Livro dos Sonhos

Jorge Luis Borges · Capítulo 12 de 21

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Livro dos Sonhos

O Sonho Mal Interpretado

 

Huayna Cápac teve medo da peste. Encerrou-se e, em seu isolamento, teve um sonho no qual três anões vinham a ele e lhe diziam: "Inca, viemos buscar-te". A peste alcançou a Huayna Cápac e este ordenou que o oráculo de Pachacámac interpretasse que coisa deveria ser feita para que ele recuperasse a saúde. O oráculo declarou que o pusessem ao sol, que assim sararia. Saiu o Inca ao sol e em seguida morreu.

Bernabé Cobo, Historia del Nuevo Mundo

 

SONHOS CASEIROS

 

O escritor latino do século V Ambrósio Teodósio Macróbio, autor das Saturnais, escreveu um difundido Comentário ao Sonho de Cipião, capítulo VI d'A República (de Cícero), onde se recomenda o sistema de Governo que imperava em Roma na primeira metade do século I a.C. e se descreve uma cosmogonia de origem platônica e pitagórica. Macróbio alerta sobre os sonhos comuns ou domésticos, ecos da vida cotidiana — o amor, a comida, os amigos, os inimigos, a roupa, o dinheiro —, os quais não vale a pena interpretar, pois carecem do sopro divino que anima os grandes sonhos. No século XIII Albert von Bollstadt (?-1280), mais conhecido por São Alberto Magno, iniciou a conciliação escolástica entre a filosofia grega é a doutrina cristã, e teve por discípulo, em Paris, a São Tomás de Aquino. Em seu tratado Da alma coincide com Macróbio sobre a irrelevância dos sonhos menores e a sublimidade dos que estão animados por um sopro divino. Alberto foi um grande viageiro, interessou-se pelas propriedades dos minerais, dos elementos, dos animais e dos meteoros, e, em seu Tratado da Alquimia, logrou cercar-se de uma aura de magia. Não obstante, chegou a ser bispo de Ratisbona, dignidade que renunciou para reiniciar suas viagens. Não viu cumprido o sonho de todo o mestre: ser superado no tempo (já que não no saber) por seu melhor discípulo. Por ocasião da morte de Tomás de Aquino (1274), regressou a Paris para exaltar sua doutrina.

Rodericus Bartius, Los que son números y los que no lo son

 

A PROVA

 

Se um homem atravessasse o Paraíso em um sonho e lhe dessem uma flor como prova que havia estado ali, e se ao despertar encontrasse essa flor em sua mão... então o quê?

S. T. Coleridge

 

UM SONHO HABITUAL

 

O Nilo sombreado

as belas morenas

vestidas de água

zombando do trem

Fugitivos

Giuseppe Ungaretti, Primevas (1919)

 

DA NATUREZA DOS SONHOS

 

Quando o sonho por fim os membros ata

com um doce torpor, e quando o corpo

em profundo repouso está estirado,

então nos parece estar despertos,

e também fazer de nossos membros uso;

cremos ver o Sol e a luz do dia

em meio à noite tenebrosa;

e, em uma peça estreita e bem fechada,

mudar de climas, mares, montes, rios,

e atravessar a pé grandes planícies;

e no profundo e completo silêncio

da noite parece-nos ouvir sons,

e em silêncios responder acordes.

Vemos, de certa maneira surpreendidos,

semelhantes fenômenos, que tendem

todos a destruir a confiança

devida aos sentidos, mas é em vão:

o engano provém de nossa parte,

dos julgamentos da alma que nós todos

pintamos com aquelas relações

dos sentidos, supondo termos visto

aquilo que não viram nossos órgãos;

porque a distinção de relações

evidentes de incertas conjeturas

que nos associa à própria alma,

é a coisa mais extraordinária e excelente.

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Ora, quero dizer a ti, com brevidade,

quais os corpos que dão à alma movimento

e de onde vêm suas idéias.

Digo que muitos são os espectros5 que vagam

em todas as direções, com muitas formas,

tão sutis, que se unem facilmente

se chegam a encontrar-te pelos ares

como o fio da aranha e pães de ouro;

porque, além do mais, excedem em delicadeza

as efígies pelas quais nós vemos

os objetos. É claro que se introduzem

por todos os condutos que há nos corpos

e dão interiormente movimento

da alma à substância delicada,

e animam suas funções.

Os centauros, Escilas e Cerberos

e fantasmas de mortos assim vemos,

cujos ossos a terra abrasa em si,

pois a atmosfera ferve em tais espectros;

5 Lucrécio compara os simulacros que se desprendem dos corpos com a fumaça que sai da lenha, os vapores que os fogos expelem, as túnicas deixadas no estio pelas cigarras etc, e também com a luz que, colorindo-se, passa através das cortinas, com o cheiro, e com os simulacros que vemos nos espelhos. Outros se formam na região do ar. Estes simulacros se movem com grandíssima velocidade e correm espaços inacreditáveis num momento. (Nota de Aldo Mieli).

uns se formam pelo ar,

outros emanam de variados corpos,

e de duas espécies juntas, resultam outras.

A imagem de um centauro não se forma,

seguramente, de um centauro vivo:

Não criou jamais a Natureza

semelhante animal: é um composto

de espectros de cavalo e de homem

que o acaso juntou; e deles dizemos

que seu tecido sutil e delicado

a reunião ao momento facilita:

como esta imagem, se combinam outras,

que por sua leveza extraordinária

afeta a alta no primeiro impulso,

porque o próprio espírito é delicado,

e de mobilidade extraordinária.

E uma prova certa disso

ó se assemelharem em um todo os objetos

que a alma olha, aqueles que os olhos vêm,

porque nascem do mesmo mecanismo:

se ensinei que via eu leões

recebendo auxílio dos espectros,

que ao chegar nos ferem bem nos olhos,

se deduz que igualmente a alma move

os demais espectros desses leões,

que tão bem vê os mesmos olhos.

Não é de outra maneira que a alma está desperta,

quando se estendeu o sonho sobre os membros

porque chegam a alma tão de fato

os espectros que durante o dia ferem,

que nos parece ver o tal deserto

que é dominado pela morte e pela terra.

A esta ilusão a Natureza obriga;

porque repousam todos os sentidos

em um profundo sono, as verdades

não podem fazer oposição aos erros

porque a memória está adormecida

e, lânguida, com o sonho não disputa;

e quem crê ver a alma com vida

é despojo da morte e do olvido.

No mais, não é uma maravilha

a movimentação destes espectros

e a agitação de braços e de membros

conforme as regras, pois durante o sono

devem ter lugar as aparências;

como que se o primeiro se dissipasse

e viesse a sucedê-lo outro diferente,

parece que é o mesmo espectro

que mudou de atitude num instante.

Muitas perguntas existem sobre o assunto,

e muitas dúvidas ainda a esclarecer

se desejamos a coisa aprofundar.

A primeira pergunta que se faz

é: porque a alma no momento tem

as idéias do objeto de que gosta:

os espectros olham a vontade?

Vêm-nos a imagem assim que desejamos?

Se mar, se terra, se, por fim, o céu,

os congressos, as pompas, os banquetes

se os combates, se outro objeto que nos apraz.

A Natureza não guarda e não cria

as efígies de todo e qualquer sinal,

enquanto que na região, no local mesmo,

jazem profundamente as almas de outros

ocupadas de idéias muito diferentes?

E o que direi quando vemos no sonho

os espectros irem bailando no compasso

quando movem seus membros delicados,

e estendem seus braços flexíveis

alternativamente com destreza,

e tornam a fazê-lo levemente?

Estudaram por acaso artes e regras

para poderem divertir-se à noite?

Tenho eu como certo e verdadeiro

que percebemos estes movimentos

- em um instante apenas, assim como quando

se dá um único comando, e não obstante

passam-se muitos instantes, que somente a razão

distingue; esta é a causa

de se apresentarem espectros tão numerosos

em qualquer tempo e em qualquer parte:

grande é o seu número e sua leveza!

E sendo tão fina sua textura

não pode a alma vê-los claramente

sem recolher-se dentro de si mesma:

se ela não se dispõe a recebê-los

com grandes cuidados, todos perecem,

e o consegue graças à esperança

ver aquilo que realmente olha.

E não percebes tu também como os olhos

não podem distinguir aquele objeto

pouco sensível, porque o olharam

sem suficiente resguardo e sem preparo?

Mesmo os corpos que à vista estão expostos

são para a alma, se ela não se esforça

como se a cem mil léguas estivessem:

e por que admirar-se de que a alma

deixe escapar a todos os espectros

menos aqueles que a tem ocupada?

Talvez a alma exagere os espectros

e nos leva ao erro, e nos engana;

também transforma o sexo da imagem,

e em vez de uma mulher, nós só tocamos

um homem transmutado num instante,

ou outro qualquer objeto que o sucede

de semblante e de idade muito diferente:

isto provém do esquecimento e do sonho.

Tito Lucrécio Caro, Da Natureza

das coisas, Livro IV

(s.Ia.C.) (Tradução para o espanhol 6

de José Marchena Ruiz de Cueto (1768-1821), chamado "O

clérigo Marchena"; leva a data de 1791)

 

QUE COISA É O SONHO

 

O sono, que deve ser natural, como determinou Deus para a natureza do homem, dá tempo para que este descanse dormindo dos trabalhos que executa acordado — e neste dormir, segundo afirmaram com razão os que se ocuparam das coisas da natureza, os membros folgam e estão quedos — quando o espírito da vida movimenta os sentidos e quer trabalhar com eles, assim como utiliza o corpo quando este não dorme, e por isso os homens sonham muitas coisas, de maneira natural e com muita razão e, também, como resultado do que comem ou bebem, ou do que fazem ou cuidam quando estão despertos, ou ainda segundo aumentam ou diminuem os quatro humores de que é

6 No original em espanhol arcaico. (N. dos E.) feito o corpo; quando fala dormindo o homem aumenta suas preocupações e seus desejos, pois acredita no que está sonhando, e quando acorda se vê sem nada. Por conseguinte, aqueles que sobre tão frágil base armam sua crença, deixam perceber que esta crença não era firme nem sã, nem poderia durar muito tempo.

Alfonso o Sábio, Setenário

(Lei XVI)

 

O PESADELO

 

Sonho com um antigo rei. De ferro

é a coroa, e morto seu olhar.

Já não há faces assim. A firme espada

o acatará fiel como seu cão.

Já não sei se é de Nortúmbria ou da Noruega.

Sei que é do norte. E sua barba ruiva,

cerrada, cobre o peito. Não me lança

sua mirada, sua mirada cega.

De que apagado espelho, de que nave

dos mares que foram a sua aventura,

surgiu este homem cinza e grave

que me impõe o seu passado e sua amargura?

Sei que me sonha e que me julga; erguido

o dia, entra a noite. E não se foi.

 

Jorge Luis Borges