Livro dos Sonhos
O Reflexo
Tudo no mundo está dividido em duas partes, das quais uma é visível, e a outra invisível. Aquela que é visível, nada mais é do que o reflexo da invisível.
Zohan, I, 39
SONHO DA CRUZ
Contarei o melhor dos sonhos, aquele que sonhei à meia noite, quando habitavam o repouso os homens capazes de palavra.
Acreditei ver uma árvore prodigiosa que se elevava no ar entrelaçada de luz, a mais resplandecente de todas as árvores.
Todo este prodígio estava inundado de ouro.
Havia pedras preciosas no seu pé; e cinco outras pedras no alto, na junção de seus braços.
Contemplavam-na os anjos do Senhor, todos predestinados à beleza.
Certamente não era a forca de um malfeitor; adoravam-na espíritos celestiais, homens sobre a terra e toda a gloriosa Criação.
Prodigiosa era a Árvore da Vitória, e eu, maculado de culpas, aviltado por impurezas, vi a Árvore da Glória coberta de vestes, brilhante de alegria, cercada de ouro. Através daquele ouro pude entrever uma antiga discórdia de miseráveis; vi que pelo lado direito transpirava sangue.
Estava eu cheio de aflição, aterrorizado pela formosa visão.
Vi que este sinal vivo mudava de roupagens e de cores.
As vezes o caminho feito pelo sangue a manchava; às vezes a adornava com tesouros.
Enquanto isto eu, durante muito tempo, permanecia contemplando aflito a Árvore do Redentor.
Esta começou a falar. A mais preciosa de todas as madeiras disse, com palavras:
"Isto aconteceu há muitos anos; ainda me lembro, derrubaram-me na orla de um bosque.
Arrancaram-me de minhas raízes.
Apoderaram-se de mim fortes inimigos.
Fizeram de mim um espetáculo.
Ordenaram-me erguer os condenados.
Os homens carregaram-me nas costas e me fixaram no alto de uma colina.
Aí me imobilizaram os inimigos.
Vi o Senhor dos Homens apressar-se com a vontade de escalar-me.
Não me atrevi a desacatar a ordem de Deus. Não me atrevi a inclinar-me nem a romper-me quando tremeu a face da terra.
Eu poderia ter esmagado todos os inimigos, porém me mantive alta e firme.
Forte e decidido, o jovem herói, que era Deus todo--poderoso, subiu ao alto da forca, valoroso entre muitos, para salvar a humanidade.
Estremeci quando o varão me abraçou.
Não me atrevi a inclinar-me sobre a terra; continuei firme.
Cruz fui erigida.
Elevei ao poderoso Senhor, ao Senhor dos Céus.
Não me atrevi a inclinar-me.
Com cravos escuros me atravessaram; restam ainda as cicatrizes das feridas.
Não me atrevi a ferir ninguém.
Todos escarneceram de nós.
Salpicou-me o sangue que brotou das costas do homem, quando este entregou o espírito.
Padeci de muitos males na colina.
Vi o senhor dos Exércitos puxado cruelmente. Nuvens tenebrosas haviam coberto o corpo do Senhor.
Daquele clarão surgiu uma sombra, negra sob as nuvens.
A Criação inteira chorou a morte de seu Rei.
Cristo estava na Cruz.
Poema anônimo anglo-saxão do século IX
TAMAM SHOD
Ontem chegamos de Teerã. Quinhentos quilômetros de areais, povoados mortos, postos de caravanas em ruínas, as formas caprichosas da meseta iraniana. Estávamos cansados e, excitados. Um banho e um bom chá no Shah Abban, e saímos a caminhar.. Jardins, avenidas, cúpulas, minaretes. Em Ispahan a noite é feérica, o céu é perfeito.
Quando regressamos ao hotel, extenuados e felizes, conversamos até que o sono nos venceu.
Sonhei que no centro da prodigiosa cúpula da mesquita Lutfullah estava escondido um rubi de virtudes mágicas. O judicioso que pára justamente debaixo dele, guarda silêncio e prende a respiração, recebe a visão de um tesouro, assim como a indicação do lugar onde ele se encontra. Sua existência não pode ser definida nem se deve tentar sua posse, pois quem ousar se transforma em madeira, a madeira em nuvem, a nuvem em pedra e a pedra se quebra em mil pedaços. O rubi proporciona deleite ou assombro, mas não autoriza o enriquecimento.
De manha voltamos a Meidan e Shah. Visitamos o palácio Ali Qapu desde seus últimos corredores até a sala de música. Surpreenderam-me as escadarias com degraus demasiadamente altos e incrivelmente estreitos. Alguém explicou que era para impedir o acesso aos cavalos inimigos.
Enquanto Melania se demorava no terraço que dá para a antiga quadra de pólo (a mais bela praça do mundo), não resisti mais. Cruzei até a Lutfullah, coloquei-me bem debaixo do conjunto da cúpula, fiquei em silêncio e contive a respiração. Uma luz ocre peneirava todos os matizes. Subitamente— meu Deus! — O tesouro era surpreendente, de inúmeras riquezas, perto, fácil de obter, entre as ruínas de um dos antigos mirantes ou pombais, ou casas de prazer fora da cidade. A visão me foi concedida em um segundo interminável de vertiginoso esplendor.
Regressei a Ali Qapu. Percorremos a mesquita das Sextas-Feiras, cruzamos a velha ponte de trinta e tantos arcos...
Terminarei estas notas ou me pulverizarei na pedra?
Roy Bartholomew
O CERVO ESCONDIDO
Um lenhador de Cheng encontrou-se na campo com um cervo assustado e o matou. Para evitar que outros o descobrissem, enterrou-o na floresta, cobrindo a cova com f olhas e ramos. Pouco tempo depois esqueceu o local onde o havia escondido, e pensou que tudo não passara de um sonho. Assim, contou o fato a toda a gente como se fosse um sonho. Entre os ouvintes, houve um que foi procurar o cervo enterrado e o encontrou. Levou-o a sua casa e disse à sua mulher:
— Um lenhador sonhou que havia matado um cervo e esqueceu onde o tinha escondido, e agora eu o encontrei. Este homem sim, é que é um sonhador...
— Na certa sonhaste que viste um lenhador que havia matado um cervo. Crês realmente que existiu, o lenhador? Mas como o cervo está aqui, teu sonho deve ser verdadeiro — disse a mulher.
— Ainda que suponhamos que eu tenha encontrado o cervo graças a um sonho — respondeu ò marido — por que nos preocuparemos em saber qual dos dois sonhou?
Naquela noite o lenhador voltou para casa pensando ainda no cervo, e realmente sonhou, e neste sonho sonhou o lugar onde havia escondido o cervo e sonhou também quem o havia encontrado. Ao amanhecer foi a casa do outro e encontrou o cervo. Os dois discutiram e terminaram diante de um juiz para que este resolvesse o assunto. O juiz disse ao lenhador:
— Realmente mataste um cervo e pensaste que era um sonho.. Em seguida sonhaste realmente, e então pensaste que era a realidade. O outro encontrou o cervo e agora o disputa, porém sua mulher pensa que ele sonhou que havia encontrado um cervo que outro havia matado. Logo, ninguém matou o cervo. Porém como aqui está o cervo, o melhor que os dois podem fazer é reparti-lo.
O caso chegou aos ouvidos do rei de Cheng e o rei de Cheng disse:
— E esse juiz? Não estará ele sonhando que reparte um cervo?
Liehtsé (c. 300 a.C.)