Livro dos Sonhos

Jorge Luis Borges · Capítulo 20 de 21

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Livro dos Sonhos

O Sonho de Pedro Henriquez

URENA

 

O sonho que Pedro Henriquez Urena teve ao amanhecer de um dos dias de 1946 não constava de imagens, mas tão somente de pausadas palavras. A voz que as pronunciava não era a sua, porém parecia-se com ela. O tom, em que pese as possibilidades patéticas que o tema permitia, era impessoal e comum. Durante o sonho, que foi breve, Pedro sabia que estava dormindo em seu quarto e que sua mulher estava a seu lado. Na obscuridade do sonho, a voz lhe disse:

Há quantas noites passadas, em uma esquina da Rua Córdoba, discutiste com Borges a invocação do anônimo Sevilhano O Morte, vem calada / como costumas vir na flecha. Suspeitaram que era o eco deliberado de algum texto latino, já que estas versões correspondiam aos costumes da época, completamente alheias ao nosso conceito de plágio, sem dúvida menos literário do que comercial. O que não suspeitaram, o que não podiam suspeitar, é que o diálogo era profético. Dentro de poucas horas correrás para a última estação da Constituición, para tua aula na Universidade de La Plata. Alcançarás o trem, colocares a pasta no porta-volumes e te acomodarás na tua poltrona, junto à janela. Alguém, cujo nome ignoro mas cujo rosto estou vendo, te dirigirá algumas palavras. Não lhe responderás porque ambos estarão mortos. Já te terás despedido para sempre de tua mulher e de tuas filhas. Não te lembrarás deste sonho porque teu esquecimento é necessário para que se cumpram os fatos.

Jorge Luis Borges

HISTÓRIA DOS DOIS QUE SONHARAM

 

O historiador árabe El Ixaqui narra este acontecimento:

Contam os homens dignos de fé (porém somente Alá é onisciente e poderoso e misericordioso e não dorme), que' existiu no Cairo um homem possuidor de riquezas, porém tão magnânimo e liberal que perdeu-as todas, menos a casa de seu pai. Diante disso, se viu forçado a trabalhar para ganhar seu pão. Trabalhou tanto, que o sono venceu-o uma noite sob uma figueira de seu jardim, e ele viu no sonho um homem empanturrado que tirou da boca uma moeda de ouro e lhe disse: "Tua fortuna está na Pérsia, em Ispahan; vai buscá-la". Na madrugada seguinte acordou e empreendeu a longa viagem, afrontando os perigos dos desertos, dos navios, dos piratas, dos idolatras, dos rios, das feras e dos homens. Chegou finalmente a Isfahan, e no centro da cidade, no pátio de uma mesquita, deitou-se para dormir. Junto a mesquita havia uma casa, e por vontade de Deus Todo Poderoso, um bando de ladrões atravessou a mesquita, e meteu-se na casa, e as pessoas que aí dormiam, despertando com o barulho, pediram socorro. Os vizinhos também gritaram, até que o capitão dos guardas noturnos daquele distrito acudiu com seus homens e os bandoleiros, fugiram pelo terraço. O capitão quis revistar a mesquita e lá deram com o homem do Cairo; açoitaram-no de tal maneira com varas de bambu que ele quase morreu. Dois dias depois recobrou os sentidos na cadeia. O capitão mandou buscá-lo e disse: "Quem és tu e qual é a tua pátria?" O outro declarou: "Sou da famosa cidade do Cairo e meu nome é Mohamed El Magrebi". O capitão perguntou-lhe: "O que te trouxe à Pérsia?" O outro optou pela verdade e disse: "Um homem ordenou-me, em sonho, que eu viesse a Isfahan porque aí estava a minha fortuna. Já estou em Isfahan e vejo que essa fortuna que prometeu devem ser as vergastadas que tão generosamente me deste".

Diante de tais palavras o capitão riu tanto que se viam seus dentes de siso e, finalmente, lhe disse: "Homem desajuizado e crédulo, eu já sonhei três vezes com uma casa no Cairo no fundo da qual há um jardim, e nesse jardim um relógio de sol, e depois do relógio, uma figueira, e logo depois da figueira, uma fonte, e sob a fonte, um tesouro. Não dei o menor crédito a essa mentira e tu, produto de uma mula com um demônio, não obstante, vens errando de cidade em cidade baseado unicamente na fé no teu sonho. Que eu não volte a ver-te em Isfaham. Toma estas moedas e desaparece".

O homem pegou as moedas e regressou a sua pátria. Sob a fonte de seu jardim (que era a mesma do sonho do capitão) desenterrou o tesouro. Assim Deus lhe deu sua bênção, recompensou-o e enalteceu-o. Deus é o Generoso, o Oculto.

Do Livro das Mil e Uma Noites (noite 351)

 

A JÚLIO FLORO

 

Está livre o teu peito do amor à glória vã? Estará também da ira e do medo da morte? Os sonhos, os terrores mágicos, as feiticeiras, os duendes noturnos, os sortilégios de Tessália: eles te fazem rir?

Horácio, Epístolas, II, 2.

 

A ROSA DO MUNDO

 

Quem sonhou que a beleza passa como um sonho?

Por estes lábios vermelhos, com todo seu orgulho lutuoso,

Lutuoso de que nenhuma nova maravilha possam predizer,

Tróia se desvaneceu como um grande fulgor funéreo.

William Buttler Yeates

 

TEOLOGIA

 

Como vocês não ignoram, viajei muito. Isto me permitiu corroborar a afirmação de que a viagem é sempre mais ou menos ilusória, de que não há nada de novo sob o sol, de que tudo é uma única e mesma coisa, etcétera, mas também, paradoxalmente, de que é infundada qualquer desesperança de encontrar surpresas e coisas novas: em verdade o mundo é inesgotável. Como prova disso, basta lembrar a crendice peregrina que encontrei na Ásia Menor, entre um povo de pastores, que se cobrem com peles de ovelha e que são herdeiros do antigo reino dos Magos. Esta gente crê nos sonhos. "No instante em que dormes — explicaram-me — conforme tenham sido teus atos durante o dia, irás ao céu ou ao inferno". Se alguém argumentasse que nunca havia visto partir um homem adormecido, que permanecia deitado até que o despertassem, responderiam: "O afã de não acreditar em nada te leva a esquecer tuas próprias noites (quem não terá conhecido sonhos agradáveis e sonhos aterroriza-dores?) e a confundir o sono com a morte. Cada um é testemunho de que há outra vida para o sonhador. Para os mortos é diferente o testemunho: eles permanecem, convertendo-se em pó''.

H. Garro, Todo o mundo (1918)

INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS

 

— Já que não entramos em um acordo sobre os métodos virgilianos, utilizemos como meio de adivinhação um que é bom, antigo e autêntico — disse Pantagruel. Refiro-me à interpretação dos sonhos, sempre que se sonhe conforme as condições que estabelecem Hipócrates, Platão, Plotino, Jâmblico, Sinésio, Aristóteles, Xenofontes, Galeno, Plutarco, Artemidoro, Daldiano, Herifilo, Quinto Calaber, Teócrito, Plínio, Ateneu e outros, os quais sustentam que a alma é capaz de prever acontecimentos futuros. Quando o corpo repousa em plena digestão e não necessita de nada até o momento de despertar, nossa alma se eleva até sua verdadeira pátria, que é o céu. Ali recebe a participação de sua primitiva origem divina e na contemplação daquela infinita e intelectual esfera (cujo centro se encontra em algum lugar do universo, ponto central que reside em Deus segundo a doutrina de Hermes Trismegisto, e a qual nada altera e na qual nada ocorre, pois todos os tempos se desenvolvem no presente) capta não apenas os acontecimentos das camadas inferiores, mas também os futuros, transmitindo-os ao seu corpo através de seus órgãos sensíveis. Dada à fragilidade e à imperfeição do corpo que os captou, não pode transmiti-los fielmente. Cabe aos intérpretes e vaticinadores de sonhos, os gregos, aprofundar-se em tão importante matéria. Heráclito dizia que a interpretação dos sonhos não é para ficar oculta, pois nos dá o significado e normas gerais das coisas do futuro, para nossa sorte ou desgraça. Anfiarao estabeleceu que não se deve beber durante três dias nem comer durante um antes dos sonhos. Estômago cheio, má espiritualidade.

Todo o sonho que termina em sobressalto significa algo ruim e é de mau presságio. Este algo ruim quer dizer alguma doença latente. O mau presságio para a alma, pois alguma desgraça se avizinha. Lembrai-vos dos sonhos e do despertar de Hécuba e de Eurídice. Enéias sonhou que falava com Heitor morto; acordou sobressaltado e naquela noite Tróia ardeu e foi saqueada.

François Rabelais, Pantagruel, II

 

SONHO

 

Latine somnus somni, sopor quies quae ab hutnori-bus a corde ad cerebrwn sublatis concitatur, qui ubi fuerint refrigerati recidentes ad cor colorem eius refrigerant. Em grego se chama (...) ypnos, e daqui tiram sua etimologia, ainda que com dificuldade, mudando letras. A vaidade antiga fingiu existir um deus dito Sonho, o qual teria seu trono e morada perto dos cimérios, conforme é muito bem "descrito por Ovídio no seu Methamorphoseom, liv.-II.

Est prope Cimmerios longo spelunca recessu

Mons cavus ignavi domos et penetralia somni,

Quo nunquam radiis oriens, mediusve caedensve,

Phoebus adire potesí, etc.

O sonho e a liberação. Este modo de dizer teve sua origem na Santa Escritura, em Daniel, cap. 2, quando Nabucodonosor acordou espavorido de um sonho, cujos fantasmas já o tinham destroçado, e pedia que os magos de sua corte lhe declarassem que sonho tinha sido aquele e qual o seu significado. Estes nunca puderam satisfazê-lo, e responderam: Non est homo super terram, qui sermonen ium, rex, possit implere. O profeta Daniel, estando informado de que o rei mandava matar seus sábios, obteve de Deus, em sonhos, o que Nabucodonosor desejava saber. E assim lhe fez primeiro o sonho, e com ele a liberação, e convém conhecer sua interpretação e de onde teve origem este provérbio tão comum: Nem por sonhos se chega a negar uma coisa e afastá-la do seu pensamento. Sonolento é aquele que anda cochilando.

Sebastián de Covarruvias Orozco, Tesoro de la lengua

castellana o espanola (1611), 1943.

 

O REGRESSO DO MESTRE

 

Desde seus primeiros anos, Migyur — este era o seu nome — havia sentido que não estava onde tinha que estar. Sentia-se forasteiro em sua família, forasteiro em seu povoado. Ao sonhar, via paisagens que não pertenciam a Ngari: solidões de areia, tendas circulares de feltro, um mosteiro na montanha; e na vigília, estas mesmas imagens cobriam ou empanavam a realidade.

Aos dezenove anos fugiu, ávido de encontrar a realidade que correspondia a essas formas. Foi vagabundo, esmoler, trabalhador e as vezes ladrão. Hoje chegou a esta pousada perto da fronteira.

Viu a casa, a cansada caravana mongol, os camelos no pátio. Atravessou o portão e se encontrou diante do velho monge que comandava a caravana. Reconheceram--se, então: o jovem vagabundo viu-se a si mesmo como um lama ancião, e viu o monge como este era há muitos anos, quando fora seu discípulo; e o monge reconheceu no rapaz o seu velho mestre, já desaparecido. Lembraram a peregrinação que haviam feito aos santuários do Tibete e o regresso ao mosteiro da montanha. Falaram evocaram o passado e se interrompiam para intercalar detalhes precisos.

O propósito da viagem dos mongóis era buscar um novo chefe para o seu convento. Fazia vinte anos que havia morrido o antigo, e eles em vão esperavam sua reencarnação. Hoje o tinham encontrado.

Ao amanhecer a caravana empreendeu sua lenta viagem de volta. Migyur regressava às solidões de areia, às tendas circulares de feltro e ao mosteiro de sua encarnação anterior.

Alexandra David-Neel, Mystiques el Magiciens du Tibet

(1929)

 

A SENTENÇA

 

Naquela noite, na hora da ratazana, o imperador sonhou que havia saído de seu palácio e que, no escuro, caminhava pelo jardim sob as árvores floridas. Algo se ajoelhou a seus pés e pediu amparo. O imperador concordou, e o suplicante disse que era um dragão e que os astros lhe tinham revelado que no dia seguinte, antes .de cair à noite, Wei Cheng, ministro do imperador, lhe cortaria a cabeça. No sonho, o imperador jurou protegê-lo.

Ao acordar, o imperador perguntou por Wei Cheng. Disseram-lhe que não estava no palácio; o imperador mandou buscá-lo, mantendo-o atarefado o dia inteiro para que não matasse o dragão, e por volta do entardecer lhe propôs jogar xadrez. A partida era longa, o ministro estava cansado e adormeceu.

Um estrondo sacudiu a terra. Pouco depois irromperam dois capitães que traziam uma imensa cabeça de dragão ensopada de sangue. Arrojaram-na aos pés do imperador e disseram:

— Caiu do céu.

Wei Cheng, que tinha acordado, olhou-a com perplexidade e observou:

— Sonhei que matava um dragão assim.

Wu Ch'eng-En (c. 1505-c. 1580)

12 DE MAIO DE 1958

 

Um sorriso suave embelezava seu rosto de senhora de cinqüenta e dois anos. Cumpriam-se doze da morte de Pedro Henriquez Urena. Ambos o recordamos e ela repetiu o que me havia dito em 1946: para minha juventude, a perda era irreparável, porém nada apagaria em mim a lembrança de meu grande mestre. Vaguei pelo quarto. Os olhos de minha mãe não se despegavam de mim. Condenada por uma cruel doença cardíaca, jamais manifestou cansaço ou queixou-se, e foi fonte de vida e de solidariedade para com os demais. Quando decidi retirar-me, reteve minhas mãos nas suas e me disse: Não permitas que te destruam. Adormeci pensando nessas palavras. Durante a noite sonhei que resolvia vários assuntos na cidade e em La Plata, e que os mesmos me angustiavam, embora não fossem de natureza que justificassem esta sensação. Pela manhã avisaram-me que minha mãe havia morrido. Corri ao apartamento de Viamonte, junto a Maipú. Já se estavam cumprindo as primeiras formalidades próprias de tão triste circunstância. Na primeira pausa de minha dor abri, com segurança, a gaveta de sua mesinha. Aí estava a carta, escrita na véspera com sua serena letra inglesa. Pedia-me que tratasse de vários assuntos em Buenos Aires e em La Plata: eram aqueles assuntos com que eu havia sonhado.

Roy Bartholomew

A EXPLICAÇÃO

 

Um homem, na vigília, pensa bem de um outro e nele confia plenamente, porém o inquietam sonhos em que este amigo age como um inimigo mortal. Revela-se, afinal, que o caráter sonhado era o verdadeiro. A explicação seria a percepção instintiva da realidade.

Nathaniel Hawthorne, Livro de anotações (1868)