Livro dos Sonhos

Jorge Luis Borges · Capítulo 9 de 21

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Livro dos Sonhos

Do Diário Epistolar de César

PARA LÚCIO MAMÍLIO TURRINO,

NA ILHA DE CAPRI

 

(Na noite de 27 para 28 de outubro)

1013, (Sobre a morte de Catulo). Estou velando à cabeceira de um amigo agonizante: o poeta Catulo. De tempo em tempo adormece e, como de costume, tomo a pena, talvez para evitar a reflexão.

Acaba de abrir os olhos. Pronunciou o nome de seis Plêiades, e me perguntou o sétimo.

Agora dorme.

Passou uma outra hora. Conversamos. Não sou novato nisto de velar à cabeceira dos moribundos. Aos que. sofrem, deve-se falar sobre eles mesmos; aos de mente lúcida, elogiar-lhes o mundo que abandonam. Não há dignidade alguma em abandonar um mundo desprezível, e aqueles que morrem soem temer que a vida talvez não tenha compensado os esforços que lhes custou. Pessoalmente, jamais me faltam motivos para elogiá-la.

No transcurso desta hora paguei uma velha dívida. Durante minhas campanhas, muitas vezes visitou-me um sonho persistente: caminhava de cá para lá frente a minha tenda, no meio da noite, improvisando um discurso.. Imaginava ter congregado um auditório seleto de homens e mulheres, quase todos eles jovens, aos quais eu desejava ardentemente revelar tudo o quanto havia aprendido na poesia imortal de Sófocles — em minha adolescência, em minha maturidade, como soldado, como estadista, como pai, como filho e como homem enamorado, através de alegrias e de vicissitudes —. Queria, antes de morrer, descarregar meu coração (tão rapidamente transbordante!) de toda esta gratidão e louvor.

Ah, sim! Sófocles foi um homem; e sua obra totalmente humana.

Eis aqui a resposta a uma velha pergunta. Os deuses nem lhe deram apoio, nem se negaram a ajudá-lo; não é esta sua forma de proceder. Porém se eles não tivessem estado ocultos, Sófocles não teria lutado tanto para encontrá-los.

Assim, viajei: sem poder ver a um pé de distância, entre os Alpes mais elevados, porém jamais com passo tão seguro. A Sófocles bastava viver como se os Alpes tivessem estado sempre ali.

E agora, também Catulo estava morto.

Thorton Wilder. Os idos de março (1945)

 

O INCESTO

 

César informa que, antes de cruzar o Rubicón e marchar sobre Roma, sonhou que coabitava com sua mãe.

Como é sabido, os atrevidos senadores que liquidaram César a golpes de punhal, não conseguiram impedir o que estava disposto pelos deuses. Porque a cidade ficou grávida do Amo ("filho de Rômulo e descendente de Afrodite"), e o prodigioso botão pronto desabrochou no Império Romano.

Rodericus Bartius, Los que son números y los que

nolo son (1964)