pau preto. Depois era, na Calçadinha de Vila-Clara, o medonho Ramires morto, com a ossada a ranger dentro da armadura, e El-Rei Dom Afonso II, arreganhando afiados dentes de lobo, que o arrastavam furiosamente para a batalha das Navas. Ele resistia, fincando nas lajes, gritando pela Rosa, por Gracinha, pelo Titó! Mas D. Afonso tão rijo murro lhe despedia nos rins, com o guante de ferro, que o arremessava desde a Hospedaria do Gago até a Serra Morena, ao campo da lide, luzente e fremente de pendões e de armas. E imediatamente seu primo d'Espanha, Gomes Ramires, Mestre, de Calatrava, debruçado do negro ginete, lhe arrancava os derradeiros cabelos, entre a retumbante galhofa de toda a hoste sarracena e os prantos da tia Louredo trazida como um andor aos ombros de quatro Reis!... — Por fim, moído, sem sossego, já com a madrugada clareando nas fendas das janelas e as andorinhas piando no beirai dos telhados, o Fidalgo da Torre atirou um verdadeiro repelão aos lençóis, saltou ao assoalho, abriu a vidraça — e respirou deliciosamente o silêncio, a frescura, a verdura, o repouso da quinta. Mas que sede! uma sede desesperada que lhe encortiçava os lábios! Recordou então o famoso fruit salt que lhe recomendara o Dr. Mattos, arrebatou o frasco, correu à sala de jantar em camisa. E, a arquejar, deitou duas colheradas num copo d'água da Bica-Velha, que esvaziou dum trago, na fervura picante.
— Ah, que consolo, que rico consolo!. . .
Voltou derreadamente à cama: e readormeceu logo, muito longe, sobre as relvas profundas d'um prado de África, debaixo de coqueiros sussurrantes, entre o apimentado aroma de radiosas flores que brotavam através de pedregulhos de ouro. Dessa perfeita beatitude o arrancou o Bento, ao meio-dia, inquieto com "aquele tardar do Sr. Doutor".
— É que passei uma noite horrenda, Bento: Pesadelos, pavores, bulhas, esqueletos... Foram os malditos ovos com chouriço; e o pepino... Sobretudo o pepino! Uma idéia daquele animal do Titó. . . Depois, de madrugada, tomei o tal fruit salt, e estou ótimo, homem!... Estou otíssimo! Até me sinto capaz de trabalhar. Leva para a livraria uma chávena de chá verde, muito forte. . . Leva também torradas.
II
Os pensamentos de Gonçalo esvoaçaram logo, com irresistida tentação, para D. Ana — para os seus decotes, para os languidos banhos em que se esquecia lendo o jornal. Por fim, que diabo!. . . Essa D. Ana assim tão honesta, tão perfumada, tão esplendidamente bela, só apresentava, mesmo como esposa, um feio senão — o papá carniceiro. E a voz também — a voz que tanto o arrepiara na Bica-Santa. . . Mas o Mendonça assegurava que aquele timbre rolante e gordo, na intimidade, se abatia, liso e quase doce. .. Depois, meses de convivência habituam as vozes mais desagradáveis — e ele mesmo, agora, nem percebia quanto o Manuel Duarte era fanhoso! Não! mancha teimosa, realmente, só o pai carniceiro. Mas nesta Humanidade nascida toda d'um homem só, quem, entre os seus milhares de avós até Adão, não tem algum avô carniceiro? Ele, bom fidalgo, de uma casa de Reis de onde Dinastias irradiavam, certamente, escarafunchando o passado, toparia com o Ramires carniceiro. E que o carniceiro avultasse logo na primeira geração, cm um talho ainda afreguesado, ou que apenas se esfumasse, através de espessos séculos, entre os trigésimos avós — lá estava, com a faca, e o cepo, e as postas de carne, e as nódoas de sangue no braço suado!
E este pensamento não o abandonou até a Torre — nem ainda depois, à janela do quarto, acabando o charuto, escutando o cantar dos gaios. Já mesmo se deitara, e as pestanas lhe adormeciam, e ainda sentia que os seus passos impacientes se embrenhavam para trás, para o escuro passado da sua Casa, por entre a emaranhada História, procurando o carniceiro... Era já para além dos confins do Império Visigodo, onde reinava com um globo de ouro na mão o seu barbudo avô Recesvinto. Esfalfado, arquejando, transpusera as cidades cultas, povoadas de homens cultos — penetrara nas florestas que o mastodonte ainda sulcava. Entre a úmida espessura já cruzara vagos Ramires, que carregavam, grunhindo, reses mortas, molhos de lenha. Outros surdiam de tocas fumarentas, arreganhando agudos dentes esverdeados para sorrir ao neto que passava. Depois, por tristes ermos, sob tristes silêncios, chegara a uma lagoa enevoada. E à beira da água limosa, entre os canaviais, um homem monstruoso, peludo como uma fera, agachado no lodo, partia a rijos golpes, com um machado de pedra, postas de carne humana. Era um Ramires. No céu cinzento voava o Açor negro. E logo, dentre a neblina da lagoa, ele acenanava para Santa Maria de Craquede, para a formosa e perfumada D. Ana, bradando por cima dos Impérios e dos Tempos: — "Achei o meu avô carniceiro!"
III
Gonçalo remoeu a amarga certeza de que sempre, através de toda a sua vida (quase desde o colégio de S. Filipe!) não cessara de padecer humilhações. E todas lhe resultavam de intentos muito simples, tão seguros para qualquer homem como o vôo para qualquer ave —só para ele constantemente rematados por dor, vergonha ou perda! À entrada da vida escolhe com entusiasmo um confidente, um irmão, que trás para a quieta intimidade da Torre — e logo esse homem se apodera ligeiramente do coração de Gracinha e ultrajosamente a abandona! Depois concebe o desejo tão corrente de penetrar na Vida Política — e logo o Acaso o força a que se renda e se acolha à influência desse mesmo homem, agora Autoridade poderosa, por ele durante todos esses anos de despeito tão detestada e chasqueada! Depois abre ao amigo, agora restabelecido na sua convivência, a porta dos Cunhaes, confiado na seriedade, no rígido orgulho da irmã — e logo a irmã se abandona ao antigo enganador, sem luta, na primeira tarde em que se encontra com ele na sombra favorável de um caramanchão! Agora pensa em casar com uma mulher que lhe oferecia com uma grande beleza uma grande fortuna — e imediatamente um companheiro de Vila-Clara passa e segreda: — "A mulher que escolheste, Gonçalinho, é uma marafona cheia de amantes!" De certo essa mulher não o amava com um amor nobre e forte! Mas decidira acomodar nos formosos braços dela, muito confortavelmente, a sua sorte insegura — e eis que logo desaba, com esmagadora pontualidade, a humilhação costumada. Realmente o Destino malhava sobre ele com um rancor desmedido!
— E por quê? murmurava Gonçalo, despindo melancolicamente o casaco. Em vida tão curta, tanta decepção ... Por quê? Pobre de mim!
Caiu no vasto leito como em uma sepultura — enterrou a face no travesseiro com um suspiro, um enternecido suspiro de piedade por aquela sua sorte tão contrariada, tão sem socorro. E recordava o presunçoso verso do Videirinha, ainda nessa noite proclamado ao violão:
Velha casa de Ramires
Honra e flor de Portugal!
Como a flor murchara! Que mesquinha honra! E que contraste o do derradeiro Gonçalo, encolhido no seu buraco de Santa Irenéia, com esses grandes avós Ramires cantados pelo Videirinha — todos eles, se História e Lenda não mentiam, de vidas triunfais e sonoras! Não! nem sequer deles herdara a qualidade por todos herdada através dos tempos, a valentia fácil. Seu pai ainda fora o bom Ramires destemido — que na falada desordem da romaria da Riosa avançava com um guarda-sol contra três clavinas engatilhadas. Mas ele... Ali, no segredo do quarto apagado, bem o podia livremente gemer — ele nascera com a falha, a falha de pior desdouro, essa irremediável fraqueza da carne que, irremediavelmente, diante de um perigo, uma ameaça, uma sombra, o forçava a recuar, a fugir. .. A fugir de um Casco. A fugir de uma malandro de suíças louras que numa estrada e depois numa venda o insulta sem motivo, para meramente ostentar pimponice e arreganho.
E a Alma. . . Nessa calada treva do quarto bem o podia reconhecer também, gemendo. A mesma fraqueza lhe tolhia a Alma! Era essa fraqueza que o abandonava a qualquer influência, logo por ela levado como folha seca por qualquer sopro. Por que a prima Maria uma tarde adoça os espertos olhos e lhe aconselha por trás do leque que se interesse pela D. Ana — logo ele, fumegando de esperança, ergue sobre o dinheiro e a beleza de D. Ana uma presunçosa torre de ventura e luxo. E a Eleição? Essa desgraçada Eleição? Quem o empurrara para a Eleição, e para a reconciliação indecente com o Cavaleiro, e para os desgostos daí emanados? Gouveia! Com leves argúcias, murmuradas pela rua. Mas quê! Se mesmo dentro da sua Torre era governado pelo Bento, que superiormente lhe impunha gostos, dietas, passeios, e opiniões e gravatas! A um homem assim, por mais bem dotado na Inteligência, é massa inerte a que o mundo constantemente imprime formas várias e contrárias.
Enterrou-se sob a roupa. Batiam as quatro horas. Através das pálpebras cerradas, percebeu faces antigas, com desusadas barbas ancestrais e ferozes cicatrizes, que sorriam no fragor de uma batalha ou na pompa de uma gala, dilatadas pelo uso soberbo de mandar e vencer. E Gonçalo, espreitando por sobre a borda do lençol, reconhecia os velhos Ramires.
Os robustíssimos corpos emergiam cobertos de saios de malha ferrugenta, por arneses de aço, clavas godas eriçadas de pontas e espadins de baile.
Das suas tumbas dispersas seus avós acudiam à casa nove vezes secular — para reunir Assembléia majestosa da sua raça ressurgida... E até mesmo reconhecia alguns dos mais esforçados, que agora, com o repassar constante do Poemeto do tio Duarte e o Videirinha gemendo fielmente o seu "fado", lhe andavam sempre na imaginação. ..
O de brial branco e cruz vermelha era Gutierres Ramires o d'Ultramar, que correu ao assalto de Jerusalém; o velho Egas Ramires, negava acolhida no seu puro solar a El-Rei D. Fernando e à adúltera Leonor! Esse, de crespa barba ruiva, que cantava sacudindo o pendão real de Castela, quem, senão Diogo Ramires, o Trovador, na alegria da radiosa manhã d'Aljubarrota? Diante da incerta claridade do espelho tremiam as fofas plumas escarlates do morrião de Paio Ramires que se armava para salvar S. Luís, Rei de França. Ruy Ramires sorria às naus inglesas que fugiam da sua Capitania pelo mar português. Paulo Ramires, pajem do Guião d'El Rey nos campos fatais de Alcácer, sem elmo, rota a couraça, inclinava para ele a sua face de donzel, com a doçura grave de um avô enternecido...
Gonçalo sentiu que a sua ascendência toda o amava e que acudia a socorrê-lo na sua debilidade, e que o alcançava a espada que combatera em Ourique, a acha que derrubara as portas de Arcilla. "Ó avós, de que me servem as vossas armas — se me falta a vossa alma?...
Acordou muito cedo, confuso, e abriu as vidraças à manhã. Bento desejou saber se o Sr. Doutor passara mal a noite...
— Pessimamente!...
Eça de Queiroz, A ilustre casa de Ramires (1900)
CORTESIA
Sonhei que o cervo ileso pedia perdão ao caçador frustrado.
Nemer Ibn El Barud
DER TRAUM E1 8 1 N N L L E E B B E E N N 8
O diálogo, ocorreu em Androgué. Meu sobrinho Miguel, que tinha cinco ou seis anos, estava sentado no chão, brincando com a gata. Como faço todas as manhãs, lhe perguntei:
— Que sonhaste esta noite? Respondeu-me:
— Sonhei que me havia perdido numa floresta e finalmente encontrei uma casinha. Abriu-se a porta e você saiu.
E com súbita curiosidade me perguntou:
— Diz pra mim. O que é que você estava fazendo nessa casinha?
Francisco Acevedo, Memórias
de un bibliotecário (1955)
ULRICA
Hana tekr sverthit Gram ok leggr i
methal theira bert
Volsunga Saga, 27 9
O meu relato será fiel à realidade ou, em todo caso, à minha lembrança pessoal da realidade, o que afinal dá no mesmo. Os fatos ocorreram faz pouco tempo, porém sei que o hábito literário é, do mesmo modo, o hábito de intercalar traços circunstanciais e de acentuar as ênfases. Quero narrar o meu encontro com Ulrica (não
8 O sonho de uma vida. (N. do T.).
9 Arrebatou a espada a Gram e colocou-se entre os contendores (islandês arcaico). (N. do T.). soube seu sobrenome e talvez jamais venha a sabê-lo) na cidade de York. A crônica abarcará uma noite e uma manhã.
Não me custaria nada mencionar que a vi pela primeira vez junto às Cinco Irmãs de York, estes vitrais puros das imagens que os iconoclastas de Cromwell respeitaram, mas o fato é que nos conhecemos na saída do Northern Inn, que está do outro lado das muralhas. Éramos poucos e ela estava de costas. Alguém lhe ofereceu um copo e recusou.
— Sou feminista, — disse —. Não quero imitar os homens. Desagradam-me seu tabaco e seu álcool.
A frase queria ser engenhosa e adivinhei que não era a primeira vez que ela a pronunciava. Soube depois que isto não era característica dela, mas o que dizemos nem sempre se parece conosco.
Disse que havia chegado tarde ao museu, mas que a haviam deixado entrar quando souberam que era norueguesa.
Um dos presentes comentou:
— Não é a primeira vez que os noruegueses entram em York.
— Assim é, — disse ela —. A Inglaterra foi nossa e nós a perdemos, se é que alguém pode ter algo ou algo pode perder-se.
Foi então quando a olhei. Uma linha de William Blake fala de moças de prata suave ou de ouro furioso, porém em Ulrica se encontravam o ouro e a suavidade. Era leve e alta, de traços finos e olhos cor de cinza. Menos que seu rosto, impressionou-me esse ar de tranqüilo mistério. Sorria com facilidade e o sorriso parecia distanciá-la. Estava vestida de negro, o que é raro nas terras do Norte, onde se trata de avivar com cores o apagado do ambiente. Falava um inglês nítido e preciso e acentuava levemente os erres. Não sou observador; estas coisas descobri-as pouco a pouco.
Fomos apresentados, e eu lhe disse que era professor da Universidade dos Andes, de Bogotá. Esclareci que era colombiano.
Perguntou-me de modo pensativo:
— O que é ser colombiano?
— Não sei — respondi. É um ato de fé.
— Como ser norueguesa — assentiu.
Nada mais posso lembrar do que se disse essa noite. No dia seguinte desci cedo ao refeitório. Através dos vidros, vi que havia nevado; as campinas se perdiam na manhã. Não havia mais ninguém. Ulrica convidou-me à sua mesa. Disse-me que lhe agradava sair a caminhar sozinha.
— A mim também. Podemos sair juntos os dois.
Afastamo-nos da casa, sobre a neve jovem. Não havia uma só alma nos campos. Propus que fôssemos a Thorgate, que se situa rio abaixo, há poucas milhas. Sei que já estava enamorado de Ulrica; não teria querido ao meu lado nenhuma outra pessoa.
Em seguida ouvi o longínquo uivo de um lobo. Nunca ouvi um lobo uivar, mas sei que era um lobo. Ulrica não se alterou.
Logo disse, como "se pensasse em voz alta:
— As poucas e pobres espadas que vi ontem em York Minster comoveram-me mais do que as grandes naves do museu de Oslo.
Nossos caminhos se cruzavam. Essa tarde, Ulrica prosseguia viagem com destino a Londres, e eu na direção de Edimburgo.
— Em Oxford Street, — disse-me — repetirei os passos de De Quincey, que buscava sua Ana perdida entre as multidões de Londres.
— De Quincey — respondi — deixou de procurá-la. E eu, ao longo do tempo, sigo buscando-a.
— Talvez — disse em voz baixa — a tenhas encontrado.
Compreendi que uma coisa inesperada não me estava proibida e beijei-a na boca e nos olhos. Afastou-me com suave firmeza, dizendo-me em seguida:
— Serei tua na pousada de Thorgate. Entrementes, peço-te que não me toques. É melhor que seja assim.
Para um homem solteiro entrado em anos, o amor oferecido é um dom que já não se espera. O milagre tem direito de impor condições. Pensei em meus tempos de moço em Popayán e em uma garota do Texas, clara e esbelta como Ulrica, que me havia negado seu amor.
Não cometi o erro de perguntar-lhe se me amava. Compreendi que não era o primeiro e que não seria o último. Essa aventura, possivelmente a última para mim, seria uma das muitas para essa resplandecente e decidida discípula de Ibsen.
De mãos dadas seguimos adiante.
— Tudo isto é como um sonho — disse-lhe eu — e eu nunca sonho.
— Como aquele rei — replicou Ulrica — que não sonhou até que um feiticeiro fê-lo dormir em uma pocilga.
E acrescentou depois:
— Ouve bem. Um pássaro vai cantar. Logo em seguida ouvimos o canto.
— Nestas terras — disse eu — acreditam que quem vai morrer pode prever o futuro.
— E eu estou perto de morrer. Olhei-a atônito.
— Cortemos caminho pela floresta — apressei-a —. Chegaremos mais rapidamente a Thorgate.
— A floresta é perigosa — replicou. Seguimos pela campina.
— Eu queria que este momento durasse sempre — murmurei.
— Sempre é uma palavra que não está permitida aos homens — afirmou Ulrica. E para tornar menos enfático o que dizia, pediu-me para repetir meu nome, que não havia ouvido bem.
— Xavier Otárola, lhe disse.
Quis repeti-lo mas não pode. E eu fracassei igualmente com o nome de Ulrikke.
— Vou te chamar Sígurd — declarou com um sorriso.
— Se sou Sigurd — repliquei — tu serás Brynhild. Retardou sua caminhada.
— Conheces a saga? — perguntei.
— Claro — respondeu. A trágica história que os alemães deitaram a perder com seus tardios Nibelungos.
Não quis discutir e respondi:
— Brynhild, tu caminhas como se quisesses que entre nós dois houvesse uma espada na cama.
De repente nos achamos em frente à pousada. Não me surpreendeu que se chamasse, como a outra, Northern Inn.
Do alto da escada, Ulrica gritou-me:
— Ouviste o lobo? Já. não restam lobos na Inglaterra. Apressa-te.
Ao subir o andar alto notei que as paredes estavam forradas de papel à maneira de William Morris, de um vermelho muito profundo, com frutos e pássaros entrelaçados. Ulrica entrou primeiro. O aposento escuro era baixo, com um teto de duas águas. O esperado leito se duplicava num vidro, e o mogno polido me lembrou o espelho da Escritura. Ulrica já se tinha despido. Chamou-me por meu verdadeiro nome, Xavier. Senti que a neve aumentava. Já não havia móveis nem espelhos. Não havia espada entre nós dois. O tempo se escoava como areia. Secular, fluiu na sombra o amor, e eu possuí pela primeira e última vez a imagem de Ulrica.
Jorge Luis Borges
LIVRO TERCEIRO DAS FANTASIAS
DE
GASPAR DA NOITE
A NOI TE E SUAS ILUSÕES
I
A CELA GÓTICA
Nox et solitudo plenae sunt diabolo
Os Padres da Igreja
(De noite, minha cela se enche de diabos.)
Oh, a terra! — murmurava eu de noite. É um cálice perfumado cujo pistilo e estames são a lua e as estrelas!
E com os olhos pesados de sono, fechei a janela que incrustou a negra luz do calvário na auréola amarela dos vidros.
Se ao menos à meia noite, hora brasonada de dragões e diabos, não fosse o gnomo o único a embriagar--se com o óleo da minha lâmpada!
Se não fosse a ama de leite a única a acalentar, com seu monótono canto, na couraça de meu pai, também recém-nascido morto!
Se não fosse o esqueleto do lansquenê emparedado no madeirame o único a chamar com a testa, com o cotovelo e com o joelho!
Porém é Scarbó, que me morde o pescoço e que, para cauterizar minha ferida sangrenta, enfia nela seu dedo de ferro enrubescido nas brasas da chaminé!
II
SCARBÓ
Deus meu, concede-me na hora da morte,
as súplicas de um monge,
uma mortalha de pano,
um ataúde de pinho e em lugar seco.
As ladainhas do senhor Marechal
Morras absolvido ou condenado — murmurava Scarbó esta noite em meu ouvido —, e terás por mortalha uma teia de aranha, e já me encarregarei de amortalhar a aranha contigo.
Com os olhos vermelhos de tanto chorar, respondi: "Dá-me ao menos por mortalha uma folha de álamo, que me traga o hálito do lago".
— Não — respondeu sardônico o anão —: serás pasto do escaravelho que todas as tardes sai a caçar mosquitos deslumbrados pelo sol poente.
— Preferes, pois — repliquei sem deixar de chorar —; preferes que uma tarântula com tromba de elefante me sorva?
— Bem, consola-te — acrescentou —. Terás por mortalha as tiras cravejadas de ouro de uma pele de serpente, nas quais te envolverei como uma múmia.
"E da tenebrosa cripta de São Benigno, onde te deixarei de pé contra a parede, poderás ouvir à vontade como choram as crianças que estão no limbo".
III
O LOUCO
Uni carolus 10 ou,
se preferires, um cordeiro
de ouro.
Manuscritos da Biblioteca do Rei
A Lua penteava seus cabelos com um pente de éba-no, que
10 Moeda antiga.
prateava com uma chuva de vagalumes as colinas, os prados e as florestas.
Scarbó, gnomo que possuía abundantes tesouros, espreitava do meu telhado, enquanto rangia o catavento, ducados e florins que saltavam cadenciadamente, indo as moedas falsas semear o chão da rua.
Como ria o louco que, durante as noites, vaga pela cidade, com um olho posto na lua e o outro — ai! — saltado.
"Maldita seja a Lua!", grunhiu. "Recolherei as moedas do diabo e comprarei uma picota para esquentar-me ao sol". Porém era a Lua, ainda a Lua, a que se escondia. E Scarbó, na cova, continuava cunhando ducados e florins a golpes de balancim.
Enquanto isto, com os chifrinhos em frente, unia lesma procurava caminho em meus vitrais luminosos.
IV
O ANÃO
— Tu a cavalo?
— Por que não? Mais de ama vez galopei em um galgo do laird11
de Linlithgow.
Balada escocesa
Do meu assento, na sombra das cortinas, eu tinha capturado a borboleta furtiva surgida de um raio de luz ou de uma gota de orvalho.
O inseto palpitante, por desprender suas asas cativas em meus
11 Em inglês no texto. Senhor escocês. dedos, pagava-me um resgate de perfumes.
Subitamente, o errante animalzinho se pôs a voar. Em meu colo ficou uma larva monstruosa e disforme com um rosto humano.
— Onde está tua alma? Que estou eu cavalgando? — Minha alma, pequena montaria fustigada pelas fadigas do dia, repousa agora na liteira dourada dos sonhos.
E fugia aterrorizada, minha alma, através da lívida teia de aranha do crepúsculo por cima dos negros horizontes grinaldados de negros campanários góticos.
Porém o anão, pendurado nela em sua fuga relinchante, se enrolava como um fuso nos flocos de sua crina branca.
V
O O CLAR RÃO D DA LUA
Despertai, vós que dormis,
e rogai por aqueles que morreram
Grito do que clama na noite
Oh! Quão doce é, à noite, quando as horas tremem no campanário, olhar a lua com seu nariz igual a um carolus de ouro!
Dois leprosos se queixavam debaixo da minha janela, um cão uivava na pracinha e o grilo da minha chaminé vaticinava em voz baixa, mas não tardou em fazer--se em meus ouvidos um silêncio profundo. Os leprosos voltaram a suas pocilgas, chegando no momento em que Jacquemart batia em sua mulher.
O cão havia saído a correr entre as alabardas da noite embolorada pela chuva e inteiriçada pelo ouriço. '
E o grilo pegou no sono tão logo a última fagulha se apagou entre as cinzas da chaminé.
E pareceu-me — tão incoerente é a febre! — que a Lua, fazendo-me caretas, punha a língua para fora como um enforcado.
Ao sr. Louis Boulanger, pintor.
VI
A RODA SOB O CAMP PA ANÁRIO
Era um maciço casarão, quase quadrado, rodeado de ruínas, e
cuja torre principal, que ainda conservava ò relógio, dominava todo o
bairro.
Fenimore Cooper
Doze mágicos dançavam em roda sob o sino principal de Saint-Jean. Um atrás do outro invocou a tempestade, e desde o fundo do meu leito contei com terror doze vozes que atravessavam as trevas.
Imediatamente a lua correu a esconder-se detrás das nuvens, e uma chuva misturada com relâmpagos e rajadas de vento fustigou minha janela enquanto que os cataventos grasnavam como gralhas na floresta, agüentando a chuvarada.
Saltou a prima do meu alaúde, pendurado no tabique; o pintassilgo sacudiu as asas, em sua gaiola; algum espírito curioso voltou uma página do Roman-de-la-Rose que dormia na minha escrivaninha.
De repente estourou o raio no alto de Sant-Jean. Os feiticeiros, mortalmente feridos, caíram desmaiados, e de longe vi seus livros de magias arderem como uma tocha no negro campanário.
O espantoso resplendor tingia com as chamas vermelhas do purgatório e do inferno os muros da igreja gótica e prolongava sobre as casas vizinhas a sombra da estatura gigantesca de Saint-Jean.
Os cataventos se enferrujaram; a lua atravessou as nuvens cinza-pérola; a chuva apenas gotejava do beiral do telhado, e a brisa, abrindo minha janela mal fechada, lançou sobre o meu travesseiro as flores de um jardim sacudido pela tormenta.
VII
UM SONHO
Isso e muito mais sonhei, mas não entendo uma única palavra
desse sonho.
Rabelais, Pantagruel, Livro III
Era noite. A princípio havia — eu conto como vi — uma abadia com as paredes riscadas pela lua, uma floresta atravessada por caminhos tortuosos, e o Marimont 12, repleto de capas e chapéus.
Logo em seguida — eu conto como vi —, um fúnebre dobrar de finados em um campanário, respondido por fúnebres soluços vindos de uma cela, lamentos doidos e risos ferozes que faziam estremecer as folhas nas ramagens, murmúrios de preces dos penitentes negros que acompanhavam o criminoso ao seu suplício.
Finalmente — assim acabou o sonho, assim o conto — um monje expirava na cinza dos agonizantes, uma jovem se debatia pendurada nos ramos de um azinheiro. E eu, a quem o verdugo
12 Lugar onde se realizavam as execuções em Dijon. desgrenhado amarrava nos raios da roda.
Don Agustín, o prior defunto, em hábito de franciscano, terá as honras de uma câmara ardente; e Marguerite, assassinada por seu amante, será amortalhada com seu vestido branco de inocência entre quatro círios de cera.
Comigo, porém, a barra do verdugo se quebrou na primeira pancada, como se fosse de vidro, as tochas do penitente se apagaram sob torrentes de chuva, a multidão se dispersou como os arroios transbordados e as corredeiras — e eu já perseguia outros sonhos 'ao despertar—.
VIII
M MEU BISAVÔ
Naquele quarto tudo permanecia no mesmo estado, a não ser a
tapeçaria, que estava completamente dilacerada, e pelas aranhas que
teciam suas teias no pó.
Walter Scott, Woodstock
As veneráveis personagens da tapeçaria gótica agitada pelo vento saudaram umas às outras e meu bisavô entrou na peça, — meu bisavô, que logo fará oitenta anos que morreu —.
Aí! Ai mesmo, frente a este genuflexório, foi onde se ajoelhou meu bisavô, roçando levemente com sua barba o missal amarelo, aberto onde marca o indicador.
Durante toda a noite esteve balbuciando suas orações sem descruzar um só momento os braços sob a esclavina de seda violeta, sem sequer olhar obliquamente uma única vez em minha direção, — eu, que sou sua posteridade, deitado na cama, sua poeirenta cama. de dossel.
E me dei conta, com espanto, de que seus olhos estavam vazios quando ainda pareciam ler; que seus lábios estavam imóveis, quando eu ainda o ouvia rezar; que seus dedos estavam descarnados, quando ainda cintilavam de pedrarias!
E evitei perguntar-me se velava ou se dormia; se era a lividez da Lua ou de Lúcifer; se era meia-noite ou o amanhecer.
IX
ONDI INA
.. .Eu acreditava escutar
uma vaga harmonia que o meu
[sonho encantava, um sussurro próximo, semelhante,
[no ar, ao canto entrecortado de uma voz
[triste terna.
Ch. Brugnot, Os dois gênios
— Escuta! Escuta! Sou eu, Ondina, quem toca levemente com gotas de água os sonoros losangos de tua janela iluminada por melancólicos raios de luar; e vê aí, vestida de tafetá, a dama do castelo que do balcão contempla a formosa noite estrelada e o belo lago adormecido.
"Cada onda é uma ondina que nada na corrente, cada corrente é um caminho que serpenteia até o meu palácio, e meu palácio está feito de matérias fluídas, no fundo do lago, no triângulo do fogo, da terra e do ar.
— "Escuta! Escuta! Meu pai, coaxando, fustiga a água com um ramo de amieíro verde; e minhas irmãs acariciam com seus braços de espuma as frescas ilhotas de erva, de nenúfar, de gladíolo, ou zombam do salgueiro decrépito e barbado que pesca com uma vara".
Terminada a canção, suplicou-me que pusesse seu anel em meu dedo para ser esposo de uma ondina, e visitar com ela seu palácio e ser o rei dos lagos.
Como eu respondesse que amava uma mortal, zangada e despeitada verteu algumas lágrimas, soltou uma gargalhada e desvaneceu-se entre aguaceiros que escorriam claros em meus vidros azuis.
X
A SALAMANDRA
Lançou no jogo da chaminé um
[feixe de visco abençoado que ardeu
[crepitando.
Ch. Nodier, Trilby
— Grilo, meu amigo. Por que, como morto, estás surdo ao meu silvo e cego ao esplendor do incêndio?
O grilo, porém, por muito afetuosas que fossem as palavras da salamandra, nada disse, seja porque dormia um mágico sono, seja porque teve o capricho de aborrecer-se.
— Oh! Canta-me tua canção como fazes cada noite! Do teu esconderijo de cinza e fuligem da placa de ferro coberta com três heráldicas flores de lis...
Tampouco respondeu o grilo. E a salamandra, desconsolada, ora esperava ouvir a voz, ora zumbia com a chama de cambiantes cores rosa, azul, amarelo, branco, violeta.
— Morreu meu amigo! Morreu, e eu também quero morrer! — As lenhosas ramagens se haviam consumido, a chama arrastou-se sobre as brasas, disse adeus à corrente da chaminé, e a salamandra morreu de inanição.
A HORA DAS BRUXAS
O que pode ocorrer no vale a estas
[horas?
H. de Latouche, El Rey de los Alisos
É aqui! E logo na espessura dos matagais que apenas iluminava o olho fosforescente de um gato montes acocorado sob a ramaria.
Entre as rochas que encharcavam na noite de seus precipícios sua cabeleira de espinheiro, reluzente de orvalho e de vagalumes;
Junto à torrente que tomba espumosa entre as copas dos pinheiros e que flutua como um vapor cinzento no fundo dos castelos;
Reúne-se uma multidão incalculável que o velho lenhador, retido nas picadas com sua carga de lenha sobre os ombros, ouve porém não vê.
E de azinheira em azínheira, de colina em colina, se dispersam mil gritos confusos, lúgubres, espantosos: Hum! Hum! Shh! Shh! Curu! Curu!
Aí está a forca! — E por ali se vê aparecer, na sombra, um judeu que procura algo entre a erva molhada, sob o relâmpago dourado de uma auréola.
Aloysius Bertrand, Gaspar de la Nuit (1842)
PREPARANDO-SE
Nos processos dos seus sonhos, o homem se exercita para a vida futura.
Nietzsche
ENTRE MIM E EU MESMO,
QUE DIFERENÇA!
Até o ano 400 o filho de Mônica e Bispo de Hipona, Aurelius Augustinus, conhecido depois por Santo Agostinho, redigiu suas Confissões. Não pode dissimular seu assombro ante as deformações e excessos que assaltam durante o sono os varões que, durante a vigília, se atem à sua concepção ético-filosófica e à doutrina cristã. "Não por mim, porém em mim, isto ocorreu", disse. "Entre mim e eu mesmo que diferença!" E o bispo dá graças a Deus por não ser responsável pelo conteúdo de seus sonhos. Na verdade, somente um santo pode ficar tranqüilo por saber-se irresponsável.
Rodericus Bartius, Los que son números
y los que no lo son (1964)