Livro dos Sonhos
O Vazio dos Sonhos
É próprio do homem insensato sustentar-se das vãs esperanças e de mentira; e os sonhos dão asas à fantasia dos imprudentes.
Como quem se abraça com uma sombra e vai atrás do vento, assim é o que atende a enganosas visões.
As visões dos sonhos são a semelhança das coisas; são como a imagem de um homem diante do seu próprio rosto.
Que coisa será limpa para um imundo? É por um mentiroso que a verdade será dita?
A adivinhação errônea, os agouros falsos, e os sonhos dos malfeitores são vaidade.
E o teu coração, como o da mulher que está de parto, padecerá imaginações. Se pelo Altíssimo não te foi enviada alguma destas visões, não ponhas nela teu coração.
Eclesiastes, 34, 1-6
DA PARCIMÔNIA
Não digas inconsideradamente, nem o teu coração se apresse a proferir palavras diante de Deus. Porque Deus está no céu e tu sobre a terra; portanto sejam poucas as tuas palavras. Os muitos cuidados produzem sonhos e no muito falar achar-se-á a loucura.
Eclesiastes, 5,1-2
VISÕES PROFÉTICAS
AS Q QUATRO BES STAS
No primeiro ano de Baltasar, rei da Babilônia, teve Daniel uma visão em sonhos. Esta visão teve-a o seu espírito, estando na sua cama; e, escrevendo o seu sonho, resumiu-o em poucas palavras, e, apontando-o em suma, disse: Eu estava na minha visão noturna, e eis que os quatro ventos do céu pelejavam uns contra os outros no mar grande. E quatro grandes animais, diferentes uns dos outros, saíam do mar. O primeiro era como uma leoa e tinha asas de águia; quando eu estava olhando para ela, foram-lhe arrancadas as asas, foi levantada da terra e pôs-se sobre os seus pés, como um homem, e foi-lhe dado um coração de homem. Vi outro animal semelhante a um urso, que se pôs ao seu lado, o qual tinha três ordens de dentes na sua boca, e diziam-lhe assim: Levanta-te, come carne em abundância. Depois disto estava eu olhando e vi outro (animal), que era como um leopardo, tinha em cima de si quatro asas, como asas dum pássaro; este animal tinha quatro cabeças e foi-lhe dado o poder. Depois disto, eu contemplava esta visão noturna, e eis que vi um quarto animal, terrível e espantoso e extraordinariamente forte; tinha uns grandes dentes de ferro; devorava, despedaçava e calcava aos pés o que sobejava; era diferente dos outros animais que eu tinha visto antes dele, e tinha dez chifres. Estava eu contemplando os chifres, e eis que vi outro chifre pequeno, que nascia do meio deles; três dos primeiros chifres foram arrancados diante dele; reparei que neste chifre havia uns olhos como olhos de homem, e uma boca que falava com insolência.
O ANCIÃO E O JULGAMENTO
Eu estava atento ao que via, até que foram postos uns tronos, e o Ancião dos (muitos) dias sentou-se; o seu vestido era branco como a neve e os cabelos da sua cabeça como a pura lã; o seu trono era de chamas de fogo e as rodas deste trono um fogo ardente. De diante dele saía um impetuoso rio de fogo; eram milhares de milhares os que assistiam diante dele. Assentou-se para julgar e foram abertos os livros. Eu olhava atentamente por causa do ruído das palavras arrogantes que este chifre proferia; e vi que o animal tinha sido morto e que o seu corpo perecera e fora entregue ao fogo para ser queimado; vi também que tinha sido tirado o poder aos outros animais, e que a duração da sua vida lhes tinha sido assinalada até um tempo e um tempo.
O FILHO DO HOMEM
Eu estava, pois, observando estas coisas durante a visão noturna, e eis que vi um que parecia o filho do homem, que vinha com as nuvens do céu, e que chegou até ao Ancião' dos (muitos) dias; e o apresentaram diante dele. E ele deu-lhe o poder, a honra e o reino; todos os povos, tribos e línguas o serviram; o seu poder é um poder eterno que lhe não será tirado; o seu reino não será jamais destruído.
O meu espírito encheu-se de horror; eu, Daniel, fiquei atemorizado com estas coisas, e as visões da minha cabeça perturbaram-me. Aproximei-me dum dos assistentes e perguntei-lhe a verdadeira significação de todas estas coisas. Ele deu-me a interpretação destas visões e ensinou-me: Estes quatro grandes animais são quatro reinos, que se levantarão da terra. Mas os sonhos do Deus altíssimo receberão o reino e entrarão na posse do mesmo reino até ao fim dos séculos, e por todos os séculos dos séculos.
Depois disto, quis eu diligentemente informar-me do quarto animal, que era muito diferente de todos os outros, sobremaneira temeroso, cujos dentes e unhas eram de ferro, e que devorava, despedaçava e calcava com os pés o que sobejava. E quis (também informar-me) dos dez chifres que tinha na cabeça, do outro que lhe viera de novo, na presença do qual tinham caído três dos outros chifres, deste chifre, que tinha olhos e tinha uma boca que falava com insolência e que se tinha tornado maior do que os outros. Estava eu observando e eis que aquele chifre fazia guerra contra os santos, sobre os quais prevalecia, até que veio o Ancião dos (muitos) dias, sentenciou a favor dos santos do Excelso, chegou o tempo e os santos obtiveram o reino.
O QUARTO REINO
Ele falou assim: O quarto animal será na terra o quarto reino, que será maior do que todos os outros reinos, devorará toda a terra, calca-la-á aos pés, e a despedaçará. Os dez chifres deste reino serão dez reis; depois deles se levantará outro: será mais poderoso do que os primeiros e humilhará os três reis. E falará insolentemente contra o Excelso, atropelará os santos do Altíssimo e imaginará que pode mudar os tempos e as leis; os santos serão entregues nas suas mãos até um tempo, dois tempos e metade dum tempo. E (depois) se realizará o juízo, a fim de que lhe seja tirado o poder, seja ele destruído e pereça para sempre, e seja dado o reino, o poder e a grandeza, do reino, que está debaixo de todo o céu, ao povo dos santos do Altíssimo, cujo reino é um reino eterno, e ao qual servirão e obedecerão todos os reis.
Aqui terminou o que me foi dito. Eu, Daniel, fiquei muito perturbado com estes meus pensamentos e todo o meu semblante se mudou; mas conservei no meu coração esta, visão.
O CARNEIRO E O BODE
No terceiro ano do reinado do rei Baltasar, tive uma visão. Eu, Daniel, depois do que tinha visto no princípio, vi uma visão que tive, encontrando-me no castelo de Susa, que está no país de Elam; vi, pois, nesta visão que eu estava à porta de Ulai.
Levantei os meus olhos e olhei; e eis que estava em pé diante duma lagoa um carneiro que tinha uns chifres elevados, um dos quais era mais alto do que o outro, e crescia pouco a pouco. Depois vi que o carneiro dava marradas contra o ocidente, o aquilão e o meio-dia, e nenhuma besta lhe podia resistir, nem livrar-se do seu poder; fez quanto quis e tornou-se poderoso.
Estava eu considerando isto, e eis que um bode vinha do ocidente sobre a face de toda a terra, e (tão rapidamente que) não tocava na terra; este bode tinha um grande chifre entre os seus olhos. Dirigiu-se contra aquele carneiro que tinha chifres, o qual eu tinha.visto em pé diante da porta; e correu para ele com todo o ímpeto de sua força. Tendo chegado perto do carneiro, atacou-o com fúria, feriu-o, quebrou-lhe os dois chifres, sem que o carneiro lhe pudesse resistir; e, tendo-o lançado por terra, pisou-o aos pés, e não houve quem pudesse livrar o carneiro do seu poder. O bode tornou-se extraordinariamente grande; e, tendo crescido, quebrou-se o seu grande chifre, por baixo do qual formaram-se quatro chifres para os quatro ventos do céu. Porém, dum destes saiu um chifre pequeno, que se tornou grande contra o meio-dia, contra o oriente e contra a terra forte. Elevou--se até contra a fortaleza do céu; deitou abaixo muitas estrelas e pisou-as aos pés. Elevou-se até contra o príncipe da força, tirou-lhe o sacrifício perpétuo e destruiu o lugar do seu santuário. Foi-lhe dado poder contra o sacrifício perpétuo, por causa dos pecados; a verdade será abatida sobre a terra, e ele empreenderá tudo, e tudo lhe sucederá conforme seu desejo.
Então ouvi um dos santos que falava; e um santo perguntou a outro, não sei qual, que lhe falava: Até quando durará (o que) a visão (anuncia) quanto ao sacrifício perpétuo e ao pecado da desolação que foi feita; e até quando será calcado aos. pés o santuário e a fortaleza? Ele respondeu-lhe: Até dois mil e trezentos dias compostos de tarde e manhã; e depois o santuário será purificado.
Ora, enquanto eu, Daniel, tinha esta visão, e procurava a sua inteligência, eis que se apresentou diante de mim uma como figura de homem. Ouvi a voz dum homem no meio de Ulai, o qual gritou e disse: Gabriel, explica-lhe esta visão. Veio e parou junto do lugar onde eu estava; e, quando ele chegou, caí espavorido com o rosto por terra, e ele disse-me: Entende, filho do homem, porque esta visão se cumprirá no tempo fixado. E, enquanto me estava falando, tornei a cair com o rosto por terra; ele, porém, tocou-me e fez-me pôr em pé. Depois disse-me: Eu te mostrarei o que há de suceder no fim da maldição, porque o tempo tem o seu fim.
A EXPLICAÇÃO
O carneiro que viste, e que tinha chifres, é o rei dos medos e dos persas. O bode é o rei dos gregos; o grande chifre, que ele tinha entre os seus dois olhos, é o primeiro dos seus reis. Quanto aos quatro chifres, que, depois de quebrado aquele primeiro, se levantaram em seu lugar, são os quatro reis, que se levantarão da sua nação, mas sem terem a sua força. Depois do seu reinado, quando tiverem crescido as iniqüidades, levantar-se-á um rei descarado e compreendedor de enigmas; o seu poder se firmará, mas não pelas suas próprias forças; devastará tudo, além de quanto se pode imaginar, tudo lhe correrá bem e fará tudo o que quiser; matará os robustos e o povo dos santos, segundo a sua vontade; terão bom êxito os dolos que urdir, tornar-se:á arrogante o seu coração, e, vendo-se na abundância de todas as coisas, matará muitíssimos, e levantar-se-á contra (Deus) o príncipe dos príncipes, porém será aniquilado sem intervir mão de homem. £ aquela visão da tarde e da manhã, que te foi representada, é verdadeira. Sela esta visão, porque ela não sucederá senão depois de muitos dias.
Depois disto, eu, Daniel, perdi as forças e fiquei doente alguns dias; tendo-me levantado, trabalhava nos negócios do rei e estava pasmado da visão, sem haver quem a pudesse interpretar.
AS SETENTA SEMANAS
No primeiro ano de Dario, filho de Assuero, da estirpe dos medos, que reinou no império dos caldeus; no primeiro ano do seu reinado, eu, Daniel, pela lição dos livros (santos), compreendi, segundo o número dos anos de que o Senhor tinha falado ao profeta Jeremias, que a desolação de Jerusalém devia durar setenta anos. Voltei o meu rosto para o Senhor meu Deus, para lhe rogar e suplicar com jejuns, saco e cinza.
Orei ao Senhor meu Deus, fiz confissão das faltas e disse:
OR A AÇÃO E CONFIS SSÕES DE E DANIEL
Digna-te ouvir-me, ó Senhor Deus grande e terrível, que guardas a tua aliança e a tua misericórdia para com os que te amam e que observam os teus mandamentos. Nós pecamos, cometemos a iniqüidade, procedemos impiamente, apostatamos e afastamo-nos dos teus preceitos e das tuas leis. Não temos obedecido aos profetas, teus servos, que falaram em teu nome aos nossos reis, aos nossos príncipes, aos nossos pais, e a todo o povo do país. Tua é, ó Senhor, a justiça; a nós, porém, não nos resta senão a confusão do nosso rosto, como sucede hoje a todo homem de Judá, aos habitantes de Jerusalém e a todo o Israel, aos que estão perto e aos que estão longe em todos os países, para onde tu os lançaste, por causa das iniqüidades que cometeram contra ti. Para nós, Senhor, a confusão do rosto, para os nossos reis, para os nossos príncipes e para os nossos pais, que pecaram. Mas de ti, ó Senhor nosso Deus, é própria a misericórdia e a propiciação; porque nos retiramos de ti, e não ouvimos a voz do Senhor nosso Deus, para andarmos segundo a sua lei, que nos prescreveu por meio dos seus servos, os profetas. Todos os de Israel violaram a tua lei, desviaram-se para não ouvirem a tua voz e choveu sobre nós a maldição e a execração que está escrita no livro de Moisés servo de Deus, porque pecamos contra Deus. Cumpriu a sentença que proferiu contra nós e contra os nossos príncipes que nos julgaram, para fazer vir sobre nós esta calamidade grande, qual nunca se viu debaixo de todo o céu, como o que aconteceu a Jerusalém. Todo este mal caiu sobre nós, segundo está escrito na lei de Moisés, e nós não recorremos a ti, ó Senhor nosso Deus, de maneira a nos afastarmos das nossas iniqüidades e a nos aplicarmos ao conhecimento da tua verdade. Assim o Senhor vigiou sobre a malícia e fez cair sobre nós o castigo dela; o Senhor nosso Deus é justo em todas as obras que fez, porque nós não ouvimos a sua voz.
Agora, Senhor nosso Deus, que tiraste o teu povo da terra do Egito com mão poderosa, e que adquiriste então um nome que dura até ao dia de hoje, (confessamos que) temos pecado, que temos cometido a iniqüidade. Senhor, por toda a tua justiça, suplico-te que aplaques a tua ira e o teu furor contra a cidade de Jerusalém e contra o teu santo monte; porque Jerusalém e o teu povo são hoje o escárnio de todos os que nos cercam, por causa dos nossos pecados e das iniqüidades de nossos pais. Atende, pois, agora, Deus nosso, à oração do teu servo e às suas preces; sobre o teu santuário, que está deserto, faze brilhar a tua face, por amor de ti mesmo. Inclina, Deus meu, o teu ouvido e ouve; abre os teus olhos e vê a nossa desolação, e a da cidade, na qual se invocava o teu nome; porque nós, prostrando-nos em terra diante da tua face, não fazemos estas súplicas fundados em alguns merecimentos da nossa justiça, mas sim na multidão das tuas misericórdias. Ouve, Senhor, aplaca-te, Senhor; atende-nos e põe mãos à obra; não dilates mais, Deus meu, por amor de ti mesmo, porque esta cidade e este teu povo tem a glória de se chamarem do teu nome.
E, quando eu ainda falava, orava, e confessava os meus pecados e os pecados do meu povo de Israel, e, quando prostrado apresentava as minhas súplicas na presença do meu Deus a favor do santo monte do meu Deus.
GABRIEL TRAZ A RESPOSTA
Quando eu, digo, ainda não tinha bem acabado as palavras da minha súplica, eis que Gabriel, aquele varão que eu tinha visto no princípio da visão, voando rapidamente, me tocou no tempo do sacrifício da tarde; instruiu-me, falou-me e disse: Daniel, eu vim agora para te ensinar e para que tu entendas (os desígnios de Deus). Desde o princípio das tuas preces, foi dada esta ordem, e eu vim para cá descobrir, porque tu és um varão de desejos; toma, pois, bem sentido no que vou dizer-te e compreende a visão.
Setenta semanas de anos foram decretadas sobre o teu povo e sobre a tua cidade santa a fim de que as prevaricações se consumassem, o pecado tenha o seu fim, a iniqüidade se apague, a justiça eterna seja trazida, as visões e profecias se cumpram e o Santo dos santos seja ungido. Sabe, pois, isto e adverte-o bem: Desde a saída da ordem para Jerusalém ser reedificada até o Cristo chefe, passarão sete semanas e sessenta e duas semanas; e serão reedificadas as praças e os muros nos tempos de angústia. Depois das sessenta e duas semanas, será morto o Cristo, e o povo que o há de negar não será mais seu. Um povo com o seu capitão, que há de vir, destruirá a cidade e o santuário; o seu fim será uma ruína total, e, depois do fim da guerra virá a desolação decretada. E (o Cristo) confirmará com muitos a sua aliança durante uma semana; no meio da semana fará cessar a hóstia e o sacrifício; estará no templo a abominação da desolação; e a desolação durará, até à consumação e até o fim.
Daniel 7,1-28; 8,1-27; 9,1-27 2
2 Os comentários bíblicos afirmam que as quatro feras corresponde a Síria, e o chifre blasfemador é Antíoco IV, grande perseguidor dos judeus. Os dez reis são Alexandre Magno; Seleuco I; Nicator; Antíoco Soter; Antíoco II, Calínico; Seleuco IO; Cerauno; Antíoco III, o Grande; Seleuco IV, Filopator; Heliodoro; e Demétrio I, Soter. Os desaparecidos são Seleuco IV (assassinado por Heliodoro), Heliodoro e Demétrio I. O ancião é Deus, disposto a julgar os impérios orientais. A personagem semelhante a um filho de homem, é o Messias: Jesus Cristo recorda a passagem em Mateus 26-64, ante o sumo sacerdote. Depois se alude à luta de Alexandre com os persas, à formação de seu império e ao desmembramento do mesmo, depois da morte do filho de Filipe da Macedônia. A profecia de Daniel — as setenta semanas — se baseia na de Jeremias — setenta anos — e se interpreta como "setenta semanas de anos".